sábado, 12 de dezembro de 2009

VISITING UWE - THE UWE BOLL HOMESTORY (2008)


Preparem-se, amiguinhos! Este post de hoje traz uma produção que, como poucas, combina perfeitamente com o nome do blog: é um autêntico FILME PARA DOIDOS, não apenas "para", mas também "de" e "sobre" doidos. Afinal, como é possível levar a sério um documentário supostamente sério onde um sujeito conversa animadamente sobre cinema, durante uns bons 50 minutos em preto-e-branco, com aquele que é considerado um dos piores diretores de todos os tempos, o alemão Uwe Boll?

Caso você tenha vivido em Marte na última década, e nunca ouviu falar sobre o sr. Uwe Boll, saiba apenas que ele é um alemão metido a encrenqueiro e falastrão, que surgiu de lugar nenhum e, num piscar de olhos, já estava com toda a moral para torrar milhões de dólares em filmes horríveis com astros e estrelas de Hollywood - um fenômeno que ninguém soube explicar satisfatoriamente até hoje.


Depois de dirigir "House of the Dead" e "Alone in the Dark", duas abomináveis adaptações cinematográficas de videogames (que do game em questão só trazem o nome), Boll continuou prestando desserviços à sétima arte, escrevendo, produzindo e dirigindo filmes que ninguém quer ver, e fazendo atores de calibre pagarem o maior mico (entre eles, Ben Kingsley, Ray Liotta, Michael Madsen, Geraldine Chaplin e Burt Reynolds).

Claro que, após o choque inicial da ruindade de "House of the Dead" e "Alone in the Dark", todo mundo já sabe o que esperar do "cinema" de Boll, e suas obras posteriores passaram a ficar no mínimo divertidas ("Bloodrayne", por exemplo, é perfeitamente assistível, e seu recente "Tunnel Rats" é bem interessante). Mas ele parece longe de ter aprendido como se faz, e volta-e-meia solta uma nova bomba ("Seed - Assassino em Série") ou pérola do mau gosto (seu "Postal" é uma comédia que faz graça com morte de crianças e até com o 11 de Setembro!!!).


Apresentação feita, é hora de falar sobre o nosso filme em questão, VISITING UWE - THE UWE BOLL HOMESTORY, um inacreditável e excêntrico documentário em que o diretor-roteirista-apresentador de um programa alemão sobre cinema, Fabian Hübner, visita a casa-escritório do famigerado Uwe Boll, e passa o resto do tempo conversando com ele sobre a sétima arte.

E nada pode ser mais estranho, chocante até, do que ver um dos piores diretores da história comentando o trabalho de Orson Welles, Stanley Kubrick, William Wyler e John Ford - isso quando não está CRITICANDO Michealangelo Antonioni, Jean-Luc Godard e Andrei Tarkovsky!!! Parece algo tão esdrúxulo quanto ouvir a Banda Calypso comentando o trabalho de Mozart e Beethoven.

Se só por uma discussão inesperada como esta o filme já valeria a pena, eis que o documentário ainda se dedica a mostrar a casa e a intimidade do "célebre" cineasta alemão. Afinal, o título VISITING UWE não é acidental: a conversa sobre cinema é intercalada com cenas em que Boll mostra os aposentos do seu lar, fala sobre seu dia-a-dia ("A máquina de capuccino é a coisa mais importante da minha casa.") e brinca com seus cães, inclusive confessando que um deles fez "participações especiais" em quase todos os seus filmes!


E se só pela discussão inusitada sobre cinema, pela visita à casa de Boll e pelos detalhes do seu dia-a-dia o filme já valeria a pena, nem que seja como curiosidade mórbida, eis que temos ainda diversos momentos mágicos que apenas confirmam a personalidade bizarra (para não dizer completamente louca) do diretor alemão, e tornam este documentário não apenas inacreditável, mas também absolutamente imperdível.

Para começo de conversa, VISITING UWE já começa com um take do seu "homenageado" olhando diretamente para a câmera e se apresentando: "Olá. Eu sou Uwe Boll, o melhor cineasta do mundo". E, quando se trata de Boll, você nunca sabe se ele está ironizando (fazendo auto-sátira com a própria imagem de "pior diretor") ou falando sério. Até porque ele já comprovou, mais de uma vez, ter um parafuso a menos - quem em sã consciência desafiaria os críticos do seu trabalho para lutas de boxe?


Ao ser questionado se acha mais importante o Oscar ou a Palma de Ouro em Cannes, Boll responde com bom humor: "Não sei, nunca ganhei nenhum dos dois".

Mais adiante, o cineasta começa a lavar roupa suja "on camera" ao falar das dificuldades de trabalhar com atores como Ray Liotta e Michael Madsen, que ele salienta terem problemas "alcoólicos e psicológicos". Para fazer o contraponto, o documentário apresenta uma faixa de áudio com o próprio Madsen falando que Boll (com quem "trabalhou" em "Bloodrayne") é completamente louco e não sabe o que faz!


E a coisa só melhora: no momento mais impagável de VISITING UWE, o alemão maluco abre as baterias contra Michael Bay (diretor de "Transformers"), dizendo que ele torra milhões de dólares para fazer filmes medíocres (o que não deixa de ser verdade), e mesmo assim os estúdios parecem entregar fortunas de bandeja para ele.

Boll passa da crítica à agressão em poucos minutos, dizendo que Bay é um "cockhead" (intraduzível) e viciado em prostitutas. Outros xingamentos foram posteriormente editados para evitar processos judiciais. Não que o alemão esteja preocupado com esta possibilidade, como demonstra o diálogo abaixo.


Porém o mais interessante deste trabalho inusitado é que logo aquela figura que todo mundo aprendeu a odiar depois de filmes como "House of the Dead" e "Seed" acaba se transformando em um sujeito no mínimo simpático. Boll fala com entusiasmo sobre sua paixão pelo cinema, e é inegável que ele realmente GOSTA do que faz - além de ter um mínimo de conhecimento sobre o trabalho de mestres como Welles e Ford, embora obviamente não tenha aprendido NADA com eles!

Confesso até que achei interessante ouvir a opinião de um dos piores diretores de todos os tempos sobre filmes como "Kill Bill", "Gladiador" e "Onde os Fracos Não Têm Vez". E Boll ainda confessa que "Apocalypse Now" é o seu filme preferido.

Mesmo quem morre de ódio do alemão, ou o considera uma piada, deverá concordar com a maior parte do que ele fala, principalmente quando critica a indústria de cinema de Hollywood. Pois Boll cita outros dois cineastas alemães (Wolfgang Petersen e Roland Emerich) que, segundo ele, não conseguem fazer filmes com menos de 100 milhões de dólares, e reclama da forma como os estúdios investem pesado em marketing para fazer com que porcarias pareçam bons filmes (o que é inegável).


Boll também argumenta que a maior parte do público atual nunca ouviu falar de Fellini ou Godard, e que estes nomes não fazem a menor diferença para quem vai ao cinema ver "Transformers" (o que também não deixa de ser verdade).

Enfim, quando VISITING UWE termina, o documentário cumpre sua função de transformar o mítico Uwe Boll em uma figura mais humana e fácil de simpatizar. Você pode até continuar odiando bombas como "House of the Dead", mas certamente vai reconhecer que por traz delas existe um sujeito que não é bobo nem nada.

Inclusive me peguei perguntando se Boll não estaria fazendo estes filmes ruins baseados em videogames de propósito, já que costuma se sair melhor ao assinar trabalhos mais pessoais, tipo "Tunnel Rats" (e o recente "Rampage", cujo trailer promete um filmaço).


A grande crítica que pode ser feita a VISITING UWE é que o documentário não responde justamente a esta pergunta: Boll é ruim mesmo ou faz de propósito? O diretor Hübner, que entrevista Uwe durante os 50 minutos do filme, faz várias perguntas interessantes, mas se esquiva da responsabilidade de questionar o cineasta sobre a ruindade de muitas das suas obras.

Embora em certo trecho Boll confesse que não gosta da fama de "rei do trash", e nem da perseguição levada a cabo por críticos e espectadores (com movimentos como "Stop Boll", um abaixo-assinado com milhares de assinaturas pedindo que Uwe pare de dirigir filmes), Hübner jamais questiona seu entrevistado sobre a ruindade real e evidente de alguns dos seus trabalhos, preferindo sair pela tangente - talvez com medo da fama de esquentadinho que Uwe Boll vem alimentando há anos.

E por falar em fama de esquentadinho, depois de 50 minutos que retratam nosso amado Uwe como uma figura humana e boa-praça, VISITING UWE encerra com uma última cena que, tudo leva a crer, é "de mentirinha": Boll repentinamente muda de comportamento, fica puto dos cornos e acusa Hübner de estar fazendo o documentário apenas para transformá-lo em piada.


Não satisfeito, o alemão maluco expulsa a equipe da sua casa violentamente, mas se apropria de parte do equipamento dos realizadores, dizendo: "Vou ficar com isso como garantia e só devolvo depois que me mandarem a cópia final do documentário. E podem chamar a polícia, se quiserem, eu não me importo", para em seguida bater a porta na cara do diretor e do cameraman.

Por mais que eu queira acreditar que o piti tenha sido encenado (transformando o documentário em "mockumentary"), novamente não dá para duvidar de nada quando o assunto é Uwe Boll.

Curioso? Pois você pode ver VISITING UWE de graça, falado em alemão e com legendas em inglês, no site dos realizadores. Basta clicar aqui. E prepare-se para finalmente começar a pensar em Uwe Boll como um sujeito legal. Não dizem que de médico e de louco todo mundo tem um pouco? Pois aqui está um cara que definitivamente tem não um pouco, mas "um muito" das duas coisas!

E acho que ainda vamos ouvir falar muito em Uwe Boll nos anos vindouros...

Trailer de VISITING UWE


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Visiting Uwe - The Uwe Boll
Homestory (2008, Alemanha)

Direção: Fabian Hübner
Elenco: Uwe Boll, Fabian Hübner
e a voz de Michael Madsen.

12 comentários:

Pery disse...

Caro Felipe, tive a oportunidade de ver esse documentário, e apesar de odiar profundamente o trabalho dele como cineasta, inclusive escrevendo um artigo sobre essa pessoa. Vejo que Boll está melhorando como ser humano e como cineasta Rampage promete ser um grande filme!

Abraço!

Ibertson Medeiros disse...

Não conhecia esse documentário. Desmistificando Boll hahahaha

Rapaz, curti bastante o trailer desse Rampage. Quero ver.

Edu Aurrai disse...

Salve Guerra. Cara, ainda vou ver o documentário mas sei lá, esse trailer de Rampage não pareceu grandes coisas. Se bem que de verdade, apesar de achar o trabalho do cara uma merda, como todos, eu nunca deixei de simpatizar com a figura Uwe Boll, não sei por quê. Enfim, após ver o documentário posso faalr melhor, não agora que eu to bebaço.

Abraços brow.

Felipe M. Guerra disse...

Hahahaha! Mas EDU, desse jeito o documentário vai ficar melhor ainda!!!

Edu Aurrai disse...

hehehehe pra você ver cara, tanto que eu acabei fazendo um outro comentário em um post errado hoje!
Mas então, tu já viu Black Devil Doll? Cara, merece uma conferida, é muito tosco, É tipo um Chucky nigger bem fdp com muita putaria envolvida.

Vagno Fernandes disse...

Para tudo, já começei a rachar o bico só com a introdução dessa "análise". Quero ler com calma depois, rsrs.

Tiago - Sumaré disse...

Fala Felipe,

cara tenho um pergunta. Quando vc vai escrever uma critica ao "classico" de Nico Mastorakis ILHA DA MORTE? Fiquei curioso sobre sua opinião pelo filme.

Abraços

Felipe M. Guerra disse...

TIAGO, esse filme é tosco pra caramba, mas eu acho divertido justamente pela apelação. Não é dos meus preferidos, e preciso rever, mas uma hora escreverei sobre ele para a Boca do Inferno, que considero um espaço mais apropriado para minhas longas divagações acerca da perversão humana...

Leandro Caraça disse...

Resenha que escrevi pro finado PROJETO 365 :

A ILHA DA MORTE

Sinopse: Casal apaixonado desembarca na paradisíaca ilha grega de Mykonos. Não demora muito para que os dois pombinhos se revelem irmãos incestuosos e perigosos maníacos assassinos deixando um rastro de barbárie e morte pelas redondezas.

Comentários: Entusiasmado pelo enorme sucesso de "O Massacre da Serra Elétrica" de Tobe Hooper, o grego Nico Mastorakis percebeu de imediato como poderia descolar uma graninha fácil. O lance era realizar um filme que chocasse apenas pelo simples prazer de chocar, uma obra que levasse o cinema exploitation aos seus últimos limites quebrando todos os tabus possíveis (homossexualismo, incesto, lesbianismo, zoofilia, urolagmia). A infalível idéia de Mastorakis teve porém resultados um pouco diferentes do planejado como veremos a seguir.

Filmado com a bagatela de trinta mil dólares e abençoado pelas belas paisagens gregas, A Ilha da Morte jamais alcança seu intento de chocar o espectador como gostaria Mastorakis. Consegue no máximo arrancar boas gargalhadas com cenas que deveriam provocar tensão como aquela em que o casal Christopher e Celia obrigam um pintor a tomar quase um balde inteiro de tinta e depois ainda pregam as mãos do infeliz no chão. Descobrimos que o que move esse impulso homicida dos inseparáveis maninhos é uma cruzada moral numa busca por aqueles que sejam inocentes e puros, como se eles próprios fossem exemplos de pessoas que batem bem da cabeça.

O maluquete Christopher (Robert Behling) pode muito bem fazer sexo com um filhotinho de cabra sem qualquer crise na sua consciência, todavia pobres dos adúlteros e homossexuais que tiverem o azar de cruzarem seu caminho. Por sua vez a gracinha Celia (Jane Ryall) de início se mostra tão xarope quanto o seu irmão mas aos poucos vai se cansando de toda aquela violência colocando dessa forma em perigo a harmonia entre os dois amorais.

Episódico em toda sua estrutura o filme vai acumulando mais e mais vítimas sem muito interesse para quem assiste além de se imaginar qual será a próxima sandice proporcionada pelo roteiro - outro momento impagável é quando Christopher transa com uma mulher mais velha dando a ela o tratamanto especial do "chuveiro dourado" (se é que você me entende) para logo depois encher a coitada de bofetadas. Uma trama paralela envolvendo um detetive negro na pista do casal não chega a ser totalmente desenvolvida e acaba por terminar na sequência mais amadora e risível do filme.

O pau-pra-toda-obra Nico Mastorakis não só dirigiu, roteirizou, produziu e colaborou na cinematografia de A Ilha da Morte, como ainda atuou (muito mal por sinal) no papel do escritor interessado nas mortes ocorridas na ilha e também compôs as horríveis canções ripongas que aparecem durante o filme. O cineasta teve a decência de nunca esconder que realizou sua obra apenas para ganhar dinheiro para alavancar sua carreira. A Ilha da Morte chegou a sair em video no Brasil pela extinta distribuidora Transvideo que também lançou no mercado nacional outros filmes bem interessantes de Mastorakis como "A Próxima Dimensão", "Visão Fatal", "Zero Boys" e "O Sopro do Demônio". Nenhum deles entretanto se mostrou tão divertido, absurdo e sem noção quanto "A Ilha da Morte" e seu gratuito festival de violência.

Vinícius disse...

O Uwe parece ser um sujeito bem bacana mesmo.Filmes como Postal,Tunnel Rats e Bloodrayne são divertidos,assim como Alone in the dark é uma tortura.Sempre que mandei emails pra empresa dele fui respondido, por ¨ele¨.Embora não duvido mesmo,porque respondia com erros de ortografia.

Anônimo disse...

Cara eu vi recentemente um filme do Uwe boll que é bom Um homem contra wall street, quando eu vi por acaso no Imdb o nome do Uwe boll e a nota de 6,1 eu tive que assistir e o filme é legal.

Marcio Roberto disse...

Muito interessante, acho que vou dar uma olhada depois!