domingo, 20 de outubro de 2019

Ainda mais resenhas (nem tão) curtinhas para analfabetos funcionais

CORINGA (Joker, 2019, EUA/Canadá. Dir: Todd Phillips)
Deve ter sido apenas coincidência, mas que momento curioso para lançar um filme como este “Coringa”: exatos 30 anos depois do “Batman” do Tim Burton, o primeiro filme com um Coringa psicopata para adultos depois do Coringa bufão de Cesar Romero na série de TV com o Adam West, e exatos 20 anos depois de “Clube da Luta”, com o qual compartilha a mensagem, parte do ato final e o epíteto (exagerado, é claro) de “filme perigoso”. Para quem tem em mente os universos cinematográficos da DC e da Marvel, ressalte-se que este não é um filme de super-herói como os que vêm chegando aos cinemas desde, sei lá, o Superman do Christopher Reeve. Trata-se do completo oposto: um drama/thriller carregado, sem cenas de ação e sem final feliz, onde o foco da narrativa é o VILÃO, e onde o espectador nunca terá o conforto do Batman (ou do Comissário Gordon, que seja) aparecendo para salvar o dia. Enfim, soa tanto como uma aposta arriscadíssima (nesses tempos em que as pessoas parecem PRECISAR de super-heróis) quanto uma ideia de jerico, ainda mais depois de fracassados “filmes de vilão” como “Esquadrão Suicida” e “Venom”. Eu mesmo pretendia ficar longe de “Coringa”, mas aí saiu o primeiro trailer, prometendo uma mistura bizarra de loucura e tristeza; ele ganhou o prêmio principal no Festival de Veneza, e, principalmente, críticos e “especialistas” começaram a condenar a suposta periculosidade da mensagem do filme. Com isso, para mim, o filme se tornou obrigatório. E eu gosto de ver diretores conhecidos por comédias trabalhando com super-heróis. Jon Favreau se saiu muito bem com o Homem de Ferro, e os Irmãos Russo, vindos de umas comédias horríveis, fizeram de “Capitão América - O Soldado Invernal” uma das aventuras mais adultas e interessantes do Marvel Studios. Já o responsável pela trilogia “Se Beber Não Case”, Todd Phillips, começa enveredando por um terreno perigosíssimo ao criar uma narrativa 100% focada no seu anti-herói, um sujeito desequilibrado prestes a tornar-se um assassino, e sem um herói para persegui-lo (e funcionar como alívio para o espectador). Guardadas as devidas proporções, é o mesmo estilo de thrillers pesados sobre serial killers, como “Henry - Retrato de um Assassino” e “Maniac” - acompanhamos o filme inteiro pelos olhos de um louco perigoso. Phillips também quase cai na armadilha de fazer o espectador SIMPATIZAR com o vilão, tipo o Rob Zombie tentando nos deixar com peninha do Michael Myers naquela atrocidade que foi o remake de “Halloween”. Quando Phillips mostra o sujeito que se tornará Coringa sendo roubado e espancado de maneira gratuita em duas oportunidades, dificilmente alguém não ficará do lado dele. Felizmente, o diretor consegue escapar com brilhantismo destas duas armadilhas e torna o filme uma alegoria sobre a violência urbana na linha de “Taxi Driver” (com o qual tem MUITAS semelhanças) e também do primeiro “Desejo de Matar”, mais toques de “O Rei da Comédia”. O Coringa de Todd Phillips vive na Gotham City caótica do começo dos anos 1980, uma espécie de Nova York pré-Tolerância Zero, e ainda sem um Batman para protegê-la (a data exata será revelada no final graças à marquise de um cinema, numa das inspiradas brincadeiras do filme, linkada com a própria origem do herói). Por causa da criminalidade em alta e de uma greve de lixeiros que transformou a cidade num ninho de ratos, os cidadãos agem como loucos furiosos à espera de um fósforo para explodir o barril de pólvora. Este, claro, será o Coringa, que, como Travis Bickle no já citado “Taxi Driver”, acabará sendo erroneamente adotado como um símbolo - um bode expiatório para o caos. Em interpretação magistral de Joaquin Phoenix, o Coringa agora tem um jeitão tímido e discreto; efeminado, às vezes. Ele é um palhaço que vive de bicos pelas ruas de Gotham, mas sofre de um distúrbio psicológico que faz com que dê gargalhadas descontroladas em momentos inoportunos quando nervoso; um riso incômodo, dramático, que contrasta com sua cara triste eternamente retocada por um falso sorriso vermelho de palhaço. Uma soma de fatores (incluindo o fim do programa social que lhe garante consultas mensais e remédios gratuitos) faz com que o “palhaço triste” seja atirado de volta às ruas para enfrentar uma sociedade que teme e que, como ele mesmo, parece estar enlouquecendo. Quando finalmente inicia sua carreira de crimes, liquidando três jovens ricos que o hostilizaram sem nenhuma razão no metrô, o assassino vestido de palhaço vira modelo para os marginalizados da sociedade, que resolvem adotar a máscara de palhaço para promover a luta de classes em Gotham - num arremedo de Tyler Durden e seu Projeto Caos. “Coringa” foi concebido como um filme independente, sem nenhuma relação com o universo dos quadrinhos ou com os outros filmes de super-heróis da DC Comics. Mas fica difícil não pensar (ainda mais considerando o ato final) que se o Coringa de Joaquin Phoenix não é o vilão oficial que se torna o arqui-inimigo do Batman, muito possivelmente foi quem o inspirou. Se em muitas histórias em quadrinhos e filmes anteriores insinua-se que o Coringa só surgiu por causa do Batman, Phillips é irônico ao enfatizar que, no seu filme, é o Batman que nasce por causa do Coringa - ele ainda coloca Thomas Wayne, pai de um certo Bruce Wayne, a discursar sobre “covardes que se escondem atrás de máscaras”. E sim, o filme é bastante violento, com tesoura enfiada no olho, execuções a tiros, balaços na cabeça e um Coringa lavado de sangue, o que me leva a imaginar como será engraçado caso algum pai desavisado leve seu filhinho para o cinema acreditando ser só mais um filme de super-herói... Longe de ser a obra-prima que vem se falando por aí (Phillips inclusive passa do momento ideal de terminar o filme, quando rola um dramático fade-in durante o caos pelas ruas de Gotham), “Coringa” ainda assim é uma belíssimo filme, com coragem para fugir da zona de conforto numa época em que os estúdios não estão querendo se arriscar. Passa longe, também, de ser o filme perigoso que se alardeia por aí. Muita gente sugeriu que a obra pode ser o gatilho necessário para alguém cometer suicídio ou sair a dar tiros em inocentes espectadores de salas de cinema. Oras, pois basta olhar pra fora da janela para perceber que há desculpas mais do que suficientes para despirocar, sem a necessidade de colocar a culpa no cinema...


MUTANT BLAST (2018, Portugal. Dir: Fernando Alle)
Queria escrever reviews em inglês só para poder usar o trocadilho “I had a blast with Mutant Blast”! Um dos filmes mais divertidos do Fantaspoa 2019, este terror/comédia de baixo orçamento vem de Portugal e foi dirigido pelo mesmo Fernando Alle do impagável curta-metragem “Banana Motherfucker” (2011), e produzido pela Troma (sim, “a” Troma). Conta, ou reconta, aquela história já bastante conhecida sobre uma infecção que transforma pessoas em zumbis - ou “z***bis”, porque os personagens não gostam de usar o termo. Mas guarda suficientes cartas na manga para entreter até mesmo aquele espectador que já viu história parecida outras tantas vezes, a sério ou com tons de comédia, e não aguenta mais mortos-vivos, mutantes-raivosos, zumbis, ou coisa que o valha. E ainda se passa em Portugal, algo que definitivamente não se vê todo dia (nem se ouve, com o característico sotaque do país). O protagonista é um paspalho que acorda de ressaca após uma festa de arromba e, como um autêntico Ash (da série “Evil Dead”) lusitano, é forçado a tornar-se um herói improvável contra os mutantes sedentos de sangue e tripas que agora povoam as ruas da cidade. Ele soma forças com uma soldado valentona que o lembra constantemente do quanto é fraco e atrapalhado, rendendo alguns dos melhores momentos do filme. Enquanto as produções mais recentes da Troma abusam da escatologia e das piadas com peidos e fluidos corporais, “Mutant Blast” lembra bastante a Troma old school do Toxic Avenger e de “Class of Nuke 'Em High”, trazendo mutantes de látex (incluindo um Homem-Lagosta que fala francês e quase rouba o show), momentos completamente inesperados de fazer rir alto (dois tiros acidentais, no começo e no final, são particularmente hilários e provocam reações entusiasmadas nas salas de cinema) e sangue falso aos baldes (nada de CGI!), que jorra o tempo inteiro de cabeças decepadas e/ou esmagadas (o número destas é surreal). Ao final, fica até difícil de dizer o que é mais surpreendente em “Mutant Blast”: descobrir que há cinema fantástico alternativo, e com um senso de humor tão demente e sanguinolento, num país como Portugal, cuja cinematografia não costuma chegar ao Brasil (com exceção de medalhões tipo Manoel de Oliveira); ou que ainda seja possível divertir-se com o milésimo filme barato de zumbis (ou “z***bis”) lançado na última década. Pois eis que Alle e sua equipe conseguiram enfileirar uma bela quantidade de situações inusitadas (vide a mão-rato) e piadas engraçadas num dos subgêneros mais batidos do cinema de horror/independente. E a química entre os protagonistas Pedro Barão (o herói paspalho) e Maria Leite (a soldado valentona) é excelente, com timing perfeito para o humor; que façam mais comédias, todos eles!



DRAGGED ACROSS CONCRETE (2018, Canadá/EUA. Dir: S. Craig Zahler)
Quando eu vi “Bone Tomahawk” tive a certeza de estar testemunhando algo especial (“Pourra, e este é só o primeiro filme do cara?”); depois, com “Brawl in Cellblock 99”, confirmei que o raio caía duas vezes no mesmo lugar. Agora “Dragged Across Concrete” (Arrastado Pelo Concreto, em tradução literal) cimentou de vez o nome do diretor-roteirista S. Craig Zahler como a revelação mais interessante do mundo do cinema nesses últimos tempos - um cara que me deixa a contar os dias para seu próximo projeto. Trata-se de um thriller policial à la Michael Mann/James Gray, mas pegando apenas o melhor de ambos. E é um filmão em todos os sentidos: longo (2h40min), usa a duração excessiva para construir com paciência seus personagens, e não para punhetação artística ou encheção de linguiça. Por exemplo, tem uma caralhada de diálogos, mas todos são sobre os personagens e suas motivações; nenhum é “debate sobre o nada” ou conversinha fiada sobre cultura pop, tão comuns a certos realizadores contemporâneos. De um lado temos o excelente (e até então pouco notado) Tory Kittles como um bandido pé-de-chinelo que acabou de sair da prisão e quer participar de um último grande golpe para tirar a família da miséria. De outro, o policial veterano interpretado por Mel Gibson, que, suspenso por excesso de força contra um suspeito, resolve transgredir as leis que jurou defender para igualmente dar uma vida melhor à família. O motivo de ambos é nobre, mas justificará sujar as mãos? Os demais personagens - tipo o parceiro de Gibson, interpretado por Vince Vaughn - não são menos importantes, porém gravitam ao redor destes dois. Passamos a primeira metade do filme esperando o momento em que Kittles e Gibson entrarão em rota de colisão. E é justo na metade do filme, quando uma inesperada cena de extrema violência arranca do filme aquele que parece que será um dos personagens centrais, que o clima de tensão começa a subir e não pára mais. A trama é de uma simplicidade absurda. Simples, mas não simplória. Toda a metade final é basicamente alguns personagens querendo sair de tal lugar enquanto os demais querem entrar (à la “O Quarto do Pânico”, lembram?). E funciona. Mesmo que o espectador já imagine mais ou menos como aquilo vai acabar, e quem vai se dar mal, Zahler consegue deixá-lo sem piscar. Não há uma cena no filme que pareça corrida ou filmada de qualquer jeito; é absurdo o controle da câmera que esse cara tem - embora, mais uma vez, alguns possam criticar certos diálogos excessivamente rebuscados, algo compreensível num roteiro escrito por um romancista. “Dragged Across Concrete” também dá uma rara oportunidade de ver excelentes atores sendo bem conduzidos e brilhando. Há um único momento que coloca sob o mesmo teto Gibson, Vaughn e Don Johnson, os três em interpretações monstruosas, nos levando a questionar como é que eles foram tão judiados nesses últimos anos (especialmente Vaughn, em comédias bobocas, e Johnson, desperdiçado duas vezes pela dupla Rodriguez/Tarantino). Não sei vocês, mas já estou contando os dias para o próximo Zahler!


YESTERDAY (2019, Reino Unido/Rússia/China. Dir: Danny Boyle)
Direto ao assunto: não tem absolutamente nada que diferencie “Yesterday” de centenas (milhares?) de comédias românticas lançadas todo ano. Se você não prestar atenção nos créditos iniciais ou no pôster, sequer vai perceber que foi dirigido pelo mesmo Danny Boyle de “Trainspotting” e “Quem Quer Ser um Milionário”, um cara cujo estilo costumava ser facilmente perceptível. A única coisa que realmente se destaca, e que vale o filme, é o pano de fundo genial para o mesmo romance água-com-açúcar de sempre: o protagonista interpretado por Himesh Patel sofre um acidente e, após um fenômeno global desconhecido, acorda num mundo de 2019 alternativo em que a vida segue normal, mas os Beatles nunca existiram! É uma premissa tão simples quanto absurda. E, graças a ela, a enésima comédia romântica produzida desde que o cinema é cinema torna-se um filme simplesmente encantador, seja você fã de carteirinha da banda ou apenas conhecedor ocasional de algumas músicas. Eu mesmo nunca me considerei um fã confesso dos Beatles - nunca tive camiseta com a cara do John Lennon, nem um único LP ou CD do grupo na minha coleção. Ainda assim, é impressionante a quantidade de músicas dos Beatles a que fui exposto nesses 40 anos de vida, a quantidade que sei cantarolar só de ouvir os primeiros acordes, e a quantidade de refrões deles que volta-e-meia surgem na cabeça. Como seria minha vida sem ouvir e cantarolar sucessos dos Beatles de vez em quando? Bem, ao perceber que ninguém além dele lembra da banda sumariamente apagada da existência, o protagonista de “Yesterday”, que calha de ser um músico frustrado, resolve cantar e gravar ele mesmo sucessos como “Let It Be” e “Back to the USSR”, tornando-se o maior sucesso da música pop de todos os tempos! Algumas das melhores piadas do filme acompanham mudanças que o protagonista precisa fazer para adequar os clássicos dos anos 1960-70 aos novos tempos, tipo rebatizar “Hey Jude” como “Hey Dude” (Ei Cara) a pedido da gravadora. Ou o fato de ser impedido de batizar seu disco de “Álbum Branco”, como o original dos Beatles, por questões étnicas num mundo regido pelo politicamente correto. O fato de que os Beatles nunca existiram e suas letras jamais foram registradas também revela uma característica interessante do fenômeno: todo mundo sabe cantar o refrão da maioria dos hits da banda, mas quantos entre nós sabem cantar A CANÇÃO INTEIRA? Eu não, certamente. Mundo-sem-Beatles à parte, “Yesterday” é uma comédia romântica bem safada. E, como tal, não traz nenhuma novidade no modo de contar a história ou de terminá-la. Consta que o argumento original de Jack Barth era mais sério e sombrio, mostrando com mais detalhes as consequências de uma realidade alternativa onde John, Paul, George e Ringo nunca existiram. Mas o corroteirista Richard Curtis (das aclamadas comédias românticas “Simplesmente Amor” e “Quatro Casamentos e um Funeral”) resolveu dar mais ênfase ao namorico do protagonista com sua amiga e empresária. Na média ficou uma Sessão da Tarde inocente e bem divertida, mas confesso certa curiosidade em relação ao argumento original de Barth. Pelo menos a conclusão não tenta explicar o fenômeno que varreu o quarteto de Liverpool da realidade (o que seria ridículo), e muito menos consertar as consequências disso, o que é no mínimo corajoso. Esquecendo um pouco o festival de clichês a que somos submetidos pela parte romântica da trama, é impossível não se pegar pensando em como esses quatro carinhas de cabelo engraçado estão enraizados na cultura pop de tal maneira que você não consegue passar muito tempo sem ser exposto a um pouquinho que seja de sua música, de sua influência, de seu legado. Como resume uma personagem do filme, “um mundo sem Beatles seria um mundo muito, muito pior”. De fato.


RAMBO - ATÉ O FIM (Rambo - Last Blood, 2019, EUA/Espanha/Bulgária. Dir: Adrian Grunberg) 
Em 2008, fui ao cinema ver “Rambo 4” já esperando por uma comédia involuntária. Afinal, como poderia funcionar um Stallone velhão (62 anos na época) retornando a um dos seus personagens mais famosos, e que ele interpretou na flor da idade e no auge da forma física nos anos 1980? Eis que, no fim, “Rambo 4” revelou-se um filmaço, que deu um gás na própria carreira do velho Sylvester, e ainda funcionou como um desfecho deveras digno para a série. Corta para 11 anos depois e as coisas mudaram bastante. “Rambo - Até o Fim”, a quinta e aparentemente última aventura de Stallone como John Rambo (agora aos setenta-e-poucos anos), é justamente a comédia involuntária que eu esperava lá em 2008. Como quinto episódio de uma série cheia de altos e baixos, mas que sempre teve pelo menos alguma coisa relevante para dizer, o novo filme é uma autêntica incógnita. Qual a razão de existir? Estará Stallone passando por dificuldades financeiras? Alguma obrigação contratual do tipo “Faz mais um Rambo ou Rocky e te deixamos torrar dinheiro com outro projeto mais pessoal”? Porque não se enganem: mesmo para os padrões de uma franquia que já teve tiradas como “Eu sou seu pior pesadelo”, este novo filme é um vazio completo, um nada absoluto, uma desculpa vagabunda para sequência onde não se entende sequer a presença de Rambo como protagonista. Recapitulemos: depois de declarar guerra ao próprio país e à indiferença deste com os veteranos do Vietnã em “Rambo - Programado para Matar” (1982), o personagem tornou-se, ironicamente, o arquétipo do guerreiro ocidental invencível contra um inimigo oriental cruel nas continuações, onde enfrentou vietnamitas (1985), russos (1988) e birmaneses (2008) para defender o american way of life, vencendo sozinho as guerras que seu país inteiro perdeu. Mas John Rambo não tinha voltado aos EUA nestes 33 anos entre sua saída da cadeia no começo de “Rambo 2 - A Missão” e o final de “Rambo 4”, quando aparece retornando para a fazenda da família no Arizona. Logo, o quinto filme poderia ser sobre isso, sobre a mais famosa máquina de matar do Governo Americano voltando para casa e fazendo as pazes com seu passado - ou, pior, encontrando uma América muito diferente daquela pela qual lutou tantas vezes. Seria um filmaço, algo bem próximo do clima do original. Inclusive um dos muitos argumentos sugeridos anos atrás para uma possível nova aventura mostrava Rambo enfrentando inimigos nascidos e criados nos EUA: um grupo de supremacistas brancos. Mas eis que o filme finalmente recebeu sinal verde com um roteiro preguiçoso de Matthew Cirulnick e do próprio Stallone. “Rambo - Até o Fim” prefere colocar o envelhecido Rambo como criador de cavalos na fazenda da família, tentando deixar o passado para trás como uma versão bombada de Clint Eastwood em “Os Imperdoáveis”. Ele também cria uma garota latina como se fosse sua filha. Aí a moça cruza a fronteira com o México, é aprisionada por um cartel de traficantes que vende meninas para bordéis, e lá se vai nosso amigo John fazer o que sabe fazer melhor. Em suma, como muito já se disse por aí, é “Taken” com Rambo no lugar do Liam Neeson. E quando você não consegue pensar numa história melhor ou pelo menos diferente para colocar um dos personagens mais famosos do cinema de ação, talvez fosse melhor reconsiderar o projeto. Não é como se eu esperasse algo mais profundo de um quinto filme da franquia mais tiro, porrada e bomba do seu gênero; o problema é que “Rambo - Até o Fim” é fraco e formulaico demais mesmo para os padrões da série. Não consegue ser sequer um filme de ação decente. Ele QUASE fica bom enquanto o velho John está no México em busca da menina, porque esta é a primeira vez que vemos o super-soldado em cenário urbano, e ele parece um peixe fora d'água longe da selva (onde não pode cobrir-se de lama para pegar soldados inimigos de surpresa). E os 20 minutos finais entregam aquilo que os fãs da série aguardam, com uma quantidade generosa de violência explícita e a volta das armadilhas que Rambo fez para pegar os homens do xerife em “Programado para Matar” - aqui em versão mortífera, porque o homem ficou velho e impaciente. Mas é um espetáculo de carnificina frouxo, que some diante do mesmo Rambo moendo batalhões inimigos com uma Calibre 50 na conclusão do quarto filme. O que mais incomoda, aqui, é a falta do que dizer e do que mostrar; como se todos os envolvidos pensassem que bastava ter um nome conhecido no título que o filme já valeria por si só. Como encerramento de uma série que não é particularmente conhecida por sua genialidade, é um autêntico desperdício. Lembra qualquer “Duro de Matar” depois do segundo, ou qualquer “Desejo de Matar” depois do primeiro: filmes que até tem lá seus momentos divertidos (“Desejo de Matar 3” que o diga!), mas não precisavam existir. Não fossem algumas referências ao passado militar do personagem, e o uso do famoso facão para cortar gargantas e decepar cabeças, o protagonista aqui poderia ser qualquer outro dos heróis clássicos de Stallone - de um aposentado Marion Cobretti de “Stallone Cobra” ao Barney Ross da série “Os Mercenários” -, sem que fosse preciso alterar uma única linha do roteiro. Então creio que seja melhor seguir imaginando o final do quarto filme como uma conclusão decente para a franquia e fingir que a “volta para casa” do personagem encerrou por aí.


ASSASSINATION NATION (2018, EUA. Dir: Sam Levinson)
“Tudo o que você precisa para fazer um filme é uma arma e uma garota”, já dizia Godard. Pois bem: “Assassination Nation” tem quatro garotas e muitas, muitas armas! O filme já sai ganhando pontos pela cena inicial: ao som da musiquinha do Morricone para “O Pássaro das Plumas de Cristal”, a narradora alerta o espectador que a história que ele verá a seguir inclui bullying, masculinidade tóxica, homofobia, transfobia, nacionalismo e sexismo. Lembrando uma bizarra mistura de “Meninas Malvadas” com “God Bless America”, o longa escrito e dirigido por Sam Levinson mostra o caos que se desencadeia sobre uma pequena cidade norte-americana quando um misterioso hacker divulga informações íntimas e pessoais de todos os seus habitantes - não apenas nudes, mas também chats e até pesquisas em sites pornô! Com as pessoas perdendo qualquer noção de civilidade e literalmente se matando pelas ruas, quatro garotas precisam somar forças para sobreviver quando uma delas é falsamente acusada de ser a responsável pelo vazamento das informações, e a cidade decide linchá-la para restabelecer a lei e a ordem. “Assassination Nation” é um filme certeiro para o momento em que vivemos. Este em que fake news destróem vidas e reputações sem piedade e sem direito de defesa; em que a intimidade vazada na internet leva ao linchamento público e muitas vezes ao suicídio. Não por acaso, enquanto saem pelas ruas cometendo as maiores barbaridades e atos de violência contra pessoas que até ontem eram seus vizinhos e colegas de escola, personagens usam chavões como “Patriotic citizens” e “We're good people!” (qualquer semelhança com “Nossa bandeira nunca será vermelha” e “Cidadãos de bem” é mera coincidência, mas não parece). A mensagem é evidente: uma crítica à hipocrisia da sociedade que julga o outro até ter seus próprios podres divulgados. Mas a resposta sugerida pelo longa não é exatamente das mais sensíveis: apela para o revanchismo puro e simples, com as protagonistas armando-se até os dentes e literalmente entrando em guerra contra a cidade inteira! A impressão que fica é que “Assassination Nation” tem medo de levar mas a sério os vários temas relevantes que aborda, aqueles mesmos que foram elencados pela narradora na cena inicial. Embora o conceito da intimidade vazada seja assustador, o longa acaba apelando para humor negro e situações absurdas na tentativa de atenuar os horrores que mostra. Também é uma pena que uma mensagem tão atual acabe um tanto perdida num filme com exagerado visual 'modernex', que usa e abusa de afetações narrativas e estilísticas mais do que datadas. Muitas são completamente desnecessárias, tipo a tela dividida que acompanha três ações quando apenas uma é digna de interesse para o espectador. O resultado é divertido enquanto passatempo, mas bate na trave enquanto crítica social (o citado “God Bless America” saiu-se muito melhor). PS: Há uma interessantíssima referência a um filme japonês sobre delinquentes juvenis dos anos 1970 (“Zubekô Banchô: Zange no neuchi mo nai”), e no ato final as meninas vestem trajes parecidos com os das japinhas!


OPERAÇÃO OVERLORD (Overlord, 2018, EUA/Canadá. Dir: Julius Avery)
Produzido pela galinha-dos-ovos-de-ouro JJ Abrams, “Operação Overlord” é um filme que já foi feito pelo menos duas vezes nos últimos anos: a primeira na Inglaterra, como “Outpost - Missão de Risco” (2008), de Steve Barker, e a segunda na Holanda, como “Frankenstein's Army / O Exército de Frankenstein” (2013), de Richard Raaphorst. Todos os três filmes contam a mesma história sobre soldados na Segunda Guerra Mundial que, além dos horrores tradicionais do campo de batalha, ainda precisam enfrentar mortos-vivos criados por cientistas nazistas em busca de uma solução final para virar o placar a seu favor. Mas dá pra garantir, sem medo de soar injusto, que esta é a primeira vez que a história é contada do jeito certo. Se faltava ritmo ao filme inglês e uns milhõezinhos a mais no orçamento da produção holandesa, em “Operação Overlord” a coisa toda funciona como um relógio. A história secundária de guerra, sobre soldados aliados numa missão suicida para garantir que o Dia D aconteça, funciona tão bem quanto a parte de terror, e esta só começa a se desenvolver a partir da metade da narrativa - é quase dois filmes em um, como “Um Drink no Inferno”. O roteiro toma seu tempo para apresentar minimamente os personagens (algo que também não existia nos dois filmes anteriormente citados), conseguindo criar momentos de tensão quando os heróis, em inferioridade numérica (seu pelotão foi dizimado pelos nazistas), precisam suar a camisa para sobreviver numa vila francesa dominada pelos alemães, com a ajuda de uma jovem local. Ou seja, é uma mistura de guerra, ação e terror em que as doses de cada gênero ficaram muito bem equilibradas, e onde ainda conseguiram criar um vilão escroto e memorável para dificultar a vida dos heróis. Dá para perceber referências explícitas a clássicos como “Dia dos Mortos”, do Romero, e “O Enigma de Outro Mundo”, do Carpenter. Ok, talvez os super-soldados ressuscitados não sejam tão legais quanto os pesadelos-cyberpunk de “Frankenstein's Army”, mas aqui pelo menos existe um roteiro para acompanhar, e não simplesmente soldados correndo de um lado para o outro sendo perseguidos por barulhentos zumbis robóticos com design muito foda. Considerando que este é o segundo longa do diretor Julius Avery, e que o roteirista Billy Ray já escreveu de tudo um pouco nos últimos vinte anos - de “Volcano - A Fúria” a “Jogos Vorazes” -, é possível que o grande responsável pelo resultado seja o produtor Abrams. Ele que começou sua carreira trabalhando em filmes de terror independentes, literalmente rodados no fundo do quintal de alguém (tipo o clássico cult “Nightbeast”, de Don Dohler), e pelo jeito não esqueceu as raízes. Hoje, Abrams aproveita sua influência em Hollywood para ajudar a tirar do papel esses projetos com cara de filme B, mas assegurando-lhes orçamentos graúdos. O resultado é o tipo de produção de primeira que eu queria ver com mais frequência nos cinemas de shopping.


DOOM: ANNIHILIATION (2019, EUA. Dir: Tony Giglio)
Não quero parecer nenhum velhinho sábio estilo Sr. Myagi, mas quando comecei a jogar “Doom” a internet ainda era mato, o jogo vinha em CINCO disquetes daqueles grandões e você tinha que ficar instalando e desinstalando ele ou o Windows 3.0, porque os HDs dos computadores da época não tinham espaço para as duas coisas (nem se sonhava com GIGAS de armazenamento naquele tempo). Estamos falando da primeira metade dos anos 1990, quando “Doom” virou febre como um dos pioneiros no estilo 3D shooter - aquele tipo de jogo em que você enxerga a ação pela visão em primeira pessoa. E eu fiquei literalmente viciado no negócio, de decorar a localização de cada inimigo e de cada passagem secreta. Talvez por isso minha decepção com a primeira adaptação do jogo para o cinema em “Doom - A Porta do Inferno” (2005), e minha simpatia pela sua nova encarnação fílmica, um reboot produzido a toque de caixa direto para DVD (ou será que agora é direto para streaming?) chamado “Doom: Annihilation”. Se o filme anterior tinha cara de superprodução e até astros (The Rock, lembram?), este aqui é uma tralha visivelmente B ou C, sem atores conhecidos, sem muita grana (o que fica notório principalmente nos efeitos digitais), e numa escala bem menor. Mas que se dane, ficou muito mais parecido com o jogo em que se baseia, e me trouxe boas memórias daqueles anos todos em que EU percorri corredores repletos de demônios armado com espingardas e serras elétricas. “Doom: Annihilation” foi escrito e dirigido por um tal de Tony Giglio, que também deve ter jogado muitas horas de “Doom”. O resultado passa longe do brilhantismo e parece um fan film, feito por e para fãs, que deu a sorte de cair nas mãos de um grande estúdio. Podia ter uns bons 20 minutos a menos e uns bons milhões de verdinhas a mais, mas me lembrou do porquê eu gostava tanto do jogo. A história, ao contrário da adaptação de 2005, é bem fiel ao game: mostra cientistas abrindo um portal para o Inferno enquanto trabalham com experimentos de teletransporte numa base científica em Marte. Um grupo de marines é enviado para averiguar e vira presa fácil dos demônios que infestam o local. O jogo já começava com todo o pelotão exterminado e você tendo que controlar o único sobrevivente pelos corredores repletos de inimigos. O filme, infelizmente, perde tempo apresentando todos esses personagens que vão morrer, até que sobra apenas a protagonista, batizada Joan Dark (argh!). Podiam muito bem ter matado todo mundo nos primeiros 15 minutos e fazer da jornada solitária da marine sobrevivente o próprio filme, como acontecia no jogo. Podiam até ter feito isso em primeira pessoa, ora bolas (a cena em primeira pessoa do filme de 2005 era a única coisa que prestava ali). Mas, como já escrevi, Giglio deve ter jogado bastante “Doom” na vida e fez o filme para outros apaixonados. O design das roupas dos marines e das armas é idêntico, dos demônios também. Os cenários são bem parecidos com aqueles corredores escuros que víamos tão pixelados na tela do nosso PC nos anos 1990. O visor do capacete usado pelos protagonistas às vezes abre um mapa da estação espacial, como acontecia no jogo quando você teclava TAB. E além das armas (incluindo a famosa BFG-9000), também foram utilizadas as chaves coloridas que abrem determinadas portas. Infelizmente, o filme não consegue criar a mesma tensão e senso de urgência do jogo. Aquela coisa de “Vou virar esse corredor escuro e dar de cara com um puta demônio assustador!”. Aquela coisa de “Cadê a maldita chave que preciso para abrir essa porta AGORA?”. E, claro, VOCÊ NÃO PODE JOGAR, então equivale a ficar assistindo seus irmãos ou amigos jogando, sem poder participar da coisa. Pelo menos há muito mais violência que na versão de 2005, e dá uma bela dica de como o jogo “Doom”, mesmo passando longe de ser Shakespeare, ainda pode render um filme bem decente em mãos mais habilidosas. Mas só recomendo para quem gosta de ficção científica/ação/horror classe B, e tem saudade daqueles filmes vagabundos direct-to-video dos anos 1990, em que tudo parecia de plástico. Para todo o resto da humanidade, “Doom: Annihilation” parecerá apenas a bomba que provavelmente é.


M.F.A. (2017, EUA. Dir: Natalia Leite)
De todos os subgêneros escrotos do cinema exploitation, um dos mais apelões sempre foi o famigerado 'rape and revenge'. Porque por mais que seja legal ver estupradores se ferrando, estes filmes geralmente apresentavam o ato do estupro de maneira desnecessariamente explícita e um bocadinho mais longa que a parte da vingança. Pois em pleno século 21, quem diria, cineastas mulheres estão revisitando o tema com um pouco mais de bom senso. A francesa Coralie Fargeat alcançou certa repercussão com o recente “Revenge”, mas antes deste saiu o interessante, e sem tanta repercussão, “M.F.A.”, cuja sigla se refere ao termo em inglês para Mestrado em Artes. “M.F.A.” foi dirigido por uma brasileira, Natalia Leite, que nasceu em São Paulo mas faz cinema nos Estados Unidos desde 2009. E é estrelado por Francesca Eastwood, filha do Clintão - e vamos concordar que tem que ser muito retardado pra mexer com a herdeira do Dirty Harry! Francesca interpreta Noelle, uma jovem tímida e sem vida social que estuda Artes e vê sua noite com um colega de curso terminar terrivelmente mal. A violência sexual que sofre é só o começo do martírio: Noelle é considerada mais culpada do que o agressor (a psicóloga que a atende pergunta repetidas vezes se ela deixou bem claro que era para o rapaz parar, questiona o quanto ela bebeu antes do ato, etc), e não encontra conforto nem mesmo nos grupos para vítimas de violência sexual (cujas “ações práticas” se resumem a tentar subir hashtags de apoio no twitter). Então a moça resolve encarar seu agressor cara a cara e, acidentalmente, o mata. Quando escapa impune da investigação do crime, resolve se transformar numa justiceira que espalha a morte entre outros rapazes do câmpus que também cometeram violência sexual no passado e acabaram inocentados. “M.F.A.” lembra uma versão menos porra-louca de “Dirty Weekend”, aquele filmaço apelativo e completamente sem-noção que o despirocado cineasta inglês Michael Winner (o mesmo da série “Desejo de Matar”) dirigiu em 1993. Neste, uma mulher respondia ao frequente e violento assédio de um vizinho voyeur iniciando uma cruzada de matança contra homens. Assim como já acontecia no filme de Winner, não demora para que “M.F.A.” comece a questionar a saúde psicológica da protagonista, que parece se divertir bastante com seus assassinatos, e muitas vezes seduz as vítimas para atraí-las à morte certa. Em ambos os filmes, também, ficam evidentes as consequências trágicas das ações das personagens. Apesar de intrigante e curioso na maior parte do tempo, com uma trama que funciona e faz pensar - principalmente em como as vítimas de estupro são tratadas com preconceito inclusive por aqueles que deveriam defendê-las -, infelizmente “M.F.A.” tem a maior cara de telefilme, e nunca atinge o nível de violência e de impacto que promete. É frustrante, por exemplo, a cena em que uma vítima tem a cabeça esmagada a marteladas e umas poucas gotinhas de sangue aparecem no quadro, enquanto no próprio filme do Winner há um momento idêntico de morte a marteladas muito mais gráfico (terá sido referência da diretora ou mera coincidência?). Assim, como já acontecia naqueles apelativos 'rape and revenge' dirigidos por homens lá nos anos 1970, a cena mais cruel e violenta acaba sendo mesmo o estupro da protagonista, o que é uma pena.


UM DIA DE CAOS (Mayhem, 2017, EUA. Dir: Joe Lynch)
Outra bela produção independente que quase ninguém viu, “Um Dia de Caos” é o sonho molhado de todo mundo que já trabalhou num lugar horrível e sonhou em dar uns cascudos nos colegas, ou um belo sopapo na cara do chefe, e sem ter que responder por isso. Eis que existe um novo vírus mortífero (estilo “The Crazies”, do George A. Romero) que joga o nível de estresse do infectado na estratosfera, aumentando sua agressividade e transformando-o num assassino em potencial. Quando este vírus se espalha acidentalmente pelo prédio de uma firma de advocacia, o local é colocado em quarentena pelas autoridades durante oito horas, até que possa se dissipar sem perigo de contágio. Injustamente demitido naquele mesmo dia, e usado como bode expiatório dos patrões para salvar o próprio pescoço num caso problemático, o protagonista Derek (Steven Yeun, em atuação divertida) resolve aproveitar a oportunidade para vingar-se violentamente dos ex-empregadores - já que uma bizarra decisão jurídica determinou que os infectados pelo tal vírus não podem ser considerados culpados pelos seus atos, o que lhes permite tocar o terror impunemente! Repleto de humor negro e violência explícita, com uma trama inconsequente que pode ser vista como uma bem-vinda variação das já batidas histórias sobre mortos-vivos ou infectados raivosos, “Um Dia de Caos” obviamente não é para todos os públicos. Faz pensar sobre como nossa civilização cheia de leis e normas de conduta desmorona rapidinho numa situação-limite. Mas obviamente o propósito do filme passa longe de gerar qualquer reflexão. Surpreende como ele é bem dirigido para o que, à primeira (e segunda) vista, não passa de uma grande bobagem - já começa com uma belíssima cena caótica em câmera lenta ao som de “La Gazza Ladra”, do Rossini (que, por coincidência ou não, também toca numa cena-chave de “Laranja Mecânica”). O diretor Joe Lynch não nasceu ontem e já está por aí há algum tempo: ele fez o segundo “Wrong Turn”, que eu particularmente acho bem bom, e um dos segmentos da divertida antologia “Chillerama”. Acho que no fim tem que comprar a ideia para se divertir, mas recomendo para quem não aguenta mais histórias de zumbis levadas muito a sério - e, especialmente, para quem também já quis dar uns tabefes nos colegas de trabalho cuzões, e pode encontrar aqui uma autêntica catarse.


CREED II (2018, EUA. Dir: Steven Caple Jr.)
Tempos atrás, depois de ver o seriado “Cobra Kai” e a curiosa inversão de protagonismo entre os personagens principais de “Karate Kid”, mencionei que seria divertido ver um spin-off de “Rocky 4” mostrando o que aconteceu com o pobre Ivan Drago (vivido por Dolph Lundgren) após perder a luta para o porco imperialista ianque Balboa em pleno Regime Soviético. Pois eis que, numa daquelas surpresas que o cinema às vezes nos proporciona, “Creed II” funciona como uma breve oportunidade de descobrirmos o que aconteceu com Drago após a fatídica luta de 1985. Vou mais longe: o novo filme vale menos como sequência do superior “Creed - Nascido para Lutar” e mais como uma reunião de elenco do “Rocky 4”: não apenas traz Stallone e Lundgren repetindo seus papéis como Balboa e Drago, mas também uma surpreendente ponta de Brigitte Nielsen! E tirando a curiosidade de revermos esses personagens mais de 30 anos depois (e do fim da Guerra Fria), “Creed II” é aquele mais-do-mesmo a que a série “Rocky” acostumou o espectador de 1976 para cá. A trama inteira pode ser vista como uma refilmagem ou auto-plágio de “Rocky 2”: o lutador que sai do gueto para a fama, fica rico, pede a namorada em casamento e se desespera diante do nascimento do primeiro filho. Mas também dá umas piscadelas para os fãs de “Rocky 4”, com a luta final acontecendo na Rússia, três décadas depois de Balboa ter ido à União Soviética peitar Drago em casa (podiam ter arrumado um sósia do Putin, já que em “Rocky 4” aparecia um do Gorbachev!). Não há absolutamente nada de novo na história ou na maneira de contá-la. O que é uma pena, pois a oportunidade do jovem Creed vingar o pai dando uns cascudos no filho do seu carrasco poderia render um drama bem melhor, e com algo a dizer, sobre como a rivalidade (e o ódio) se perpetua através das gerações. Mas fica ali-ali, sem mexer muito na fórmula campeã (não falta nem a montagem de treinamento com música edificante). Enquanto Creed luta por vingança, Drago Jr. luta por uma espécie de redenção para o pai, que não foi tratado com muita generosidade após perder em casa para um ianque em plena Guerra Fria. E eu sei que o nome do filme é “Creed”, mas achei uma lástima que o roteiro não se preocupe em trabalhar o drama também do lado da família soviética. Mesmo a conclusão, que demonstra o que parece ser uma mínima mudança (para melhor) no relacionamento entre Drago pai e Drago filho, é mais superficial do que poderia ser. Na minha ingenuidade, estava esperando ver algo próximo de uma redenção para os “vilões”. De resto, é um filme na linha “Quem viu um 'Rocky' viu todos”, e talvez exatamente nisso resida o seu charme e a sua popularidade. Considerando que Stallone já anunciou que esta é sua despedida do cinema como Balboa (ele até aparece menos neste do que no anterior), resta imaginar se há necessidade de um novo filme com Adonis Creed ou se a franquia realmente chegou ao seu ponto final. E, principalmente, se a prefeitura trocou ou não a lâmpada do poste na frente da casa de Rocky...


KILL LIST (2011, Reino Unido. Dir: Ben Wheatley)
Não lembro porque, mas não vi “Kill List” na época em que o filme saiu, e provavelmente ficaria mais uns dez anos sem ver se ele não tivesse sido enfaticamente sugerido durante uma conversa de mesa de bar sobre como o final mastigadinho de “Hereditário” era extremamente frustrante. Na minha ignorância, eu nem sabia que “Kill List” era um filme de terror; pensei que era um thriller! Acontece que a obra de Wheatley realmente mistura gêneros como thriller e drama, deixando o horror para seu ato final. Mas sim, é um terrorzão, e dos bons: sério e adulto, sem garotada aprontando altas confusões, sem gritaria, sem humor (intencional ou não), pesado e, principalmente, violentíssimo (com direito a uma cena em que uma pessoa é massacrada a golpes de martelo, e a câmera não desvia do alvo). Conta a história de dois assassinos profissionais contratados por um misterioso empregador para eliminar três pessoas. A primeira - um padre - não oferece maiores problemas. Mas enquanto seguem o segundo alvo, os pistoleiros se deparam com algo horripilante. Há muitas semelhanças, no estilo narrativo e visual, com a primeira temporada de “True Detective”, que veio depois (eu não duvido que o Nic Pizzolatto tenha visto e se inspirado em “Kill List”). Em ambos, um mundo já horripilante de violência real é subitamente invadido pelo horror ainda maior de um universo sobrenatural, povoado por ocultistas, cultos sanguinários e sacrifícios humanos. A maneira como este segundo universo se manifesta lentamente sobre a suposta normalidade do primeiro deixa o espectador desnorteado, perdido, sem saber que rumo o filme vai tomar - tanto quanto os protagonistas, que não entendem o que se passa e descobrem que suas armas automáticas (ou martelos) não são tão eficientes contra um inimigo desconhecido. Ou seja, mais ou menos como “Hereditário”, descontando a parte das armas automáticas e martelos. Mas, ao contrário deste, o filme de Wheatley não entrega uma conclusão repleta de explicações didáticas para o espectador, preferindo deixar no ar algumas possibilidades. Quando os créditos finais começam a subir, você se pega relembrando o filme inteiro para tentar entender melhor a conclusão (tipo a imagem do “corcunda”, que o diretor já tinha mostrado antes num outro contexto). Ou pode simplesmente desistir de encontrar uma justificativa para o que viu e ficar ainda mais incomodado - porque talvez, como no mundo real, nem tudo de horripilante que acontece tem uma explicação a ser encontrada num velho livro com as passagens importantes sublinhadas.


DR. GIGGLES - ESPECIALISTA EM ÓBITOS (Dr. Giggles, 1992. EUA/Japão. Dir: Manny Coto)
Na época em que foi produzido e lançado (princípios da década de 1990), “Dr. Giggles” já era marmita requentada: um slasher film que seguia de cabo a rabo a cartilha do subgênero das duas décadas anteriores. Tem do assassino que foge do hospício e volta à cidade-natal para se vingar até as mortes engraçadinhas antecedidas por uma piadinha do vilão, sem esquecer o personagem mais velho que lá pelas tantas conta a história de horror do passado que deu origem ao personagem-título. Ah, o vilão tem até uma cantiga infantil rimada que narra seus feitos, estilo Freddy Krueger! Revisto agora, quase 30 anos depois, “Dr. Giggles” continua o suprassumo da obviedade, mas parece bem mais divertido do que na época em que foi produzido e lançado. Talvez por culpa da série “Pânico”, de Wes Craven, que alguns anos depois, em 1996, daria origem a toda uma nova leva de pretensiosos slashers autorreferenciais que se levavam muito mais a sério do que deveriam - o extremo oposto do que se vê aqui. Originalmente lançado em VHS com o genial subtítulo “Especialista em Óbitos” (embora todo mundo lembre do título traduzido da TV, “Dr. Risadinha”), o filme nos apresenta as loucas aventuras de um médico-psicopata que foge do manicômio e volta à cidade onde seu pai, igualmente médico e igualmente psicopata, foi linchado pela população furiosa trinta anos antes. Qualquer outro personagem em cena só existe para morrer, e se havia algum desenvolvimento de personagens ficou tudo no roteiro ou no chão da sala de edição - sempre que algum coadjuvante era de repente chamado pelo nome nunca antes mencionado, eu tinha que fazer um esforço para lembrar “Ah, essa devia ser a menina biscate”; “Hmmm, essa devia ser a madrasta má”, e assim por diante. Afinal, “Dr. Giggles” é um filme de vilão (está até no título!), e como tal funciona perfeitamente, desde que o espectador desligue o cérebro e não fique pensando em detalhes absurdos (tipo onde o maluco conseguiu todos aqueles instrumentos médicos modificados que usa para inflingir dor às suas vítimas). O médico demente interpretado por Larry Drake é bem legal, e muito por causa do próprio Drake, um figuraça que também apareceu, na mesma época, como vilão em “Darkman”, do Sam Raimi. Assim como “Maniac Cop” só funcionava com o grandalhão Robert Z'Dar no papel do policial homicida, duvido que o Dr. Giggles funcionaria com qualquer outro ator no lugar de Drake. De mais a mais, por trás de toda a obviedade da trama e dos personagens, o espectador fica curioso pelo próximo “assassinato divertido”, em momentos que apelam mais para o humor negro do que para o sadismo - o médico doidão parece ter um estoque interminável de piadinhas envolvendo chavões da medicina, nem todas traduzíveis para o português. Infelizmente, é perceptível que a maior parte do gore acabou no chão da sala de edição a pedido da censura, que na época estava pegando pesado com filmes de horror porque era a garotada quem mais curtia. E é claro que “Dr. Giggles” pode ser usado como um argumento incontestável por aqueles que defendem que o subgênero estava morto e enterrado pouco antes da série “Pânico”. Porque quando assassinos mascarados, acampamentos de verão e datas comemorativas já não enganavam mais ninguém, o pessoal começou a apelar para versões homicidas de profissões comuns - policial assassino em “Maniac Cop” e “Psycho Cop”, médico assassino aqui. O que teríamos pela frente se Wes Craven não tivesse revitalizado os slashers meros quatro anos depois? Um advogado assassino? Um cozinheiro homicida? Um burocrata de repartição pública psicótico que mata suas vítimas a carimbadas? Melhor nem imaginar...


POLAR (2019, Alemanha/EUA. Dir: Jonas Åkerlund)
A sinopse desta “produção original Netflix” me fez imaginar que se tratava de um thriller policial sério: a história de um envelhecido assassino profissional que, às vésperas da aposentadoria, é caçado pelos colegas mais jovens da própria organização, simplesmente porque é muito perigoso para continuar vivo. Mas “Polar” passa longe de qualquer seriedade desde a primeira cena, que já impõe o tom caricatural, exagerado e farsesco que dominará o restante do filme. Edição videoclipeira, com cortes rápidos e múltiplas telas divididas; nomes dos personagens aparecendo grafados na tela; matadores e bandidos bem-humorados que conversam sobre assuntos mundanos; violência explícita, mas engraçadinha... Enfim, é como se o diretor tivesse entrado em coma lá pela metade dos anos 1990, após o sucesso de “Pulp Fiction” e a proliferação de todos os imitadores ruins de Tarantino, e despertasse somente agora para fazer “Polar” - porém acreditando piamente que todas estas afetações ainda estão na moda. Sem exagero: tem uns momentos em que o excesso de “estilo” incomoda; uma sensação de 'déjà vu', de que o filme está uns 20 anos atrasado, permeia a produção. Passado este estranhamento com a estética e a narrativa demodê, até que o filme é razoavelmente divertido, embora muito mais longo do que deveria (uma praga do cinema moderno). A trama lembra um cruzamento de “RED - Aposentados e Perigosos” com “John Wick”. Inclusive o personagem de Mads Mikkelsen parece um John Wick da terceira idade - não sei se foi intencional, mas Mikkelsen está visualmente parecido com o Keanu Reeves na sua série de ação, com o mesmo corte de cabelo, os mesmos ternos pretos, etc. “Polar” apela constantemente para a comédia, mas o senso de humor não é para todos os gostos (vide a cena com um gordão sendo metralhado). E a objetificação das mulheres - que aparecem sempre peladas, com shortinhos atolados na bunda ou transando em todas as posições do Kama Sutra - incomoda até um cara que cresceu vendo pornochanchadas. Aí você pesquisa e descobre que o diretor Jonas Åkerlund passou os últimos trinta anos fazendo videoclipes, alguns premiadíssimos e populares (para Madonna, Beyoncé, U2, Iggy Pop e quase todo mundo que já foi conhecido no mundo da música), o que de certa forma explica o clima moderninho e afetado do filme. Já o roteiro é baseado numa HQ, justificando também o tom caricatural dos personagens e situações. Por conta de tudo isso, eu não sei se indicaria “Polar” a não ser pelos motivos errados, sendo o principal deles a curiosidade de ver um produto audiovisual tão novo e ao mesmo tempo tão datado. Um envelhecido Richard Dreyfuss e um sem-noção Johnny Knoxville fazem pontas que ressaltam o clima de porra-louquice do longa - que, se tivesse sido lançado nos anos 1990, provavelmente seria o novo queridinho dos fãs de Tarantino, Rodriguez, Guy Ritchie e todas aquelas maluquices que pareciam tão novas e originais vinte anos atrás...


VELVET BUZZSAW (2019, EUA. Dir: Dan Gilroy)
Primeiro, um curador de galeria confunde sacos de lixo no ateliê de um artista famoso com uma obra de arte; depois, uma sangrenta cena de assassinato numa exposição é admirada por centenas de visitantes como se fosse uma instalação artística, até alguém finalmente descobrir, muitas horas depois, que o sangue e o cadáver são de verdade! Estes são alguns dos momentos mais interessantes desta outra “produção original Netflix”, cujo título é completamente gratuito e mencionado em dois segundos na história. O diretor-roteirista Dan Gilroy lança um olhar crítico e satírico sobre o mundo da arte como já havia feito com o universo da mídia sensacionalista no seu longa de estreia, “O Abutre” (que é bem melhor). Artistas, críticos, coletivos de arte e donos de galerias, ninguém se salva: são todos representados como pessoas arrogantes, interesseiras ou idiotas - às vezes as três coisas. Infelizmente, “Velvet Buzzsaw” também é um filme de terror, e é aí que a coisa complica. Conta a história de uma assistente de galeria de arte que encontra centenas de pinturas no apartamento de um vizinho desconhecido que acabou de morrer, e resolve explorá-las financeiramente. As imagens bizarras se tornam um sucesso instantâneo, mas existe um mistério terrível por trás do artista anônimo e suas pinturas começam a provocar mortes entre os envolvidos com a compra e venda dos quadros. Nada que já não se tenha visto antes e melhor, com efeitos digitais que nem sempre funcionam (quase nunca, na verdade), trilha sonora explodindo na hora do susto e nenhum grande momento realmente assustador ou memorável. O resultado não é ruim, e consegue manter o interesse do espectador principalmente durante a investigação sobre o passado do misterioso artista. Mas é um terrorzinho bem genérico, que acaba funcionando muito melhor enquanto enfoca os 'interésses', rivalidades e fogueiras de vaidades no mundo da arte e dos artistas. Já o elenco está formidável, com atuações exageradas e bem divertidas de Jake Gyllenhaal, Rene Russo, uma quase irreconhecível Toni Collette e até John Malkovich. Ninguém, além do diretor, parece estar levando a coisa muito a sério. Então talvez o resultado fosse muito melhor se o filme ficasse no terreno da comédia de humor negro, sem os (risíveis) toques sobrenaturais que provocam mais estranhamento do que medo ou repulsa.


CURVE - TERROR NA ESTRADA (Curve, 2015, EUA. Dir: Iain Softley)
Erroneamente batizado “Terror na Estrada” no Brasil (embora 80% do filme ocorra efetivamente FORA da estrada), “Curve” é um thriller que começa “A Morte Pede Carona”, logo se transforma numa versão automobilística de “Gerald's Game” (o livro, pois o filme ainda não tinha saído então), e termina sendo uma das maiores bombas que vejo em muito, muito tempo. Narra o drama de uma garota que dá carona para um sujeito muito suspeito (mas, ora bolas, bem bonitão) numa estrada deserta, e não demora a descobrir que ele é um caroneiro psicopata à la Rutger Hauer. Diante de uma situação de vida ou morte, a motorista não joga o carro no acostamento para ferir ou matar APENAS o seu agressor, como manda a lógica, preferindo acelerar e voar com carro, caroneiro E ELA PRÓPRIA barranco abaixo! Pois eis que miraculosamente tanto ela quanto o vilão sobrevivem, mas, numa provável recompensa pela sua idiotice, a moça fica presa de cabeça para baixo no carro capotado, pendurada por uma perna esmagada, e agora completamente à mercê do psicopata. Este, que parece ter muito tempo nas mãos, resolve deixá-la passar vários dias e noites naquela situação (felizmente o carro está abastecido com garrafinha de água, lanterna e outros itens de primeira necessidade, tudo ao alcance da mão). O que se segue é um verdadeiro monumento à idiotice humana, que o espectador só assiste até o fim pela curiosidade mórbida de ver qual será a próxima atitude imbecil tomada pela mocinha - tipo acender uma fogueira ao lado de um carro capotado que pode estar vazando gasolina, ou apontar um revólver para um psicopata que vem lhe torturando há dias e dizer “Pare ou eu atiro!”, ao invés de atirar de uma vez! Em “Gerald's Game” a protagonista usava a inteligência para tentar se livrar da situação em que estava presa, mas a mocinha de “Curve” prefere passar dias deitada, olhando fotos e ouvindo rádio, esperando que sua perna se solte miraculosamente ao invés de, sei lá, fazer algum esforço, QUALQUER esforço, para tentar libertar-se (já que tempo, pelo menos, ela tem de sobra!). Some-se a isso o psicopata menos assustador e mais chato da história dos thrillers, e tem-se uma evidência incontestável da decadência do diretor inglês Iain Softley - um cara que, nos bons tempos, fez um puta de um filme de terror como “A Chave Mestra”.


WARLOCK - O DEMÔNIO (Warlock, 1989, EUA. Dir: Steve Miner)
Boas histórias podem ser contadas e recontadas para o resto da vida. Que o digam as diversas versões ocidentais de “Yojimbo” e “Os Sete Samurais”, onde a mesma trama já foi transposta para o Velho Oeste, para os EUA nos tempos da Lei Seca e até para o espaço! “Warlock - O Demônio”, uma das pérolas esquecidas dos anos 1980, é uma dessas bem-sacadas variações de um argumento que deu muito certo. Como “O Exterminador do Futuro” cinco anos antes, também conta a história de um vilão indestrutível que viaja no tempo e é perseguido por um herói da mesma época, que une forças com uma mulher da atualidade para enfrentar a ameaça. A diferença básica é que no filme do James Cameron herói e vilão voltam do futuro para 1984; já em “Warlock” um poderoso bruxo e um caçador de feiticeiros viajam três séculos para o futuro de 1989. E se o Kyle Reese de “O Exterminador do Futuro” precisava impedir que o Terminator matasse Sarah Connor e ferrasse com o futuro da humanidade, aqui o caçador do século 17 (interpretado por um Richard E. Grant surpreendentemente galante!) e a mocinha contemporânea (Lori Singer) devem impedir o vilão de descriar a Criação revelando o verdadeiro nome de Deus! Óbvio que não basta apenas pegar uma história que fez sucesso e tentar recontá-la de forma disfarçada (o nome disso é rip-off, e tem aos baldes). O que realmente funciona em “Warlock” é que o roteiro de David Twohy (depois diretor do genial “Pitch Black/Eclipse Mortal”) também tem suas ótimas ideias originais, e consegue criar um universo riquíssimo com regras próprias, explicando um mínimo para que a ação possa prosseguir e deixando o espectador com vontade de saber mais sobre aquele mundo e aqueles personagens. Por exemplo: quando Grant sugere que sua parceira de caçada martele pregos nas pegadas deixadas pelo vilão no solo, de início parece uma total idiotice; mas na cena seguinte vemos que isso faz com que o vilão sinta uma dor terrível na sola do pé, num encanto tão simples quanto funcional - e sem usar um único pixel de CGI! A “bússola” usada pelo herói para perseguir o bruxo, alimentada com o sangue do vilão, é outro artifício narrativo simples e genial. Claro que se “O Exterminador do Futuro” funcionou tão bem, muito foi por causa do vilão interpretado por Schwarzenegger. Pois este aqui não seria a mesma coisa sem o inglês Julian Sands no papel-título. Meio esquecido de uns tempos para cá, Sands compõe um personagem maléfico sem apelar para gritarias, olhares malignos ou rompantes de violência. Pelo contrário, seu bruxo é refinado e elegante mesmo enquanto conversa com a pobre criança que, em alguns momentos, matará (sim, matam crianças em “Warlock”, o que acabou inspirando um crime terrível na vida real!). Tá, um grande defeito do filme é que, na maior parte do tempo, os personagens do século 17 se viram muito facilmente no futuro, inclusive para pegar aviões. Mas fica fácil esquecer esses deslizes graças às sacadas inteligentes do roteiro, tipo a mensagem deixada numa lápide no passado que aparece magicamente no presente. É uma bela aventura de horror a ser redescoberta, e que acabou virando franquia sem a menor necessidade (a Parte 2 é um slasher tão porra-louca que se torna divertido, mas a terceira é uma picaretagem da qual nem mesmo Julian Sands quis tomar parte).


GANGUES SELVAGENS / RUAS VIOLENTAS (Riot, 1996, EUA. Dir: Joseph Merhi)
Nos anos 1990, quando havia uma busca obsessiva pelo próximo Van Damme ou Steven Seagal, qualquer pessoa que conseguisse chutar um pouquinho mais alto que a média da humanidade já ganhava papel principal em algum filme de ação de fundo de quintal - e saber atuar não era pré-requisito para entrar no ramo. Nesse panorama, entre os dezenas de inexpressivos galãs de terceira divisão que tiveram carreira curta, o inglês Gary Daniels parecia ter potencial: era boa-praça, lutava pra caramba e fisicamente fazia um tipo menos bombadão e mais “gente como a gente”. Infelizmente, apesar de uma carreira duradoura que já passou dos 50 filmes, Daniels nunca chegou a ser devidamente reconhecido (o mais longe que chegou foi apanhar de Jet Li como vilão secundário ou terciário em “Os Mercenários”). O que é uma pena, porque ele tem alguns filmes classe C bem honestos e divertidos, certamente muito melhores do que a maioria das coisas que o Jason Statham está fazendo hoje. É o caso de “Riot”, que foi lançado no Brasil com dois títulos - primeiro como “Gangues Selvagens”, depois como “Ruas Violentas”. A trama é simples e eficiente, lembrando um cruzamento de “The Warriors” com “Fuga de Nova York”: depois que um tumulto de proporções épicas transforma todo um bairro pobre de Los Angeles em terra de ninguém, um agente especial (Daniels, claro) é obrigado a infiltrar-se na área tomada por marginais e saqueadores para resgatar a filha do embaixador inglês. Com um orçamento decente, “Riot” poderia ter sido um senhor filme de ação. Sem orçamento algum, como aconteceu aqui, ele até funciona dentro das suas limitações, mas o espectador passa o filme todo imaginando como aquilo poderia ser melhor e maior. Para as cenas do tumulto no início, por exemplo, os realizadores tiveram que se virar com imagens reais, o que garante autenticidade e economia. E ajuda ter um diretor especializado em ação de baixo orçamento como Joseph Merhi, que fez coisas toscas porém interessantes por aqueles anos. Graças a ele, algumas cenas de ação são ótimas, como aquela em que Daniels enfrenta um grupo de motoqueiros e acaba sendo perseguido por um deles com o corpo e a moto em chamas (Motoqueiro Fantasma?). Infelizmente, faltam alguns elementos importantes no roteiro para justificar certos absurdos. Passei o filme todo pensando que o herói poderia ter se escondido em qualquer prédio na zona de conflito e esperado pelo amanhecer e pela intervenção policial/militar, ao invés de arriscar a vida nas ruas tomadas por bandidos; somente no final do segundo ato o filme surge com uma justificativa para ele ter que deixar a área com urgência, o que soa como enganação. Enfim, é um excelente argumento que continua picando e esperando para virar algo bem melhor e maior.


FYRE FESTIVAL - FIASCO NO CARIBE (FYRE: The Greatest Party That Never Happened, 2019, EUA. Dir: Chris Smith)
No início de 2017, Billy McFarland, jovem CEO de uma empresa de sucesso, e o rapper Ja Rule uniram-se para promover o Fyre Festival, um megafestival de luxo destinado a pessoas ricas ou com poder aquisitivo para pagar pela experiência. Prometiam megashows numa ilha deserta nas Bahamas, cabanas cheias de conforto, comidinhas preparadas por grandes chefs, entre outras maravilhas. Os ingressos milionários esgotaram quase que imediatamente. Mas, já no primeiro dia do evento, o público percebeu que tinha caído numa armadilha: a ilha deserta não era tão deserta e nem tão glamorosa quanto aparecia na publicidade do festival, as confortáveis cabanas viraram barracas úmidas com colchão no chão, as comidinhas preparadas por grandes chefs não passavam de torrada de supermercado com uma fatia de queijo por cima, e os megashows nunca aconteceram porque os artistas perceberam a roubada e pularam fora do barco na véspera. Presos na ilha, sem lugar para dormir, sem avião para voltar pra casa e sem nada para comer e beber, os participantes do Fyre Festival viram seu paraíso virar um inferno. Esta história inacreditável é narrada em detalhes em “Fyre Festival - Fiasco no Caribe”, um documentário incrível produzido pela Netflix, que nos leva aos bastidores da organização do evento, mostrando como a coisa toda já era um pesadelo desde o início. Foram vendidos mais ingressos do que havia local para as pessoas ficarem; ninguém envolvido na organização tinha lá muita experiência sobre como organizar um evento deste porte; os artistas foram marcados e desmarcados de última hora, e no dia anterior ao início do festival o pessoal ainda tentava construir a mega-estrutura necessária para que tudo acontecesse. Com exceção dos cabeças da fraude (McFarland e Ja Rule), diversas pessoas que trabalharam nos bastidores são entrevistadas e contam histórias inacreditáveis - tipo o coitado que cogitou fazer um boquete no fiscal alfandegário para liberar a água para a galera não morrer de sede durante o festival! Pessoas que moravam na ilha e se estreparam com o empreendimento também dão relatos comoventes. Além de ser o espantoso registro de uma fraude monumental, “Fyre Festival - Fiasco no Caribe” também funciona como uma crítica à sociedade de consumo em que vivemos; sobre como um ideal de luxo e de exclusividade foi vendido facilmente e rapidamente com a ajuda de super-modelos e filmagens bonitinhas. E sobre como nossas vidas são regidas, queira-se ou não, por influenciadores digitais, que ganham uma nota preta “por fora” para divulgar marcas e empresas, mas sem nenhuma responsabilidade sobre quem ou o quê estão divulgando. No fim, sem querer spoilear, ninguém foi punido à altura e muitas pessoas tiveram perdas financeiras enormes com o fracasso do evento e as mentiras contadas por seus organizadores - especialmente quem trabalhou nos bastidores para tentar fazer o impossível acontecer. E se normalmente eu não teria lá muita pena dos riquinhos que embarcaram na furada apenas para divertir-se numa “festa exclusiva” longe da ralé, a verdade é que ninguém merece um completo descaso como o ocorrido. Para nós, brasileiros, o Fyre Festival nem parece novidade e faz lembrar um fiasco parecido que aconteceu por aqui: o Metal Open Air do Maranhão, em 2012, histórico tiro no pé que poderia render seu próprio documentário!

SHOWDOWN IN MANILLA (2016, EUA. Dir: Mark Dacascos)
Desde que saiu o primeiro “The Expendables”, reunindo todos aqueles astros dos filmes de ação que antes a gente só sonhava em ver juntos numa mesma aventura, os ratos de videolocadora idealizam sua própria versão de um “Expendables da Segunda Divisão”, juntando o pessoal do lado B (e até C) do cinema de ação dos anos 1980-90. Pois “Showdown in Manilla” parecia a concretização deste sonho. Descontando o fato de ser estrelado por um desconhecido grandalhão russo que ainda precisa mostrar serviço (Alexander Nevsky), seu elenco traz Casper Van Dien, Tia Carrere, Don 'The Dragon' Wilson, Cynthia Rothrock e Olivier Gruner como os heróis que combatem o bando de vilões liderados por Cary-Hiroyuki Tagawa e Matthias Hues (que também foram vilões em cinco de cada dez filmes 'direct-to-video' da década de 1980-90). Toda esta gente agora está na faixa dos 50/60 anos de idade, mas se você frequentava videolocadoras certamente se lembra deles novinhos e tocando o terror (só faltaram Michael Dudikoff, Frank Zagarino, Joe Lara e Bryan Genesse para fechar o pacote). Para melhorar o que já parecia um projeto bastante promissor, “Showdown in Manilla” foi dirigido por Mark Dacascos, um dos sujeitos mais desperdiçados do cinema de ação de vinte anos atrás, que teve pelo menos umas três ótimas chances para subir para a primeira divisão (entre elas “Drive”, uma das obras-primas esquecidas dos anos 90, e o ótimo “Crying Freeman”), mas mesmo assim sempre ficou relegado às margens. Parece bom demais, né não? Bom, sinto muito estragar a festa, mas a má notícia é que, afora as pontadas de nostalgia por ver toda essa gente legal junta (e se esforçando para fazer algo memorável pelos ratos de videolocadora que ainda lembram deles), “Showdown in Manilla” é uma bomba atômica. Era de se imaginar que, de tanto ter estrelado filmes de ação baratos na sua época, Dacascos iria aprender uma ou duas coisas sobre como dirigir um. Mas não foi o que aconteceu. Mesmo dando um desconto para o fato de ser uma produção paupérrima - de fundo de quintal mesmo, com tiros, sangue e explosões feitos em computação gráfica para economizar -, Dacascos parece não ter a menor ideia do que está fazendo, desperdiçando seus astros em tiroteios sem nenhuma empolgação e meia dúzia de trocas de sopapos. Os caras com mais potencial do plantel (Gruner e Wilson, que realmente lutavam pra cacete nos bons tempos) aparecem apenas 10 minutinhos no final, e só dão tiros ao invés de distribuir também umas voadoras. Cary-Hiroyuki Tagawa parece estar sob efeito de sedativos e sequer levanta um dedo - é o vilão mais velho, caquético e menos ameaçador da história do cinema de ação! Mesmo a incansável Cynthia Rothrock foi sub-aproveitada e aparece em cena como uma autêntica vovózona - na única cena em que ela tenta levantar um pouco mais a perna para golpear alguém, o espectador receia que ela vá ter um infarto. E coitadinha da Tia Carrere: musa de umas três gerações, a moça fez tanta plástica na cara que se transformou numa Susana Vieira! Na teoria, pelo menos, “Showdown in Manilla” soa como o projeto dos sonhos de alguém. O roteirista é Craig Hamann, amigão do Tarantino de quando ele ainda era um ilustre desconhecido. E em alguns momentos realmente parece que esses veteranos todos estão se divertindo, ou pelo menos felizes de ainda conseguir trabalho no ramo. Mas eles bem que mereciam um filme melhor para mostrar que continuam vivos e com certo potencial. É só ver que outros velhinhos da mesma época, como Van Damme, Dolph Lundgren e Steven Seagal, também continuam na ativa fazendo filmes que até podem ser meia-boca, mas pelo menos estão sendo produzidos com um mínimo de competência. Seguimos esperando por algo melhorzinho para poder chamar de “Mercenários da Segunda Divisão”...


TRIPLE THREAT (2019, Tailândia/China/EUA. Dir: Jesse V. Johnson)
E já que estamos falando em desperdiçar astros de ação...
Tempos atrás, o diretor inglês Jesse V. Johnson surgiu como grande promessa para fãs do gênero pela sua experiência pregressa como coordenador de dublês, e por parecer entender um mínimo da coisa, selecionando caras fodas como Scott Adkins e Marko Zaror para seus elencos. Pena que cada novo filme do homem comprova-se pior que o anterior, e Johnson tornou-se uma espécie de Uwe Boll do cinema de pancadaria. “Triple Threat”, seu novo petardo, é o fundo do poço e um dos maiores desperdícios de talentos da porradaria da história do cinema de gênero moderno. O diretor colocou nos papeis principais o tailandês Tony Jaa (“Ong Bak”) e o indonésio Iko Uwais (“The Raid”), ladeados por Tiger Chen, Scott Adkins e Michael Jai White - ou seja, praticamente o “Mercenários da Segunda Divisão” citado na resenha anterior. Mas Johnson desperdiça essa turma da pesada com um roteiro horrendo e um filme idem, que nunca, jamais chega perto de ser algo tão explosivo e emocionante quanto o pôster promete. “Triple Threat” não é só burocrático; eu cresci vendo produções da Cannon e filmes de kickboxer dos anos 1990, e AQUILO era burocrático. Esse negócio aqui é só RUIM mesmo; uma “história” escrita por três pessoas que cria as relações mais absurdas e simplórias entre seus personagens, heróis e vilões, unindo-os pelas piores coincidências e empilhando situações aleatórias - acho que só faltou uma briga de bar. O personagem do pobre Iko Uwais quer se vingar dos mercenários malvados que mataram sua esposa, mas quase todos os vilões são mortos pelos outros protagonistas! Iko se infiltra facilmente entre os bandidos com o intuito de eliminá-los na primeira chance, mas perde toda e qualquer oportunidade de fazê-lo. Lá pelas tantas, usa os outros dois heróis do filme como isca para reunir os vilões num mesmo local, e acaba provocando um massacre numa delegacia em que pelo menos quatro dezenas de policiais SEM NADA A VER COM A HISTÓRIA são mortos pelos vilões - e nunca, jamais, em tempo algum se ressente por ter sido o responsável direto pela chacina! Por sua vez, os já mencionados vilões são um primor de inteligência: mercenários fodaralhaços que não têm nenhum receio de praticar um atentado em plena luz do dia, metralhando um sem-número de policiais e inocentes para depois fugir pelo centro da cidade sem máscaras e com armas pesadas nas mãos; mesmo assim, eles de repente encasquetam que precisam invadir uma delegacia para matar duas testemunhas porque “elas podem identificá-los”!!! Claro que tudo isso seria perdoável se pelo menos as lutas funcionassem, mas Johnson as dirige no piloto automático (como, por sinal, já vem fazendo há algum tempo). Algumas poucas piruetas mais inspiradas de Jaa, Iko e Adkins surgem de repente para espantar o sono, mas nem de longe lembram os melhores momentos de qualquer um desses caras. Pelo menos o título de justifica: o filme é tão ruim que se torna uma ameaça tripla à carreira de todos os envolvidos. Especialmente do pobre Scott Adkins, que, como eu já cansei de dizer aqui no blog (leia aqui), está precisando urgentemente trocar de agente.


ATARI: GAME OVER (2014, EUA. Dir: Zak Penn)
É diversão garantida este documentário dirigido pelo Zak Penn (roteirista de blockbusters como “O Último Grande Herói”), investigando aquela lenda urbana que assombrou toda uma geração: teria a Atari enterrado milhões de cópias não-vendidas do cartucho de “E.T.” num deserto do Novo México, simplesmente porque o jogo baseado no sucesso de Spielberg era tão ruim que ninguém queria? A narrativa de “Atari: Game Over” faz um paralelo com “Os Caçadores da Arca Perdida”, já que obviamente não era apenas chegar no deserto e desenterrar cartuchos de Atari de uma cova rasa. Se a história fosse real, esses cartuchos estariam no fundo de um gigantesco aterro, cobertos por toneladas de outros tipos de resíduos, inclusive lixo tóxico! Para achar o “tesouro”, foi necessário primeiro encontrar um sujeito que trabalhou no local nos anos 1980 e que, por conta própria, passou as últimas décadas tentando determinar o ponto exato onde precisaria cavar para encontrar os lendários cartuchos - uma espécie de “Indiana Jones do lixão”. Penn também entrevistou ex-diretores da Atari e o próprio programador do jogo maldito, Howard Scott Warshaw (um gênio à frente da sua época que havia desenvolvido sucessos como “Yars' Revenge”, mas teve sua carreira literalmente destruída pelo fracasso de “E.T.” e hoje trabalha como psicanalista!). Todos os entrevistados tentam responder a outra pergunta que também assombrou uma geração inteira: teria o game “E.T.” realmente provocado a falência da Atari, a empresa responsável por levar o videogame para dentro das casas das crianças dos anos 1980, e que parecia um indestrutível conglomerado multimilionário? Tudo bem que o documentário às vezes escorrega na nerdice mais do que o necessário. A presença do autor geek Ernest Cline dirigindo um DeLorean, por exemplo, é meramente decorativa e não acrescenta nada. Felizmente, “Atari: Game Over” é curto (pouco mais de uma hora), divertidíssimo e repleto de incríveis imagens de arquivo, incluindo uma entrevista da época em que o próprio Steven Spielberg diz que jogou o “E.T.” do Atari e achou o máximo - algo que, hoje, ele provavelmente gostaria que tivesse sido enterrado junto com os cartuchos. O documentário também consegue gerar emoção e comoção, já que o espectador acompanha os trabalhos com bastante curiosidade para saber se os malditos cartuchos realmente estão lá ou se era apenas uma lenda urbana. Recomendado tanto para quem cresceu jogando Atari quanto para quem curte saber a verdade sobre essas histórias que são contadas e recontadas há décadas, o filme funciona como uma verdadeira viagem no tempo para uma época inocente de joguinhos bobos, mas histórias fantásticas sobre eles.


MAGGIE (2015, EUA/Suíça. Dir: Henry Hobson)
Schwarzenegger contra zumbis? Puta que o pariu! Se tivesse sido lançado nos anos 1980, “Maggie” provavelmente seria o filme que a molecada se empilharia em fila para ver nos cinemas, só de imaginar um dos grandes galãs de ação do período se engalfinhando com mortos-vivos (e logo ele, que sempre foi um fã confesso de “Reanimator”!). Como foi lançado só agora, em 2015, e ainda por cima é uma pequena produção independente, acabou passando em brancas nuvens (e o fato de ter sido lançado direto em DVD no Brasil com o ridículo título “Contágio - Epidemia Mortal” certamente contribuiu bastante para isso). “Maggie” também não é um filme de zumbis tradicional, e nem vemos Schwarzenegger saindo no braço com mortos-vivos tradicionais; é mais um drama de horror sobre a inevitabilidade da morte e tudo que a cerca, e neste aspecto acho que funciona muito melhor que o soporífero “A Ghost Story”, cuja proposta é parecida. A trama se passa num futuro próximo em que a humanidade sobreviveu a um apocalipse zumbi, e as pessoas tentam reconstruir suas vidas. Mas ainda existem algumas vítimas que foram mordidas pelos mortos-vivos e que logo passarão por um irreversível processo de transformação em novos zumbis. Elas são mantidas em quarentena pelo governo, e completamente afastadas do convívio com os cidadãos normais, até o momento em que viram desmortas e são eliminadas de maneira dolorosa com coquetéis de drogas. Alguns familiares não aceitam muito bem a ideia. É o caso do fazendeiro Wade Vogel (Schwarzenegger). Ele resolve tirar a filha adolescente Maggie (Abigail Breslin) do hospital e levá-la para casa, para poder acompanhar seus últimos dias antes da transformação em família - sem saber se terá coragem de eliminá-la pessoalmente quando chegar a hora. O tema não é novo e já aparece desde os primeiros filmes de zumbis do Romero: em “A Noite dos Mortos-Vivos”, por exemplo, o casal no porão também tentava cuidar da filhinha que tinha sido mordida; e em “Zombie - O Despertar dos Mortos” o soldado interpretado por Ken Foree acompanhava a degeneração física do colega que foi mordido até o momento de matá-lo uma segunda vez com um tiro na cabeça. “Maggie” é construído totalmente ao redor destes dramas: o da jovem que sabe que vai morrer e voltar como uma criatura horrível, capaz de fazer mal às pessoas que ama, e o do pai que, mesmo diante dessa possibilidade, prefere acompanhar os últimos dias da garota a deixá-la para morrer no hospital. Se tivesse sido lançado nos anos 1980, algum crítico espertinho certamente diria que se trata de uma alegoria da Aids. Infelizmente, considerando todo o potencial dramático do argumento, “Maggie” mostra-se bastante contido no lado emocional. Cenas que poderiam render momentos de grande sensibilidade, como a festa de despedida que os amigos da menina contaminada fazem para ela, foram dirigidas de maneira burocrática pelo estreante Henry Hobson. Mas é um ângulo diferente sobre um assunto já desgastado. E embora Schwarzenegger não seja o ator mais indicado para o papel do pai esperando a filha apodrecer em vida, é interessante ver o envelhecido brucutu se esforçando para mostrar alguma emoção. Um filme curioso, que não merecia ter sido completamente ignorado como foi - ainda mais quando filmes de zumbis bem piores ganham as manchetes, tipo esse sobre o qual falaremos abaixo...


OS MORTOS NÃO MORREM (The Dead Don't Die, 2019, Suécia/EUA. Dir: Jim Jarmusch)
“I could get actors that I love, little groups of them, and get them stuck in various places while outside, all of these creatures are just trying to break in and eat them. And then between the attacks of the zombies, there would be all this space for stupid, stupid conversations”. Foi assim que surgiu “Os Mortos Não Morrem”, segundo o próprio diretor-roteirista Jim Jarmusch em entrevista à Rolling Stone, o que imediatamente respondeu a duas perguntas que martelavam meu cérebro após ver o filme: por que um diretor culti-culti como Jarmusch foi se inventar de fazer um filme de zumbis, e por que o resultado é uma calamidade tão gigantesca. “Os Mortos Não Morrem” soa como se alguém tivesse acabado de ver os velhos filmes do George Romero, se encantado com a crítica social inteligente destas obras e tentado fazer o seu próprio tributo ao mestre... mas com meio século de atraso! Ele não apenas soa datado, também é redundante e repetitivo. Não há uma única ideia diferente que o destaque da caralhada de outros filmes sobre mortos-vivos feitos desde então, e mesmo a crítica social, esfregada sem nenhuma sutileza na cara do espectador (tipo zumbis carregando smartphones e guturalmente pedindo por wi-fi), faz qualquer sentido, considerando que é coisa que já se viu antes e melhor - toda essa parada de “o capitalismo e o consumismo nos transformaram em mortos-vivos”, e bla-bla-bla. Um diferencial, talvez, seja o elenco de astros e estrelas tentando sobreviver (e nem sempre conseguindo) aos ataques dos mortos, incluindo Bill Murray, Adam Driver, Chloë Sevigny, Tilda Swinton, Iggy Pop e outros de maior ou menor calibre. Mas seus personagens são tão irritantes que tornam o filme um autêntico martírio. É como se os vivos de Jarmusch estivessem mais mortos que os zumbis, e tenho certeza de que isso faz parte da brincadeira, mas não achei graça nenhuma. Para completar a catástrofe, o filme tem um senso de humor infantil que investe na repetição para tentar fazer graça. A música-tema toca o tempo inteiro, e os personagens estão conscientes de que é a música-tema do filme; a mesma cena de policiais entrando num restaurante, olhando cadáveres destroçados e concluindo que aquilo foi feito por “um ou muitos animais selvagens” é repetida três vezes, e daí pra pior. Lá pelas tantas, o personagem de Adam Driver empresta a chave do carro para alguém e seu chaveiro é do Star Wars - a franquia onde o próprio Driver interpreta Kylo Ren. E sim, este é o nível do humor de Jarmusch, que certamente já viu dias melhores! Talvez o verdadeiro morto-vivo em “Os Mortos Não Morrem” seja o próprio filme: a narrativa se arrasta tipo os zumbis do Romero, tudo soa velho e apodrecido, e alimentar-se dos vivos - ou, no caso em questão, retroalimentar-se de elementos que já estão por aí na estrada há meio século - é a única maneira de seguir, cambaleante, em frente. Pena que não tem como dar um tiro na cabeça do filme e poupá-lo de seu sofrimento...


THE MIND’S EYE (2015, EUA. Dir: Joe Begos)
Existem duas formas de avaliar “The Mind's Eye”, produção independente que já foi comparada ao clássico “Scanners”. O problema é que uma forma não é justa com a outra. Podemos analisá-lo como filme indie, feito fora do circuito dos grandes estúdios e com baixíssimo orçamento. Por esse prisma, “The Mind's Eye” realmente brilha: é uma história sobre pessoas com poderes telecinéticos filmada à moda antiga (ou à moda Cronenberg), totalmente com efeitos práticos inclusive nas cenas mais difíceis, quando cabeças e pessoas inteiras são explodidas. Também há um cuidado quase obsessivo com a fotografia (repleta de tons exagerados de azul e vermelho), com o desenho de som e com a trilha sonora oitentista, que é maravilhosa e ajuda a criar o clima da trama, passada no começo dos anos 1990. Logo, para uma produção independente, o nível técnico está muito, mas muito acima do esperado, e realmente salta aos olhos. Tem produção de grande estúdio que parece muito mais rasteira e amadora. Aí entra a segunda forma de avaliar “The Mind's Eye”, que é enquanto filme, ponto. E aí o negócio desmorona: parece que os realizadores ficaram tão preocupados com os aspectos técnicos que esqueceram de escrever um roteiro. (Mal) Sustentado por um fiapo de história, o filme acompanha a fuga de um casal dotado de poderes mentais da clínica de um cientista malvado, que está injetando o DNA deles no próprio corpo para se transformar num monstro mutante poderosíssimo. E é basicamente com isso que os realizadores trabalham. Não há qualquer tentativa de criação ou de desenvolvimento de personagens: só sabemos quem são os “bonzinhos” e os “malvados” porque o filme assim determina, e esses últimos são tão caricaturais que o grande vilão vive gritando ou rangendo os dentes, e um de seus capangas usa tapa-olho para parecer mais durão. O casal principal só é casal porque isso serve à narrativa, e uma cena de sexo entre eles é tão gratuita e injustificável que faz a putaria-jogada-na-tela daqueles filmes da extinta Sexta Sexy parecer muito menos gratuita. O roteiro não consegue fazer com que a gente se importe minimamente com uns e outros. Vá lá que Stephen Lack, o protagonista de “Scanners”, não era nenhuma Miss Simpatia, mas o espectador pelo menos se compadecia do personagem e compreendia suas motivações para seguir acompanhando a trama com atenção. Aqui não: o herói é tão ruim e vazio quanto todos os outros personagens, e tão obcecado pela única personagem feminina do filme que este poderia ser totalmente reeditado para transformar o herói em vilão! Todos também são muito burros, e ninguém parece aprender nada com o que acontece, principalmente os bandidos, que não aprendem nem na segunda, nem na terceira vez que você não deve apontar uma pistola para alguém que tem poderes telecinéticos, e sim atirar de uma vez, antes que ele possa bagunçar sua mente e impedi-lo de apertar o gatilho. Para piorar, tudo é levado excessivamente a sério, sem nenhum senso de humor, sem nenhuma piadinha (proposital ou involuntária). Talvez o vilão-que-quer-dominar-o-mundo-simplesmente-porque-quer funcionasse melhor como caricatura, mas o filme tenta apresentá-lo como uma ameaça séria e perigosa que ele nunca consegue ser. Talvez o capanga de tapa-olho ficasse engraçado caso alguém tirasse sarro da situação, mas não, ele nos é apresentado como um bandido casca-grossa apenas porque não tem um olho! E embora seja preciso ressaltar a ambição de todos os envolvidos, que tentaram recriar com pouco dinheiro os efeitos de altíssimo nível de clássicos como “Scanners” e “A Fúria” (e foram razoavelmente bem-sucedidos), tal ambição também se revela um tiro no pé quando o cenário de um instituto de pesquisas high-tech é obviamente uma simples casa de campo, e os incríveis poderes telecinéticos dos seus protagonistas aparecem-desaparecem conforme a conveniência do roteiro. Considerando tudo isso, as sequências fraquinhas de “Scanners”, mesmo aquela bagaceira chamada “Scanner Cop”, ainda são muito mais eficientes do que “The Mind's Eye” inteirinho.

12 comentários:

SEMI disse...

Cacetada. Rompeu uma barragem e o blog recebeu as resenhas curtinhas atrasadas do semestre de uma só vez.

Melhor maneira de manter o FpD vivo, afinal eu imagino o trabalho que deve dar um review tradicional.

Chovendo no molhado,parabéns pelo bom trabalho.

Leonardo Peixoto disse...

Tô muito feliz por ter novidade no blog . Espero que esteja bem , saudoso mestre do cinema desconhecido .

Anônimo disse...

Salve, Felipe!
Sobre SHOWDOWN IN MANILLA ("só faltaram Michael Dudikoff, Frank Zagarino, Joe Lara e Bryan Genesse para fechar o pacote"), você esqueceu de mencionar o Lorenzo Lamas. :-D
Falando em Rambo, assisti um sábado desses mais uma reprise do 2 - A Missão, acho que na Rede Brasil, e quando vi nos créditos o nome do James Cameron como roteirista, resolvi dar uma pesquisada no assunto e acabei encontrando e lendo o roteiro original do Cameron (http://www.jamescamerononline.com/Rambo2script.htm) . Cê já tinha lido essa versão Felipe? Se já leu ou se vai ler, depois deixa sua opinião, se acha que seria pior ou melhor ou só mais inchado que a versão filmada. Parabéns pelo SENSACIONAL blog e VALEU por compartilhar toda esse conhecimento, irmão!

Alaor Silveira

Tiago - Sumaré disse...

Bom que voltou Felipe, tava com saudades dos seus textos. Falta algumas trasheiras para engordar a coisa (talvez recuperar a velha crítica do Nights of Terror hehe), mas é bom ve-lo de volta.

Abraços.

Anônimo disse...

na critica de polar, felipe guerra reclama da ''objetificaçao do corpo da mulher''e diz que o excesso de mulheres peladas incomoda, e entao eu pergunto, o que aconteceu com felipe guerra? sofreu lavagem cerebral e virou um feministo politicamente correto? lamentavel!!!

Giácomo Corleone disse...

Hahahahahaha! Felipe arrumou pra cabeça!

Daniel I. Dutra disse...

Sobre o Coringa: não entendi muito bem a afirmação de que "Esquadrão Suicida" e "Venom" foram fracassos, a menos que seja referente a terem sido fracassos de crítica, porque nas bilheterias ambos foram bem e prova é que haverá continuações. É aquele velho caso "a crítica odiou e o público gostou".

Até me arrisco a dizer que foi o sucesso do "Esquadrão Suicida" que fez a DC abrir os olhos para o potencial de se fazer filmes de vilões e investir num filme do "Coringa", visto que os filmes de super heroi da DC não deram muito certo (vide o fiasco do filme da Liga da Justiça e do Lanterna Verde).

Kiva disse...

Hey Felipe! Adorei as resenhas. Uma dúvida: como você assiste a todos esses filmes? DVD/BD, torrent, streaming? O que você acha do que andam dizendo que ' a mídia física acabou'?
Abraços

Jonathan Nascimento disse...

Acho que sou um dos poucos que não gostou de Coringa, o filme é bom, mas a releitura do personagem não me agradou. Esse Doom chamou a minha atenção, eu nem sabia da existência desse filme e sobre o Rambo concordo com você, o filme é uma piada de mal gosto e ficaria bem melhor com os vilões sendo americanos supremacistas brancos mesmo.

Thales-O disse...

O Coringa, para minha pessoa, foi uma grata surpresa, uma verdadeira mistura de Taxi Driver com Rei da Comédia, mas eu acredito que se houver fusão desse filme com algum futuro universo cinematografico da DC a magia desse filme se perde, não que seja uma obra prima, mas há certos filmes que existem para serem únicos (leia-se sem sequencia ou parte de um universo compartilhado) e esse é o caso do filme em questão.

Curti Creed II, mas também acho que deveria ter focado mais no Drago ou pelo menos fazer um paralelo mais profundo entre seu filho e o personagem título.

Felipe, há alguma probabilidade de fazer uma crítica dose dupla do filme Ruas de Fogo com a sua sequência (obscura) chamada Road To Hell dirigido pelo Albert Pyun ?

spielberg disse...

Nossa! Maravilha! Eu tava sentindo tanta falta dessas resenhas! E finalmente vou ter o que ler de interessante sobre filmes na internet. Juros que pensei que você ia ficar mais uns 4 anos sem postar de novo. Essa postagem já é meu presente de natal antecipado!

Gélikom disse...

Não fique tanto tempo sem postar.