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quinta-feira, 13 de maio de 2010

INTREPIDOS PUNKS (1988)


Se você achava que este blog já tinha descido aos mais baixos níveis de ruindade cinematográfica ao resenhar "Força Cruel" e "Deadly Prey - Extermínio de Mercenários", seja bem-vindo de volta ao território pútrido do lixão fílmico, com mais uma daquelas "obra-primas" que fazem você se perguntar a cada cinco minutos: "Mas afinal, por que é mesmo que eu estou vendo ISSO?".

O título da bagaça não poderia ser mais sedutor: INTREPIDOS PUNKS. E apesar de parecer um título escrito em bom português (falta apenas um singelo acento agudo), não se trata de um filme brasileiro: estamos diante de uma obscura produção MEXICANA dirigida por Francisco Guerrero, mas que até lembra, e muito, aquelas produções bagaceiras da Boca do Lixo - com as quais divide a pobreza e a quantidade de sexo e mulheres peladas.


Sem mais rodeios, já que ando sendo acusado de escrever demais sobre filmes que não merecem tanto, INTREPIDOS PUNKS é a singela história de uma quadrilha de motociclistas punks (não me diga!!!!) caracterizados como aqueles vilões pós-apocalípticos de filme B italiano (ou seja, roupitchas de couro e coloridos cabelos ao estilo moicano).

Apesar disso, os punks vivem numa cidadezinha do interior do México (!!!), em sua própria comunidade no deserto (peraí, são punks ou hippies?), de onde volta-e-meia saem para assaltar bancos e postos de gasolina, além de matar e estuprar inocentes, não necessariamente nesta ordem.


Os punks mexicanos obviamente são uma cópia bagaceira da trilogia "Mad Max". Inclusive são liderados por uma loiraça sensual chamada Fiera (interpretada por... não ria... "Princesa Lea"!!!), e a moça usa figurino e penteado parecidíssimos com Tina Turner no terceiro filme dirigido por George Miller. E a aventura mexicana não esconde outra influência bastante óbvia: "The Warriors - Os Selvagens da Noite" (que também já trazia gangues de marginais usando figurinos excêntricos).


Hilariante de tão ruim, INTREPIDOS PUNKS não tem um roteiro muito coerente, com uma trama que se desenrola apenas catalogando os crimes "selvagens" cometidos pelos punks.

Na primeira cena, as moças do grupo assaltam um banco vestidas como freiras, só para dar uma idéia do nível da coisa. Depois há surubas, estupros coletivos, um rapaz incendiado vivo num posto de gasolina e um ousado plano para libertar da cadeia o amante de Fiera e verdadeiro líder da quadrilha, Tarzan (!!!), interpretado por um daqueles lutadores mexicanos mascarados, conhecido apenas por El Fantasma - e sim, o sujeito usa máscara o filme inteiro, e quando não usa a câmera não enquadra seu rosto!

(E se Fiera e Tarzan não parecem "nomes punks" bons o suficiente para você, caro leitor, saiba que outros membros do grupo têm apelidos tão singelos quanto Calígula e Pirata!!!)


Mas é claro que não temos apenas punks espalhafatosos em cena: não demora muito para entrar em cena a dupla de "heróis" da coisa. Agora tente segurar o riso: são dois quarentões bigodudos e ostentando respeitáveis barriguinhas de cerveja, além de vestirem um figurino hilário que inclui "discretíssimos" ternos em tons vermelho-berrante (!!!).

Seus nomes são Marco e Javier (atores não creditados, e não sei porque isso não me surpreende...), dois agentes federais bons de briga e de mira, daquele tipo cinematográfico que prefere matar os bandidos a prendê-los.

Porém, como roteiro ruim é pouco neste caso, Marco e Javier só vão tratar da ameaça dos punks nos 25 minutos finais de INTREPIDOS PUNKS! Antes, eles estão muito ocupados resolvendo "missões secundárias" que não têm absolutamente nada a ver com os moicanos e moicanas: desbaratar uma quadrilha de contrabandistas e um cartel de traficantes de drogas - é provável que o filme tenha ficado muito curto e o diretor rodou essas cenas "nada a ver" apenas para completar a duração.


INTREPIDOS PUNKS é tão ruim, mas tão ruim, que você não consegue desgrudar os olhos da tela - e o espanhol falado pelos protagonistas só ajuda no fator diversão, já que a pronúncia de "punks" se transforma em "PÓNKS" com o carregadíssimo sotaque mexicano.

Há tantas cenas estúpidas que seria de questionar a sanidade de diretor e do seu elenco. Mas a mais absurda delas certamente é um estupro coletivo comandado por Fiera, que manda seus asseclas violentarem as esposas dos diretores do presídio onde Tarzan (quaquaqua) está trancafiado. Pois os estupros são intercalados com cenas de uma banda punk-rock tocando AO LADO DOS CASAIS TRANSANDO, como se os caras tivessem levado bateria, guitarras e caixas de som para ajudar na animação da orgia!


E por falar em música, a canção-tema do filme, chamada "Intrepidos Punks" (que criativo!), toca umas 80 vezes durante os 90 minutos de duração da película. Ao que parece, a produção era tão pobre que não havia dinheiro para comprar outras músicas, assim restou aos pobres mexicanos repetir sempre a mesma. Acredite, dá para decorar a letra até chegarem os créditos finais...

A verdade é que embora seja vendido como filme de aventura, INTREPIDOS PUNKS é um exploitation com todas as letras: tem (muito) sexo, violência e consumo de drogas, além de uma abordagem ridiculamente sensacionalista de um fenômeno social em pleno auge na época, o movimento punk - aqui, claro, distorcido de forma preconceituosa e exagerada.

É até engraçado pensar numa quadrilha de punks que vive no meio do deserto fazendo orgias, mas todos estão sempre maquiados e com os cabelos armados em excêntricos penteados! Alguns deles, de tão espalhafotosos, parecem ter saído do filme "Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton, como este da foto abaixo:


Destaque absoluto para a tal Princesa Lea, a loiraça peituda que interpreta a grande vilã da trama. Ela aparece o tempo inteiro pelada ou quase, vestindo umas tirinhas de couro que mal cobrem os biquinhos dos seios (porque o resto fica todo de fora). E seu corpão é um verdadeiro atentado à moral e aos bons costumes (numa época pré-silicone e pré-lipoaspiração)!

Dei uma pesquisada no Google e descobri que Princesa Lea (quaquaqua) era uma espalhafatosa dançarina e cantora mexicana daquela época, conhecida por suas performances "sensuais" e por aparecer peladona em filmes - mais ou menos como a Gretchen ou a Rita Cadillac na mesma época aqui no Brasil, para comparar. A propósito: ela começou a usar o nome "Princesa Lea" em 1977, ano de "Star Wars", então dificilmente se trata de um caso de mera coincidência...

(A título de curiosidade, dá uma sacada nos títulos de outras obras em que a moça aparece: "Chile Picante", "Muñecas de Medianoche" e "El Violador Infernal"!!!)


Sem mais delongas, INTREPIDOS PUNKS é um filme que precisa ser desenterrado e VISTO. É impossível quantificar a sua ruindade em tão poucos parágrafos, só mesmo testemunhando as atrocidades que chamam de roteiro e direção para entender do que estou falando. Com direito a cena de pancadaria coletiva estilo Os Trapalhões, quando Tarzan (ou El Fantasma, como você preferir) tem a chance de mostrar seus dotes de lutador de luta livre, e com direito também aos heróis vencendo o vilão numa luta "dois contra um" (e daí que é covardia?).

Para encerrar, sugiro uma sessão dupla imperdível para ser curtida com a ajuda de doses cavalares de álcool: INTREPIDOS PUNKS para aquecer e o hilário filme nacional "Punk's - Os Filhos da Noite" (1982), de Levi Salgado, com Danton Jardim e Lady Francisco, para encerrar a noitada. Melhor ainda se você convidar alguns amigos punks "de verdade" para conferir. Garantia de uma noite inesquecível...


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Intrepidos Punks (1988, México)

Direção: Francisco Guerrero
Elenco: Princesa Lea, El Fantasma, Olga
Rios, Juan Gallardo, Rosita Bouchot,
Juan Valentín e Alfredo Gutiérrez.


domingo, 9 de maio de 2010

O tal do "24 Horas" brasileiro


Eu queria muito poder dizer aos meus nobres leitores que SEGURANÇA NACIONAL é o filmaço de ação made in Brasil que eu estou esperando há anos (até porque o trailer era promissor). Queria muito, também, que ele se tornasse um estrondoso sucesso de bilheteria no boca-a-boca, à la "Bezerra de Menezes", o que certamente levaria mais diretores, produtores e roteiristas a investir no gênero aqui no país.

Mas não, SEGURANÇA NACIONAL não é um filmaço, muito menos um bom filme de ação. Com todos os seus defeitos, o "Besouro", por exemplo, é bem melhor.

E não, não vai ser um estrondoso sucesso de bilheteria. Pelo menos a sessão que eu vi, em plena tarde de sábado na Avenida Paulista, tinha apenas três pessoas além de mim...

Antes de mais nada, queria mandar um tapão na orelha para todos os críticos desinformados que escreveram que SEGURANÇA NACIONAL é uma das primeiras tentativas de se fazer cinema de ação no Brasil. Obviamente estes sujeitos nunca ouviram falar em Tony Vieira, Rubens Prado ou mesmo Afonso Brazza, nem sabem que existe até um filme de kickboxing feito no país, "A Gaiola da Morte". Ou então eles consideram "cinema brasileiro" apenas o que saiu da Retomada para cá, visão típica de criticozinho arrogante e ignorante.

Enfim...


SEGURANÇA NACIONAL, segundo informam vários sites, começou a ser produzido em 2006 e foi finalizado apenas agora, a um custo estimado em R$ 5 milhões. Vendo o filme, dá para entender a demora na conclusão: é uma produção relativamente barata que deve ter enfrentado muitos problemas, principalmente na realização das cenas de ação. Os efeitos dos tiros, por exemplo, nunca convencem, seja na sonoplastia (o som dos disparos é muito baixinho), seja nos efeitos digitais do clarão dos disparos das armas (qual é o problema com balas de festim?).

Nestes quatro anos em que a produção vinha sendo finalizada, bem que alguém poderia ter dado uma boa olhada no material para perceber a quantidade de equívocos que viriam a se tornar o filme que agora chega aos cinemas, e quem sabe tentar corrigir alguns deles, ou ao menos cortar as diversas cenas que estão sobrando.

Pois se como filme de ação SEGURANÇA NACIONAL deixa a desejar, ele certamente faz rir mais que muita comédia. Principalmente pelo exagerado tom ufanista. Não tenho nada contra a bandeira do Brasil nos uniformes dos soldados ou tremulando ao vento. Afinal, isso é comum em qualquer filme norte-americano de quinta categoria. Mas depois da décima-oitava cena da bandeira verde-amarela tremulando em câmera lenta, a coisa começa a ficar xarope. E não é só: até o Hino Nacional foi incluído na trilha sonora (!!!) numa cena sem qualquer razão de existir!


O roteiro de Bruno Fantini, Daniel Ortiz e do diretor Roberto Carminati (vindo das novelas da Globo) não esconde sua grande inspiração: a série de TV "24 Horas". Thiago Lacerda interpreta Marcos Rocha, um agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) que é obviamente calcado no modelo Jack Bauer, embora menos truculento. Já Milton Gonçalves é o presidente negro do Brasil, à la Barack Obama e à la presidente Palmer, de "24 Horas".

A trama de SEGURANÇA NACIONAL se passa em 2004 e tem a ver com o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) e com a Lei do Abate, ferramentas que concederam ao Governo Brasileiro poderes para vigiar a principal entrada de aviões de narcotraficantes no país. Um deles, Hector Gazca (interpretado pelo mexicano Joaquín Cosio), resolve enfrentar o governo para desativar o Sivam, promovendo do seqüestro de políticos brasileiros à ameaça com bombas nucleares - planos sempre frustrados por Marcos, que é o nosso Ethan Hunt, da série "Missão Impossível".

Até há um bom filme em SEGURANÇA NACIONAL, e a própria trama não é das piores, tentando fugir dos clichês do gênero. Terroristas no Brasil? Uau, isso sim é novo! O início do filme - que mostra uma ação do exército contra traficantes no coração da Amazônia - também é muito bom e promissor, e mesmo os créditos iniciais com caracteres "tridimensionais" têm seu charme.


Mas a partir daí é um festival de equívocos que qualquer roteirista saberia contornar facilmente, e não sei porque TRÊS não conseguiram! Por exemplo, por que o vilão Gazca fica apelando para planos cada vez mais mirabolantes para derrubar o Sivam ao invés de simplesmente encontrar uma rota alternativa?

Outra bobagem descomunal é o fato de o super-agente Marcos namorar Fernanda (Viviane Victorette), uma garota que não sabe que seu amado é agente da Abin. Ao mesmo tempo, nosso herói não sabe que sua amada é filha da diretora da Abin (!!!!), interpretada de maneira caricatural por Ângela Vieira. Ou seja, se o super-agente não sabe nem que sua sogra é a sua própria patroa, temos um sinal evidente de que a Inteligência Brasileira vai muito mal das pernas...

Os TRÊS (ênfase) roteiristas também não conseguem contornar a enxurrada de clichês, como o bandidão malvado que passa o filme inteiro matando seus comparsas quando nervoso, mas nunca consegue matar o herói, e no final apela para o velho plano de seqüestrar a namorada do mocinho para se vingar. Mas o uso do Código Morse foi uma bela sacada, ainda que meio inverossímil no contexto todo da situação.


Além dos defeitos técnicos nas cenas de tiroteio, SEGURANÇA NACIONAL tem lutas frouxas e uma trilha sonora absurda repleta de musiquinhas pop-românticas, que tocam nos momentos mais inadequados. E o personagem do presidente é uma comédia: numa cena, ele visita uma escola infantil e, ao ver seus seguranças tentando conter o avanço dos alunos, faz questão de impedi-los e de abraçar cada uma das criancinhas, só para mostrar como é um bom sujeito.

E se SEGURANÇA NACIONAL não funciona como filme de ação, como comédia involuntária, pelo menos, agrada. Afinal, o que pensar de um "terrorista" que decide explodir o Palácio do Governo de Santa Catarina (Estado que colaborou financeiramente com a produção, é claro...) ao invés do Palácio do Planalto? É bem possível que, daqui uns 20 anos, os netos do "Filmes Para Doidos" estarão fazendo piadinhas desse filme como eu faço com as produções da Boca do Lixo...

Agora, verdade seja dita: mesmo com todos seus incontáveis defeitos, SEGURANÇA NACIONAL tem algumas qualidades que certos críticos preferiram ignorar, como as ótimas cenas aéreas envolvendo caças do exército (acho que isso nunca foi feito no cinema brasileiro; aliás, queria ver o que o Tony Vieira faria com estes recursos) e uma perseguição automobilística ladeira abaixo que inclui diversas explosões no percurso, provavelmente o ponto alto do longa.


Isso sem contar que a imagem de não uma, mas duas explosões nucleares NO BRASIL é aquele tipo de coisa que a gente não está acostumado a ver no cinema nacional!

O galã de novelas Thiago Lacerda não está de todo mal como mocinho. No começo é até engraçado ouvi-lo dizer frases pomposas como "A base inimiga foi neutralizada", ou "Afirmativo", mas depois ele não faz feio. Infelizmente, faltam-lhe cenas de ação numa produção que se perde num bla-bla-bla quase interminável.

Divertidíssimo, o elenco bizarro da película é um show à parte: além de todos os já elencados, aparecem também Aílton Graça (!!!) como parceiro do herói (numa cena, o "negão de tirar o chapéu" encara um avião em decolagem apenas com uma moto e um revólver!); Gracindo Jr. como senador corrupto e até Sônia Lima (sim, aquela antiga jurada do Show de Calouros!!!) e a ex-dançarina do Tcham Sheila Mello! É tanta cara conhecida em papéis "diferentes" que quase parece um "Machete" tupiniquim!

Mas infelizmente parece que faltou grana e recursos técnicos para que as lutas e tiroteios não parecessem tão apressadas e mal-coreografadas. Ou talvez brasileiro não saiba filmar cenas de ação sem uma ajudinha dos gringos (como aconteceu em "Tropa de Elite" e "Besouro"). Feitas por conta própria, as perseguições de carro, por exemplo, parecem saídas de novelas - como visto recentemente também no intragável "Salve Geral".

Algo que certamente merece maior atenção do próximo corajoso interessado em fazer um filme brasileiro de ação - quem sabe uma nova aventura do agente Marcos Rocha que passe a borracha nessa primeira.


Confesso, porém, que foi uma experiência divertida entrar num cinema de shopping, entre exibições de "Homem de Ferro 2" e do péssimo remake de "A Hora do Pesadelo", para ver um filme brasileiro de ação. Me imaginei de volta aos anos 70/80, entrando numa sala de cinema de rua para ver um longa do Tony Vieira na tela grande. Quem sabe, SEGURANÇA NACIONAL seria um sucesso popular naqueles tempos de cinema de rua com preços populares. E talvez agora vire hit nos camelôs, entre as novas produções B do Steven Seagal e do Dolph Lundgren. É esperar para ver...

Triste foi abrir a Folha da sexta-feira, data de estréia nacional do longa, e ver o filme sendo destruído em meia-dúzia de linhas, enquanto na mesma edição o péssimo "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", um dos piores filmes brasileiros que eu já vi na vida, era tratado com ares de obra-prima da cinematografia nacional.

E o que esperar de críticos-malas que ainda vivem à sombra de Glauber Rocha, aquele super-mala falecido há quase 30 anos e que condenava/odiava o sistema de produção comercial e o cinema de gênero, que combatia o cinema popular das chanchadas (talvez porque qualquer chanchada meia-boca tenha dado mais bilheteria do que toda a filmografia dele...)?

Enquanto esses críticos pedantes continuarem "no poder", obras "populares" como SEGURANÇA NACIONAL serão sempre condenadas como algo pior do que a pedofilia ("Filme de ação no Brasil? NÃO!!!!"). Ao mesmo tempo, filmezinhos cult tipo "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" e "Os Famosos e os Duendes da Morte" ganham deslumbradas resenhas de página inteira, quando não a capa dos cadernos de cultura. Afinal, filme brasileiro, para a crítica brasileira, precisa ser tratado de sociologia ou filme de arte, e não diversão. Quanto menos voltado para as massas, melhor.

Não sei vocês, mas entre estes citados eu ainda fico com o Jack Bauer brasileiro. Mesmo com todos os seus defeitos, porque pelo menos ele me fez rir - e não sair do cinema rosnando de raiva por excesso de pretensão artística, como é comum quando vou encarar certas produções nacionais...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

CAPITÃO AMÉRICA (1990)

Como as coisas mudam... Mais ou menos de 2000 para cá, "filme de super-herói" é sinônimo de produção caríssima, diretores consagrados e astros de primeira linha. Afinal, neste pequeno intervalo de tempo, ficamos todos mal-acostumados com blockbusters tipo "O Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado" (orçamento de US$ 130 milhões), "Homem de Ferro" (US$ 140 milhões), "O Incrível Hulk" (US$ 150 milhões), "Batman - O Cavaleiros das Trevas" (US$ 185 milhões), "Superman - O Retorno" (US$ 209 milhões), "X-Men - O Confronto Final" (US$ 210 milhões) e o recordista "Homem-Aranha 3", com seu inacreditável orçamento de 258 milhões de verdinhas! Claro que nem sempre foi assim. Por exemplo, se voltarmos 20 anos no tempo, entre o fim da década de 80 e começo de 90, quase todo filme de super-herói tinha produção paupérrima, além de ser voltado exclusivamente ao público infantil, sem grandes diretores, grandes astros e muito menos grandes orçamentos. Não por acaso, produtores barateiros como Roger Corman e a dupla Golan e Globus, da Cannon Films, eram os que costumavam se envolver com esse tipo de material. Em tal universo, o famoso "Batman" feito por Tim Burton em 1989 foi uma exceção - uma superprodução com explosiva campanha de marketing e atores famosíssimos (Jack Nicholson, Kim Basinger e, vá lá, Michael Keaton). Mesmo assim, parece ter custado uma miséria em comparação às inflacionadas superproduções atuais: o orçamento do filme de Burton foi de "apenas" 35 milhões de dólares. Este "Batman" de 89 foi uma exceção porque o fracasso financeiro de "Superman 4 - Em Busca da Paz" (1987) deixou os grandes estúdios receosos de investir nos filmes do gênero. É só comparar os números de algumas adaptações de heróis das HQs daquela época: "As Tartarugas Ninja", de 1990, custou 13,5 milhões de dólares; "O Justiceiro", de 1989, US$ 10 milhões; "Rocketeer", de 1991, US$ 9,6 milhões, e o famigerado "Quarteto Fantástico", produzido por Roger Corman em 1994 e nunca lançado comercialmente, custou a merreca de US$ 1,5 milhão de dólares! E se hoje todo mundo espera entusiasmado pelo novo filme do Capitão América, que será dirigido por Joe Johnston para lançamento em 2011, certamente é pouca gente que lembra do CAPITÃO AMÉRICA de 1990, uma aventura indigente produzida a toque de caixa por Menahen Golan (ex-Cannon, então falida) e pelo próprio Stan Lee, o editor da Marvel (que, pelo jeito, vendia os direitos dos seus personagens pelo preço de um café de boteco de esquina naquela época). Não sei quanto foi o orçamento de CAPITÃO AMÉRICA, mas, pelo que se vê na tela, o montante financeiro era irrisório, para não dizer inexistente. Percebe-se também que a coisa custou pouco quando você vê o nome de Albert Pyun, nos créditos iniciais, como diretor. Afinal, o sujeito é conhecido por comandar tranqueiras a custo zero, como "Dollman - 33 cm de Altura... e Atira", e considerado, por muitos, um dos piores cineastas de todos os tempos (com certa razão, mas tem gente bem pior por aí trabalhando com orçamentos gigantescos). O incrível é que este CAPITÃO AMÉRICA dos pobres começa razoavelmente bem, embora cometa a heresia de recontar a origem do Capitão América e do seu arquiinimigo Caveira Vermelha (Red Skull, no original) com bastante liberdade poética em relação aos quadrinhos. Se na HQ o Caveira Vermelha sempre foi um nazista, braço direito do próprio Hitler e com uma máscara em formato de caveira, no filme a ambientação passa da Alemanha para a Itália (!!!), e são os fascistas de Mussolini que raptam um menino superdotado para transformá-lo num super-criatura mutante, graças ao soro inventado por uma renomada cientista, a dra. Maria Vaselli (Carla Cassola). Os italianos já haviam feito testes em ratos antes, e deram origem a um monstrengo em stop-motion muito parecido com o macaco-rato da Sumatra visto em "Fome Animal", de Peter Jackson, como vocês podem conferir na foto abaixo: Ao ver uma pobre criança inocente sendo brutalizada pelo seu próprio trabalho, a dra. Vaselli resolve fugir e buscar refúgio nos Estados Unidos, onde aperfeiçoa o seu soro e dirige a chamada "Operação Renascimento", que pretende criar supersoldados norte-americanos para vencer o trio Itália-Alemanha-Japão no auge da Segunda Guerra Mundial . O exército ianque procura por uma cobaia para o projeto, e quem se voluntaria é um soldado franzino e com problemas nas pernas chamado Steve Rogers (Matt Salinger). A experiência não lhe dá superpoderes, mas aumenta sua força, resistência e habilidades físicas (embora o "herói" tenha poucas chances de mostrar isso em aventura tão bisonha). E Rogers devia ser o primeiro de um exército de supersoldados, mas a dra. Vaselli é morta por um espião nazista infiltrado no grupo antes que tenha tempo de deixar a fórmula do seu super-soro anotada (agüenta...). (Pausa necessária: nas velhas HQs do Capitão, a origem do herói azulão e do Caveira Vermelha não estão relacionadas, como no filme. O cientista que transforma Steve Rogers em supersoldado é homem e não fugiu da Itália, mas seu destino é semelhante ao da pobre Vaselli, sendo morto por um espião nazista logo depois do teste da fórmula no futuro super-herói.) Diz um velho ditado gaúcho: "Só tem tu, vai tu mesmo!". E assim o Capitão América ganha um uniforme berrante desenhado pela falecida dra. Vaselli (nas HQs, era o próprio Steve quem fazia a roupa) e parte para sua primeira missão: deter um míssil que o Caveira Vermelha pretende disparar contra a Casa Branca. Uma luta violenta acontece entre herói, vilão e as forças inimigas (nazistas e fascistas), mas o Caveira consegue amarrar o Capitão América no míssil e dispará-lo com destino a Washington (não sem antes perder uma das mãos, decepada pelo herói!). Porém o azulão é foda, e consegue desviar a trajetória do míssil apenas com os pés (!!!), aterrissando no gelo em algum lugar da Antártida. Parece até que estou contando o filme inteiro, mas esses são apenas os 20 MINUTOS INICIAIS. E, mesmo com todos os seus defeitos, e a pobreza visível nas cenas de ação, este prólogo na Segunda Guerra é disparado a melhor coisa da película. Bem, como acontecia nas HQs, o Capitão fica congelado até os dias atuais, quando é encontrado no gelo e "volta à vida". Primeiro ele precisa reaprender tudo o que aconteceu no país de 1943 até 1990 (o ano em que foi lançado o filme). Depois, resolve enfrentar novamente seu arquiinimigo Caveira Vermelha, que estaria por trás de todos os grandes crimes políticos das últimas décadas - dos assassinatos de John e Robert Kennedy ao do ativista Martin Luther King! Há uma criativa colagem de capas de jornais trazendo manchetes famosas, representando a passagem do tempo (dos anos 50 até os anos 90), e a trilha sonora também vai mudando de estilo musical conforme as décadas passam. Porém, depois disso, CAPITÃO AMÉRICA só piora. Descobrimos que o Caveira Vermelha deixou o nazismo de lado e virou chefão da Máfia italiana (!!!), sem que nunca se explique o segredo de sua longevidade - o Capitão ficou congelado, mas o Caveira não, e ele deveria ter já uns 80 anos de idade no começo da década de 90! Pior: a maquiagem do vilão era muito legal naqueles 20 minutos iniciais, quando ele tinha um rostinho de "mutante from hell". Mas quando o reencon (!!!) e recuperou as feições humanas, tornando-se simplesmente... um vilão mafioso sem graça (interpretado por Scott Paulin, de "A Marca da Pantera")! Mas a pior coisa é você constatar que o filme deveria se chamar STEVE ROGERS, e não CAPITÃO AMÉRICA, já que o herói aparece com seu famoso uniforme durante menos de 20 minutos (no início e na cena final), e nos outros 77 circula pelo cenário simplesmente em identidade civil. Aliás, durante uns bons 45 minutos o herói não faz absolutamente nada além de zanzar para lá e para cá atrás do Caveira Vermelha, transformando o que deveria ser uma divertida aventura num filme bem pobre e maçante. (Agora, justiça seja feita: o uniforme do Capitão América e tão pobre e ridículo, com aquelas asinhas do lado da cabeça, que o espectador até perdoa o fato da roupitcha aparecer tão pouco no filme. É como eu sempre digo: certas coisas a gente engole facilmente nos quadrinhos, mas no cinema a história é outra, e não adianta tentar transformar o Batman em James Bond...) Eu sempre defendi atores desconhecidos para interpretar super-heróis. Afinal, que graça tem ver Ben Affleck como Demolidor, Edward Norton como Hulk e Nicolas Cage como Motoqueiro Fantasma? (Se bem que o Robert Downey Jr. ficou MUITO BOM como Homem de Ferro)? Ainda assim, ninguém merece um zé-ninguém como Matt Salinger, figurante em filmes como "A Vingança dos Nerds" (!!!), no papel de grande herói norte-americano de todos os tempos. O sujeito até tem um queixo proeminente para fazer bonito nas (poucas) cenas em que veste a fantasia carnavalesca de Capitão América. Mas quando está de cara limpa, como Steve Rogers, é uma nulidade, sem qualquer sinal de carisma, simpatia ou a "presença" que um herói desses exige. Não sei se a culpa é do diretor Pyun ou do roteirista Stephen Tolkin, mas CAPITÃO AMÉRICA nega fogo em todos os sentidos, com uma trama desinteressante em que pouco ou nada acontece, envolvendo o seqüestro do presidente dos Estados Unidos (Ronny Cox!) pelo Caveira Vermelha. As cenas de ação são tão escassas que herói e vilão praticamente nem lutam: na maior parte do tempo, é a filha do Caveira (!!!) quem sai atrás de Steve Rogers! Nos quadrinhos, o Capitão América não tem nenhum poder sobrenatural, mas é um lutador praticamente imbatível. No filme, por outro lado, não há uma única cena de ação que preste para demonstrar as super-habilidades do herói: ele simplesmente distribui uns soquinhos aqui e ali, joga seu escudo de plástico para explodir casamatas e caminhões, e era isso. A bem da verdade, o pobre Capitão passa o filme inteiro tomando tiros e apanhando, e chega a fugir de bicicleta (!!!) de uma meia dúzia de capangas! Poderiam até adaptar aquela clássico musiquinha do Homem-Aranha, do "nunca bate e só apanha", colocando o Capitão América do Pyun no lugar! O resultado de toda essa fuzarca é uma aventura barata e fraquíssima, que nunca sustenta aquele tom divertido dos 20 minutos iniciais, e acaba num desinteressante confronto num castelo italiano. Para completar, o elenco traz várias outras caras conhecidas do segundo escalão, de Michael Nouri ("O Escondido") a Ned Beatty ("Superman") e Darren McGavin (do seriado "Kolchak"), mas sem maiores resultados. É uma obra que, hoje, só vale mesmo pelo fator trash e pela curiosidade de ver um herói da Marvel tão maltratado, ainda mais para quem já se acostumou com estas adaptações multimilionárias dos heróis dos quadrinhos feitas atualmente. (Até "3 Dev Adam", aquela hilária aventura turca que mostra o Capitão América e El Santo contra um Homem-Aranha malvado, é mais divertido!) Entre outras diferenças cruciais entre o filme e as HQs, vale destacar que na Segunda Guerra Mundial o Capitão América tinha um parceiro-mirim chamado Bucky, que o acompanhava em suas missões, e foi teoricamente morto por um vilão chamado Barão Zemo ("teoricamente" porque, no Universo Marvel, ninguém fica morto por muito tempo). Foi por causa de Zemo, também, que o herói acabou congelado - o Caveira Vermelha não teve nada a ver com a história. Pelo menos a ausência de Bucky foi uma alteração interessante na adaptação, pois o filme já é bastante infantilóide sem parceiro-mirim, imagina só se houvesse um! De todo jeito, tudo indica que em 2011 teremos o prometido novo filme do Capitão América, dessa vez decente, com todo o orçamento que faltou nessa adaptação feita pelo Pyun. Eu adoraria que o filme desse início a uma série (ainda que o Capitão não seja dos meus heróis preferidos), e que a primeira aventura se passasse inteiramente na Segunda Guerra Mundial, terminando com o Capitão América congelado e deixando as portas escancaradas para uma seqüência. Como curiosidade final (nossa, essa resenha ficou longa, não?), o IMDB informa que três outros atores foram considerados para o papel do Capitão antes de a produção contratar Matt "Meu cachê é salário mínimo" Salinger: Dolph Lundgren, Val Kilmer e, pasmem, Arnold Schwarzenegger! O engraçado é que todos eles escaparam da roupitcha colante do América, mas pagaram mico em outros filmes de super-heróis: Lundgren foi o mais pobre dos Justiceiros (no filme de 1989, que nem o uniforme com a caveira branca tinha!); Kilmer interpretou um dos Batmans carnavalescos do Joel Schumacher (em "Batman Eternamente"), e Schwarzenegger pagou mico total como Sr. Frio na bomba "Batman & Robin", também dirigida por Schumacher. E você sabia, caro leitor, que por pouco, muito pouco, Albert Pyun e a Cannon Films não nos brindaram com outra pérola baratérrima no nível de CAPITÃO AMÉRICA, mas desta vez estrelada pelo Homem-Aranha? Pois é, a coisa chegou à pré-produção, mas felizmente não passou disso. Assunto para outro post, aguardem!
Trailer de CAPITÃO AMÉRICA
******************************************************* Capitão América (Captain America, 1990, EUA) Direção: Albert Pyun Elenco: Matt Salinger, Ronny Cox, Ned Beatty, Darren McGavin, Michael Nouri, Scott Paulin e Kim Gillingham.

domingo, 2 de maio de 2010

DECAMERON (1971)


Poucos filmes da década de 70 foram tão explícitos na crítica/sátira da moral e dos bons costumes quanto DECAMERON, uma pequena obra-prima dirigida por Pier Paolo Pasolini, e que, por diversos motivos, pode ser considerada um autêntico FILME PARA DOIDOS - principalmente porque seu diretor era, ele próprio, um doido varrido, assumidamente comunista, homossexual e subversivo.

DECAMERON é baseado numa famosa obra literária italiana, o "Decamerão", escrita por Giovanni Bocaccio no século 14. No livro, um grupo de homens e mulheres fica confinado durante 10 dias (daí o título, deca, de "dez", e hemeron, de "dias") para escapar da Peste Negra, doença que dizimava a população européia durante a Idade Média. Para matar o tempo, eles contavam historinhas cômicas sobre sexo, 100 no total, que representavam um conjunto - ainda muito atual - da mentalidade daquela época, inclusive fazendo crítica ácida ao poder da Igreja.


Para seu filme, que tem quase duas horas, Pasolini selecionou apenas nove dos 100 contos. Nunca tive oportunidade de ler o "Decamerão" inteiro (e acredito que nem exista uma versão integral lançada no Brasil, pois a que encontrei era em formato de livro de bolso). Mas dá para dizer que o cineasta italiano foi feliz na escolha do repertório, embora sua coletânea episódica seja bastante irregular, cansativa até da metade para o final.

Como no livro de Bocaccio, o sexo é a mola-mestra das historinhas também no filme. Nem todos os episódios são exatamente cômicos: alguns são apenas irônicos e debochados, há um de humor negro, e uma história maior (desenvolvida entre as outras ao longo de todo filme) que propõe uma reflexão artística. Esta é a única que não envolve o sexo especificamente: mostra o próprio Pasolini como um artista contratado para pintar um afresco na parede de uma abadia.


Há episódios que são simplesmente engraçadíssimos. O primeiro, por exemplo, mostra os apuros do jovem rico Andreuccio (Ninetto Davoli), que é enganado e roubado por uma falsa irmã e depois jogado numa fossa repleta de dejetos humanos (em outras palavras, merda e mijo).

Ele escapa seminu e coberto de cocô, e acaba envolvendo-se com ladrões que querem violar o túmulo de um bispo recém-enterrado. Esta primeira história é a mais "inofensiva" do filme inteiro, e pode até dar uma idéia errada do que vem pela frente.

A partir de então, é só pauleira da grossa - principalmente na visão dos religiosos da Idade Média. Na segunda história, por exemplo, um rapaz esperto e tarado se finge de surdo-mudo para conseguir emprego como jardineiro num convento, onde passa as horas mostrando às noviças, na prática, os prazeres do sexo.


Mais adiante, um padre espertalhão promete transformar a formosa esposa de um amigo em mula, mas avisa que o mais difícil da mágica é "colocar o rabo" na futura mulher-quadrúpede (e por aí vocês já podem imaginar o que o malicioso sacerdote está planejando...).

Há ainda um episódio em que um homem condenado ao Inferno por uma série de pecados (avareza, luxúria, roubo e até homossexualidade!) consegue passar a perna no padre que ouve sua confissão, fazendo-o perdoá-lo em seu leito de morte. A conclusão da trama é uma antológica: o exímio pecador é sepultado como um verdadeiro santo, ironizando mais este aspecto mesquinho da Igreja daquela época (e de agora também?).

No universo sacana de Bocaccio/Pasolini, temos ainda Peronella (Angela Luce), a mulher infiel que faz seu marido trouxa limpar um enorme caldeirão pelo lado de dentro enquanto transa com o amante do lado de fora; e, no episódio que encerra o filme, um homem preocupado com o fogo do inferno por fazer sexo com uma comadre - que, muito apropriadamente, pensa: "Já que estou condenado por pecar uma vez, vou pecar duas!".


Uma das coisas mais interessantes de DECAMERON é a sua reconstituição da vida e dos cenários da Idade Média. Claro que ajuda o fato de o filme ter sido realizado na Itália, onde ainda há castelos e cidadezinhas quase que inteiramente medievais. A recriação da época salta aos olhos: Pasolini não usou cenários construídos, filmando em casebres e cidadelas reais, e quase sempre com luz natural.

Uma coisa que sempre me deixou encucado é que as aventuras medievais filmadas na época geralmente mostravam uma Idade Média limpinha e glamurosa, com seus reis chiquérrimos, cavaleiros galantes em armaduras reluzentes e castelos perfumados e ricamente decorados; nestes filmes, todo mundo é limpinho e perfumado, com dentes perfeitos e cabelos de quem acabou de sair do salão de beleza...

Só que na vida real não era bem assim: a Idade Média era uma sujeira só, com pessoas feias, gordas ou subnutridas, vestindo trapos, sujas (historiadores acreditam que o povo da época tomava banho, de rio, uma vez a cada 15 dias), que não limpavam o cabelo, as roupas e muito menos os dentes!


Ironicamente, foram as comédias que primeiro retrataram a sujeira e a degradação física e moral da Idade Média, especialmente clássicos como "O Incrível Exército de Brancaleone" (1966, de Mario Monicelli) e "Monty Python e o Cálice Sagrado" (1975, de Terry Gilliam e Terry Jones).

Pasolini também seguiu por este caminho, e foi muito feliz, adotando não apenas cenários e figurinos em cacarecos, mas também atores (praticamente todos amadores) que são um retrato perfeito (?) da feiúra da Idade Média: homens sujos, descabelados e desdentados, e mulheres peitudas, coxudas e gordinhas (dê uma olhada em pinturas de nudez feminina feitas na época para sacar qual era o padrão de beleza vigente).

Enfim, DECAMERON é um filme feio, sujo e malvado: um verdadeiro pesadelo para dentistas (quase todos os "atores" são banguelas), e o maior festival de gente feia depois de Fellini, como você pode conferir nas imagens abaixo:


Mas o filme não é perfeito. Não gostei muito, por exemplo, da narrativa de DECAMERON, que não se preocupa em separar os episódios, ligando-os um aos outros sem um título explicativo ou um simples "fade-out" para informar que uma história terminou e outra está começando.

Isso provoca até certo estranhamento na primeira vez que se vê o filme, pois os personagens de um episódio somem misteriosamente enquanto outros são imediatamente apresentados, mas o espectador só percebe que começou um novo episódio depois de algum tempo.

Fica um alerta, também, para quem for ver em busca de belas jovens italianas mostrando seus "atributos corporais", como era frequente nas comédias eróticas do período: Pasolini era gay e encheu sua película com closes de pênis eretos; logo, a proporção de nudez masculina é muito maior que a de mulher pelada.


A história maior, que mostra Pasolini pintando o afresco, até atua como divisor de episódios da metade para o final, mas ainda assim deixa o espectador meio desorientado.

Até porque tais cenas não são engraçadas, propondo mais uma reflexão sobre arte e artista - o filme termina com uma espécie de metalinguagem, mostrando o pintor Pasolini analisando o seu afresco pronto e questionando "Por que criar uma obra de arte tão bela se sonhar com ela é muito mais belo?", talvez numa reflexão ao seu próprio trabalho cinematográfico que se encerra (por que filmar a obra de Boccaccio se lê-la é muito mais interessante?).


Como resultado, DECAMERON é uma comédia um tanto esquisita, mas tudo que vem de Pasolini é mesmo muito esquisito (sua bizarria chega ao auge com o sádico "Saló - Os 120 Dias de Sodoma", de 1975, mesmo ano em que o cineasta foi assassinado).

Ainda assim, o filme é recomendadíssimo pelo clima burlesco de avacalhação e de loucura generalizada, e por ser uma comédia realmente engraçada em sua visão sobre o sexo nos tempos antigos. É interessante constatar que sempre existiu sacanagem, traição conjugal e gente querendo levar vantagem das formas mais mirabolantes!


Porém que ninguém espere por um trabalho "excitante" ou "sensual", nos moldes da minissérie de TV "Decamerão - A Comédia do Sexo", apresentada há pouco tempo pela Globo. Porque o DECAMERON de Pasolini é assumidamente blásfemo e pornográfico, com pintos e pererecas de fora, padres e freiras fornicando, gordinhas peladas e homens horríveis, todos vivendo aventuras sexuais nada excitantes (nojentas, até).

Ou seja, um autêntico FILME PARA DOIDOS, que pode ser encarado como uma curiosa mistura do humor medieval do Monty Python com as piadas sexistas das comédias italianas da época - e embora eu ainda prefira o grupo inglês e o Brancaleone, DECAMERON também garante algumas sonoras e boas gargalhadas!

Como transformar sua esposa em uma mula



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Decameron (Il Decameron, 1971, Itália)
Direção: Pier Paolo Pasolini
Elenco: Franco Citti, Ninetto Davoli, Jovan
Jovanovic, Angela Luce, Gabrielle Frankel,
Mirella Catanesi e Pier Paolo Pasolini.