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sábado, 7 de janeiro de 2012

OCTAGON (1980)


O "Octógono" (em inglês, "Octagon") é o nome de uma base secreta, encravada em algum local da América Central, onde guerreiros orientais treinam mercenários nas milenares táticas dos assassinos ninjas. Apesar de ser também o título deste filme, o Octógono é tão secreto que ninguém, do começo ao fim da história, se refere ao lugar utilizando tal nomenclatura - e este é o menor dos erros da obra!

OCTAGON (exibido na TV com o apropriado subtítulo "Escola de Assassinos") foi um dos últimos trabalhos da filmografia de Chuck Norris que eu vi, e apenas quando foi relançado em DVD no Brasil pela Spectra Nova. Ironicamente, foi o estrondoso sucesso de bilheteria desta aventura do começo da década de 1980 que transformou Norris definitivamente num dos grandes astros de ação do período.


Confesso que idealizava OCTAGON de uma forma completamente diferente antes de finalmente assisti-lo, por tudo que li e ouvi sobre o filme. Imagine só: ver o grande karateka Chuck em início de carreira numa aventura que lembra o cinema de Hong-Kong, trocando sopapos e voadoras com ninjas, e até pegando numa espada samurai para duelar com o grande vilão - que, num clichê que lembra muito western spaghetti, vem a ser o seu meio-irmão oriental!

Foi, portanto, um decepção descobrir que o grande filme de ação e de ninjas com o qual eu sonhava demora uma eternidade para pegar no tranco: são 103 minutos no total, mas apenas nos 20 minutos finais é que Norris finalmente invade o Octógono e sai matando ninjas a torto e a direito!


Até então, a trama é levada na base do "devagar, quase parando", com uma infinidade de personagens que entram e saem de cena, falam pra caramba no processo, e um Chuck Norris que raramente luta - algo muito parecido com "Os Bons Se Vestem de Negro", outro soporífero trabalho do começo da carreira do astro.

Enfim, confesso que não gostei de OCTAGON na primeira vez que o vi, mas confesso também que o filme cresceu numa recente revisão: sabendo que a pancadaria estava toda no desfecho, tentei avaliar o filme com outros olhos, buscando compreender o porquê de tanto "desenvolvimento de personagens" - ou, mais especificamente, o porquê de tantos personagens em primeiro lugar!


E embora continue achando que a narrativa demore tempo demais para começar a ficar interessante, OCTAGON tem várias qualidades que o colocam um pouco acima da média de mediocridade dos trabalhos iniciais de Chuck - é muito melhor, produzido e dirigido inclusive, do que os três anteriormente analisados: "Comboio de Carga Pesada", "Os Bons Se Vestem de Negro" e "Força Destruidora".

Norris interpreta Scott James, um veterano do Vietnã, lutador aposentado e, secretamente, também um mestre ninja (!!!), já que foi criado como filho adotivo por um grande conhecedor de artes marciais, e treinado desde a infância para ser o melhor lutador do planeta.

Scott passa seus dias malhando na academia com o amigo e também lutador A.J. (o canastrão Art Hindle); nas horas vagas, assiste a shows de ballet (!!!) em teatros chiques, vestindo smoking e tudo mais - e ver Norris de smoking é quase tão esquisito quanto ver Steven Seagal de baby-doll.


Ao final do espetáculo, nosso herói se interessa pela tal dançarina de ballet cuja apresentação foi assistir. Ela se chama Nancy (Kim Lankford), e aceita prontamente o convite do herói para uns drinks.

O casal vai até a casa da moça, mas lá ambos são atacados por ninjas. Nancy é morta e Scott surra todo mundo até o nocaute. Mas não se preocupa em interrogar algum deles para obter informações sobre o porquê do ataque, e portanto os vilões logo desaparecem, deixando para trás um monte de corpos - toda a família de Nancy, que já havia sido exterminada antes de o casal chegar.

O engraçado é que o herói não fica entristecido com a morte da nova namorada (na verdade, a personagem é simplesmente esquecida em menos de 5 minutos); por outro lado, fica encucado com a aparição dos ninjas. De onde teriam vindo? O que querem?


Scott procura um velho amigo chamado McCarn (Lee Van Cleef!), que é caçador de recompensas e "líder de um grupo anti-terrorista" (não tente entender). Ele é o primeiro a comentar sobre uma tal base secreta onde mercenários recebem treinamento ninja para poderem praticar terrorismo e crimes políticos ao redor do mundo.

Ao mesmo tempo, entra em cena Justine (a bela Karen Carlson, numa interpretação medonha), uma milionária que tenta convencer Scott a invadir o Octógono para matar seu líder, o homem responsável pela morte de seu pai.

Aí é que o bicho pega: o líder do Octógono é ninguém menos que Seikura (Tadashi Yamashita, de "American Ninja"), meio-irmão oriental de Scott, que foi treinado nas mesmas artes ninja pelo pai e mestre de ambos, mas deserdado e expulso de casa após uma discussão ainda na adolescência.


Como acontecia com "Os Bons Se Vestem de Negro", a trama parece interessantíssima no papel. O problema é a narrativa titubeante: OCTAGON se arrasta desnecessariamente por mais de uma hora, e neste tempo Norris simplesmente fica perambulando pelo cenário, de um lado a outro, sem fazer muita coisa, e procurando não lutar porque prometeu a si mesmo que a violência não leva a nada.

O roteiro, apesar de ser uma exibição de tudo que é mais brucutu em matéria de cinema de ação, foi escrito por uma mulher (!!!), a também atriz Leigh Chapman, cujos créditos incluem ainda o roteiro do cult movie "Dirty Mary, Crazy Larry" (1974), com Peter Fonda e Susan George.


Leigh trabalha com um argumento original de Paul Aaaron, que havia dirigido Chuck em "Força Destruidora" um ano antes, e talvez fosse o diretor original desse filme aqui também, antes de ser substituído por Eric Karson.

O nome não lhe diz nada? Bem, Karson não é exatamente conhecido por sua vasta filmografia (fez apenas cinco longas e um curta), mas tem outros dois trabalhos que merecem ser conhecidos por fãs de filmes de ação: "Força Oposta / Onze para o Inferno" (1986), com Tom Skerritt, e "Contato Mortal" (1988), com Jean-Claude Van Damme.


Uma das coisas mais diferentes de OCTAGON é incluir uma espécie de "sexto sentido" do herói: uma narração em primeira pessoa que ressoa como eco, para dar a ideia de que o espectador está ouvindo os pensamentos e conflitos internos de Scott.

Só que este recurso é repetido tantas vezes que se torna chato. É como se houvesse uma necessidade imbecil de o herói ficar toda hora explicando o que está pensando para o espectador, falando para si mesmo frases como "Será que vou conseguir matar Seikura?", ou "Eles estão próximos, eu posso sentir", ou ainda "A.J., eles te pegaram! Foi minha culpa...". Às vezes a tal narrativa com eco explica até coisas que o espectador está vendo por conta própria, como se fosse uma descrição para deficientes visuais!


O roteiro também enrola um tempão com o entra-e-sai de personagens que participam da "investigação" do herói sobre a localização do Octógono. Se o próprio A.J., um dos personagens principais, jamais diz a que veio (é apenas o tradicional melhor amigo que só existe para morrer e ser vingado nos filmes de Chuck Norris), o que dizer do caçador de recompensas McCarn? E de todo um grupo de mercenários com quem Scott acaba topando na sua busca pelo Octógono? Ou de um comerciante de casacos-de-pele que financia Seikura e seu grupo? Ou mesmo da tal dançarina morta nos primeiros cinco minutos do filme, cuja curta presença em cena jamais é justificada?

E Scott James, como herói, é um desastre: tenta escapar das brigas e recusa-se a ir atrás de Seikura até ser tarde demais; neste ínterim, todas as pessoas que precisavam da sua proteção já foram mortas pelos vilões, e são pelo menos três pobres vítimas até que o "herói" finalmente levante a bunda da cadeira para ir caçar os ninjas!


Some-se a isso tudo o fato da tal base secreta ser tão secreta quanto o Estádio do Maracanã: praticamente todos os personagens que aparecem em cena conhecem o lugar ou lá estiveram. E quando Scott e A.J., em momentos diferentes, vão até o tal país da América Central (nunca nomeado, mas as filmagens aconteceram no México) para tentar invadir a base, cada um deles descobre a localização do complexo facilmente, bastando para isso conversar com meia dúzia de pessoas na rua! Assim até eu!

Enfim, OCTAGON tem uma tonelada de personagens, acontecimentos e informações inúteis (a longa cena em que Justine flerta com Scott pela primeira vez, envolvendo um carro parado no acostamento, é igualmente descartável). A maior parte do que está no corte final poderia ter ficado na sala de edição, melhorando muito o ritmo do filme - principalmente a já citada visita do herói ao quartel-general de um grupo de mercenários para tentar descobrir a localização da "base secreta" de Seikura.


A boa edição de Dann Cahn até tenta tornar a coisa menos chata, intercalando as cenas songa-mongas em que o herói não faz nada com outras que mostram o treinamento de um novo grupo de recrutas no Octógono (quando finalmente vemos alguma ação e ninjas lutando).

Na verdade, eu jamais recomendaria OCTAGON se não fosse pelos 20 ou 30 minutos finais. É quando entra em cena uma terceira personagem feminina (!!!), a guerrilheira Aura (Carol Bagdasarian), e o herói finalmente resolve invadir o Octógono e matar um montão de ninjas com as próprias mãos e pés, com faquinhas (daquelas escondidas nas luvas) e com uma espada samurai, é claro!


E é quando ele finalmente encara, frente a frente, seu meio-irmão malvado Seikura. Segundo o IMDB, a revista gringa Fighting Stars elegeu esta luta final como a 13ª entre as 25 melhores cenas de luta de todos os tempos.

Não é para tanto, e o ódio entre meio-irmãos que não se veem desde a adolescência não é satisfatoriamente explorado no momento. Ainda assim, a luta é bem filmada, embora rápida e com uma conclusão brochante.


Os grandes momentos de OCTAGON acontecem quando Scott vai enfrentando vários "sub-chefes" do Octógono, como se estivesse num jogo de videogame. Entre eles está um gigantesco ninja mascarado, que se pega com o herói numa feroz luta com espadas, sai (aquelas faquinhas tipo as que a Elektra usa nos quadrinhos) e finalmente com os punhos - tarefa nem um pouco fácil, considerando que o vilão não pára de lutar nem mesmo quando está com o corpo em chamas (uma cena copiada, com o fator trash nas alturas, na aventura turca "Death Warrior")!

O tal ninja mascarado, creditado como Kyo no final (embora seu nome nunca seja citado no filme, como acontece com o próprio Octógono), é interpretado por Richard Norton, aqui em sua estréia no cinema.


Norton foi vilão em vários filmes de pancadaria (como o hilário "Gymkata - O Jogo da Morte"), atuou como dublê de Norris neste e em seus dois filmes seguintes ("Ajuste de Contas" e "Vingança Forçada"), e nos anos 1990 tentou a sorte como protagonista, estrelando várias produções baratas de ação.

E ele deve ter causado uma boa impressão, já que aparece em OCTAGON também num segundo papel, como um dos mercenários daquele grupo invadido por Scott antes de finalmente chegar ao Octógono.

Ah, a cena do ataque à base dos ninjas também inclui um momento muito legal em que o herói precisa atravessar um lago pulando de uma plataforma para outra, e desviando de ninjas que pulam da água para agarrá-lo. Isso me lembrou muito uma fase do velho jogo de fliperama "Shinobi", que eu joguei muito em sua versão para Master System.


Como já havia acontecido nos filmes anteriores, Chuck voltou a trabalhar com a família em OCTAGON: ele e o irmão Aaron Norris coreografaram as lutas, e tanto Aaron quanto o filho do astro, Mike, aparecem em pontas (Mike interpreta Scott aos 18 anos, numa boa escolha, já que ele realmente lembra uma versão jovem de Chuck).

Além de todos os já citados, o elenco tem outras caras conhecidas: Brian Libby (que depois enfrentaria Chuck Norris como uma espécie de clone de Michael Myers em "Fúria Silenciosa") é um dos mercenários que está fazendo o curso intensivo de ninjas no Octógono, e Gerald Okamura um dos instrutores; Ernie Hudson é um lutador amigo de A.J.; Tracey Walter é um agenciador de mercenários, e Brian Tochi (o japa de "A Vingança dos Nerds" e "Loucademia de Polícia" Partes 3 e 4) interpreta Seikura na juventude. Vários deles podiam ter ficado no chão da sala de edição, tal a inutilidade de seus personagens.


Chato e pouco empolgante (embora o final seja bastante movimentado), OCTAGON está entre os muitos filmes fracos da carreira de Norris. Mas, apesar da narrativa lenta e dos óbvios defeitos, não é difícil de entender porque foi um sucesso na época do seu lançamento.

Afinal, foi um dos primeiros filmes norte-americanos a apresentar os guerreiros ninja ao público ocidental (embora eles já tivessem aparecido antes, e brevemente, em outras obras, como "Elite de Assassinos", de Sam Peckinpah, que é de 1975).


Ao longo da década de 80, e até a metade dos anos 1990, ninjas viraram figurinhas carimbadas no cinema de ação ocidental, dando origem a franquias como "American Ninja" e a série de filmes produzidos pela Cannon com Sho Kosugi (são três, sendo que o primeiro deles é "Ninja - A Máquina Assassina", estrelado por Franco Nero!).

Portanto, são motivos de sobra para que todo fã de ninjas e de Chuck Norris queira assistir a OCTAGON. Mas não se sinta culpado se tirar umas sonecas aqui e ali. Porque, sem injustiça, a melhor coisa é a meia hora final, e você não vai perder quase nada se avançar o filme todo até chegar aos finalmentes.


E apesar de ter a chance de demonstrar suas habilidades como "american ninja", OCTAGON definitivamente é um ponto negativo para a masculinidade do astro.

Afinal, ele tem três interesses românticos na trama, mas não vai para o rala-e-rola com duas das garotas - e só come a terceira porque ela se atira pelada em cima dele. Um detalhe vergonhoso que definitivamente foi deixado de fora dos lendários "Chuck Norris Facts"...

PS: Octógono, como todos sabem, também é o formato do ringue das lutas do UFC (Ultimate Fighting Championship, o popular "vale-tudo). Será por causa do filme, ou é apenas uma coincidência?

Trailer de OCTAGON



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The Octagon (1980, EUA)
Direção: Eric Karson
Elenco: Chuck Norris, Karen Carlson, Lee Van Cleef,
Art Hindle, Tadashi Yamashita, Carol Bagdasarian,
Richard Norton e Brian Libby.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

FORÇA DESTRUIDORA (1979)


Uma dupla de policiais da Narcóticos de Los Angeles, que trabalha sob disfarce, descobre o esconderijo de uma fortuna em drogas no depósito de uma loja de departamentos. Infelizmente, eles não vivem tempo suficiente para poder denunciar o flagrante: ambos são mortos na mesma hora, com fulminantes golpes de karatê, por um psicopata com máscara de esqui.

Os outros policiais da equipe ficam desnorteados, principalmente quando mais colegas começam a aparecer mortos e com ossos quebrados a golpes de artes marciais. Afinal, como enfrentar um assassino cujos punhos são armas mortais e eles nem ao menos têm tempo de sacar seus revólveres?

A solução encontrada pelo comandante da equipe é simples e hilária: contratar um especialista na coisa para ensinar os tiras e prepará-los para enfrentar o tal assassino karateka!


Em linhas gerais, este é o enredo risível de FORÇA DESTRUIDORA, uma curiosa mistura de trama policial com artes marciais para aproveitar a febre pelos filmes de karatê que havia atingido o público norte-americano nos anos 1970.

FORÇA DESTRUIDORA também é um veículo bem melhor para Chuck Norris como herói de ação do que seu trabalho anterior, o sonolento "Os Bons Se Vestem de Negro": aqui, Chuck não apenas tem mais oportunidades para demonstrar seus talentos como lutador, mas também interpreta um personagem muito parecido com ele mesmo!


No filme, seu personagem se chama Matt Logan. Mas depois de algum tempo fica muito evidente que Logan é o próprio Norris: um campeão de karatê (como Chuck na vida real) e proprietário e professor numa escola de artes marciais (também como Chuck na vida real). Inclusive acho que os realizadores deveriam ter assumido as semelhanças e deixado Norris como ele mesmo. Já pensou que legal um filme em que a polícia pede a ajuda do astro de cinema Chuck Norris?

(Exatos 30 anos depois, Steven Seagal passou a estrelar um reality show na TV americana chamado "Steven Seagal: Lawman", que mostra exatamente sua colaboração, como especialista em artes marciais, na delegacia de polícia de uma pequena cidade na Louisiana!)


Além de mestre do karatê, Matt Logan é representado no filme como um cara legal, que adotou um jovem negro ex-viciado e que resolve ajudar a polícia mesmo estando no meio dos treinamentos para a final de um importante torneio de artes marciais - compadecido quando uma das agentes da Narcóticos lhe apresenta uma garota "de menor" que se prostitui por umas doses de heroína.

É muito mais fácil engolir Norris num papel desses do que como o caminhoneiro de "Comboio de Carga Pesada" ou o professor de ciências políticas (!!!) de "Os Bons Se Vestem de Negro". Até porque, na vida real, ele tem um amplo trabalho de propaganda anti-drogas.


Aliás, mantendo o bom nível do trabalho anterior do astro, FORÇA DESTRUIDORA também tem produção caprichada e um elenco cheio de caras conhecidas: o interesse romântico de Norris é a policial interpretada pela gracinha Jennifer O'Neill, de "Verão de 42" e "Scanners" (que, pouca gente sabe, nasceu no Rio de Janeiro); o delegado que pede a ajuda do herói é vivido pelo sempre eficiente Clu Gulager ("A Volta dos Mortos-vivos"), e também há pequenas participações de Pepe Serna, G.W. Bailey (o Capitão Harris da série "Loucademia de Polícia") e Charles Cyphers (ator que está em quase todos os filmes de John Carpenter).

O roteiro segue a estrutura das aventuras do lutador mexicano El Santo: a trama começa com o personagem de Norris no ringue, apresentando suas habilidades como lutador; depois mostra o herói sendo recrutado para ajudar a polícia num caso, e finalmente termina com ele outra vez no ringue, dessa vez enfrentando o "grande vilão".


Este é interpretado por Bill "Superfoot" Wallace, um dos mais respeitados campeões de artes marciais da época, o que garante uma luta bem caprichada com Chuck. Talvez Wallace também tivesse se tornado um herói de ação na época se fosse mais bonitão (pronto, eis o meu "Momento Rubens Ewald Filho"); mas, como é bem feio, geralmente só o chamavam para papéis de vilão karateka - ele inclusive lutou contra Jackie Chan em "A Fúria do Protetor", de James Glickenhaus.

O mais surpreendente em FORÇA DESTRUIDORA é o fato de o roteiro ter sido assinado por Ernest Tidyman, falecido autor dos livros do detetive negro Shaft (também roteirista dos filmes com o personagem feitos nos anos 70), e mais conhecido por ter ganhado o Oscar de Melhor Roteiro pelo excelente "Operação França", de William Friedkin, em 1971.


Bem, se você também achou que a presença de Tidyman era garantia de um roteiro de qualidade, pode esquecer: FORÇA DESTRUIDORA é, do começo ao fim, uma ode à estupidez humana. Tudo bem que os roteiros dos posteriores "Braddock" e "Invasão USA" não são exatamente obras-primas, mas este aqui abusa da boa fé do espectador.

Não bastasse a ridícula ideia de policiais procurarem por aulas de karatê ao invés de simplesmente tomar mais cuidado (um revólver continua sendo mais eficiente contra um sujeito desarmado, e karatê não me parece algo que se domine com meia dúzia de aulas!), os personagens vivem cometendo erros imbecis, como os tiras que descobrem o esconderijo das drogas e vão vistoriar o local sem pedir reforço ou pelo menos avisar alguém sobre onde estão indo, para o caso de morrerem no processo (o que acaba acontecendo não uma, mas DUAS VEZES ao longo do filme).


Mais tarde, o jovem parceiro de Logan também vai "checar uma informação" sem avisar ninguém, descobre a identidade dos vilões, mas é morto logo em seguida - sem deixar nenhuma pista sobre onde tinha ido para ajudar o herói ou a polícia nas investigações!

Além disso, o assassino karateka mascarado é praticamente onipresente, como se o sujeito vivesse escondido num cantinho escuro do esconderijo de drogas, só esperando alguém aparecer para poder matar!


Parece até que Tidyman ganhou uma graninha para simplesmente colocar seu nome num roteiro escrito pelo Zé da Padaria, porque é absurdo que um cara possa criar algo como "Operação França" e logo em seguida ser autor de uma aventura tão absurda e mal-desenvolvida!

Um detalhe curioso é o fato de FORÇA DESTRUIDORA ter sido dirigido por Paul Aaron, um sujeito inexperiente (era apenas o seu segundo filme), sem grandes referências em matéria de cinema de ação, mas que se saiu muito melhor que um veterano do gênero, Ted Post, no filme anterior de Norris.

Diz a lenda que Paul foi contratado apenas para fazer algumas alterações no roteiro original (a parte do filho adotivo do herói foi invenção dele), mas acabou conquistando a cadeira de diretor. Depois sumiu sem deixar vestígios, dirigindo mais alguns poucos trabalhos - entre eles um policial com Wings Hauser e a comédia "Maxie", com Glenn Close.


Se como trama policial o filme é risível, pelo menos não nega fogo para quem espera ver Norris em ação. Principalmente pela luta final com Bill Wallace: são dois astros das artes marciais em ação, e em câmera lenta! O confronto já começa violento no ringue onde ocorre a final do torneio de karatê, e termina fora dele, quando o vilão tenta escapar com uma fortuna em heroína.

Novamente, a coreografia das cenas de luta é assinada pelo próprio Chuck e por seu irmão e futuro diretor Aaron Norris, que tem uma pequena participação no filme como assistente do herói na academia. E como nepotismo pouco é bobagem, o filho do astro, Mike Norris, ainda moleque, também faz uma ponta como um entregador de pizza!


É interessante observar como os realizadores fizeram de tudo para transformar o personagem de Matt Logan em uma figura quase sobrenatural: ele não apenas tem uma destreza praticamente sobre-humana, mas também é visto por todos os outros personagens, inclusive os vilões, como um sujeito invencível.

Para isso também contribui o título original ("A Force of One" poderia ser traduzido como "Exército de um Homem Só") e o pôster de cinema, que mostra um mítico Chuck Norris sentado em posição de lótus dentro de um triângulo, e com a seguinte frase: "Ele escuta no silêncio, ele enxerga na escuridão. Ele é o único que pode deter a matança".


Talvez FORÇA DESTRUIDORA pudesse ser um filmaço se tivesse um roteiro melhorzinho, e principalmente com menos tempos-mortos na narrativa.

Do jeito que está, pelo menos já dá uma bela amostra do que Chuck Norris poderia fazer como herói de ação, tanto que todos os seus próximos filmes começaram a ficar mais exagerados e movimentados a partir daqui. E foi com seu trabalho seguinte - "Octagon" - que Norris transformou-se definitivamente em astro.

PS: O velho Guia de Filmes Nova Cultural, que durante anos foi a grande referência para os cinéfilos brasileiros, informou erroneamente que FORÇA DESTRUIDORA seria continuação de "Os Bons Se Vestem de Negro". Na verdade, os dois filmes não têm absolutamente nenhuma relação, e os personagens vividos por Norris até têm nomes diferentes, mas consta que foram lançados pela mesma distribuidora como programa duplo em alguns cinemas norte-americanos, o que pode ter gerado a confusão.

Trailer de FORÇA DESTRUIDORA



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A Force of One (1979, EUA)
Direção: Paul Aaron
Elenco: Chuck Norris, Jennifer O'Neill, Clu Gulager,
Ron O'Neal, Bill Wallace, Eric Laneuville, Pepe Serna,
James Whitmore Jr. e Clint Ritchie.


* A quem interessar possa, esta foi a capinha do filme quando lançado em VHS no Brasil pela Hipervídeo. Recentemente, ele foi relançado em DVD pela Spectra Nova:

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (1978)


Apenas um ano separa o primeiro filme de Chuck Norris como protagonista, "Comboio de Carga Pesada" (1977), de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (1978), mas o salto de qualidade de uma produção para a outra é impressionante. E se "Comboio..." era uma produção paupérrima que quase ninguém viu, como se explica esse fenômeno?

Bem, vocês conhecem o ditado "Quem tem um amigo, tem um tesouro"? Pois na época, além de batalhar por trabalhos como ator, Norris era proprietário de uma rede de escolas de karatê. E um de seus alunos, vejam só, era um tal de Steve McQueen, que apadrinhou Chuck, incentivou-o a estudar interpretação e abriu algumas portas para que ele virasse um novo herói de ação.


Em entrevistas, Chuck declarou que, nos seus primeiros filmes, tentava seguir o modelo dos policiais de Clint Eastwood. Logo, talvez não seja coincidência que OS BONS SE VESTEM DE NEGRO tenha no comando o veterano Ted Post, que antes havia dirigido o próprio Eastwood em "A Marca da Forca" e "Magnum 44".

Infelizmente, se a promessa do pôster de cinema era de um filme de ação eletrizante, a execução ficou bem longe disso. E o que no papel poderia ser um grande veículo para Norris mostrar suas habilidades como karateka, na tela se resume a uma trama de espionagem bem rasteira, estilo telefilme de sábado à noite, com algumas poucas cenas de pancadaria e perigo entre intermináveis diálogos dos personagens.


A trama começa em Paris no ano de 1973, durante as discussões para definir o fim da Guerra do Vietnã. Ali, o inescrupuloso diplomata norte-americano Conrad Morgan (James Franciscus, dirigido por Post também no ótimo "De Volta ao Planeta dos Macacos") faz um trato com autoridades vietnamitas: em troca de benefícios no cessar-fogo, ele armará um esquema para entregar de bandeja aos comunistas a cabeça de um time de elite da CIA, os "Tigres Negros" (Black Tigers), responsáveis por várias baixas entre o inimigo durante o conflito.

Assim, o pelotão liderado pelo Major John T. Booker (Norris) é enviado a um campo de prisioneiros no Vietnã para supostamente resgatar alguns soldados norte-americanos aprisionados. Mas, chegando lá, caem numa cilada e quase todos são mortos. Depois, os helicópteros que deviam transportar os sobreviventes não aparecem (lembra de "Rambo 2"?), e Booker é obrigado a liderar seus homens restantes pela selva até a fronteira.


Cinco anos se passam e a dívida do ardiloso Morgan com as autoridades vietnamitas continua em aberto. Portanto, assassinos da própria CIA começam a perseguir e matar aqueles soldados que sobreviveram à emboscada de anos atrás, e que agora levam vidas normais em outros empregos.

O herói Booker, quem diria, largou a vida de major do exército para ser professor de ciências políticas numa faculdade (!!!), mas também atua como piloto de automobilismo (!!!) nas horas vagas. E tem um bigode bem vistoso para assinalar a passagem do tempo - o bigodão se transformaria numa espécie de marca registrada do astro junto com seu Roundhouse Kick!


Em uma de suas aulas, ele é procurado pela jornalista Margaret (Anne Archer), que parece saber demais sobre a operação fracassada e também sobre as mortes misteriosas dos soldados que sobreviveram anos antes.

Quando um aliado de Booker na CIA (Lloyd Haynes) confirma os assassinatos de seus antigos parceiros, o herói alia-se a Margaret e parte numa corrida contra o tempo para encontrar os sobreviventes antes que eles sejam silenciados. E, ao mesmo tempo, tenta descobrir quem está por trás do plano - no caso, Morgan, prestes a assumir o poderoso cargo de Secretário de Estado!


Contando resumidamente até parece bem interessante, mas OS BONS SE VESTEM DE NEGRO desperdiça seu potencial por gastar muito tempo com as intermináveis conversas políticas entre Morgan e seus asseclas, e principalmente na investigação de Booker sobre o responsável pela operação fracassada no Vietnã (algo que o espectador já sabe desde a primeira cena).

O resultado é tão brochante que, no final, quando Booker e Morgan finalmente se encontram cara a cara, nem ao menos acontece o duelo entre os dois que todo fã de Chuck Norris estava esperando desde o início do filme.


Pelo contrário, o herói não levanta um único dedo para o vilão, nem ao menos dá um tapinha de leve no sujeito, resolvendo o caso de uma maneira extremamente sem-graça e anti-climática - quando qualquer pessoa em sã consciência gostaria de ver Norris dando seu famoso chute giratório em Franciscus, ou ao menos algo parecido com o tratamento que o Capitão Nascimento deu no político corrupto em "Tropa de Elite 2"!

No restante do filme, a coisa não é muito melhor: basicamente, entre as diversas reuniões de gabinete e diálogos que parecem não ter fim, vemos Chuck Norris viajando de um lado para o outro tentando proteger seus ex-parceiros dos Tigres Negros, mas sempre sem conseguir, porque os assassinos são muito mais eficientes do que ele.


O engraçado é que tanto Booker quanto os assassinos sempre chegam nos alvos mais ou menos na mesma hora, e assim os caras geralmente são mortos segundos depois de o herói cumprimentá-los e alertá-los sobre o perigo!

Post deve ter dirigido o filme no piloto automático, ainda mais considerando que um dos melhores filmes do Dirty Harry, "Magnum 44", foi feito por ele (acho até melhor que o original "Perseguidor Implacável").


Mesmo a cena da emboscada no Vietnã, repleta de tiros, explosões, mortes e algumas voadoras de Norris, é burocrática e sem brilho - com direito a um momento lamentável em que um sujeito em cima de uma árvore toma um tiro, cai e fica NITIDAMENTE pendurado pela corda que prendia o pé do figurante para ele não se estatelar no chão!

A única cena realmente foda de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO é aquela em que Booker enfrenta um assassino no aeroporto, após a explosão de um avião num atentado (por sinal, o efeito de sobreposição da explosão no fotograma é de chorar). O embate termina com o sujeito entrando em seu carro e tentando atropelar o herói... que dá uma voadora, atravessa o pára-brisa do carro com as pernas e mata o sujeito instantaneamente!!!


Na época do VHS, a qualidade da imagem era tão ruim que eu jurava que o próprio Chuck Norris tinha realizado a façanha. Revendo o filme com imagem de DVD, fica mais do que na cara que é um dublê. Segundo algumas fontes, trata-se do próprio irmão do astro, Aaron Norris, que depois iria dirigi-lo em vários filmes na década de 1980. Seja lá quem for, é uma acrobacia de tirar o chapéu, tão boa que acabou até no pôster.

(Aaron e Chuck dividem o crédito de coreografia das poucas lutas, e o irmão do astro também aparece rapidamente como um dos soldados da equipe dos Tigres Negros.)


Curioso é que se você assistir o trailer do filme (no final da resenha), vai ficar pensando que é pancadaria do começo ao fim. Não se engane: eles simplesmente pegaram as únicas cenas de ação e colocaram em sequência para tentar vender gato por lebre!

O roteiro de Bruce Cohn e Mark Medoff (nenhum deles têm grandes créditos no gênero) até tem algumas boas ideias, mas infelizmente não sabe aproveitá-las. Peguemos, por exemplo, as ocupações do personagem de Norris pós-Vietnã. Por mais difícil que seja difícil engolir Chuck como professor de ciências políticas numa faculdade (hahaha), isso é apenas uma desculpa para uma ceninha de três minutos em que seu personagem questiona a validade da Guerra do Vietnã.


Agora, por que diabos os roteiristas inventaram que Booker também é piloto de testes de carros de corrida, com direito a uma longa cena do herói "correndo" num autódromo (na verdade apenas a imagem foi acelerada na edição)? Se fosse uma desculpa para ele mostrar seu talento em alguma fantástica perseguição automobilística mais tarde, vá lá; mas não, o hobby do herói nunca se justifica, e esta cena no autódromo fica assim, solta, perdida, só para mostrar que Booker é tão fodão que, além de ex-milico e professor pacifista, também é piloto de carros de corrida!

E para uma história que é uma corrida contra o tempo (o herói correndo para tentar salvar seus parceiros de Vietnã da "queima de arquivo"), é incrível como os roteiristas não conseguem criar situações de tensão ou suspense. Pelo contrário, parece que Chuck Norris está sempre passeando, ao invés de aflito para chegar aos amigos antes que os assassinos enviados por Morgan.


Aí alguém poderá dizer que os filmes de ação dos anos 70 eram assim mesmo, mais lentos, menos barulhentos e fantasiosos. Nem vou entrar nesse mérito, mas é inquestionável o contraste na qualidade de, por exemplo, "Magnum 44", realizado pelo mesmo diretor Post cinco anos antes, e este filme aqui.

Apesar disso, OS BONS SE VESTEM DE NEGRO foi um sucesso nos cinemas, dando moral a Chuck Norris para continuar investindo em aventuras do gênero. Segundo o IMDB, o orçamento ficou na faixa de US$ 1 milhão (mixaria para os padrões atuais), e a bilheteria chegou a mais de 18 milhões de dólares.


Claro que ajuda o fato de esta ser uma produção bem mais decente do que a aventura anterior do astro, com um diretor de verdade no comando (embora Post não esteja em seus melhores dias) e um elenco repleto de caras conhecidas e atores de calibre, como Franciscus, Anne Archer e Dana Andrews.

Também é interessante ressaltar a presença de Soon-Tek Oh interpretando um dos bonzinhos - no caso, um dos Tigres Negros comandados por Booker. Ironicamente, ele e Norris voltariam ao Vietnã alguns anos depois como inimigos: Soon-Tek foi o vilão de "Braddock 2 - O Início da Missão".


Ainda que seja mais trama de espionagem do que filme de ação, OS BONS SE VESTEM DE NEGRO tem pelo menos um mérito além da produção caprichada e da voadora no pára-brisa: é esse fantástico título, que no original é ainda mais foda ("Caras Bonzinhos Vestem Preto"), numa inversão de um daqueles clichês clássicos de que o herói dos filmes sempre usavam roupas brancas enquanto os vilões vestiam trajes pretos.

Inclusive eu sugeriria uma refilmagem contemporânea com o roteiro recauchutado, cortes no bla-bla-bla e uma conclusão mais explosiva. Estrelada, quem sabe, por Jason Statham, que parece ser o Chuck Norris do século 21.

Mas sem câmera tremendo e edição de videoclipe, fazer favor.

Trailer de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO



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Good Guys Wear Black (1978, EUA)
Direção: Ted Post
Elenco: Chuck Norris, Anne Archer, James Franciscus,
Lloyd Haynes, Dana Andrews, Lawrence P. Casey,
Soon-Tek Oh e Aaron Norris.