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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Muito mais resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO (Scott Pilgrim vs. the World, 2010, EUA. Dir: Edgar Wright)
É uma pena que o público-alvo desse filme (nerds viciados em videogames e/ou quadrinhos) não tenha lotado as salas de cinema, e por isso SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO foi um injusto fracasso de bilheteria (provavelmente baixaram para ver em casa, os putos!). Injusto porque, mesmo um tanto afetado e exagerado, o trabalho do inglês Edgar Wright é MUITO divertido, até para quem odeia nerds e tudo que é relacionado a eles. Quando li os quadrinhos do "Scott Pilgrim", em que o filme se baseia com bastante fidelidade, lembro de ter ficado ora maravilhado, ora bestificado (tipo: "Por que estou lendo esse negócio afinal?"). O filme provoca a mesma sensação: não é fácil acompanhar uma narrativa estilo videogame em que um looser precisa enfrentar e derrotar os sete ex-namorados da sua atual paixão. Como num videogame, os inimigos derrotados viram moedas (!!!), e o personagem principal ganha vida extra para continuar lutando mesmo quando morre (na HQ tem também "save points" e várias referências a games clássicos, como Sonic e Kid Chameleon). Mas é entrar no espírito da brincadeira para curtir SCOTT PILGRIM como a comédia romântica nonsense que é, bobo e ao mesmo tempo inteligente, afetado e ao mesmo tempo original, com Wright comprovando que é um dos melhores cineastas contemporâneos (as passagens entre as cenas são simplesmente brilhantes). Alguns vão embarcar na proposta já com o logo da Universal estilo game 8 bits, no início; outros provavelmente vão ficar pensando "Mas por que eu estou vendo esse filme afinal?". Para mim, mesmo dividido entre os dois sentimentos (o filme às vezes parece longo demais), SCOTT PILGRIM entra sem ressalvas na lista dos melhores do ano. Agora, numa coisa eu concordo com os detratores: Michael Cera está ficando quase insuportável!


PELOTÃO DE GUERRA (POW - The Escape, 1986, EUA. Dir: Gideon Amir)
Quando você tem um roteiro de James Bruner (que escreveu os principais filmes do Chuck Norris) e David Carradine como astro numa produção da saudosa Cannon Pictures, é difícil errar. PELOTÃO DE GUERRA pode até não ser um grande filme, mas funciona que é uma beleza para uma descompromissada "Sessão da Tarde de macho". Carradine interpreta um militar linha-dura que, com o iminente fim da Guerra do Vietnã, resolve resgatar prisioneiros de guerra norte-americanos antes que eles sejam executados pelos vietcongues. Acaba ele mesmo preso e tendo que liderar uma rebelião e fuga. Achei que o filme seria um remake disfarçado de "Braddock 2", que tem o mesmo argumento, mas felizmente aqui a fuga do campo de prisioneiros acontece já aos 15 minutos, e o restante do filme mostra o drama dos fugitivos para sair das linhas inimigas. O roteiro é um festival de absurdos (dois personagens, um deles o vilão interpretado por Mako, são onipresentes e vivem reaparecendo quando menos se espera), mas é engraçado, hoje, ver o barulhento retrato de uma época (a Era Reagan) em todos os seus exageros. Mais engraçado ainda é perceber como esses filmes da Cannon são muito mais divertidos que as tentativas recentes de emular o cinema de ação oitentista, como "Os Mercenários" e "Machete". Enfim, para ver, rir e esquecer, mas rende uma bela sessão dupla com algum dos "Braddock" ou "American Ninja".


UMA HERANÇA DA PESADA (Larger Than Life, 1996, EUA. Dir: Howard Franklin)
Quando um ator famoso aceita fazer filmes contracenando com algum animal, isso geralmente significa o ponto mais baixo da sua carreira. De Chuck Norris a Tom Hanks, vários astros já caíram na armadilha. Era justamente o que eu esperava desse filme aqui: Bill Murray fazendo gracinhas ao lado de um elefante. Até estava na minha lista de "boicotados forever". Por isso, foi uma grata surpresa descobrir que Murray não caiu na armadilha. Apesar de contracenar com um animal (uma elefanta treinada), ele não deixa de lado seu cinismo característico nem suas tiradas ("one-liners") ferinas. O resultado passa longe do público infantil, e é agradável principalmente para adultos: um bem-humorado road movie que mostra um Bill Murray muito inspirado e muito engraçado tendo que cruzar metade dos Estados Unidos com o paquiderme que ganhou de herança. Só a cena em que ele tenta dirigir um caminhão já vale o filme inteiro. Mas, para completar, o ótimo elenco se dá ao luxo de ter Linda Fiorentino (ainda na sua fase "sex symbol") e Matthew McConaughey em papéis secundários. Esse último surpreendentemente mostra a veia cômica que lhe falta nas comédias em que é protagonista, impagável como um caminhoneiro caipira e meio psicopata. UMA HERANÇA DA PESADA também marca a transição entre o Bill Murray das comédias inofensivas e o Bill Murray que virou "ator sério" ao estrelar as produções cults de Wes Anderson, Jim Jarmusch e Sofia Coppola.


ATRAÇÃO PERIGOSA (The Town, 2010, EUA. Dir: Ben Affleck)
Acho que o único filme do Ben Affleck que eu gostei foi "Procurando Amy", do Kevin Smith. No geral, sempre achei o cara um péssimo ator, cheio de tiques irritantes, e ele ainda estragou o Demolidor, meu super-herói preferido! Agora, tem que dar o braço a torcer: Affleck deu a volta por cima com esse ATRAÇÃO PERIGOSA, filme em que o ator medíocre de sempre (e cuja carreira vinha em perceptível decadência) mostra-se um diretor e co-roteirista bem decente. Na prática, este é mais um "filme sobre assaltos", mostrando um grupo de bandidos que passa seu tempo criando planos infalíveis para roubar fortunas e despistar a polícia. Isso até um deles (o próprio Affleck, menos afetado que de costume) apaixonar-se pela gerente de um dos bancos assaltados, que foi levada por eles como refém. Seguem-se as confusões/tensões de praxe, até a conclusão com um plano muito ambicioso que dá errado. Apesar do título nacional prometer mais romance do que o filme realmente entrega, o resultado é de tirar o fôlego. Inclusive as cenas de assalto/troca de tiros com a polícia não fazem feio em comparação ao clássico contemporâneo "Fogo Contra Fogo", de Michael Mann, com um tiroteio final eletrizante Vá lá que o roteiro escolhe a conclusão mais fácil - ao contrário de "Atraídos pelo Crime", outro bom policial recente, em que quase todos os personagens acabam se dando mal no fim. Mas é pouco para desmerecer este belo trabalho. No elenco inspiradíssimo, destaque para Jeremy Renner (como bandido) e o quase desconhecido Jon Hamm (como agente do FBI, roubando todas as cenas em que aparece).


O HOMEM QUE VIRÁ (L'uomo che Verrà, 2009, Itália. Dir: Giorgio Diritti)
É uma equação infalível: crianças corajosas + nazistas cruéis + fotografia linda + reconstituição de época notável + drama de partir o coração = forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O HOMEM QUE VIRÁ é uma produção belíssima, mas que infelizmente cai naquela máxima dos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial: de "A Lista de Schindler" a "O Pianista", quem viu um, viu todos. Esse não é diferente: apesar de mostrar que os nazistas não centraram fogo só nos judeus, mas também nos pobres colonos italianos de uma cidade ocupada, ele não muda muito o disco em relação a outras obras com a mesma temática, mostrando os alemães como sádicos extremamente cruéis, e fazendo questão de catalogar nos mínimos detalhes as suas barbaridades contra os inocentes habitantes (em cenas duras de assistir). O diferencial é justamente o fato de centrar o foco no impacto que essa barbárie toda provoca numa menininha, que, traumatizada pela morte do irmãozinho recém-nascido, ficou muda, mas espera ansiosa pelo nascimento de um novo bebê, o "homem que virá" do título. A menina e o bebê são os únicos sinais de esperança numa história que você mais ou menos já sabe, desde o começo, que vai acabar em tragédia. Para quem já está farto de histórias do gênero, o filme vale sobretudo pela fotografia e reconstituição de época - que será especialmente nostálgica para quem, como eu, foi criado numa cidadezinha de imigrantes italianos, com hábitos muito semelhantes aos das pessoas mostradas no filme. Também vale por um olhar um pouquinho mais imparcial que os "Lista de Schindler" da vida, como quando mostra que o movimento rebelde anti-nazistas foi tão nocivo aos pobres inocentes quanto o próprio inimigo. Para ver com o lenço na mão.


IMPACTO (Bay Rong, 2010, Vietnã. Dir: Le Thanh Son)
A máxima dos filmes da Segunda Guerra também se aplica aqui: se você já viu algum filme de ação vindo do Oriente, já viu IMPACTO. Burocrática e sem nada de novo em relação ao que já foi feito pelo pessoal de olhinho puxado (de John Woo a "Ong Bak"), essa produção nada original talvez funcione como cartão de visitas para quem nunca viu um filme do gênero. A história da mercenária que precisa fazer serviços sujos para salvar sua filha, refém de um perigoso gângster, pelo menos é contada com certo estilo, e as lutas, cada vez mais violentas e exageradas, são realistas e bem coreografadas (pobres dos dublês!). Mas, lá pelas tantas, fica evidente a intenção do diretor Thanh Son de plagiar todo e qualquer filme de Quentin Tarantino: não bastasse a própria trama ser uma reconstrução da idéia básica de "Kill Bill", há uma discussão de bandidos sobre os apelidos usados numa operação (como em "Cães de Aluguel"), cenas engraçadinhas (a garota seminua correndo no meio de um tiroteio) e diálogos espirituosos e auto-referenciais ("Isso até parece um filme de Hong-Kong!"). No geral não é grande coisa, mas vale pelas lutas e por ter uma conclusão completamente inesperada em relação ao destino da filha sequestrada. Só que é filme para ver e esquecer meia hora depois. O mais divertido foi ver IMPACTO em plena Mostra de Cinema de São Paulo (!!!) e testemunhar o público pseudo-cult abandonando a sala gradativamente. Sabe como é, filme de ação oriental é "popular" demais para eles (e não é chato o suficiente).


FÚRIA PRIMATA (Primal Rage, 1988, Itália/EUA. Dir: Vittorio Rambaldi)
Escrito pelo cineasta italiano Umberto Lenzi (!!!), esse é o primo pobre (e mais velho) de "Extermínio". Como no filme de Danny Boyle, um macaco usado em experiências escapa do laboratório (graças à ação idiota de um "ecologista") e começa a espalhar uma vírus modificado da raiva pelos corredores de uma universidade. O vírus transforma suas vítimas em zumbis extremamente violentos, embora menos irracionais que os de "Extermínio". A ameaça é combatida por um estudante e sua namorada. A boa premissa inicial não se sustenta, e, apesar do nome do renomado Carlo Rambaldi nos efeitos especiais, não há momentos memoráveis de violência explícita e nem monstrinhos decentes. O auge da bagaça é um baile de Halloween invadido por um grupo de contaminados, que começam a matar seus colegas das maneiras mais criativas possíveis (mas, infelizmente, sem maquiagens interessantes para fazer valer o programa). E a narrativa é lenta demais para quem espera um clone de "Extermínio", já que a busca pelo primeiro infectado toma um tempão do filme, fazendo com que a praga só se espalhe perto do final. Ainda assim, tem certo valor trash, especialmente pelos bisonhos diálogos escritos por um pouco inspirado Lenzi (com o pseudônimo Harry Kirkpatrick). O mais fantástico é aquele em que três rapazes se preparam para estuprar uma garota inocente, todos ao mesmo tempo, e um deles comenta: "Nós vamos te transformar num porco-espinho!". O diálogo é genial, mas o filme não é. E Bo Svenson paga um micão como cientista louco com rabinho-de-cavalo.


TUDO QUE AMO (Wszystko, Co Kocham, 2010, Polônia. Dir: Jacek Borcuch)
Adolescência e rebeldia são duas coisas inseparáveis - se você não foi rebelde, também não foi adolescente. E quer forma melhor de demonstrar a sua rebeldia do que uma banda punk, grande oportunidade para poder questionar as instituições (família, igreja, forças armadas...) sem nem ao menos aprender a tocar instrumentos? É disso que trata essa sensível comédia dramática polonesa sobre o amadurecimento de garotos que montam sua própria banda punk na Polônia de 1981, varrida por tumultos político-militares provocados por greves de trabalhadores. A música é a chance para os garotos mostrarem sua insatisfação com o "establishment", mesmo que o máximo de rebeldia dos personagens seja tocar no bailinho do colégio contra a vontade das autoridades. Mas é o tipo de ingenuidade típica de adolescente rebelde, que acha que pode mudar o mundo antes de ficar mais velho e "se vender para o Sistema". Pessoalmente, me identifiquei com o filme porque já fui como a garotada e também tive uma banda punk (que FELIZMENTE nunca saiu da garagem). Além disso, os personagens são simpáticos (o pai de um dos rapazes, militar, mostra-se o completo oposto do que se espera dele), e as relações entre eles oscilam entre o sensível e o engraçado. Um grande filme, nostálgico e emocionante, que eu coloco tranquilamente na lista dos melhores de 2010. E sempre é bom ver uma comédia adolescente com algo a dizer, longe dos tradicionais "besteróis americanos".


CRIAÇÃO MONSTRUOSA (The Kindred, 1987, EUA. Dir: Stephen Carpenter e Jeffrey Obrow)
Quem é das antigas deve lembrar que, na época de lançamento desse filme, as revistas brasileiras de cinema (VideoNews, SET, Cinemin...) escreveram páginas e páginas sobre ele. Não vi na época e só fui conhecer agora. Pois CRIAÇÃO MONSTRUOSA é a cara daqueles exagerados anos 80: tem cientistas loucos, mutantes, monstrinhos melequentos pré-CGI e até uma melancia assassina! Pode ser melhor? Pode: um ator veterano e respeitado (Rod Steiger) aparece tomando um banho de gosma, e uma atriz razoavelmente conhecida (Amanda Pays) passa por uma bizarra mutação que a transforma numa criatura muito parecida com os homens-peixe do Sergio Martino!!! Enfim, é um autêntico samba do crioulo-doido, com um roteiro que parece misturar dois filmes diferentes. Steiger é um cientista louco estilo dr. Moreau que tem um laboratório cheio de criaturas mutantes, mas isso tudo é esquecido depois dos 15 minutos iniciais, quando a trama segue um rapaz em busca da verdade sobre as experiências genéticas da falecida mãe, outra criadora de humanóides. A investigação leva um grupo de personagens toscos até um casarão antigo, onde as experiências da mamãe ainda estão bem vivinhas e com sede de sangue. Impossível de levar a sério, cheio de furos de roteiro, mas muito divertido como representante barato de uma década regada a nojeiras diversas e sangue falso, onde nem mesmo atores como Steiger escapavam de pagar mico e se melecar (a veterana Kim Hunter, da série "O Planeta dos Macacos", também aparece em pequena participação).


VC TÁ AÍ? (R U There?, 2010, Holanda. Dir: David Verbeek)
Um ocidental em viagem à cidade chinesa de Taipei vive um amor introspectivo com uma garota que conhece por lá. Dá até para dizer que o drama holandês VC TÁ AÍ? é o "Encontros e Desencontros" da geração internet, e o filme consegue retratar sem exageros a alienação provocada pela vida virtual. O protagonista é um jovem que viaja pelo mundo participando de competições de games; assim, seu mundinho particular é aquele da guerra de mentirinha do videogame, e ele simplesmente não consegue sociabilizar com pessoas "reais" fora desse universo de bits e bytes. As coisas parecem melhorar quando ele conhece uma simpática chinesinha, mas o relacionamento de ambos no mundo real é movido a silêncio. Chega a ser irônico: o rapaz é capaz de revelar seus sentimentos e beijar a menina no ambiente virtual do Second Life, mas jamais o faz na vida real. E quando um médico-acupunturista define o problema do jovem ("Você vive muito dentro da sua cabeça e esquece que tem um corpo"), parece estar se referindo a uns 80% da geração atual. VC TÁ AÍ? parecerá estranho para quem tem mais de 35 anos, mas trata do mesmo tema da "comunicação pela internet/falta de comunicação fora dela" visto no pretensioso "Os Famosos e os Duendes da Morte". Sai-se muito melhor, mas compartilha com o insuportável longa de Esmir Filho a falta de conflitos e a ausência de qualquer conclusão para as angústias dos protagonistas. É o final xoxo, apelativo até, que acaba estragando o filmaço que VC TÁ AÍ? podia ser. Vale a pena conhecer, mas é preciso estar preparado para seus longos silêncios e narrativa arrastada - que ironicamente será um porre para a maior parte da geração retratada no filme!


ESQUADRÃO COBRA 2 (Snake Eater II: The Drug Buster, 1989, Canadá. Dir: George Erschbamer)
Um policial durão, conhecido pelo apelido de "Soldier" (Soldado), vinga-se violentamente de uma quadrilha que vem matando jovens ao vender cocaína misturada com veneno de rato (!!!). O argumento "brilhante" (sim, foi ironia) e a presença do galã classe C Lorenzo Lamas dão a idéia de que ESQUADRÃO COBRA 2 será um policial casca-grossa e politicamente incorreto, cheio de tiros e corpos ensanguentados tombando. Pena que é o contrário: o filme, na verdade, se aproxima da comédia absurda, com cenas nonsense que me fizeram duvidar da sanidade dos realizadores. Depois de passar chumbo nuns traficantes pé-de-chinelo, ainda no início da história, o herói é preso e considerado insano; assim, acaba condenado à prisão num manicômio judiciário. Mas ele sai do lugar a toda hora para exterminar o resto da quadrilha, inclusive conseguindo bombas e munições com a maior facilidade graças aos próprios internos (!!!). A cena mais absurda é aquela em que o herói está fugindo do manicômio pelo duto de ventilação e cruza, no caminho, com uma prostituta e um entregador de pizza que estão ENTRANDO na instituição para atender os internos!!! Para completar a zorra total, o sujeito age com a ajuda de um dos piores parceiros engraçadinhos da história do gênero, um negro metido a malandro que é insuportável. Não sei se é pior o filme, o fato de ele fazer parte de uma trilogia (!!!) ou o fato de Lorenzo Lamas ficar usando armadilhas e disfarces escrotos (!!!) para matar os vilões, ao invés de simplesmente dar tiros ou socos nos meliantes. Lixo total.


SCREAM - GRITOS NA NOITE (Scream, 1981, EUA. Dir: Byron Quisenberry)
E para fechar com chave de ouro (ou chave de merda), esse foi o primeiro dos dois únicos filmes dirigidos pelo dublê Quisenberry (o outro saiu APENAS 23 anos depois, em 2004!). Ele tenta aproveitar a "febre slasher" que tomou o mundo após o sucesso de "Sexta-feira 13" no ano anterior. Pena que, ao contrário de outros divertidos slashers do mesmo ano ("The Burning", "Dia dos Namorados Macabro"), esse aqui falha em todos os quesitos. Trata-se da história de um grupo de turistas que paga uma fortuna para visitar uma cidade-fantasma dos tempos do Velho Oeste. Isolados no lugar, tornam-se alvos fáceis para um misterioso psicopata. Na verdade, SCREAM (mesmo título daquele famoso filme do Wes Craven) é um horror sobrenatural travestido de slasher, com uma explicação final fantasmagórica para os crimes. Mas não faz muita diferença, pois os clichês são os mesmos: alguém que tem um "mau pressentimento" sobre o lugar, as vítimas que saem sozinhas para fazer coisas estúpidas (mesmo SABENDO que há um assassino à solta), e até os personagens são clichês (não falta nem o sujeito misterioso, aqui interpretado pelo veterano Woody Strode, nem o gordo engraçado). Pena que o diretor de primeira viagem desperdice o clima e a ambientação (pois a cidade-fantasma realmente é arrepiante), e não tenha a menor noção de ritmo, transformando seu filme num dos piores e mais sonolentos slashers de todos os tempos. Pior: com 14 personagens em cena, a contagem de cadáveres é ínfima: cinco assassinatos, e todos off-screen!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Meus filmes no YouTube

(Se vocês gostarem, divulguem em seus próprios blogs, twitters, facebooks, comunidades do orkut e o escambau. Filmes são feitos para serem vistos, e esses já ficaram guardados por muito tempo!)



PATRICIA GENNICE (1998)

Esta versão juvenil de "Depois de Horas", de Martin Scorsese, foi rodada em VHS e com um orçamento de R$ 150,00.

É a história de Lucas (Fabiano Taufer), um rapaz que sai toda noite em busca de um grande amor, mas sempre volta sozinho para casa - as mulheres nada querem com ele.

Um dia, revendo os conceitos de sua curta existência, uma bela garota o acha simpático e o chama para ir à casa dela. Quando ela diz seu nome, Patricia Gennice (Franciele Mazetti), Lucas quase entra em colapso - afinal, não é todo dia que "a mulher mais boa da cidade" te chama para sair.

Após essa premissa, tudo dará errado com Lucas – no caminho para a casa de Patricia, ele é assaltado, enganado, seqüestrado, ameaçado de morte, e o pior, não encontra camisinha...



Continua aqui:
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Final




MISTÉRIO NA COLÔNIA (2003)

Um médico da cidade grande (Luciano Huck) vai passar as férias numa pequena cidade do Rio Grande do Sul, cercada de lendas sobre o desaparecimento de turistas na região.

Ele é acolhido na casa de uma família local (pai, filho e avó) e, durante o almoço, o rapaz procura alertar o médico sobre um terrível segredo que a cidade esconde. Segue-se uma história de humor, horror, serras elétricas e tripas.

Lendário curta-metragem amador filmado em VHS e com orçamento médio de R$ 100,00. O apresentador global Luciano Huck foi ao interior do Rio Grande do Sul para ver como trabalhava a equipe de Felipe M. Guerra e acabou virando astro do filme.






EXTREMA UNÇÃO (2010)

Três dias na vida de um rapaz que se muda para uma casa supostamente assombrada pelo fantasma de uma velha fanática religiosa.

Curta-metragem filmado em mini-DV e em apenas dois dias, com um orçamento de R$ 40,00.

Ganhou menção honrosa especial (Melhor Susto de Velhinha Fantasma) no CineFantasy 2010, realizado em São Paulo.


Parte 1


Parte 2



E MAIS UM PUNHADO DE BOBAGENS DIVERTIDAS...









sábado, 6 de novembro de 2010

OS AVENTUREIROS DO FOGO (1986)


Depois de 1981, e de "Os Caçadores da Arca Perdida", todo mundo queria ser/fazer Indiana Jones. Assim, não demoraram a aparecer vários "Indiana Clones" vindos de todas as partes do mundo. Os italianos, hábeis realizadores de "ripoffs", não perderam tempo - Antonio Margheritti fez dois "Indiana Jones macarrônicos", "Os Caçadores da Serpente Dourada" (1982) e "Ark of the Sun God" (1983), ambos com David Warbeck, e até Jackie Chan tentou ser Harrison Ford em "Operação Condor" (1991).

Já a Cannon Films, dos célebres produtores picaretas Menahen Golan e Yoram Globus, produziu duas aventuras baratas sobre Allan Quateirman, aventureiro literário que foi uma das inspirações para a criação de Indiana Jones. Ambas - "As Minas do Rei Salomão" (1985) e "Allan Quatermain e a Cidade do Ouro Perdido" (1986) - hoje são verdadeiros clássicos trash, e trazem Sharon Stone pagando mico em começo de carreira.


E foi a mesma Cannon que teve a idéia de jerico de transformar Chuck Norris (o homem, o mito...) em "Indiana Clone". Surgia, assim, "Firewalker" (Caminhante do Fogo), que no Brasil virou OS AVENTUREIROS DO FOGO.

Dirigido pelo veterano J. Lee Thompson em 1986, o filme foi, durante muito tempo, figurinha carimbada da Sessão da Tarde. Eu mesmo devo tê-lo visto umas 10 vezes da infância até alguns dias atrás, quando ele passou pela sua inevitável revisão.


O que me surpreendeu, ao revê-lo, foi o fato de que eu não lembrava de absolutamente nada do filme além da cena inicial. Agora mesmo, enquanto escrevo essas linhas, MINUTOS DEPOIS de ter revisto OS AVENTUREIROS DO FOGO, quase tudo já sumiu novamente da memória, MENOS a cena inicial!

Não sei de quem foi a brilhante idéia de colocar Chuck Norris como herói cômico, mas ele combina tanto com o papel quanto Quentin Tarantino dirigindo "High School Musical". Pior: não satisfeitos, os realizadores escalaram Louis Gossett Jr., outro que não tem graça nenhuma, para o papel de "parceiro engraçadinho e alívio cômico".


Isso explica porque o filme tenta ser divertido, mas nunca consegue. Na verdade, não tem graça nenhuma: engraçado mesmo é perceber que todo mundo parece estar se divertindo, MENOS o espectador!

Norris vinha de uma série de filmes de ação casca-grossa em que mal sorria ("Comando Delta", "Invasão USA", "Código do Silêncio"...).

Ele pode ter sido um dos primeiros astros carrancudos de ação a tentar reinventar a própria imagem fazendo comédias, algo que Schwarzenegger, Stallone (e mais recentemente Vin Diesel e The Rock) fariam depois. Não colou, é claro, e o velho Chuck logo voltaria para a ação casca-grossa.


Não sem motivo: o astro está tão sem-graça nesse filme que um stand-up de Chuck Norris seria um verdadeiro convite ao suicídio!

O roteiro de Robert Gosnell (esse é o seu crédito mais expressivo) tenta fielmente reproduzir a "fórmula Spielberg de cinema de aventura", baseando-se um pouco também em "Tudo por uma Esmeralda", de Robert Zemeckis. Falta-lhe, porém, a magia, as surpresas e principalmente o RITMO destas suas fontes de inspiração.

Pois OS AVENTUREIROS DO FOGO é um filme de aventura sem aventura, com raros momentos de ação e muitos de sonolência, ritmo arrastado e um bla-bla-bla infernal.


A famosa cena inicial apresenta os amigos Max (Norris) e Leo (Gossett Jr.), dois mercenários/caçadores de tesouros que fogem pelo deserto, de inimigos armados, em jipes. Após pegar o caminho errado, o jipe dos heróis cai num oásis, e ambos são aprisionados por um arquiinimigo careca e com uma cicatriz enorme no rosto, que parece vilão de filme do James Bond.

O anônimo malvadão amarra a dupla no chão, com mãos e pés presos a estacas de madeira, e deixa uma garrafa de água na mão de Max - uma ironia pelo triste destino que terão. Quando os inimigos se mandam, porém, Max arrebenta a garrafa com a mão e usa os cacos de vidro para soltar-se. Assim termina a melhor cena do filme.

(E eu sempre achei essa cena legal, desde criança, mas hoje percebo a completa estupidez dos personagens, pois bastaria puxar as cordas POR CIMA das estacas de madeira para soltar-se, já que não havia nada prendendo as cordas, como você pode ver nas fotos! Assim, eles ainda teriam a garrafa de água intacta para enfrentar a travessia do deserto.)


De volta à civilização, os amigos comemoram a própria salvação quando entra no recinto a loirinha Patricia Goodwin (a delícia Melody Anderson, de "Flash Gordon"). Rica e meio maluca, ela tem um mapa do tesouro e procura dois sujeitos "corajosos, confiáveis e não muito espertos". Adivinhe com quem ela termina se associando?

Patricia contrata Max e Leo como guias para sair em busca de um lendário tesouro asteca. Mas a busca não será tão fácil, pois o trio enfrentará índios, truculentos soldados latino-americanos, outros mercenários e principalmente um tal "Ciclope Vermelho", que não passa de um grandalhão com tapa-olho (devido ao milagres da continuidade ruim, o tapa-olho cobre um OLHO DIFERENTE a cada cena!).


A busca pelo tesouro é praticamente um sonífero, pois nada de muito emocionante e/ou atraente acontece aos heróis, embora eles passem o restante do filme enfrentando meio-mundo. O vilão caolho é ridículo, pouquíssimo explorado e não oferece qualquer perigo - limita-se a ficar longe dos heróis o filme inteiro, tentando fazer magias fuleiras contra eles e lendo gibis da "Psi Force" enquanto mata seus capangas e colaboradores por falharem em suas missões.

Os perigos e armadilhas pelo caminho só provocam bocejos, e o roteirista precisa inventar umas dispensáveis brigas de bar para que Norris possa pelo menos mostrar seus dotes de karateka (e valer o investimento feito no cachê do ator). Já Gossett Jr. está mais perdido que surdo em bingo, e passa o filme inteiro reclamando das ações do companheiro - algo que não é engraçado na primeira vez, imagine então na vigésima.


Já a mocinha Melody Anderson (delícia!) apresenta poderes sobrenaturais nunca satisfatoriamente desenvolvidos (ou mesmo explicados) pelo roteiro. Assim, acaba tão-somente como "mocinha em perigo", para ser resgatada pelos heróis a todo momento, e inevitável interesse romântico do personagem de Norris.

Menos mal que desfila boa parte do filme com generoso decotão e um shortinho minúsculo, demonstrando todo o seu... hã... talento dramático!

O pior é que OS AVENTUREIROS DO FOGO realmente tenta ser um filme engraçadinho. Até tem umas cenas que provocam pelo menos um leve sorriso no espectador, como os heróis disfarçados de padres sendo obrigados a dar a bênção a um soldado inimigo, ou Max nadando estilo cachorrinho após o "naufrágio" do seu carro na travessia de um rio.


Mas a mão-pesada (ou falta de vontade?) do diretor Thompson estraga qualquer possibilidade de essas piadas funcionarem como deveriam.

Para piorar, há uma cena completamente dispensável e sem utilidade em que os heróis reencontram um velho amigo dos tempos do Vietnã, agora um ditador chamado Corky.

A única explicação para a existência de tal encontro, além de encher lingüiça, é poder colocar em cena o ator John Rhys-Davies, vindo diretamente das aventuras de Indiana Jones - e que já havia sido utilizado pela Cannon em "As Minas do Rei Salomão". Como se o ator criasse um elo entre essas aventuras bagaceiras e os filmes do Spielberg, do tipo: "Ei, já que não temos grana para contratar o Harrison Ford, vamos usar o Rhys-Davies!".


Assim, OS AVENTUREIROS DO FOGO é um filme que só funciona pelos motivos errados: você assiste para constatar como Chuck Norris é péssimo comediante e não convence quando não está lutando, como Louis Gossett Jr. é um terrível "parceiro engraçadinho", como Melody Anderson não é nada além de uma boneca inflável ambulante, como o vilão é ruim, como as cenas de ação são frouxas, como o ritmo é titubeante, como os templos antigos visitados pelos herói são mal-feitos, como os erros de continuidade são grosseiros, etc etc etc.

E embora a conclusão deixe no ar a possibilidade de novas aventuras com Max, Leo e Patricia, é óbvio que todos os envolvidos nessa porcaria se conscientizaram da péssima idéia que seria errar uma segunda vez.

Como geralmente acontece com esses filmes em que nada funciona, OS AVENTUREIROS DO FOGO até tem seu charme justamente pela total ineficácia, já que a obra falha em praticamente todos os aspectos.


Torna-se, assim, mais um autêntico FILME PARA DOIDOS. O mais incrível é que o trailer (veja abaixo) É ENGRAÇADO E DIVERTIDO, mas o filme não!!!

No fim, OS AVENTUREIROS DO FOGO parece um acidente de caminhão: você sabe que é uma coisa horrível, mas não resiste a dar uma olhadinha. Felizmente, ao menos nesse caso do filme do Thompson, você esquece rapidinho tudo que viu - menos aquela divertida cena inicial, talvez a única coisa que funciona no filme inteiro.

PS 1: Repare que, na cena em que a mocinha procura aventureiros no bar, há um sujeito bem parecido com Indiana Jones sentado no balcão, no canto esquerdo da imagem. Será só uma macabra coincidência ou isso é o máximo de humor auto-referencial que os roteiristas conseguem fazer?


PS 2: O título original, "Firewalker", se justifica por uma ceninha de cinco segundos em que um velho índio conta uma lenda da região sobre um tal "Caminhante do Fogo". Por mais estúpida que pareça a tradução, o título brasileiro ainda tem mais lógica.

PS 3: Chuck Norris não aprendeu a lição e voltou a fazer comédia de risos amarelos em "Top Dog - Uma Dupla Animal" (1995), dessa vez contracenando com um cachorro que, pelo menos, é mais engraçado que o Louis Gossett Jr. Mas a coisa mais engraçada que Norris fez no cinema, indiscutivelmente, é a hilária participação especial em "Com a Bola Toda"! Ele devia fazer mais dessas...

Trailer de OS AVENTUREIROS DO FOGO



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Os Aventureiros do Fogo (Firewalker, 1986, EUA)
Direção: J. Lee Thompson
Elenco: Chuck Norris, Louis Gossett Jr. Melody
Anderson, Will Sampson, Sonny Landham, John
Rhys-Davies e Ian Abercrombie.

sábado, 30 de outubro de 2010

Faroeste caboclo


Um policial jovem e idealista passa a fazer parte de um grupo de elite da polícia e fica revoltado com os métodos violentos dos colegas, que são incentivados pelo seu superior. Porém, à medida que o combate ao crime revela-se cada vez mais violento e desleal, o próprio protagonista rende-se à brutalidade que antes condenava, tornando-se "um deles".

Parece até "Tropa de Elite", mas não é. Este é o argumento de FEDERAL, filme policial de Erik de Castro (do documentário "Senta a Pua!", sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial), que finalmente chegou aos cinemas.

O filme começa com um múltiplo assassinato numa área nobre de Brasília. O Comando de Operações Táticas (COT) da Polícia Federal, espécie de Bope da PF, entra em cena, representado pelo veterano delegado Vital (Carlos Alberto Riccelli, ótimo), pelo novato Dani (Selton Mello) e pelos policiais civis Rocha (Christovam Neto) e Lua (Cesário Augusto), dupla recentemente convocada por Vital para integrar um grupo de "intocáveis" na PF.


"Investigando" o crime (o que inclui, claro, a violenta tortura de um suspeito com a técnica do saco plástico), Rocha e Lua acabam recebendo uma pista não-relacionada aos assassinatos, sobre uma nova boca de tráfico que abriu no subúrbio. Pode ser a chave para prender Béque (o músico Eduardo Dussek!), um perigoso traficante de drogas que a polícia procura há anos.

Ao longo da caçada (e do filme), o personagem de Selton Mello passará por um processo de "brutalização". Inicialmente revoltado com os métodos usados pelos seus colegas - e incentivados por Vital -, Dani compara-os à Ditadura Militar. Mas, à medida que progride na investigação, acabará tragado para dentro desse mundo violento.

Era inevitável: a crítica dita especializada (os mesmos de sempre, que eu e você conhecemos bem) logo sentou o pau no filme, sem dó nem piedade, taxando-o de mera cópia carbono de "Tropa de Elite", e usando termos "sofisticados" como "mise-en-scène" e "contra-plongeé" para desmerecer o trabalho do cineasta brasiliense.


O fato de FEDERAL trazer o personagem de um superior violento à la Capitão Nascimento, cuja esposa também está grávida, ou ainda a cena em que um suspeito é torturado com um saco plástico na cabeça, também depõem contra ele na acusação de ser uma mera cópia de "Tropa de Elite".

A própria cena final, em que o policial idealista entrega-se à barbárie e "se transforma" no seu superior, é muito parecida com a do filme de José Padilha.

Falando em sua defesa, o diretor e co-roteirista Erik garantiu que seu roteiro foi escrito ainda nos anos 80, e que FEDERAL estava sendo produzido nos últimos quatro anos, portanto antes de "Tropa de Elite" ser lançado. Não sei de quando é o roteiro, mas atesto que já sabia do projeto de FEDERAL há no mínimo uns três anos - esta é mais uma produção brasileira que sofreu com as incontáveis dificuldades de se fazer cinema no país.


Pessoalmente, acho que as semelhanças com "Tropa de Elite" não tiram os méritos desse filme policial bem interessante. Até porque se formos reclamar de "argumentos parecidos", 90% dos filmes de ação norte-americanos precisariam ser criticados pela mesma ótica.

A própria sessão de FEDERAL que peguei, no Shopping Santa Cruz, foi precedida pelo trailer de "Centurião", de Neil Marshall, e o casal na minha frente logo reclamou: "Ah não, outra cópia de 'Gladiador'!". Como se qualquer filme sobre a Roma Antiga feito pós-"Gladiador" fosse cópia dele. Aliás, como se ninguém tivesse feito filmes sobre a Roma Antiga ANTES de "Gladiador"! Quando são espectadores com pouca cultura cinematográfica eu até entendo; duro é a crítica embarcar na onda.

Portanto, é uma pena que o filme brasiliense tenha estreado logo agora, quando as pessoas ainda estão maravilhadas com "Tropa de Elite 2" (ainda em cartaz e ainda com filas na entrada do cinema).


A concorrência é injusta, porque FEDERAL também toca (de leve) nos mesmos temas dos dois filmes de José Padilha: a corrupção no Palácio do Planalto (de onde vem um telefonema anônimo para o vilão, garantindo impunidade, em certo momento do filme), as ONGs de fachada, a relação de figurões (advogados, pastores de seitas moderninhas) com o tráfico de drogas, e as festas descoladas onde a classe média alta se esbalda de drogas.

A diferença é que a Erik de Castro, ao contrário de Padilha, não interessa tanto a crítica social, a investigação das raízes da corrupção e a denúncia; FEDERAL é, para todos os efeitos, um filme de AÇÃO, onde esses elementos aparecem, mas sem o mesmo destaque que em "Tropa de Elite".

Repleto de defeitos (a única coisa que a crítica brasileira viu), FEDERAL também tem muitas qualidades, que apontam um caminho para a produção nacional de filmes policiais e/ou de ação, dando ao público exatamente o que ele quer ver: tiroteios, socos, sangue e até um festival de nudez gratuita e cenas de sexo que não existem em "Tropa de Elite".


Eu diria que este é um filme bem mais popularesco que a obra de José Padilha, e certamente será melhor apreciado por aquele público que não gostou tanto de "Tropa de Elite 2" por ter poucos tiroteios e muitos diálogos. Porque aqui o bicho pega.

A dobradinha "sexo e violência" aproxima FEDERAL do inconsequente cinema de ação dos anos 80, quando o roteiro teria sido originalmente escrito - como comprova a participação de Eduardo Dussek como ator e da banda brasiliense Plebe Rude na trilha sonora, músicos populares daquela década.

Falando em termos de Brasil, lembra a produção do prolífico Tony Vieira, que dirigia filmes policiais cheios de tiros, mulher pelada e sem frescuras justamente para o povão.


Para alguns críticos (como o conhecido P.V.), essa semelhança é motivo de vergonha. Aqui no FILMES PARA DOIDOS não. FEDERAL é Tony Vieira para o século 21: sem frescura e sem freios. Torço muito para que consiga atingir seu público, algo que "Segurança Nacional" (outra tentativa recente de se fazer cinema de ação brasileiro) não conseguiu.

E já que falamos nele, FEDERAL é superior a "Segurança Nacional". Mas aí também não precisava muito: aquele era mais válido pelo ar trash do que por seus méritos.

Mesmo com os óbvios problemas técnicos da produção (os tiroteios e cenas de ação ainda soam muito falsos, especialmente em comparação a "Tropa de Elite"), FEDERAL traz algumas boas surpresas, principalmente na caracterização do seu quarteto de protagonistas: todos são "heróis" cheios de defeitos.


O personagem de Selton Mello, por exemplo, reclama dos métodos dos colegas, mas esconde o fato de ser viciado em drogas (algo meio hipócrita quando se está combatendo justamente o tráfico). Outro dos "heróis", Lua, é um alcoólatra em recuperação que não suporta a tensão do trabalho e passa os momentos de folga limpando sua arma ao invés de dialogar com a esposa.

Já o Rocha de Christovam Neto surge como alívio cômico, e tem uma cena impagável em que transa com uma mulata apenas para descobrir que um dos seus amigos já havia "feito o serviço" na moça momentos antes.

O melhor do filme, entretanto, é o Vital de Carlos Alberto Riccelli. É muito fácil compará-lo ao Capitão Nascimento de Wagner Moura, já que ambos compartilham esposa grávida, métodos truculentos e frases reacionárias como "A única coisa que não pode acontecer é perder pra vagabundo". Numa cena, Vital orienta seus subordinados a atirarem na cabeça de uma testemunha que está no hospital, caso seus cúmplices tentem resgatá-la.


A diferença entre Vital e Nascimento é que o personagem de Riccelli não está puto com a situação desde o início, como Wagner Moura em "Tropa de Elite". Vital é apresentado como um policial que gosta e acredita no seu trabalho, e que vai "perdendo a fé" aos poucos, percebendo que luta uma guerra sem chance de vencer.

Para isso contribui a presença do ator norte-americano Michael Madsen como Sam Gibson, um agente corrupto do DEA (órgão de combate às drogas dos Estados Unidos) que facilita o acesso dos traficantes brasileiros a materiais ilegais. Quando Vital encara Gibson, o gringo dá a mesma desculpa dos policiais corruptos de "Tropa de Elite": que passou a vida inteira arriscando o pescoço em troca de nada e agora quer garantir sua aposentadoria.

(É uma pena que Madsen seja sub-aproveitado no filme. Confesso que queria vê-lo numa cena de ação, e não apenas gastando seu inglês com Riccelli.)


Uma das coisas que mais me agradou em FEDERAL é a coragem do diretor em não poupar seus protagonistas. Lembrando filmes policiais estrangeiros recentes, como "Atraídos pelo Crime" e "Os Infiltrados" (e o filme em que este se baseia, "Conflitos Internos"), quase todo mundo se dá mal na conclusão, e o roteiro chega a eliminar dois personagens principais de uma só vez, numa cena surpreendente e totalmente inesperada!

Infelizmente, a narrativa apresenta alguns problemas graves (e olha que o roteiro estaria sendo trabalhado desde os anos 80!). A apresentação dos personagens principais é truncada, e demora para descobrirmos quem são os protagonistas; o vilão, Béque, só aparece depois de meia hora, participa pouco da trama e praticamente não oferece nenhum perigo (as notas de produção dizem que ele é filho de políticos influentes de Brasília, mas isso nunca é mencionado).

Na metade do filme, quando um dos personagens diz que Vital criou um grupo de policiais incorruptíveis e bons atiradores (à la "Os Intocáveis") para combater o vilão, eu até imaginei que teríamos uma cena de flashback para explicar como e porquê aqueles homens foram selecionados, mas é outro ponto em que o roteiro fica devendo mais profundidade.


Também aconteceu algo semelhante a "Tropa de Elite": Selton Mello deveria ser o protagonista, mas a câmera está sempre acompanhando o personagem de Carlos Alberto Riccelli, de forma que Selton se transforma quase em coadjuvante.

A mim não incomodou, já que acho Selton Mello intragável (como Lázaro Ramos, ele parece interpretar sempre o mesmo papel, e não faz diferente aqui). Mas a idéia do policial dividido, que combate o tráfico enquanto é usuário de drogas, infelizmente é pouco aproveitada.

E tem aqueles problemas tradicionais de diretor de primeira (ou segunda) viagem, como um tiroteio, no final, filmado e editado de maneira confusa (não se sabe quem atira em quem), e uma cena pavorosa em que a "câmera na mão" segue Ricceli e Madsen enquanto eles descem uma escada (a câmera treme tanto que parece até "A Bruxa de Blair 3"!).


Apesar desses defeitos, encarei FEDERAL como um filme despretensioso e bem divertido, que cumpre o que promete - além de trazer as tais reviravoltas no ato final que realmente pegam o espectador de surpresa.

Sem contar que, como em "Tropa de Elite" e "Rota Comando", temos aqui um dos raros filmes brasileiros a enfocar o papel da polícia, e não do bandido (pois cineasta brasileiro adora glorificar o mundo do crime, algo que não é de hoje).

Diferente de "Tropa de Elite", em que tudo se resolve na porrada, aqui até tem algumas cenas que mostram os policiais investigando o caso (acompanhando o movimento de uma boca de tráfico, por exemplo), algo que levou o diretor a comparar, exageradamente, o seu filme com o clássico "Operação França", de William Friedkin.


Meu conselho é que corram aos cinemas para ver FEDERAL na tela grande, com todos os seus defeitos e qualidades, pois, como "Segurança Nacional", o filme de Erik de Castro dificilmente permanecerá muito tempo em cartaz.

E não dê bola para críticas toscas com frases como "O Brasil começou a investir há pouco tempo no gênero policial" (claro, "Assalto ao Trem Pagador" é APENAS de 1962!).

Se estivéssemos nos anos 80, FEDERAL certamente seria produzido pela Cannon e lançado em VHS pela América Vídeo, o que já dá uma idéia da proposta.


Que venham mais filmes nacionais como este, pois não é só de "Tropa de Elite" que vive o espectador brasileiro fã de ação ou de histórias policiais. E há MUITAS boas histórias do gênero para contar aqui no país, como mostram os seriados "9MM: São Paulo" e "Força Tarefa" (e vem aí o longa "Assalto ao Banco Central", que também promete).

Como se sabe, o que falta é investimento, e quem sabe um pouquinho de valorização. Mas aí o buraco é mais embaixo.

PS 1: Sérgio Farjalla Jr. assina os efeitos especiais do filme. Ele é filho de Sérgio Farjalla, um dos primeiros técnicos de FX do país, que trabalhou em clássicos como "Perdidos no Vale dos Dinossauros" e "O Segredo da Múmia".

PS 2: O amigo Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja, postou uma seleção de entrevistas com Michael Madsen sobre FEDERAL. Vale uma olhada, porque o ator também fala sobre a sua carreira e a amizade com Quentin Tarantino.

PS 3: Sua personagem não faz muita coisa, mas é injustiça não citar a bela Carolina Gómez (a lindinha aí embaixo), ex-Miss Colômbia que enfeita diversas cenas com seu corpão seminu, "interpretando" a namorada de Selton Mello.