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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Mais uma rodada de resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

ORIGENS SECRETAS (Orígenes Secretos, 2020, Espanha. Dir: David Galán Galindo)
Toda geração tem o “Seven” que merece. E talvez os Sete Pecados Capitais que inspiraram o serial killer do filme de David Fincher já não façam mais sentido para uma nova geração, que tem nos gibis da Marvel e da DC o seu próprio evangelho – citando origens de heróis e vilões como mitos modernos, e números e datas de revistas como se fossem versículos da Bíblia. É com este público que o brilhante “Origens Secretas”, do espanhol David Galán Galindo, dialoga diretamente. Também escritor (o filme é baseado num livro de mesmo nome que ele lançou anos atrás), Galindo é um apaixonado por super-heróis nos gibis e no cinema, que sempre se ressentiu de não poder fazer um autêntico filme com eles em seu país, onde o público prefere thrillers. Pois a solução que ele encontrou para o impasse foi justamente colocar super-heróis numa típica história de investigação policial! Um serial killer está aterrorizando Madri, baseando seus assassinatos não nos Sete Pecados Capitais, mas nas origens dos super-heróis da Marvel e da DC: um cientista magricela é forçado a levantar peso até ficar bombadão e morrer, numa referência a Bruce Banner/Hulk; um vendedor de réplicas de armas tem o coração arrancado e é enfiado dentro de uma armadura, à la Tony Stark/Homem de Ferro, e por aí afora (descobrir em qual gibi/herói se inspira a próxima cena de crime faz parte da diversão). Para deter o maníaco, o detetive de Homicídios careta interpretado por Javier Rey conta com a perspicácia do policial veterano prestes a se aposentar (Antonio Resines, cumprindo aqui o papel do Morgan Freeman em “Seven”) e com o conhecimento enciclopédico de cultura pop do filho deste – um nerd gordo e de óculos que, claro, gerencia uma loja de quadrinhos, e é interpretado por Brays Efe. Além das referências óbvias ao clássico thriller de Fincher (que é inclusive mencionado de forma irônica lá pelas tantas), “Origens Secretas” tem uma proposta muito parecida com a de M. Night Shyamalan em seus “Corpo Fechado”/”Vidro”, menos a pretensão. É a mesmíssima ideia de um super-vilão do “mundo real” tentando criar o próprio nêmesis, um “super-herói” autêntico para chamar de seu, mas narrada de uma maneira mais divertida e bem-humorada, sem a seriedade e o ritmo lento/contemplativo do trabalho de Shyamalan. Sendo uma história sobre quadrinhos e fãs de quadrinhos, o filme também surpreende porque ora faz piada com os clichês relacionados a esse público-alvo (vide os esquisitões que frequentam a loja de quadrinhos, ou mesmo a maneira esteriotipada com que o nerd-mor é representado), ora os trata como os verdadeiros “normais” da atualidade (a superior do protagonista na divisão de Homicídios faz cosplay nas horas vagas). Logo, é um filme que consegue dialogar com tipos distintos de público: os nerds vão amar o festival de referências (tem até uma ponta de um sósia do Stan Lee!) e a maneira como são alçados ao posto de protagonistas da aventura, enquanto os que acham super-heróis “coisa de marmanjão” igualmente poderão curtir as muitas piadinhas que o filme faz com este universo e com os geeks que o habitam – ou com a sensível homenagem aos “super-heróis da vida real”, envolvendo um traje da polícia. O resultado é uma aventura visualmente estilosa produzida bem longe de Hollywood, e uma bela surpresa que, mesmo seguindo de perto os passos de uma história já conhecida (“Seven”), ainda mantém certa originalidade e tem uma conclusão bem interessante, com potencial para gerar sua própria franquia. 


RENT-A-PAL (2020, EUA. Dir: Jon Stevenson)
Dialogando diretamente com o “Coringa” de Todd Phillips, “Rent-a-Pal” é um drama sério sobre solidão e loucura que se transforma num thriller pesado no ato final. Estamos nos anos 1990, antes da internet, e nosso protagonista é David (Brian Landis Folkins), um virjão de 40 anos que vive sozinho no porão da casa da mãe que sofre de demência. Ele não trabalha porque precisa cuidar da velha, e não tem nenhum amigo, muito menos uma namorada. Após gastar dinheiro à toa com um serviço de encontros da época, que em seis meses não lhe rendeu nenhum match, David acaba comprando por acaso uma fita VHS chamada “Rent-a-Pal” (Alugue-um-Amigo). Ao colocá-la no videocassete e dar play, surge um vídeo bem tosco que o convida a interagir com um esquisitão chamado Andy (Wil Wheaton). O sujeito na gravação parece conversar com o espectador: faz perguntas, espera um tempo para que ele responda, emenda com um comentário genérico que acaba se encaixando com o que o interlocutor falou; conta histórias, joga cartas... Enfim, é como um amigo “de verdade”, mas não passa de um ator ruim numa velha fita VHS. Sem ninguém no mundo real para ouvi-lo de verdade, David começa a ficar obcecado por Andy, e a relação inicialmente bizarra com o “amigo virtual” acaba se transformando em algo pouco saudável. “Rent-a-Pal” lembra uma versão pesada e depressiva de um dos segmentos da comédia “As Amazonas na Lua” – aquele em que o sujeito aluga uma “date tape” para ter uma noite de sexo virtual com uma bela modelo, que “interage” com ele pela tela da TV. Diretor estreante e roteirista com alguns curtas no currículo, Jon Stevenson pegou esse argumento absurdo e o levou a sério, criando um pequeno grande filme com estrutura quase teatral – poucos personagens, poucas locações. Além de um argumento fora da casinha (e da nostálgica homenagem à Era do VHS, com o próprio aparelho sendo mostrado em riqueza de detalhes), “Rent-a-Pal” tem como pontos fortes as interpretações monumentais da dupla central, especialmente do desconhecido Folkins como o mega-perdedor David. Seria muito fácil transformar o coitado numa caricatura, mas o ator se entrega a uma autêntica tour-de-force, carrega a história nas costas (ele aparece em praticamente todos os 108 minutos do filme) e provoca sentimentos conflitantes no espectador – de pena, vergonha-alheia e puro ódio. É aquele tipo de personagem por quem você passa considerável parte da trama a torcer, mesmo percebendo que o sujeito está numa viagem sem volta. Já Wil Wheaton, recentemente transformado em ator cult por causa do seriado “The Big Bang Theory”, provoca uma sensação desconfortável como Andy, o “vilão virtual” – aquele tipo de sujeito esquisitão com um olhar inexpressivo que não revela suas intenções, e que distribui sorrisos falsos e exagerados enquanto mente e manipula. O diretor-roteirista Stevenson foi muito esperto de nunca explicar exatamente quando o protagonista começa a despirocar, e é possível que boa parte do relacionamento de David com Andy seja coisa da cabeça do primeiro. Pode ser que sim, pode ser que não, e o melhor é que “Rent-a-Pal” funciona de qualquer uma das formas, sem exigir um manual de instruções para fazer sentido. Confira e interprete como preferir!


#ALIVE (#Saraitda, 2020, Coréia do Sul. Dir: Il Cho)
O mais curioso desde novo terror sul-coreano com zumbis (sim, outro) é que ele se parece mais com uma sequência do fantástico “Train to Busan” (2016, de Sang-ho Yeon) do que a continuação OFICIAL deste filme! Após mais um apocalipse zumbi (que graças aos céus é resumido rapidão nos cinco minutos iniciais, para não termos que ver imagens conhecidas pela milésima vez), o jovem bobão e aparentemente desocupado interpretado por Ah-In Yoo fica sozinho no apartamento da família e isolado do resto do mundo. Todo o restante do edifício está infectado, e as ruas parecem tomadas por zumbis daquele tipo modernoso – que corre, salta, escala e dá porrada como se estivesse num filme de kung-fu, tornando a fuga impossível. Nessa pegada, “#Alive” vai acompanhando o dia-a-dia do pobre coitado enquanto ele tenta sobreviver às privações inerentes ao isolamento. Sustentado pelos pais até então, sem nunca ter precisado se virar sozinho, ele agora precisa lidar com a falta de água e de comida, com a solidão (especialmente depois que a internet cai e ele não pode mais interagir com os amigos virtuais), com a depressão e, claro, com os ataques esporádicos dos zumbis, que continuam zanzando pela área e são atraídos pelo menor barulhinho. Tirando os monstrengos, é uma rotina que considerável parte da humanidade também foi forçada a encarar em tempos de confinamento provocado pelo Covid-19, o que torna o filme atual e fácil de se identificar. O ponto negativo é que é uma daquelas tramas movidas a forçadas de barra, e talvez o protagonista cometa mais burradas do que o espectador está disposto a perdoar. Mas rola uma curiosa interação entre o rapaz e uma mulher que também está sozinha e isolada, porém no prédio do outro lado da rua. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo, os dois únicos personagens humanos do longa precisam encontrar formas criativas de se comunicar sem fazer barulho para não atrair os zumbis (ecos de “A Quiet Place”?). Doses de pieguice e melodrama também estão no programa, que pelo visto tentou copiar direitinho a fórmula de sucesso de “Train to Busan” – sem, porém, conseguir replicá-la com a mesma eficiência. E embora todo o ato final seja bem ruinzinho, com a enésima variação daquele clichê do Romero de que “os humanos são piores que os mortos-vivos”, em geral “#Alive” funciona bem, e pelo menos tenta fugir das armadilhas de ser o milionésimo filme de zumbi num curtíssimo espaço de tempo. Mais focado na história de sobrevivência e no drama do isolamento do que em mostrar zumbis atacando e arregaçando geral, lembra um remake mais turbinado e vitaminado do thriller francês “A Noite Devorou o Mundo” (que é bem melhor). E, como era esperado, já ganhou até um remake norte-americano em tempo recorde (“Alone”, dirigido por Johnny Martin)!


MOONWALKERS: RUMO À LUA (Moonwalkers, 2015, França/Bélgica. 
Dir: Antoine Bardou-Jacquet)
Há quem leve lendas urbanas muito a sério (tipo o pessoal que acredita em Terra Plana, ou em “ameaça comunista”), e há quem faça piada com elas. Eu, particularmente, prefiro o segundo grupo. O diretor-roteirista Bardou-Jacquet também, e neste seu primeiro (e por ora único) longa ele resolveu brincar com o mito de que o homem nunca teria pisado na Lua, e que as famosas imagens daquele momento histórico, transmitidas para o mundo inteiro em 1969, foram filmadas secretamente pelo cineasta Stanley Kubrick a pedido da CIA! O resultado é “Moonwalkers”, um daqueles filmes tão incríveis quanto desconhecidos – é um pecado que não tenha feito mais sucesso! Estamos em junho de 1969 e a missão espacial Apollo 11 acabou de decolar rumo à Lua. Só que o Governo dos Estados Unidos não tem tanta certeza se a nave conseguirá pousar na Lua, e o fracasso da empreitada seria uma grande humilhação – ainda mais com os inimigos russos mais avançados em seu próprio programa espacial. Entra em cena o incrível Ron Perlman, como um agente norte-americano traumatizado com tudo que viu e fez no Vietnã. Ele recebe a missão de ir a Londres e oferecer uma cacetada de dinheiro para Stanley Kubrick (à época curtindo o sucesso de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”) filmar a chegada à Lua apenas como um “plano B”, para usar no caso de a verdadeira missão dar errado. Só que aí começam as confusões: Perlman acaba se metendo com uma dupla de malandros interpretada por Rupert Grint (da franquia “Harry Potter”) e Robert Sheehan, que se apresentam como o próprio Kubrick e o empresário deste para roubar a bolada. Logo também entram em cena uma banda de rock fracassada, uma quadrilha de mafiosos para quem o personagem de Grint deve dinheiro e um cineasta “experimental” que pretende filmar a chegada à Lua com gelatinas alienígenas e planetas coloridos no fundo! Apesar de o foco ser a absurda lenda urbana sobre a encenação da chegada do homem na Lua, “Moonwalkers” também pode ser visto como uma bela e apaixonada homenagem ao cinema e aos loucos que o fazem – na linha de “Bowfinger / Os Picaretas”, ou mesmo de “Ed Wood”. As táticas utilizadas para recriar a “Lua” num estúdio com a ajuda de ripongas sob efeito de drogas são hilárias. E a cena em que o personagem de Perlman, que odeia hippies e maconheiros, toma ácido por acidente e vive uma colorida viagem lisérgica é um dos pontos altos do filme. Bardou-Jacquet aproveita para homenagear o próprio Kubrick e o seu cinema – colocando, por exemplo, uma gangue para ser espancada ao som de Gioachino Rossini, numa referência a “Laranja Mecânica”. E a inesperada conclusão pessimista funciona como mais uma linda prova da magia do cinema: “Boy, they sure did. Didn't they?”


INVASÃO ZUMBI 2 (Train to Busan: Train to Busan, 2020, Coréia do Sul. Dir: Sang-ho Yeon)
Vejam bem: não é que esta sequência de “Train to Busan” (2016), dirigida pelo mesmo Sang-ho Yeon, seja ruim. É bem legalzinha, na verdade. O problema é que o “Train to Busan” original é tão bom, mas tão bom, que qualquer comparação entre os dois já faz esta sequência empalidecer horrores. E não, o filme de 2016 não tinha exatamente nada de novo: era a mesma história de infecção zumbi de sempre, só que a bordo de um trem em movimento. Esse novo filme tampouco tenta reinventar a pólvora, optando por construir uma colcha-de-retalhos com referências e situações já vistas e revistas, e algumas pouquíssimas ideias originais jogadas aqui e acolá. Quatro anos se passaram desde o filme anterior, e a Coréia tomada por zumbis foi separada do continente e deixada para apodrecer. Nesse contexto, quatro desesperados são contratados para voltar ao país e recuperar uma fortuna em dólares americanos que ficou para trás. Mas o quarteto logo descobre que, além dos zumbis, muitas pessoas normais ficaram na península isolada e, após anos separadas da civilização, deixaram de ser normais. A situação básica da missão numa cidade devastada e isolada lembra tanto “Fuga de Nova York” quanto o “Doomsday” de Neil Marshall, com o qual parece dialogar mais diretamente. Já a sociedade que se criou em meio aos zumbis, e que se diverte promovendo lutinhas entre humanos e infectados, lembra escancaradamente o “Land of the Dead”, do Romero. No final, a longa perseguição em que os automóveis dos vilões tentam parar um caminhão dirigido pelos heróis remete tanto a “Mad Max 2” quanto ao já citado “Doomsday”, que igualmente terminava numa perseguição em alta velocidade. Com uma escala bem maior do que o trem do filme original, “Train to Busan: Peninsula” permite ao diretor mostrar algumas imagens impactantes da cidade devastada e cenas de ação mais exageradas – a “chuva de zumbis” é um momento particularmente inspirado. Perde-se, porém, a sensação de isolamento e claustrofobia que o trem em movimento promovia no original; e, mesmo numa história em que os personagens têm tempo marcado para cumprir sua “missão”, falha em criar senso de urgência ou suspense (até porque aqui os personagens estão bem armados e fica mais fácil de enfrentar a ameaça dos infectados). Mas a pior coisa deste novo filme são os momentos muito ruins envolvendo CGI, especialmente aqueles em que carros de computação gráfica aceleram atropelando zumbis de computação gráfica – e que lembram vinhetas de algum “GTA” de 15 anos atrás. O diretor Sang-ho Yeon também tenta desesperadamente repetir o que funcionou no original: o melodrama. E tome gente morrendo em câmera lenta, gente gritando “Nãoooooo” em câmera lenta, gente chorando em câmera lenta enquanto a trilha triste sobe e tenta sensibilizar o próprio espectador. Mas o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar: os personagens já não são mais tão interessantes nem tão simpáticos quanto os de “Train to Busan”, e dificilmente alguém vai se importar com a morte de Fulano ou Beltrano – algumas vezes dá mais vontade de rir da apelação do que de chorar. Então “Train to Busan: Peninsula” funciona melhor como um filme de ação com uns zumbis incidentais. É bem dirigido e não me passou a sensação de eu ter perdido meu tempo assistindo. O grande problema é a comparação: difícil não ficar lembrando o tempo inteiro como o filme anterior é melhor em todos os departamentos...


THE BINGE (2020, EUA. Dir: Jeremy Garelick)
Num ano tão deprimente quanto 2020, é pedir demais uma comédia retardada que seja minimamente divertida? A julgar por esse “The Binge”, sim. Pior que o plot é genial: numa sátira confessa à série “The Purge / Uma Noite de Crime”), a trama se passa num futuro próximo em que os Estados Unidos conseguiram abolir todas as drogas lícitas e ilícitas, do álcool ao crack, com a compensação de que durante um dia inteiro por ano tudo estivesse liberado para geral poder aproveitar! Esse dia ficou conhecido como “The Binge” (“A Farra”, em tradução livre), e é quando a galera se entrega à loucurada para compensar os outros 364 dias de voluntária caretice. Aí acompanhamos três amigos retardados (interpretados sem nenhuma graça e com química zero por Skyler Gisondo, Dexter Darden e Eduardo Franco) enquanto eles tentam chegar à sua primeira festa de Binge – consumindo doses cavalares de todas as drogas que encontram pela frente, e basicamente agindo como completos idiotas em momentos que raramente arrancam mais do que sorrisos amarelos. Com o argumento, e três protagonistas virjões sob efeito de drogas cada vez mais pesadas, o diretor Garelick poderia ter empilhado loucuras em série, mas preferiu fazer um arremedo sem graça de “Superbad”. E no final, quando a tal festa com tudo liberado finalmente começa, chega a vez de copiar o hilário “Beerfest” – com uma competição de provas sem graça envolvendo o consumo de álcool e entorpecentes. O único momento do filme que me provocou algo próximo de uma risada foi aquele em que os moleques atropelam uma vaca e, numa tentativa de reanimá-la, COLOCAM COCAÍNA NO OLHO DO BICHO! Não porque seja engraçado, mas porque é algo tão imbecil e inesperado que a gargalhada veio quase que por reflexo. De resto, as aventuras dos moleques são bem triviais, e o fato de eles estarem sob efeito de drogas raramente faz qualquer diferença nas situações ou confusões – com a exceção de um pa-té-ti-co número musical, que acontece durante a viagem de ácido de um deles, e que é de longe o momento mais vergonha-alheia da obra. A participação de Vince Vaughn como o diretor careta da escola, que tenta impedir a molecada de curtir seu único dia de diversão, aumenta a sensação de que algo está errado com o roteiro ou a direção, porque o coitado do ator, geralmente engraçado, é brindado com falas e situações abosultamente constrangedoras. No fim, talvez “The Binge” funcione menos como uma fantasia libertária e mais como uma fábula moralista: ninguém vai querer abusar das drogas depois de ver o filme e constatar o quanto os personagens ficam PIORES sob efeito destas substâncias! Porque esta “comédia” tem o mesmo efeito daquelas ressacas violentas após uma noite de excessos: incomoda, irrita e não tem graça nenhuma.


THE THAW – CONTAMINAÇÃO (The Thaw, 2009, Canadá. Dir: Mark A. Lewis)
De todas as homenagens ou imitações de “O Enigma de Outro Mundo” lançadas desde o filme do Carpenter (incluindo aquele remake/prequel ridículo de 2011), este “The Thaw” é das mais palatáveis. Também é um filme que eu deixei passar na época do lançamento e que parece mais relevante agora, por levantar questões relacionadas a quarentena e disseminação de contágios. Graças ao aquecimento global e ao degelo no Ártico, cientistas liderados por um envelhecido Val Kilmer encontram um mamute perfeitamente preservado após milhões de anos. O problema é que um parasita pré-histórico também ficou bem preservado junto com o bichão, e louco para contaminar o elenco humano. Quando um grupo de estudantes aparece no acampamento para um programa de estágio, encontram o local deserto e uma contaminação que se espalha de maneira muito rápida entre eles. O que fazer agora: fugir assumindo o risco de levar o parasita desconhecido (e mortal) para a civilização, ou tentar conter os contaminados ali mesmo, nem que seja à força? Embora eu tenha me divertido vendo, “The Thaw” tem alguns problemas bem evidentes, que talvez expliquem o fato de não ser tão conhecido e não ter feito tanto sucesso. O primeiro é a forçada de barra que o roteiro dá para incluir adolescentes (os tais estudantes-estagiários) numa história de horror no Ártico; imagino que o filme seria bem mais interessante (e mais perto do clima de “O Enigma de Outro Mundo”) se acompanhasse os cientistas adultos da equipe do Dr. Kilmer antes da chegada da molecada. O segundo é que o filme nunca é tão sangrento ou asqueroso quanto ameaça (e deveria) ser. Afinal, estamos falando de uma história sobre parasitas que entram por orifícios corporais (de ferimentos a buracos diversos, use a imaginação) e se espalham de maneira incontrolável pelo organismo, colocando centenas de ovos que logo vão chocar e dar origem a ainda mais vermes! As imagens que mostram larvas entrando e saindo por olhos e feridas, ou espalhando-se pela carne das vítimas, são bastante incômodas – mas, novamente, o diretor Lewis não usa estes elementos tanto quanto poderia e deveria. Há umas cenas eficientes (tipo o braço contaminado que precisa ser decepado, mas que não cede no primeiro faconaço... nem no segundo... nem no terceiro!), mas em geral fica a impressão de se estar vendo algo aquém do seu potencial. Algo que, em mãos mais talentosas, poderia ter rendido um thriller ainda mais tenso, sangrento e asqueroso. Seja como for, “The Thaw” toca em questões muito atuais e polêmicas, incluindo uma sugestão de ecoterrorismo – de que talvez espalhar o parasita pelo mundo seja uma boa coisa afinal, para reequilibrar a balança em prol do meio ambiente. Podia ser bem melhor, sem dúvida, mas funciona como uma divertida Sessão da Tarde para fãs do “The Thing” de John Carpenter.


SEA FEVER (2019, Irlanda/EUA/Reino Unido. Dir: Neasa Hardiman)
Este thriller escrito e dirigido por Neasa Hardiman saiu no momento certo, mas lembra muito o “The Thaw” resenhado logo acima, apenas mudando a ambientação do Ártico para um navio em alto-mar. Trata das desventuras da tripulação de um pequeno barco pesqueiro que, navegando por uma região remota da costa da Irlanda, acaba infectada por um organismo mortal, proveniente de uma criatura marinha desconhecida. Aí começam as mesmas implicações éticas e morais de sempre, bem conhecidas desde os tempos de “O Enigma de Outro Mundo”: devem voltar à civilização, correndo o risco de levar a infecção para o resto do mundo? Devem isolar (ou eliminar) os infectados? E como estes irão reagir à ideia? O clima de paranóia se espalha pelo barquinho à medida que ninguém mais sabe quem está infectado e quem está saudável. Infelizmente, “Sea Fever” nunca chega a atingir os níveis de paranóia e horror que seu argumento promete. Nem consegue escapar da armadilha de simplesmente repetir as situações que já vimos antes e melhor: a criatura marinha bizarra e com ar lovecraftiano, a asquerosa manifestação dos sintomas da infecção durante o jantar da tripulação (à la “Alien”), um tenso teste para tentar determinar quem está infectado (à la “O Enigma de Outro Mundo”), e por aí vai. Tudo tem aquele cara de marmita requentada, fazendo com que o espectador comece a perder o interesse pela situação dramática que os personagens estão experienciando. O ritmo também não é dos melhores, pois demora uma meia hora para a história efetivamente começar, enquanto ao final algumas coisas parecem ter sido apressadas ou mal-explicadas. Dougray Scott (que quase foi Wolverine) e Connie Nielsen (vista recentemente em “Mulher Maravilha”) tentam emprestar alguma dignidade ao elenco de desconhecidos, interpretando o casal de proprietários do barco. Mas Hermione Corfield, como uma estudante da vida marinha que está na embarcação em viagem de estudos, é muito fraquinha para convencer como pesquisadora ou cientista. No fim, a melhor coisa de “Sea Fever” é o momento em que o filme foi produzido e lançado. Porque mesmo que esse negócio de conter uma infecção ou ameaça biológica não seja algo novo, o tema adquire outro significado quando estamos passando por uma pandemia global que igualmente nos tornou paranóicos em relação ao próximo. Neste contexto, o filme parece funcionar muito melhor – o que não quer dizer que seja grande coisa. Num embate entre os dois, fico com “The Thaw”.


SMILEY FACE – LOUCA DE DAR NÓ (Smiley Face, 2007, EUA. Dir: Gregg Araki)
Não deixa de ser curioso o fato de uma das melhores comédias sobre consumo de drogas dos últimos tempos (chupa, “The Binge”!) ter sido dirigida por um sujeito mais conhecido por dramas pesados, e que geralmente circula mais por festivais alternativos ou “de arte” como Locarno, Sundance e Cannes. Gregg Araki, o cineasta em questão, disse que precisava de algo leve e bobo para filmar depois de fazer o pesadíssimo “Mistérios da Carne”. Foi quando lhe caiu nas mãos este divertido roteiro que lembra uma versão emaconhada da obra-prima de Martin Scorsese “Depois de Horas”. Anna Faris, da franquia “Todo Mundo em Pânico”, interpreta uma preguiçosa aspirante a atriz que só quer saber de passar o dia em casa fumando maconha. Num certo dia em que tem vários compromissos importantes, ela acorda laricada e ataca os cupcakes que o colega de quarto deixou na geladeira, descobrindo tarde demais que eram “space cakes”. Mais chapada do que nunca, e numa viagem sem fim, a mocinha insiste em tentar realizar as ações que tinha agendado para o dia – um teste de elenco, pagar a conta de luz, acertar uma dívida com seu fornecedor. Só que o permanente estado de doideira faz com que ela se meta em confusões cada vez piores, envolvendo inclusive um raríssimo exemplar do Manifesto Comunista! Faris está uma simpatia como a maconheira lesada, e o espectador torce por ela mesmo sabendo que a coitadinha é diretamente responsável por muitas das confusões que provoca ou nas quais se coloca. Vá lá que a atriz exagera um pouco nas caretas em alguns momentos, mas, em geral, atravessa o filme com uma hilária e permanente expressão de chapadeira. Os efeitos do excesso de drogas são mostrados de maneira mais realista do que em outras comédias sobre drogas e drogados, e quem já queimou um (ou vários) certamente vai se identificar. O resultado é uma comédia muito mais simpática e menos idiota do que, por exemplo, a série “Harold & Kumar”. Por sinal, um dos integrantes desta notória dupla, John Cho, faz uma participação especial totalmente careta. Também aparecem em pequenos papéis um hilário John Krasinski (no papel do virjão apaixonado pela protagonista), Adam Brody como o fornecedor, William Zabka como guarda de prisão e Danny Trejo como o mexicano durão de sempre, enquanto o veterano Roscoe Lee Browne faz a “voz de Deus” na divertida cena inicial. Para quem tem saudade dos filmes de Cheech & Chong, “Smiley Face” é obrigatório, e ainda tem uma conclusão dura e inesperada – que surpreendentemente não passa pano para a pobre maconheirinha, nem tenta minimizar os danos provocados pela sua inconsequente chapadeira.


SUCESSO ACIMA DE TUDO (Kill Yout Friends, 2015, Reino Unido. Dir: Owen Harris)
Você já viu este filme antes, só que ele se chamava “Psicopata Americano”. Ambos são baseados em livros (aquele escrito por Bret Easton Ellis, este por John Niven) e usam o capitalismo selvagem como pano de fundo para narrar a trajetória de um protagonista escroto, que pisa em tudo e todos para conseguir o que quer – além de deixar vários cadáveres ao longo do caminho, pelos quais jamais será punido porque é rico e poderoso. Mas se o Patrick Bateman de “Psicopata Americano” era um jovem e ambicioso corretor da Bolsa vivendo o auge do Império dos Yuppies da década de 1980, “Kill Your Friends” é sobre Steven Stelfox, um jovem e ambicioso produtor trabalhando na indústria musical inglesa dos anos 1990, em plena explosão do Britpop. Vivendo um dia-a-dia regado a música ruim, festinhas barulhentas, sexo selvagem e toneladas de drogas, Stelfox é o sujeito responsável por decidir qual será a próxima música ou banda que vai bombar, numa época em que ainda se vendiam “álbuns”. E quando a vaga mais cobiçada na gravadora abre repentinamente, o rapaz vê uma oportunidade de ouro para ser promovido ao cargo dos seus sonhos... desde que antes destrua a concorrência, literalmente. O diretor Owen Harris é mais conhecido pelo seu trabalho na TV inglesa, tendo feito alguns episódios de “Black Mirror” (incluindo o antológico “San Junipero”). Este aqui foi o único filme para cinema que ele dirigiu até o momento, e é notório que o homem está tentando mostrar serviço: o ritmo e a montagem são bem dinâmicos, a direção de arte é incrível, e há suficientes brincadeirinhas “modernosas” para atrair fãs desse cinema pós-moderno regado a Tarantino, Danny Boyle e que-tais. A trilha sonora, regada a Britpop “real” (e bandas como Oasis, Blur, Prodigy e Radiohead), também é uma delícia, mas pessoalmente achei que o toque de gênio do filme é menos a ideia do protagonista tornar-se um assassino dos colegas e mais a crítica corrosiva ao mundo da música. O próprio personagem principal, que narra o filme e conversa diretamente com o espectador (a exemplo de Patrick Bateman em “Psicopata Americano”), assume que não entende porra nenhuma de música e precisa apenas encontrar o novo hit ruim para consumo das massas ignorantes. Ele tenta fazer isso com a hilária música eletrônica de um grupo alemão que simplesmente repete “Suck my dick” eternamente com uma batida viciante – e que não difere muito dos hits do funk carioca. Com o fracasso deste empreendimento, o rapaz se vê dividido entre investir numa banda indie que está fazendo sucesso entre os hipsters ou num grupo horrível de garotas que mal consegue cantar e dançar (sacaneando o fenômeno Spice Girls). Também como em “Psicopata Americano” (e perceba que as semelhanças já estão ficando muito suspeitas), o anti-herói começa a ser investigado por um detetive inconveniente e se envolve com a secretária ambiciosa. Nicholas Hoult dá um show de escrotidão no papel do vilão, inserido num ambiente tão competitivo e rodeado de canalhas que quase parece um mal menor. Mas o filme é mais comédia de humor negro do que thriller e não levanta questões tão pertinentes quanto “Psicopata Americano”. Parece valer mais como uma atualização dos temas daquele filme/livro para uma nova geração do que como uma história original. 


AXCELLERATOR (2020, EUA. Dir: David Giancola)
Com um belo pôster desenhado que lembra os filmes de super-herói da Marvel e um argumento estilo Sessão da Tarde, “Axcellerator” tinha tudo pra ser pelo menos divertido. Mas a boa ideia não se sustenta porque o orçamento é visivelmente escasso para as pretensões do diretor. Trata-se de uma aventura censura livre sobre um jovem ladrão de carros que, em seu primeiro roubo, dá o azar de acabar no meio de uma perseguição automobilística em alta velocidade ao lado de um cientista doido estilo Doc Brown. O sujeito criou um dispositivo de teletransporte que está sendo cobiçado por diferentes agências secretas do governo, “boas” e maléficas. Após uma longa perseguição cheia de tiros e carros capotando e explodindo, o cientista finalmente lembra que eles podem fugir facinho dos perseguidores usando o bendito dispositivo, mas apenas o jovem ladrão consegue escapar teleportando-se para longe, “sequestrando” uma moça por acidente (só vendo!) e tendo que passar o resto do filme escapando dos vilões que querem o mecanismo. O resultado é um “Jumper” dos pobres, onde convenientemente o tal dispositivo de teletransporte pára de funcionar desde cedo e força os protagonistas a atravessar o país de carro. Parece chato? E é. Para piorar, os vilões mantêm longas conversas por telefone ou em escritórios, num convite ao sono. O diretor Giancola é um apaixonado por aventuras da década de 1980. Além de tentar emular o clima destas, ele também colocou no elenco duas caras conhecidas daquela época: Sean Young, de “Blade Runner” e “Duna”, e Sam Jones, protagonista do fracasso-que-virou-cult-movie “Flash Gordon”. A coitadinha da Sean está péssima, faz quase todas as suas cenas sentada no banco de trás de um carro e falando ao celular, e parece visivelmente constrangida – talvez lembrando dos tempos em que era dirigida por caras como Ridley Scott e David Lynch. Já o Flash Gordon, quem diria, é a melhor coisa do filme: encarnando de maneira canastrona e ensandecida um matador de aluguel que persegue os heróis, ele está sempre dando gargalhadas de vilão de James Bond e soltando frases de efeito. Se todo mundo estivesse sincronizado na mesma frequência do Sam Jones, certamente o resultado seria hilário. Mas não é o caso, e todo o resto do elenco parece levar a coisa a sério demais – especialmente o apagado casal principal. Isso, somado ao uso limitadíssimo do recurso do teletransporte (que deveria ser o elemento central da história), faz com que “Axcellerator” pareça um piloto fracassado de seriado de TV. Algumas cenas de ação são muito boas, como a perseguição de carros no início, mas isso sequer é mérito de Giancola e sua trupe: os caras simplesmente reaproveitaram trechos inteiros de outros filmes! A perseguição do começo, por exemplo, foi montada com cenas retiradas de “Os Bad Boys 2”, e não sei se eles fizeram isso legalmente, mas é uma prática no mínimo questionável. Quem conseguir ficar acordado até o final vai se deparar com um gancho escancarado para uma sequência. Mas eu, pessoalmente, prefiro me teleportar para longe a perder mais 90 minutos da vida com essa gente.


KING: UMA HISTÓRIA DE VINGANÇA (Message from the King, 2016, Reino Unido/França/Bélgica/EUA. Dir: Fabrice du Welz)
Se não fosse pelo choque da morte prematura de Chadwick Boseman, eu provavelmente nem teria tomado conhecimento deste filme – que ganhou distribuição mundial graças a Netflix. Trata-se de um thriller policial cascudo que o ator estrelou pouco antes de “Pantera Negra”, e que foi dirigido pelo belga Fabrice du Welz (mais conhecido pelos seus filmes de horror lentos e contemplativos, como “Calvaire” e “Vinyan”). Boseman interpreta um sujeito misterioso e calado chamado King, que viaja da África do Sul para Los Angeles em busca de notícias da irmã desaparecida. Ele a encontra desfigurada e sem identificação no necrotério, prestes a ser sepultada como indigente, e passa o resto do filme investigando o caso e descendo o cacete em qualquer um que julgue responsável pelo crime. O clima mais lento lembra os policiais dos anos 1970, e o roteiro de Oliver Butcher e Stephen Cornwell evita (pelo menos na maior parte do tempo) soluções fáceis ou absurdas. Por exemplo: ao invés de colocar o protagonista para zanzar por Los Angeles com uma pistola, arriscando-se a ser preso por porte de arma (como costuma acontecer na vida real), King prefere usar uma simples e aparentemente inofensiva correia de bicicleta como arma – que se revela bastante eficiente, diga-se. Mais adiante, quando é preso por dois policiais corruptos e colocado numa viatura, King percebe que vai ser levado para fora da cidade e executado; ao invés de trocar porrada com os policiais dentro do carro, como algum mocinho hollywoodiano estilo John Wick certamente faria, ele prefere gritar e chamar a atenção das pessoas próximas, avisando que os policiais irão matá-lo – como qualquer pessoa faria na vida real, mesmo que nos Estados Unidos de hoje não adiante nada um homem negro gritar que um policial branco está para matá-lo. Os grandes vilões são interpretados por caras conhecidas como Alfred Molina e Luke Evans, fugindo da bandidagem pé-de-chinelo desse tipo de aventura e encarnando pedófilos, políticos corruptos e outros lixos humanos. E embora o filme não seja tão violento/sangrento, há pelo menos duas cenas bastante gráficas – uma delas envolvendo alguém sendo degolado. “King: Uma História de Vingança” mantém o clima de pessimismo e a narrativa pesada até o final, sem nunca aliviar para o protagonista ou para o espectador. Ao final, embora King deixe uma trilha de corpos de tamanho considerável que passa uma falsa ideia de “dever cumprido”, um dos grandes vilões (o tal político corrupto) escapa ileso, simplesmente porque o “herói” nunca encontrou nenhuma pista que levasse a ele. Ao mesmo tempo, sua vingança destrói a vida de uma porção de pessoas inocentes que não tinham nada a ver com a história, principalmente de um garoto que termina a história muito mal. O resultado é um belo thriller que torna a morte de Boseman ainda mais trágica, pois o homem tem uma presença em cena tão marcante que eu adoraria ver mais aventuras nesse estilo estreladas por ele.


ZOMBIE TIDAL WAVE (2019, EUA. Dir: Anthony C. Ferrante)
Depois de seis (SEIS!!!) “Sharknado”, parece que o diretor-roteirista Anthony C. Ferrante ainda não aprendeu que você precisa de um pouco mais do que uma ideia esdrúxula e um título chamativo para fazer um filme de horror divertido. Pois eis que depois de um furacão com tubarões, a bola da vez nesta nova produção vagabunda do SyFy Channel é um tsunami com zumbis! Pelo menos o filme não perde tempo para apresentar a situação, e já coloca a onda gigante repleta de cadáveres (provenientes de uma fissura aberta no fundo do mar por um terremoto) nos primeiros 15 minutos da bagaça. A partir daí, “Zombie Tidal Wave” se transforma no milionésimo filme de zumbis ruim feito nos últimos anos, com personagens desinteressantes zanzando em busca de segurança e morrendo aos poucos até restarem apenas os “heróis”. Antes de escrever e dirigir essas aberrações, Ferrante integrou a equipe de jornalistas da Fangoria, a lendária revista norte-americana sobre cinema de horror que foi cultuada por gerações de cinéfilos. Pelo visto, ver e escrever sobre os filmes alheios não fez com que o coitado aprendesse o que exatamente funciona nesse tipo de produção. O pôster promete uma comédia, mas o filme se leva muito mais a sério do que deveria. Algumas poucas ideias diferentes (como o fato de os zumbis aqui sobreviverem a tiros na cabeça; apenas a eletricidade pode destruí-los) não acrescentam muita coisa numa história que já vimos infinitas vezes. E algumas poucas porra-louquices (tipo o herói Ian Ziering, o mesmo da série “Sharknado”, conectando uma taser a um facão para criar um “sabre de luz dos pobres”) não salvam o filme de ser extremamente burocrático e repetitivo. Há alguns poucos momentos com efeitos práticos e sangue falso jorrando que QUASE fazem o programa valer a pena (tipo a cabeça do zumbi destroçada por uma hélice de barco). Porém, em geral, “Zombie Tidal Wave” prefere apelar para os tradicionais efeitos ruins de computação gráfica que são padrão nessas podreiras do SyFy/The Asylum, e por isso não se sustenta nem mesmo pelo gore. Há um momento em que os heróis começam a empurrar os zumbis para dentro de um picador de madeira – algo que, nas mãos apropriadas, viraria um banho de sangue com membros decepados e “zumbi moído” jorrando pra todo lado. Mas o que Ferrante faz? Dois ou três jatinhos de sangue falso saindo do negócio, algo que parecerá produção da Disney para quem cresceu vendo massacres de zumbis com cortador de grama em “Fome Animal”. O pior é que a ameaça de uma nova bomba escrita e dirigida por Anthony C. Ferrante mantém-se no ar. Depois de seis Sharknados e de um tsunami de zumbis, que outras ideias de jerico ele estará preparando para um futuro próximo?


TRIBAL – GET OUT ALIVE (2020, Reino Unido. Dir: Matt Routledge)
Esta curiosa mistura de filme de ação e horror QUASE funciona, mas é sabotada pela direção ruim e pelo baixíssimo orçamento. Começa com um quê de crítica social que lembra episódios acontecidos no Brasil: há uma fazenda abandonada ocupada por moradores sem-teto, que precisa ser esvaziada pela polícia e por uma empresa de segurança privada a mando do herdeiro do imóvel. Depois que a propriedade está vazia, eles precisam dar uma geral para ter certeza de que não restou nenhum invasor. E embora o local pareça deserto, um a um os sujeitos começam a desaparecer sem deixar rastros. Os restantes começam a investigar e encontram múltiplas passagens secretas pelo casarão, que levam a túneis escondidos e a galerias escuras povoadas pelo resultado de experimentos humanos realizados pelo antigo morador do local. As tais criaturas são super-fortes e canibais, tranformando a história num “The Hills Have Eyes” dos pobres, com a diferença de que os protagonistas, aqui, lutam pra cacete – tanto o gigante interpretado por Ross O'Hennessy, um figurante de “Game of Thrones”, quanto a mocinha boa de briga vivida por Zara Phythian. Ainda que a produção barata seja bem evidente, “Tribal” começa razoavelmente interessante. É a partir do momento em que os caras encontram as passagens secretas que o filme começa a afundar e não se recupera mais. Primeiro pela extrema pobreza: os “humanóides” são pessoas normais, vestindo roupas normais, com uns poucos efeitos toscos de maquiagem pelo rosto (bolhas e cicatrizes bem falsas); o sangue que jorra de cortes e ferimentos é totalmente digital, e alguns membros decepados, como mãos e braços, são visivelmente aqueles brinquedos de borracha vendidos nas lojas de fantasia da 25 de Março! E o roteiro vai empilhando absurdos, como personagens que desaparecem sem fazer ruído mesmo estando a centímetros dos parceiros, ou o fato de haver dezenas de criaturas monstruosas vivendo debaixo da casa de fazenda, berrando e fazendo barulho o tempo inteiro, mas NINGUÉM perceber isso até ser tarde demais. O casal de protagonistas brucutus, que visivelmente se esforça para mostrar suas habilidades, merecia um filme melhorzinho para brilhar.


MIMESIS (2011, EUA. Dir: Douglas Schulze)
Há mais filmes com zumbis sendo produzidos do que é humanamente possível acompanhar (repare que só nesta pequena coletânea de resenhas aparecem outros TRÊS filmes recentes com o tema!). E a maioria apenas repete as mesmas ideias, tornando a tarefa de seguir acompanhando particularmente penosa. Aí, volta-e-meia, surge um argumento relativamente novo e interessante como o deste “Mimesis”. Na mesma linha do genial “The Final Girls / Terror nos Bastidores” (que saiu DEPOIS, em 2015), o filme co-escrito e dirigido por Douglas Schulze conta a história de um grupo de fãs de horror que participa de uma convenção de cinema de gênero. Após um “apagão alcoólico”, eles acordam numa casa de fazenda muito familiar: parece com o cenário de “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George A. Romero! Os jovens também estão vestidos como os personagens do clássico de 1968, e há um representante para cada personagem – o negro, a loirinha, o casal mais velho no porão com sua filha pequena. Quando parece que não pode piorar, eis que finalmente aparecem os zumbis de “A Noite dos Mortos-Vivos” e os jovens percebem estar “dentro” do filme, tendo que lembrar das suas cenas, e do destino de seus personagens, para evitar morrer da mesma maneira! Num momento em que todo cineasta cabeça-de-bagre do planeta está refilmando o clássico de Romero (porque o filme caiu em domínio público e não é preciso pagar um centavo para fazê-lo), Schulze foi na contramão e usou o argumento da obra de 1968 como ponto de partida para mais uma bela homenagem à magia do cinema e à própria cinefilia – afinal, é o conhecimento dos personagens sobre filmes de horror, e especificamente sobre “A Noite dos Mortos-Vivos”, que garantirá a sua sobrevivência. Pena que da metade para o final “Mimesis” vira uma completa bobagem, forçando uma ridícula “explicação racional” para o fenômeno quando deveria simplesmente abraçar o absurdo (como fez “The Final Girls” logo depois). O filme apela para uma reviravolta tosca que mais uma vez coloca fãs de horror como psicopatas, no estilo “Pânico”, o que soa como um autêntico insulto à inteligência do espectador. Há pequenas participações de Sid Haig, como um cineasta discutindo o tema recorrente da violência no cinema; de Courtney Gains (o Malachai de “A Colheita Maldita”), e até de Bill Hinzman, o famoso zumbi do cemitério que aparece no início do filme de Romero. Mas quando os créditos finais começam a subir, é difícil não ficar puto com a maneira como o filme se perde e desmorona completamente.