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segunda-feira, 13 de abril de 2009

1968: TUNNEL RATS (2008)


Já virou clichê escrever que o alemão Uwe Boll é um dos mais medíocres cineastas atualmente em atividade (se é que dá pra considerar cinema as porcarias que ele "escreve" e "dirige"). Mas esta generalização às vezes se transforma numa injustiça; afinal, o pobre sujeito virou sinônimo de ruindade mesmo para quem nunca realmente viu um filme dele! E não dá para negar que alguns dos seus trabalhos são pelo menos divertidos (o primeiro "Bloodrayne", por exemplo, que ainda tem o mérito de mostrar a linda Kristanna Loken pelada, ou a comédia "Postal", que atrai justamente pelo seu extremo mau gosto).

E então chegamos a 1968: TUNNEL RATS, um dos novos filmes do hiperativo Boll, que só neste ano de 2009 deve lançar mais três obras ("Far Cry", "Stoic" e "Rampage") e já está filmando outras duas ("The Storm" e "Darfur"), isso tudo mesmo com a quantidade absurda de críticas que seu trabalho recebe, e apesar de seus filmes jamais terem dado qualquer retorno financeiro em bilheteria - queria saber como o sujeito ainda consegue encontrar financiadores para as suas maluquices...


TUNNEL RATS é diferente dos filmes que Boll vinha fazendo até então, já que parte de uma história original de Dan Clarke transformada em roteiro do próprio diretor, mas sem inspiração em nenhum videogame, como a maior parte de suas obras anteriores. Aqui ironicamente fizeram o caminho inverso: foi o filme que depois se transformou em jogo de videogame!

Também é um dos primeiros trabalhos do diretor sem grandes astros ou nomes conhecidos no elenco, depois que nosso amigo desperdiçou gente como Ben Kingsley, Jason Statham e Burt Reynolds em suas produções anteriores. Aqui, para dar uma idéia, o nome mais conhecido é o ex-astro dos anos 80 Michael Paré, o que obviamente não quer dizer grande coisa. O orçamento foi de míseros 8 milhões de dólares e, reza a lenda, a estréia foi num único cinema de Los Angeles (!!!).


A surpresa é que, dependendo do seu estado de espírito, e com alguma boa vontade, este drama de guerra é bem divertido, e até, acredite se quiser, interessante. Talvez seja preciso um idiota como o Boll para conseguir fazer um filme cínico sobre a idiotice da guerra, neste caso a Guerra do Vietnã. Claro que não é nada que chegue aos pés de um "Apocalypse Now" ou "O Franco-Atirador", mas é louvável a maneira como o filme foge do tradicional estereótipo de "heróis americanos" vitimados pelos "malvados vietcongues". Para Boll, não há heróis nem vilões, vencedores ou perdedores - apenas vítimas.

O clima é tão pessimista que lembrei de alguns ótimos filmes italianos sobre o tema (como "Apocalypse 2/The Last Hunter", do Antonio Margheritti), que uniam extrema violência com uma mensagem anti-belicista, o contrário do que se via nas produções norte-americanas sobre o conflito - especialmente os "clássicos" produzidos e dirigidos por David A. Prior, como "Batalha no Campo do Inferno" e "Zona de Ataque", onde um ou dois heróicos soldados norte-americanos chacinavam pelotões inteiros de vietcongues (vai saber como é que os Estados Unidos não ganharam a guerra...).


E você realmente percebe que o homem está aprendendo a fazer filmes já nos créditos de abertura, em que helicópteros carregados de sacos-de-cadáver sobrevoam a imensidão da selva (as filmagens foram na África do Sul) ao som da música "In the Year 2525", de Zager & Evans.

TUNNEL RATS enfoca um grupo de soldados que têm como missão se infiltrar nos apertados túneis subterrâneos onde os inimigos vietcongues vivem, se escondem e preparam armadilhas e emboscadas para os rivais. Assim, são "ratos de túnel", como o título já diz, sob o comando do fanático tenente Vic Hollowborn (Paré), um personagem que parece saído de "Apocalypse Now", e que tem como atividades rotineiras enforcar prisioneiros de guerra ou desafiar soldados que discutem suas ordens para lutas de boxe (e vai entender como é que o sujeito tem luvas de boxe em plena selva!!!).


Os primeiros 20 minutos, que tentam apresentar um pouco mais da vida pregressa, dos dramas e dos medos dos jovens recrutas, é de longe a pior parte. É Boll tentando criar seu próprio "Platoon" ou "Nascido Para Matar", obviamente sem conseguir. Até que, lá pelas tantas, um dos personagens faz um discurso que parece ler o pensamento do próprio espectador: "Nada dessas merdas interessa, onde você esteve, de onde você é... Agora você está no Vietnã, e só interessa o que você faz no campo de batalha!".

É então que o filme começa a mostrar ao que veio, a partir do momento em que o pelotão entra em um túnel recém-descoberto nas cercanias do seu acampamento. É quando o clima tosco de "Platoon" vai para o espaço e a história se transforma numa versão bélica de "Abismo do Medo", com os pobres soldadinhos se arrastando por túneis escuros e cada vez mais apertados, e sendo despachados violentamente pelo inimigo escondido na escuridão.


Claro que, para curtir o filme, é preciso ignorar o fato de o roteiro de Boll ser HORRÍVEL. O desenvolvimento dos personagens é mínimo, e, quando existe, é constrangedor (tipo o negro que sonha em abrir uma lanchonete fast food quando voltar para os EUA, e passa as noites mandando beijos para a Lua para a sua namorada!!!!); o fio narrativo é inexistente, com as cenas e as mortes se sucedendo meio sem razão; personagens desaparecem sem explicação da história até que seja conveniente trazê-los de volta, e tudo acaba meio sem propósito, como se nunca tivesse existido, de fato, uma trama a seguir, deixando o espectador com aquela sensação de "Tá, e daí?".

Mesmo assim, algumas coisas realmente me agradaram em TUNNEL RATS para fazer com que eu esquecesse que estava vendo um filme sem roteiro. Uma delas é que o diretor-roteirista brinca com as expectativas do espectador, surpreendendo-nos inúmeras vezes ao longo da trama. Para começar, não há protagonistas principais: todos os recrutas ganham mais ou menos o mesmo destaque, e você acaba nem lembrando os nomes da maioria deles. Também não há espaço para heroísmos individuais à la "Rambo", frases de efeito ou acrobacias pirotécnicas.


Melhor: Boll faz com que um dos seus personagens passe o filme inteiro sobrevivendo a todo tipo de dificuldade no interior dos túneis, apenas para chegar à superfície e ser estupidamente abatido por fogo amigo! Também engana o público ao fazer o soldado metido a machão, que parece o grande herói da trama, morrer por primeiro (e de forma imbecil também), e ao mesmo tempo mantém vivo até a conclusão o recruta banana e covarde, que todos passam o filme inteiro dizendo que não vai durar muito tempo.

Para quem tem saudade daquelas produções bagaceiras e hiperviolentas feitas pelos italianos, TUNNEL RATS também é um deleite, primando pelo exagero: de soldados eviscerados por baionetas a espinha arrancada em enforcamento, o filme traz todo um catálogo de barbaridades. Uma das grandes influências de Boll parece ter sido "O Resgate do Soldado Ryan", já que há desde cenas com vietcongues esfaqueando impiedosamente inimigos desarmados até um soldado que é fanático religioso.


Pode-se até criticar o ritmo lento da narrativa, já que as cenas dos soldados engatinhando nos túneis escuros são repetidas à exaustão até deixar o próprio espectador sem fôlego. Mas elas funcionam para criar um clima de claustrofobia (é terrível imaginar-se naquela situação, com pouco espaço para se mexer e ainda sendo atacado pelos inimigos vindos de todos os lados), e ainda ajudam a criar uma história sobre a Guerra do Vietnã narrada de maneira original, até porque você fica se questionando sobre a idiotice daquilo - por que os caras não tacam umas 30 granadas e explodem os túneis ao invés de obedecer as ordens de seus superiores para rastejar lá embaixo? Há um momento altamente bizarro em que um soldado fica bloqueado no túnel após matar um vietcongue, e precisa esquartejar o cadáver pedaço por pedaço para liberar a passagem!

No final, quando um soldado norte-americano morre lado a lado com um "inimigo" vietcongue, o espectador até releva diversas bobagens que viu durante o filme para admirar a coragem do diretor. Longe de ser aquela historinha de ação e guerra que eu esperava, TUNNEL RATS traz até uma mensagem altamente crítica sobre a estupidez do conflito e sobre a futilidade da guerra. É isso mesmo, amiguinhos: Boll está tentando passar uma mensagem!

E, quem diria, consegue fazer isso de maneira muito mais contundente do que muito suposto clássico sobre o Vietnã que existe por aí...

Trailer de 1968: TUNNEL RATS


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1968: Tunnel Rats (2008, Canadá/Alemanha)
Direção: Uwe Boll
Elenco: Michael Paré, Nate Parker, Wilson
Bethel, Brandon Fobbs, Jane Le, Rocky
Marquette e Erik Eidem.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Mais críticas rápidas para pessoas nervosas


GRAN TORINO (Gran Torino, 2008, EUA. Dir: Clint Eastwood)
Clint Eastwood velho e fantástico num filme que, do começo ao fim, me pareceu o tipo de produção que o saudoso Charles Bronson estaria fazendo hoje caso continuasse vivo (talvez o final fosse diferente, uma coisa mais "Desejo de Matar 3", mas vá lá...). Ora, se o Stallone revisitou Rocky e Rambo aos 60 anos de idade, se o Bronson encarnou pistoleiros comedores de garotinhas na casa dos 80, por que é que o eterno durão Clint não poderia entregar algo bem próximo de uma versão envelhecida e ainda mais ranzinza do seu Dirty Harry? Seu personagem em "Gran Torino", Walt Kowalski, aparece sempre carrancudo, ao ponto de rosnar em algumas cenas, e xinga tudo e todos (inclusive os filhos mercenários) como uma metralhadora. Mesmo assim, Walt acaba virando herói do bairro sem querer quando intercede a favor de um vizinho oriental (ironicamente, ele ODEIA os orientais, que combateu na Guerra da Coréia!). Resolve "adotar" o rapaz e cuidar para que ele tenha um futuro decente, mesmo com todas as dificuldades e a presença de uma gangue pelo caminho. Tudo desemboca na tradicional conclusão com redenção, mas o filme não é, de maneira alguma, aquela historinha para boi dormir que parece ser pelo resumo. É, isso sim, um filmaço, e não me lembro qual foi a última vez que ri tanto, e sozinho, numa sala de cinema, por conta dos comentários mal-humorados e xingamentos do estressado personagem de Eastwood. Só as conversas dele com o jovem padre da paróquia (nas palavras do protagonista, "um virgem de 28 anos que acabou de sair do seminário"), incluindo uma impagável confissão, já valem o filme. Sem contar que o astro, também diretor, opta pelo tom dramático, sem exagerar os "heroísmos" do seu personagem (ao contrário do que o Charles Bronson aparecia fazendo em seus filmes já do fim da vida). Paro por aqui: direto para a lista dos melhores do ano!




DIA DOS NAMORADOS MACABRO 3D (My Bloody Valentine 3D, 2009, EUA. Dir: Patrick Lussier)
Analisando friamente, este filme é horrível: apesar de tentar seguir os passos do original canadense de 1981, que era um slasher bem decente (principalmente em sua versão uncut), essa refilmagem erra o tom ao partir para o exagero e para o vale-tudo. Não há suspense ou tensão, o minerador Harry Warden aqui não é capaz de dar um mísero susto ou sequer parecer uma ameaça decente, e o final não tem aquela perseguição legal nos escuros túneis das minas - sem contar que a revelação da identidade do assassino não acrescenta nada. Mesmo assim, achei um passatempo bastante divertido, talvez porque foi a primeira sessão que peguei com esta nova tecnologia em 3D (e convenhamos que é muito legal ver picaretadas saindo da tela do cinema e mandíbulas arrancadas voando na direção da platéia!). Ou talvez porque consegui achar graça justamente no lado mais trash da coisa, principalmente nos absurdos erros factuais (como o "assassino" sabia onde estava enterrado o corpo de Harry Warden?) e nas burrices não-intencionais (tipo uma enfermeira ir checar o soro de um paciente e só depois disso perceber que ele não está mais na cama!!!). Além do mais, você até releva uma meia dúzia de bobagens só por causa daquela cena da loira totalmente pelada (a gostosa Betsy Rue) sendo perseguida pelo assassino - cena esta que inclui até o assassinato de uma anã, vejam se tem cabimento! E as mortes são todas exageradas e bastante sangrentas, ao contrário do novo "Sexta-feira 13", que falhou justamente neste quesito. Inclusive acredito que Harry Warden e sua picareta fariam picadinho do novo Jason. Bobo, tosco, feio e burro, mas divertido e engraçado - em 3D, bem entendido. Sem 3D, deve perder 80% da graça.




A LIGA EXTRAORDINÁRIA (The League of Extraordinary Gentlemen, 2003, EUA. Dir: Stephen Norrington)
Este passou seis anos na minha lista de "filmes que jamais vou ver", ao lado de "Van Helsing", da trilogia "Jurassic Park" e de muitos outros. Devia ter ficado outros seis anos, mas a curiosidade foi mais forte e eu quis ver o quanto tinham estragado a fantástica minissérie em quadrinhos escrita por Alan Moore e Kevin O'Neill. Bem, digamos que o resultado conseguiu ficar abaixo das minhas mais baixas expectativas. Como é que alguém consegue transformar um material tão inteligente num filme tão tosco e idiota? Neste caso, a culpa é tanta do diretor Stephen Norrington ("Blade"), que parece mais interessado em explodir cenários do que em contar uma história, quanto do roteirista de primeira viagem (e que continue assim!) James Robinson. A Liga, para quem não sabe, é um "supertime" formado por personagens famosos da literatura do século 19, como Mina Harker (do livro "Drácula"), Dr. Jekyll ("O Médico e o Monstro") e Allan Quatermain ("As Minas do Rei Salomão"). Mas a adaptação para o cinema aproveita apenas umas duas ou três falas dos quadrinhos, o resto é tudo novo - e ruim. A vampira Mina perde o cargo de líder da Liga para Quatermain; afinal, aqui ele é interpretado por Sean Connery. O personagem também é mostrado como um aventureiro em plena forma física mesmo na velhice, enquanto nos quadrinhos era um trapo viciado em ópio! Para piorar, o roteirista Robinson meteu no balaio outros dois personagens que não estavam na minissérie de Moore e O'Neill, o imortal Dorian Gray e o aventureiro norte-americano Tom Sawyer. O resultado é abaixo da crítica: fiquei tão revoltado com os excessos do filme (na verdade um videogame fuleiro) que comecei a usar a tecla FF a partir da cena em que Sawyer dirige um carro conversível (resquícios de Batmóvel?) em alta velocidade pelas ruas da Veneza do século 19, enquanto edifícios feitos por computação gráfica desmoronam pelo caminho (!!!). E não espere ver o Homem Invisível ou Mr. Hyde (a "parte má" do dr. Jekyll) matando seus inimigos violentamente, como acontecia nos quadrinhos. Aqui o show é todo de Quatermain e Sawyer, e os outros personagens são apenas figurantes. Não por acaso, Connery e o diretor Norrington brigaram durante toda a filmagem, num trabalho tão estressante que ambos abandonaram o mundo do cinema desde então. Enfim, uma aula de como destruir um texto inteligente, mastigando-o para a geração MTV.




RESSACA DE AMOR (Forgetting Sarah Marshall, 2008, EUA. Dir: Nicholas Stoller)
O título nacional babaca para "Esquecendo Sarah Marshall" quase me fez desistir de ver esta surpreendentemente divertida comédia romântica, mais uma do time do produtor Judd Apatow - e, como as outras, repleta de humor grosseiro para adultos. Jason Segel (também roteirista) leva um fora da namorada, uma atriz famosa chamada Sarah Marshall (Kristel Bell). Sem conseguir se recuperar do baque, mesmo após transar com inúmeras garotas, ele resolve tirar umas férias no Havaí para esquecer a ex. Mas a tarefa será bastante difícil, já que Sarah e seu novo namorado, um roqueiro inglês lesado (Russell Brand), estão hospedados no mesmo hotel. Seguem-se as confusões e piadas eróticas de praxe, aqui com direito a farta exibição de genitais masculinos (!!!). O filme se estende demais, por quase duas horas (um defeito comum nas comédias produzidas por Apatow), mas consegue fugir do lugar-comum das comédias românticas contemporâneas. Um dos pontos altos é a discussão sobre a ruindade de um filme de horror estrelado por Sarah, sobre celulares assassinos (provavelmente uma citação ao remake "Uma Chamada Perdida"). Mas vale destacar também as cenas da série policial de TV que Sarah protagoniza ao lado de William Baldwin (!!!), com direito até aos bordões infames dos seriados policiais televisivos reais! Enfim, ideal para quem procura uma comédia romântica para assistir com a namorada, mas sem se privar do direito de rir de piadas infames e sexistas.




PARANÓIA (Disturbia, 2007, EUA. Dir: D.J. Caruso)
Bem legal este suspensezinho inofensivo voltado ao público jovem que eu acabei vendo numa madrugada insone via TV a cabo (e acredito que este seja o melhor jeito de ver um programinha simplório como este). Basicamente, é "Janela Indiscreta" para a Geração YouTube: o novo galã Shia LaBeouf (ô nomezinho...) é um garoto rebelde obrigado a cumprir prisão domiciliar após agredir um professor. Como ele está nos Estados Unidos, e não no Brasil, a coisa funciona: ele recebe uma tornozeleira digital que emite um alarme à polícia no caso de ele mal colocar o pé fora da área da sua casa. Sem poder escapar da condenação, ele se dedica a espionar os vizinhos, principalmente a gracinha interpretada por Sarah Roemer, que acabou de se mudar para a casa ao lado. O problema é quando ele começa a desconfiar que o vizinho da frente, um esquisitão interpretado pelo ótimo David Morse, é um serial killer. O elenco tem ainda a "Trinity" Carrie-Anne Moss em participação que não fede nem cheira, como a mãe do rapaz. Me lembrou inclusive uma variação do "A Hora do Espanto" (rapaz espiona vizinho, desconfia dele, o vizinho percebe que está sendo espionado e começa a invadir a vida do rapaz, e por aí vai). Mas, e isso realmente me surpreendeu, o filme é bem feitinho e consegue prender a atenção até o final. Pena que não tem coragem de ir além: na conclusão, alguns personagens que pareciam mortos reaparecem para o "final feliz" obrigatório nestas produções comercialóides.




PAGANDO BEM, QUE MAL TEM? (Zack and Miri Make a Porno, 2008, EUA. Dir: Kevin Smith)
Vendo os últimos filmes do eterno nerd Kevin Smith, quem diria que ele já foi considerado a salvação do cinema independente lá atrás, nos anos 90, ao fazer filmes simples e inteligentes como "O Balconista" e "Procura-se Amy"? Eu já tinha desistido do sujeito há algum tempo, especialmente desde os muito ruins "O Balconista 2" e "Menina dos Olhos", mas resolvi esquecer o título nacional horroroso e arriscar, já que o tema deste seu novo trabalho me pareceu interessante (casal de amigos fica sem grana para pagar o aluguel e resolve fazer um filme pornô amador), e a dupla de protagonistas valia a pena (com o engraçado Seth Rogen e a delícia Elizabeth Banks). O resultado acertou na trave: continua anos-luz distante das coisas boas que Smith já fez, continua tão besta quanto suas produções mais recentes (difícil entender que tipo de público ele anda mirando, se são os "adultescentes" de antigamente ou a garotada desmiolada de hoje), mas tem lá seus momentos. O melhor é a primeira parte, principalmente a sátira pornô de "Star Wars" (Star Whores), e também porque Smith não cai na burrada de fazer um filme sobre a indústria pornográfica sem mostrar nudez ou sexo (erro cometido por comédias patetas e inocentes como "Quase Ilegal" e "Um Show de Vizinha"). Entretanto, e isso é uma pena, o que começa como uma comédia sacana e safada bem legal desmorona a partir da metade, quando se transforma em comédia romântica, e o filme pornô é simplesmente esquecido. E a Elizabeth Banks NÃO aparece pelada, o que é extremamente deprimente! Para piorar, a tradução das legendas é ridícula, deixando de fora 80% dos palavrões e termos de baixo nível tão necessários numa história como essa. Resumindo: até vale uma espiada, mas não é nada memorável. Atenção para as pequenas participações da ex-musa pornô Traci Lords (agora uma baranga de dar medo), e do novo Superman, Brandon Routh, aqui em papel de homossexual!




O RETORNO DOS MALDITOS (The Hills Have Eyes 2, 2007, EUA. Dir: Martin Weisz)
Falaram tão mal desta continuação do remake de Alexandre Aja para o clássico de Wes Craven que nunca me animei a ver, até agora. Puro exagero: trata-se de uma típica continuação caça-níquel para o mercado de DVD, tão comum quanto outras tantas, mas longe de ser esta ruindade que comentaram - a continuação "original", dirigida por Wes Craven em 1985, é que é um lixão indefensável. O roteiro desta seqüência foi assinado por Craven com seu filho Jonathan, e mostra um pelotão da Guarda Civil em uma missão de resgate naquela mesma área do deserto do Novo México onde a família Carter foi atacada no primeiro filme. Claro que ainda há muito mutantes canibais por lá (embora misteriosamente nenhum deles tenha dado as caras no primeiro filme...), e os monstrengos tratarão de aniquilar os soldadinhos de chumbo um a um. Há bastante sangue e mortes (com direito a cabeça esmagada com pedra EM CLOSE, saco esmagado a marretadas e lâmina de baioneta enfiada na boca), mas sem um pingo da tensão e do suspense do original de Craven ou mesmo do remake do Aja. Culpa do diretor alemão Weisz, mais interessado no visual do que na história. Mas vale para uma Sessão da Tarde gore para doidos. Sem contar que é divertido ver soldados tão burros quanto a média das jovens vítimas de slasher movies. Dá até para traçar um paralelo com a ocupação norte-americano no Iraque: como lá, aqui também temos jovens soldados bem equipados, mas mal-preparados, tentando tomar posse de um território que não é deles e sofrendo a sangrenta retaliação dos habitantes locais. Quem disse que só o George Romero pode fazer crítica social? Divertidinho, e nada mais.




UMA VIAGEM MUITO LOUCA (Harold & Kumar Escape from Guantanamo Bay, 2008, EUA. Dir: Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg)
Este filme é seqüência de uma comédia boba que tinha lá seus momentos ("Harold e Kumar Go To White Castle", lançada no Brasil como "Madrugada Muito Louca", por isso o igualmente tenebroso título nacional desta continuação). Infelizmente, os roteiristas cometeram a burrada de pegar estes poucos bons momentos do original e repetir aqui, pensando que teria a mesma graça. Não tem. Isso sem contar que a trama é bisonha: a dupla de maconheiros Harold e Kumar pega um vôo para Amsterdã, mas um mal-entendido a bordo, envolvendo um bong, faz com que eles sejam acusados de terrorismo e enviados a Guantanamo Bay (!!!). Está no título original, mas a cadeia se resume a uma ceninha de cinco minutos: logo a dupla foge e atravessa os EUA, com o Serviço Secreto no seu encalço. Acontece de tudo um pouco: eles invadem uma reunião da Ku-Klux-Klan, quase transam várias vezes, fumam maconha com o presidente George Bush (!!!), mas nada disso tem a menor graça. O único momento divertido, como já acontecia no filme original, é a participação do ator Neil Patrick Harris interpretando ele mesmo, e fazendo uma curiosa auto-crítica (é representado como um astro de Hollywood viciado em drogas e sexo com prostitutas). O desfecho de sua aparição, de tão absurdo, é o ponto alto do filme. O resto é bobagem e não provoca nem sorrisos amarelos. E nem mesmo o festival de gostosas peladas ajuda. Está na hora de os roteiristas de comédias debilóides aprenderem que peidos e pessoas cagando, por si só, não têm graça nenhuma, pelo menos para as pessoas normais. Pior: segundo o IMDB, um terceiro filme com Harold e Kumar vem aí...




O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (The Curious Case of Benjamin Button, 2008, EUA. Dir: David Fincher)
Como é que um conto bem humorado e com meia dúzia de páginas escrito por F. Scott Fitzgerald se transforma num porre melodramático interminável com quase três horas de duração? Boa pergunta... Eu nem vou discutir aqui os aspectos técnicos do filme, a maquiagem perfeita e o talento de David Fincher como diretor, já demonstrado diversas vezes ao longo de uma carreira repleta de filmaços. Mas este "Benjamin Button" é muito chato, e falha principalmente por não conseguir tornar interessante o drama absurdo do personagem principal. Tudo bem, o Brad Pitt nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar dos anos ao invés de envelhecer. Legal, interessante, mas a criatividade da situação se esgota depois dos primeiros 20 minutos, e ainda tem 140 pela frente! O maior problema é o roteiro de Eric Roth, que mais parece uma regurgitação do seu premiado trabalho anterior, "Forrest Gump" (são tantas semelhanças entre os dois filmes que nem vou perder meu tempo enumerando). E, estranhamente, os melhores momentos são justamente aqueles que não têm relação com a trama principal, como o velhinho que vive se lembrando de quantas vezes foi atingido por raios (eu ria alto a cada vez que os flashbacks mostravam o sujeito sendo atingido!), ou a história do relojoeiro que constrói um relógio cujos ponteiros andam para trás, na esperança de que o tempo volte e seu filho retorne vivo da Primeira Guerra Mundial. Já no caso da história sem graça do Benjamin Button - que, como Forrest Gump, participa sem querer de diversos fatos históricos -, a única parte realmente empolgante é a sua participação involuntária na Segunda Guerra Mundial. Mas quando a guerra acaba, e o ótimo personagem do Capitão Mike (interpretado por Jared Harris) some de cena, o filme se transforma numa xaropice interminável. Grande decepção que ainda estou tentando entender como ganhou tantas críticas positivas.




THE GIRLS REBEL FORCE OF COMPETITIVE SWIMMERS (Joshikyôei hanrangun, 2007, Japão. Dir: Kôji Kawano)
Mais um da série "O que será que tem na água que esses japas malucos bebem?". Rodada em vídeo digital, esta tosqueira bizarra bota no mesmo balaio extrema violência, tabus reprimidos, sacanagens das mais diversas, fetiches (japinhas vestidas como colegiais, japinhas tomando banho, japinhas de biquíni, lesbianismo entre japinhas), zumbis, vilões à la James Bond, raio laser saindo da perereca (!!!) e até uma super-assassina estilo Nikita. Como o filme tem apenas 78 minutos de duração, ou 1h18min, pouco ou nada deste tempo de projeção será utilizado para o desenvolvimento dos personagens. O que se sabe é que a bonitinha e tímida Aki (Sasa Handa) e a extrovertida Sayaka (Yuria Hidaka) se encontram num colégio, para onde a primeira foi transferida, bem no meio de uma invasão de zumbis. Sorte que elas são integrantes do time de natação do título, e o cloro da piscina garante imunidade ao vírus da zumbificação (!!!). Na verdade, é tudo uma grande bobagem, daquele tipo que não pode e nem deve ser levado a sério. Tudo, das interpretações (espere para ver as caretas dos atores que interpretam os zumbis...) aos efeitos especiais, é de segunda linha, o que às vezes até provoca alguma risadinha aqui e acolá pela produção miserável. Mas logo a piada perde a graça, pois lembra um filme amador, com imagem um pouco melhorzinha, gravado no quintal da casa de alguém. O que parece é que o diretor Kawano se perdeu por querer atirar para todos os lados, e acaba sem acertar em nenhum alvo: há gore, humor, bobagem e sacanagem em doses esparsas, mas não equilibradas, de maneira que o filme fica apenas vazio e muito chato, mesmo sendo curto.




NOSSO QUERIDO BOB (What About Bob?, 1991, EUA. Dir: Frank Oz)
Dos populares comediantes dos anos 80, Bill Murray talvez seja o único que mantenha uma carreira elogiável até hoje - já que Steve Martin, Eddie Murphy, James Belushi e Chevy Chase perderam a graça, John Belushi e Richard Pryor morreram e Dan Aykroyd hoje sobrevive de pontas em comédias sem graça, inclusive servindo de escada para o Adam Sandler! Portanto, sempre é bom redescobrir os filmes antigos do Murray, como esta pérola de humor negro chamada "Nosso Querido Bob", e que inacreditavelmente eu nunca havia visto. Ele interpreta um sujeito tão chato, mas tão chato, que faz aquele seu amigo mais xarope ou cunhado mais inconveniente parecerem anjinhos. É tudo que Jim Carrey tentou ser em "O Pentelho" e não conseguiu. O chatão chama-se Bob Wiley e é um paranóico e hipocondríaco cheio de manias, que transforma num inferno a vida de seu novo psiquiatra, o dr. Leo Marvin (Richard Dreyfuss, excelente). Desesperado por atenção médica, ele segue o doutor até o lago onde o psiquiatra está passando férias com a família. E, claro, transforma a vida do pobre homem num inferno - principalmente porque toda a família vê Bob como um sujeito simpático, menos, é claro, o psiquiatra, e o espectador! É aquele tipo de comédia em que as coisas só vão piorando, mesmo quando você pensa que o pior já aconteceu (excelente a maneira como Bob destrói a entrevista ao vivo que o psiquiatra está concedendo em rede nacional!!!). Humor negro de primeira, e realmente dá a maior pena do personagem de Dreyfuss.

sábado, 4 de abril de 2009

Os filhotes do "filme visionário"


Lembra quando eu escrevi, lá atrás, que sempre achei a graphic novel "Watchmen" infilmável, e que mesmo com a fidelidade mostrada no filme de Zack Snyder continuava pensando do mesmo jeito?

Pois agora os produtores da versão cinematográfica estão começando a lançar os primeiros filhotes do "filme visionário" (sim, isso é uma ironia), ou "spin-offs" de WATCHMEN - O FILME, com o objetivo de ampliar o universo fantástico concebido por Alan Moore e Dave Gibbons. Especialmente para aqueles que nunca leram os quadrinhos e, de certa forma, devem ter ficado boiando no cinema, ou pelo menos não entenderam certas coisas como deveriam.

Para estes: "Watchmen", no gibi, não era apenas uma historinha de super-heróis, muito pelo contrário. Ao final de cada um dos 12 capítulos, os autores apresentavam trechos de livros, páginas de revistas com entrevistas, correspondências, reproduções de jornais... Enfim, um monte de material fictício envolvendo os personagens da história, e que ajudava a mergulhar o leitor naquele mundo bizarro através de TONELADAS de textos (inclusive confesso que, quando li a minissérie pela primeira vez, isso no começo dos anos 90, pulei vários destes textos por pura impaciência, e só fui lê-los agora, ao adquirir a "Edição Definitiva" encadernada).


Na ordem de publicação, as 12 edições originais da graphic novel traziam, como "material extra", capítulos do livro "Sob o Capuz", escrito pelo primeiro Coruja, Hollis Mason, narrando sua carreira como super-herói e o surgimento (e os podres) do grupo de mascarados que ele integrava, os Minute Man; um ensaio de um certo professor Milton Glass sobre a importância do Dr. Manhattan na Guerra Fria, chamado "Dr. Manhattan: O Super-Homem e as Superpotências"; um capítulo de um livro chamado "A Ilha do Tesouro - A Tesouraria dos Quadrinhos", exclusivamente sobre a criação da HQ "Contos do Cargueiro Negro" (que um personagem secundário lê em vários capítulos da graphic novel); documentos retirados do arquivo policial sobre Walter Kovacs (o Rorschach), reproduzindo inclusive redações e desenhos que ele escreveu na infância, quando estava internado em um orfanato; o artigo "Sangue dos Ombros de Palas", publicado por Daniel Dreiberg (o segundo Coruja) num jornal de ornitologia; um exemplar do jornal de direita New Frontiersman defendendo a existência dos heróis mascarados, e com uma reportagem sobre o desaparecimento do escritor dos "Contos do Cargueiro Negro" (um detalhe essencial na graphic novel, mas não-aproveitado no filme com a mudança do final); recortes de jornal e cartas guardadas por Sally Júpiter, a primeira Espectral; cartas de Adrian Veidt ao seu departamento de marketing, sugerindo o desenvolvimento de novos produtos; e finalmente uma entrevista com Veidt num exemplar da revista Nova Express de 1975.

Precisa dizer que pouco ou nada deste material foi aproveitado em WATCHMEN - O FILME? No caso, um dos grandes problemas do filme é a ausência dos capítulos de "Sob o Capuz", que deixou beeeem no ar as histórias sobre o primeiro grupo de heróis e como a experiência acabou mal (o que é mostrado de maneira bem resumida na brilhante seqüência de créditos iniciais do filme, ao som de "The Times They Are A'Changin", de Bob Dylan).


Além disso, o filme não traz a história de piratas "Contos do Cargueiro Negro", que invadia a ação em diversas partes da graphic novel, através de um rapaz que aparece lendo a revista ao lado de um jornaleiro durante a iminência da guerra nuclear entre EUA e Rússia (por sinal, tanto o rapaz quanto o jornaleiro mal aparecem no filme, apenas de relance no final, e devem ter sua participação aumentada na "director's cut").

Eis, então, que agora surgem os "extras" de WATCHMEN para tentar preencher o vazio deixado pela inexistência deste material extra da graphic novel. E em breve estará chegando em DVD no Brasil WATCHMEN - OS CONTOS DO CARGUEIRO NEGRO, que de lambuja também traz o documentário SOB O CAPUZ.

Ao que parece, Zack Snyder e sua trupe filmaram uma quantidade absurda de material extra justamente para tentar adaptar o máximo possível do universo dos quadrinhos. Além destes dois filminhos que estão saindo em DVD, há inúmeros outros jogados diretamente no YouTube, como dezenas de comerciais de TV fictícios dos produtos das empresas Veidt (um deles apresenta o Método Veidt de fisicultura, conforme existia nos quadrinhos); um filme-educativo de 1977 intitulado "The Keene Act and You", que tenta justificar o ato político que encerrou oficialmente a atividade de heróis mascarados nos Estados Unidos; e cenas retiradas do noticíario NBS Nightly News de 1970, falando sobre os fantásticos poderes do Dr. Manhattan, entre outros. Acredito que tudo isso será reunido numa futura "Ultimate Edition" em DVD triplo, só pra faturar uns cobres da galera.

Mas vamos à análise dos primeiros filhos bastardos de WATCHMEN: os quadrinhos "Contos do Cargueiro Negro" foram adaptados para o cinema em forma de desenho animado, neste caso uma animação de 25 minutos escrita por Zack Snyder e Alex Tse (diretor e roteirista do filme) e dirigida por Mike Smith e Daniel DelPurgatorio.


Fica meio estranho assistir assim, deslocado da trama do filme, e confesso que fiquei curioso para saber se a narrativa iria funcionar caso fragmentos da animação fossem incluídos na montagem de WATCHMEN, mais ou menos como acontecia na graphic novel, em que o gibi invadia o gibi. Em todo caso, é uma curiosidade para quem não leu os quadrinhos e quer conhecer a famosa historinha de piratas.


A animação relata o drama de um marinheiro solitário (dublado por Gerald Butler, astro de "300", também dirigido por Snyder) após seu navio e sua tripulação serem destruídos pelo diabólico Cargueiro Negro. Perdido numa ilha no meio do oceano e rodeado apenas pelos cadáveres dos companheiros, ele resolve construir uma "jangada de mortos" (idéia brilhante) para retornar à cidade onde vive e alertar os moradores, especialmente sua esposa e filhos, sobre a iminente chegada dos sanguinários piratas. À medida que atravessa mil perigos, o marinheiro vai enlouquecendo e encaminhando a trama para um final trágico.


Em primeiro lugar, a violência da narrativa original na HQ foi quintuplicada, com muito sangue e detalhes nojentos dos cadáveres decompostos se esfacelando. Uma "liberdade poética" da adaptação são as conversas do náufrago com o cadáver de um dos seus companheiros, de quem, após um ataque de tubarões, o protagonista só consegue salvar a cabeça decepada, que guarda obsessivamente como única companhia na viagem (uma versão escatológica do "Wilson" de "Náufrago", talvez?). Mas a animação ficou realmente muito boa. É uma pena que acabou não sendo encaixada em momento algum do filme.


SOB O CAPUZ na verdade é um episódio do programa (fictício, claro) "The Culpeper Minute", que teoricamente teria sido exibido nos anos 80 e traz uma entrevista com Hollis Mason sobre sua autobiografia, "Sob o Capuz", e assim aproveita para traçar um histórico sobre o surgimento e desaparecimento do primeiro grupo de heróis mascarados dos Estados Unidos, os Minute Man, usando uma tonelada de fotos falsas e filmes de época.

O filminho tem 37 minutos e diversos "intervalos comerciais" com produtos da época (como relógios digitais da Cassio) e outros fictícios, relacionados ao universo da graphic novel (é o caso do perfume Nostalgia, das indústrias Veidt). Foi dirigido por Eric Matthies e escrito por Hans Rodionoff, que se baseou nos capítulos de "Sob o Capuz" reproduzidos na graphic novel e numa entrevista de Sally Júpiter que também aparecia nos quadrinhos.


Embora seja fraquinho como "falso documentário", já que os atores falham em passar a impressão de aquilo tudo é real (principalmente Carla Gugino na sua entrevista como Sally Júpiter), SOB O CAPUZ vale principalmente por apresentar o universo do Minute Men a quem não leu os quadrinhos e portanto não recebeu muitas informações sobre eles através do filme de Snyder.

Utilizando ótimos filmes de época em preto-e-branco, finalmente são mostrados os gloriosos atos dos primeiros heróis dos anos 40 e 50, como Dollar Bill (interpretado por Dan Payne), Capitão Metrópolis (Darryl Scheelar) e Justiça Encapuzada (Glenn Ennis), entre outros.




Este extra também dá mais tempo em cena para o ator Stephen McHattie, que interpreta Mason, o primeiro Coruja, e foi praticamente ignorado no filme (inclusive seu trágico destino nos quadrinhos nem aparece na versão cinematográfica, a não ser que esteja nas cenas a mais que veremos na director's cut de Snyder).


É ele quem mais aparece no documentário, contando ao "repórter" Larry Culpeper (interpretado por Ted Friend) como iniciou sua carreira como policial e resolveu tornar-se herói mascarado para combater o crime após o surgimento do pioneiro Justiça Encapuzada. Seguindo fielmente o texto da graphic novel, Mason relata as dificuldades da época, o surgimento do nome Coruja e até o processo de criação do uniforme, chegando finalmente à formação dos Minute Men.

Na segunda parte do documentário, fala-se sobre a polêmica Lei Keene e seu trágico efeito sobre os heróis mascarados, também seguindo fielmente o texto da graphic novel. Aparecem ainda entrevistas com o psiquiatra que, no filme, é responsável por acompanhar Rorschach após sua prisão; com o marido e empresário de Sally Júpiter, Lawrence Shexnayder; com o ex-vilão Moloch, e com o cientista e amigo do Dr. Manhattan, Wally Weaver, além de uma "tentativa de entrevista" com o Comediante. Todos os atores do filme aparecem de volta aos seus papéis, o que torna o trabalho bastante interessante.


Mas o melhor de SOB O CAPUZ, como escrevi lá atrás, é a reconstituição do universo dos mascarados como se fosse real, tal a riqueza de detalhes, fotografias e filmes de época mostrando os atos dos Minute Men. Fico imaginando o custo e o trabalho que deu para fazer tudo isso APENAS para utilizar num documentário de meia hora, o que dá uma idéia do carinho que o "visionário" Snyder tem pela graphic novel e a sua louvável tentativa de adaptar o máximo possível do texto da HQ para o cinema - embora, infelizmente, eu acredite que apenas uma pequena parcela do público de cinema de WATCHMEN vá perseguir este material extra.

O roteiro de SOB O CAPUZ também toma algumas liberdades poéticas em relação ao texto original escrito por Alan Moore nos quadrinhos, e sempre que o faz é com resultado negativo. Por exemplo, ao abordar a tentativa de estupro da primeira Espectral pelo Comediante (algo que aparece no filme), o documentário mostra uma entrevista com a moça e também com seu marido Lawrence, onde ambos negam veementemente o acontecido. Mas, nos quadrinhos, Sally Júpiter não apenas reconhecia a tentativa de estupro, como ainda perdoava o Comediante numa entrevista.


Infelizmente, o documentário não se aprofunda no triste fim da primeira leva de heróis mascarados, sem mostrar o assassinato de Dollar Bill durante um assalto a banco (porque sua capa ficou presa na porta giratória da entrada!), nem o fato de o Traça ter sido internado num manicômio por problemas relacionados ao alcoolismo (imagens destes acontecimentos são representadas nos créditos de abertura de WATCHMEN, mas é uma pena que não estão aqui também).

Enfim, o que importa é que tanto OS CONTOS DO CARGUEIRO NEGRO quanto SOB O CAPUZ funcionam como inteligentes e riquíssimos materiais extras para ampliar a trama de WATCHMEN aos não-iniciados na graphic novel. E certamente será muito legal ver uma futura edição especial em DVD reunindo todo este material extra e também os vídeos do YouTube, o que dará aos nerds deste planeta material suficiente para uma vida inteira de comparações entre filme e HQ.


Pessoalmente, acho que Snyder e sua trupe fizeram um belo trabalho produzindo este material para poder trabalhar com fatos e informações que não seria possível incluir no filme - a não ser que, como eu escrevi na minha análise anterior, a HQ tivesse sido adaptada na forma de uma minissérie luxuosa em capítulos, o que permitiria trabalhar com todo este material extra integrado à edição. Dado o desrespeito de alguns outros realizadores com a fonte que adaptam (vide "Constantine" e, principalmente, "A Liga Extraordinária"), o esforço do "visionário" (hahahaha) Snyder deve ser reconhecido.

Mas recomendo que ninguém compre o DVD caça-níqueis com estes dois "spin-offs" do filme, já que tudo está disponível livremente na internet. É melhor esperar pela futura edição especial que, acredito, não vá demorar muito a sair. Pelo menos no exterior, porque aqui todos sabemos como estas coisas funcionam...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

THE KENTUCKY FRIED MOVIE (1977)


É incrível a quantidade de boas comédias que ficaram inéditas em nossas videolocadoras, nunca ganharam uma segunda chance em DVD e hoje são praticamente desconhecidas para toda uma geração. É o caso deste THE KENTUCKY FRIED MOVIE, que, pelas minhas memórias, chegou a passar algumas vezes na extinta Sessão Comédia da Globo (aquela que era exibida no horário mais ingrato possível, às três da matina das segundas-feiras), mas nunca foi comercialmente lançado no país.

Uma pena, considerando que este foi o filme que lançou, de uma única vez, as carreiras do diretor John Landis (que vinha de uma obscura comédia de baixo orçamento, "Schlock", mas ficou famoso a partir daqui) e do "trio ZAZ" (os irmãos David e Jerry Zucker e o amigo Jim Abrahams). Todos eles seriam os grandes nomes da comédia da década de 80, Landis com filmes como "Trocando as Bolas", "Os Três Amigos" e "Os Irmãos Cara-de-Pau", e o trio ZAZ com suas célebres sátiras "Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu", "Top Secret", "Corra que a Polícia Vem Aí!" e "Top Gang" - sátiras que deram origem a incontáveis imitações recentes sem um pingo do talento.

Bem, em primeiro lugar, minhas desculpas aos que gostam de ler textos ilustrados com fotos, mas este é o tipo de filme que você precisa postar vídeos dos momentos mais engraçados, e eu realmente sugiro que vocês assistam estes vídeos - são curtinhos e muito, MUITO DIVERTIDOS! Eles já dão uma boa idéia do que esperar do conjunto, e depois desta amostra grátis vocês com certeza vão querer correr atrás do filme na íntegra.

Um cinema com "Feel-a-Round"


THE KENTUCKY FRIED MOVIE tem este título porque os Zucker e Abrahams tinham, desde 1971, um grupo humorístico chamado “The Kentucky Fried Theater” (gozação com uma famosa marca de frango frito norte-americana chamada Kentucky Fried Chicken). Eles eram especialistas em escrever e encenar esquetes satíricos, de humor negro ou apenas comicamente idiotas, no estilo do que faziam, na mesma época, os ingleses do grupo Monty Python (embora sem chegar aos pés dos geniais Pythons). E é exatamente disso que se trata o longa-metragem de estréia do grupo no cinema: uma seqüência de esquetes sem história definida, satirizando programas de TV, trailers de filmes, comerciais e com algumas besteiras no meio.

Quem já conhece outras obras do Trio ZAZ vai perceber de cara que isso aqui é mais obra deles do que de Landis. Em primeiro lugar, ao contrário de supostas sátiras cinematográficas recentes, que são uma bosta, esta aqui consegue fazer piada de filmes e de seus clichês de maneira genérica, sem obrigar o espectador a assistir outros 30 filmes para entender as piadas. Em segundo lugar, já existem aqui aqueles trocadilhos de duplo sentido que eles cansaram de usar em seus filmes posteriores - no esquete que se passa durante um julgamento, por exemplo, o promotor diz que os jurados irão "ouvir uma fita", referindo-se ao som da fita adesiva arrancada do rolo!

Os momentos mais geniais do filme são os falsos trailers de filmes exploitation, blacksploitation e filmes-desastre (este gênero o Trio ZAZ se encarregaria de esculhambar posteriormente em "Apertem os Cintos..."). Prepare-se para rolar de rir com os inspirados previews de, na ordem, "Catholic High School Girls in Trouble" (frases como "Mais racista que Mandingo! Mais erótico que Garganta Profunda!" aparecem sobre cenas de mulheres nuas passando fio-dental nos dentes ou jogando tortas de merengue no traseiro de cavalos!!!), "Cleopatra Schwartz" (sobre uma negra valentona estilo Foxy Brown e seu marido judeu!!!) e "That's Armageddon" (com George Lazenby, Victoria Carroll e Donald Shuterland!!!). Estes três trailers são mais divertidos que qualquer um daqueles trailers falsos feitos para "Grindhouse", de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez.

Trailer de THAT'S ARMAGEDDON



Trailer de CLEOPATRA SCHWARTZ


Além disso, o segmento mais longo do filme é justamente um falso filme que brinca com os clichês das produções de pancadaria de Hong-Kong, que estavam na moda na época, e é uma clara sátira a "Operação Dragão", o clássico de Bruce Lee. Chama-se "Por Um Punhado de Ienes", e mostra um lutador de kung-fu e agente secreto (Evan Kim) infiltrando-se na organização do maléfico Dr. Klahn (Bong Soo Ham), que na luta final usa uma afiada garra metálica estilo "Operação Dragão".

Este episódio é impagável e faz piadas divertidíssimas com cenas comuns aos filmes de Hong-Kong, como o uso excessivo de câmera lenta e a necessidade que o herói tem de aparecer sem camisa nas cenas de luta - Evan Kim inclusive faz uma paródia impagável daquele jeitão do Bruce Lee.

Cena de POR UM PUNHADO DE IENES



(Tanto este filme falso comos os trailers falsos são anunciados como produções de "Samuel L. Bronkowitz", uma brincadeira com os nomes dos produtores Samuel Bronston e Joseph L. Mankiewicz!)

Outras duas piadas memoráveis são a sessão de cinema com "Feel-a-Round" (um funcionário do cinema fica atrás do espectador fazendo com que ele sinta na pele as ações executadas na tela!!!) e um falso filme educativo, "Óxido de Zinco e Você", que mostra "o que aconteceria" se o óxido de zinco não existisse (várias coisas vão desaparecendo do cenário, com resultados catastróficos).

"Óxido de Zinco e Você!"


Além dos nomes já citados, THE KENTUCKY FRIED MOVIE tem pequenas participações dos próprios Zucker, Abrahams e Landis (este último lutando com o gorila no episódio do programa de TV), de Bill Bixby, da estrelinha blacksploitation Marilyn Joi, da linda (e obviamente pelada) Tara Strohmeier (de "Hollywood Boulevard"), de Forrest J. Ackerman (editor da revista "Famous Monsters of Cineland), do maquiador Rick Baker, de Leslie Nielsen e do ator Henry Gibson interpretando ele mesmo, num comercial da organização "United Appeal For The Dead", que defende levar uma vida normal com familiares já falecidos (e que é um pequeno clássico do humor negro).

United Appeal For the Dead



Não vou enganar o leitor dizendo que THE KENTUCKY FRIED MOVIE é alguma obra-prima ou genialidade, mas inegavelmente é um filme bastante divertido, daqueles que imploram para serem vistos em turma e bebericando uma cervejinha gelada. Há esquetes estúpidos, como o já citado do julgamento e outro em que um gorila escapa durante a transmissão ao vivo de um programa de TV e acaba invadindo vários trechos do telejornal. O comercial de uma refinaria de petróleo, anunciando que está retirando óleo das acnes do rosto de adolescentes, dos pentes usados pelos italianos e da fast-food comercializada nos EUA, também é sem graça.

Porém, sendo rápido, curto e engraçado na maior parte do tempo, principalmente para fãs de cinema e dos filmes de Landis e do Trio ZAZ, THE KENTUCKY FRIED MOVIE é uma prova de como antigamente até as comédias bestas eram inteligentes, e como hoje, infelizmente, vivemos numa era de sorrisos amarelos e piadas repetidas. A não ser que alguém queira me convencer de que pretensas "comédia" como "Os Espartalhões" são divertidas.

PS 1: Alguns sites consideram a igualmente divertida (porém superior) comédia "As Amazonas na Lua", de 1987, como sendo seqüência deste filme. Não achei confirmação oficial, mas o formato de ambas (seqüência de esquetes satirizando filmes e a programação televisiva) e a presença de John Landis como um dos diretores em "As Amazonas na Lua" são a principal relação entre as duas produções.

PS 2: Ia terminar o texto resmungando que não fazem mais comédias episódicas assim, até que descobri um tal de "The Onion Movie", lançado em 2008 e realizado no mesmo formato de THE KENTUCKY FRIED MOVIE. Ainda não vi para conferir, mas tem até Steven Seagal no trailer falso de um filme chamado "The Cock Puncher"!!! Acho que vale procurar...

John Landis fala sobre THE KENTUCKY FRIED MOVIE



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The Kentucky Fried Movie (1977, EUA)
Direção: John Landis
Elenco: Marilyn Joi, David Zucker, Robert
Starr, Tara Strohmeier, Jim Abrahams, Jerry
Zucker, George Lazenby, Donald Shuterland,
Bill Bixby, Rick Baker e muitos outros.

domingo, 29 de março de 2009

DEATHSPORT (1978)


"No ano 3000 não existirá mais Jogos Olímpicos, Super Bowl ou Copa do Mundo. Só existirá DEATHSPORT!"

A frase do cartaz, o argumento do filme, o título, a presença de David Carradine e a produção de Roger Corman levam o espectador a acreditar que DEATHSPORT, ficção científica classe Z de 1978, seja uma seqüência direta ou ripoff do divertidíssimo "Ano 2000 - Corrida da Morte", dirigido por Paul Bartel, estrelado por Carradine e produzido por Corman três anos antes, em 1975.

Mas as semelhanças entre as duas produções, infelizmente, não incluem o quesito qualidade, e nem DEATHSPORT é uma continuação de "Ano 2000 - Corrida da Morte", como informam alguns desavisados sites de cinema. Na verdade, esta é uma tentativa de Corman de faturar mais uns trocados após o sucesso do filme de Bartel (esquecendo, porém, que um dos ingredientes de sucesso daquele pequeno clássico era o humor negríssimo, que não existe nesta nova aventura), e ainda plagiar um pouquinho "Rollerball", de 1975.


O que sobrou é mais um autêntico FILME PARA DOIDOS, que os leitores deste blog vão achar o máximo, mas a maior parte da humanidade vai odiar. Agora, convenhamos: como não achar no mínimo divertido um filme em que David Carradine e Richard Lynch lutam com espadas de plástico; em que a falecida coelhinha da Playboy Claudia Jennings fica a maior parte do tempo com os seios ou a perereca de fora; em que um ditador tirânico tortura garotas seminuas forçando-as a dançar numa sala eletrificada (!!!), e em que raios laser desintegram não só pessoas, mas também motos e cavalos???

DEATHSPORT se passa no ano 3000, quando uma "guerra neutrônica" (não pergunte...) reduziu a humanidade a um deserto povoado por mutantes canibais. Um dos únicos núcleos "civilizados" é Heliz City, governada com mão de ferro por Lord Zirpola (David McLean), que diverte o povo com lutas de gladiadores estilo Roma Antiga. É o chamado "Deathsport", em que prisioneiros são perseguidos por motociclistas que disparam os tais lasers mortais.


Neste mundo perdido, também existem guerreiros místicos (uma espécie de versão pobre dos Jedi de "Guerra nas Estrelas", lançado no ano anterior), que vagam pelo deserto armados com suas espadas de plástico. O mais famoso deles é Kaz Oshay, interpretado por um David Carradine barbudo e de sunguinha - o que não é exatamente minha idéia de diversão, mas vá lá.

Felizmente, a coisa começa a andar quando Kaz é aprisionado pelo braço direito do ditador, Ankar Moor (interpretado por Richard Lynch!), e levado à força para participar do Deathsport juntamente com outra guerreira nômade, Deneer (Claudia Jennings).

Só que, num daqueles casos clássicos de propaganda enganosa, o tal Deathsport, apesar de ser o título da película, não dura nem cinco minutos: Kaz e Deneer logo escapam da arena de volta para o deserto, pilotando motos roubadas de seus perseguidores, e acompanhados por outros dois prisioneiros. Começa, então, uma perseguição implacável liderada por Ankar, que quer o couro do herói a todo custo.


Se DEATHSPORT serve para alguma coisa (além de mostrar David Carradine de sunguinha e Claudia Jennings de perereca de fora), é como diversão trash. Este é o filme perfeito para você deixar rolando num daqueles encontros de amigos cinéfilos regados a muita cerveja. Dos cenários toscos e falsos aos figurinos ridículos, passando pelos efeitos sonoros de quinta categoria e pela obsessão do diretor em mostrar explosões a cada cinco minutos, tudo é motivo de piada no filme, que assim torna-se engraçadíssimo do começo ao fim.

Entre os destaques no "fator trash", vale destacar os cenários das cidades e da arena onde acontece o Deathsport, e que são obviamente cenários pintados ou miniaturas bem toscas. As cenas de malabarismos com motos, repetidas até enjoar, acabam sendo mais engraçadas do que emocionantes, em parte por causa da exagerada sonoplastia dos veículos. Tem ainda uma cena de sexo que dá um novo sentido à expressão "cena de sexo gratuita", e uma participação pequena e não-creditada da futura scream-queen Linnea Quigley.


E o que dizer do raio laser que desintegra pessoas inteiras num piscar de olhos? O engraçado é que nunca fica clara a intensidade da arma: numa cena o raio desintegra automaticamente dois inimigos que estão lado a lado sobre suas motocicletas (os veículos também são vaporizados); em outro, o raio atinge um ratinho sobre um monte de entulho, mas apenas o roedor desaparece, enquanto o monte de entulho fica intacto!

O grande problema do roteiro de Nicholas Niciphor (com o pseudônimo Henry Suso), Frances Doel e Donald Stewart é levar-se a sério, ao contrário do "Ano 2000 - Corrida da Morte" que tenta desesperadamente copiar. Não há humor negro nem sátira em DEATHSPORT; na verdade, seus realizadores parecem estar levando a coisa a sério DEMAIS! Assim, cenas com elevado potencial trash, como as inúmeras perseguições com motos, sempre ficam no meio-termo; embora bem filmadas e editadas, não são tão divertidas quanto poderiam e deveriam ser, e logo tornam-se repetitivas.

E o tal "Deathsport", que parece ser a grande razão de ser do filme (está no título, caramba!), aparece numa mera ceninha de cinco minutos! Todo o resto da trama mostra heróis fugindo dos vilões. Até mesmo uma cena num covil dos mutantes canibais aparece jogada ao léu, sem qualquer função na trama.


Mais divertido que o próprio filme é o barraco que rolou nos bastidores: DEATHSPORT começou a ser dirigido por Niciphor, mas ele e Carradine não se bicavam. Com metade das cenas gravadas, a frescura entre os dois acabou mal: o astro simplesmente quebrou o nariz do diretor com um soco!!! Niciphor então abandonou o set, com nariz sangrando e tudo mais, e Corman teve que dirigir ele mesmo algumas cenas, depois chamando o pupilo Allan Arkush (de "Hollywood Boulevard" e "Rock’n’Roll High School") para terminar o filme.

E mais: dizem as más línguas que as filmagens eram movidas a álcool e drogas, o que transparece no clima de doideira coletiva do filme. A pobre Claudia era viciada e morreu no ano seguinte num acidente de carro, com apenas 29 anos de idade.

É uma pena que DEATHSPORT seja tão obscuro que nem existam vídeos decentes disponíveis no YouTube para postar aqui, e que certamente divertiriam meus fiéis leitores do FILMES PARA DOIDOS. Espero que se contentem com as fotos e procurem por esta pérola.

Uma coisa é certa: para o bem ou para o mal, não se fazem mais filmes assim, e isso é uma pena - principalmente quando o mais perto de DEATHSPORT que temos hoje é o bobo "Corrida Mortal" de Paul W.S. Anderson!


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Deathsport (1978, EUA)
Direção: Nicholas Niciphor e Allan Arkush
(e Roger Corman)
Elenco: David Carradine, Richard Lynch,
Claudia Jennings, William Smithers, Will
Walker e David McLean.

quinta-feira, 26 de março de 2009

LUCA, O CONTRABANDISTA (1980)


O diretor italiano Lucio Fulci é conhecido pela extrema violência de seus filmes de horror, entre eles os clássicos populares "Zombie" e "The Beyond". Ironicamente, uma das obras mais sangrentas e brutais do cineasta não tem nada a ver com zumbis ou entidades sobrenaturais, mas sim com ameaças bem reais, como tiros de revólver e contrabandistas de drogas. Estou falando de LUCA, O CONTRABANDISTA, o único filme policial da carreira de Fulci, e uma de suas obras mais violentas - mas que infelizmente acabou ofuscada por ter sido lançada justamente quando ele começava a fazer sucesso como diretor especializado em terror.

Erroneamente considerado um exemplar do gênero "polizieschi", quando na verdade é um filme de Máfia (a polícia praticamente não toma parte na ação, que enfoca apenas o sangrento confronto entre quadrilhas de bandidos, e os personagens principais são todos contraventores), LUCA, O CONTRABANDISTA foi filmado e lançado em 1980, entre o sucesso estrondoso de "Zombie" (1979) e outro horror violento do velho Lucio, "Pavor na Cidade dos Zumbis" (também de 1980). Marca a transição do Fulci que atirava para todos os lados (já havia feito anteriormente western, giallo e comédias) para o mestre do terror e do gore que se tornaria na década de 80. Justamente por isso, esta história sobre mafiosos acabou se transformando numa pérola praticamente desconhecida da filmografia do diretor.


O personagem-título é Luca D'Angelo (interpretado pelo sempre carismático Fabio Testi, que já havia feito "Os Quatro do Apocalipse" com Fulci), um contrabandista de cigarros de Nápoles que, mesmo sendo um criminoso, acredita não estar fazendo nada de errado; afinal, trabalha com uma mercadoria "legalizada", e não com drogas ou assassinatos como outros mafiosos que agem na região, e além disso gera emprego e renda - um verdadeiro empreendedor! Mas não aos olhos de sua esposa, Adele (Ivana Monti), que quer que ele "se aposente", temendo pela segurança dela e do filho pequeno do casal.

A Nápoles onde Luca vive e trabalha é dominada por várias quadrilhas de contrabandistas, mas a palavra de honra empenhada por eles há décadas garante uma relação de respeito: ninguém invade o território nem os negócios dos outros. Só que o acordo vai para o brejo quando Micky (Enrico Maisto), irmão mais velho de Luca, é pego numa emboscada e impiedosamente metralhado por gângsters vestidos como policiais.

Apesar dos apelos de Adele, pedindo para que eles saiam da cidade, Luca quer vingança. E o atentado dá início a uma guerra entre as famílias. Luca acredita que o culpado é Scherino (Ferdinando Murolo), que não se dava bem com Micky, e tenta matá-lo, mas leva uma surra que o deixa à beira da morte - e Scherino jura que não teve nada a ver com o crime.


Não demora para aparecer a verdade: o culpado é François Jacois, o "Marsigliese" (interpretado pelo francês Marcel Bozzuffi, do clássico "Operação França"), um poderoso traficante de drogas que está tentando convencer as quadrilhas de contrabandistas a trabalharem com ele, ajudando a distribuir cocaína e heroína em Nápoles.

Diante da recusa dos chefões, que não querem "se sujar" negociando entorpecentes, "Marsigliese" parte para o ataque, eliminando todos os gângsters até restarem apenas Luca, Scherino e Luigi Perlante (Saverio Marconi). Será que os três conseguirão deixar de lado as diferenças e se juntar para combater o perigoso traficante? E se um deles estiver de armação com o "Marsigliese" para acabar com a raça dos outros?

O maior problema de LUCA, O CONTRABANDISTA é o roteiro estúpido escrito a oito mãos por Fulci, Gianni De Chiara, Giorgio Mariuzzo e Ettore Sanzò. O argumento, na verdade, é bastante simples, e poderia ser resumido a uma linha: o "Marsigliese" começa e eliminar todos os chefes das quadrilhas de contrabandistas de Nápoles quando eles se recusam a distribuir drogas, e Luca é obrigado a enfrentar o assassino frente a frente.


Explicando assim, até parece simples; mas no filme não é: os roteiristas acharam que, por ser este um "filme de Máfia", precisavam enrolar com inúmeras reviravoltas, traições, mal-entendidos, acordos e desacordos entre os personagens, que só deixam o filme lento e excessivamente truncado. E, para piorar, as legendas do VHS nacional, lançado pela extinta DIF, são um horror, traduzindo frases pela metade (algumas acabam totalmente sem sentido) e errando a grafia dos nomes dos personagens.

Até por isso, a primeira meia hora do filme é chatíssima, e a única coisa de interessante que acontece é a brutal execução do irmão de Luca. A julgar pelo desenvolvimento lento do início, muita gente vai ter vontade de desistir, achando que o filme todo é arrastado assim. Mas não é. O excesso de personagens, que compromete o desenrolar da história no início, é resolvido no segundo ato, quando quase todos acabam mortos violentamente pela quadrilha do "Marsigliese".

E é quando restam apenas Luca, Scherino e Perlante contra o vilão que a coisa realmente começa a pegar fogo. Coitado de quem desistiu de continuar em frente baseado apenas no comecinho meia-boca...


Mesmo longe do terreno do horror, Fulci não poupa o espectador de doses cavalares de gore, ficando exageradamente acima de quase tudo que se mostrava em termos de violência naquele período - mesmo dos "polizieschi" italianos, conhecidos justamente pela sua brutalidade.

A violência aqui surge de maneira inesperada, mas sempre exagerada e em câmera lenta. Quando alguém leva um tiro no pescoço, por exemplo, a câmera faz questão de mostrar a garganta do sujeito explodindo em câmera lenta; quando alguém toma um tiro na boca que explode sua cabeça, a câmera novamente se aproxima e dá um close no rombo aberto pela bala na parte de trás da cabeça da vítima, e por aí vai... Ao estilo Sam Peckinpah, cada tiro disparado abre um rombo na vítima, principalmente uma rajada de metralhadora que desfigura o rosto de um mafioso e um tiro de espingarda que faz voarem as tripas de um pobre coitado! (Vale uma olhada no trailer do filme, abaixo, que contém algumas das mortes mais gráficas.)

LUCA, O CONTRABANDISTA traz também duas cenas brutais que foram censuradas em diversas cópias lançadas ao redor do mundo (mas felizmente não no VHS lançado no Brasil). A primeira mostra o cruel "Marsigliese" usando um maçarico para desfigurar o rosto de uma bela jovem que tentou lhe vender bicarbonato como se fosse heroína. E é claro que a câmera sádica e detalhista de Fulci (que adorava filmar mulheres sendo torturadas ou mortas violentamente) não desvia do alvo, mostrando em detalhes a chama do maçarico queimando o rosto da pobre moça até deixar a pele enegrecida, numa cena que parece interminável (e foi homenageada por Eli Roth em "Hostel - O Albergue").



A outra cena mais incômoda do filme também envolve violência contra mulheres, desta vez o lento estupro da esposa de Luca, e o protagonista ainda é obrigado a escutar os sons da agressão através do telefone!

A conclusão envolve aquele típico duelo de western entre herói e vilão, mas com uma criativa reviravolta: furiosos pelo banho de sangue que tingiu as ruas de Nápoles, os velhos e aposentados chefes da Máfia local resolvem sair do conforto de seus lares, pegar suas pistolas e metralhadoras e ensinar uma pequena lição aos "jovens" que não conseguem tocar os negócios sem ficar se matando uns aos outros. É um toque irônico, que mostra a Velha Guarda resolvendo a situação à moda antiga, por sinal lembrando vários filmes do mestre Peckinpah. E o próprio Fulci faz uma ponta neste duelo final, quando aproveita para também dar uns tiros de metralhadora!!!

Pena que o roteiro, em geral, seja medíocre, incluindo algumas cenas inconvincentes e até absurdas. Sabe no final de "O Poderoso Chefão", quando os mafiosos começam uma execução em seqüência de vários inimigos na mesma hora? Pois é, aqui copiaram isso, só que os assassinatos acontecem em locais como uma missa e um hipódromo, sempre com muita gente ao redor, e ninguém (nem o assassino, nem as pessoas e eventuais testemunhas por perto) parece se importar com o fato. A morte no hipódromo é de longe a mais engraçada: um sujeito que é a cara do Seu Madruga está gritando, comemorando o fato do cavalo em que apostou ter ganhado, e o atirador aproveita o fato para enfiar-lhe um revólver na boca e explodir seus miolos assim, sem qualquer cerimônia! hahahahaha.


Como curiosidade, vale destacar a presença de várias caras conhecidas dos "polizieschi" em LUCA, O CONTRABANDISTA, como Romano Puppo (ator de estimação de Enzo G. Castellari, visto em filmes como "The Big Racket" e "A Cruz dos Executores"), Luciano Rossi (de "Napoli Violenta" e "Django, O Bastardo") e Daniele Dublino (de "Poliziotti Violenti" e "Uomini Si Nasce, Poliziotti Si Muore"), ao lado de outros nomes populares, tipo Venantino Venantini, Guido Alberti e até Ajita Wilson, travesti que fez operação de mudança de sexo e apareceu em vários filmes "exploitation" da época, como "Sadomania", de Jess Franco.

Se você é fã de carteirinha de Fulci, LUCA, O CONTRABANDISTA não foge à regra da filmografia do diretor: o enredo não faz muita diferença, sendo rápida e facilmente suplantado pela quantidade de violência e sangue na tela. Se você não gosta, aqui está um belo argumento para continuar não gostando: 1h30min de bandidos se matando, sem muita emoção, surpresas ou reviravoltas.

Mesmo assim, um filme bem filmado e muito bem feito, que merece ser conhecido justamente pela sua injusta obscuridade.

Trailer de LUCA, O CONTRABANDISTA


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Luca il Contrabbandiere/ Contraband (1980, Itália)
Direção: Lucio Fulci
Elenco: Fabio Testi, Ivana Monti, Guido
Alberti, Enrico Maisto, Daniele Dublino,
Marcel Bozzuffi e Ajita Wilson.



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PRÊMIO DARDOS: Essa me pegou realmente de surpresa! O blog FILMES PARA DOIDOS ainda não tem nem um ano de atividade, mas mesmo assim foi indicado para o Prêmio Dardos, que "reconhece os valores que cada blogueiro mostra a cada dia, seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, suas palavras". É mole ou quer mais? E eu sempre pensando que ninguém lê minhas bobagens... O responsável pela indicação (sim, a culpa é toda dele) foi o Ronald Perrone, que publica o ótimo blog Dementia 13. Desde já, deixo um sincero abraço ao Perrone pela lembrança e, seguindo as regras do Prêmio Dardos, tenho que fazer o segunte:

1) Exibir a imagem do selinho em seu blog;
2) Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação;
3) Escolher outros 5 blogs a quem entregar o Prêmio Dardos,
4) Avisar os escolhidos.

Alguns dos meus escolhidos até já receberam a distinção, mas acho que eles merecem e vou "reindicá-los" pelo belo trabalho que fazem e que eu acompanho fielmente a cada semana (ou cada atualização):

Asian Fury - Filmes de Porrada, do Takeo Maruyama
Tablóide do Inferno, da equipe do site Boca do Inferno
RD - B Side, do Renato Doho
B Movies Box Car Blues, do Cesar Almeida
Viver e Morrer no Cinema, do Leandro Caraça