quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

COMBOIO DE CARGA PESADA (1977)


São pouquíssimos os casos de pessoas que se transformam em lendas ainda em vida, e um desses raríssimos exemplos chama-se Carlos Ray Norris, ou simplesmente Chuck Norris. Outrora um simples ator carrancudo de filmes de ação de baixo orçamento, espinafrado pela crítica e por grande parte do público, Chuck foi promovido a uma celebridade cult com o passar dos anos.

Recapitulemos: além de ser astro de filmes populares como "Invasão USA" e "Braddock - O Super Comando", o barbudão foi ganhando uma aura quase mítica cujo ápice foram os "Chuck Norris Facts", uma divertida piada que virou febre na internet e deu origem a frases como "Papai Noel existia antes de esquecer o presente de Natal de Chuck Norris".

E pensa aqui comigo: além de Chuck Norris, quantos astros de cinema você conhece que já viraram...


...revista em quadrinhos da Marvel com arte de Steve Ditko (!!!) e o próprio nome em letras garrafais na capa? (Repare que não são aventuras de um personagem de Norris, como Braddock por exemplo, mas ELE PRÓPRIO é o personagem do gibi!)


...jogo de videogame batizado com o próprio nome, o "Chuck Norris Superkicks"?



...desenho animado batizado com o próprio nome, o "Chuck Norris Karate Kommandos"? (O único outro exemplo que me lembro é o "Jackie Chan Adventures")


...linha de brinquedos com o próprio nome (ligada ao desenho "Karate Kommandos")?


...série de livros propagando suas façanhas, e imortalizando em papel os famigerados "Chuck Norris Facts"?

Portanto, queridos leitores, Chuck Norris é inquestionavelmente uma lenda viva, doa a quem doer. E em sua homenagem, o FILMES PARA DOIDOS lança uma nova maratona temática de início de ano. Se 2011 começou com resenhas diárias de filmes "direct-to-DVD" de Steven Seagal, 2012 inicia com a MARATONA CHUCK NORRIS: uma semana de textos sobre as primeiras aventuras do mito, antes do sucesso estrondoso de "Braddock - O Super Comando"!

Como todos sabem, Chuck teve seu primeiro papel de destaque no cinema apanhando de Bruce Lee em "O Vôo do Dragão" (1972). Depois foi vilão novamente e apanhou de Don Wong em "Massacre em San Francisco" (1974).


Três anos depois, com COMBOIO DE CARGA PESADA, em 1977, a lenda viva ganhou seu primeiro papel como protagonista, e desde então construiu uma carreira sólida, fazendo praticamente um filme por ano até 1996, quando deixou o cinema de lado para dedicar-se ao seriado de TV "Walker, Texas Ranger".

Preparem-se, pois será uma semana com overdose de testosterona. Eis o calendário de atualizações:
COMBOIO DE CARGA PESADA (Breaker! Breaker!, 1977)
OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (Good Guys Wear Black, 1978)
FORÇA DESTRUIDORA (A Force of One, 1979)
OCTAGON (The Octagon, 1980)
AJUSTE DE CONTAS (An Eye for an Eye, 1981)
GOLPE MORTAL (Forced Vengeance, 1982)
MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO (Lone Wolf McQuade, 1983)

Começando, então, por COMBOIO DE CARGA PESADA...


Eu tenho lembranças muito vívidas da primeira vez que vi este filme porque esta foi uma das primeiras fitas que meu pai trouxe para casa, para testar o videocassete da família, recém-comprado no Paraguai - isso entre 1987-88.

Pois o velho ficou tão extasiado que não descansou até encontrar alguém que tinha dois videocassetes em casa (um verdadeiro luxo para a época), para poder gravar uma cópia pirata e reassistir o filme quantas vezes quisesse!


Já para mim, foi um dos primeiros contatos com um filme em VHS e com esse tal de Chuck Norris. Por isso, rever COMBOIO DE CARGA PESADA agora, mais de 20 anos depois de tê-lo assistido pela primeira vez (e finalmente com imagem decente e em widescreen), teve um ar de nostalgia.

E também foi uma surpresa: nas minhas memórias de infância, o filme era muito pior. Revendo-o agora, até achei bem divertido.


COMBOIO DE CARGA PESADA se encaixa em um bizarro subgênero batizado "trucksploitation": na década de 70, sem nenhuma explicação (pelo menos que eu tenha encontrado), começaram a pipocar filmes de ação sobre caminhoneiros valentões enfrentando todo tipo de adversidades no volante de enormes caminhões. Entre os títulos mais famosos estão "Truck Stop Women" (1974), de Mark L. Lester, e "White Line Fever" (1975), de Jonathan Kaplan.

Eu até ia escrever que COMBOIO DE CARGA PESADA era uma tentativa de pegar carona no sucesso de dois famosos trucksploitation do período: "Agarra-me se Puderes", com Burt Reynolds, e "Comboio", de Sam Peckinpah, mas a verdade é que o filme foi realizado no mesmo ano de "Agarra-me...", e "Comboio" saiu só em 1978!


(E sempre é bom lembrar que "Agarra-me se Puderes" foi um sucesso de bilheteria tão grande em 1977 que só ficou atrás de "Star Wars" entre os campeões daquele ano! Portanto é bem possível que a comédia com Burt Reynolds tenha roubado a atenção desse filme de estréia do Chuck.)

Curioso que os caminhões são as estrelas do pôster original de cinema, já que Chuck Norris ainda não era um grande astro (lembre-se: este é o seu primeiro papel como protagonista). Somente anos depois, com a fama do ator, as capinhas de VHS e DVD começaram a utilizar enormes fotos dele em destaque (veja algumas abaixo, assim como a capa do VHS brasileiro lançado pela Poletel).


Também há uma outra curiosidade: COMBOIO DE CARGA PESADA é um dos três filmes de Chuck Norris que Sylvester Stallone "semi-plagiou" posteriormente.

Se "Rambo 2" aproveita cenas e idéias de "Os Bons Se Vestem de Negro" e "Braddock - O Super Comando" (ambos lançados antes), COMBOIO DE CARGA PESADA e "Falcão, O Campeão dos Campeões" têm em comum o personagem principal caminhoneiro e especialista em queda-de-braço! Até mesmo o rival de Chuck na queda-de-braço, um grandalhão careca e bigodudo, é idêntico ao arquiinimigo de Falcão no filme do Stallone, como você pode ver nas fotos abaixo!


Chuck "interpreta" (muita generosidade de minha parte) J. D. Dawes, um caminhoneiro gente boa e mestre em artes marciais (claro...). Nas suas paradas em restaurantes de beira de estrada, entre um frete e outro, ele demonstra sua habilidade disputando quedas-de-braço por apostas.

J.D. tem um irmão mais novo, Billy (Michael Augenstein), que se prepara para sua primeira viagem com carga. Só que ele dá o azar de parar em Texas City, Califórnia, uma cidadezinha no meio do nada governada por um juiz doidão e por policiais corruptos.


Eles costumam extorquir motoristas com pesadas multas por delitos não cometidos, somente para poder confiscar suas cargas. Billy é "julgado" por eles e condenado à prisão sem poder se defender. Como diria Schwarzenegger: "Big mistake".

Nesse ínterim, J.D. fica preocupado com o sumiço do irmão e resolve investigar. Pega sua caminhonete estilosa, com o desenho de uma águia na lataria (ou será um falcão? xiiii...), e segue os passos do desaparecido até Texas City, onde também acaba tendo problemas com a lei local. Claro que o fato de ser mestre em artes marciais ajuda, e logo Falcão... ops!... J.D. estará lutando contra a cidade inteira para libertar Billy. Literalmente.


COMBOIO DE CARGA PESADA foi dirigido por um sujeito chamado Don Hulette, que faleceu em 2008 e nunca teve créditos muito expressivos além desse filme. Na verdade, Hulette era mais conhecido como músico do que como cineasta, e inclusive compôs a trilha para o relançamento de alguns clássicos do cinema mudo, como "O Homem Mosca" e "O Calouro", de Harold Lloyd. Claro que ele também compôs a trilha desse seu filme aqui. Já o roteiro é de Terry Chambers, outro que não tem créditos dignos de menção.

Talvez essa falta de experiência da dupla justifique a bagunça que é o filme em certos momentos, como ao misturar ação e comédia meio sem critério.


Por exemplo, as cenas em que J.D. tenta interagir com a excêntrica população caipira de Texas City antes do pau comer, que são muito divertidas, parecem ter sido a inspiração para o excelente "Reviravolta", de Oliver Stone, produzido exatamente 20 anos depois.

Na conclusão, os amigos motoristas de J.D. aparecem para destruir a cidade com seus caminhões, e eles assim o fazem. Mas o filme termina sem explicações necessárias, como o que aconteceu ao juiz malucão que dominava a cidade: um caminhão invade a sala da sua casa e ele simplesmente some da narrativa, sem que se diga se morreu ou escapou para reconstruir o local.


Por sinal, vale destacar a excelente interpretação do veterano George Murdock como o juiz, no limite entre a insanidade e a crueldade. Segundo o IMDB, Murdock apareceu em mais de 180 trabalhos (entre filmes e seriados), e continua trabalhando!

Outros talentos envolvidos nessa produção de fundo de quintal são Jack Nance (recém-saído de "Eraserhead"), como um amigo malucão de J.D., e Steven Zaillian, que começou como editor aqui e anos depois firmou seu nome como roteirista de blockbusters (entre eles, "A Lista de Schindler", que lhe deu o Oscar de Melhor Roteiro, e o recente "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres").


Como esse é seu primeiro filme no papel principal, Chuck se esforça e dá o seu melhor na tela. Ainda está na sua fase pré-barba, com cara limpa e cabelinho loiro, e faz um personagem mais falante e simpático do que os carrancudos e silenciosos heróis exterminadores que protagonizou na década de 1980.

Mesmo assim, o roteiro lhe dá várias oportunidades para distribuir "Roundhouse Kicks" (aquele demolidor chute giratório que ele dá em todos os seus filmes), e no final há uma luta muito boa entre J.D. e o delegado corrupto da cidadezinha.


Esta cena (confira o vídeo no final da resenha) tem uma pegada de western spaghetti, com os dois adversários "se estudando" durante um tempão e vários closes e "super-zooms" no rosto inexpressivo de ambos. Depois, a pancadaria rola em câmera lenta, com um belo trabalho de direção e montagem. Sem contar que a ambientação, num curral, permite uma mais do que gratuita analogia entre Chuck Norris e o cavalo selvagem que fica galopando de um lado para o outro...

A coreografia das cenas de luta foi do próprio Norris, e é uma pena que os realizadores não mostraram o herói castigando o juiz também. Afinal, era ele o grande vilão, e não o pobre policial que pagou o pato no lugar do patrão!


É bem marcante o contraste entre COMBOIO DE CARGA PESADA e as obras que tornariam Norris popular, principalmente as aventuras que fez com a Cannon Films nos anos 1980. Se filmes como "Braddock" e "Comando Delta" imortalizaram o astro como o herói que fala pouco e bate (ou atira) muito - e geralmente um herói assexuado, sem muito interesse em pares românticos -, este aqui e todos os outros trabalhos da primeira fase da filmografia de Chuck trazem um montão de diálogos entre as lutas, e até um caso de amor. No caso desse aqui, entre o protagonista e uma das únicas mulheres da cidade, a viúva Arlene (Terry O'Connor), que, por conveniências do roteiro, é filha do juiz malucão!

Tudo considerado, COMBOIO DE CARGA PESADA é até bem melhorzinho do que eu me lembrava e do que as críticas encontradas na internet dizem. E tem um clima cômico que ajuda o espectador a embarcar no absurdo da história (os caipiras da cidadezinha são tão estereotipados que até parece que Chuck Norris invadiu o set de "2.000 Maniacs", do Hershell Gordon Lewis!).


Claro que o ator faria coisas bem melhores logo em seguida, mas para um primeiro filme como protagonista até que não está mal. Principalmente se olharmos os primeiros filmes estrelados por outros astros de ação dos anos 80, tipo Stallone (em "O Garanhão Italiano") e Schwarzenegger (na horrível comédia "Hércules em Nova York").

Comparado a eles, até que Chuck Norris começou com o pé direito. Neste caso, literalmente - e na cara de vários adversários!

PS: Por que diabos o filme ganhou o título "Comboio de Carga Pesada" aqui no Brasil? Só para fazer o link com o "Comboio" do Peckinpah? Afinal, não há exatamente um comboio no filme (mesmo no final, quando os caminhões invadem a cidade, são só quatro ou cinco veículos no total), e tanto faz se a carga é pesada ou não, se é que os caras estão transportando alguma carga. Ah, esses inventores de títulos nacionais e suas ideias malucas...

A luta final de COMBOIO DE CARGA PESADA



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Breaker! Breaker! (1977, EUA)
Direção: Don Hulette
Elenco: Chuck Norris, George Murdock, Terry O'Connor,
Don Gentry, John Di Fusco, Michael Augenstein,
Ron Cedillos e Jack Nance.

14 comentários:

Anônimo disse...

Este filme passava direto na Gazeta aos domingos!! Cheio dos esteriótipos e furos, mas muito divertido!!!

Felipe M. Guerra disse...

É bem provável, porque a Gazeta exibia vários filmes do catálogo da Poletel (a distribuidora que lançou "Comboio de Carga Pesada" em VHS), e inclusive com legendas. Bons tempos aqueles...

Anônimo disse...

Bons tempos que não voltam mais...

gélikom disse...

O titulo pode ser uma junção do filme COMBOIO com o seriado CARGA PESADA muito popular na época

Anônimo disse...

Por acaso nunca tinha visto este do Chuck Norris.Realmente para um primeiro filme como protagonista não está nada mau! A luta no final tem toques de wester á Sergio Leone,ficando fixe até.
Espero por mais!
abrç
Vitor Alves

Felipe M. Guerra disse...

GÉLIKOM, muito boa a sua teoria. Eu até tinha esquecido de citar, na resenha, que a febre do "trucksploitation" chegou ao Brasil com o seriado "Carga Pesada" (que, se não me engano, é exatamente da década de 70). Só pode ser isso: Comboio + Carga Pesada. Elementar, meu caro Watson...

Anônimo disse...

Grande Homenagem Felipe.
McQuade é imbatível.

Anônimo disse...

Eu sei que não tem nada a ver, mas comente sobre o filme "Comboio do Terror".

Anônimo disse...

Você não vai comentar sobre "Fúria Silenciosa (Silent Rage)?

Felipe M. Guerra disse...

"Fúria Silenciosa" vai ficar pra outra hora.

Lázaro Cassar disse...

Lembro que vi esse filme num VHS da Poletel, com imagem embaçada (como era de costume com os filmes da Poletel) no início dos 90's, e fiquei frustradíssimo com o fato de Norris não quebrar um único pescoço, e as lutas em alguns momentos parecerem as de Hill & Spencer; mas hoje adoro o ar camp desse filme.
Ah, Felipe, que tal em outro momento, falar sobre a triste "trilogia final" do Chuck: "Unidos para vencer"(com Jonathan Brandis, que se suicidou pouco depois); "Top Dog - uma dupla animal" e o horrendo e mítico "Forest Warrior".

Felipe M. Guerra disse...

LÁZARO, eu gosto do "Unidos para Vencer" (Sidekicks), até porque é mais uma prova de que o Chuck sempre esteve na frente de outros heróis de ação da mesma época: a trama lembra muito "O Último Grande Herói", do Schwarzenegger, mas o filme saiu um ano antes, e custou 10% do orçamento do outro!

Robson disse...

Cra, eu não consigo gostar desse filme, acho esquisitão, sei lá, vai ver que como foi citado na crítica, essas alternâncias entre comédia e filme mais sério me deixou confuso! Só sei que todas as vezes que eu vi(talvez precise rever denovo)eu detestei! Uma curiosidade bizarra é que a capa do vhs que vi desse filme tinha o Norris copiado do Invasão U.S.A (alguém viu essa capa?). Sobre a história do videocassete, eu passei por algo semelhante, mas no meu caso foi com 2 vhs piratões do Highlander e do Cobra, os primeiros filmes que vi num Videocassete!!!!

Rafael Medeiros Vieira disse...

Filmes de caminhões vieram na esteira do sucesso de Duel de Steven Spielberg.