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quarta-feira, 16 de junho de 2010

BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL (1985)


Dois filmes tão diferentes quanto a comédia "A Grande Comédia" (1989) e o drama "Cine Majestic" (2001) dividem uma divertida cena em comum: enquanto explica a idéia para seu novo filme, um ingênuo e bem-intencionado diretor-roteirista (Kevin Bacon na comédia, Jim Carrey no drama) vê seu argumento ser impiedosamente destruído pelos produtores, que dão as sugestões mais estapafúrdias para torná-lo mais "comercial", deturpando completamente a proposta inicial.

A rivalidade entre a visão criativa dos diretores ou roteiristas e a visão comercial dos produtores não é coisa recente, e existe provavelmente desde que os primeiros filmes começaram a ser feitos em escala industrial. Afinal, alguém está pagando as contas, e este alguém sempre quer que seu investimento renda um produto que dê lucro.

Dos piores aos melhores diretores, de Ed Wood a Orson Welles (como visto numa irônica cena do filme "Ed Wood", de Tim Burton), são incontáveis os casos de "diferenças criativas" - ou de briga mesmo - entre o lado autoral e o lado financeiro.


Exemplos não faltam: "Blade Runner" com final feliz? Culpa do estúdio. Mel Gibson sobrevivendo a cinco tiros no final de "Máquina Mortífera 2"? Culpa dos produtores, porque o roteirista Shane Black queria que o herói morresse na conclusão - o que seria ótimo, poupando-nos dos horríveis "Máquina Mortífera" 3 e 4! E por aí vai...

Enfim, embora sempre houvesse essa "diferença criativa" entre os dois lados, é fato que a força dos homens do dinheiro nunca esteve tão grande quanto da década de 80 para cá. Alguns argumentam que a culpa é de Michael Cimino e do seu megalomaníaco (porém maravilhoso) "O Portal do Paraíso", uma superprodução de 1980 que foi um gigantesco fracasso de bilheteria.

Vencedor do Oscar com "O Franco-Atirador" anos antes, Cimino tinha mais moral que qualquer um em Hollywood naquela época, e ganhou carta-branca da United Artists para fazer "O Portal do Paraíso" do jeito que quisesse. Mas as coisas não deram muito certo: graças a essa carta-branca, o filme custou caríssimo e não deu retorno algum (custou 36 milhões de dólares e não rendeu nem 4 milhões!!!), levando o estúdio à falência. Tudo culpa do perfeccionismo psicótico de Cimino, que chegou a filmar algumas cenas mais de 50 vezes, levando o orçamento às alturas.


Mas, justiça seja feita, os "autores" já estavam com os dias contados em Hollywood: "O Portal do Paraíso" foi apenas um filme numa série de retumbantes fracassos dirigidos por cineastas respeitados, que torraram milhões de dólares (de estúdios, claro) em filmes que ninguém viu. Outros exemplos da época são "1941", dirigido por Steven Spielberg em 1979 (custou 35 milhões, arrecadou meros 31 milhões nos EUA), "New York, New York" (1977), de Martin Scorsese (custou US$ 14 milhões e quase empatou), e "O Fundo do Coração" (1982), de Francis Ford Coppola (custou US$ 27 milhões e só arrecadou, conforme a lenda, míseros 630 mil dólares!!!). Sempre lembrando que estes valores, na época, eram exorbitantes.

(Para quem quiser saber mais sobre como os produtores tomaram o poder sobre as decisões criativas em Hollywood, vale procurar pelo documentário "Final Cut: The Making and Unmaking of Heaven's Gate", de 2004, que explica didaticamente como chegamos na situação do jeito que está hoje.)

Enfim, esta longa introdução foi apenas para chegar ao tema da nossa análise de hoje. BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL é simplesmente um dos piores crimes contra a sétima arte perpetrados por estes ambiciosos homens de terno e gravata que não respeitam a visão artística dos diretores que financiam. Trata-se da "producer's cut" do maravilhoso "Brazil - O Filme", de Terry Gilliam.


Minha paixão por "Brazil", o original, começou ainda na infância. Eu tinha uns 10 para 11 anos quando peguei a fita dupla do filme (lançada pela VTI) numa locadora perto de casa. Confesso que não entendi muito bem certas sutilezas e ironias do filme, que tornou-se mais rico à medida que eu fui revendo nos anos seguintes. Mas foi um daqueles casos de amor à primeira vista.

E, embora não seja um filme de horror, confesso que "Brazil" assustou-me... e muito! Ainda infante, cheguei a me sentir desconfortável e incomodado ao imaginar um futuro daquele jeito, com as pessoas confinadas em apartamentos e escritórios minúsculos e claustrofóbicos, com horríveis tubos passando por todos os lados, e precisando de dezenas de papéis para fazer as coisas mais simples (não muito diferente do mundo em que vivemos hoje, o que torna o filme ainda mais visionário... e assustador!).
 

No "Brazil" de Gilliam, o eletricista vivido por Robert De Niro é perseguido como terrorista e subversivo pelo Governo simplesmente porque FAZ seu trabalho, ao invés de enrolar o cliente com a papelada sem nunca consertar nada (como fazem os eletricistas "oficiais").

Ainda no terrível futuro do filme, as pessoas foram reduzidas a números, e um mísero erro de impressão pode destruir uma família inteira. É um mundo tão terrível que, ao protagonista interpretado por Jonathan Pryce, só resta sonhar que é um anjo voando entre as nuvens ao som da "Aquarela do Brasil"...

(Enfim, se você ainda não viu essa obra-prima, corra à sua locadora, banquinha de camelô ou site de downloads mais próximo, e não continue lendo este texto, porque a partir de agora começo um festival de SPOILERS.)


O ex-Monty Python Gilliam dirigiu "Brazil" com grana da Universal, e entregou-o prontinho em janeiro de 1985. Entretanto, sua obra acabou envolta num inferno burocrático bem semelhante ao da história que conta, estreando apenas em 18 de dezembro daquele ano (!!!), após um verdadeiro calvário, em que o diretor viu sua obra ser retalhada e distorcida pelos produtores!

Pra começo de conversa, uma história passada no universo de "Brazil" não tinha como acabar com final feliz - e definitivamente não termina NADA feliz. Além disso, os delírios visuais de Gilliam deram origem a um filme longo, com 142 minutos de duração, que era muito complexo, mas nunca chato ou repetitivo.

A não ser, é claro, para o presidente da Universal na época, Sidney Sheinberg. Ele até confessou gostar de "várias cenas" do filme, mas sentiu que a obra não tinha apelo comercial nenhum. Queria algo mais "hollywoodiano", com uma mensagem de esperança e a vitória do Bem sobre o Mal na conclusão. E queria, principalmente, um final feliz. O completo oposto do "Brazil" que todos conhecemos.


Quando Gilliam recusou-se a mexer no filme, Sheinberg se apossou do material, como todo bom produtor, e ordenou uma remontagem para, pelo menos no seu julgamento da coisa, "melhorar o resultado final". Surgia BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL (O Amor Conquista Tudo, um subtítulo auto-explicativo).

A montagem de Sheinberg, na verdade, é bastante simples: ele limitou a um mínimo necessário as cenas de humor negro envolvendo a burocracia e o fascismo do futuro, aumentou o "sub-plot" que considerava mais apropriado (a busca do protagonista pela mulher dos seus sonhos) e eliminou todas as belíssimas cenas de delírio do personagem, que originalmente se desenrolavam ao longo de todo o filme, deixando apenas um pequeno trecho no início e uma parte curtinha no final (para justificar a conclusão "feliz").


Na versão de Gilliam, o herói tem muitos outros sonhos, todos fantásticos, como a luta com um "samurai eletrônico", ou as mãos de pedra que saem do chão para agarrar o protagonista e impedi-lo de "voar". Pois tudo isso acabou no chão da sala de edição em BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, bem como o belíssimo delírio em que enormes fichários (representando a burocracia daquele mundo futurista) emergem do chão.

Mas não fica só nisso: lembra da mãe do protagonista, uma velha viciada em plásticas que tem o rosto literalmente esticado ao longo do filme? Pois, na versão de Sheinberg, a personagem praticamente desapareceu. Também foi deletada a personagem da "pretendente feia" do herói, uma riquinha com aparelho nos dentes que aparecia algumas vezes, no começo e no final.

Aliás, uma divertida cena em que estes personagens todos se encontram num restaurante, onde explode uma bomba, foi totalmente cortada, restando alguns poucos segundos que, inexplicavelmente, foram parar NO INÍCIO DO FILME, no lugar de outra explosão (originalmente, numa loja de eletrodomésticos)!!!


E se no "Brazil" de Gilliam a existência de "terroristas" ficava meio no ar, como se fosse uma desculpa do governo para manter a população sob controle e poder torturar/matar à vontade, na "producer's cut", através de vários diálogos risivelmente dublados e inseridos na montagem (em cenas que mostram os atores de costas), é confirmada a existência dos tais terroristas, para que o público receba tudo mastigadinho e não fique com nenhuma dúvida ao final.

Porém o mais absurdo, o mais tosco, o mais criminoso de BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL é exatamente o final. No "Brazil" de Gilliam, o herói é preso e acusado de terrorismo, enquanto sua amada é executada pelo governo. Torturado pelo próprio melhor amigo, ele fantasia a própria libertação e um final feliz ao lado da (falecida) mulher dos seus sonhos, quando na verdade continua amarrado, insano, à cadeira do torturador, onde se desenrolam os créditos finais.


Foi fácil para Sheinberg alterar esta conclusão tão terrível para um típico final feliz hollywoodiano: bastou utilizar algumas cenas do delírio de fuga do herói como se fossem reais (o seu resgate da tortura e o reencontro com a amada), excluindo os trechos posteriores que mostram que, na verdade, tais momentos são apenas as fantasias de um prisioneiro que surtou após ser terrivelmente torturado!

Assim, em BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, o protagonista termina o filme com sua amada numa idílica paisagem rural, bem longe daquele inferno de concreto e documentos carimbados em que vivia, e os créditos finais aparecem sobre imagens de um céu ensolarado (!!!), para o delírio dos fãs de finais felizes. Até a trilha sonora foi alterada para parecer mais "pra frente" e menos opressiva.

Enfim, algo bem parecido com aquele igualmente imposto "final feliz" de "Blade Runner", em que até usaram cenas não-aproveitadas de "O Iluminado" para poder mostrar os protagonistas viajando por uma bela paisagem natural, bem longe da caótica megalópole em que viviam!


Outras cenas fantásticas da versão de Gilliam, como a bizarra homenagem a "O Encouraçado Potenkim" e a invasão de eletricistas que destróem o apartamento do herói, também sumiram da versão do produtor, assim como cenas mais violentas, tipo policiais em chamas. Até a morte de Buttle, o inocente preso por engano pelo Governo logo no início do filme, é completamente omitida (o sujeito some e não se fala mais nisso!).

Por pouco, muito pouco, não foi este o "Brazil" que o mundo viu oficialmente em 1985. Teimosamente, Terry Gilliam iniciou uma batalha sem precedentes contra o estúdio para manter sua integridade artística - um processo tão estressante que rendeu até um livro, "The Battle of Brazil: Terry Gilliam vs. Universal Pictures in the Fight to the Final Cut", depois transformado em documentário com o mesmo nome.

Primeiro, para tentar agradar a Universal, o diretor reduziu o tempo de "Brazil" de 142 para 132 minutos; porém ao mesmo tempo, na surdina, Sheinberg trabalhava em "seu" BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, coordenando o trabalho dos novos editores contratados Bill Gordean e Steve Lovejoy. Uma nova trilha sonora, à base de rock-and-roll, teria sido adicionada à "producer's cut" para supostamente "atrair os adolescentes". E a coisa só piorava...


Aos poucos, aquela aterrorizante visão do futuro concebida por Gilliam foi se transformando em um conto-de-fadas futurístico, em que um único homem podia vencer um governo ditatorial e burocrático "em nome do amor". Aham...

E mesmo com a versão reduzida pelo diretor para 132 minutos, o maligno Sheinberg decidiu que faria testes de público com a sua LOVE CONQUERS ALL, que tinha, pasmem, uma duração mais "comercial" de míseros 94 minutos (por aí você já pode imaginar a extensão dos cortes...).

Furioso com a possibilidade da versão mutilada pelo produtor chegar aos cinemas, Gilliam ordenou a retirada do seu nome dos créditos. E partiu para um contra-ataque na mídia, numa tentativa desesperada de manter a integridade da sua obra. Uma das criativas táticas para demonstrar sua insatisfação publicamente foi comprar uma página inteira na Variety (principal revista sobre o mercado de cinema nos EUA), em 1º de outubro de 1985, para publicar a seguinte carta: "Querido Sid Sheinberg, quando você vai lançar meu filme 'Brazil'? Assinado: Terry Gilliam" (reprodução abaixo).
 

A partir disso, começaram os burburinhos na imprensa. Alguns críticos norte-americanos começaram a ficar curiosos em relação ao "Brazil" original, que foi exibido a uma platéia de poucos sortudos e celebrado como obra-prima antes mesmo de estrear comercialmente.

Alguns jornais chegaram até a questionar se era possível que um filme ainda não-lançado nos cinemas pudesse concorrer ao Oscar de Melhor Filme.

Finalmente, no outono de 1985, Gilliam e Robert De Niro apareceram no programa Good Morning America para falar sobre a polêmica. Quando o entrevistador questionou o diretor se ele estava tendo problemas com o estúdio, Terry simplesmente respondeu: "Não, apenas com Sid Sheinberg. Eis uma foto dele", e mostrou uma fotografia do chefão da Universal para a câmera!


Após tanto "terrorismo" e tanto bafafá na mídia, a Universal finalmente resolveu voltar atrás e lançou a versão de 132 minutos de "Brazil" nos cinemas (a "director's cut" de Gilliam, aquela com 10 minutos a mais, saiu apenas na Europa).

Acabou se confirmando a bilheteria reduzida que o malévolo produtor temia, já que "Brazil" rendeu apenas US$ 6,5 milhões contra os US$ 15 milhões que custou. Porém, neste caso, a má vontade da Universal tem sua parcela de culpa no fracasso: a estréia oficial foi em apenas UM cinema nos Estados Unidos!

Talvez traumatizado com essa história toda, Gilliam ficou três anos sem filmar, somente para depois envolver-se em outra produção problemática, o excelente "As Aventuras do Barão de Munchausen", de 1988.


Enquanto isso, "Brazil" foi ganhando o status da obra-prima que é com o passar dos anos, ao mesmo tempo em que a ridícula versão BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, de Sheinberg, permaneceu engavetada e esquecida, sendo exibida uma única vez na TV norte-americana.

Hoje, com a popularização dos programas de trocas de arquivos, é possível ver este crime no auge dos seus 94 minutos, e constatar como um estúdio pode destruir impiedosamente a visão de um criador apenas para torná-la mais "vendável".

Serve, também, como uma experiência interessante para estudantes de cinema: a comparação das duas versões do filme é um belíssimo argumento do poder da montagem!


E é preciso tirar o chapéu: os editores a mando de Sheinberg tiveram muita criatividade e imaginação para transfomar o tenebroso e pessimista "Brazil" numa aventura futurística romântica com final feliz! (Para quem ficou curioso, o infame final feliz pode ser visto aqui.)

Pior: nada me tira da cabeça que, se fosse hoje, o público acostumado a blockbusters de shopping-center iria preferir BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL a "Brazil - O Filme". Afinal, a versão de Terry Gilliam exige que o espectador pense, e em tempos de "Velozes e Furiosos Parte 25", não é bem isso que o público parece ter em mente quando entra no cinema...

PS: A versão reduzida e comercialóide de Sheinberg é um dos extras de uma maravilhosa edição de "Brazil" em 3 DVDs (!!!) lançada lá fora pela Critterion Collection. Por aqui, só temos um DVDzinho furreca cujo único extra é um documentário fraquinho de meia hora chamado "What is Brazil?", dirigido pelo mesmo Rob Hedden que fez "Sexta-feira 13 Parte 8 - Jason Ataca em Nova York"!!!!!


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Brazil - Love Conquers All (1985, EUA)
Direção: Terry Gilliam (reeditado por Sidney Sheinberg)
Elenco: Jonathan Pryce, Robert De Niro, Ian Holm,
Katherine Helmond, Bob Hoskins, Michael Palin,
Kim Greist e Peter Vaughan.

domingo, 13 de junho de 2010

TILT (1979)


"Mas quem diabos é Rudy Durand?"

Ao ver o obscuríssimo filme TILT, era essa a pergunta que não me saía da cabeça. Especialmente após os créditos iniciais, que apresentam a obra como "Rudy Durand's Tilt" (!!!), e informam que o prezado desconhecido acumulou as funções de diretor, produtor, roteirista, diretor musical e até de responsável pelos efeitos sonoros!!!

Seria Rudy Durand um novo Orson Welles e TILT o seu "Cidadão Kane"?

Por isso, logo que acabei de ver o filme, eu corri para o IMDB e descobri que, afora um crédito como ator coadjuvante num filme desconhecido chamado "Gemini Affair", de 1975, o misterioso Rudy Durand só tem mesmo todos estes créditos de TILT no seu currículo, e nada mais. E lá se vão 30 anos em que o sujeito não fez nenhum outro filme...


Assim sendo, não dá para entender como é que o homem acumulou tanta moral para rodar um filme tão autoral, e que leva até o seu próprio nome no título. Mas é o IMDB, de novo, que explica que Durand teve a idéia para a obra ainda nos anos 60, e passou praticamente duas décadas batalhando para levá-la às telas.

A grande chance apareceu quando ninguém menos que Orson Welles (o próprio "Cidadão Kane") gostou do projeto e do entusiasmo do jovem roteirista, incentivando-o a dirigir ele mesmo a película e falando bem da idéia ao ser entrevistado no programa de TV The Tonight Show, com Johnny Carson, o que ajudou o praticamente desconhecido Durand a encontrar investidores para seu primeiro projeto.

Ninguém menos que a Warner Bros. (!!!) entrou na jogada, e, apesar de um roteirista "profissional" (Donald Cammell) ter sido contratado para trabalhar no argumento de Durand, o próprio Rudy bateu pé para manter sua "integridade artística" e reescrever o roteiro da forma como havia imaginado!


Resultado: finalizado em 1979, TILT ficou durante dois anos na geladeira. Neste período, ao que parece, a Warner tentou consertar o tal "Rudy Durant's Tilt" para deixá-lo mais "Warner Bros' Tilt".

Depois de desanimadoras exibições de teste, o filme sofreu cortes e teve cenas refilmadas, sendo finalmente lançado nos cinemas em 1981, e então partindo direto para a obscuridade em que se encontra até hoje. E há mais de 30 anos não se ouve falar de um "Rudy Durand's" qualquer coisa...

Mas afinal, há algo que valha a pena neste primeiro e único trabalho do incansável Rudy Durand?

Bem, digamos que TILT é um filme muito estranho, e que eu acho que tem potencial para, um dia desses, virar cult. É só ser redescoberto por uma nova geração de fãs.


Obra esquisita, não tem um gênero bem definido, acumulando elementos de road movie, história de rebeldia juvenil, drama, aventura, musical e comédia (o velho Guia de Filmes Nova Cultural chegou a classificá-lo como suspense, sabe-se lá por quê!).

Em tempos de Playstation, Nintendo WII e jogos de videogame que mais parecem filmes, soa até meio estúpido ver um filme de duas horas sobre máquinas de pinball - sim, aquele jogo mecânico que no Brasil era conhecido como "fliper", e que consistia em ficar rebatendo uma bolinha metálica para atingir alvos luminosos e somar pontos.

Pois TILT não só é um filme sobre máquinas de pinball, mas também sobre sujeitos que vivem de jogar e apostar fortunas no pinball (!!!), quase como um "A Cor do Dinheiro" com máquinas de fliperama no lugar de mesas de sinuca! E se você nunca tinha ouvido falar de sujeitos jogando pinball a dinheiro, bem-vindo ao clube.


A história começa numa cidadezinha do interior do Texas, onde um jovem músico folk-country chamado Neil Gallagher (Ken Marshall, de "Krull") desafia o maior campeão de pinball do mundo, Harold Remmens (Charles Durning), conhecido como "The Whale" (Baleia) por causa da pança descomunal.

Whale é um tipo meio gângster que trata uma velha máquina de pinball como se fosse uma garota, alisando-a enquanto joga. Quando ele descobre que Neil tentou vencê-lo trapaceando (com um imã montado sob a máquina para conduzir a bolinha), manda quebrar o rapaz a pancadas.


Fracassada a tentativa de engambelar Whale, o trapaceiro e seu amigo se mudam para Hollywood, onde tentam investir na carreira de cantor de Neil. Mas as coisas vão de mal a pior. Finalmente, Neil conhece uma garotinha rebelde de 13 anos chamada Brenda Davenport (Brooke Shields, ainda menininha!), mas apelidade Tilt por sua habilidade quase sobrenatural nas máquinas de pinball.

(Para quem não sabe, "tilt" é o nome em inglês usado para definir aquele momento em que um jogo "trava" por qualquer motivo. No pinball, era comum "dar tilt" quando alguém sacudia muito a máquina, tentando fazer a bolinha atingir determinado alvo. FILMES PARA DOIDOS também é cultura!)


Enxergando na menina um futuro promissor, Neil consegue convencê-la a colocar o pé na estrada e fazer fortuna com apostas em jogos de pinball. Mas não consegue esquecer a agressão sofrida a mando de Whale, e resolve voltar para o Texas com Tilt para desafiar o grande campeão e ganhar uma fortuna em apostas.

TILT já começa esquisito pela sua proposta: um filme todo sobre jogadores de fliperama soa no mínimo curioso. Não bastasse isso, ainda tem um clima bem suspeito de pedofilia, pois embora a relação de Neil e Tilt seja mostrada como algo inocente e na base da "amizade", ambos dormem juntos em quartos de motel e viajam pelo país quase como se fossem um "casal".

E há dois momentos bem politicamente incorretos: primeiro, a personagem de Brooke Shields pega carona com um caminhoneiro e se oferece para fazer um ménage a trois com ele e sua esposa; depois, um adulto aparece olhando com segundas intenções para a bunda da menininha - que usa uma calça com as palavras "Pinball Champ" bordadas nas nádegas!


Tirando isso, no geral a história é bastante moralista, principalmente por causa do seu absurdo final feliz, que resolve seu grande conflito... sem qualquer conflito! Para falar a verdade, não acontece praticamente NADA durante o filme inteiro!!! E o que você esperava de uma história sobre jogadores de pinball, caramba?!?

Mas o diretor-roteirista-produtor-diretor musical Durand merece no mínimo algum crédito por ter feito um filme com quase duas horas sobre um jogo pouco ou nada emocionante que basicamente consiste em ficar impulsionando uma bolinha pelo maior tempo possível, e mesmo assim conseguir manter a atenção do público até o final.


Eu mesmo joguei muito pinball na juventude, e imagino que devia ser um saco para qualquer outra pessoa ficar me assistindo rebater aquela bolinha para cima e para baixo.

Entretanto, embora as partidas apresentadas durante a trajetória dos "heróis" sejam sonolentas, o duelo final de Tilt com Whale tem certo estilo e, com edição dinâmica, até empolga.

Em tempos pré-computação gráfica, Durand desmontou uma mesa de pinball para conseguir filmar o jogo "por dentro", com criativos ângulos de câmera, praticamente seguindo a bolinha desde o seu disparo até atingir os "alvos luminosos".


Bem filmados e editados, estes momentos já valem a espiada - e hoje seriam facilmente e artificialmente feitos no computador, sem o mesmo charme.

TILT é um sério candidato a cult não só pela sua trama e proposta "diferentes", mas também pelo elenco maluco que reúne, num só filme, Brooke Shields na puberdade, o galã-que-não-deu-certo Marshall e o eterno balofo Charles Durning, ao lado de nomes como Geoffrey Lewis (o caminhoneiro "assediado" pela menina), Fred Ward (de "Remo - Desarmado e Perigoso", como um apostador que aparece durante menos de um minuto) e até Lorenzo Lamas (!!!) irreconhecível no papel de Casey Silverwater, um campeão de pinball que, claro, leva uma sova de TIlt e perde toda a sua grana.


Mas há algo de constrangedor na coisa toda, principalmente quando vemos um ator consagrado, como Charles Durning, na pele de um obeso jogador de pinball que fica rebolando e dançando rock-and-roll enquanto joga.

E convenhamos que o pinball é um "esporte" que não exige taaaaaaaanta habilidade assim - é mais ter reflexos para ficar rebatendo a bolinha na hora certa e um montão de sorte. Portanto, este é um filme de "esporte" onde nem ao menos temos cenas com os jogadores "treinando" e "se preparando" para o confronto final...

Talvez seja justamente esse o charme da obra do diretor-roteirista-produtor-diretor musical Rudy Durand: é um filme sobre o nada, ou sobre o menos interativo e emocionante dos "esportes". E repleto de "frases de efeito" ao nível de Forrest Gump, como "A vida é como uma gaivota: quanto mais você a alimenta, mais ela caga em você!".


Perfeccionista como outros autores que fazem tudo em seus filmes, Durand chegou a selecionar pessoalmente os barulhinhos e efeitos sonoros para as máquinas de pinball que os personagens jogam, demonstrando certo conhecimento e muita preocupação com o resultado do seu primeiro trabalho no cinema.

Por tudo isso, é até meio lamentável o fato de nunca mais termos visto um "Rudy Durand's" qualquer coisa. Pois se o cara conseguiu produzir um filme de duas horas sobre jogadores de pinball, qual seria seu projeto seguinte? Um edificante drama sobre dominó? Uma ousada aventura com jogadores de ludo? Ou quem sabe uma explosiva e emocionante história sobre um campeonato de bocha da terceira idade?

PS: Como milhares de outros filmes, TILT pertence à geração do VHS e nunca foi relançado em DVD, nem mesmo nos Estados Unidos, o que só contribui para sua fama entre aqueles que gostam de garimpar produções obscuras. No Brasil, a extinta Tec Home Vídeo lançou a "director's cut" (com 111 minutos), e não a edição reeditada a mando da Warner, que tinha 11 minutos a menos. Mas sabe quando você vai encontrar novamente essa fita dando sopa por aí, meu amigo? Só quando o Dia de São Nunca cair num feriado de 30 de fevereiro!

Trailer de TILT



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Tilt (Rudy Durand's Tilt, 1979, EUA)
Direção: Rudy Durand
Elenco: Brooke Shields, Ken Marshall, Charles
Durning, John Crawford, Karen Lamm, Geoffrey
Lewis, Lorenzo Lamas e Fred Ward.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os Mercenários, Machete e... DEADLY PREY 2 ?!?


Rivalizando diretamente com outras redes sociais internéticas, como Orkut e MySpace, o Facebook oferece toda uma série de novos benefícios aos usuários que não se assustarem com o seu jeitão complicado. Entre essas benesses, você pode varar madrugadas absorto no famigerado jogo da fazendinha; pode rolar de rir lendo as postagens filosóficas de seus amigos pseudo-cults (que confundem Facebook com Twitter), e ainda pode divertir-se com aplicativos inteligentíssimos como "Descubra qual filme do Quentin Tarantino você é".

Mas você também pode dar a sorte de topar com um dos seus cineastas cult-trash preferidos, de bobeira por ali, e tentar convencê-lo a filmar uma seqüência para um clássico da sua infância!!!

Pois é, meus amigos, e foi ali mesmo, no Facebook, que eu encontrei o famigerado David A. Prior, o sujeito por trás de "clássicos" divertidíssimos e feitos a custo zero nos anos 80, muitos deles reprisados infinitas vezes pelo SBT no velho Cinema em Casa, anos antes de a TV aberta ficar careta.


O "encontro" entre esse que vos escreve e seu ídolo David A. Prior aconteceu no domingo, 6 de junho de 2010. E, ao adicionar Prior entre os meus "amigos" do Facebook (olha a pretensão!), aproveitei para mandar uma mensagem amistosa, destilando todo o meu inglês tosco do freetranslation.com. Nesta breve mensagem, declarei meu amor incondicional pelo clássico absoluto de David, "Deadly Prey", que foi lançado em VHS no Brasil, há 20 anos, como "Extermínio de Mercenários".

Com toda a minha inocência, pedi que David pensasse seriamente em fazer uma continuação do seu grande clássico, trazendo de volta à ação um envelhecido MIKE DANTON (nome do herói fodão do filme, interpretado pelo irmão do diretor, Ted Prior). Enfim, algo nos moldes de Stallone em "Rambo 4".

Pois, para minha surpresa, Prior respondeu logo em seguida, feliz da vida pelo interesse num "Deadly Prey 2", e anunciando que já tinha planos para uma seqüência. O bate-papo agregou outros usuários, dando início a uma troca de comentários que contou até com participação do ator (dos filmes do Prior) Jack Marino.

(Clique na imagem para ampliar e ler a puxação de saco do Felipe)


Ao que parece, o magnânimo David A. Prior precisa de míseros 150 mil dólares para filmar a tão aguardada Parte 2. Mas, acredite se quiser, não consegue juntar tal montante de grana. Míseros 150 mil dólares para dar seqüência a um clássico do cinema "alternativo"!!! Não perca as contas: com o que custou "Avatar", por exemplo, David A. Prior poderia filmar mais de 1.500 "Deadly Preys". Já pensou? Sim, o mundo é mesmo um lugar muito injusto.

Pelo jeito, o diretor realmente ficou animado com a idéia da continuação: quatro dias depois, na quinta-feira, 10 de junho de 2010, David postou no seu próprio Facebook: "OK, quem quer ver 'Deadly Prey 2' ser feito? Falem comigo, caras! Sério!". Seguiu-se mais uma série de comentários, entre eles o meu, que cita o título deste post.

(Clique na imagem para ampliar e ler a rasgação de seda do Felipe)


E sinceramente: no ano de "Os Mercenários" e "Machete", um "Deadly Prey 2" seria a prova cabal de que estamos sob a influência de alguma raríssima conjunção astral...

Feliz com a possibilidade de ter ajudado, pelo menos um pouquinho, a motivar o lendário David A. Prior a fazer uma continuação de seu grande filme, aproveito para lançar a campanha DEADLY PREY 2 NOW! Se você tem Facebook, adicione ou entre no mural do David (clicando aqui) e deixe uma mensagem carinhosa de apoio, para que ele realmente possa constatar que MIKE DANTON tem mais fãs do que o seu próprio criador pensa!

Pelo que Prior comentou, já existe até um argumento para "Deadly Prey 2" (criado, é óbvio, com a ajuda do irmão-galã Ted). Além de DANTON, o novo filme traria de volta o vilão do original, o coronal Hogan (David Campbell), e não me pergunte como ele sobreviveu à fúria do herói na conclusão do primeiro filme...

Pode até não dar em nada, mas a possibilidade de sonhar com uma bizarria como "Deadly Prey 2" em pleno século 21 (sendo o original um retrato das aventuras amalucadas e inconseqüentes dos anos 80) é uma daquelas alegrias que apenas o Facebook proporciona!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO (1985-87)


Despeçam-se dos seus neurônios, caríssimos leitores e leitoras, porque hoje o FILMES PARA DOIDOS pega pesado na sua heróica missão de valorizar as obras mais bizarras do cinema mundial. Hoje falaremos de uma obra-prima que já foi chamada de "o filme mais débil-mental de todos os tempos". É claro que só pode ser AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO, e com um título desses você já imagina o que vem pela frente...

Sergio Mallandro hoje é uma personalidade "cult-trash". Mas na década de 80 e começo dos anos 90, Mallandro (nome de batismo: Sérgio Neiva Cavalcanti) era uma verdadeira celebridade. Reza a lenda que quando foi contratado pelo SBT, nos anos 80, Silvio Santos dispensou uma certa loirinha que em pouco tempo seria mundialmente conhecida pela alcunha de Xuxa.

Durante a cultuada década de 80, Serginho invadiu os televisores do país inteiro como jurado do Show de Calouros (programa obrigatório nos lares da família brasileira no domingo à noite, rivalizando diretamente com o Fantástico). Costumava azucrinar Silvio Santos, os calouros e até os outros jurados com seu jeito malucão. Era tão popular que chegou a ganhar vários Troféus Imprensa na emissora do ex-patrão.


E foi mais ou menos nessa época que Mallandro estrelou o filme com seu nome, AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO. Antes, já havia aparecido como figurante em outras produções, inclusive uma comédia ao lado de Renato Aragão, "O Trapalhão na Arca de Noé" (da época em que Didi brigou com os outros três Trapalhões, Dedé, Mussum e Zacarias).

No fim dos anos 80, Mallandro virou apresentador infantil, comandando o clássico "Oradukapeta" (que concorria diretamente com o "Xou da Xuxa" nas manhãs de segunda a sexta-feira). Era a vitrine perfeita para esta figuraça, que criou, entre outras brincadeiras, a famigerada "Porta dos Desesperados". Para quem não lembra, as pobres criancinhas precisavam escolher uma entre três portas coloridas para ganhar um brinquedo. Uma era premiada, mas nas duas outras havia figurantes vestidos como monstros. Mallandro, que nunca parava quieto, perguntava 200 vezes para os infantes: "Você está desesperado? Está desesperado? Então grita!!! Ahhhhhh!!! Grita mais alto, mais desesperado... AAAAAHHHHHH!!!!". Muitos destes pobres fedelhos devem ter crescido para se tornar adultos traumatizados...


No começo dos anos 90, Mallandro era um astro. Ganhou até revista em quadrinhos com seu nome (e histórias simplesmente ridículas, ainda mais quando relidas nos dias atuais). Alguns números do gibi acompanhavam a famigerada "Sacola do Mallandro", um monte de quinquilharias de papel vagabundo para a criança montar com tesoura e cola (dado, carrinho, óculos...), e que se desfaziam poucas horas depois.

Foi aí que o pobre Serginho fez uma troca que não lhe foi proveitosa, saindo do SBT para assumir um programa infantil matinal na Globo. Mas não repetiu o mesmo sucesso, e logo a sua atração global foi cancelada. Neste período, fez alguns filmes com o "padrão Globo de qualidade", todos eles muito ruins, e que nem de longe fazem justiça ao escalafobético e "independente" AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO.


Mas agora chega de flashback que isso aqui não é o "Almanaque dos Anos 80"!

Voltemos ao filme, ou ao "filme mais débil-mental de todos os tempos". Ele não é apenas ruim; se fosse, logo acabaria esquecido entre outras tralhas nacionais dirigidas ao público infanto-juvenil, como os filmes da Xuxa.

Na verdade, AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO é tão ruim, tosco, debilóide, louco, absurdo e bizarro que se torna algo, digamos, especial. E hipnótico.

Por exemplo: aos 15 minutos de tempo corrido, eu me contorcia desconfortável no sofá; aos 30, ria sozinho e descontroladamente a cada bobagem; ao final dos 85 minutos, eu clamava desesperado por uma camisa-de-força.


AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO é, sem discussão, o filme mais sem pé nem cabeça de todos os tempos, possivelmente o maior trash do cinema brasileiro! (Menos generosa, a crítica da época taxou-o de "o pior filme de todos os tempos", fazendo Mallandro rivalizar com Ed Wood pelo título!)

Há divergências quanto ao ano de produção. O IMDB informa que é de 1985, mas o site da Cinemateca Brasileira diz que o ano de lançamento foi 1987. É possível que tenha sido filmado em 1985 e engavetado pelos próximos dois anos por problemas diversos. Até porque várias partes da trama são narradas com a ajuda de desenhos, talvez porque as "cenas de ligação" nunca foram filmadas.


Querer falar sobre o roteiro num filme chamado AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO é uma tarefa tão inglória quanto desnecessária, mas vamos tentar: um anão alienígena chamado Superpoderoso ("interpretado" pelo palhaço Rolinha, e por favor não maliciem com o nome do pobre anão!) vem à Terra para entregar a algum ser humano o poder de "fazer o bem".

Quando o ET vê Sergio Mallandro no "Show de Calouros" (e é claro que Serginho interpreta ele mesmo, o que você esperava?), decide por algum motivo inexplicável que aquele é o melhor candidato para virar super-herói alienígena. Antes, porém, Sergio precisará cumprir uma missão: recuperar o chimpanzé de estimação de Tininha (Carla Prestes), que foi roubado.

Mas a tarefa não será das mais fáceis. Primeiro porque nosso herói não investiga porcaria nenhuma o filme inteiro, preferindo fazer palhaçadas e trapalhadas com seu inseparável amigo Zé Cocada (Cosme dos Santos). E segundo porque um outro alienígena, Dom Pedro (Pedro de Lara!!!!), também cobiça o tal poder, e para isso tenta atrapalhar Mallandro de todas as formas para que ele não consiga concluir sua missão.


Ainda aqui? Ótimo.

Os créditos iniciais de AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO informam que o filme foi escrito por Carlos Aquino e dirigido por Erasto Filho (em seu segundo e último filme, o que é plenamente justificável). Esqueça, porém, que Carlos Aquino e Erasto Filho existem: seus nomes só estão nos créditos por pura formalidade. É óbvio que este é um filme DE Sergio Mallandro, e ponto final.

Mallandro é "indirigível". Você até pode dirigir Marlon Brando e Robert DeNiro, mas não Serginho Mallandro. Lembra da animação "Os Sem-Floresta", que trazia um esquilo hiperativo que estava sempre a mil por hora? Pois Sergio Mallandro é este mesmo esquilo depois de 12 latas de Red Bull, um quilo de cocaína e um choque de 100 mil volts, tudo isso durante um ataque epilético.

Mallandro não é um ser humano normal, é uma força da natureza. O que ele faz em AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO é inacreditável: pula, grita, corre, sobe em cima e/ou pisoteia os outros atores, estraga maquiagens e figurinos do resto do elenco (como ao arrancar o bigode falso de um figurante) e faz micagens O TEMPO INTEIRO.


Enfim, é uma performance tão intensa que o espectador chega a cansar, quase suar, só de ver o Mallandro em ação - o sujeito não pára nunca!!!

A mesma coisa vale para o roteiro: esqueça que um sujeito tentou escrever um roteiro e talvez até os diálogos de Mallandro, porque é óbvio que o incansável Serginho improvisou 200% do que se vê na tela.

Na cena final, por exemplo, nosso herói pede Tininha em noivado e, feliz da vida, cumprimenta seus sogros. No papel, isso deve ter sido explicado em duas ou três frases. No filme, entretanto, Mallandro deita e rola: sobe na mesa, abraça os atores, pisoteia a atriz que interpreta sua sogra, tira a peruca do ator que interpreta o pai da sua noiva e coloca na própria cabeça, enquanto se joga por cima dos outros atores e grita descontrolado: "Meu sogro é careca! Meu sogro é careca!". É impossível não dar risada...


E são estes "improvisos" que valorizam o filme. Todas as piadinhas "feitas", que você nota que foram escritas e ensaiadas, são totalmente sem graça. Entre elas, Mallandro chamando o Superpoderoso de "Super Bota-ovo" em toda oportunidade que o encontra, ou confundindo o sobrenome da mãe de Tininha, que é Carneiro, com Cabrito, Cavalo, Camelo, etc etc... Risadas amarelas ecoam pela sala de cinema ou da casa.

Mas no momento em que o hiperativo Serginho começa o seu "one-man show", é sai da frente que atrás vem gente. Numa cena, ele chega a dar uma bolacha na cara do Pedro de Lara para depois derrubá-lo abruptamente no chão - e não duvide que isso foi puro improviso, pela cara de surpresa do coitado do Pedro!


Tentar analisar AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO como filme é uma tarefa inglória, já que o "roteiro" se apresenta como uma série de pequenas confusões porcamente relacionadas por um fio condutor (a busca pelo macaco).

Assim, são todos os momentos absurdos e inexplicáveis da película que valem o espetáculo. No mais hilário deles, Mallandro está atravessando a rua, fugindo dos vilões, quando é atropelado e cai estatelado na calçada. Ouve-se a marcha fúnebre, e o narrador anuncia: "Será este o fim da aventura?". Close na cara imóvel de Serginho "morto", que, de repente, abre os olhos, vira diretamente para a câmera, e para o público, e começa a gargalhar. Uma autêntica (e inexplicável) "Pegadinha do Mallandro"!

(Para ver esse momento mágico da sétima arte no Brasil, espere carregar o vídeo abaixo e então tente sobreviver até os 6min20s, quando rola o hilário e injustificável atropelamento seguido da ressurreição do Mallandro!)

Rááááá! Pegadinha do Mallandro


Em outro momento que é quase inenarrável (existe esta palavra?), Mallandro veste-se de mulher para escapar de Dom Pedro e seus comparsas. Topa, então, com Alexandre Frota "interpretando" ele mesmo - na época em alta graças às novelas "Roque Santeiro" e "Sassaricando".

Frota se apaixona pela "Mallandra" e tenta agarrá-la, mas nosso herói foge pela praia e se esconde atrás de uma prancha de surfe. Subitamente, coloca a mãozinha para fora do esconderijo para fazer seu tradicional "glu-glu"! Genial...


Muitos comparam o "humor" de Sergio Mallandro com o de Renato Aragão. Mas na verdade não tem nada a ver: Mallandro faz um humor físico e careteiro, com uma persona insana que destoa radicalmente do calmo e controlado Didi Mocó. Eu compararia Mallandro neste filme com Jim Carrey em seus primeiros trabalhos, principalmente "Ace Ventura": os dois atores estão absurdamente exagerados e caricaturais, e simplesmente não conseguem ficar parados em cena!

Sergio Mallandro nunca mais conseguiria repetir o mesmo clima de insanidade em seus trabalhos posteriores. Talvez porque eles foram produzidos pela Globo, e fica evidente que tentaram "controlar" o incontrolável Mallandro. Isso explica porque obras como "Lua de Cristal", "Sonho de Verão" e especialmente "Inspetor Faustão e o Mallandro" (argh!) são tão ruins: Serginho parece engessado e desconfortável em cena, obviamente travado por diretores e roteiros que não aproveitaram todo o potencial da sua maluquice.


Pelo contrário, neste seu primeiro trabalho solo, é nítido que nosso herói está "ligadão" o tempo inteiro. Ironicamente, uma das músicas que o Mallandro cantava na época, "Farofa", começava assim: "Comprei um quilo de farinha...". Isso explica muita coisa! (Farinha era uma das gírias mais populares da cocaína na época.)

E se tudo isso que você leu não é motivo suficiente para ver ou rever AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO, vale destacar a pequena participação de "ícones trash" dos anos 80 em momentos completamente dispensáveis. Entre os "convidados" estão Sylvinho e a Banda Absyntho (tocando, claro, o seu único hit, aquele do "ursinho Blau-Blau") e a desaparecida Mara Maravilha (que era mesmo uma gatinha!).


Na trilha sonora, também toca um dos grandes clássicos de Mallandro, "Vem Fazer Glu-glu", aquela impagável composição cujo refrão diz: "Vem, meu amor, vem fazer glu-glu/Mon amour/Vem, meu amor, vem, meu chuchu/Vem bem pertinho fazer glu-glu".

A verdade é que eu até tentei, mas AS AVENTURAS DE SERGIO MALLANDRO é simplesmente um filme indescritível, sem pé nem cabeça, uma bizarra coletânea de maluquices que só vendo para entender o porquê do (merecido) título de "filme mais débil-mental de todos os tempos".

Eu até sugeriria uma impagável Sessão Dupla dele com "Cinderela Baiana", da Carla Perez, mas aí não há neurônio que agüente o impacto...


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As Aventuras de Sergio Mallandro
(1985-87, Brasil)

Direção: Erasto Filho
Elenco: Sergio Mallandro, Pedro de Lara,
Alexandre Frota, Cosme dos Santos, Carla
Prestes, Mara Maravilha e Rolinha.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ainda mais resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

RAMPAGE (2009, Canadá/Alemanha. Dir: Uwe Boll)
Já faz algum tempo que o alemão Uwe Boll escapou do estigma de "pior cineasta moderno". Primeiro porque tem gente bem pior que ele por aí (e com as benesses dos grandes estúdios); e segundo porque Boll tem feito alguns filmes muito interessantes, como "Tunnel Rats". Quem ainda torce o nariz para o diretor-chucrute vai ter que "destorcê-lo", pois sua nova obra é digna de elogios e de recomendação. "Rampage" reaproveita elementos de três filmes bem conhecidos: "Clube da Luta", "Targets" e "Um Dia de Fúria". Há um pouco de cada um deles na história do rapaz sem perspectivas que, prestes a ser expulso de casa pelos pais, resolve vestir uma armadura indestrutível para espalhar o caos pela sua cidade, saindo numa "rampage" que inclui o extermínio de várias vidas inocentes - principalmente balconistas abusados que o trataram mal na véspera. A situação não é exatamente nova (tinha um sujeito com armadura parecida no início de "Máquina Mortífera 4"!), mas Boll filmou a coisa toda com certo estilo, mostrando que aprendeu alguma coisa dos pavorosos "House of the Dead" e "Seed" pra cá. E mesmo com defeitos óbvios (o filme fica um tanto repetitivo depois que o massacre começa, principalmente porque vários "inserts" dele foram exibidos no início), "Rampage" nunca perde o interesse ou cai de nível. Até porque, nestes tempos politicamente corretos, Uwe Boll é um caso digno de estudo. O sujeito já fez até piada com o 11 de setembro (em "Postal"), e aqui passa uma "mensagem" (sobre "limpar o mundo") ainda mais perigosa, principalmente num país em que os jovens já têm naturalmente o hábito de pegar fuzis para exterminar pessoas inocentes nas suas escolas ou bairros. Para piorar (na questão do "politicamente correto"), o filme não faz nenhum julgamento moral na conclusão. Por isso, e pela historinha bem contada, surpreende. É o melhor trabalho de Boll - o que também não quer dizer muita coisa...


O ESCRITOR FANTASMA (The Ghost Writer, 2010, França/Alemanha/Reino Unido. Dir: Roman Polanski)
Nestes tempos malditos em que Paul Greengrass é o maior exemplo de "suspense" no cinema, Zack Snyder e Rob Zombie são "visionários" e Brian DePalma há tempos não acerta uma, ainda bem que sobrou o Polanski para ensinar para a molecada como se faz um filme de suspense decente e à moda antiga. "O Escritor Fantasma" deve ser o suspense mais "hitchcockiano" das últimas décadas, e é o melhor trabalho do polonês no gênero desde "Busca Frenética" (e lá se vão mais de 20 anos). Quanto menos se souber da trama, melhor. Dizem que é fácil matar a charada, mas eu confesso que o final me pegou direitinho. E isso que os diversos diálogos aparentemente inofensivos entre os personagens ao longo da trama realmente levam àquela revelação... Polanski, como que rindo da cara desses farsantes contemporâneos, dá uma aula de como criar suspense e tensão sem correria nem sangue, e sem tremer a câmera, preferindo longos planos-seqüência onde mal se percebe o movimento da câmera. O suspense e a tensão surgem naturalmente pela angústia do que virá (e não pela barulheira ou tremedeira), graças ao roteiro bem amarrado que vai soltando as pistas devagarzinho, criando várias possibilidades e teorias conspiratórias. Há ecos de outros Polanskis, especialmente de "O Inquilino" (o protagonista assumindo o lugar e a vida de um falecido) e "O Último Portal" (o livro misterioso que traz um segredo mortal). O próprio personagem de Pierce Brosnan parece um alter-ego do polêmico diretor (como Polanski, ele também é acusado de um crime e não pode voltar ao seu país temendo ser preso). Mas o filme tem vida própria, e não pode ficar de fora de nenhuma lista de melhores de 2010. Como bônus, além do fantástico elenco principal, temos pontas de gente como James Belushi (em "momento Lex Luthor", segundo Leandro Caraça), Eli Wallach e um irreconhecível Timothy Hutton. Imperdível!


A ESTRADA (The Road, 2009, EUA. Dir: John Hillcoat)
Poucos filmes dos últimos anos me provocaram sentimentos tão diferentes quanto este "A Estrada", adaptação de um livro de Cormac McCarthy que, confesso, não li. Lado a lado, há esperança e desesperança; ternura e tragédia; horror e sobrevivência; humanidade e monstruosidade. Uma linha tênue divide heroísmo e vilania, e o próprio protagonista anônimo (Viggo Mortensen) não é flor que se cheire, fazendo de tudo - e tudo mesmo - para salvar seu filho num tenebroso mundo pós-apocalíptico em que a maior parte dos sobreviventes rendeu-se ao caos e ao canibalismo. É o típico filme que, desde o começo, você já imagina como vai terminar, mas mesmo assim passa os minutos angustiado torcendo pelos seus personagens. A desesperança é total, mas o pai e seu filho sabem que precisam seguir em frente ou parar e morrer. É o extremo oposto da maioria dos filmes pós-apocalípticos, como "Mad Max" ou o recente "O Livro de Eli", que trazem um herói bem-definido como símbolo da esperança da reconstrução de uma sociedade justa. Não há muita violência ou cenas gráficas, mas algumas imagens escabrosas - como o porão repleto de humanos aprisionados como gado para virar refeição de uma família - chocam e não saem da cabeça por vários dias. Enfim, "A Estrada" é um pesadelo dramático e ao mesmo tempo uma história de coragem e amor. E tirando Charlize Theron, que aparece bonita mesmo sem maquiagem e destoa do resto do elenco, os atores estão praticamente irreconhecíveis. Tanto que eu só descobri que Robert Duvall e Guy Pearce estavam no filme ao ver os créditos finais! Nestes tempos de "sobreviventes pós-apocalípticos de butique", que parecem ter acabado de sair do cabeleireiro, é outro ponto positivo. Também vai direto para a lista dos melhores do ano.


THE HUMAN CENTIPEDE - FIRST SEQUENCE (2009, Holanda. Dir: Tom Six)
A internet ao alcance da mão e uma idéia absurda na cabeça. Foi mais ou menos assim que o projeto "The Human Centipede" ganhou corpo e também uma legião de fãs apaixonados antes mesmo de começar a ser filmado, num fenômeno internético semelhante ao de "Serpentes a Bordo" e "Atividade Paranormal", para citar dois exemplos recentes. A verdade é que a idéia do cientista louco que resolve ligar três pessoas pelo seu aparelho digestivo, para criar uma "centopéia humana", é tão insana que cada pessoa acabou imaginando o seu próprio filme antes de ver o que o diretor-roteirista Tom Six realmente filmou. Para muitos foi até uma decepção, já que "The Human Centipede" não pega tão pesado no sangue nem na nojeira, embora tenha algumas cenas de lascar (só imagine como é a "alimentação" das partes posteriores da centopéia). Confesso que gostei justamente pelo resultado ser menos hardcore do que eu esperava. Se tivesse sido feito por um daqueles cineastas malucos do Japão, por exemplo, sai da frente - imagine Takashi Miike com o mesmo roteiro nas mãos! Porém Six, mais sutil, dá uma de Cronenberg em tempos de "Calafrios" e "Enraivecida na Fúria do Sexo", preferindo chocar mais com os detalhes sórdidos do que mostrando escancaradamente a nojeira. O resultado é "palatável" (não acredito que escrevi isso sobre ESSE filme), embora caia nas armadilhas de toda obra que gera grande expectativa. Por exemplo, demora uns bons 40 minutos para que aconteça algo realmente interessante, e os personagens são estupidamente estereotipados. Entretanto, cumpre o que promete (o título NÃO é propaganda enganosa) e garante uns bons (?) pesadelos. Só não gosto da idéia de uma continuação, já em pré-produção. Vai parecer piada contada pela segunda vez. Para quem quiser ver na tela grande, "The Human Centipede" é uma das atrações do Fantaspoa - Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, em julho.


TRIANGLE (2009, Reino Unido/Austrália. Dir: Christopher Smith)
Venho acompanhando atentamente os trabalhos do inglês Christopher Smith desde "Plataforma do Medo", e até agora o homem não me decepcionou. Depois de "Severance/Mutilados", um slasher divertidíssimo e sangrento, seu novo trabalho, "Triangle", é bem mais sério - um verdadeiro pesadelo que começa meio "Navio Fantasma", meio "O Iluminado", mas logo envereda para uma criativa e intrincada trama envolvendo universos paralelos. Dizem que tal trama seria plágio do filme espanhol "Los Cronocrímenes" (cujo DVD está na minha cada vez mais numerosa pilha de "filmes para ver"). Entretanto, o próprio diretor deste, Nacho Vigalondo, abafou o caso, dizendo que se trata apenas de um raro caso de idéias bastante parecidos desenvolvidas ao mesmo tempo. E "Triangle" também é outro exemplo de filme que você precisa ver sabendo o mínimo possível sobre a história. O que posso dizer, sem estragar surpresas, é que o argumento tem alguns assustadores toques Lynchinianos (dos tempos em que David Lynch ainda fazia algum sentido...), e imagens tétricas como a da moça arrastando-se para a morte e encontrando dezenas de clones na mesma situação - versões dela saídas de realidades paralelas! Essa história de múltiplas versões dos personagens lembra o péssimo "Cubo 2 - Hipercubo", mas aqui a situação é muito melhor aproveitada, com um enredo circular que "fecha o ciclo" no final arrepiante, explicando as pontas soltas. Original e bastante criativo, "Triangle" é aquele filme que, infelizmente, os fãs de horror acabam deixando passar em meio à quantidade absurda de remakes ruins. E será que alguém sabe me explicar por que Christopher Smith ainda não ganhou o merecido respeito por parte dos fãs de horror, enquanto fanfarrões como Rob Zombie e Alexandre Aja colhem os louros de "mestres" contemporâneos?


A HORA DO PESADELO (A Nightmare on Elm Street, 2010, EUA. Dir (?): Samuel Bayer)
Falando em remakes ruins, não dá pra deixar passar umas linhas sobre a pior refilmagem dos últimos tempos - e olha que de remakes ruins o inferno, os cinemas e as videolocadoras estão cheios de uns tempos pra cá. Pensa comigo: você tem um filme de 1984 para refilmar em 2010, nestes tempos de tecnologia assombrosa, e esse filme é sobre um assassino que ataca nos sonhos, o que permite mil-e-uma possibilidades para usar tal tecnologia ao seu alcance. Pois o que o estreante "diretor" Samuel Bayer fez? Estragou toda e qualquer cena feita no improviso lá atrás em 1984, mesmo contando com mais recursos e muito mais dinheiro para refazê-las direitinho ou até melhor. A verdade é que direção ruim somada com roteiro ruim e elenco ruim e sem carisma ninguém conserta, e "A Hora do Pesadelo" é um desastre completo. O casal central parece clone do casalzinho da série "Crepúsculo", o que só aumenta a náusea de quem cresceu vendo o filme de Wes Craven. Já Freddy Krueger deixou de ser assassino de crianças para virar pedófilo (mas, estranhamente, não é padre!), e também ganhou uma maquiagem tosca sobre o rosto do indicado ao Oscar Jackie Earle Haley (que, neste momento, deveria estar demitindo os agentes que lhe convenceram a encarar essa bomba). Quando parece que não pode ficar pior, o "diretor" Bayer torra a paciência do espectador jogando um pesadelo na tela a cada cinco minutos e um susto movido pelo aumento da trilha sonora a cada dois minutos; mas tudo tão falso e artificial que dá vontade de dormir e sonhar com o Freddy "de verdade". Destaque, ainda, para as "sonecas" que os personagens tiram a qualquer momento, mesmo quando estão caminhando ou até nadando (!!!), e para a tonelada de furos de roteiro (como o sujeito que filma a própria morte e o vídeo é misteriosamente "uplodeado" em seu blog). Pelo menos o título nacional não é enganoso: é uma hora e lá vai pedrada de um verdadeiro pesadelo! E o que mais assusta é perceber que a molecada está curtindo, mesmo que essa bomba tenha tornado o original ainda melhor em sua simplicidade...


HOMEM DE FERRO 2 (Iron Man 2, 2010, EUA. Dir: Jon Favreau)
Poucos adaptações de super-heróis dos quadrinhos para o cinema deram tão certo quanto o "Homem de Ferro" em 2008. Não vou entrar naquela velha discussão de "fidelidade entre as mídias", pois eu gosto do filme do Demolidor mesmo com as toneladas de alterações feitas (se bem que o herói merecia um "reload"). Já "Homem de Ferro" foi bem-sucedido mesmo com uma soma de elementos que tinham tudo para dar errado: um humorista com pouca ou nenhuma experiência na direção de blockbusters (Jon Favreau), um ator famoso com a carreira praticamente destruída por escândalos envolvendo uso de drogas (Robert Downey Jr.) e um super-herói menos popular que o Homem-Aranha ou os X-Men. A explicação para o sucesso está na mistura bem dosada de ação e efeitos especiais com uma boa história ("pequeno detalhe" geralmente esquecido em filmes do gênero), e também personagens carismáticos, além de um tom de humor muito bem-vindo. Pois estes mesmos ingredientes estão de volta na segunda parte, que ainda traz um vilão de respeito para encarar o herói: Mickey Rourke! Tudo bem, no original tínhamos o Jeff Bridges, mas ele estava dentro de um robô gigante à la Transformers, enquanto o Rourke encara o Homem de Ferro no peito e na coragem no melhor momento do filme, durante uma corrida em Mônaco! Seu vilão é a grande razão de ser deste filme e quase rouba o espetáculo (a exemplo do que acontece nas aventuras do Batman). Sorte que Downey Jr. volta a entregar uma performance cínica e simpática de Tony Stark/Homem de Ferro, lembrando todo mundo de quem é o astro do show. Para completar, um elenco de peso que traz de volta diversos personagens do original e ainda acrescenta novos, como a deliciosa Viúva Negra de Scarlett Johansson. Talvez o grande problema seja o roteiro fraco do incompetente Justin Theroux, que inclui todos os chavões do gênero e ainda desperdiça um belo arco de histórias do herói nos gibis ("O Demônio na Garrafa", sobre o alcoolismo de Tony Stark). Também não gostei do rumo dado ao personagem de Jim Rhodes (até o ator foi substituído), e em alguns momentos me pareceu estar diante de um remake disfarçado de "Robocop 2". Não foge à regra: o primeiro é melhor, mas este também é muito bom. Ah, se toda adaptação de super-heróis dos quadrinhos fosse divertida assim!


HELLBENT (2004, EUA. Dir: Paul Etheredge)
Eis algo que definitivamente não se vê todos os dias: um slasher movie gay! Homofóbicos, tremei: o filme acompanha quatro amigos homossexuais, com os hormônios em ebulição, durante uma animada festinha GLS de Halloween, quando um psicopata mascarado (vestido como diabo!) resolve matá-los para colecionar suas cabeças. Um belo título alternativo seria "Pânico em Brokeback Mountain". Piadas infames à parte, e descontando a opção sexual dos personagens, "Hellbent" tem muito mais em comum com o clássico "Halloween" de John Carpenter do que aquele pavoroso remake feito pelo Rob Zombie há alguns anos. Compare: temos aqui um assassino que escolhe aleatoriamente um pequeno grupo de vítimas (como Michael Myers lá em 1978) em pleno Dia das Bruxas (hehehe), e passa o restante do filme espreitando seus alvos antes de matá-los (e, ao contrário do açougueiro do remake do Zombie, não mata mais ninguém além daqueles que elegeu como vítimas). Passado o choque inicial de perceber que a única diferença para os slashers tradicionais é a falta de loiras peitudas peladas, "Hellbent" revela-se um horror interessante e bem divertido, com cenas bastante violentas e dois momentos arrepiantes envolvendo "violência ocular" (um deles estampado até no pôster). Claro, se você também for hetero, fica difícil não estranhar os vários amassos entre rapazes, ainda mais quando se está acostumado aos "slashers heteros". Mas não há nada de muito explícito, e tais cenas dificilmente chocarão alguém - mesmo os homofóbicos mais radicais. Valeria só pela curiosidade da idéia, mas também é um bom filme de horror - ainda mais considerando os slashers medíocres produzidos de 2004 pra cá!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Re-cut Trailers - Parte 2


Exatamente um ano atrás, em 1º de junho de 2009, eu fiz uma postagem sobre Recut Trailers, um fenômeno crescente incentivado pela facilidade de editar vídeos e principalmente compartilhá-los (via YouTube, Facebook, Orkut, etc e tal). O motivo de eu ter voltado ao assunto 365 dias depois tem um quê de auto-promoção: na verdade, quero apresentar meus dois primeiros trabalhos no gênero, ambos inspirados no clássico "Cannibal Holocaust", de Ruggero Deodato.

Ao contrário dos "fan films", que basicamente apenas suprimem ou acrescentam cenas de um filme "oficial" - porém sem mexer muito na trama original -, os "re-cut trailers" são divertidíssimos justamente porque exigem uma boa dose de criatividade e imaginação. A proposta é juntar as partes de um conjunto já existente (um filme, preferencialmente famoso), mas formando um novo trailer que passe uma idéia completamente diferente do original.

Ter um bom conhecimento do filme que será "re-cutado" ajuda, pois assim você vai lembrar das cenas que poderão ser usadas num novo contexto. Sendo "Cannibal Holocaust" um dos meus filmes preferidos, foi relativamente fácil transformá-lo em CANNIBAL HOLOCAUST COMMANDO (um filme de ação dos anos 80 sobre mercenários que vão resgatar a filha de um senador das mãos dos canibais) e CANNIBAL LOVECAUST (uma comédia romântica sobre uma jovem documentarista que se apaixona pelo seu guia durante uma expedição à Amazônia). Confiram o resultado:


CANNIBAL HOLOCAUST COMMANDO




CANNIBAL LOVECAUST



Parece fácil, mas não é. Cada um dos trailers (e repare que eles têm pouco mais ou pouco menos de 3 minutos) me custou CINCO HORAS de trabalho. Mas valeu a pena pela satisfação de assistir a ambos depois e comprovar como a edição e a trilha sonora são papel fundamental no processo de realização de um filme, capazes de passar uma mensagem totalmente diferente do objetivo inicial.

Aliás, será que os professores de cinema fazem esse tipo de trabalho como exercício para futuros roteiristas e montadores? Aliás número 2: tem tanto re-cut trailer criativo na web que fiquei sonhando com um possível festival destes vídeos (nos States tem até concurso). Aposto que seria algo muito diferente e bastante engraçado. Alguém se habilita?

E para não ficar na auto-promoção, seguem mais alguns divertidíssimos "re-cut trailers" que complementam aquela relação já publicada no post do ano passado. Divirtam-se, e façam os seus próprios trailers falsos!!!


O CHAMADO
O remake "O Chamado" deixa de ser terror para virar drama do Supercine.




UNCLE BUCK
Eu sempre imaginei que o Tio Buck de John Candy na comédia "Quem Vê Cara Não Vê Coração" tinha um quê de psicopata. Bingo: este trailer o transforma em protagonista de um thriller de suspense!




ALIEN VS. PREDADOR VS. DEBI & LÓIDE
Esse impressiona pela idéia esdrúxula: o personagem de Jim Carrey em "Debi & Lóide" enfrentando Alien e Predador!!!




DRUG BARON
Sobrou até para Willy Wonka: as cenas de "A Fantástica Fábrica de Chocolate" foram reeditadas para virar o trailer de um filme sobre tráfico de drogas, na linha de "Scarface"




BATEMAN
Ajuda muito reeditar cenas de dois filmes com o mesmo ator. Aqui, Patrick Bateman, de "Psicopata Americano", veste-se de Batman para espalhar o Mal! hahaha.




JOGOS MORTAIS
E para fechar com chave-de-ouro, um sujeito transformou o primeiro "Jogos Mortais" em uma comédia estilo "buddy movie". Ficou ótimo!

domingo, 30 de maio de 2010

O novo filme de horror brasileiro

Sim, eu sei que é humor negro e rir da desgraça alheia, mas desta vez eu não resisti:

"Extermínio 3" no Brasil



E todos temos que concordar que as imagens verídicas são mesmo dignas de um filme de horror. Quando vi pela primeira vez, até achei que era alguma cena excluída de REC, ou quem sabe um novo remake do "Dawn of the Dead".

Enfim, sempre é bom ver o povo brasileiro mostrando seu poder de união - pena que normalmente é para propósitos mesquinhos, como brigas de torcida, arrastões e invasões de lojas durante liquidações. Se o povão invadisse o Palácio do Planalto desse mesmo jeito, quando saem as notícias de corrupção e rapinagens diversas, talvez os governantes passassem a respeitar (ou ao menos temer) seus governados.

Ah, e eu não fui o primeiro a brincar com o fato: um sujeito fez esta outra montagem, também divertida, em que os espartanos de "300" incitam a invasão da loja. Pelo menos nós, brasileiros, sabemos rir das nossas próprias desgraças...

Os 300 do Atacadão



E deixo para vocês novas sugestões nos comentários: que outros filmes poderiam ser mesclados com a já famosa invasão do Atacadão dos Eletros?

PS: É claro que este post foi uma matação porque eu estava com preguiça de terminar a verdadeira postagem deste final de semana, que será devidamente empurrada com a barriga até a terça-feira!