segunda-feira, 18 de novembro de 2019

BRADDOCK - O SUPER COMANDO (1984)


Em 1973, as tropas norte-americanas que combatiam no Vietnã foram oficialmente retiradas do front e enviadas de volta para casa, numa das mais rimbombantes derrotas (e surras) que os Estados Unidos tomaram em sua história - uma fracassada incursão que assombra o país até hoje.

Era o fim de um conflito que durou 19 anos, e que a maioria dos combatentes sequer conseguia entender direito. Jovens norte-americanos muito melhor treinados e equipados foram dizimados em território hostil por um inimigo que eles raramente conseguiam ver porque utilizava táticas de guerrilha - incluindo armadilhas espalhadas pela selva e túneis para atacar de surpresa. E a sociedade assistia a tudo, pela primeira vez, no horário nobre da TV, com os noticiários mostrando os caixões dos seus filhos sendo descarregados às dezenas nos aeroportos.

Estima-se que, nos anos de intervenção ianque no Vietnã (1965 a 1974), quase 60 mil soldados norte-americanos tenham perdido a vida. O número é expressivo, mas sempre é bom lembrar que, como em toda guerra, quem toma no rabo são sempre os que não têm nada a ver com a história: no mesmo período, estima-se que mais de 600 mil CIVIS tenham sido exterminados por lá, em momentos historicamente vergonhosos como o Massacre de My Lai em 1968, quando entre 347 e 504 (as fontes variam) camponeses desarmados foram executados pelas tropas dos EUA por vingancinha.


Seja como for, o governo dos Estados Unidos precisava fazer algo para apagar aquela imagem de fiasco perante uma sociedade que enviou seus filhos para morrer do outro lado do mundo. Fosse uma esperança a que se apegar, ou algo para reforçar a imagem de "vilão" do exército inimigo.

E assim, durante o governo de Richard Nixon, surgiu a designação "Missing in Action", ou MIA ("Desaparecidos em Combate", numa tradução literal). Segundo o então Secretário de Defesa Melvin Laird, ainda havia mais de 2.000 MIAs no Vietnã depois do fim da guerra, e o governo americano não descansaria até que o último deles voltasse para casa.


"Missing in Action" foi simplesmente uma jogada de marketing para amenizar o fiasco por aquelas bandas: a partir do momento em que o termo foi instituído, todo e qualquer soldado presumidamente morto em combate, mas cujo corpo não foi localizado, passou a ser considerado um "desaparecido em combate" e possível prisioneiro de guerra, dando uma falsa ilusão de que o sujeito pudesse estar vivo.

Nixon e sua turma apenas esqueceram de explicar às famílias dos MIAs que a maioria desses dois-mil-e-tantos "desaparecidos" eram pilotos ou soldados em helicópteros abatidos, cujos restos mortais jamais poderiam ser recuperados. Era mais fácil deixar no ar a esperança de que um dia, graças aos esforços do "nosso amigo governo", todos poderiam voltar para casa felizes e de mãos dadas.


Tal estratégia imoral não apenas deixou famílias em luto eterno até os dias de hoje, a imaginar que seus filhos ou pais seguem sendo prisioneiros numa gaiola de bambu em alguma selva remota no Vietnã, mas também criou uma vergonhosa indústria de "investigadores" que vendiam seus serviços a essas famílias, prometendo procurar por evidências de seus entes queridos desaparecidos (a maioria desses picaretas embolsava o dinheiro e nunca saía do escritório, conforme mostrado na aventura italiana "Missão Cobra").

E é incrível como mesmo hoje, com livre acesso a informação, a lenda urbana dos "Missing in Action" continua uma ferida aberta na América: existem Estados inteiros que ainda realizam, anualmente, cerimônias cívico-militares em honra aos prisioneiros de guerra e MIAs da Guerra do Vietnã, rezando pelo seu retorno antes tarde do que nunca!


"Mas cáspita, Guerra, quando é que você vai falar de BRADDOCK - O SUPER COMANDO? Eu vim aqui pra isso, não pra aula de história!"

Já estamos chegando lá...

É preciso contextualizar que, nos anos imediatamente pós-Vietnã, quando o conflito ainda era um trauma a ser exorcisado, realizadores sérios fizeram filmes sérios sobre as consequências físicas e psicológicas (e morais?) do episódio. Um dos primeiros a fazê-lo - e a coisa toda ainda estava bem recente no momento - foi o filmaço-do-caralho "Rolling Thunder / A Outra Face da Violência" (1977), de John Flynn, com roteiro de Paul Schrader, sobre um oficial que volta perturbado do Vietnã e prepara sua própria guerra caseira contra a quadrilha de mexicanos que matou sua família e arrancou sua mão.

No ano seguinte (1978), o gênio Michael Cimino levou para casa cinco Oscars (incluindo Melhor Filme) com a obra-prima "O Franco-Atirador", que mostra os efeitos devastadores da guerra num grupo de amigos, e até hoje é uma das representações mais impactantes do estresse pós-traumático que assombrou os sobreviventes do Vietnã. As cenas dos prisioneiros de guerra sendo forçados a fazer roleta-russa são de uma crueldade poucas vezes equiparada pelo cinemão hollywoodiano.

E no outro ano ainda (1979) foi a vez de Francis Ford Coppola entregar outra obra-prima anti-belicista, "Apocalypse Now'', que atualizava a narrativa do livro "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad, para a Guerra do Vietnã, permitindo catalogar seus horrores de maneira alegórica. O filme foi nomeado para 8 Oscars e levou dois, mostrando que a Academia estava acompanhando o assunto com interesse.

Esta tentativa de mostrar o "lado negro" do Vietnã durou até princípios dos anos 1980, e um dos seus últimos registros interessantes foi, talvez, "Rambo - Programado para Matar" (1982), de Ted Kotcheff, que sob o pretexto de um filme de ação aparentemente comum denunciava o preconceito com que eram tratados os ex-combatentes que voltaram "derrotados" do Vietnã.

Foi quando a coisa toda degringolou...

O início da "Era Reagan", com a eleição do ex-ator de filmes B para o comandar os EUA em 1980, recrudesceu a propaganda em prol dos MIAs e anti-"inimigo amarelo". Num discurso histórico, o velho Ronald prometeu que o retorno dos desaparecidos em combate seria “the highest national priority” do seu mandato, e chegou a criar uma divisão especialmente dedicada a investigar a existência de prisioneiros de guerra no Vietnã dez anos após a retirada das tropas americanas de lá. Até onde se sabe, a coisa toda deu em nada - mas ninguém percebeu.

Vale ressaltar que, àquela altura, o governo do Vietnã do Norte já tinha libertado prisioneiros de guerra e declarado, inúmeras vezes, que não havia mais nenhum soldado norte-americano por lá. Como se os caras não tivessem nada melhor para fazer do que montar campos de prisioneiros no meio da selva, e mobilizar numerosas tropas para administrá-los, apenas para manter vivos os supostos MIAs durante décadas "porque sim"!


Mas o discurso de Reagan colou, claro, porque o cidadão americano médio é burro que nem uma porta e adora quando seu governo lhe aponta um inimigo para odiar (a estratégia pegou por aqui também, como se percebe). Imbuídos pelo sentimento de patriotismo do presidente cowboy, os novos filmes sobre a Guerra do Vietnã produzidos nos anos 1980 deixaram de lado aquela sensação de "dream is over" e de derrota vergonhosa, passando a apelar para um espírito revanchista que buscava reescrever a história em prol dos derrotados.

Desta leva, BRADDOCK - O SUPER COMANDO foi um dos primeiros, embora não o primeiro (mais adiante voltamos a isso). Então a partir de agora vamos esquecer um pouquinho a vida real para analisar esta bobagem divertida que acaba de completar 35 anos, visto que a estreia nos cinemas americanos foi em 16 de novembro de 1984.


A gênese da coisa toda é uma daquelas misturas absurdas de bagunça e picaretagem que são quase mais interessantes do que o próprio filme.

Começa com Lance Hool, um ator frustrado com pequenas participações em westerns e seriados dos anos 1970, que acabou encontrando sua vocação como produtor. Entre 1979 e 1984, ele produziu três bem-sucedidos veículos para o astro Charles Bronson: "Cabo Blanco" (que era um ridículo remake disfarçado de você sabe o quê, vide o título), o excelente "Dez Minutos para Morrer" e "Justiça Selvagem".

O próximo projeto de Hool era justamente inspirado na Guerra do Vietnã e nos supostos prisioneiros de guerra - uma aventura que ele concebia com tanto entusiasmo que pela primeira vez resolveu encarregar-se também da história. E como Charles Bronson já estava muito velho para interpretar um veterano do Vietnã, Hool ofereceu o projeto a outro grande astro da época, Carlos Ray Norris, mais conhecido como Chuck Norris - que naquele ponto já era um nome popular graças ao sucesso de filmes como "Golpe Mortal" e (principalmente) "McQuade, o Lobo Solitário".


Norris, por sua vez, tinha motivos particulares para abraçar o projeto: há anos ele procurava uma aventura com olhar positivo sobre a guerra para honrar a memória do irmão Wieland Clyde Norris. Filho do meio da família Norris, nascido entre Chuck (o mais velho) e Aaron (o caçula que se tornaria dublê do irmão astro), Wieland foi morto em combate no Vietnã em 3 de junho de 1970.

Com o projeto debaixo do braço, Hool e Norris acabaram na icônica Cannon Group, dos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus, que já tinha produzido "Dez Minutos para Morrer" com Hool. À época a Cannon ainda estava tentando definir um caminho entre comédias adolescentes, filmes de ninja, absurdos musicais sobre break e aventuras baratas estreladas por Charles Bronson.


Quando surgiu tal projeto de aventura no Vietnã, Golan e Globus foram seduzidos primeiro pelo tema do filme, já que os tais MIAs estavam na boca do povão desde os discursos do presidente Reagan - "Missing in Action" acabou até virando o título original do filme.

E segundo, óbvio, pelo oportunismo. Acontece que, já há alguns meses, circulava por Hollywood uma primeira versão do roteiro de "Rambo 2 - A Missão" escrita por um ainda desconhecido James Cameron (sim, "o" James Cameron), que mandava Rambo de volta ao Vietnã para resgatar prisioneiros de guerra. Por isso, no momento em que Hool e Norris apareceram com um projeto parecido, os cabeças da Cannon deram sinal verde para que se filmasse o negócio imediatamente, para poder lançar antes que o blockbuster "Rambo 2". (Tempos atrás, o leitor e doido Alaor Silveira enviou um link para esse tratamento original do Cameron, escrito em 1983, que você pode ler clicando aqui.)


Aí começaram as complicações: Hool e a Cannon queriam uma história sobre um solitário herói americano voltando ao Vietnã para resgatar prisioneiros de guerra, o que ia de encontro aos discursos patrióticos do Governo Reagan; já os roteiristas contratados queriam contar mais sobre a própria experiência do herói como prisioneiro, justificando seu desejo irrefreável de voltar ao Vietnã para resgatar os companheiros que continuavam por lá.

Os dois argumentos eram bons. Por isso, numa aposta arriscada - mas que ao mesmo tempo demonstra o tino comercial daqueles produtores danados -, Golan e Globus resolveram pagar dois filmes pelo preço de um, que seriam filmados ao mesmo tempo com equipes diferentes, e lançados com intervalo de um ano (a mesma estratégia de Robert Zemeckis e cia. com as duas sequências de "De Volta para o Futuro", mas alguns anos antes!).

Originalmente, o primeiro filme seria o dirigido pelo próprio pai da criança, Lance Hool, contando a traumática experiência do Coronel James Braddock (Norris, quem mais?) durante seus tempos de prisioneiro de guerra. O roteiro foi escrito por Steve Bing, Larry Levinson e Arthur Silver, apresentando oficialmente o personagem cujo sobrenome é uma dúbia homenagem ao Benjamin Braddock interpretado por Dustin Hoffman no clássico "A Primeira Noite de um Homem" (1967).

(A propósito, acho que este é um bom momento para informar que, desde sempre, os brasileiros pronunciaram errado o nome do herói: não é "Bradóque", como nos acostumou a dublagem dos tempos do Cinema em Casa, mas sim "Brédok" - que, concordo, parece não ter a mesma intensidade da "versão brasileira".)

Para comandar o segundo filme, que finalmente se passaria no "presente" e mostraria o traumatizado Braddock (ou Brédok) voltando ao Vietnã para salvar os companheiros, foi escalado Joseph Zito, que naqueles tempos ainda era mais conhecido como diretor de filmes de horror, tendo assinado os slashers "Bloodrage" (1980), "Quem Matou Rosemary?" (1981) e a melhor sequência de "Sexta-feira 13", a Parte 4, filmada em 1983 e lançada em 1984.


Num episódio que já se tornou lendário, Golan e Globus resolveram mudar imediatamente de estratégia após assistir ao material bruto das duas filmagens. Isso porque, segundo eles, a Parte 2 que estava sendo dirigida por Zito era infinitamente melhor do que a Parte 1 rodada por Hool. Além disso, "Rambo 2" estava em pré-produção e a Cannon começava a ficar sem tempo para chegar aos cinemas antes do filme que estavam copiando. Tomou-se, então, a decisão de lançar a Parte 2 de Zito como Parte 1, que no Brasil passou a ser conhecida pelo título BRADDOCK - O SUPER COMANDO (ao estrear por essas bandas, em 1986, "Comando para Matar", com Schwarzenegger, já era um sucesso, portanto o subtítulo jacu).

Já a outrora Parte 1 dirigida por Hool foi deixada para depois e virou "Missing in Action 2: The Beginning", ou "Braddock 2 - O Início da Missão" no Brasil. O interessante é que, nos anos 1980, prequels contando histórias anteriores ao original ainda não eram tão comuns quanto hoje (apesar de já existir "O Poderoso Chefão Parte 2"). A Cannon estava a frente do seu tempo. Ou não tinha vergonha na cara. Ou ambos.


Curiosamente, críticas de BRADDOCK - O SUPER COMANDO escritas na época do lançamento reclamam muito da falta de desenvolvimento/motivação do personagem principal. Óbvio: toda a construção de um background para Braddock acabou ficando no "segundo filme que deveria ter sido o primeiro", inclusive o fato de o herói ter uma esposa que casou novamente durante o tempo em que ele era mantido prisioneiro no Vietnã.

Essa história da ordem alterada das Partes 1 e 2 foi durante décadas uma grande lenda urbana de cinéfilo, que todos contavam sem saber se era verdade. Hoje já se sabe que foi isso mesmo e há várias confirmações oficiais. Mas bastava ter prestado atenção nos créditos iniciais de BRADDOCK - O SUPER COMANDO para confirmar isso desde 1984: uma das cartelas diz "Based on characters created by Arthur Silver and Larry Levinson and Steve Bing", que são justamente os roteiristas do "segundo filme que deveria ter sido o primeiro"!


BRADDOCK - O SUPER COMANDO começa com um idílico travelling por uma pacífica selva, que até nos faz pensar por um momento que estamos vendo o filme errado. Mas então... BUM! BANG! POW! Como dizem os gringos, "all hell breaks loose": é tiro, porrada e bomba para todo lado enquanto um pequeno pelotão de soldados americanos corre na direção dos helicópteros debaixo de uma chuva de chumbo e morteiros inimigos. Estamos no Vietnã da década de 1970 e a coisa está feia, meus amigos...


Todos fogem com o rabinho entre as pernas à exceção de James Braddock, que desde os primeiros segundos do filme já é mostrado como o grande herói americano fodaralhaço ao andar levando um colega ferido num braço e uma metralhadora gigantesca no outro. O protagonista é praticamente o único a revidar ao fogo inimigo, matando vários rivais no processo.

Trata-se de um prólogo muito bem filmado e que vai direto ao assunto, jogando o espectador de cabeça no horror da guerra antes mesmo de introduzir personagens ou situar a timeline da história. Em mais de um momento da balbúrdia, Zito acompanha a ação com a câmera na mão, quase como numa versão dos pobres daquela cena inicial de "O Resgate do Soldado Ryan". Mas realmente funciona.


Pena que para cada momento extremamente eficiente em execução e dramaticidade (tipo os soldados tentando cruzar um rio e tornando-se alvos fáceis para balas e explosões), Zito também jogue uma bobagem descomunal em sequência.

A minha preferida é quando um outro soldado que não é o Braddock miraculosamente consegue atingir um inimigo. Braddock lança um sinal afirmativo de polegar estilo "Mandou bem", o sujeito orgulhosão responde de volta com outro polegar tipo "Valeu aí", e abre a guarda para ser estupidamente alvejado por outro inimigo pelas costas (o tiro ainda lhe arranca os dedos da mão, para aprender a não ser besta!).


O prólogo termina com parte da tropa fugindo de helicóptero e Braddock ficando para trás numa tentativa kamikaze de salvar aliados que foram abandonados pelo resgate (um deles é Erich Anderson, que anteriormente enfrentou Jason sob o comando de Joseph Zito em "Sexta-feira 13 - Parte 4"). Sem munição e enfurecido ao ver os inimigos torturando seus colegas com as lâminas de suas baionetas, Braddock resolve se sacrificar saltando sobre eles em câmera lenta, uma granada em cada mão, um grito de ódio ecoando até o inevitável...

BUM!


E então o Coronel James Braddock acorda na atualidade de 1984. Não, ele não morreu com uma granada em cada mão, e nunca fica claro se aquela é uma lembrança real do Vietnã com um final um tantinho exagerado ou um simples pesadelo inspirado nas memórias de guerra do protagonista. Por esta breve porém eficiente introdução, sabemos apenas que Braddock é um sujeito que ainda não superou seus traumas de guerra, que só serão devidamente esmiuçados na prequel.

Pela TV, nosso herói acompanha o noticiário sobre a histórica visita de uma comitiva norte-americana ao Vietnã para discutir os boatos sobre prisioneiros de guerra ainda serem mantidos no país uma década depois do fim do conflito.

Braddock é a prova viva do negócio: foi capturado em combate e passou dez anos num campo de prisioneiros até conseguir escapar, bem depois que a guerra já tinha acabado (conforme veremos na prequel). Ele foi convidado a acompanhar, como "observador", a comitiva do senador (David Tress) que está indo à Ásia fazer relações públicas, numa das decisões mais inconsequentes da história da diplomacia mundial - já que o herói obviamente tem contas a acertar por aqueles lados.


A comitiva chega a Saigon e a situação mostra-se tensa desde o início: Braddock reconhece entre os militares de escolta o arquiinimigo Coronel Vinh, o sádico que o torturou enquanto ele foi prisioneiro no país; depois, durante a primeira reunião com representantes do governo, nosso herói é acusado de crimes de guerra pelo General Tran. O primeiro é interpretado pelo filipino Ernie Ortega, ator popular no cinema de ação daquele país, com mais de 100 créditos; o segundo por ninguém menos que James Hong, o Lo Pan de "Os Aventureiros do Bairro Proibido"!

(A tal acusação de crimes de guerra será explicada em "Braddock 2", já que a prequel mostra em que contexto isso aconteceu.)


Naquela noite, Braddock resolve dar uma investigada nos arredores por conta própria. Como o hotel onde a comitiva está é vigiado, ele simula um sexozinho sem compromisso com Ann, a assessora do senador (Lenore Kasdorf, habitué em séries de TV dos anos 1970-80), para poder sair escondido pela janela do hotel, invadir a fortaleza do General Tran e descobrir a localização dos campos de prisioneiros de guerra.

Ok, ele também mata o sujeito na saída e provoca o caos, mas é o mínimo que se espera de alguém com a sutileza de Chuck Norris. Felizmente ele consegue voltar para o hotel a tempo de tirar a roupa e continuar fingindo seu rala-e-rola com Ann para justificar o álibi.


Demora um tantinho mais do que seria necessário para que BRADDOCK - O SUPER COMANDO abandone o climão de thriller político e se transforme no filme de ação abobado que se espera de uma produção da Cannon. É só lá pela metade que nosso herói finalmente se desvencilha da comitiva de xaropes e parte para Bangkok, na Tailândia, em busca de Jack Tucker, ou "Tuck" para os íntimos. Velho amigo dos tempos da guerra, ele é interpretado por M. Emmet Walsh (O que significa esse M.? Por que diabos alguém usaria M. no nome? Bom, deixa pra lá...).

Tuck é um gordo putanheiro que vive nos prostíbulos locais e a última pessoa em quem eu confiaria como ajudante para declarar guerra a um país inteiro. Isso aí que era para ser o tal "Super Comando" do subtítulo brasileiro? Mas talvez Braddock estivesse sem opções melhores para recrutar...


A dupla providencia com relativa facilidade todo o equipamento para poder concretizar sua absurda missão de resgate, incluindo um barco à prova de balas. Conseguirão Braddock e Tuck vencer a guerra desta vez e provar que sim, ainda existem MIAs mofando no Vietnã sabe-se lá porque cargas d'água, se seria muito mais fácil e prático devolvê-los ao seu país ou, caramba, matá-los de uma vez para sumir com as evidências?

Escrito por James Bruner (que se tornaria um dos roteiristas preferidos da Cannon a partir daqui), a partir do argumento original de Lance Hool e John Crowther, BRADDOCK - O SUPER COMANDO é um daqueles filmes que sobrevive no imaginário popular graças a meia dúzia de cenas, graças às infinitas reprises na TV (valeu aí, Silvio Santos), e graças, claro, à figura icônica de Chuck Norris e sua indestrutível barba - com direito a faixinha na cabeça estilo Rambo no ato final.


Engraçado que, na minha memória afetiva, as cenas de ação de BRADDOCK - O SUPER COMANDO eram muito mais numerosas e melhores. Revendo o filme agora, parece que demora uma eternidade para a porradaria começar de fato. Chuck sequer exibe suas habilidades em artes marciais que já o colocaram num duelo mortal com Bruce Lee, preferindo metralhar e explodir os inimigos. Tudo considerado, ainda prefiro "Braddock 2" enquanto filme de gênero.

Não ajuda muito o fato de Braddock despachar seus principais inimigos muito cedo (o General Tran logo no começo, e seu carrasco Vinh lá pela metade!), deixando a história sem um "grande vilão" a ser combatido no final. E por mais que isso possa ser encarado como um bem-vindo contra-clichê, também é frustrante ver o herói se pegando com soldados anônimos e inexpressivos no ato final, e os vencendo facilmente, sem ter um "último chefe" à altura.


Antes que a missão de resgate efetivamente comece, Braddock e Tuck passam um tempão na Tailândia organizando as coisas e se encontrando em puteiros (para garantir a dose de nudez gratuita que o público desse tipo de filme espera). Toda essa parte, digamos, operacional poderia ter sido reduzida para uns cinco minutinhos, mas Zito e Bruner são didáticos e mostram até uma negociação de preço das armas e equipamentos - facilitada pelo fato do herói apontar uma arma de grosso calibre para o vendedor.

Talvez percebendo que a coisa toda estava muito chata, resolveram encaixar umas cenas de ação aleatórias ANTES do Super Comando finalmente chegar ao tal campo de prisioneiros. Assim, para que o público não dormisse no cinema, volta-e-meia algum capanga misterioso enviado por Vinh aparece do nada para tentar matar o herói. Tem até um sujeito que sai, literalmente, do armário, e uma longa perseguição automobilística com as capotagens de praxe.


Geralmente um diretor eficiente (vide seus slashers), Zito parece estar conduzindo a coisa no piloto automático, como um operário batendo cartão sem interesse. Talvez tenha sentido o baque de trabalhar pela primeira vez longe de casa, pois o Vietnã e a Tailândia foram recriados nas Filipinas, e a equipe técnica era toda de lá.

Há uma cena horrível em execução e montagem, perto do final, quando o personagem de M. Emmet Walsh começa a disparar num barco-patrulha que vem se aproximando leeeeeeeentamente no horizonte. O que temos, durante muito mais tempo do que é humanamente possível suportar, são planos de Walsh atirando entrecortados com planos do barco inimigo lá no fundão, num momento constrangedor que demora uma eternidade. Lembra até aquela cena de "Monty Python e o Cálice Sagrado" em que Sir Launcelot corre em direção ao castelo e parece estar mais longe a cada plano - só que lá pelo menos era uma piada, e engraçada!


Zito se sairia bem melhor como diretor de ação no seu projeto seguinte com a Cannon, "Invasão USA", também com Chuck Norris, e principalmente em "Red Scorpion", com Dolph Lundgren, que é disparado seu melhor trabalho no gênero. Ele está afastado das câmeras desde "Jogos de Poder", de 2003, e dificilmente deve dirigir algo mais tão cedo.

Mas verdade seja dita: em maio à sua narrativa soporífera, BRADDOCK - O SUPER COMANDO tem algumas imagens icônicas, que ficaram gravadas para sempre na retina dos fãs de ação dos anos 1980.

O final, por exemplo, remete àquele prólogo durante a guerra, com Chuck e Walsh tentando levar os prisioneiros resgatados até um helicóptero atravessando um rio, enquanto balas e bombas voam para todos os lados. Não sei se foi proposital começar e terminar com o mesmo clima, mas ficou bom.


É aí que acontece uma das cenas mais lembradas: o herói emergindo da água em câmera lenta para atirar nos inimigos que acabaram de explodir seu barco e o julgavam morto. É um momento de catarse, já que os soldados estão gargalhando ao imaginar que Braddock já era, e então este sai da água como uma Fênix ressuscitada a disparar rajadas mortais de metralhadora.

Para os brasileiros, o momento é ainda mais icônico porque foi usado na vinheta de divulgação da América Vídeo nos tempos das locadoras - aquela cujos filmes "explodem como dinamite".


E tem também a ultimíssima cena, um desfecho de mestre de deixar o espectador com um sorriso de orelha a orelha: Braddock invade a coletiva de imprensa em que o governo do Vietnã nega a existência de prisioneiros de guerra acompanhado de... bem, um punhado de prisioneiros de guerra recém-resgatados!

O próprio Chuck tem muito orgulho deste final. Numa entrevista ao The New York Times em setembro de 1985, ele declarou: "Uma das maiores emoções da minha vida foi quando eu estava numa sala de cinema lotada vendo BRADDOCK - O SUPER COMANDO e todo mundo levantou gritando e aplaudiu no final, no momento em que meu personagem entra na conferência com os prisioneiros de guerra".

(Vá lá que Braddock matou umas cinco dezenas de soldados vietnamitas para resgatar quatro gatos-pingados. A matemática não bate, mas duvido que alguém esteja contando...)


No fim das contas, BRADDOCK - O SUPER COMANDO cumpriu sua função de ficar pronto e chegar aos cinemas antes de "Rambo 2": enquanto a aventura estrelada por Norris entrou em cartaz em 16 de novembro, o blockbuster com Sylvester Stallone fazendo a mesmíssima coisa (resgatar prisioneiros de guerra no Vietnã), mas com cenas de ação bem maiores e melhor dirigidas, estreou apenas em 22 de maio de 1985.

Questionado sobre as semelhanças e diferenças entre sua missão de resgate e a de Rambo, ainda naquela entrevista ao The New York Times em 1985, Chuck (que era fã declarado e cabo eleitoral de Ronald Reagan) aproveitou para detonar a concorrência: "Eu não sou anti-governo que nem o Rambo. Aquela cena em que o helicóptero abandona o herói e os prisioneiros resgatados, achei impossível de acreditar. Não há um único piloto americano vivo que abandonaria os companheiros lá".


Como Braddock resgatou a galera do Vietnã cinco meses antes do Rambo, o resultado foi um dos maiores sucessos de bilheteria da Cannon (e de Chuck Norris) de todos os tempos: 6 milhões de dólares em entradas só na primeira semana, para um filme que custou entre 1,5 e 3 milhões (dependendo da fonte). Até sair de cartaz, BRADDOCK - O SUPER COMANDO já tinha faturado mais de 22 milhões.

Foi uma surpresa tão grande que Golan e Globus imediatamente contrataram Norris como seu artista exclusivo, com cachê fixo de um milhão por filme, e investiram ainda mais pesado no marketing da Parte 2 (eles eventualmente fariam ainda uma Parte 3 mais adiante).


Mas o sucesso popular não se repetiu entre os críticos, que caíram matando e reclamando do teor altamente xenófobo e preconceituoso do filme - aspectos que o tornam ainda mais engraçado hoje. Isso porque Braddock é aquele típico tiozão grosso que acha que está abafando, sempre a olhar para todo mundo com cara de buldogue raivoso. O tipo boçal que vai a uma recepção chique, em que todos bebem vinho em taças de cristal, e pede uma cervejinha pra tomar direto no gargalo.

Quando o General Tran lhe estende a mão para um cumprimento oficial, é claro que o herói se recusa a fazê-lo. E quando o mesmo Tran declara à imprensa que Braddock era um criminoso de guerra com uma recompensa oferecida pela sua captura, o super-soldado retruca: "A recompensa era por matar idiotas como você!".


Encerremos com algumas curiosidades. Numa das três ou quatro cenas que se passam num puteiro - essa aí embaixo, com os personagens brilhantemente enquadrados entre um par de anônimas bundas rebolantes! -, Braddock e Tuck conversam enquanto uma voz feminina canta ao vivo.

Segundo os créditos finais, a voz pertence a Juliet Lee e este é o primeiro de seus três filmes; depois ela apareceu em outras duas aventuras sobre o Vietnã rodadas nas Filipinas e dirigidas por... Bruno Mattei! Mas o que importa é que a música que ela canta é "Da Ya Think I'm Sexy?", do inglês Rod Stewart. E quem é brasileiro vai sacar imediatamente que tem algo muito familiar no ritmo. Caso você ainda não saiba, Stewart plagiou o nosso Jorge Ben Jor e seu famoso "teteretê" (da música "Taj Mahal")!


Ainda no departamento musical, enquanto Chuck Norris caminha pelas ruas da falsa Bangkok filmada nas Filipinas, toca uma base eletrônica safada que, de tão ruim, eu lembrava de já ter escutado em outro lugar. Lá vou eu para os créditos finais e pimba: são, na verdade, duas músicas, "Tibetan Jam" e "Reckless", compostas por Chris "The Glove" Taylor e... Ice-T!!!

O mais curioso é que elas não foram feitas para BRADDOCK - O SUPER COMANDO, mas sim para a trilha sonora de outro sucesso da Cannon, o impagável "Breakin", de Joel Silberg, lançado alguns meses antes. E eu duvido que Golan e Globus tenham pagado dobrado pelo uso dobrado das músicas...


Outra curiosidade é que lá pelo começo do filme, quando Braddock está assistindo TV, ele passa um longo tempo acompanhando o episódio de um velho desenho animado do Homem-Aranha do começo dos anos 1980. Parece apenas uma brincadeira com o fato de, mais tarde, o herói dar uma de Homem-Aranha ao escalar o hotel onde está hospedado no Vietnã. Mas não, a referência é ainda mais interessante.

Acontece que em 1984, enquanto a aventura de Chuck Norris era rodada, a Cannon tinha adquirido os direitos para fazer uma versão live-action do Homem-Aranha (veja anúncio ao lado) a preço de banana. Isso foi muito antes de haver Marvel Studios e filmes de super-heróis custando bilhões de dólares.

Como Joseph Zito era um grande fã do personagem desde criança, a Cannon lhe entregou o comando da adaptação (depois que um certo Tobe Hooper pulou fora). Você pode ler a história completa, e inclusive ver um velho trailer anunciando Zito como diretor do "Homem-Aranha" da Cannon, nesta nossa velha postagem aqui.

Imaginando que a adaptação do Homem-Aranha seria seu próximo projeto (ah, se ele soubesse...), Zito colocou esse trecho do desenho animado do herói em BRADDOCK - O SUPER COMANDO como uma piscadinha para o público, uma espécie de anúncio disfarçado de que em breve faria uma aventura com o Cabeça-de-Teia, que acabou nunca saindo do papel!

Por último mas não menos importante, quem acompanhar os créditos finais com atenção e paciência vai encontrar um nome bem interessante. Olha aí o último dos creditados na equipe de dublês:


Quem diria que um certo baixinho belga tinha participado de um filme com Chuck Norris quase 30 anos ANTES de "Mercenários 2", hein?

Naquela época, Jean Claude Van Damme estava nos Estados Unidos para investir na carreira de ator. Como muitos antes e depois dele, acabou na Cannon. Seu primeiro trabalho, em dezembro de 1983, foi como figurante no já citado "Breakin'' - dá até para ver o baixinho rebolando numa cena de dança! E o segundo trabalho foi como dublê em BRADDOCK - O SUPER COMANDO.

Aparentemente ele não chega a aparecer no filme, mas JCVD foi um dos dublês encarregados de pilotar os carros nas cenas perigosas. Então convém reassistir as perseguições automobilísticas com mais atenção da próxima vez - vai que o jovem Van Damme aparece de relance em algum momento? Na mesma Cannon em que começou tão por baixo, o belga alcançou o estrelato alguns anos depois. Mas aí é outra história...

O jovem dublê Van Damme com Norris nos bastidores

Falando em dublês, BRADDOCK - O SUPER COMANDO quase tornou-se não apenas um dos maiores sucessos da careira de Chuck Norris, mas também o último filme do homem! Em sua autobiografia "Agains All Odds - My Story" (escrita em parceria com Ken Abraham), o astro lembra como quase consumou-se uma tragédia nas filmagens da cena em que Braddock e os prisioneiros resgatados subiam às pressas num helicóptero, que sobreava um riacho sob intenso fogo inimigo:

"O plano era que ficássemos dentro da água até a cintura enquanto o helicóptero nos jogava uma escada-de-cordas. Eu deveria segurar a escada enquanto os prisioneiros subissem, e no final o helicóptero decolava com o herói ainda pendurado na ponta da escada para fugir dos disparos inimigos. Era uma cena difícil e perigosa até para um dublê profissional, porque ventava muito forte e meu irmão Aaron, que era o supervisor dos dublês, temia que o vento pudesse jogar o dublê nas hélices da aeronave. Para evitar qualquer acidente, decidimos que eu mesmo ficaria pendurado na escada enquanto o helicóptero decolava um metro, um metro e meio, até me puxar para fora do rio, e logo depois pousaria para que eu pudesse descer."


Pois por algum problema de comunicação o piloto do helicóptero não entendeu muito bem a parte do "um metro, um metro e meio", e simplesmente decolou para longe levando o verdadeiro Chuck Norris pendurado para fora da aeronave! Conforme narra o astro: "Ao invés de me descer de volta para a água, o piloto decolou e foi embora! Quando eu percebi estava a 900 metros de altura, sendo jogado de um lado para outro pelo vento, e me agarrando à escada porque minha vida dependia disso! Senti como se meus braços estivessem para ser arrancados dos ombros, e quando olhei para baixo vi toda a equipe me encarando, suas bocas abertas de surpresa. O assistente de diretor finalmente conseguiu falar com o piloto, que não fazia nem ideia de que eu continuava pendurado no helicóptero, e quando ele finalmente pousou todos tiveram o maior trabalhão para soltar meus dedos daquela escada".

Revendo BRADDOCK - O SUPER COMANDO hoje, 35 anos depois, eu entendo perfeitamente o motivo do sucesso na época do lançamento. É um caso em que o oportunismo foi bem-sucedido, uma das primeiras aventuras a aproveitar a retomada de um sentimento patriótico pelo antes traumático Vietnã.

Como eu disse um século atrás, lá mais para cima, esta não foi a primeira aventura revisionista sobre resgate de prisioneiros de guerra por aquelas bandas. Lançado um ano antes, em 1983, "De Volta para o Inferno" (ao lado), do mesmo Ted Kotcheff que fez o primeiro "Rambo", já contava a mesmíssima história.

A diferença, talvez, é que o filme de Kotcheff tinha um pézinho fincado no realismo: o coronel interpretado por Gene Hackman reunia e treinava um grupo inteiro de mercenários (um jovem Patrick Swayze estava entre eles) para a missão de resgate. Mas o que a galera queria ver era o ideal do "grande herói americano" capaz de vencer guerras sozinho contra ameaças estrangeiras inteiras - um ideal inflamado pelos discursos do presidente Reagan. Por isso, BRADDOCK - O SUPER COMANDO costuma ser mais lembrado que a aventura anterior do Kotcheff.

E o cacete que os EUA tomaram no Vietnã continuou a ser revisitado em outras aventuras absurdas e escancaradamente patrióticas pós-BRADDOCK - O SUPER COMANDO e pós-"Rambo 2", principalmente produções baratas feitas na Itália e nas Filipinas. Neste país, vale destacar, o mestre Cirio H. Santiago entrou para a história como o sujeito que mais dirigiu filmes sobre a Guerra do Vietnã (chupa, Oliver Stone!), e sempre com as tropas americanas vencendo no final.

Desafiando o dito popular de que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, até mesmo a Cannon tentou repetir o sucesso com outro filme praticamente igual: "Pelotão de Guerra", de 1986, dirigido por Gideon Amir e com roteiro do mesmo James Bruner. David Carradine assumiu o papel de herói, e tentaram colocar até um título original parecido (enquanto um era "Missing in Action", este outro se chamou "P.O.W.", a sigla em inglês que designa prisioneiros de guerra). Mas obviamente ninguém comprou gato por lebre e o sucesso não se repetiu.


Eu não poderia encerrar este artigo sem mencionar o dedinho brasileiro (ou, neste caso, olhinho brasileiro) em BRADDOCK - O SUPER COMANDO. Pois eis que o diretor de fotografia é João Fernandes, um dos brasileiros mais bem-sucedidos no lado B do cinema norte-americano, e o menos reconhecido por isso.

Este senhor nascido no Brasil em 1939 estudou cinema em Nova York e estreou como diretor de fotografia na era de ouro do cinema pornô. Acredite: nosso conterrâneo foi o responsável por operar a câmera em alguns dos grandes clássicos X-Rated de todos os tempos, como "Garganta Profunda" (1972) e "O Diabo na Carne de Miss Jones" (1973), ambos dirigidos por Gerard Damiano, e em ambos usando o pseudônimo americanizado "Harry Flecks".


Profissional dos bons, Fernandes logo saiu do gueto para trabalhar com Joseph Zito em todos os seus filmes (inclusive é ele operando a câmera na quarta aventura do nosso amigo Jason). Graças a BRADDOCK - O SUPER COMANDO, o técnico brasileiro fez amizade com o galã Chuck Norris e voltou a trabalhar como diretor de fotografia em vários dos seus filmes, além de oito episódios da série "Walker Texas Ranger" (onde também foi convidado a dirigir um, seu único crédito na função).

Aposentado e afastado das câmeras desde 2006, hoje João Fernandes tem 80 anos e vive no Oregon, talvez esperando que algum jornalista brasileiro apareça para poder contar a caralhada de histórias maravilhosas sobre sua carreira que deve guardar na memória.


Enquanto me despeço dos leitores, compartilho uma dúvida que sempre tenho quando revejo essas patriotadas dos anos 1980: com caras como Braddock, Rambo, Mike Danton (do impagável "Deadly Prey") e Frank Castle (o Justiceiro da Marvel, que também era veterano do Vietnã), todos máquinas de matar incansáveis e indestrutíveis, lutando em suas fileiras, como diabos os Estados Unidos conseguiram perder a guerra da primeira vez?

PS: Para quem quiser saber mais sobre a lenda urbana dos "Missing in Action" e porque eles provavelmente nunca existiram, recomendo a leitura do artigo "The Myth of the Lost POWs - Real-life Rambos have no one to rescue", de James Rosenthal, publicado na The New Republic em 1985. O texto, em inglês, pode ser acessado clicando aqui.


Trailer nacional de BRADDOCK - O SUPER COMANDO

8 comentários:

spektro 72 disse...

A primeira vez em "Braddock -O Super Comando " foi exibido na TV Brasileira foi no Cinema em Casa quando esse era exibido todas as Sexta-Feira no dia 10/03/1989 e depois foi exibido á exaustão por essa emissora em suas sessões de filmes como Sessão das Dez e Cinema em Casa quando esse passou á ser exibido diariamente no periodo da tarde .
Os Estados Unidos nunca deveriam ter ido ao Vietnã ,pois á culpa do Vietnã ter declarado á sua independência era problema da França ,pois essa pais era conhecido por Indochina e era colonia francesa mas como os franceses perderam esse lugar em uma guerra rápida os Estados Unidos irmão da França .. pois á França ajudou os Estados Unidos na sua independência contra os Britânico e os americanos foram lá e achara que iriam derrotar o inimigo rápido com foi na guerra das Coreias (1950-1953).. mas se enganaram e ficam muito tempo essa guerra custou milhões de dolares em armas,combustível e veículos militares ,uma geração de jovens mortos e os que voltaram foram tratados como lixo pela á sociedade pois essa os viam como uns fracassados em não honrar o brilhantíssimo americano militar,pois ate então os Estados Unidos nunca haviam perdido uma guerra ,muito trafico de drogas isso envolvendo á C.I.A ( não sou que estou dizendo ou escrevendo isso foi denunciado no filme Air America (1990) ) e tambem á maioria dos jovens estudantes que foi para lá era para fumar um baseado,encher á cara de bebida alcoólicas ou transar com umas garotas vietnamitas, muitos filmes denunciaram isso como: ( Platoon,Nascido em 4 de Julho ambos de Oliver Stone,Nascido para Matar de Kubrick ),eles tomariam pau de qualquer quer jeito ,os Soldados Vietcongs era melhores preparados com táticas de guerrilhas e patriotismo que ajudaram á esse povo á ganhar á guerra contra os invasores no caso os americanos .
Muito bom o seu texto você continuam nos agradando com o seu humor e conteúdo ,parabéns!
Um Abraço de Spektro 72.

Anônimo disse...

Salve, Felipe!

"TUDO O QUE VOCÊ QUERIA SABER SOBRE BRADDOCK, MAS NÃO TINHA PRA QUEM PERGUNTAR", por Dr. Felipe M. Guerra. :^D
Arrebentou, meu camarada! SEN-SA-CI-O-NAL!!! Um SENHOR TEXTO, seja históricamente, como conhecedor de Cinema, como crítico e como fã, tudo se ligando perfeitamente. Nem precisava daquele meia-culpa ("Mas cáspita, Guerra, quando é que você vai falar de BRADDOCK - O SUPER COMANDO? Eu vim aqui pra isso, não pra aula de história!"), quem acompanha esse blogaço sabe e, por isso mesmo, gosta desses textões, que apesar de serem escritos de e para doidos, nunca são incoerentes. Falando nisso, me senti MUITO HONRADO por me citar como "leitor e doido", VALEU MESMO!
Aproveitando que aprendemos que as "versões brasileiras" nos "enganaram" fazendo crer que o "Brédok" é "Bradóque", cito outra ilusão que as dublagens nos fizeram crer: o(s) vozeirão(ões) de Chuck Norris. Pois quem já assistiu o astro no original sabe que ele não soa exatamente como um trovão, mas também com aquela cara de "buldogue no instante de silêncio antes do ataque" nem precisava. Só que os estúdios de dublagem de brazucas capricharam para completar a imagem do Cabra-macho Mor do cinema, nesse primeiro Braddock (dublado no estúdio carioca Herbert Richard) o astro teve a voz do saudoso Darcy Pedrosa, que também o dublou em Olho por Olho, McQuade, Código do Silêncio e outros, e no Braddock 2 (numa dublagem do estúdio paulista Álamo) o vozeirão era do João Paulo Ramalho, que foi a voz de Norris também no Braddock 3, Comando Delta e sua sequência, Aventureiros do Fogo, etc.
É isso aí, Felipe, vou me despedindo na espera(nça) de um textão seu comparando e analisando o roteiro do James Cameron para Rambo 2 com o filme que foi realizado (espero que se você ler essa mensagem não esteja pensando: "Vai esperando deitado se não você cansa"). :-(
VALEU!

PS.: Já assistiu os ótimos documentários SAD HILL UNEARTHEAD - onde fãs de Três Homens em Conflito encontraram o local onde foi montado o cemitério do antológico trielo do filme e seus esforços para reconstrui-lo, com depoimentos do Eastwood, do James Hetfield(vocalista do Mettalica), figurantes e membros da equipe dessa Obra-prima - e CHUCK NORRIS VS COMMUNISM, ambos disponíveis na Netflix? Se já assistiu ou for assistir depois comenta numa próxima "Ainda mais resenhas (nem tão) curtinhas para analfabetos funcionais". :-)

Alaor Silveira - "leitor e doido"

spielberg disse...

Da série Braddock, o meu preferido é o: “Braddock 2 - O Início da Missão”. E o segundo filme da série também merece um “testão” só pra ele.

Anônimo disse...

Se não me engano o Felipe já escreveu sobre o segundo filme em algum site antigo.

Leonardo Peixoto disse...

Espero que os outros filmes do Braddock ganhem resenhas . Sinto muito não comentar no dia que foi postado e estou feliz pelo blog ainda tá ativo .

Gélikom disse...

"O que significa esse M.? Por que diabos alguém usaria M. no nome? Bom, deixa pra lá...)."M de Michael. O filme com Dolph Ludgreen é "Red Scorpion", não "Black Scorpion"

Felipe M. Guerra disse...

GÉLIKOM, bem lembrado sobre o nome do filme do Lundgren. "Black Scorpion" é uma série de TV trash de super-heróis (neste caso, super-heroína) produzida pelo Roger Corman nos anos 1990, e entre os dois escorpiões fiz a confusão. Vou corrigir no texto.

Quanto ao M. do Walsh, era apenas uma piadinha infame, não era preciso efetivamente responder a pergunta. ;-)

Cássio disse...

Resenha simplesmente impecável. Brilhante e pertinente o comentário sobre a propaganda e ufanismo do governo americano na Guerra do Vietnã e como o conflito foi retratado por Hollywood de maneiras distintas, passando do cinicismo ao ultrapatriotismo.

Sobre a série Black Scorpion, ela estreou em 2001 no canal SciFi, baseada em dois filmes dos anos 90: Uma com o título homônimo, de 1995, e Black Scorpion II: Aftershock de 1997. E bote trash nessa série, era tosca demais até para o padrão das obras analisadas no site.

Agora por favor não nos deixe tanto tempo (7 longos meses) sem uma análise haha. Já tinha achado que havia dado um tempo novamente no blog, mas a espera valeu a pena, que matéria phoda. Abraços e vida longa ao Filme para Doidos.