sábado, 7 de janeiro de 2012

OCTAGON (1980)


O "Octógono" (em inglês, "Octagon") é o nome de uma base secreta, encravada em algum local da América Central, onde guerreiros orientais treinam mercenários nas milenares táticas dos assassinos ninjas. Apesar de ser também o título deste filme, o Octógono é tão secreto que ninguém, do começo ao fim da história, se refere ao lugar utilizando tal nomenclatura - e este é o menor dos erros da obra!

OCTAGON (exibido na TV com o apropriado subtítulo "Escola de Assassinos") foi um dos últimos trabalhos da filmografia de Chuck Norris que eu vi, e apenas quando foi relançado em DVD no Brasil pela Spectra Nova. Ironicamente, foi o estrondoso sucesso de bilheteria desta aventura do começo da década de 1980 que transformou Norris definitivamente num dos grandes astros de ação do período.


Confesso que idealizava OCTAGON de uma forma completamente diferente antes de finalmente assisti-lo, por tudo que li e ouvi sobre o filme. Imagine só: ver o grande karateka Chuck em início de carreira numa aventura que lembra o cinema de Hong-Kong, trocando sopapos e voadoras com ninjas, e até pegando numa espada samurai para duelar com o grande vilão - que, num clichê que lembra muito western spaghetti, vem a ser o seu meio-irmão oriental!

Foi, portanto, um decepção descobrir que o grande filme de ação e de ninjas com o qual eu sonhava demora uma eternidade para pegar no tranco: são 103 minutos no total, mas apenas nos 20 minutos finais é que Norris finalmente invade o Octógono e sai matando ninjas a torto e a direito!


Até então, a trama é levada na base do "devagar, quase parando", com uma infinidade de personagens que entram e saem de cena, falam pra caramba no processo, e um Chuck Norris que raramente luta - algo muito parecido com "Os Bons Se Vestem de Negro", outro soporífero trabalho do começo da carreira do astro.

Enfim, confesso que não gostei de OCTAGON na primeira vez que o vi, mas confesso também que o filme cresceu numa recente revisão: sabendo que a pancadaria estava toda no desfecho, tentei avaliar o filme com outros olhos, buscando compreender o porquê de tanto "desenvolvimento de personagens" - ou, mais especificamente, o porquê de tantos personagens em primeiro lugar!


E embora continue achando que a narrativa demore tempo demais para começar a ficar interessante, OCTAGON tem várias qualidades que o colocam um pouco acima da média de mediocridade dos trabalhos iniciais de Chuck - é muito melhor, produzido e dirigido inclusive, do que os três anteriormente analisados: "Comboio de Carga Pesada", "Os Bons Se Vestem de Negro" e "Força Destruidora".

Norris interpreta Scott James, um veterano do Vietnã, lutador aposentado e, secretamente, também um mestre ninja (!!!), já que foi criado como filho adotivo por um grande conhecedor de artes marciais, e treinado desde a infância para ser o melhor lutador do planeta.

Scott passa seus dias malhando na academia com o amigo e também lutador A.J. (o canastrão Art Hindle); nas horas vagas, assiste a shows de ballet (!!!) em teatros chiques, vestindo smoking e tudo mais - e ver Norris de smoking é quase tão esquisito quanto ver Steven Seagal de baby-doll.


Ao final do espetáculo, nosso herói se interessa pela tal dançarina de ballet cuja apresentação foi assistir. Ela se chama Nancy (Kim Lankford), e aceita prontamente o convite do herói para uns drinks.

O casal vai até a casa da moça, mas lá ambos são atacados por ninjas. Nancy é morta e Scott surra todo mundo até o nocaute. Mas não se preocupa em interrogar algum deles para obter informações sobre o porquê do ataque, e portanto os vilões logo desaparecem, deixando para trás um monte de corpos - toda a família de Nancy, que já havia sido exterminada antes de o casal chegar.

O engraçado é que o herói não fica entristecido com a morte da nova namorada (na verdade, a personagem é simplesmente esquecida em menos de 5 minutos); por outro lado, fica encucado com a aparição dos ninjas. De onde teriam vindo? O que querem?


Scott procura um velho amigo chamado McCarn (Lee Van Cleef!), que é caçador de recompensas e "líder de um grupo anti-terrorista" (não tente entender). Ele é o primeiro a comentar sobre uma tal base secreta onde mercenários recebem treinamento ninja para poderem praticar terrorismo e crimes políticos ao redor do mundo.

Ao mesmo tempo, entra em cena Justine (a bela Karen Carlson, numa interpretação medonha), uma milionária que tenta convencer Scott a invadir o Octógono para matar seu líder, o homem responsável pela morte de seu pai.

Aí é que o bicho pega: o líder do Octógono é ninguém menos que Seikura (Tadashi Yamashita, de "American Ninja"), meio-irmão oriental de Scott, que foi treinado nas mesmas artes ninja pelo pai e mestre de ambos, mas deserdado e expulso de casa após uma discussão ainda na adolescência.


Como acontecia com "Os Bons Se Vestem de Negro", a trama parece interessantíssima no papel. O problema é a narrativa titubeante: OCTAGON se arrasta desnecessariamente por mais de uma hora, e neste tempo Norris simplesmente fica perambulando pelo cenário, de um lado a outro, sem fazer muita coisa, e procurando não lutar porque prometeu a si mesmo que a violência não leva a nada.

O roteiro, apesar de ser uma exibição de tudo que é mais brucutu em matéria de cinema de ação, foi escrito por uma mulher (!!!), a também atriz Leigh Chapman, cujos créditos incluem ainda o roteiro do cult movie "Dirty Mary, Crazy Larry" (1974), com Peter Fonda e Susan George.


Leigh trabalha com um argumento original de Paul Aaaron, que havia dirigido Chuck em "Força Destruidora" um ano antes, e talvez fosse o diretor original desse filme aqui também, antes de ser substituído por Eric Karson.

O nome não lhe diz nada? Bem, Karson não é exatamente conhecido por sua vasta filmografia (fez apenas cinco longas e um curta), mas tem outros dois trabalhos que merecem ser conhecidos por fãs de filmes de ação: "Força Oposta / Onze para o Inferno" (1986), com Tom Skerritt, e "Contato Mortal" (1988), com Jean-Claude Van Damme.


Uma das coisas mais diferentes de OCTAGON é incluir uma espécie de "sexto sentido" do herói: uma narração em primeira pessoa que ressoa como eco, para dar a ideia de que o espectador está ouvindo os pensamentos e conflitos internos de Scott.

Só que este recurso é repetido tantas vezes que se torna chato. É como se houvesse uma necessidade imbecil de o herói ficar toda hora explicando o que está pensando para o espectador, falando para si mesmo frases como "Será que vou conseguir matar Seikura?", ou "Eles estão próximos, eu posso sentir", ou ainda "A.J., eles te pegaram! Foi minha culpa...". Às vezes a tal narrativa com eco explica até coisas que o espectador está vendo por conta própria, como se fosse uma descrição para deficientes visuais!


O roteiro também enrola um tempão com o entra-e-sai de personagens que participam da "investigação" do herói sobre a localização do Octógono. Se o próprio A.J., um dos personagens principais, jamais diz a que veio (é apenas o tradicional melhor amigo que só existe para morrer e ser vingado nos filmes de Chuck Norris), o que dizer do caçador de recompensas McCarn? E de todo um grupo de mercenários com quem Scott acaba topando na sua busca pelo Octógono? Ou de um comerciante de casacos-de-pele que financia Seikura e seu grupo? Ou mesmo da tal dançarina morta nos primeiros cinco minutos do filme, cuja curta presença em cena jamais é justificada?

E Scott James, como herói, é um desastre: tenta escapar das brigas e recusa-se a ir atrás de Seikura até ser tarde demais; neste ínterim, todas as pessoas que precisavam da sua proteção já foram mortas pelos vilões, e são pelo menos três pobres vítimas até que o "herói" finalmente levante a bunda da cadeira para ir caçar os ninjas!


Some-se a isso tudo o fato da tal base secreta ser tão secreta quanto o Estádio do Maracanã: praticamente todos os personagens que aparecem em cena conhecem o lugar ou lá estiveram. E quando Scott e A.J., em momentos diferentes, vão até o tal país da América Central (nunca nomeado, mas as filmagens aconteceram no México) para tentar invadir a base, cada um deles descobre a localização do complexo facilmente, bastando para isso conversar com meia dúzia de pessoas na rua! Assim até eu!

Enfim, OCTAGON tem uma tonelada de personagens, acontecimentos e informações inúteis (a longa cena em que Justine flerta com Scott pela primeira vez, envolvendo um carro parado no acostamento, é igualmente descartável). A maior parte do que está no corte final poderia ter ficado na sala de edição, melhorando muito o ritmo do filme - principalmente a já citada visita do herói ao quartel-general de um grupo de mercenários para tentar descobrir a localização da "base secreta" de Seikura.


A boa edição de Dann Cahn até tenta tornar a coisa menos chata, intercalando as cenas songa-mongas em que o herói não faz nada com outras que mostram o treinamento de um novo grupo de recrutas no Octógono (quando finalmente vemos alguma ação e ninjas lutando).

Na verdade, eu jamais recomendaria OCTAGON se não fosse pelos 20 ou 30 minutos finais. É quando entra em cena uma terceira personagem feminina (!!!), a guerrilheira Aura (Carol Bagdasarian), e o herói finalmente resolve invadir o Octógono e matar um montão de ninjas com as próprias mãos e pés, com faquinhas (daquelas escondidas nas luvas) e com uma espada samurai, é claro!


E é quando ele finalmente encara, frente a frente, seu meio-irmão malvado Seikura. Segundo o IMDB, a revista gringa Fighting Stars elegeu esta luta final como a 13ª entre as 25 melhores cenas de luta de todos os tempos.

Não é para tanto, e o ódio entre meio-irmãos que não se veem desde a adolescência não é satisfatoriamente explorado no momento. Ainda assim, a luta é bem filmada, embora rápida e com uma conclusão brochante.


Os grandes momentos de OCTAGON acontecem quando Scott vai enfrentando vários "sub-chefes" do Octógono, como se estivesse num jogo de videogame. Entre eles está um gigantesco ninja mascarado, que se pega com o herói numa feroz luta com espadas, sai (aquelas faquinhas tipo as que a Elektra usa nos quadrinhos) e finalmente com os punhos - tarefa nem um pouco fácil, considerando que o vilão não pára de lutar nem mesmo quando está com o corpo em chamas (uma cena copiada, com o fator trash nas alturas, na aventura turca "Death Warrior")!

O tal ninja mascarado, creditado como Kyo no final (embora seu nome nunca seja citado no filme, como acontece com o próprio Octógono), é interpretado por Richard Norton, aqui em sua estréia no cinema.


Norton foi vilão em vários filmes de pancadaria (como o hilário "Gymkata - O Jogo da Morte"), atuou como dublê de Norris neste e em seus dois filmes seguintes ("Ajuste de Contas" e "Vingança Forçada"), e nos anos 1990 tentou a sorte como protagonista, estrelando várias produções baratas de ação.

E ele deve ter causado uma boa impressão, já que aparece em OCTAGON também num segundo papel, como um dos mercenários daquele grupo invadido por Scott antes de finalmente chegar ao Octógono.

Ah, a cena do ataque à base dos ninjas também inclui um momento muito legal em que o herói precisa atravessar um lago pulando de uma plataforma para outra, e desviando de ninjas que pulam da água para agarrá-lo. Isso me lembrou muito uma fase do velho jogo de fliperama "Shinobi", que eu joguei muito em sua versão para Master System.


Como já havia acontecido nos filmes anteriores, Chuck voltou a trabalhar com a família em OCTAGON: ele e o irmão Aaron Norris coreografaram as lutas, e tanto Aaron quanto o filho do astro, Mike, aparecem em pontas (Mike interpreta Scott aos 18 anos, numa boa escolha, já que ele realmente lembra uma versão jovem de Chuck).

Além de todos os já citados, o elenco tem outras caras conhecidas: Brian Libby (que depois enfrentaria Chuck Norris como uma espécie de clone de Michael Myers em "Fúria Silenciosa") é um dos mercenários que está fazendo o curso intensivo de ninjas no Octógono, e Gerald Okamura um dos instrutores; Ernie Hudson é um lutador amigo de A.J.; Tracey Walter é um agenciador de mercenários, e Brian Tochi (o japa de "A Vingança dos Nerds" e "Loucademia de Polícia" Partes 3 e 4) interpreta Seikura na juventude. Vários deles podiam ter ficado no chão da sala de edição, tal a inutilidade de seus personagens.


Chato e pouco empolgante (embora o final seja bastante movimentado), OCTAGON está entre os muitos filmes fracos da carreira de Norris. Mas, apesar da narrativa lenta e dos óbvios defeitos, não é difícil de entender porque foi um sucesso na época do seu lançamento.

Afinal, foi um dos primeiros filmes norte-americanos a apresentar os guerreiros ninja ao público ocidental (embora eles já tivessem aparecido antes, e brevemente, em outras obras, como "Elite de Assassinos", de Sam Peckinpah, que é de 1975).


Ao longo da década de 80, e até a metade dos anos 1990, ninjas viraram figurinhas carimbadas no cinema de ação ocidental, dando origem a franquias como "American Ninja" e a série de filmes produzidos pela Cannon com Sho Kosugi (são três, sendo que o primeiro deles é "Ninja - A Máquina Assassina", estrelado por Franco Nero!).

Portanto, são motivos de sobra para que todo fã de ninjas e de Chuck Norris queira assistir a OCTAGON. Mas não se sinta culpado se tirar umas sonecas aqui e ali. Porque, sem injustiça, a melhor coisa é a meia hora final, e você não vai perder quase nada se avançar o filme todo até chegar aos finalmentes.


E apesar de ter a chance de demonstrar suas habilidades como "american ninja", OCTAGON definitivamente é um ponto negativo para a masculinidade do astro.

Afinal, ele tem três interesses românticos na trama, mas não vai para o rala-e-rola com duas das garotas - e só come a terceira porque ela se atira pelada em cima dele. Um detalhe vergonhoso que definitivamente foi deixado de fora dos lendários "Chuck Norris Facts"...

PS: Octógono, como todos sabem, também é o formato do ringue das lutas do UFC (Ultimate Fighting Championship, o popular "vale-tudo). Será por causa do filme, ou é apenas uma coincidência?

Trailer de OCTAGON



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The Octagon (1980, EUA)
Direção: Eric Karson
Elenco: Chuck Norris, Karen Carlson, Lee Van Cleef,
Art Hindle, Tadashi Yamashita, Carol Bagdasarian,
Richard Norton e Brian Libby.

12 comentários:

Anônimo disse...

Felipe, qual o melhor filme de ninjas na sua opinião: "Octagon" ou "Ninja - A máquina assassina"?

Felipe M. Guerra disse...

Entre esses dois, acho que ainda prefiro "Octagon". O outro só vale pelo fator trash.

Anônimo disse...

Eu gosto da abertura de "A máquina Assassina" com aquele ninja apresentando as armas. O que estraga nela é o chute furado que o ninja branco dá no ninja negro. Reparou?

Fernando disse...

Esse Octagon nunca assisti, mas confesso que, apesar dos defeitos, fiquei curioso.

E já que citaste "Contrato Mortal" do Van Damme, o que tu achas desse filme? Lembro que, na época, quando eu olhei, eu achei uma completa porcaria.

Anônimo disse...

Chuck Norris não dorme. Ele espera.

Anônimo disse...

Felipe, acabei de assitir um filme que se encaixa perfeitamente na proposta do blog:
http://www.imdb.com/title/tt0085951/

Robson disse...

Este juntamente com o Comboio são na minha opinião os filmes(sérios)mais chatos do Norris, vi esse octagon pela ultima vez em vhs ainda há uns 15 anos atrás ,mas achei chato, o fato do Norris pensar narrativamente, achei muito parecido com histórias em quadrinhos! E a cena do fogo do Death Warrior turco é desgraçada de ruim como todo o resto do filme rsrsrs

Anônimo disse...

Cara, pelamordedeus, apaga esse post antes que ele leia! Você endente né, Felipe? ... Felipe?

Anônimo disse...

Os filmes "Octagon" e "Força Destruídora" são vendidos em dvd em uma mesma embalagem pela Spectra Nova. E é baratinho. Vale a pena comprar pela curiosidade.

Anônimo disse...

Desculpe, me enganei. Na verdade, "Octagon" é vendido em uma sessão dupla com "Detonando em Barcelona" com Jackie Chan. E "Força Destruídora" com "O Combate - Lágrimas de um guerreiro" com Mark Dacascos.

Carlos Moreiras disse...

Cara,sou um grande fã de Norris e confesso,fico um pouco chateado ao ver algumas críticas exageradas sobre o astro,mas,tenho que dizer que sou um grande fã dos seus textos.Você consegue fazer uma análise dos pontos fracos e pontos fortes dos filmes,trazendo para nós,justamente a impressão que temos ao assistir os filmes em questão.Faz isso de uma forma brilhante e inteligente!

Leonardo Peixoto disse...

Comecei a ler sobre Octagon depois de ler a resenha de Death Warrior ! Tomara que filmes turcos apareçam mais no blog :)
Sobre o país da América Central onde fica a escola de assassinos , talvez seja Val Verde , país fictício usado quando era preciso uma localidade na América Central ou do Sul sem correr risco de entrar em disputa legal ou diplomática !