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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Muito mais críticas rápidas para pessoas nervosas


JUSTICEIRO - EM ZONA DE GUERRA (Punisher - War Zone, 2008, EUA. Dir: Lexi Alexander)
Depois de duas versões anteriores e decepcionantes do famoso personagem da Marvel (uma de 1988, estrelada por Dolph Lundgren, e outra muito ruim de 2004, com Thomas Jane), finalmente surge um terceiro filme que pode ser considerado uma adaptação realmente decente do anti-herói, passando a borracha em todas as bobagens perpetradas no passado e "reiniciando" do zero. Se o filme de 88 era prejudicado pela produção furreca, e o de 2004 tinha um Justiceiro politicamente correto que praticamente não matava ninguém, aqui a coisa é casca-grossa e sangrenta como devia ser desde o começo. Ray Stevenson interpreta o personagem nos moldes dos quadrinhos: como um sujeito violento, de poucas palavras e que tem prazer de matar. Na verdade, o Justiceiro desse novo filme é tão ou mais psicopata que os vilões que enfrenta. E, nesse caso, são vários, e todos selvagemente violentos. Esqueça aquele vilão boiola interpretado por John Travolta no asqueroso filme de 2004: aqui temos o cruel Jigsaw/Retalho (Dominic West) e seu irmão desequilibrado interpretado por Doug Hutchinson (o Tooms do seriado "Arquivo X"). Eles darão muita dor de cabeça ao nosso amigo Frank Castle, além de deixar uma pilha de cadáveres que compete com a do próprio "herói". Analisando friamente, o filme não tem nada de especial. O roteiro chega a ser idiota às vezes, como ao insistir naquele insuportável clichê de "pendurar o uniforme". Mas o resultado é uma aventura amalucada e exagerada estilo anos 80, que fica ainda melhor em comparação com os dois filmes anteriores do personagem. Embora a maior inspiração seja a fase atual do Justiceiro nos quadrinhos, especialmente as aventuras escritas pelo desequilibrado Garth Ennis (de onde saíram o atrapalhado policial Soap e a "Força Tarefa Anti-Justiceiro"), o filme também tem elementos das antigas, como o esconderijo subterrâneo do herói e a presença do seu velho parceiro Microchip. Repleto de truculência e brutalidade (com direito a canibalismo e velhinhas tendo a cabeça explodida pelos vilões), este é um autêntico "filme pra menino". Por isso, chama a atenção o fato de ter sido dirigido por uma "menina", Lexi Alexander. Enfim, é disparado o melhor filme do Justiceiro, mas ainda está longe de ser um graaaaande filme. Se por algum milagre sair um quarto filme do personagem, bem que podiam adaptar aquela clássica aventura em que Frank é preso e enviado à Ilha Ryker, onde pode aproveitar para exterminar alguns bandidões atrás das grades mesmo.




QUASE IRMÃOS (Step Brothers, 2008, EUA. Dir: Adam McKay)
Sabe aquelas comédias que tentam ancorar os risos unicamente na cara conhecida dos protagonistas? Bem-vindo a "Quase Irmãos"! Teoricamente, devemos rir do Will Ferrell simplesmente porque ele é o Will Ferrell e é engraçado, e não porque seu personagem tenha boas cenas ou boas piadas. A trama até é interessante: quando um casal cinqüentão resolve juntar os trapos e morar junto, seus filhos marmanjões (Ferrell e John C. Reilly) são obrigados a dividir o mesmo teto, como se fossem irmãos. A idéia era boa, mas os tais marmanjões são representados como crianças crescidas, adultos de 40 anos quase débeis mentais, já que gostam de brincar como garotos, apanham de outras crianças e provavelmente até são virgens. O filme podia ser bem mais engraçado se os personagens fossem mais normais e "adultescentes", e menos babacas estilo "Debi & Lóide", que constróem casinhas na árvore e se emocionam ganhando brinquedos de super-heróis como presente de Natal - e Ferrell e Reilly visivelmente interpretam seus personagens como se eles fossem retardados, e não adultos imaturos. No fim, sobram algumas tiradas mais divertidas pelo exagero do que propriamente pela graça, como Ferrell enterrando o rival vivo (e gritando "Zumbi!!" quando ele consegue sair da cova rasa), ou o mesmo Ferrell esfregando o saco (explicitamente!) na bateria do "quase irmão". Mas, no geral, "Quase Irmãos" não passa de uma comédia muito idiota, que só provoca sorrisos e risos amarelos - o que me lembrou outro trabalho anterior de McKay, "O Âncora", também com Ferrell. Mas, como toda porcaria, tem o seu público. (Será que só eu estou cansado de ver Will Ferrell interpretando sempre o mesmo papel?)




BRÜNO (idem, 2009, EUA. Dir: Larry Charles)
Tem um quê de piada repetida esse novo filme do inglês Sasha Baron Cohen, que lembra demais o excelente "Borat", de 2006. Aliás, "lembrar demais" é generosidade minha: é praticamente o mesmo filme, apenas trocando o repórter cazaque de "Borat" por um egocêntrico repórter de moda, austríaco e gay. Cohen é um autêntico camaleão, e seu Brüno em nada lembra o simpático Borat. O grande problema do novo personagem, e desse novo filme, é que Brüno também não é tão divertido e interessante quanto o pobre jornalista do Cazaquistão. Enquanto em "Borat" o cara-de-pau Cohen conseguia momentos impagáveis ao fazer aflorar o preconceito e a ignorância dos norte-americanos, em "Brüno" seu personagem tenta roubar o show com o choque puro e simples, incluindo closes do seu pinto de fora, "piadas" tipo garrafa de champanhe e controle remoto enfiados no ânus, e outras bagaceirices. O resultado, quase sempre, é apenas exagerado e escatológico, e as próprias entrevistas "reais" não ficaram tão divertidas quanto as barbaridades que ele arrancou de seus entrevistados em "Borat". Mesmo assim, há alguns momentos de rachar o bico, como a "entrevista" com Harrison Ford ou a participação de Brüno fazendo figuração num episódio do seriado "Medium" (e é preciso aplaudir a cara-de-pau do ator nestes dois momentos). Outras cenas mostram que o humorista também é muito corajoso, como quando encena um agarramento gay (ao som da trilha de "Titanic"!) no meio de um ringue de vale-tudo, cercado por centenas de homofóbicos machões loucos por um linchamento. Mas o clima de "piada ouvida duas vezes" incomoda. Na maior parte do tempo, parece apenas um remake disfarçado - e bem menos divertido - de "Borat". Mais um para a lista "Vi, mas nunca mais vou ver de novo".




ARRASTE-ME PARA O INFERNO (Drag Me To Hell, 2009, EUA. Dir: Sam Raimi)
Para mim, pelo menos, foi uma decepção esse retorno de Sam Raimi ao terror, depois do frustrante "O Dom da Premonição" - e lá se vão quase 30 anos que ele revolucionou o gênero com o primeiro "Evil Dead". Vejam bem, não quero dizer que o filme é ruim, só não vi nada de tão espetacular, nem ao menos memorável. E pela quantidade de elogios e rótulos de "novo clássico" que o filme vinha recebendo, minha expectativa estava nas alturas. Concordo com o Renato Doho, do blog RD - B Side, quando ele chama o filme de "um episódio de Tales from the Crypt alongado". Não por acaso, o roteiro chupa vários elementos de uma interessante HQ publicada na extinta revista Cripta do Terror (de onde saíram o demônio chamado lâmia, a figura do médium, o namorado incrédulo e até a cena final na estação de trem). Evocada pela maldição de uma velha cigana vingativa, a lâmia transforma num inferno a vida da protagonista, uma jovem e ambiciosa bancária. Certos momentos até lembram o Raimi do passado, como os jatos de vermes na boca da mocinha, o humor negro e os endiabrados movimentos de câmera. Por outro lado, há um excesso de computação gráfica e de sustos movidos pelo aumento da trilha sonora (o conhecido "susto TCHAAAM!"). Talvez tudo funcionasse melhor, mesmo, como um episódio de "Contos da Cripta", já que às vezes a narrativa acaba caindo na enrolação, e até mesmo o suposto "final-surpresa" perde a surpresa justamente pela demora em se revelar. Além disso, caramba!, eu realmente esperava mais do cara que fez "Evil Dead", e não apenas um terrorzinho censura livre. A cena do jantar com os sogros, por exemplo, tinha tudo para ser um festival de sangue e escatologia, mas nega fogo, como vários outros momentos do longa (a cena do exorcismo é outra que podia ser infernal, mas não é). Se esse é para ser o retorno de Raimi ao horror, prefiro que ele continue na série "Homem-Aranha". Certas crianças, como Sam, Wes Craven e também Tobe Hooper, parecem ter ficado deslumbradas demais com brinquedos eletrônicos, esquecendo de como era divertido quando tinham que construir seus próprios brinquedos...




SE BEBER, NÃO CASE (The Hangover, 2009, EUA. Dir: Todd Phillips)
Uma certa revista brasileira "especializada" em cinema disse que essa nova obra de Todd Phillips não pode ser chamada de "uma das melhores comédias do ano". Ora, às favas a tal revista: até segunda ordem, e até aparecer coisa melhor (o que eu duvido...), "Se Beber, Não Case" é, sim, uma das melhores comédias de 2009, se não a melhor. O filme começa com quatro amigos indo a Las Vegas para a despedida de solteiro de um deles. Mas após uma noite de bebedeira, onde acabam tomando "boa noite, Cinderela" acidentalmente, três deles acordam num destruído quarto de hotel, sem lembrar de nada do que aconteceu na madrugada. E, pior, sem saber que fim levou o quarto integrante da trupe, que é justamente o noivo! A partir de então, o filme segue a bizarra investigação do desmemoriado trio para saber o que aconteceu naquela noite (e também o que faz um tigre no banheiro do quarto e de quem é o bebê esquecido dentro do armário, entre outros enigmas). A situação não é exatamente nova, e já foi desperdiçada em outras comédias bem ruinzinhas ("Cara, Cadê Meu Carro?", alguém?). A diferença é que aqui a coisa funciona, e também é muito fácil se identificar com os "heróis" - quem nunca tomou um porre e descobriu só no dia seguinte, pelos amigos, o que foi que aprontou durante a bebedeira? Talvez o melhor do filme seja o trio de protagonistas interpretado por atores praticamente desconhecidos (fora Will Ferrell, Ben Stiller, Vince Vaughn e outros malas!). Um deles, o gorducho Zack Galifianakis, é simplesmente hilário: toda vez que ele abre a boca, é para soltar uma boa piada, tipo "Eu não sabia que distribuíram anéis no Holocausto". E o diretor Phillips dessa vez não se rendeu a piadas chulas, lições de moral ou ao politicamente correto, como fez nas suas outras comédias ("Caindo na Estrada" e "Dias Incríveis", por exemplo, tinham proposta interessante, mas resultado meia-boca). Assim, ao final, ninguém aprende nada nem se transforma num ser humano melhor, pelo contrário. E o filme ainda fecha com chave-de-ouro, exibindo uma colagem de absurdas fotografias tiradas pelos bebuns durante sua noite desmemoriada. Resumindo: um filme imperdível e talvez a única comédia realmente engraçada que eu vi em 2009.




INIMIGOS PÚBLICOS (Public Enemies, 2009, EUA. Dir: Michael Mann)
Michael Mann é um dos poucos cineastas contemporâneos que vale a pena acompanhar, e cujos trabalhos ficam entre o ótimo e o espetacular. Mas esse seu "Inimigos Públicos", mais uma versão romanceada das "aventuras" do famoso gângster John Dillinger, nega fogo e fica anos-luz distante dos clássicos de Mann, como "Fogo Contra Fogo". Isso porque o diretor parece distante do filme, e até falha em criar cenas emocionantes. Tirando aquela em que o Dillinger de Johnny Depp assiste a um filme de gângster no cinema com um sorriso nos lábios (já que sua vida é bem mais emocionante do que aquela que vê na tela), sobrou um filme bastante frio, nada didático (quem não souber um mínimo da vida de Dillinger vai ficar boiando) e historicamente incorreto, com várias liberdades poéticas. Na verdade, o filme é todo de Depp, e a câmera fica nele a maioria dos 140 minutos dessa história sobre bandidos não tão malvados e policiais não tão bonzinhos. Por causa disso, o "herói" - o agente do FBI interpretado por Christian Bale - acaba completamente apagado, num personagem superficial que parece não ter sentimentos ou vida pessoal. O que, vale ressaltar, é uma constante na carreira recente de Bale, igualmente apagado/sem-identidade como Batman e como John Connor no quarto "Terminator". O mesmo acontece com os capangas de Dillinger, como Baby Face Nelson: apresentados o tempo todo como meros coadjuvantes do "dono do show", estes personagens são tão pouco desenvolvidos, sem ganhar características próprias, que fica até difícil diferenciá-los e reconhecê-los ao longo da trama (eu mesmo só fui descobrir que Stephen Dorff interpretou Homer Van Meter pelo IMDB!). Felizmente, quem comanda o espetáculo é Michael Mann. As primorosas cenas de tiroteio, em que o diretor não poupa o espectador de ver o estrago que faziam aquelas metralhadores dos anos 30, coloca "Inimigos Públicos" um pouco acima da média, embora não compense os seus pontos fracos. Vale por algumas ótimas cenas, como os assaltos a banco, a fuga de Dillinger da prisão e sua visita ao escritório da "Força-Tarefa Dillinger", que comprovam porque Mann é um dos melhores cineastas da atualidade. Mas é pouco, em comparação à obra pregressa do cineasta e principalmente se colocado lado a lado com filmes de gângster "das antigas", como "Os Intocáveis" ou "Uma Rajada de Balas".




EU TE AMO, CARA (I Love You, Man, 2009, EUA. Dir: John Hamburg)
É melhor do que parece essa sensível comédia para adultos, que miraculosamente fica longe do terreno da escatologia e das piadas sexuais. Paul Rudd interpreta Peter, um apaixonado corretor de imóveis que pede a namorada Zooey em casamento. Surge um problema: Peter é aquele tipo sensível e meio metrossexual, que só tem amigas mulheres e não costuma fazer "programas de meninos", tipo bebedeiras ou jogos de pôquer. Assim, quem é que ele vai convidar para ser padrinho no seu casamento? A busca desesperada do protagonista por amizades masculinas rende algumas das melhores piadas do longa (já que a amizade "forçada" de Peter acaba soando como uma aproximação homossexual). Finalmente, sem querer, ele topa com Sidney (Jason Segel, do divertido "Ressaca de Amor", resenhado aqui), um bonachão "adultescente" que acaba ensinando ao noivo os benefícios da amizade masculina. Esse é o tipo de roteiro que certamente viraria bobagem nas mãos de alguém como Adam Sandler. Mas com Rudd e Segel o resultado não apenas é divertido, mas também agradável de ver: os personagens e a relação entre eles nunca parece forçada ou caricatural, nem o filme apela para piadas forçadas ou gratuitas (mesmo as várias situações envolvendo gays fogem do terreno do ofensivo). Talvez o único defeito de "Eu Te Amo, Cara" seja o fato de a história ser esticada mais do que o necessário, uma praga das comédias modernas. Afinal, essa é a típica "comédia de uma piada só", e a dita cuja não precisava ser tão longa. Pequeno defeito que é facilmente perdoado graças à ótima caracterização de Paul Rudd (hilário nas suas tentativas frustradas de parecer descolado e "cool", inventando expressões esdrúxulas que as legendas em português não conseguem acompanhar). Vale também pela divertida participação de Lou Ferrigno interpretando ele mesmo. Entre "Quase Irmãos", "Brüno" e esse, nem pense duas vezes entre qual escolher.




HALLOWEEN 2 (idem, 2009, EUA. Dir: Rob Zombie)
Eu pensei que nada poderia ser pior do que aquela aberração que foi o remake do "Halloween", dirigido pelo metaleiro e projeto de cineasta Rob Zombie em 2007. Mas eis que o próprio Zombie se supera e lança "Halloween 2", um filme tão ruim que quase torna o anterior assistível (ênfase no "quase"). Para não me alongar demais, vou deixar aqui a receita para fazer uma bomba: primeiro, escreva um roteiro que não tenha absolutamente NADA para dizer ou acrescentar ao remake original (que já era ruim), e que não se preocupe em explicar como é que o seu vilão assassino sobreviveu a um tiro à queima-roupa na cabeça no final do anterior (ou como o dr. Loomis ainda tem os olhos se eles foram esmagados no mesmo final do filme anterior). Aí adicione uma boa dose de desrespeito aos personagens originais, transformando Laurie Strode em uma metaleira chata e enfeiada, e o dr. Loomis num mercenário arrogante que só pensa em fama e dinheiro, e se recusa a acreditar num possível retorno de Michael Myers (o completo oposto do dr. Loomis imortalizado por Donald Pleasence na série original). Depois, crie uma ótima cena inicial de 20 minutos que resume o "Halloween 2" de 1981 (o ataque de Michael ao hospital onde Laurie está internada), mas logo revele que aquilo é apenas um pesadelo da protagonista (isso mesmo, uma cena inteira de 20 minutos NÃO aconteceu, e aquilo, por incrível que pareça, é a melhor coisa do filme!). Ah, não esqueça da câmera epilética nas cenas de morte (que devem ter a crueldade quintuplicada, com múltiplas facadas na cabeça e coisas do gênero), e nem do metal pesado na trilha. Pronto, você já tem uma bomba daquelas, prontinha para explodir nos cinemas. Mas, já que é pra avacalhar mesmo, não esqueça de colocar a sua esposa, cuja personagem morreu na Parte 1, para aparecer o tempo inteiro como fantasminha, acompanhada de um inacreditável cavalo branco!!!! O resultado dessa mistura indigesta é esse tal de "Halloween 2", mais uma prova de que Rob Zombie é um dos maiores blefes da "nova geração do horror" (ah, como eu queria ver a cara daqueles que o saudaram como gênio após "Rejeitados pelo Diabo"...). Pelo jeito, Zombie anda precisando demais de dinheiro, já que garganteou que odiava remakes, mas "defecou" o "Halloween" de 2007 (e agora quer refilmar também "A Bolha Assassina"); depois disse que nunca faria uma seqüência das aventuras de Michael Myers, mas voltou correndo para filmar essa nova bomba. Felizes devem estar os diretores das continuações fraquinhas da série original, tipo "Halloween 5", pois elas parecem Shakespeare depois dessa esculhambação que o Zombie fez com o personagem!




UMA MÃE PARA MEU BEBÊ (Baby Mama, 2008, EUA. Dir: Michael McCullers)
Outra suposta comédia para adultos que, como "Quase Irmãos", tem idéia boa, mas execução meio-pau. Uma mulher independente (Tina Fey), que exerce cargo de chefia e não tem tempo para relacionamentos, sonha com um bebê, mas é infértil. Ela resolve, então, contratar uma "barriga de aluguel" para carregar seu óvulo fecundado. O problema é que a barriga pertence a uma garota desmiolada e desbocada (Amy Poehler), que acaba se mudando para a sua casa após brigar com o namorado. O filme até começa bem, e achei que a coisa seria interessante justamente por retratar com bom humor o universo feminino e da maternidade. Mas logo tudo descamba para a tradicional "dupla que se odeia, mas aprende a se gostar", e no terceiro ato ainda vira comédia romântica, quando a personagem de Tina conhece Greg Kinnear (completamente sem graça e sobrando no filme). A verdade é que são bem poucos os momentos divertidos, e quem espera alguma piada mais forte e bagaceira, estilo Judd Apatow, vai fica decepcionado, porque o filme é praticamente inofensivo - perdendo de feio, por exemplo, para "Ligeiramente Grávidos", de Apatow e cia. Além disso, a personagem de Amy é insuportável, mas sem a menor graça. Quem rouba o show é Steve Martin (não-creditado), como o patrão "zen" de Tina. O resto, por mais que divirta durante 1h30min, desaparece da mente em poucas horas, e fica muito aquém do que poderia ser feito com o mesmo argumento.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION (1991)


Isso aconteceu há uns 15 anos, mas lembro tão bem que parece que foi ontem. Era uma madrugada insone e eu zapeava os canais da minha parabólica (TV por assinatura ainda era coisa chique na época), até acabar sintonizando na antiga CNT. Na época, a emissora costumava exibir tralhas tipo o "Pânico" de Tonino Ricci ou aqueles lindíssimos filmes de horror mexicanos estrelados por Boris Karloff (ah, bons tempos aqueles...). E, naquele exato momento, alguma coisa estava começando: "Caçada ao Escorpião Dourado". Os nomes dos atores passavam, e eu não conhecia ninguém. Até aquele grande choque no final dos créditos do elenco: "and with Cecil Thiré"!!!

"PUTA MERDA!", foi a primeira coisa que pensei. Afinal, aquela parecia ser mais uma aventura barata italiana de quinta categoria. Sendo assim, o que é que o "nosso" Cecil Thiré, popular careca barbado e tradicional vilão das novelas da Globo, estava fazendo ali? Tinha que ser um outro ator, um homônimo, quem sabe um ator francês pouco conhecido...


Mas eis que já nos primeiros cinco minutos a dúvida foi esclarecida: sim, meus amiguinhos, era o "nosso" Cecil Thiré, com sua indefectível careca lustrosa e sua barba de malvado, interpretando, quem diria, um maquiavélico coronel brasileiro, usando uniforme verde-musgo, segurando pistola na mão e tudo mais. E o "nosso" Cecil Thiré, quem diria, estava "interpretando" sob o comando do famoso diretor italiano Umberto Lenzi!

Só por isso, senhoras e senhores, o filme HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION já vale uma espiada. Porque nada, mas nada mesmo, pode preparar o espectador para ver um vilão de telenovela global no papel de coronel malvado numa aventura italiana de quinta categoria! (Já pensou Francisco Cuoco ou Tarcísio Meira sendo dirigidos por Ruggero Deodato ou Bruno Mattei?)

O filme foi feito por Lenzi aqui mesmo, no Brasil, em 1991, quando o velho Umberto estava no país rodando um terror barato chamado "Black Demons" - sobre macumba e zumbis de escravos negros, coisa que os "nossos" cineastas deviam ter pensado antes, mas estavam muito ocupados tentando ser Glauber Rocha. Acredito até que HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION tenha recebido algum incentivo fiscal do Governo Federal, ou pelo menos do governo do Amazonas (onde a aventura foi rodada), já que o tempo inteiro aparecem museus e pontos turísticos de Manaus na tela.


Com incentivo fiscal ou sem, o mais estranho é que o filme nunca foi comercialmente lançado no país (e, mistério, nem nos Estados Unidos!!!), circulando hoje apenas em cópias piratas ripadas de VHS. Somente a velha CNT fez justiça à aventura de Lenzi, exibindo-a naquela madrugada 15 anos atrás...

O título do filme leva o espectador a acreditar que essa é mais uma cópia das aventuras de Indiana Jones, e já revela desde o início uma falta de criatividade em relação ao artefato, considerando que já existia um "Os Caçadores da SERPENTE Dourada", dirigido por Antonio Margheritti anos antes. Mas o filme de Lenzi não tem nada a ver com Indiana Jones: o roteiro de Olga Pehar (que também escreveu "Black Demons") prefere contar uma historinha banal de ação, repleta de tiroteios e explosões, e sem grandes reviravoltas "arqueológicas".

Nossa história começa com o entomologista norte-americano Tom Maitland (David Brandon, o Calígula de Joe D'Amato) sendo perseguido pelos soldados liderados pelo maligno coronel Olivares (Cecil Thiré!!!), em plena Floresta Amazônica. Ele consegue escapar depois que os milicos explodem seu barco, mas deixa para trás uma bolsa com seu isqueiro e o cartão de crédito American Express (O slogan era "Não saia de casa sem ele", mas daí a levar o cartão para o meio da selva me parece muito exagero...)


Em Miami, a irmã de Tom, Mary (Christine Leigh, de "Condor"), recebe um comunicado da Embaixada brasileira informando que o pesquisador morreu num acidente. Mas ela desconfia da notícia ao receber uma carta do irmão contendo fotos de uma caverna. Resolve, assim, viajar até Manaus e seguir os rastros de Tom, descobrindo que ele topou acidentalmente com uma valiosa relíquia indígena, o Escorpião Dourado (estátua de ouro enfeitada com "a maior esmeralda já encontrada pelo homem"), e que por isso é prisioneiro do exército de Manaus, acusado de tráfico de drogas.

Acontece que a relíquia é cobiçada por um negociante de arte escocês, o maléfico Guy McDonald (Denis Bourke, de "Pra Frente Brasil"), que é auxiliado por Olivares e suas tropas. Eles pretendem torturar Tom até que o gringo revele onde escondeu o escorpião dourado. Felizmente, Mary recebe a ajuda de um aventureiro norte-americano, Jim Foster (Andy J. Forest, outrora dirigido por Lenzi no impagável "O Pelotão do Massacre"), que aparece do nada e já se revela um heróico cavalheiro, salvando a moça de vários perigos e perseguidores.

Finalmente, Ahmed (Max Suara), um mercenário libanês, também aparece do nada e resolve liderar a dupla de norte-americanos até a base militar de Olivares, para resgatarem Tom e partirem todos em busca do tesouro.


E basicamente é isso. HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION não passa daquele tradicional corre-corre no meio da selva, e o ponto alto é justamente o ataque do trio de heróis à base de Olivares. Pois eis que apenas três pessoas conseguem dizimar centenas de soldados, e inclusive Mary revela uma absurda habilidade em utilizar metralhadoras e granadas de mão (além de uma mira fantástica, óbvio). Libertado o prisioneiro, o quarteto foge pela floresta atrás do escorpião dourado, sofrendo a perseguição implacável dos vilões.

O roteiro de HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION traz todo tipo de furo e absurdo, desde o fato de três leigos conseguirem aniquilar um pelotão inteiro de soldados (tudo bem que são mal-preparados e mal-remunerados soldados brasileiros, mas peraí...), até o fato da picada de uma cobra coral matar um vilão em dois segundos. Isso sem contar a conclusão absurda, que envolve até a troca do escorpião dourado por uma "réplica exata comprada na Bahia", para enganar os vilões - e é claro que a tal réplica foi miraculosamente levada no bolso por um dos heróis durante o filme inteiro!!!

Além disso, a pobreza geral da produção transforma o que era para ser uma aventura na selva em comédia. Lá pelas tantas, por exemplo, os soldados inimigos são mortos por... um único índio (vai ver faltou dinheiro para contratar figurantes e montar uma tribo inteira). E o índio, pra piorar, se chama Chato (depois que abriram um precedente com o Tonto, amigo do Zorro...)!!!


Mas ainda que o filme seja muito ruim, é impossível não ficar fascinado por ele quando vemos os heróis de quinta categoria desfilando por cenários tipicamente brasileiros (sim, o filme todo foi realmente gravado em Manaus), e povoados por brasileiros reais, não espanhóis ou mexicanos, como costumam fazer nas grandes produções de Hollywood (tipo "Anaconda", "Stigmata", "Bem-vindo à Selva" e muitas outras). É só a mocinha derrubar a carga de abacaxis de um figurante camelô, por exemplo, para ele soltar um sonoro "Puta que pariu!".

Além disso, os personagens andam em carros como chevettes, brasílias e opalas, e são perseguidos pelos vilões em locais como o Teatro Amazonas e o Museu do Índio da Funai!!! Ou seja, os italianos, por mais picaretas que sejam, são mais fiéis em relação à cultura e à geografia brasileira do que os gringos!

Como o filme não teve lá muito destaque, o elenco principal sumiu do mapa: o galãzinho Forest conseguiu a façanha de estrelar o medonho "Lambada - O Filme" no ano anterior, e essa aventura trash foi seu último trabalho no cinema. Christine Leigh não teve sorte melhor, e este foi o último dos seus três filmes, já que a própria indústria cinematográfica italiana entrou em decadência. Somente Brandon continuou atuando na TV e no cinema (fez até uma participação no impagável "Scarlet Diva", dirigido e estrelado por Asia Argento). Já Lenzi só fez mais dois filmes depois desse, ainda mais obscuros.


Sem absolutamente nada de criativo ou memorável, HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION só vale mesmo pela surpresa de ver Cecil Thiré canastríssimo como milico vilão, misteriosamente falando inglês o tempo inteiro com seus soldados brasileiros, embora fale em alto e bom português com o índio Chato em certo momento do filme.

Na época, Cecil tinha acabado de aparecer nas novelas tupiniquins "Top Model" e "O Salvador da Pátria", e é realmente muito engraçado vê-lo dando ou levando sopapos de David Brandon e Andy J. Forest. Eu adoraria um dia entrevistá-lo para saber como foi trabalhar com Lenzi numa produção furreca como essa! Até porque este foi, provavelmente, seu último grande "destaque" no cinema, considerando que hoje ele faz coisas bem menos engraçadas, como "Didi - O Caçador de Tesouros".

PS 1: Além da famosa careca de Cecil Thiré, HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION também traz uma pá de outros atores e atrizes do Brasil-sil-sil: Renato Coutinho ("O Beijo no Asfalto"), Fernando Reski ("As Aventuras de Sérgio Mallandro"), Claudioney Penedo ("Os Fantasmas Trapalhões"), Bernardo Jablonski (o professor de Direito em "Tropa de Elite") e Tânia Scher (novela "A Viagem").

PS 2: Para completar a trupe de "talentos", o diretor de arte (qua, qua, qua!!!) é ninguém menos que Michael E. Lemick, ou Michele Massimo Tarantini, o diretor do clássico "Perdidos no Vale dos Dinossauros"!!!


POSFÁCIO: Anos depois de escrever esta postagem, descobri que o Cecil Thiré tem uma biografia lançada pela Coleção Aplauso, e ele fala brevemente sobre HUNT FOR THE GOLDEN SCORPION. Infelizmente, o autor não foi curioso o bastante para fazer muitas perguntas sobre a produção, mas Cecil deu alguns detalhes curiosos dos bastidores.

Transcrevo aqui o trecho do livro:

“Quando ainda estava envolvido com Araponga filmei “O Escorpião de Ouro”. Em Sassaricando eu conheci um italiano louco chamado Giancarlo Bastianoni que tinha sido dublê do Les Baxter, quando ele fez carreira na Itália. Depois ele coreografou as pancadarias do Trinity, e acabou dirigindo umas cenas de ação em Sassaricando.

Giancarlo era fantástico, fiquei fã dele e amigo. Quando fui fazer O Protagonista, tinha uma cena de luta enorme, e ele ensaiou a gente – era uma briga que durava três minutos e tirava o fôlego do público. Pancadaria mesmo comendo solta, cinco pessoas envolvidas, enfim, era um negócio bem bacana.

Surgiu o filme e como ele tinha feito a peça sem receber nada, uma mão lava a outra lá fui eu para o set de “O Escorpião de Ouro” (Caccia allo Scorpione d’oro). Era um filme italiano classe Z, falado em inglês, e eu fazia o Coronel Olivares. Todo mundo viu esse filme, porque vivia passando na televisão.

Era uma aventura na Amazônia que foi filmada aqui em Sepetiba, uma farra. O diretor era o Umberto Lenzi e ele tinha um assistente que era mais ou menos da mesma idade. Os dois juntos somavam uma idade avançada.

Parecia que eles acordavam, se vestiam, tomavam café naquele hotel fantástico, para ir para a locação brigar, porque era o que eles mais gostavam de fazer. Um gritava com o outro o tempo todo. Era engraçado, para quem não tinha nada a ver com isso era muito divertido ver os dois. Foi bom ter feito este filme.”


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Caccia allo Scorpione d'Oro (1991, Itália)
Direção: Umberto Lenzi
Elenco: Andy J. Forest, Christine Leigh,
David Brandon, Cecil Thiré, Denis Bourke,
Max Suara e Renato Coutinho.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

SETE DÓLARES PARA MATAR (1966)


Quando você acha que ja viu tudo em matéria de western spaghetti, eis que surge um filme como SETE DÓLARES PARA MATAR com uma corajosa e melancólica conclusão digna de tragédia grega: o herói é obrigado a encarar um duelo com o próprio filho, desaparecido desde a infância, sendo que o rapaz simplesmente ignora a relação de parentesco entre eles, e o herói só fica sabendo em cima da hora, quando não tem mais como escapar do trágico desfecho!

O que acontecerá a seguir? O pai matará o filho, vivendo com a dor de ter acabado com o próprio herdeiro? O filho matará aquele que não sabe que é seu pai, descobrindo isso apenas após o crime? Ou ambos se matarão, encontrando assim a paz há muito perdida? Ah, isso você só vai saber vendo o filme!

Filmada e editada de maneira magistral, esta cena é uma daquelas obras-primas do western: pai e filho caminham lentamente em direção um do outro, açoitados por uma chuva torrencial que parece sublinhar a tragédia iminente, numa sucessão de belíssimos planos que levam a um desfecho triste e repentino. Cena tão boa, aliás, que faço questão de ilustrar praticamente na íntegra nessa seqüência de fotos abaixo - omitindo, obviamente, a resolução do confronto, para não estragar a surpresa de quem não viu o filme.


Produzido em 1966, quando o ciclo spaghetti já era forte nos faroestes italianos (com herói sujos e barbados, e tramas mais corajosas e trágicas do que as dos westerns norte-americanos), SETE DÓLARES PARA MATAR é estrelado pelo brasileiro Antonio De Teffé, imortalizado no gênero com seu pseudônimo americanizado, Anthony Steffen. O ator estrelou, entre outros filmes daquele período, o ótimo "Django, O Bastardo", de Sergio Garrone. Aqui, a direção é de Alberto Cardone.

A história originalmente começava com um provérbio de Salomão retirado da Bíblia ("Quem anda com os sábios será sábio; mas o companheiro dos tolos sofre aflição."), introdução que inexplicavelmente foi cortada de todas as versões do filme lançadas fora da Itália.

Em seguida, a quadrilha de um bandoleiro mexicano chamado Sancho (no original italiano era "El Chacal", interpretado por Fernando Sancho) ataca a fazenda do herói Johnny Ashley (Steffen) justamente quando ele não está em casa.


Os bandidos matam friamente sua esposa, uma mestiça de branco com índia, e fogem levando não só os objetos de valor da casa, mas também o filho pequeno de Johnny, Jerry (David Mancori). Como Sancho não tem um herdeiro (o roteiro deixa no ar que ele é impotente), o bandidão exige que sua mulher (Carla Calò) crie a criança raptada como se fosse seu próprio filho.

Neste ínterim, Johnny volta para casa e encontra o cenário de destruição deixado pelos bandidos. Sobre o vestido vermelho da esposa morta, ele encontra sete moedas de um dólar, justificando assim o título original, "Sete Dólares no Vermelho" (Sancho deixou o dinheiro dizendo: "Era apenas um squaw. Com este dinheiro, o marido poderá comprar outra"). Como vocês podem ver, o título em inglês, adotado pela tradução brasileira, não pegou o espírito do original.

Sedento de vingança, e obcecado pela idéia de encontrar o filho seqüestrado, nosso herói passa os próximos 20 anos agindo como caçador de recompensas, buscando as pistas dos mexicanos que atacaram sua fazenda. O que ele não sabe é que Jerry, criado por Sancho e sua esposa, cresceu e tornou-se um bandido violento e sádico (agora interpretado por Roberto Miali, aka "Jerry Wilson"), e que os caminhos de ambos logo entrarão em rota de colisão.


Valorizado pela linda música do especialista Francesco De Masi, SETE DÓLARES PARA MATAR faz parte da chamada "Trilogia Bíblica" criada pelo diretor Cardone (que assinava "Albert Cardiff") e pelo produtor Mario Siciliano (ou "Marlon Sirko"). A trilogia era inspirada por salmos bíblicos, como aquele que aparece no início, e continuou com "Johnny Texas" ("1.000 Dolari Sul Nero", também estrelada por Steffen), mas ficou incompleta quando a sociedade entre Cardone e Siciliano foi desfeita. Para compensar, cada um rodou sua própria "conclusão não-oficial" da trilogia: o diretor fez "20.000 Dólares para Gringo", em 1967, e o produtor filmou "Ódio e Vingança", em 68.

Este SETE DÓLARES PARA MATAR é aquele filme clássico por excelência, mas que, analisado friamente, tem muito mais defeitos do que qualidades, como o colega Cesar Almeida analisou com muita propriedade em seu excelente (e recentemente extinto) blog Dollari Rosso - que, por sinal, foi batizado assim por causa do título italiano do próprio filme, "Sette Dolari Sul Rosso".

A verdade é que, apesar do ótimo roteiro escrito a seis mãos por Juan Cobos, Melchiade Coletti (ou "Mel Collins") e Arnaldo Franciolini (vulgo "Arne Franklin"), a direção de Cardone é frouxa, o ritmo titubeante, e a edição de José Antonio Rojo (aka "Fritz Mallery"), uma piada.


A passagem dos 20 anos em que o herói busca pelo filho e pelos seus seqüestradores, por exemplo, é inexistente: vemos Steffen sepultando sua esposa e, no corte de cena seguinte, teoricamente já se passaram duas décadas, mas o protagonista continua com a mesma roupa, a mesma barba por fazer e não envelheceu um único minuto, quem dirá 20 anos (o período de tempo é simplesmente citado verbalmente por um personagem secundário).

O mesmo se aplica ao vilão Sancho: além de não envelhecer, ele continua com a mesma roupa (incluindo aquele clichê das cartucheiras cruzadas sobre o peito), o mesmo sombreiro e até o mesmo bigodão (com o MESMO comprimento depois de 20 anos!!!).

O único que envelhece, obviamente, é Jerry, e o roteiro não tenta transformar o personagem naquele típico inocente que tornou-se bandido sem querer. Pelo contrário, Jerry é mostrado como um homem frio e sanguinário, que gosta de matar e o faz o tempo inteiro, atirando inclusive contra adversários desarmados.


Uma cena-chave que demonstra a maldade do pistoleiro acontece num salloon, quando Jerry dá em cima da bela mulher do taverneiro. O corno se vinga pagando um amigo para dar uma lição em Jerry, usando um chicote. Só que a coisa acaba mal: após umas chicotadas, o bandidão se vinga matando seu agressor, o taverneiro e até a mulher dele, que deu origem a toda a encrenca! Mais adiante, Jerry se apaixona pela bela Sybil (Elisa Montés), uma cantora de salloon, apenas para matá-la friamente, com um tiro nas costas, quando a moça descobre que ele é um bandido e tenta fugir para avisar o xerife!

Tanta frieza torna ainda mais dramático aquele aguardado confronto final entre pai e filho, pois o espectador realmente espera qualquer desfecho para o duelo, EXCETO, é claro, o tradicional final feliz de filme hollywoodiano. O terceiro ato é justamente o ponto alto do filme, que até então vinha se arrastando sem grandes novidades ou lances surpreendentes.

Pois os 20 minutos finais são simplesmente eletrizantes, e incluem ainda um bilhante duelo entre Johnny e Sancho, o homem responsável pela ruína do herói (e por 20 anos de amargura e rancor). A briga é num paiol, com ambos usando ganchos metálicos como armas!


Um outro destaque bastante positivo é que, ao contrário da maioria dos filmes do gênero, aqui socos têm o mesmo efeito que têm na vida real. Eu odeio aqueles filmes em que os caras ficam cinco minutos trocando bordoadas sem apresentar um mínimo sangramento nasal. Já a obra de Cardone mostra os efeitos devastadores provocados pelos punhos: socos no rosto deixam hematomas e cortes ensangüentados, e um adversário pode ser morto a pancadas, como acontece na vida real, ao invés de sair caminhando normalmente.

Portanto, é de se perguntar, como fez César Almeida em seu blog, por que o resto do filme não tem a mesma qualidade desta parte final. Será que o produtor Siciliano assumiu a direção para corrigir o que Cardone vinha fazendo ate então (já que o produtor é creditado como "assistente de direção" nos créditos finais), ou foi justamente o contrário? Mistério... O próprio trailer, que você pode assistir aí embaixo, consegue ser melhor e mais interessante do que o filme.

Infelizmente, SETE DÓLARES PARA MATAR não teve muita sorte em nosso mercado de vídeo: tanto em VHS (pela Reserva Especial) quanto em DVD (pela Spectra Nova), a obra foi lançada numa versão criminosa, que, além de granulada, foi ampliada para caber no formato full screen, arrasando completamente a belíssima fotografia original em widescreen (que você pode conferir nas imagens desta resenha, capturadas do DVD italiano em belíssimo widescreen).


Os cortes nas laterais da imagens são tão exagerados que personagens ficam para "fora da TV", e deles escutamos apenas as vozes. Para piorar, até algumas ações (como o esfaqueamento de um personagem) acabaram cortadas graças à copiagem em full screen, e a versão nacional em DVD está com uma qualidade de imagem tão ruim que às vezes os atores ficam quadriculados!!! Enfim, um verdadeiro desrespeito com colecionadores e espectadores em geral. Deveria ser crime vender esse DVD, mas no Brasil vale tudo mesmo, e ninguém parece se importar com os tais "direitos do consumidor".

O negócio é correr atrás de uma cópia em widescreen, como eu fiz, pois o filme ganha muitos pontos quando o espectador consegue apreciá-lo com sua fotografia original - especialmente o belíssimo duelo final, cujo imagem está absurdamente escura nas cópias nacionais em VHS e DVD.

Mesmo com mais baixos do que altos, SETE DÓLARES PARA MATAR é aquele tipo de obra referencial e antológica que deve ser conhecida, especialmente pelos fãs de western spaghetti. Nem que seja apenas pelo ato final, e pela brilhante conclusão de uma das histórias mais tristes que o faroeste italiano já contou.

PS 1: Olho vivo na atriz que interpreta Emily, a amiga do personagem de Steffen no filme. Trata-se de Loredana Nusciak, que no mesmo ano apareceria como interesse amoroso de Franco Nero no clássico "Django", de Sergio Corbucci.

PS 2: Quer saber mais sobre a produção do filme e sobre a carreira do galã Anthony Steffen? Então não deixe de ler o livro sobre o ator, escrito por Daniel Camargo, Fábio Vellozo e Rodrigo Pereira, obrigatório na estante de qualquer fã de western spaghetti.

Trailer de SETE DÓLARES PARA MATAR


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Sette Dolari Sul Rosso / Seven Dollars
to Kill (1966, Itália/Espanha)

Direção: Albert Cardiff (Alberto Cardone)
Elenco: Anthony Steffen (Antonio De Teffé),
Fernando Sancho, Elisa Montés, Jerry Wilson
(Roberto Miali) e Loredana Nusciak.

domingo, 30 de agosto de 2009

FORÇA INVASORA (1990)


Depois de passar minha adolescência inteira vendo as produções horrendas perpetradas por David A. Prior e sua trupe (e sempre exibidas nas tardes do SBT, no velho Cinema em Casa), eu nunca imaginei que algum dia poderia encontrar um filme com o nome deste cidadão e, ainda assim, ao final, dizer: "Puxa, mas este REALMENTE é um bom filme". Digo "bom" mesmo, não as tralhas habituais dirigidas por Prior, que de tão ruim se tornam ao menos engraçadas.

Pois o dia chegou, amiguinhos: FORÇA INVASORA foi escrito e dirigido por David A. Prior, traz todas as caras conhecidas dos seus filmes (com exceção do irmão-galã Ted Prior, que provavelmente estava resfriado na época das filmagens), e mesmo assim consegue ser bem divertido - como filme "normal", e não como diversão trash. Sim, acredite!!!


Nesse filme quase desconhecido do "mestre", o roteiro (do próprio Prior, claro) é uma interessante brincadeira metalingüística (pode???), que mistura dois ótimos filmes dos anos 80: "F/X - Assassinato Sem Morte", de Robert Mandel, e "Amanhecer Violento", do John Millius.

A história começa como se fosse um típico filme do diretor: um clone de quinta categoria do Rambo, sem camisa, com faixa amarrada na testa e segurando duas metrancas, invade um acampamento inimigo e fuzila todo mundo. Resta um último vilão, que ameaça sua namorada com uma faca na garganta, pedindo um valioso diamante em troca da vida da moça. Feita a troca, o vilão descobre, da pior forma possível, que no lugar do diamante recebeu uma bomba, e voa pelos ares em pedacinhos. Enquanto isso, o grande herói e sua namorada preparam-se para um último e romântico beijo, quando...



...a moça pisa no pé do herói, e um diretor fora do enquadramento grita "Corta!". Isso mesmo: tudo que vimos até então era um filme de ação classe Z produzido pela American International Pictures (AIP, por sinal a mesma produtora do próprio FORÇA INVASORA!).

As filmagens estão sendo realizadas numa montanha isolada do Alabama, por uma equipe de quinta categoria que parece um reflexo da própria equipe de David Prior. O "herói" à la Rambo é apenas um ator famoso chamado Troy (interpretado por David "Shark" Fralick), e a mocinha desajeitada é a atriz iniciante Joni (Renée Cline, de "A Batalha Final", figurinha carimbada dos filmes de Prior). A moça é tão má atriz que só conseguiu o papel por ser namorada do produtor Jack (David Marriott, de "Operation Warzone", outro da patota de Prior).


A partir de então, o espectador descobre que aquela produção furreca está com orçamento e cronograma estourados, e o produtor exige que o diretor da película, Ben Adams (interpretado por Walter Cox), termine as filmagens de qualquer jeito no dia seguinte, nem que para isso tenha que pular cenas e páginas inteiras do roteiro. São apresentadas ainda outras figurinhas carimbadas dos bastidores, como o técnico em efeitos especiais, o responsável pelas explosões e o diretor de fotografia. Ironicamente, outros dois parceiros habiturais de Prior, Douglas Harter e Charles Stedman, aparecem interpretando eles mesmos!!!

E como se o pobre Ben já não tivesse problemas demais nas mãos, eis que uma tropa de mercenários de um país da América Central, comandados pelo general Juarez (Angie Synodis) e liderados pelo coronel das Forças Especiais norte-americanas Michael Cooper (Richard Lynch!!!), inventa de armar seu acampamento bem ali naquela região. No dia seguinte, o dia em que Ben e sua equipe precisam terminar as filmagens de qualquer jeito, os soldados inimigos irão invadir uma grande cidade próxima e explodir pontes e aeroportos para poder fazer reféns e chantagear o governo. Só que os vilões não esperavam encontrar uma equipe de cinema bem ali...

A primeira reação dos invasores inimigos é matar os coitados, para eliminar toda e qualquer testemunha; depois, eles bloqueiam todas as estradas para impedir que o pessoal escape e alerte as autoridades. Até que a equipe se reúne e, liderada pela estrelinha Joni (que de repente se revela uma valentona de primeira linha e até uma atiradora das boas!), decide lutar contra os soldados, usando para isso apenas sua esperteza e a magia do cinema - incluindo maquiagem, balas de festim e explosões falsas!


FORÇA INVASORA é pobre até a medula - seu principal defeito. Esse é o tipo de roteiro que eu adoraria ver produzido por alguém como mais grana, para poder bancar muitos tiros, explosões e figurantes para morrer de todas as formas possíveis e imagináveis. Infelizmente, temos aqui a tradicional produção furreca comandada por Prior e sua trupe, o que significa pobreza e improviso.

Uma das cenas mais miseráveis é a chegada dos soldados inimigos à região das filmagens: sem dinheiro para filmar os vilões pulando de um avião e depois abrindo seus pára-quedas, Prior corta direto para meia dúzia de figurantes rolando no chão e recolhendo os pára-quedas já abertos, como se tivessem acabado de saltar de um avião!!! (E o resultado é de rolar de rir, de tão mal-feito!)

Pior: os "batalhões" de soldados inimigos geralmente são compostos por seis ou sete figurantes, e percebe-se que há no máximo uns 12 figurantes, no total, para interpretar um suposto exército com centenas de soldados. Assim, todo mundo tem que se revezar para aparecer e morrer várias vezes ao longo do filme. Uma cena que mostra direitinho a pobreza da coisa é aquela em que o coronel interpretado por Richard Lynch explica seu plano, supostamente a um batalhão inteiro de soldados, mas aparecem apenas três cabecinhas em primeiro plano!!!


Também há todas aquelas bobagens à la David A. Prior (parece que o homem não consegue se segurar!), como a atriz que se revela uma agente disfarçada da CIA (sem que esta revelação faça a menor importância no roteiro além de explicar a intimidade da garota com armas de fogo). Ou a "técnica Danton de camuflagem", que parece saída do clássico "Deadly Prey", quando Joni fica "escondida" sobre um galho de árvore a 10 centímetros da fuça dos vilões, e mesmo assim ninguém a enxerga. Ou, ainda, a cena em que Ben se engalfinha com um soldado para que Joni possa fugir correndo, sendo que a moça tinha uma metralhadora nas mãos e podia simplesmente atirar no inimigo enquanto Ben o segurava!

Mas nem estes "pequenos detalhes" conseguem estragar FORÇA INVASORA, que se revela um filme de ação classe Z acima da média - e principalmente acima da média das obras de Prior. Com apenas 83 minutos, o filme é curto demais para chatear. Já o roteiro até é interessante e tem algumas boas sacadas, como a conclusão que remete ao "falso filme" que estava sendo rodado no início. Ou o fato de o último take mostrar o próprio David Prior, em pessoa, aparecendo para gritar "Corta!" e cumprimentar os atores e toda a equipe dos bastidores de FORÇA INVASORA pelo seu trabalho - um final bastante inspirado.

Méritos, ainda, para Richard Lynch como vilão. Normalmente, os filmes de Prior trazem atores conhecidos em participações de dois ou três minutos. Mas aqui Lynch realmente participa ativamente do projeto, e inclusive tenta atuar (o que apenas comprova como todos os outros atores e atrizes são péssimos).


A cena em que ele tortura um dos heróis, esmurrando o braço onde o sujeito acabara de tomar um tiro, é muito boa, e às vezes ele parece estar reprisando seu papel de vilão em "Invasão USA", onde também liderava um ataque secreto, só que de soldados russos, e não da América Central. Já a protagonista Renée é péssima atriz e feinha de rosto, mas em compensação tem um corpão e aparece o filme todo de shortinho (nham...).

Infelizmente, o SBT parou de reprisar os filmes do diretor há muitos anos, e encontrar FORÇA INVASORA nas locadoras (a fita era de uma distribuidora pobrezinha chamada New Action) é uma tarefa que provavelmente nem o lendário Mike Danton, de "Deadly Prey", conseguiria cumprir.

Infelizmente, também, o resultado final é exatamente como eu escrevi alguns parágrafos acima: embora até engane os fãs de tralhas, como os distintos visitantes aqui do FILMES PARA DOIDOS, a pobreza da produção está estampada em cada frame da película, especialmente no número reduzido de figurantes e nos efeitos pouco convincentes dos tiroteios.

Com algumas óbvias modificações no roteiro (PRINCIPALMENTE na reviravolta da "agente da CIA disfarçada") e gente boa envolvida na produção, creio que um blockbuster bastante divertido poderia ser produzido a partir deste filme. Alguém aí tem o telefone do Joel Silver?


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Invasion Force (1990, EUA)
Direção: David A. Prior
Elenco: Renée Cline, Walter Cox, Richard
Lynch, Douglas Harter, Charles Stedman
e David "Shark" Fralick.