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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

FAR CRY (2008)


O diretor alemão Uwe Boll entrou para a história do cinema ruim pelas suas péssimas adaptações de jogos de videogame para a telona, como "House of the Dead" e "Alone in the Dark". E não aprendeu a lição, já que continuou fazendo filmes baseados em games ("Bloodrayne", "Dungeon Siege/Em Nome do Rei", "Postal") cujos roteiros têm pouco ou nada a ver com os jogos em questão. Isso rendeu até uma "piada interna" em "Postal", que mostra Uwe Boll, como ele mesmo, declarando que odeia videogames, pouco depois de ser atacado pelo próprio criador do jogo "Postal", furioso com o cineasta pelo que foi feito com sua obra!

Mas justiça seja feita: tenho 30 anos na cara e não consigo lembrar de uma adaptação cinematográfica de jogo de videogame que possa ser considerada interessante ou pelo menos fiel ao material em que se inspira, de "Resident Evil" a "Super Mario", de "Max Payne" a... argh!, "Street Fighter - A Última Ameaça". Talvez só o "Terror em Silent Hill", de Christopher Gans, tenha ficado acima da média, mas tem pouquíssimo a ver com o jogo, e seus pontos positivos são mais méritos do cineasta do que do game.


Voltemos a Boll: embora ele tenha se saído bem melhor com suas obras não-baseadas em games, como "Tunnel Rats" e "Heart of America", continua desovando filmes ligeiramente inspirados em jogos todo ano, até porque considera economicamente viável para um produtor independente explorar títulos conhecidos, como estes dos games, conforme ele explicou no ótimo documentário "Visiting Uwe".

E isso nos leva a FAR CRY, que por enquanto é a mais recente obra baseada em videogames dirigida por Boll. Como todos os outros "filmes de videogame" do cineasta alemão, este também toma muitas liberdades poéticas em relação à fonte, mas mesmo assim é o mais parecido com o jogo que o diretor já conseguiu fazer.

"Far Cry", o jogo, saiu em 2004 e fez relativo sucesso. É um daqueles games de tiro em primeira pessoa, cujo herói é um ex-militar chamado Jack Carver. Depois de levar uma jornalista investigativa até uma ilha tropical na Micronesia, Carver é atacado, tem seu barco explodido e precisa investigar por conta própria o que está acontecendo no lugar. À medida que o jogo avança, descobre que um cientista maluco, o dr. Krieger, criou um raça de mutantes para agirem como super-soldados.


No filme, alguns elementos se mantêm, embora bastante modificados: a ilha não é mais tropical, os super-soldados não são monstros mutantes, e sim "super-homens" com força amplificada e resistentes a tiros, e a jornalista vai à ilha não atrás de um furo de reportagem, mas para investigar o paradeiro do seu irmão, uma das cobaias utilizadas pelo cientista.

Além disso, se no jogo em primeira pessoa era você, como jogador, comandando o personagem principal, sozinhos contra todo o resto, no filme o herói já conta com a ajuda da tal jornalista, Valerie Cardinal (Emmanuelle Vaugier, de "House of the Dead 2"), e do tradicional alívio cômico, um gordo sem graça chamado Emilio (Chris Coppola, de "Shadow"), que consegue ser um parceiro pior e mais chato que Joe Pesci nos "Máquina Mortífera" ou do que o abominável Rob Schneider em "O Juiz" e "Golpe Fulminante".


Já Jack Carver é interpretado pelo ator alemão Til Schweiger, que está na ativa desde 2001 (apareceu até no segundo "Tomb Raider", outra bomba baseada em videogame), mas só conseguiu destaque este ano ao interpretar o sargento Hugo Stiglitz de maneira brilhante em "Bastardos Inglórios". E como faz diferença um bom diretor: em FAR CRY, dirigido sem muita noção por Boll, Schweiger está tão mau como herói de ação (e com um sotaque atroz) que eu jamais imaginaria ver o sujeito quase roubando a cena apenas um ano depois no filme de guerra do Tarantino.

Outro ponto positivo de FAR CRY, o filme, é o intérprete do cientista louco: ninguém menos que o alemão Udo Kier, que parece estar se divertindo muito ao adicionar mais um vilão para a sua carreira de cinema B. E já que estamos falando em "cinema B", o elenco traz ainda pequenas participações de Michael Paré e Ralf Moeller, atores-fetiche de Boll.


O grande problema é que FAR CRY é um produto deslocado de sua época, uma aventura classe B com todos (e digo todos MESMO) clichês do gênero, do herói ex-Forças Especiais transformado em alcoólatra ranzinza à mocinha que é jornalista abelhuda, passando pelo cientista louco (alemão, lógico) estilo dr. Moreau, e sem faltar nem mesmo o parceiro engraçadinho do herói para servir como alívio cômico.

"Deslocado de sua época" porque, embora seja produção de 2008, tem cara daqueles filmecos produzidos pela Cannon nos anos 80 e pela Nu Image nos anos 90, direto para o mercado das videolocadoras, e trazendo como astros aqueles galãs nem de segunda, mas de terceira linha. Se FAR CRY fosse feito 20 anos atrás, por exemplo, certamente teria Frank Zagarino ou Joe Lara no papel principal, e Martin Kove ou Richard Lynch no lugar do vilão.


No geral, este novo trabalho do alemão psicopata não foge do convencional; até já consigo visualizá-lo sendo exibido no Domingo Maior daqui uns anos. Boll segue fielmente a cartilha dos filmes de ação com pouca grana, sem inventar muito, e entrega tudo aquilo que o espectador espera ver: lutas, tiros, explosões, herói e vilão sem nenhuma profundidade, trama descomplicada e até uma pitadinha (bem inofensiva) de sexo.

E mulher bonita, claro: além de Emmanuelle, temos a gracinha polonesa Natalia Avelon interpretando uma malvada mercenária russa a serviço do vilão. As duas moças são um colírio para os olhos e compensam os muitos tempos-mortos do filme.


E embora seja rotineiro, FAR CRY pelo menos diverte, trazendo inclusive aquelas bobagens típicas do cinema do alemão maluco, como o fato de a mocinha não saber o que é uma granada (e nem para o quê serve ou como funciona).

Por outro lado, também tem algumas boas cenas que comprovam que Boll está melhorando como diretor (ou pelo menos parece longe das suas cagadas tipo "House of the Dead").

O início, em que uma equipe de soldados é atacada pelos super-soldados de Krieger, é muito bem filmado, com direito a uma cena de gore estilo "Cubo", em que a cabeça de uma vítima é praticamente atravessada numa cerca; o "miolo" do filme é meia-boca, mas o final compensa com farta quantidade de lutas, tiros e explosões, quando os super-soldados escapam de suas celas e começam um massacre na ilha, com direito a mais gore, incluindo um sujeito sendo partido ao meio por uma enorme serra circular.


Assim, posso recomendá-lo sem medo para os fãs de cinema de ação barato ou de filmes descerebrados movidos a tiros e explosões. Não é nenhuma maravilha e desaparece da memória em dois dias, mas em compensação não é uma atrocidade impossível de assistir, como outras adaptações de videogame, dirigidas por Uwe Boll ou não. Inclusive se tivesse sido dirigido na Itália nos anos 80, muita gente iria considerar um clássico nos dias de hoje.

Agora é esperar para ver "Bloodrayne 3" e "Zombie Massacre", novas adaptações cinematográficas de jogos de videogame que o famigerado cineasta alemão está prometendo para 2010 - no caso de "Zombie Massacre", ele já comentou que será uma mistura de Snake Plissken, personagem de Kurt Russell em "Fuga de Nova York", com zumbis.

Será que ele continuará "melhorando", ou vai voltar aos maus tempos de "House of the Dead" e "Alone in the Dark"? Bem, resta o consolo de que pior do que estes não tem como ficar. Ou será que tem?

Trailer de FAR CRY


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Far Cry (2008, Alemanha/Canadá)
Direção: Uwe Boll
Elenco: Til Schweiger, Emmanuelle Vaugier,
Udo Kier, Ralf Moeller, Michael Paré,
Chris Coppola e Natalia Avelon.

sábado, 12 de dezembro de 2009

VISITING UWE - THE UWE BOLL HOMESTORY (2008)


Preparem-se, amiguinhos! Este post de hoje traz uma produção que, como poucas, combina perfeitamente com o nome do blog: é um autêntico FILME PARA DOIDOS, não apenas "para", mas também "de" e "sobre" doidos. Afinal, como é possível levar a sério um documentário supostamente sério onde um sujeito conversa animadamente sobre cinema, durante uns bons 50 minutos em preto-e-branco, com aquele que é considerado um dos piores diretores de todos os tempos, o alemão Uwe Boll?

Caso você tenha vivido em Marte na última década, e nunca ouviu falar sobre o sr. Uwe Boll, saiba apenas que ele é um alemão metido a encrenqueiro e falastrão, que surgiu de lugar nenhum e, num piscar de olhos, já estava com toda a moral para torrar milhões de dólares em filmes horríveis com astros e estrelas de Hollywood - um fenômeno que ninguém soube explicar satisfatoriamente até hoje.


Depois de dirigir "House of the Dead" e "Alone in the Dark", duas abomináveis adaptações cinematográficas de videogames (que do game em questão só trazem o nome), Boll continuou prestando desserviços à sétima arte, escrevendo, produzindo e dirigindo filmes que ninguém quer ver, e fazendo atores de calibre pagarem o maior mico (entre eles, Ben Kingsley, Ray Liotta, Michael Madsen, Geraldine Chaplin e Burt Reynolds).

Claro que, após o choque inicial da ruindade de "House of the Dead" e "Alone in the Dark", todo mundo já sabe o que esperar do "cinema" de Boll, e suas obras posteriores passaram a ficar no mínimo divertidas ("Bloodrayne", por exemplo, é perfeitamente assistível, e seu recente "Tunnel Rats" é bem interessante). Mas ele parece longe de ter aprendido como se faz, e volta-e-meia solta uma nova bomba ("Seed - Assassino em Série") ou pérola do mau gosto (seu "Postal" é uma comédia que faz graça com morte de crianças e até com o 11 de Setembro!!!).


Apresentação feita, é hora de falar sobre o nosso filme em questão, VISITING UWE - THE UWE BOLL HOMESTORY, um inacreditável e excêntrico documentário em que o diretor-roteirista-apresentador de um programa alemão sobre cinema, Fabian Hübner, visita a casa-escritório do famigerado Uwe Boll, e passa o resto do tempo conversando com ele sobre a sétima arte.

E nada pode ser mais estranho, chocante até, do que ver um dos piores diretores da história comentando o trabalho de Orson Welles, Stanley Kubrick, William Wyler e John Ford - isso quando não está CRITICANDO Michealangelo Antonioni, Jean-Luc Godard e Andrei Tarkovsky!!! Parece algo tão esdrúxulo quanto ouvir a Banda Calypso comentando o trabalho de Mozart e Beethoven.

Se só por uma discussão inesperada como esta o filme já valeria a pena, eis que o documentário ainda se dedica a mostrar a casa e a intimidade do "célebre" cineasta alemão. Afinal, o título VISITING UWE não é acidental: a conversa sobre cinema é intercalada com cenas em que Boll mostra os aposentos do seu lar, fala sobre seu dia-a-dia ("A máquina de capuccino é a coisa mais importante da minha casa.") e brinca com seus cães, inclusive confessando que um deles fez "participações especiais" em quase todos os seus filmes!


E se só pela discussão inusitada sobre cinema, pela visita à casa de Boll e pelos detalhes do seu dia-a-dia o filme já valeria a pena, nem que seja como curiosidade mórbida, eis que temos ainda diversos momentos mágicos que apenas confirmam a personalidade bizarra (para não dizer completamente louca) do diretor alemão, e tornam este documentário não apenas inacreditável, mas também absolutamente imperdível.

Para começo de conversa, VISITING UWE já começa com um take do seu "homenageado" olhando diretamente para a câmera e se apresentando: "Olá. Eu sou Uwe Boll, o melhor cineasta do mundo". E, quando se trata de Boll, você nunca sabe se ele está ironizando (fazendo auto-sátira com a própria imagem de "pior diretor") ou falando sério. Até porque ele já comprovou, mais de uma vez, ter um parafuso a menos - quem em sã consciência desafiaria os críticos do seu trabalho para lutas de boxe?


Ao ser questionado se acha mais importante o Oscar ou a Palma de Ouro em Cannes, Boll responde com bom humor: "Não sei, nunca ganhei nenhum dos dois".

Mais adiante, o cineasta começa a lavar roupa suja "on camera" ao falar das dificuldades de trabalhar com atores como Ray Liotta e Michael Madsen, que ele salienta terem problemas "alcoólicos e psicológicos". Para fazer o contraponto, o documentário apresenta uma faixa de áudio com o próprio Madsen falando que Boll (com quem "trabalhou" em "Bloodrayne") é completamente louco e não sabe o que faz!


E a coisa só melhora: no momento mais impagável de VISITING UWE, o alemão maluco abre as baterias contra Michael Bay (diretor de "Transformers"), dizendo que ele torra milhões de dólares para fazer filmes medíocres (o que não deixa de ser verdade), e mesmo assim os estúdios parecem entregar fortunas de bandeja para ele.

Boll passa da crítica à agressão em poucos minutos, dizendo que Bay é um "cockhead" (intraduzível) e viciado em prostitutas. Outros xingamentos foram posteriormente editados para evitar processos judiciais. Não que o alemão esteja preocupado com esta possibilidade, como demonstra o diálogo abaixo.


Porém o mais interessante deste trabalho inusitado é que logo aquela figura que todo mundo aprendeu a odiar depois de filmes como "House of the Dead" e "Seed" acaba se transformando em um sujeito no mínimo simpático. Boll fala com entusiasmo sobre sua paixão pelo cinema, e é inegável que ele realmente GOSTA do que faz - além de ter um mínimo de conhecimento sobre o trabalho de mestres como Welles e Ford, embora obviamente não tenha aprendido NADA com eles!

Confesso até que achei interessante ouvir a opinião de um dos piores diretores de todos os tempos sobre filmes como "Kill Bill", "Gladiador" e "Onde os Fracos Não Têm Vez". E Boll ainda confessa que "Apocalypse Now" é o seu filme preferido.

Mesmo quem morre de ódio do alemão, ou o considera uma piada, deverá concordar com a maior parte do que ele fala, principalmente quando critica a indústria de cinema de Hollywood. Pois Boll cita outros dois cineastas alemães (Wolfgang Petersen e Roland Emerich) que, segundo ele, não conseguem fazer filmes com menos de 100 milhões de dólares, e reclama da forma como os estúdios investem pesado em marketing para fazer com que porcarias pareçam bons filmes (o que é inegável).


Boll também argumenta que a maior parte do público atual nunca ouviu falar de Fellini ou Godard, e que estes nomes não fazem a menor diferença para quem vai ao cinema ver "Transformers" (o que também não deixa de ser verdade).

Enfim, quando VISITING UWE termina, o documentário cumpre sua função de transformar o mítico Uwe Boll em uma figura mais humana e fácil de simpatizar. Você pode até continuar odiando bombas como "House of the Dead", mas certamente vai reconhecer que por traz delas existe um sujeito que não é bobo nem nada.

Inclusive me peguei perguntando se Boll não estaria fazendo estes filmes ruins baseados em videogames de propósito, já que costuma se sair melhor ao assinar trabalhos mais pessoais, tipo "Tunnel Rats" (e o recente "Rampage", cujo trailer promete um filmaço).


A grande crítica que pode ser feita a VISITING UWE é que o documentário não responde justamente a esta pergunta: Boll é ruim mesmo ou faz de propósito? O diretor Hübner, que entrevista Uwe durante os 50 minutos do filme, faz várias perguntas interessantes, mas se esquiva da responsabilidade de questionar o cineasta sobre a ruindade de muitas das suas obras.

Embora em certo trecho Boll confesse que não gosta da fama de "rei do trash", e nem da perseguição levada a cabo por críticos e espectadores (com movimentos como "Stop Boll", um abaixo-assinado com milhares de assinaturas pedindo que Uwe pare de dirigir filmes), Hübner jamais questiona seu entrevistado sobre a ruindade real e evidente de alguns dos seus trabalhos, preferindo sair pela tangente - talvez com medo da fama de esquentadinho que Uwe Boll vem alimentando há anos.

E por falar em fama de esquentadinho, depois de 50 minutos que retratam nosso amado Uwe como uma figura humana e boa-praça, VISITING UWE encerra com uma última cena que, tudo leva a crer, é "de mentirinha": Boll repentinamente muda de comportamento, fica puto dos cornos e acusa Hübner de estar fazendo o documentário apenas para transformá-lo em piada.


Não satisfeito, o alemão maluco expulsa a equipe da sua casa violentamente, mas se apropria de parte do equipamento dos realizadores, dizendo: "Vou ficar com isso como garantia e só devolvo depois que me mandarem a cópia final do documentário. E podem chamar a polícia, se quiserem, eu não me importo", para em seguida bater a porta na cara do diretor e do cameraman.

Por mais que eu queira acreditar que o piti tenha sido encenado (transformando o documentário em "mockumentary"), novamente não dá para duvidar de nada quando o assunto é Uwe Boll.

Curioso? Pois você pode ver VISITING UWE de graça, falado em alemão e com legendas em inglês, no site dos realizadores. Basta clicar aqui. E prepare-se para finalmente começar a pensar em Uwe Boll como um sujeito legal. Não dizem que de médico e de louco todo mundo tem um pouco? Pois aqui está um cara que definitivamente tem não um pouco, mas "um muito" das duas coisas!

E acho que ainda vamos ouvir falar muito em Uwe Boll nos anos vindouros...

Trailer de VISITING UWE


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Visiting Uwe - The Uwe Boll
Homestory (2008, Alemanha)

Direção: Fabian Hübner
Elenco: Uwe Boll, Fabian Hübner
e a voz de Michael Madsen.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

TNT JACKSON (1974)


Cirio H. Santiago foi um cineasta filipino que, numa carreira que totalizou 73 filmes, atirou para todos os lados: fez aventuras de artes marciais, produções sobre a guerra do Vietnã, ficção pós-apocalíptica, sexploitation, blaxploitation... Enfim, o que quer que estivesse dando grana. Se fosse o caso, até misturava temas e gêneros, como fez em "O Samurai Negro", que mesclava os cânones do ciclo blaxploitation com os filmes orientais de samurai.

Pois o tema de hoje aqui no FILMES PARA DOIDOS é outra saborosa mistureba comandada por Cirio: TNT JACKSON, aventura barata de 1974 que junta, num mesmo balaio, as produções blaxploitation com negras valentonas e as aventuras baratas de artes marciais made in Hong-Kong. O resultado é curioso, para não dizer coisa pior.


1974 era "o" ano para aventuras blaxploitation estreladas por mulheres. Afinal, no ano anterior, 1973, estouraram dois filmes baratos com personagens femininas, "Coffy", de Jack Hill, com Pam Grier no papel principal, e "Cleopatra Jones", de Jack Starrett, estrelado por Tamara Dobson (que teve uma seqüência em 1975). TNT JACKSON foi uma tentativa de criar mais uma personagem negra popular e de lançar uma nova estrela do ciclo blaxploitation, a magricela Jeannie Bell.

Longe das curvelínias e voluptuosas Pam e Tamara, Jeannie era uma garota comum e bem sem graça até, cujo passaporte para o mundo do cinema barato foi um ensaio na Playboy em 1969. Nem a atriz e nem a sua personagem, TNT Jackson, fizeram o mesmo sucesso das "concorrentes", e Jeannie logo abandonou a carreira de atriz para assumir um emprego melhor em tempo integral: casou com um multimilionário!


Mesmo assim, a curta passagem pelo ciclo blaxploitation garantiu pelo menos um grande fã: Quentin Tarantino, que homenageou a atriz em "Kill Bill - Volume 1", onde a personagem de Vivica Fox usa o nome falso "Jeannie Bell" (valeu pela dica, Leandro Caraça).

Comparando com as aventuras de Pam Grier (principalmente "Coffy" e "Foxy Brown"), e com a série "Cleopatra Jones", este TNT JACKSON realmente não é o filmão que o pôster de cinema prometia. Porque, como disse Robert Rodriguez na divulgação do filme "Grindhouse", os pôsteres destas produções bagaceiras dos anos 70 geralmente eram melhores que os próprios filmes.

A trama é um primor de obviedade: Diana "TNT" Jackson é uma ex-presidiária e especialista em artes marciais que vai a Hong-Kong para investigar o desaparecimento do seu irmão. Lá chegando, começa a distribuir porrada para todo lado até descobrir que o maninho foi morto a mando de Sid (Ken Metcalfe, de "Ninja - A Máquina Assassina"), o chefe de uma quadrilha de traficantes de cocaína.


Do lado dos vilões também estão a bela loirinha Elaine (Pat Anderson) e outro negro karateka, Charlie (Stan Shaw, fazendo filmes até hoje, entre eles blockbusters tipo "Daylight", com o Stallone).

Paralelamente, há uma trama bem deslocada que mostra os carregamentos de drogas de Sid sendo roubados misteriosamente, o que leva o vilão a desconfiar da vingadora TNT Jackson. Somente no final descobrimos que o culpado pela sabotagem é o próprio Charlie, que quer assumir o posto de chefão. E Elaine também se revela uma agente federal infiltrada.

A conclusão terá a tradicional luta até a morte entre TNT e Charlie, mas isso só depois de os dois terem se envolvido romanticamente, para a tradicional cena de sexo e nudez.


Se TNT JACKSON serviu para alguma coisa - além de ter transformado Jeannie Bell em citação do Tarantino, claro - foi como uma inesperada reunião de talentos por trás das câmeras. De um lado, o diretor Cirio Santiago, cujo cinema divertido, barato e improvisado ainda precisa ser redescoberto pelas novas gerações; de outro lado, o produtor Roger Corman, monstro sagrado do cinema que finalmente está recebendo o devido reconhecimento (ganhando até Oscar pelo conjunto da sua obra, e enquanto ainda está vivo!).

Uma terceira figurinha carimbada envolvida na produção do filme é ninguém menos que Dick Miller, aquele eterno ator coadjuvante de quase duas dezenas de produções, aqui em seu primeiro e único crédito como roteirista - que ele divide com o também ator Metcalfe e com Leonard Hermes. Três pessoas para escrever uma aventura rasteira como TNT JACKSON? Quem diria...

Eu só queria saber qual dos três foi o responsável pela mais deliciosa e engraçada cena do filme: aquela em que TNT está cercada por vilões num quarto de hotel e ameaça: "You want it black? You got it black!". Dito isso, a bela heroína tira a roupa e apaga a luz, já que, pelada, fica "camuflada" no escuro e pode distribuir safanões nos capangas à vontade!


É um momento tão absurdo e inesperado, ainda mais por estar sendo levado totalmente A SÉRIO, que se transforma no ponto alto de uma película nada memorável. (Até porque a calcinha da moça muda de cor duas vezes ao longo da cena, evidenciando o descuido do continuísta, ou a falta de um!)

O restante é aquela rotina da maioria das aventuras de artes marciais do período. Como TNT prefere usar os pés e punhos ao invés de armas, nem ao menos há grandes cenas de ação ou de violência no estilo "Coffy".

Mesmo assim, a mocinha encarna Bruce Lee em dois momentos bem sangrentos: ao quebrar o braço de um bandido (com direito a fratura exposta e sangue esguichando), e ao atravessar o tórax de um vilão com o punho durante uma luta!


O problema é que Jeannie Bell pode ser bonita e gostosinha, mas não tem a "atitude" de uma Pam Grier, e muito menos sabe lutar. Em todas as cenas de ação, ela é visivelmente substituída por um dublê (acredite se quiser, mas um HOMEM de peruca blackpower!); nas demais, quando a atriz precisa aparecer no quadro, apenas fica encaixando socos e chutes que passam a quilômetros das "vítimas".

A coreografia da pancadaria é bem pouco original, e só melhora um pouco na luta final. Até porque o vilão é interpretado por Stan Shaw, que na vida real era professor de karatê, judô e jiu-jitsu. Eis outro grande problema: a desenvoltura de Shaw só deixa ainda mais evidente a pouca intimidade da estrelinha Jeannie com a coisa.

Ainda que pouco memorável, TNT JACKSON é uma aventura rápida e rasteira (tem pouco mais de 70 minutos) daquele tipo que hoje mais provoca risadas do que excitação. Diálogos como "Ah é? E eu sou Branca de Neve com queimadura do sol" (frase dita, obviamente, por uma negra) garantem as gargalhadas involuntárias, complementadas com a pobreza geral da produção, dos cenários e dos figurinos.


E é claro que vale a pena conhecer justamente por estes pequenos achados, como a cena da heroína lutando nua (que o Tarantino de certa forma "homenageou" no seu "Jackie Brown", quando Samuel L. Jackson e Pam Grier ficam no escuro no apartamento da heroína). Momentos impagáveis e bizarros como este são a síntese do cinema barato de outros tempos, tão difícil de rever nesses nossos tempos politicamente corretos e nada criativos.

PS 1: Esta é a CENTÉSIMA postagem do FILMES PARA DOIDOS. Rumo à "duzentésima"!

PS 2: Na minha aula de ontem de Teorias e Práticas das Análises de Produtos e Linguagens Audiovisuais, um colega fez uma interessantíssima comparação entre outro blaxploitation clássico, "O Chefão de Nova York", de Larry Cohen, e "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Além de a trajetória do personagem interpretado por Fred Williamson ser muito parecida com a do Zé Pequeno no filme brazuca, o desfecho de ambos é praticamente idêntico, com o bandidão sendo ironicamente atacado por marginais muito mais jovens. Fiquei embasbacado, pois não lembrava dos detalhes do filme do Cohen e a semelhança realmente transparece! Parabéns ao colega!

Trailer de TNT JACKSON


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TNT Jackson (1974, EUA/Filipinas)
Direção: Cirio H. Santiago
Elenco: Jeannie Bell, Stan Shaw,
Chiquito, Max Alvarado, Pat Anderson,
Ken Metcalfe e Chris Cruz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA (1983)


Um casal de lésbicas se chupando durante um banho de cachoeira. Uma bela garota retalhada a navalhadas no chuveiro. Anthony Steffen comendo Rossana Ghessa e logo depois Fátima Leite comendo Rossana Ghessa! Será que sou só eu tenho saudade exatamente DESTE tipo de cinema nacional que não se faz mais? Sexo, violência explícita, lesbianismo e tanta mulher pelada que o cara quase enjoa de ver peitos, bundas e pererecas (ênfase beeeeeem grande no "quase"); assim é MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA, um daquele raros filmes de suspense estilo "whodunit" (quem é o assassino?) feitos no Brasil.

A bem da verdade, esta produção escrita e dirigida por Adnor Pitanga é quase um giallo - se o assassino usasse luvas negras e os atores fossem dublados em italiano, o filme poderia muito bem ser lançado como um legítimo giallo made in Italy que ninguém iria perceber!


Ajuda, para criar este elo com o cinema de mistério italiano, a rara presença do galã Steffen numa produção brasileira. "Anthony Steffen" é o pseudônimo americanizado de Antonio de Teffé, filho de brasileiros criado na Itália, e que se transformou num astro do western spaghetti europeu - entre outros filmes, estrelou "Django, O Bastardo", de Sergio Garrone. O ator também pôde ser visto em alguns filmes do ciclo giallo, como "The Crimes of the Black Cat" e "The Night Evelyn Came Out of the Grave".

MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA é único filme 100% brasileiro que Steffen estrelou. O IMDB informa que o ator também estaria no brasileiríssimo "Mulheres Liberadas", também dirigido por Adnor Pitanga, mas o especialista na carreira do astro Rodrigo Pereira garantiu que a informação é equivocada. Assim, com uma única produção realmente brasileira no seu currículo, Anthony Steffen morreu vitimado por câncer em 2004, quando morava no Brasil e vivia praticamente esquecido.


Consta no obrigatório livro sobre a carreira de Anthony Steffen, escrito por Daniel Camargo, Fábio Vellozo, Rodrigo Pereira, que o ator não gostava destas suas produções brasileiras, nem fazia muita questão de falar sobre elas, o que é estranho, pois este suspense pelo menos é muito bem realizado e produzido, ao contrário de algumas tralhas que ele fez com os italianos. No mesmo livro, consta que Steffen brigou o tempo todo com a estrela e produtora Rossana Ghessa.

Dublado, Steffen interpreta Rodolfo, um rico fazendeiro do interior do Rio de Janeiro que vive obcecado com a idéia da velhice e da proximidade da morte. Ele namora Marília (Rossana Ghessa, de "Fêmeas em Fuga", que na época era um MULHERÃO, em maiúsculas mesmo!), uma professora que deixou os tumultos da cidade grande para viver no interior, onde também pretende esquecer o fim da sua relação lésbica com a amiga Renata (Fátima Leite, de "Eu Matei Lúcio Flávio").


Sem saber, Marília despertou a paixão de uma aluna da sua turma, Leila (Leila Correia, em seu único filme), que, apesar de namorar o capataz da fazenda de Rodolfo, Lauro (Rinaldo Gines, de "Bye Bye Brasil"), tem dúvidas sobre a própria sexualidade.

Certo dia, voltando para casa depois da aula, Leila corta caminho pelo bosque e encontra o acampamento de duas amigas lésbicas, Lucinha (Helena Andrea) e Rose (Ismênia Kreis). Observa enquanto ambas, após o tradicional banho de cachoeira peladas, transam animadamente. Excitada, Leila vai para um ponto mais isolado do bosque, onde se despe e se masturba pensando na cena.


Paralelamente, chega à cidade a ex-amante de Marília, Renata, agora casada com Hartur (o gaúcho Marco Wainberg, de "A Pantera Nua"), que é cego. O retorno provoca o caos no pequeno universo rural, deixando Rodolfo enciumado. Logo, o corpo nu de Leila é encontrado no bosque, coberto de ferimentos de facão. O principal suspeito é o namorado Lauro, mas a professora começa a suspeitar que Renata está tentando reatar o romance entre elas eliminando todos os obstáculos pela frente.

Novos crimes se sucedem, sempre violentos. Quem será o assassino? A enciumada Renata? O possessivo Rodolfo? Lauro, que se diverte mutilando as galinhas da fazenda? O casal de lésbicas acampado no bosque? Ou Hartur, que na verdade pode nem ser cego? A identidade só será revelada no final, mas não será uma grande surpresa para quem já conhece as tradicionais armadilhas do gênero.


MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA certamente não pode ser acusado de propaganda enganosa, já que são 90 minutos com exatamente isso que o título anuncia: muito sexo (prazer) e algumas mortes e sangueira explícita (agonia).

Eu acho até que mudaria o título para "MUITOS Momentos de Prazer e ALGUNS de Agonia": temos duas longas e calientes cenas de sexo "normal" (entre Steffen e Rossana e entre Rinaldo e Ismênia), duas longas e calientes cenas de sexo lésbico (entre Rossana e Fátima e entre Helena e Ismênia), e até duas cenas de masturbação feminina quase explícita (protagonizadas pela gatinha Leila).

Isso sem contar o fato de a câmera de Adnor Pitanga dar closes quase ginecológicos nas pererecas e não poupar detalhes quando filma as relações sexuais, com simulações bem realistas de sexo oral (tanto hetero quanto lésbico), deixando o filme às raias do pornô.


Mas a produção é requintada e não cai nessas armadilhas de muitas produções brasileiras do período. As cenas de sexo são filmadas com muito bom gosto, de maneira que soam mais eróticas, quase poéticas, do que vulgares ou pornográficas, como podiam ficar nas mãos de um diretor "pau pra toda obra" como Ody Fraga ou Fauzi Mansur.

A cena em que Renata seduz e transa com a ex-namorada Marília em frente a Hartur, o marido cego, é de longe uma das mais bonitas - e cruéis, obviamente - cenas do filme, e rodada num nível de realismo que fiquei me perguntando se as duas atrizes não estavam REALMENTE se comendo!!!


E quem tem saudade dos tempos em que havia sexo e mulher pelada no cinema nacional não vai poder reclamar desse filme do Pitanga, já que todo o elenco passa a maior parte do tempo SEM a roupa. Isso não só nas cenas de sexo, mas também nos incontáveis banhos de rio e cachoeira (por que será que todo diretor de cinema acha que no interior o pessoal toma banho de rio pelado???), e até nos momentos em que as mocinhas precisam fugir do assassino correndo pelo meio do mato, e sempre acabam com a blusa rasgada e os peitinhos de fora! Sinceramente, é tanta mulher pelada em 1h30min que quase cansa (ênfase beeeeeem grande no "quase").

Quanto aos "momentos de agonia", estes também são razoavelmente bem executados, com efeitos simples e cortes rápidos, sem investir muito na maquiagem nas cenas de morte. Até que o filme tem bastante sangue, com a já citada morte a navalhadas lembrando ao mesmo tempo "Psicose", de Hitchcock, e "Vestida para Matar", do Brian DePalma. O destino final do(a) assassino(a) é bastante violento, e há inclusive duas cenas de mutilação (real, é claro) de galinhas que deverão provocar arrepios em quem não mora no interior e não vê isso normalmente.


Sabe aquele preconceito bem comum do espectador brasileiro, de dizer que o cinema nacional pré-Retomada era uma porcaria, tecnicamente inclusive? Pois MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA é um belo argumento para calar a boca desses ignorantes: tudo no filme é de ótimo nível, desde a forma como são filmadas as cenas de sexo até a fotografia de Ruy Santos, passando pela bela trilha sonora (composta por Antônio Krisna e interpreta pela própria Rossana Ghessa) e pelo som, que é alto e claro - você entende perfeitamente TODOS os diálogos, algo que não era muito comum nas produções da época.

Claro, alguns metidinhos poderão questionar se era realmente necessária a grande quantidade de sexo e de nudez mostrada no filme. Quer saber? Era sim, porra! O nome do filme não é "Momentos de PRAZER e de Agonia"? É bom lembrar também que, naquela época (entre 1982 e 1983), diversos realizadores brasileiros estavam descambando para o sexo explícito, devido à grande dificuldade de produzir filmes "normais", e mesmo diretores "sérios" enchiam suas obras de mulher pelada para atrair o público, cada vez mais distante das salas de cinema.


Eu, pelo menos, não tenho problema algum com nudez no cinema brasileiro, e acho ridículos protestos como aquele absurdo feito pelo Pedro Cardoso recentemente. Mas cada macaco no seu galho, não é?

Fica o aviso: se você não curte sexo e nudez em filme nacional, é melhor ficar bem longe de MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA. Já quem não tem preconceito pode encarar numa boa: em 1h30min, você vai ver todo sexo e mulher pelada que o cinema brasileiro não mostrou nos últimos 15 anos!

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Momentos de Prazer e Agonia
(1983, Brasil)

Direção: Adnor Pitanga
Elenco: Rossana Ghessa, Anthony Steffen,
Fátima Leite, Helena Andrea, Rinaldo Gines,
Ismênia Kreis e Leila Correia.