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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

COMBOIO DE CARGA PESADA (1977)


São pouquíssimos os casos de pessoas que se transformam em lendas ainda em vida, e um desses raríssimos exemplos chama-se Carlos Ray Norris, ou simplesmente Chuck Norris. Outrora um simples ator carrancudo de filmes de ação de baixo orçamento, espinafrado pela crítica e por grande parte do público, Chuck foi promovido a uma celebridade cult com o passar dos anos.

Recapitulemos: além de ser astro de filmes populares como "Invasão USA" e "Braddock - O Super Comando", o barbudão foi ganhando uma aura quase mítica cujo ápice foram os "Chuck Norris Facts", uma divertida piada que virou febre na internet e deu origem a frases como "Papai Noel existia antes de esquecer o presente de Natal de Chuck Norris".

E pensa aqui comigo: além de Chuck Norris, quantos astros de cinema você conhece que já viraram...


...revista em quadrinhos da Marvel com arte de Steve Ditko (!!!) e o próprio nome em letras garrafais na capa? (Repare que não são aventuras de um personagem de Norris, como Braddock por exemplo, mas ELE PRÓPRIO é o personagem do gibi!)


...jogo de videogame batizado com o próprio nome, o "Chuck Norris Superkicks"?



...desenho animado batizado com o próprio nome, o "Chuck Norris Karate Kommandos"? (O único outro exemplo que me lembro é o "Jackie Chan Adventures")


...linha de brinquedos com o próprio nome (ligada ao desenho "Karate Kommandos")?


...série de livros propagando suas façanhas, e imortalizando em papel os famigerados "Chuck Norris Facts"?

Portanto, queridos leitores, Chuck Norris é inquestionavelmente uma lenda viva, doa a quem doer. E em sua homenagem, o FILMES PARA DOIDOS lança uma nova maratona temática de início de ano. Se 2011 começou com resenhas diárias de filmes "direct-to-DVD" de Steven Seagal, 2012 inicia com a MARATONA CHUCK NORRIS: uma semana de textos sobre as primeiras aventuras do mito, antes do sucesso estrondoso de "Braddock - O Super Comando"!

Como todos sabem, Chuck teve seu primeiro papel de destaque no cinema apanhando de Bruce Lee em "O Vôo do Dragão" (1972). Depois foi vilão novamente e apanhou de Don Wong em "Massacre em San Francisco" (1974).


Três anos depois, com COMBOIO DE CARGA PESADA, em 1977, a lenda viva ganhou seu primeiro papel como protagonista, e desde então construiu uma carreira sólida, fazendo praticamente um filme por ano até 1996, quando deixou o cinema de lado para dedicar-se ao seriado de TV "Walker, Texas Ranger".

Preparem-se, pois será uma semana com overdose de testosterona. Eis o calendário de atualizações:
COMBOIO DE CARGA PESADA (Breaker! Breaker!, 1977)
OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (Good Guys Wear Black, 1978)
FORÇA DESTRUIDORA (A Force of One, 1979)
OCTAGON (The Octagon, 1980)
AJUSTE DE CONTAS (An Eye for an Eye, 1981)
GOLPE MORTAL (Forced Vengeance, 1982)
MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO (Lone Wolf McQuade, 1983)

Começando, então, por COMBOIO DE CARGA PESADA...


Eu tenho lembranças muito vívidas da primeira vez que vi este filme porque esta foi uma das primeiras fitas que meu pai trouxe para casa, para testar o videocassete da família, recém-comprado no Paraguai - isso entre 1987-88.

Pois o velho ficou tão extasiado que não descansou até encontrar alguém que tinha dois videocassetes em casa (um verdadeiro luxo para a época), para poder gravar uma cópia pirata e reassistir o filme quantas vezes quisesse!


Já para mim, foi um dos primeiros contatos com um filme em VHS e com esse tal de Chuck Norris. Por isso, rever COMBOIO DE CARGA PESADA agora, mais de 20 anos depois de tê-lo assistido pela primeira vez (e finalmente com imagem decente e em widescreen), teve um ar de nostalgia.

E também foi uma surpresa: nas minhas memórias de infância, o filme era muito pior. Revendo-o agora, até achei bem divertido.


COMBOIO DE CARGA PESADA se encaixa em um bizarro subgênero batizado "trucksploitation": na década de 70, sem nenhuma explicação (pelo menos que eu tenha encontrado), começaram a pipocar filmes de ação sobre caminhoneiros valentões enfrentando todo tipo de adversidades no volante de enormes caminhões. Entre os títulos mais famosos estão "Truck Stop Women" (1974), de Mark L. Lester, e "White Line Fever" (1975), de Jonathan Kaplan.

Eu até ia escrever que COMBOIO DE CARGA PESADA era uma tentativa de pegar carona no sucesso de dois famosos trucksploitation do período: "Agarra-me se Puderes", com Burt Reynolds, e "Comboio", de Sam Peckinpah, mas a verdade é que o filme foi realizado no mesmo ano de "Agarra-me...", e "Comboio" saiu só em 1978!


(E sempre é bom lembrar que "Agarra-me se Puderes" foi um sucesso de bilheteria tão grande em 1977 que só ficou atrás de "Star Wars" entre os campeões daquele ano! Portanto é bem possível que a comédia com Burt Reynolds tenha roubado a atenção desse filme de estréia do Chuck.)

Curioso que os caminhões são as estrelas do pôster original de cinema, já que Chuck Norris ainda não era um grande astro (lembre-se: este é o seu primeiro papel como protagonista). Somente anos depois, com a fama do ator, as capinhas de VHS e DVD começaram a utilizar enormes fotos dele em destaque (veja algumas abaixo, assim como a capa do VHS brasileiro lançado pela Poletel).


Também há uma outra curiosidade: COMBOIO DE CARGA PESADA é um dos três filmes de Chuck Norris que Sylvester Stallone "semi-plagiou" posteriormente.

Se "Rambo 2" aproveita cenas e idéias de "Os Bons Se Vestem de Negro" e "Braddock - O Super Comando" (ambos lançados antes), COMBOIO DE CARGA PESADA e "Falcão, O Campeão dos Campeões" têm em comum o personagem principal caminhoneiro e especialista em queda-de-braço! Até mesmo o rival de Chuck na queda-de-braço, um grandalhão careca e bigodudo, é idêntico ao arquiinimigo de Falcão no filme do Stallone, como você pode ver nas fotos abaixo!


Chuck "interpreta" (muita generosidade de minha parte) J. D. Dawes, um caminhoneiro gente boa e mestre em artes marciais (claro...). Nas suas paradas em restaurantes de beira de estrada, entre um frete e outro, ele demonstra sua habilidade disputando quedas-de-braço por apostas.

J.D. tem um irmão mais novo, Billy (Michael Augenstein), que se prepara para sua primeira viagem com carga. Só que ele dá o azar de parar em Texas City, Califórnia, uma cidadezinha no meio do nada governada por um juiz doidão e por policiais corruptos.


Eles costumam extorquir motoristas com pesadas multas por delitos não cometidos, somente para poder confiscar suas cargas. Billy é "julgado" por eles e condenado à prisão sem poder se defender. Como diria Schwarzenegger: "Big mistake".

Nesse ínterim, J.D. fica preocupado com o sumiço do irmão e resolve investigar. Pega sua caminhonete estilosa, com o desenho de uma águia na lataria (ou será um falcão? xiiii...), e segue os passos do desaparecido até Texas City, onde também acaba tendo problemas com a lei local. Claro que o fato de ser mestre em artes marciais ajuda, e logo Falcão... ops!... J.D. estará lutando contra a cidade inteira para libertar Billy. Literalmente.


COMBOIO DE CARGA PESADA foi dirigido por um sujeito chamado Don Hulette, que faleceu em 2008 e nunca teve créditos muito expressivos além desse filme. Na verdade, Hulette era mais conhecido como músico do que como cineasta, e inclusive compôs a trilha para o relançamento de alguns clássicos do cinema mudo, como "O Homem Mosca" e "O Calouro", de Harold Lloyd. Claro que ele também compôs a trilha desse seu filme aqui. Já o roteiro é de Terry Chambers, outro que não tem créditos dignos de menção.

Talvez essa falta de experiência da dupla justifique a bagunça que é o filme em certos momentos, como ao misturar ação e comédia meio sem critério.


Por exemplo, as cenas em que J.D. tenta interagir com a excêntrica população caipira de Texas City antes do pau comer, que são muito divertidas, parecem ter sido a inspiração para o excelente "Reviravolta", de Oliver Stone, produzido exatamente 20 anos depois.

Na conclusão, os amigos motoristas de J.D. aparecem para destruir a cidade com seus caminhões, e eles assim o fazem. Mas o filme termina sem explicações necessárias, como o que aconteceu ao juiz malucão que dominava a cidade: um caminhão invade a sala da sua casa e ele simplesmente some da narrativa, sem que se diga se morreu ou escapou para reconstruir o local.


Por sinal, vale destacar a excelente interpretação do veterano George Murdock como o juiz, no limite entre a insanidade e a crueldade. Segundo o IMDB, Murdock apareceu em mais de 180 trabalhos (entre filmes e seriados), e continua trabalhando!

Outros talentos envolvidos nessa produção de fundo de quintal são Jack Nance (recém-saído de "Eraserhead"), como um amigo malucão de J.D., e Steven Zaillian, que começou como editor aqui e anos depois firmou seu nome como roteirista de blockbusters (entre eles, "A Lista de Schindler", que lhe deu o Oscar de Melhor Roteiro, e o recente "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres").


Como esse é seu primeiro filme no papel principal, Chuck se esforça e dá o seu melhor na tela. Ainda está na sua fase pré-barba, com cara limpa e cabelinho loiro, e faz um personagem mais falante e simpático do que os carrancudos e silenciosos heróis exterminadores que protagonizou na década de 1980.

Mesmo assim, o roteiro lhe dá várias oportunidades para distribuir "Roundhouse Kicks" (aquele demolidor chute giratório que ele dá em todos os seus filmes), e no final há uma luta muito boa entre J.D. e o delegado corrupto da cidadezinha.


Esta cena (confira o vídeo no final da resenha) tem uma pegada de western spaghetti, com os dois adversários "se estudando" durante um tempão e vários closes e "super-zooms" no rosto inexpressivo de ambos. Depois, a pancadaria rola em câmera lenta, com um belo trabalho de direção e montagem. Sem contar que a ambientação, num curral, permite uma mais do que gratuita analogia entre Chuck Norris e o cavalo selvagem que fica galopando de um lado para o outro...

A coreografia das cenas de luta foi do próprio Norris, e é uma pena que os realizadores não mostraram o herói castigando o juiz também. Afinal, era ele o grande vilão, e não o pobre policial que pagou o pato no lugar do patrão!


É bem marcante o contraste entre COMBOIO DE CARGA PESADA e as obras que tornariam Norris popular, principalmente as aventuras que fez com a Cannon Films nos anos 1980. Se filmes como "Braddock" e "Comando Delta" imortalizaram o astro como o herói que fala pouco e bate (ou atira) muito - e geralmente um herói assexuado, sem muito interesse em pares românticos -, este aqui e todos os outros trabalhos da primeira fase da filmografia de Chuck trazem um montão de diálogos entre as lutas, e até um caso de amor. No caso desse aqui, entre o protagonista e uma das únicas mulheres da cidade, a viúva Arlene (Terry O'Connor), que, por conveniências do roteiro, é filha do juiz malucão!

Tudo considerado, COMBOIO DE CARGA PESADA é até bem melhorzinho do que eu me lembrava e do que as críticas encontradas na internet dizem. E tem um clima cômico que ajuda o espectador a embarcar no absurdo da história (os caipiras da cidadezinha são tão estereotipados que até parece que Chuck Norris invadiu o set de "2.000 Maniacs", do Hershell Gordon Lewis!).


Claro que o ator faria coisas bem melhores logo em seguida, mas para um primeiro filme como protagonista até que não está mal. Principalmente se olharmos os primeiros filmes estrelados por outros astros de ação dos anos 80, tipo Stallone (em "O Garanhão Italiano") e Schwarzenegger (na horrível comédia "Hércules em Nova York").

Comparado a eles, até que Chuck Norris começou com o pé direito. Neste caso, literalmente - e na cara de vários adversários!

PS: Por que diabos o filme ganhou o título "Comboio de Carga Pesada" aqui no Brasil? Só para fazer o link com o "Comboio" do Peckinpah? Afinal, não há exatamente um comboio no filme (mesmo no final, quando os caminhões invadem a cidade, são só quatro ou cinco veículos no total), e tanto faz se a carga é pesada ou não, se é que os caras estão transportando alguma carga. Ah, esses inventores de títulos nacionais e suas ideias malucas...

A luta final de COMBOIO DE CARGA PESADA



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Breaker! Breaker! (1977, EUA)
Direção: Don Hulette
Elenco: Chuck Norris, George Murdock, Terry O'Connor,
Don Gentry, John Di Fusco, Michael Augenstein,
Ron Cedillos e Jack Nance.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O GARANHÃO ITALIANO e REBELDE (1970)


Vários astros de Hollywood começaram sua carreira toscamente, de George Clooney em "O Retorno dos Tomates Assassinos" e Matthew McConaughey em "O Massacre da Serra Elétrica 4" a Angelina Jolie em "Cyborg 2" e Demi Moore em "Parasite 3-D". Mas poucos tiveram um início de filmografia tão porco quanto nosso querido Sylvester Stallone. Afinal, antes de ser John Rambo, Rocky Balboa, Falcão e Marion Cobretti, nosso querido Stallone estrelou duas verdadeiras bombas atômicas, daquelas de destruir o currículo de qualquer um.

Felizmente para Stallone, pouquíssima gente viu o pornô softcore O GARANHÃO ITALIANO e o drama/thriller REBELDE, ambos de 1970, na época dos seus lançamentos originais, e assim a imagem do futuro astro não foi arranhada. E, refeito das péssimas experiências, ele pôde escolher melhor os futuros trabalhos, fazendo pontinhas em filmes importantes como "Bananas", de Woody Allen, e "Klute, o Passado Condena", de Allan J. Pakula.

Essas participações sedimentaram o caminho de Stallone rumo ao estrelato, que chegaria seis anos depois de suas duas estréias tortas no mundo do cinema: em 1976, o ator escreveu e estrelou "Rocky, Um Lutador", de John G. Avildsen, e o filme foi indicado para 10 Oscars (incluindo o de Melhor Ator!!!), faturando três (Melhor Filme, Diretor e Montagem).

E como sempre acontece quando um ator é alçado ao topo, algum espertalhão subitamente se lembrou daqueles dois filmes esquecidos e trouxe O GARANHÃO ITALIANO e REBELDE de volta à luz da ribalta, numa estratégia que não chegou a macular a carreira de Stallone, mas apenas comprovou como foi difícil o seu trajeto para o estrelato.

Dentro desse espírito, o FILMES PARA DOIDOS encerra o ano de 2011 com essa fantástica Sessão Dupla "Vergonha Alheia de Stallone", para que você possa passar Natal e Réveillon rindo da cara de nosso amigo de boca torta e olhar de peixe morto!


O GARANHÃO ITALIANO (1970)


OK, como eu já escrevi, vários astros começaram por baixo. Porém poucos começaram TÃO por baixo quanto Stallone, que mostrou o pinto, fez caras e bocas e participou de uma orgia no pornô softcore "The Party at Kitty and Stud's", rodado em Nova York, no final de 1969, por um sujeito chamado Morton Lewis.

À época, o cinema comercial adulto ainda não tinha se rendido à putaria explícita - embora já houvessem filminhos pornôs hardcore em 8mm circulando clandestinamente por aí. Isso quer dizer que "The Party at Kitty and Stud's" não chegava às vias de fato, sem mostrar penetrações (aquilo entrando naquilo) ou closes de sexo oral - era tudo "de mentirinha", com os atores se esfregando e fazendo de conta que trepavam.


Consta que Stallone, então com 24 anos, só topou participar do filme porque estava numa pindaíba de dar dó, não tinha dinheiro para pagar o aluguel do apartamento onde vivia e nem para comer. Ele trabalhava como porteiro de cinema, e, nas últimas semanas antes das filmagens, estava dormindo em jaulas vazias de zoológico e terminais rodoviários para economizar grana!

Numa entrevista à revista Playboy em 1978, o astro confessou que só tinha duas alternativas para conseguir grana naquela época: fazer o filme ou assaltar alguém. Estupidamente, ele optou pela primeira alternativa, e ganhou 200 dólares por dois dias de gravações! O filme inteiro, rodado em 16mm, teria custado apenas 5 mil dólares.


No roteiro do também produtor (e provavelmente parente do diretor) Milton Lewis, o jovem Stallone interpreta Stud, palavra inglesa para "Garanhão". Ele vive com a maluquinha Kitty (Henrietta Holm), e ora transa com ela, ora a espanca com seu cinto.

Certo dia, Stud coloca um aviso num mural convidando pessoas desinibidas para a "Festa na Casa de Kitty e Stud" anunciada no título original. Dois casais (um hetero e outro formado por lésbicas) aparecem no apartamento, e desenrola-se uma grande suruba. The end. Genial, não?


"The Party at Kitty and Stud's" foi exibido em alguns poucos cinemas e logo saiu de cartaz direto para o esquecimento. Isso até Stallone ficar em alta com o sucesso de "Rocky" em 1976. Dois anos depois, em 78, a diretora de filmes adultos Gail Palmer (de "Hot Summer in the City") adquiriu os direitos sobre a obra e fez uma nova montagem, relançando-a nos cinemas na versão até hoje existente, rebatizada O GARANHÃO ITALIANO, numa referência ao apelido de Rocky Balboa em "Rocky".

Como a versão original não existe mais, fica difícil saber se o filme já era sem pé nem cabeça originalmente ou se ficou assim por culpa da reedição de Gail Palmer (que dá mais destaque à figura de Stallone e corta, bem, todo o resto!).


Espertinha, e tentando faturar em cima do novo astro, Gail montou uma nova sequência inicial com cenas de Stallone correndo e brincando na neve (provavelmente outtakes, cenas dos bastidores da filmagem de "The Party at Kitty and Stud's"), e incluiu uma nova trilha sonora que parodia a música de "Rocky".

A primeira transa entre Stud e Kitty também foi dublada pela própria Gail, que, como se fosse a "voz do pensamento" de Henrietta Holm, dispara frases "eróticas" clichezentas como "Stud's body really turns me on".


(Vale destacar que Gail aparece "in persona" no hilário trailer do relançamento de O GARANHÃO ITALIANO. Ela está numa moviola, em pleno processo de remontagem do filme, e enganosamente declara que se trata de uma obra X-Rated, com "fortíssimo conteúdo sexual". O trailer pode ser assistido no final dessa resenha. E reparem como a Gail era uma gracinha!)

Pois do jeito que ficou após a remontagem, O GARANHÃO ITALIANO é simplesmente incompreensível. Stud e Kitty transam, e depois o rapaz aparece conferindo os músculos no espelho enquanto duas garotas nuas "brincam" na cama (!!!). Tudo parece ser apenas fruto da imaginação do protagonista, pois no momento seguinte ele sai do quarto e não tem mais ninguém na cama - ou então é montagem ruim mesmo.


Mais tarde, Stud caminha pelo parque e testemunha uma garota (Janet Banzet, em participação-relâmpago) abrindo o casaco e revelando o corpo completamente nu. Ele volta para o apartamento de Kitty em estado de choque e, num acesso de fúria, dá um murro no vidro da janela, ficando com um corte na mão. Sem cerimônia, Kitty começa a lamber e chupar o sangue que sai do ferimento, em cena digna de um filme do Sady Baby!

(Só para constar: a tal moça exibicionista do parque devia ter papel de mais destaque na edição original, já que ela também aparece no início do filme, novamente sem maiores justificativas!)


Kitty faz um curativo na mão de Stud, e isso deixa Stud excitado. A moça se ajoelha para fazer sexo oral (off-screen) no rapaz, e ele a adverte: "Tenha cuidado. Não vá me morder, como da outra vez". Mas ela morde só de pirraça, e Stud responde enchendo Kitty de safanões e cintadas, numa cena de pancadaria quase interminável.

Finalmente, começa a festa no apartamento de Kitty e Stud. Um casal de lésbicas (uma negra e uma branca) rola pelo chão, observado por Stallone completamente pelado, na única cena em que é possível ver seu pinto "sem censura". Logo, ele e Kitty também se entregam à suruba.


Enquanto isso, no quarto, um outro casal transa enquanto o homem come uma banana (!!!) e comenta sobre uma atriz contratada para filmar uma cena pornográfica com um cavalo. Não tente entender.

À época do relançamento de "The Party at Kitty and Stud's" como O GARANHÃO ITALIANO, devido à publicidade e às fofocas, teve início a lenda urbana de que este filme de estréia de Sylvester Stallone seria um pornô hardcore, com o futuro Rambo passando a vara geral na mulherada.


Na verdade não é bem assim, da mesma forma como nossa querida Xuxa Meneghel nunca fez pornô (o famigerado "Amor Estranho Amor" é apenas um dramalhão com cenas de sexo softcore, e não putaria da pesada, como o povão acredita até hoje).

Não existe uma única cena explícita em O GARANHÃO ITALIANO, e inclusive as cenas de sexo são poucas, curtas e limitam-se aos atores e atrizes simulando rala-e-rola e orgasmo (mas nem mesmo o "money shot" da ejaculação, uma exigência do pornô explícito, aparece).


Na maior parte do tempo, o que vemos são closes nas genitálias das meninas (super-cabeludas, como era moda na época), e intermináveis dancinhas com as atrizes peladas ao invés de fodas. Na cena final, que é um convite à brochada, todo o elenco do filme se reúne na sala da casa para dançar numa rodinha (sem malícia!), pelados e de mãos dadas!!!

Assim, Stallone nunca faz nada realmente hardcore, e inclusive percebe-se claramente que ele não está muito, hã, estimulado em suas duas cenas de sexo, ostentando um pinto que cai de um lado para o outro como maria-mole. Podia até ter mudado seu nome artístico para "Sylvester Stamollone".


Outro detalhe que ajudou a sedimentar a lenda urbana sobre o "pornô de Stallone" é uma versão X-Rated de O GARANHÃO ITALIANO que circulou de forma pirata nos anos 80. Atualmente, só restou uma cópia dublada em alemão dessa versão.

Mas logo cinéfilos descobriram que o negócio não passa de uma picaretagem das brabas: cenas do filme do Stallone foram remontadas com inserts explícitos de um pornozão hardcore, "White Fire" (1976), de Roger Colmont. Dessa forma, parece que Stallone está metendo de verdade, mas os closes dos pintos e pererecas pertencem a outros atores e atrizes!

Os enxertos ficam evidentes quando o lençol sobre a cama passa do liso (nas cenas originais com Stallone) para listrado (nos closes explícitos), como você pode ver nas imagens abaixo. Ah, picaretas descuidados...


A lenda urbana do "pornô de Stallone" foi oficialmente desmentida em 2007, quando a revista norte-americana AVN (Adult Video News) examinou uma das únicas cópias existentes da montagem original de "The Party At Kitty And Stud's", guardada a sete chaves por um colecionador, concluindo que não há um único fotograma de sexo explícito na obra.

Ou seja, Stallone jamais molhou o biscoito pra valer diante da câmera. Pelo menos não enquanto ela estava ligada...

No Brasil, o filme foi lançado na época do VHS pela distribuidora PBV, com uma hilária capinha (reprodução ao lado) que anunciava: "Antes de Rambo... Antes de Rocky...".

Há alguns anos, saiu um DVD piratex com as versões soft e hard (aquela picaretagem alemã com enxertos X-Rated).

Embora seja ruim de doer como cinema, e principalmente como cinema erótico, O GARANHÃO ITALIANO sobrevive graças à curiosidade mórbida de ver um grande astro hollywoodiano pagando um micão tenebroso.

Naquela mesma entrevista à Playboy em 1978, Stallone contou que os realizadores da obra pediram dinheiro para não relançá-la, na época do sucesso de "Rocky", e que ele negou por achar que o filme era tão ruim que não valia nem dois centavos, quanto mais o dinheirão que os chantagistas pediam para sumir com a evidência do seu passado negro.


Uma prova de humildade de Stallone, que, ao contrário da nossa Rainha dos Baixinhos, optou por não proibir nem censurar essa página vergonhosa da sua biografia.

E olha que ele está muito pior que a Xuxa, sem convencer nas cenas de sexo - algo que não evoluiu com a idade, vide sua trepada lamentável com Sharon Stone em "O Especialista"!

Mas há um motivo para dar uma chance a O GARANHÃO ITALIANO - além do motivo óbvio de rir da cara de moleque e do pinto mole do Stallone, claro.


É Henrietta Holm (acima), a parceira de rala-e-rola do astro, uma gracinha de beleza simples e imperfeições hoje inexistentes nas atrizes pornôs, que são todas siliconadas e operadas até ficarem iguais a bonecas infláveis. Segundo o IMDB, este é o seu único filme.

Taí: se Stallone for macho mesmo, ele vai convidar Henrietta Holm para aparecer em "Os Mercenários 3"!

Como curiosidade, John G. Avildsen, que dirigiu Stallone em "Rocky", também começou sua carreira no cinema pornográfico, dirigindo, ele sim, filmes com sexo explícito, como "Cry Uncle", de 1971.

PS: O anúncio de página inteira sobre o relançamento de O GARANHÃO ITALIANO nos cinemas, abaixo, foi uma colaboração do cinéfilo Hugo Malavolta. Repare na enganosa informação de que o filme é "X-Rated". Alô, Procon?


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REBELDE (1970)


Se tudo indicava que a carreira de Stallone iria ralo abaixo após "The Party At Kitty And Stud's", até que o ator conseguiu emprego rapidinho logo en seguida, e como protagonista deste obscuro drama/thriller sobre hippies preocupados com a participação dos Estados Unidos na famigerada Guerra do Vietnã.

No final dos anos 1960, o conflito no Continente Asiático estava no auge, bem como os protestos da juventude norte-americana pedindo o fim da guerra e do envio de soldados para o Vietnã (o que só aconteceria algum tempo depois, em 1975).


Assim, em 1970, um sujeito sem nenhum crédito anterior chamado Robert Allen Schnitzer resolveu fazer um "filme-denúncia" sobre as manifestações anti-Vietnã, aproveitando a onda de thrillers políticos da época. Ele mesmo escreveu o roteiro do que viria a ser REBELDE, ao lado de Larry Beinhart (anos depois, Beinhart escreveria o livro "American Hero", que deu origem à genial sátira política "Mera Coincidência").

REBELDE se passa em outubro de 1969 e conta a história de um grupo de jovens hippies politicamente engajados. Eles vêm cometendo atos de terrorismo contra o governo, exigindo a retirada das tropas americanas do Vietnã. Um dos "terroristas do bem" é o jovem Jerry Savage (Stallone), que anda pelo filme como um zumbi, usando roupas terríveis e um chapéu que deve ter roubado de algum mendigo.


Embora tenham cometido alguns atentados a bomba, os "rebeldes" são pacifistas, atingindo sempre edifícios do governo quando eles estão vazios, para não machucar ninguém. Por isso, um maligno agente do FBI resolve cortar o mal pela raiz: infiltra no grupo um agente duplo, Tommy (Tony Page), que incentiva os colegas a realizar um ataque mais violento - mera desculpa para que os homens do governo possam cair matando em cima dos jovens.

O alvo é uma aparentemente pacífica empresa de produtos de metal que, por baixo dos panos, fabrica jaulas que servirão como armadilha para aprisionar vietcongues lá do outro lado do mundo. Enquanto Jerry quer apenas divulgar os contratos à imprensa e expor o segredo sujo, o traidor Tommy convence todos a bombardearem o edifício da empresa, e deixa o FBI de sobreaviso sobre a hora e o local do atentado.


Paralelamente, Jerry apaixona-se por uma jovem riponga que vive no meio do mato e vai à cidade de vez em quando para vender suas bijuterias feitas à mão. Ela se chama Laurie (Rebecca Grimes), e não concorda com a maneira violenta como Jerry e seu grupo tentam trazer a paz.

Lendo assim pode até parecer interessante, mas na verdade REBELDE é um exercício de paciência para qualquer espectador. Mal-filmado, mal-atuado e mal-interpretado (principalmente por Stallone pós-pornô softcore), o filme nunca consegue prender a atenção do espectador, e passar dos primeiros 15 minutos já é uma prova de fogo - eu mesmo só aguentei até o final passando para a frente com o FF.


A história, embora aparentemente simples, é narrada de maneira tão caótica que você só começa a entender os personagens e suas motivações perto do final.

Tanto que uma versão recentemente lançada em DVD na gringa ganhou absurdas legendas explicativas sobre "freeze-frames", algo que NÃO fazia parte do filme originalmente, explicando quem são os personagens e suas motivações, e até letreiros no início e no final apresentando o protagonista e contando o que aconteceu com ele após a conclusão!!!


Como já havia acontecido com "The Party At Kitty And Stud's", REBELDE também foi reeditado e relançado anos depois para aproveitar a fama de Stallone com "Rocky".

O filme chegou originalmente aos cinemas com o título "No Place to Hide", e era voltado ao público hippie. Foi um fracasso comercial. No começo dos anos 1980, quando Stallone já era um astro, o diretor Schnitzer resolveu fazer uma nova versão, reintitulada "Rebel" e com um gigantesco "Estrelando Sylvester Stallone" nos créditos iniciais (antes ele aparecia sem destaque junto com os outros atores).

Abaixo você pode ver dois cartazes de cinema distintos do filme: o primeiro, da época do lançamento, não destaca o nome de ninguém, já que Stallone ainda era um completo desconhecido; o segundo já estampa o rosto do astro e seu nome em letras garrafais, maior que o próprio título do filme!!!


Segundo o IMDB, não sobreviveu nenhuma cópia da versão "No Place to Hide" (exibida em alguns lugares com o título alternativo "No Place to RUN"), apenas essa remontagem intitulada "Rebel", que inclui mais cenas com Stallone, mais cenas com os agentes do FBI para acentuar o lado "conspiratório" da trama e menos baboseira "bicho-grilo" do que a versão anterior.

REBELDE foi lançado no Brasil nos primórdios do VHS pela Hipervídeo, que nem se deu ao trabalho de traduzir o título - saiu como "Rebel" mesmo. Mais recentemente, ganhou um relançamento em DVD com o título em português pela NBO.


Esse disco é um daqueles produtos barateiros para venda em balaios de ofertas, e a qualidade da imagem é abaixo da crítica: embora uma legenda sem-vergonha no início (foto acima) informe que a distribuidora buscou a melhor cópia possível, o que temos é um VHS-Rip dos mais grosseiros, em tela cheia, embora existam versões melhores e em widescreen lançadas lá fora. Ou seja, o "produto nacional" não vale nem os 5 ou 10 reais geralmente cobrados por aí.

Veja abaixo uma comparação entre a versão fuleira em tela cheia lançada no Brasil e a versão original encontrada lá fora - perceba que uma personagem INTEIRA é cortada do enquadramento em fullscreen, perdendo o espaço em cena para... um abajur!!!


Por sinal, com a fama de Stallone, REBELDE ganhou capinhas absurdas pelo mundo afora, como essas abaixo, que dão uma ideia completamente equivocada sobre o que é o filme, usando inclusive imagens e fotografias de outros filmes do astro (como "Condenação Brutal" e "Rambo - Programado para Matar"). Fico imaginando a cara de quem locou/comprou alguma dessas fitas pensando que era um novo filme de ação do Stallone...


Se O GARANHÃO ITALIANO hoje funciona menos como filme erótico e mais como comédia, o mesmo aconteceu com REBELDE, que já era ruim e envelheceu mal pra caramba.

Tente segurar o riso, por exemplo, na cena em que a hippie maluquinha Estelle (Vickie Lancaster, em seu único filme) seduz o personagem de Stallone fazendo uma tosquíssima dança-do-ventre, vestindo apenas calcinha e sutiã, e a câmera dá closes constrangedores da pança da menina balançando para cima e para baixo!


Tente segurar o riso, também, na patética cena em que a mesma Estelle conta a Jerry uma história supostamente triste sobre como abortou e guardou o feto morto dentro de uma garrafa durante uma semana (!!!). A reação de Stallone à narração da história, com cara de paisagem como se estivesse escutando uma piada de português pela décima vez, é hilária.

Tente segurar o riso, PRINCIPALMENTE, durante as discussões entre a "bicho-grilo" Laurie e o revoltado Stallone. Ela diz frases filosóficas como "Não podemos forçar o mundo a mudar, apenas amor pode trazer mudanças", ou "Eu rezo pela paz todos os dias", e ele responde com tiradas hilárias como "Você não pode rezar pela paz, tem que pagar por ela. Qualquer preço!".


Existe ainda uma ridícula e desnecessária discussão sobre hambúrgueres entre figurantes numa lanchonete (trinta e poucos anos antes de Tarantino colocar o mesmo tema em discussão em "Pulp Fiction"), e um personagem do tipo "negrão revoltado" que é tão clichê que chega a ser ofensivo - ele passa o filme todo berrando frases como "I don't want no more black blood in no more wall!!!".

REBELDE parece tanto uma comédia que, em 1990, uns sujeitos sem-noção resolveram transformá-lo em uma: pegaram os negativos do filme, redublaram tudo, filmaram umas cenas adicionais e relançaram com o título "A Man Called... Rainbo" (no Brasil, saiu em VHS apenas como "Rainbo"), uma hilária sátira a "Rambo" realizada por David Casci.


Surpreendentemente, essa versão cômica acabou fazendo mais sucesso que a montagem original. Chegou a ganhar prêmios de melhor filme e melhor comédia em festivais de cinema, e, diz a lenda, o próprio Stallone abençoou e aprovou a tiração de sarro.

(O curioso é que não há nenhuma explicação sobre o fato de "Rainbo" ser uma remontagem satírica de REBELDE no filme ou na capinha do VHS nacional. Quando eu vi esse negócio, ainda moleque, fiquei pensando em como Stallone foi corajoso para estrelar uma comédia tão tosca, até descobrir que era apenas um trabalho antigo reeditado e redublado!)


E se rir da cara de cabaço de Stallone é o principal motivo para suportar REBELDE hoje, também há certo interesse pelo fator documental da coisa, já que o diretor Schnitzer usou impressionantes cenas reais da Guerra do Vietnã e de protestos anti-conflito, além de notícias no rádio sobre o Festival de Woodstock e um discurso de Martin Luther King.

Assim, a obra tornou-se mais um retrato fiel daquela época turbulenta (já que foi filmado EXATAMENTE na época!) do que um filme decente ou interessante. O "pornô" do Stallone ainda é bem mais divertido.

PS: Esta é a última postagem do FILMES PARA DOIDOS em 2011. Portanto, embora eu não seja muito fã das festas de final de ano, deixo registrados os meus sinceros desejos de Feliz Natal e Próspero 2012 para todos os leitores do blog! Espero reencontrá-los por aqui no ano que vem, sempre ansioso por seus comentários, sugestões e críticas. Até lá!!!

Trailer de O GARANHÃO ITALIANO



Trailer de REBELDE (sem som)



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The Party at Kitty and Stud's / Italian Stallion
(1970, EUA)

Direção: Morton Lewis
Elenco: Sylvester Stallone, Henrietta Holm,
Jodi Van Prang, Nicholas Warren, Frank Micelli,
Barbara Strom e Janet Banzet.

No Place to Hide / Rebel (1970, EUA)
Direção: Robert Allen Schnitzer
Elenco: Stallone, Tony Page, Rebecca Grimes,
Vickie Lancaster, Dennis Tate, Barbara Lee Govan,
Roy White e Henry G. Sanders.