domingo, 28 de março de 2010

REMO - DESARMADO E PERIGOSO (1985)


No estranho mundo do cinema, é comum que filmes que não foram originalmente pensados para ganhar continuações se transformem em séries intermináveis ("Sexta-feira 13", "Jogos Mortais", "A Colheita Maldita", "Rambo", "Rocky", "Duro de Matar", "Tubarão", "Psicose", "Grito de Horror"...), graças ao sucesso de bilheteria do original. Por outro lado, isso raramente acontece com aquelas produções geradas desde o princípio para se tornarem extensas franquias - com exceções óbvias, como as séries do James Bond e do Harry Potter.

Alguns exemplos: o pavoroso "A Reconquista" (2000) devia dar origem a uma série de adaptações dos livros de L. Ron Hubbard, assim como "Duna" (1984), de David Lynch, era para ter virado uma franquia inspirada na obra de Frank Herbert, mas o fracasso comercial das duas milionárias produções acabou cancelando os planos.


O mesmo aconteceu mais recentemente com as adaptações literárias "A Bússola de Ouro" (2007), baseado na obra de Philip Pullman, e "Eragon" (2006), baseado nos livros de Christopher Paolini. Embora ambos terminem com ganchos escancarados para seqüências (já que a história continua nas aventuras seguintes dos livros), estes novos filmes provavelmente jamais serão produzidas - e quem quiser saber como termina vai ter que ler os livros!

E há um outro exemplo famoso que pouca gente lembra de citar: em 1985, o produtor Larry Spiegel adquiriu os direitos de um famoso título de livros "pulp" de aventura - a série "The Destroyer", criada por Warren Murphy e Richard Sapir -, e achou que o material poderia render uma ótima série de filmes de ação.

Por isso, não economizou na publicidade e nem na produção, chamou Guy Hamilton (que dirigiu vários filmes do 007) para a direção e torrou 40 milhões de dólares (uma fortuna para a época) construindo cenários grandiosos, como uma réplica da Estátua da Liberdade. Nascia "Remo Williams - The Adventure Begins", no Brasil rebatizado REMO - DESARMADO E PERIGOSO.


O que ninguém poderia prever é que o filme iria bombar violentamente nas bilheterias. Nos EUA, por exemplo, arrecadou míseros 17 milhões de dólares (menos da metade do que custou!), abortando os planos de Spiegel de fazer uma longa série de filmes (e assim o subtítulo original, "A Aventura Começa", tornou-se até irônico, já que a aventura começou e nunca continuou!).

"The Destroyer", a série de livros, conta a história de um super-agente do governo, Remo Williams, que pertence a uma organização secreta chamada CURE. Nos seus mais de 140 livros publicados lá nos EUA, Remo enfrentou tenebrosas conspirações, planos maléficos e poderosos inimigos humanos e super-humanos.

No cinema, entretanto, a única aventura de Remo Williams é fraquinha, fraquinha, sem vilões memoráveis, cenas de ação interessantes ou fôlego para manter-se por outras cento e tantas histórias, como aconteceu na literatura.


O roteiro de Christopher Wood começa contando a origem do nosso herói, que ocupa praticamente os primeiros 50 minutos do filme! Mostra-se didaticamente como um policial durão de Nova York, Samuel Edward Makin (interpretado por Fred Ward, fisicamente parecido com Robert DeNiro), foi selecionado pela CURE para tornar-se agente secreto, devido à sua experiência no Vietnã.

A organização simula a morte do policial e realiza uma série de operações plásticas para mudar seu rosto (a bem da verdade, só o que fazem é cortar seu bigode e aparar o cabelo!), e nasce o "novo" Remo Williams. O próximo passo é treiná-lo numa arte marcial milenar (e fictícia) chamada Sinanju, cujos benefícios incluem matar com um simples toque dos dedos e desviar-se magicamente de tiros disparados à queima-roupa (simplesmente escutando o som do dedo pressionando o gatilho, ou algo do gênero).


Remo precisa encarar um duro e rigoroso treinamento à la Pai Mei com o mestre Chiun (o ator norte-americano Joel Grey, com uma fantástica maquiagem de velhinho oriental), até finalmente estar apto para a ação.

E é aí que reside o principal problema de REMO - DESARMADO E PERIGOSO: a primeira parte do filme, com o treinamento e o bem-humorado relacionamento de amor e ódio entre Remo e Chiun, é ótima; porém, quando o herói finalmente parte para a sua primeira missão (relacionada, veja só que emocionante, ao desvio de verbas governamentais e à venda de armas defeituosas para o Exército americano), o filme naufraga graças a uma trama bisonha que não tem nem ao menos vilões interessantes (eles são políticos e empresários corruptos, ora bolas!).

Até tentaram criar um capanga excêntrico com um diamante no dente, provavelmente para tentar imitar aquele climão bizarro dos vilões da série James Bond, mas sem melhores resultados, e nem mesmo a presença do sinistro Michael Pataki, vilão de inúmeros filmes B, ajuda.


Assim, é o extremo oposto, por exemplo, da aventura de estréia do agente 007, "O Satânico Dr. No", que já conseguia deixar o público ávido por novos filmes com o personagem. No caso de REMO - DESARMADO E PERIGOSO, se a idéia também era criar uma grande série, o primeiro filme mostrou-se um péssimo aperitivo para o que viria pela frente, motivo pelo qual a franquia foi abortada antes mesmo de começar!

Os problemas também passam pelo elenco, já que Fred Ward tem uma carranca que combina melhor com papéis de vilão do que de herói. Ele certamente não foi a melhor escolha para viver um super-agente como Remo Williams, nem convence nas (fraquinhas) cenas de ação ou luta. E como a grande especialidade do herói é desviar-se de balas (à la Neo em "Matrix", mas sem efeito bullet time), o truque logo acaba sendo repetido em demasia. Afinal, qual é a graça de você ter um herói treinado para paralisar e matar com um simples toque dos dedos, e até caminhar sobre a água (Jesus Cristo style!), se ele raramente usa estas habilidades contra os vilões?

Não vou ser injusto, até há alguns bons momentos aqui e ali, como a luta de Remo contra uns capangas em plena Estátua da Liberade - que, na época, estava rodeada de andaimes, durante um processo de restauração do monumento.


Ver o herói saltando de um lado para o outro no topo da gigantesca estátua até dá alguma esperança (até porque usam dublês em cenas perigosíssimas, não CGI, como hoje), mas o filme segue ladeira abaixo e o restante é pura rotina, incluindo deslocados momentos nonsense como o cão de guarda "inteligente" que persegue o herói equilibrando-se até sobre um fio de eletricidade!

Para mim, a única coisa boa de REMO - DESARMADO E PERIGOSO é o treinamento do nosso herói, com a "amigável" e engraçadíssima troca de insultos entre Remo e Chiun, um sábio oriental apaixonado pelas novelas americanas (!!!), e as bizarras estratégias utilizadas pelo mestre para treinar seu discípulo (uma das tarefas do aprendiz é encarar uma voltinha de roda-gigante PELO LADO DE FORA do brinquedo!).


E se a produção tem algum mérito, este certamente é a maquiagem de Carl Fullerton, que conseguiu transformar o ator ocidental que fez "Cabaret" em velhinho oriental. A perfeição do trabalho rendeu ao filme indicações para o Oscar de Melhor Maquiagem (a estatueta ficou com "Marcas do Destino") e para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, que Joel Grey perdeu para Klaus Maria Brandauer em "Entre Dois Amores". Mas cá entre nós, vai entender porque colocaram um branquelo no papel de Chiun ao invés de contratar um veterano ator oriental para o papel...

Quando o filme naufragou nas bilheterias, o teimoso produtor Spiegel não desistiu e tentou levar seu herói para outro formato, a TV. Assim, em 1988, foi exibido o piloto do seriado "Remo Williams", que teria o desconhecido Jeffrey Meek como Remo e Roddy McDowall como Chiun. Novamente, o resultado foi um fiasco, e nenhum novo episódio foi filmado, encerrando de vez a carreira "fílmica" do agente da CURE. Você pode ver a abertura do fracasso seriado no vídeo abaixo:

REMO, o seriado de TV


É realmente uma pena que tenha faltado competência para concretizar o projeto de uma série de filmes, já que até há algumas coisas boas em REMO - DESARMADO E PERIGOSO, e a própria proposta da série (agente invencível que é uma "arma humana") poderia ser melhorada em futuras seqüências.

Bem-humorados, os autores da série "The Destroyer", Murphy e Sapir, chegaram a ironizar o péssimo resultado do filme em suas aventuras literárias!

Falou-se, há algum tempo, em um remake de REMO - DESARMADO E PERIGOSO, que retomaria a trajetória cinematográfica de Remo Williams do zero, com maior fidelidade ao teor dos livros; em outra palavras, criando aventuras amalucadas e exageradas à la James Bond, agora que o próprio Bond ganhou um tom mais realista e menos fantasioso.

Entretanto, como não saíram novas notícias sobre o projeto desde então, Remo continua desarmado, perigoso e morto no cinema - e a "aventura" que "começou" lá em 1985 parece bem longe de ter continuidade.

Trailer de REMO - DESARMADO E PERIGOSO


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Remo - Desarmado e Perigoso (Remo
Williams: The Adventure Begins, 1985, EUA)

Direção: Guy Hamilton
Elenco: Fred Ward, Joel Grey, Wilford
Brimley, J.A. Preston, George Coe,
Kate Mulgrew e Michael Pataki.

19 comentários:

Allan Verissimo disse...

E o pior é que o filme A Bússola de Ouro é muito bom, e adoraria saber como termina.

E como é a direção do Guy Hamilton nesse filme? Na série James Bond ele filmava ótimas cenas de ação, mas também exagerava um pouco na comédia.

boizebu disse...

Bem, eu acho um filmáço e discordo frontalmente da maioria dessas críticas. Até concordo que falta alguma coisa pra ter virado uma franquia (e, por isso mesmo, não virou), mas acho totalmente incoerente um cara que elogia o filme com o George Lazenby na série do James Bond dizer que o Fred Ward não foi uma boa escolha pra ser o herói. Até pq, nesse caso, não há padrão de comparação como na série do Bond, onde se vê claramente que o Lazenby não tem a menor condição de interpretar o agente. Questão de coerência, como eu disse. =)
Mas ainda assim, Remo é um filme muito acima da média da época e inclusive eu vi esse piloto pra TV e é tão legal quanto o longa - Roddy McDowall ficou perfeito como Chiun e não dá pra entender como um troço desses não foi pra frente, até pq o material estava acima da média do que se fazia pra televisão, nessa época.
Enfim, acho um filmáço, mas é evidente que caras tipo Derek Flint, Harry Palmer e Remo Williams não são indicados para os moderninhos acostumados com filmes de ação a la Matrix e todo esse contexto tecnologico pós moderno e cheio de paradoxos do mundo atual contemporaneo globalizado de hoje em dia - visto que até James Bond virou um "sub-Jason Bourne". =D

Thomas Alex disse...

Esse filme não costumava passar na GLOBO no ínicio dos anos 1990?

Michael Pataki também participou de alguns episódios da série de TV O Homem - Aranha de 1977, com Nicholas Hammond no papel do aracnideo amigo da vizinhança, como o Capitão Barberra(acho) e fez pontas em varias outra séries como O Íncrivel Hulk, com Bil Bixby, Lou Ferrigno e Jack Colvin, e també fez uma ponta no filme Halloween IV - O Dia das Bruxas.

Felipe M. Guerra disse...

O Michael Pataki é um ótimo ator a ser (re)descoberto. Ele já fez mais de 150 filmes, normalmente como vilão, é aquele rosto que você vê e diz "Opa, já vi esse cara em algum lugar". Ele anda meio sumido nos últimos anos, acho que o último grande papel dele (como malvado, óbvio) foi o cientista russo de "Rocky 4".

Deixa o Tarantino colocar ele em algum filme que vira "cult" dos moderninhos...

Thomas Alex disse...

Desde que o Tarantino o coloque como um vilão de primeira, por mim tudo bem.
Felipe, não sei se vc chegou a assistir a série Homem - Aranha de 1977, mas Michael Pataki, estava sensacional no Papel de capitão Barberra, só não sei pq motivo ele largou a série, já que ele tava indo muito bem no papel?

Fábio P disse...

Bah! Eu assistir o Remo! Mto clássico! Lendo esse texto é impossível esquecer da bagacerice do filme! hahahahah

BLOB disse...

Pô, guilty pleasure total! Adorava ver esse filme na pré-adolescência. Gostava muito das caretas do Fred Ward tanto nesse filme quanto em outro "clássico" daquela época o Admiradora Secreta (lembra desse?) com a gatinha, hoje sumida, Lori loughlin... Abraços.

Val disse...

adoro este filme... estava ate revendo ele semanas atras...

e se vc notar, nao eh so cortar o cabelo e tirar o bigode... Fred Ward ta com uma protese no nariz...

Cpt.Guapo disse...

Classicaço!!! Como tens coragem de difamar um filme como esse, cão?! O suicídio é um dever, Herege!

O lance do desvio das balas é inesquecível! Lembro como comentavam sobre esse filme quando eu estava no primeiro grau...Ai, ai...Também me lembrou como eu estou velho... :-(

Ingmar disse...

Esse filme foi sucesso de locação na época das chamadas fitas "alternativas".
Mas a única cena que lembro é a do mestre Chiun correndo sobre um lago.
Abraço

Rafael Medeiros Vieira disse...

"mas acho totalmente incoerente um cara que elogia o filme com o George Lazenby na série do James Bond dizer que o Fred Ward não foi uma boa escolha pra ser o herói."

Acredito que não seja a atuação em si de George Lazenby, que não é nenhum Sean Connery, mas como marujo de primeira viajem está longe de ser um desastre, mas o filme em si "007 A Serviço Secreto de Sua Majestade" é muito muito bom.

Anônimo disse...

Lembro desse filme exibido aqui no Rio em 1986,no hoje(infelizmente)já fechado templo dos cinéfilos suburbanos cariocas,MADUREIRA 1. Bem, devo admitir que naquela tarde de Domingo não o assisti.O motivo? Bem ao lado,no MADUREIRA 2 estava sendo exibido STALLONE-COBRA. "Tem o direito de permanecer em silêncio."

Anônimo disse...

Adoro filmes q ninguem gosta! Hahaha Parece até piada... Mas é real. Adoreiiii Remo!

João Ferreira disse...

Só lembro de ter visto Remo - Desarmado e Perigoso (o título nacional é bem bacana) na Globo lá pelo final dos anos 80, e gostado do filme. Acho que vou ficar com as lembranças da época mesmo.

Anônimo disse...

O filme Remo Williams Desarmado e Perigoso é um clássico dos anos 80, só que este filme não foi tão popular quanto aos da época, tipo Stallone Cobra, Rambo, Rocky Ballboa, Super Homem, Condenação Brutal, Robocop, De Volta para o Futuro, etc... Neste filme aparece os prédios do World Trade Center, a melhor sequência deste filme que eu acho, é quando o Remo está na ponta da Estátua da Liberdade, e três capangas fazem de tudo para derrubá-lo de lá.

wallace disse...

Gostei deste filme na epoca. Tava ate querendo rever. Vou dar uma olhada na net se vejo algo.

Anônimo disse...

Eu não concordo muito com o que você disse, esse filme é diversão pura! Tem uns filme que não se sabe o por que, não fizeram sucesso nos EUA e se tornaram clássicos por aqui, outro exemplo pra mim é O Último Guerreiro das Estrelas, um filmaço da mesma época, mas pouco lembrado. Só um adendo: O nome do filme não foi mudado no Brasil não, foi lá nos EUA, quando passou no cinema seu nome era "REMO: Unarmed and Dangerous", eu vi ele no cinema e seus créditos originais eram com esse nome como mostra essa foto de um VHS americano da época: http://www.videocollector.co.uk/data/images/remo-unarmed-and-dangerous-1584l.jpg Abraço!

Felipe M. Guerra disse...

ANÔNIMO, na verdade essa capinha que você postou é do VHS inglês, não americano. Lá o filme também foi rebatizado "Remo: Unarmed and Dangerous", e vários outros países preferiram isso do que "A Aventura Começa" (por exemplo, a maioria da Europa, a Argentina, o Uruguai...).

fabianovasconcelos disse...

Digam o que quiser. Eu adorei o filme, quando passou na globo, e assisti ele agora a pouco! Está em cartaz no NetFlix, pra quem tiver interesse (em inglês, com legendas em português) Lembro que eu ri pra caramba e ele é um clássico pra mim. Felizes anos 80!