domingo, 23 de agosto de 2009

FOXY BROWN (1974)


Brown, Foxy Brown. Talvez a mais famosa de uma galeria de negras sedutoras e valentonas imortalizadas pelo saudoso cinema dos anos 70, Foxy foi interpretada pela voluptuosa Pam Grier no filme homônimo FOXY BROWN, produzido no auge da blaxploitation (ou blacksploitation).

Assim era chamado o ciclo surgido por volta de 1971 com filmes destinados ao público negro. Apesar de normalmente serem dirigidas por brancos, estas produções traziam atores e atrizes negras interpretando heróis e heroínas de cor, normalmente sentando porrada (e tiros, claro) nos "branquelos", numa época em que o preconceito racial ainda era muito forte.

O interessante é que, nas produções blaxploitation, os heróis negros normalmente eram representados como máquinas de sexo insaciáveis e viris, que pegavam todas as mulheres do filme (brancas ou negras), enquanto as heroínas de cor não só eram mulheres fortes e independentes, como ainda eram boas de briga e usavam seu irresistível poder de sedução para conseguir tudo o que queriam.


É uma representação tão exagerada que renderia um belo estudo de sociologia ou psicologia; de qualquer forma, negros e negras nos filmes blaxploitation eram fodões e fodonas, e os "branquelos" que não tinham a menor chance contra eles.

FOXY BROWN é de 1974 e segue uma bem-sucedida experiência iniciada no ano anterior: os blaxploitation femininos "Cleopatra Jones" e "Coffy" (este último também com Pam Grier), com negras valentonas como heroínas. Jack Hill, diretor de "Coffy", resolveu fazer em um novo filme estrelado por Pam, que ironicamente seria uma seqüência do anterior (iria se chamar "Burn, Coffy, Burn!"), mas na última hora os distribuidores resolveram lançá-lo como história independente, mudando o nome da personagem e eliminando qualquer citação a "Coffy".

Resultado: FOXY BROWN acabou fazendo mais sucesso e a personagem ficou imortalizada na cultura pop, principalmente por causa de fãs apaixonados, como um tal de Quentin Tarantino. Mas é tão bom quanto o filme anterior da dupla Jack e Pam (que eu, pessoalmente, prefiro).


Na trama escrita pelo próprio diretor, Foxy namora um agente infiltrado da Narcóticos, Dalton Ford (Terry Carter), e ironicamente tem um irmão traficante de cocaína, o pé-rapado Link (Antonio Fargas).

Dalton iria testemunhar contra uma poderosa organização envolvida com prostituição e tráfico de heroína, liderada por Katherine Wall (Kathryn Loder) e por seu amante Steve (Peter Brown). Só que os malvados compram a maior parte do júri e escapam facilmente das acusações. Para o agente, resta fazer uma cirurgia plástica facial e assumir uma nova identidade, Michael Anderson, sabendo que sua vida agora vale muito pouco.

O problema é que Link descobre a identidade do "novo namorado" de sua irmã, e, como está devendo uma bolada justamente para Katherine e sua trupe, entrega Dalton/Michael de bandeja para os traficantes. Ele é executado a tiros bem na frente da casa de Foxy, que jura vingança aos assassinos do seu homem (obviamente, todos são "branquelos").


Corajosa e esperta, ela se infiltra na agência de modelos de Katherine (que é a fachada da organização criminosa), e logo começa a trabalhar como prostituta para saber mais sobre a organização e suas ramificações. E quando descobre quem são os cabeças da quadrilha, resolve pagar na mesma moeda.

Produzido no auge da beleza de Pam Grier - que aparece três vezes nua, mas sempre de relance, além de vestir roupas decotadonas -, FOXY BROWN é um dos mais divertidos e antológicos blaxploitation do período.


O mérito é todo de Hill (ironicamente, ele próprio um "branquelo"), que coloca na boca de Pam/Foxy alguns diálogos fora de série em cenas idem. Como aquela que se passa em um bar de sapatonas (!!!), e que já vale pelo filme todo. Quando uma das machorras ameaça a heroína, dizendo que é faixa-preta em karatê, Foxy simplesmente arrebenta uma cadeira na fuça da valentona e responde "Pois eu sou faixa-preta em briga de bar!".

A jornada da heroína inclui a humilhação de um poderoso juiz de Direito, que obviamente também é branco e acaba ridicularizado pelo tamanho do pênis ("Benzinho, é ISSO que você quer usar em mim?", caçoa Foxy); sua inevitável captura pelos vilões, quando acaba sendo estuprada e viciada em heroína, e finalmente o troco no final, que vem em alto estilo, com direito a tiros na cabeça, um sujeito sendo despedaçado pela hélice de um avião (!!!) e até castração!!!



Sid Haig, hoje alçado à categoria de astro cult do cinema B, aparece em ponta marcante como um piloto tarado que dá carona para Foxy em seu avião, e obviamente acaba se arrependendo disso mais tarde (ambos já haviam divivido a tela no anterior "Coffy").

FOXY BROWN não perde a chance de fazer crítica social, numa época em que os negros ainda eram bastante marginalizados. Lá pelas tantas, Foxy faz um discurso sobre como as pessoas (brancas) com dinheiro pisam nos outros para conseguir o que querem. Além disso, quase todos os policiais (brancos, claro) são corruptos a serviço dos vilões.

Mas o melhor "momento reflexão" do roteiro sai da boca de Link, o irmão marginal da heroína. Quando Foxy o repreende por estar vendendo drogas, Link responde, irônico: "Eu sou negro e não sei cantar, não sei dançar e não sei pregar em nenhuma congregação. Sou muito baixinho para ser astro de futebol e muito feio para ser eleito prefeito. O que eu devo fazer com as minhas ambições?".


Produzido numa época em que não havia a chatice do "politicamente correto", o filme está coalhado de diálogos racistas, como o do sujeito (branco) que vê seu amigo abraçado com Foxy e dispara: "Então quer dizer que você gosta de carne escura?". Ou os policiais (brancos) que, mesmo sendo educadamente interpelados por um rapaz de cor, respondem sem meias-palavras: "Aqui não tem problema nenhum, ô negão!".

Fã de carteirinha de FOXY BROWN, Tarantino homenageou-o abertamente em um de seus melhores filmes, "Jackie Brown", onde inclusive resgatou a musa Pam Grier do esquecimento, dando-lhe um novo papel de negra forte e independente, embora agora quarentona (e por isso sem cenas de nudez). Jackie, vale ressaltar, poderia muito bem ser uma versão envelhecida da própria Foxy.

Outras obras recentes também renderam tributo ao ciclo blaxploitation e aos filmes de Jack Hill com Pam, da trilogia slasher "Lenda Urbana" (onde uma vigia negra tinha Foxy Brown como heroína) à comédia besta "Austin Powers Contra Goldmember", que traz uma personagem de black power (interpretada por Beyoncé Knowles) chamada "Foxxy Cleopatra", juntando os nomes das imortais heroínas Foxy Brown e Cleopatra Jones.


Visto hoje, o filme é tão "anos 70" em suas roupas, carros, penteados e comportamentos que soa quase como uma paródia. Os créditos iniciais, com silhuetas de Pam Grier dançando ao som da trilha funk de Willie Hutch, tornaram-se um ícone do ciclo (e até foram citados na abertura da comédia "Superbad - É Hoje"). Já os diálogos, especialmente aqueles dos personagens negros, são de rolar de rir: é "pink-ass corrupt honky judge" pra lá, "white bitch" pra cá, "mothafucka" isso, "nigger" aquilo, e por aí vai.

FOXY BROWN provavelmente foi o maior sucesso da carreira de Pam, que vinha de uma série de participações como figurante em filmes WIP (o famoso ciclo sobre mulheres na cadeia) para tornar-se musa da blaxploitation. Ela interpretaria ainda outras negras valentonas em "Sheba Baby" (1975), onde faz uma detetive em busca de vingança (claro!), e em "Friday Foster" (também de 75), onde caça uma organização especializada em assassinar políticos negros (!!!). Nem Sheba e nem Friday Foster tornaram-se tão memoráveis quanto Coffy ou Foxy Brown, e é inexplicável que estas personagens não tenham dado origem a franquias, como "Cleopatra Jones" ou "Shaft", apesar do sucesso de bilheteria que fizeram na época.


"Quanto mais escura a baga, mais doce o suco, amoreco!"
Com o fim do blaxploitation, Pam caiu no esquecimento e no limbo dos filmes feitos para a TV nos anos 80 e 90, voltando esporadicamente em alguma produção voltada ao público negro. Antes de ser ressuscitada por Tarantino em "Jackie Brown", seus papéis mais memoráveis foram o de uma professora-andróide assassina (!!!) no impagável "A Guerra dos Donos de Amanhã", de 1990, e de um travesti com coragem para encarar Snake Plissken em "Fuga de Los Angeles", de 1996.

É uma pena que a ressurreição da ex-estrela por Tarantino não tenha sido tão eficaz quanto a de John Travolta em "Pulp Fiction", e logo Pam estaria novamente perdida no limbo dos filmes e seriados para a TV, ou então fazendo pontas de luxo em produções tipo "Fantasmas de Marte".

Felizmente, sempre existirão FOXY BROWN e outras pérolas do auge da blaxploitation para lembrar-nos da grande estrela que Pam Grier foi, por mais que estas produções baratas (e extremamente divertidas) sejam "esquecidas" pelos críticos sérios e pelos livros sobre cinema.

Trailer de FOXY BROWN


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Foxy Brown (1974, EUA)
Direção: Jack Hill
Elenco: Pam Grier, Peter Brown, Antonio
Fargas, Terry Carter, Juanita Brown, Sid
Haig e Kathryn Loder.

6 comentários:

Allan Verissimo disse...

Essa fase do blackexpotation chegou a pegar até mesmo com James Bond em COM 007 VIVA E DEIXE MORRER, lembra?

Roberto disse...

Clássico inesquecível, cansei de assistir esse filme e aos do Shaft. Realmente uma pena que essa atriz tenha sumido.

Valter JR disse...

Pam "vai-ser-gostosa-aqui-em-casa" Grier é a melhor coisa desse filme, que eu acho divertido e incorreto, mas não vejo como clássico. Tem seus momentos ótimos, mas tem uns erros que comprometem. Mas que rende uma boa sessão pipoca, rende!

Mário disse...

Opa beleza? tenho um blog de filmes também se estiver disposto dá uma passadinha lá, www.educacaoefilmes.blogspot.com


abraaços!!

Felipe M. Guerra disse...

No livro "Ponche de Rum", de Elmore Leonard, que inspirou o filme JACKIE BROWN, a personagem se chamava "Jackie Burke". O sobrenome Brown foi alterado por Tarantino em homenagem à eterna Foxy Brown.

Anônimo disse...

Pam Grier é maravilhosa.