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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

OLHO POR OLHO (1987)


O período 1984-85 marcou uma bela safra de filmes de ação casca-grossa estrelados pelos astros daquele momento. Entre os maiores sucessos, "Braddock - O Super Comando" (com Chuck Norris), "Comando para Matar" (com Schwarzenegger) e "Rambo 2 - A Missão" (com Stallone), que viraram referência e deram origem a um festival de imitações de pouco ou nenhum brilho.

Nunca foi tão fácil fazer filmes de ação quanto nessa fase pós-Braddock-Commando-Rambo: bastava você pegar um sujeito fortinho e mal-encarado e colocá-lo para correr suado e sem camisa no meio da selva, com um montão de armas nas mãos para matar gente e explodir coisas.

E quando Norris, Schwarzenegger e Stallone não estavam disponíveis, bastava encontrar um nome alternativo para colocar como protagonista e torcer para dar certo.


Produção de 1987, OLHO POR OLHO foi justamente uma tentativa frustrada de lançar um novo astro do gênero: Martin Kove. Não funcionou, e vendo o filme dá para entender perfeitamente o porquê.

O engraçado é que, revisto hoje com outros olhos (ops, trocadilho não-intencional), OLHO POR OLHO funciona por dois outros motivos. Primeiro, é uma fantástica comédia não-intencional, quase uma sátira dos filmes de ação do período, com todo clichê possível e imaginável já visto antes nos filmes de Norris, Schwarzenegger e Stallone. Segundo, tem um elenco tão bizarro que poderia ser redistribuído atualmente como uma brincadeira para fãs de ação estilo "Os Mercenários" ou "Machete".


O fato de ter Martin Kove como protagonista e HERÓI lembra um pouco a brincadeira de Robert Rodriguez em "Machete". Afinal, assim como Danny Trejo (o astro do filme de Rodriguez), Kove até então estava marcado por papéis de vilão no cinema, entre eles o instrutor de karatê malvado da trilogia "Karatê Kid" e o piloto de helicóptero que abandona Rambo no Vietnã em "Rambo 2 - A Missão".

O público não engoliu, e apesar de ter participado de mais alguns filmes "direct-to-video" como protagonista (como "Projeto Mortal", já resenhado por aqui), Kove logo voltou ao seu posto tradicional de vilão e/ou figurante em produções cada vez mais mequetrefes.

Também como "Machete" ou "Os Mercenários", OLHO POR OLHO tem um elenco repleto de caras famosas ou conhecidas, daquele tipo que você bate o olho e diz: "Já vi ele em algum lugar". Veja só: tem Sela Ward como esposa do herói e Soon-Tek Oh como vilão (ele que já tinha enfrentado Chuck Norris em "Braddock 2"). Do lado da lei, temos Ronny Cox ("Um Tira da Pesada", "Robocop"...) e Bernie Casey (Felix Leiter em "007 - Nunca Mais Outra Vez"). Do lado dos malvados, aparecem também Peter Kwong (um dos ninjas voadores de "Os Aventureiros do Bairro Proibido"), Eric Lee (um dos heróis do mesmo filme) e Al Leong (aquele cabeludo de barbicha que é sempre o capanga do vilão em aventuras como "Duro de Matar" e "Máquina Mortífera").


É pouco? Quer mais? Então, também aparecem em estilo "piscou, perdeu" Sarah Douglas (a vilã kriptoniana de "Superman 2") como advogada, Shannon Tweed (estrela da finada Sexta Sexy) como gostosa de biquíni, e o anão Phil Fondacaro ("Bordel de Sangue", "Terra dos Mortos") como bartender. Ah, o IMDB também informa que a ex-esposa de Kurt Russell, Season Hubley (a prostituta devorada pelos canibais em "Fuga de Nova York"), também aparece no filme, mas essa eu não reconheci.

OLHO POR OLHO começa no Vietnã, nos dias que antecedem o final do conflito, e a primeira cena já mostra que é impossível levar o filme a sério: o sub-galã Kove aparece vestido e camuflado como Schwarzenegger no final de "Comando para Matar", coberto de armas e com sua cobra venenosa de estimação (!!!) enrolada no pescoço!


Após uma ação desastrosa que inclui a ameaça de ratos com granadas amarradas ao corpo (ratos-bombas?!?), o herói John Steele (Kove) e seu parceiro Lee (Robert Kim) descobrem que há um traidor no seu batalhão, o tenente Kwan (Soon-Tek Oh), que pretende aproveitar que a guerra acabou para fugir para os Estados Unidos com uma fortuna roubada.

A "discussão" termina com a dupla de heróis baleada e Kwan mortalmente ferido com a lâmina de uma baioneta. Mas é claro que ele sobrevive para infernizar o herói anos depois...

...nos dias atuais (no caso, 1987). Enquanto Steele transformou-se num veterano do Vietnã alcoólatra que não consegue parar num emprego e nem segurar a esposa insatisfeita Tracy (Sela Ward), Kwang tornou-se um milionário e cidadão respeitável, embora por baixo dos panos seja um dos grandes traficantes de cocaína dos EUA. Ele é aquele tipo de vilão de respeito que executa uma família a sangue-frio e horas depois doa milhões de dólares para a construção de um hospital.


Pois embora vivam na mesma cidade, nem Kwang nem Steele conhecem o paradeiro um do outro (aham). Seus destinos voltam a se cruzar quando o vilão ordena a chacina da família de Lee, que agora é um policial da Narcóticos. Todos são mortos, mas, para o azar dos bandidos, Steele estava na casa como convidado para o jantar, e consegue matar alguns dos capangas do vilão e proteger a filha de Lee, Cami (Jan Gan Boyd).

A partir de então, os velhos inimigos voltam a entrar em rota de colisão. Kwang insiste que precisa terminar o serviço e matar Cami a qualquer preço, mesmo que para isso precise mandar homens armados com metralhadoras para um tiroteio num hotel de luxo durante a filmagem de um videoclipe (sutileza zero).


Já Steele declara guerra a Kwang e seu filho Pham (Peter Kwong), e isso envolve entrar com a maior facilidade no arsenal de um quartel do exército (!!!) para roubar armas de grosso calibre - e até um tanque experimental!!! - para o confronto final com os vilões!

OLHO POR OLHO está repleto de todo e qualquer clichê dos "macho action films" do período. Cena inicial no Vietnã, onde começa a desavença entre herói e vilão? Confere. Herói suado e sem camisa, com faixinha amarrada na testa e camuflagem preta no rosto? Confere. Vilões vietnamitas e traficantes de drogas? Confere. Briga no bar? Confere. Interrogatório a pancadas? Confere. Briga na prisão? Confere. Fuga da cadeia vestido com uniforme do guarda? Confere. Vilão usando a amada do herói como refém? Confere. Tiroteio final num armazém abandonado perto do porto? Confere. Melhor amigo morto? Confere. Herói protegendo filho do amigo morto? Confere. Montagem de cenas do treinamento do herói ao som de uma música pop sofrível dos anos 80? Confere. Montagem de cenas em close do herói preparando suas armas para a batalha final? Confere. E por aí vai...


Enfim, é quase uma enciclopédia de clichês dos filmes de ação dos anos 80, com direito a frase de efeito no trailer e no pôster de cinema ("You Don't Recruit John Steele. You Unleash Him."), e um herói com nome curto e fácil de lembrar, Steele, que ainda por cima tem pronúncia parecida com a palavra inglesa steel (aço), o que só pode ter sido intencional.

Se isso, mais a presença de tantos atores conhecidos no elenco, já não fosse motivo mais do que suficiente para recomendá-lo, OLHO POR OLHO ainda tem outras qualidades para confirmá-lo como autêntico "Filme para Doidos".


As cenas de ação, por exemplo, funcionam, embora não tenham nada de muito espetacular. Há um montão de tiroteios, carros explodindo e um pequeno massacre no final, quando também rola uma rápida luta de espadas entre herói e vilão. Está na cara que o filme é barato, mas ainda assim com uma realização bem-cuidada, diferente de quase tudo que Kove faria depois.

Também tem momentos hilários, como quando Kwang usa a esposa de Steele como refém e o herói simplesmente responde "Ex-esposa" antes dar ele mesmo um tiro na moça (depois descobrimos que ela está bem e que o tiro foi apenas de pressão, mas mesmo assim é uma surpresa na hora em que acontece!). Ou a "auto-medicação" de Steele após ser atingido por um dardo envenenado (não pergunte...), cauterizando o ferimento com uma frigideira quente sem nem sequer fazer cara feia! Ou, ainda, a hilária cena da luta na prisão, quando Steele usa um cabo de vassoura como arma, já que algum faxineiro desleixado deixou sua vassoura abandonada EXATAMENTE na porta da cela!!!


O curioso é que Martin Kove tinha potencial para se transformar num divertido herói de ação classe B, mas desperdiçou essa sua chance de ouro por levar o papel de Steele muito mais a sério do que deveria. Na cena final, quando ele se despede do capitão de polícia (Ronny Cox, quem mais?) com um sorrisão maroto na cara, é impossível não ficar pensando que Kove devia ter feito o filme inteiro daquele jeito bonachão, ao invés de tentar "atuar" (ele saiu-se muito melhor no posterior "Projeto Mortal" como herói engraçadinho).

Para encerrar, não sei se Quentin Tarantino viu OLHO POR OLHO (e deve ter visto, porque aquele mala viu tudo), mas é muito provável que tenha se inspirado numa cena daqui. (SPOILER)Acontece que a cobra de estimação de Steele chama-se "Três Passos", porque seu veneno é tão forte que a vítima picada só consegue dar três passos antes de morrer. Dito e feito: um vilão picado pela cobra dá três passos (contados lentamente pelo herói) antes de cair estatelado no chão, exatamente como David Carradine após receber o golpe dos "cinco pontos que explodem o coração" no final de "Kill Bill - Volume 2"!(FIM DO SPOILER)


E se a carreira de Martin Kove não decolou depois dessa bagaça, tampouco a do diretor-roteirista Robert Boris. Depois desse, ele só dirigiu mais três filmes, sendo que o mais conhecido é "Frank & Jesse - Fora-da-Lei", um western de 1995 que quase ninguém viu (apesar do elenco liderado pelos famosões Rob Lowe e Bill Paxton).

Se você está com saudade daquelas aventuras toscas, absurdas e engraçadíssimas da década de 80, em que um sujeito só enfrenta dezenas de vilões e vence, sem nenhuma pretensão de ser realista ou "passar mensagem", não deixe de procurar uma cópia de OLHO POR OLHO. Ele é tudo que "Os Mercenários" quis ser e não conseguiu.

Aliás, falando nele: Ei, Stallone!!! Não deixe de convidar Martin Kove para "Os Mercenários 2"!!!


PS 1: Só para nos lembrar que essa é uma típica produções dos anos 80, temos a participação especial de Astrid Plane (vocal da banda Animotion) cantando num music video que está sendo filmado antes de um tiroteio dos diabos. Para quem não lembra da banda e nem da moça, um de seus maiores sucessos era "Obsession", que você pode ouvir clicando aqui.

PS 2: "Olho no Olho" foi o título nacional que o filme recebeu quando lançado inicialmente no país, pela Transvídeo. Anos depois, a Reserva Especial mandou-o de volta para as locadoras rebatizado como "Steele Justice - O Justiceiro".

Trailer de OLHO POR OLHO



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Steele Justice (1987, EUA)
Direção: Robert Boris
Elenco: Martin Kove, Sela Ward, Soon-Tek Oh,
Ronny Cox, Bernie Casey, Joseph Campanella,
Peter Kwong e Robert Kim.

domingo, 11 de setembro de 2011

GLADIATOR (1986) e BANZAI RUNNER (1987)


Hoje o FILMES PARA DOIDOS ataca com uma Sessão Dupla temática: "Segurança no Trânsito". Vou falar sobre dois filmes completamente diferentes, mas que, por coincidência, foram produzidos na mesma época e abordam tema semelhante: o protagonista resolve fazer justiça com as próprias mãos para vingar o irmão morto em um acidente de trânsito.

O primeiro deles é GLADIATOR, uma produção para a TV de 1986 que pouquíssima gente lembra que foi dirigida pelo respeitado Abel Ferrara, alguns anos antes de cair nas graças da crítica com os policiais "O Rei de Nova York" e "Vício Frenético". Foi reprisado várias vezes pelo SBT e era bastante popular nas locadoras brasileiras quando saiu em vídeo pela Poletel.

O segundo é uma produção muito mais obscura chamada BANZAI RUNNER, segundo dos cinco filmes de um sujeito chamado John G. Thomas, raridade do nosso mercado de vídeo (quem achar a fita lançada pela VMW Filmes ganha um pirulito) e um daqueles tosquíssimos casos em que o título original em inglês ganhou uma "tradução" também em inglês no Brasil, nesse caso "Narco Killer" (o que me lembra o caso "Rawhead Rex"/"Monster - A Ressurreição do Mal"!!!).

Sem mais delongas, vamos analisar a trajetória desses justiceiros das estradas, que com certeza teriam que trabalhar 24 horas aqui nas nossas rodovias brasileiras...


GLADIATOR (1986)


É bem provável que GLADIATOR seja um filme muito mais popular aqui no Brasil do que no país em que foi produzido. Afinal, enquanto por aqui virou clássico da TV aberta (sendo reprisado infinitas vezes no Cinema em Casa com o título "O Gladiador das Ruas") e foi bastante popular nos tempos do VHS, lá fora é até difícil encontrar resenhas sobre a obra. E olha que estamos falando de um filme de Abel Ferrara!

Pois se hoje Ferrara é um nome respeitado, lá atrás, em 1986, seu trabalho ainda era pouco reconhecido, pois estava em plena transição das produções independentes (ele começou fazendo pornô e o terror sangrento "O Assassino da Furadeira" nos anos 70) para o "mainstream", assinando trabalhos para a TV norte-americana, como episódios e "Miami Vice" e o piloto da série "História do Crime".


Talvez o próprio diretor não tenha muito orgulho desse seu telefilme, já que nunca fala sobre ele em entrevistas, nem ao menos há uma edição decente em DVD para fazer a alegria de seus fãs. Seja como for, de tanto passar na TV aberta aqui no país, é bem possível que GLADIATOR tenha educado mais futuros motoristas para os perigos do trânsito do que aquelas aulas fuleiras de auto-escola!

O engraçado é que eu vi o filme através da fitinha da Poletel, ainda moleque, e não lembrava nada sobre ele além do fato de ter como herói um vingador dirigindo uma caminhonete cheia de gadgets, como um canhão disparador de ganchos, que ele usa para "arpoar" os veículos dos infratores como se fossem baleias em alto-mar!


Revendo-o agora, depois de "velho", cheguei a tomar um susto: GLADIATOR tem trama muito, mas muito parecida com "À Prova de Morte", filme de Quentin Tarantino pelo qual não morro de amores. Poderia até ser relançado como sequência ou mesmo prequel deste, por também trazer um psicopata que usa um carro preto (nesse caso, um Dodge Charger 1969) como arma para matar vítimas pela estrada.

A diferença é que o sujeito não mata inocentes aleatoriamente, como o Stuntman Mike interpretado por Kurt Russell no filme de Tarantino, mas sim motoristas imprudentes - bêbados no volante, pessoas que ultrapassam o sinal vermelho. Estes recebem uma punição extrema por seus erros na estrada.


Numa noite dessas, o psicopata comete o erro de atacar a caminhonete em que estão o mecânico Rick Benton (Ken Wahl) e seu irmão menor Jeff (Brian Robbins), provocando um grave acidente. Mas apenas Jeff morre, deixando seu irmão emputecido e ávido por vingança.

Depois de recuperar-se no hospital, Rick usa seus conhecimentos de mecânica para transformar sua velha caminhonete num veículo blindado e repleto de acessórios à la James Bond, assume o codinome "Gladiador" e passa a patrulhar as ruas da cidade à noite, livrando-as de motoristas bêbados e rachadores, ao mesmo tempo em que persegue o psicopata do carro preto para vingar seu irmão.


Qualquer outro cineasta sentado na cadeira de diretor de
GLADIATOR
dificilmente resistiria à tentação de fazer uma história mais fantasiosa, vestindo o herói com algum uniforme ou máscara para combater o crime, por exemplo. Ou então faria seu veículo mais espalhafatoso e "high-tech".

Ferrara escapa dessa armadilha e finca os dois pés no terreno do realismo. Rick Benton continua sendo Rick Benton mesmo quando faz o papel de Gladiador, e tem a sorte de que os maus motoristas que combate na madrugada não conseguem fazer seu retrato-falado depois. Ao cineasta, interessa menos a ação e o "heroísmo" do personagem, e mais o comentário social a respeito do papel do vigilante e da polícia.

Afinal, GLADIATOR é uma história policial séria sobre um psicopata motorizado que pune maus motoristas e que é perseguido por um sujeito igualmente fora-da-lei que se auto-intitula Gladiador e sai pela madrugada fazendo a mesmíssima coisa que o homem que está caçando (embora sem assassinar os infratores, como faz o vilão).


OK, então o "herói" está agindo em nome da lei e da segurança dos outros motoristas? Talvez sim, mas o roteiro lança dúvidas sobre isso - como quando ele ataca um homem que estava correndo apenas para levar a esposa em trabalho de parto para o hospital. Ferrara também destaca que seu "herói" não deixa de ser um fora-da-lei. A discussão sobre certo e errado permeia o filme todo.

Inclusive a gatinha Nancy Allen aparece como uma radialista que comenta e condena as ações do Gladiador em seu programa (uma espécie de J. Jonah Jamenson de saia), ao mesmo tempo em que se envolve romanticamente com Rick sem nem imaginar que ele é o polêmico personagem que ela critica!


A conclusão, claro, envolve um duelo final sobre quatro rodas (oito, no caso) entre Rick/Gladiador e o temido psicopata do Dodge preto, que, quem diria, também tem um veículo cheio de gadgets! O confronto será num ferro-velho e termina de maneira inesperada, comprovando a ênfase de Ferrara no realismo das situações.

GLADIATOR é muito mais movimentado que "À Prova de Morte", já que comparei os dois filmes no começo da resenha. Inclusive alguém podia fazer uma "fan edit" cortando uma hora do bate-papo xarope da obra do Tarantino e adicionando no lugar alguns dos ataques do psicopata do filme de Ferrara, como se fosse o próprio Stuntman Mike (os carros pretos são parecidos).


Entretanto, mesmo mais movimentado e com mais ataques do vilão que "À Prova de Morte", GLADIATOR continua sendo uma aventura bem fraquinha e pouco empolgante. Demora uma eternidade para que Rick finalmente se transforme no Gladiador, e suas ações como vigilante passam longe de ser emocionantes - até porque o herói é bonzinho e se recusa a matar ou sequer agredir os infratores que persegue e pune.

O romance de Rick com a radialista é tão gratuito que não demora a ser esquecido pelo roteiro, e o veterano Robert Culp até parece desperdiçado como um policial cabeçudo que acredita que o Gladiador e o assassino do carro preto são a mesma pessoa. Para piorar, todas as cenas entre as perseguições parecem excessivamente longas, esticadas até o limite do suportável, como se o editor tivesse apenas 60 minutos de material bruto e ficasse repetindo cenas do herói dirigindo para fechar o tempo de um longa-metragem.


Talvez por todos esses problemas, GLADIATOR tenha se tornado um verbete esquecido na filmografia de Abel Ferrara, que, como eu escrevi, não deve se orgulhar muito desse seu trabalho extremamente convencional.

Por falar em esquecido, é bom destacar que o protagonista Ken Wahl era um ator promissor naquela época: fez filmes como "Forte Apache, Bronx" e "Marcados pela Guerra", além de estrelar o seriado de sucesso "O Homem da Máfia". Nos anos 90, Wahl sumiu do mapa. Segundo o IMDB, o desaparecimento aconteceu por causa de sequelas provocadas por um acidente de motocicleta que ele sofreu em 1992.

E eu pensando que Wahl continuava patrulhando as ruas em tempo integral com sua caminhonete...

PS: O cara estiloso e com roupa de justiceiro malvado no pôster do filme NÃO é o Ken Wahl. E ele não usa aquela roupa fodona no filme.


BANZAI RUNNER (1987)


Se o filme anterior tinha um quê de "À Prova de Morte", BANZAI RUNNER (não, eu não vou usar a "tradução" do VHS brasileiro, "Narco Killer", que não faz qualquer sentido) pode ser definido como o avô da série "Velozes e Furiosos".

Compare: no filme que Rob Cohen dirigiu em 2001, Paul Walker interpreta um policial de Los Angeles que, disfarçado, infiltra-se num grupo de criminosos que disputa pegas com carros super-envenenados. Para manter o disfarce, ele próprio precisa se tornar um "rachador".

Já nessa obra aqui, dirigida, co-escrita e produzida por John G. Thomas, o eterno coadjuvante Dean Stockwell (!!!) foi promovido a protagonista e interpreta um policial rodoviário de Nevada que, igualmente disfarçado, infiltra-se num grupo de ricaços que igualmente disputa pegas com carros super-envenenados. Ele igualmente precisa se tornar um "rachador", mas seu objetivo não é apenas manter a lei e a ordem: como Ken Wahl em "Gladiator", ele quer mesmo é encontrar o sujeito que matou seu irmão num acidente na estrada.


É até engraçado comparar BANZAI RUNNER com "Velozes e Furiosos" porque, neste filme de 1987, temos no máximo um "Rapidinhos e Levemente Revoltadinhos". O próprio cinema de ação sofreu uma mudança gigantesca nos 15 anos que separam as obras. E enquanto Paul Walker e sua turma protagonizam perseguições em alta velocidade repletas de CGI a cada 15 minutos, Stockwell tem que se contentar com apenas dois pegas em quase 1h30min de filme.

Detalhe: como em 1987 o CGI não era uma ferramenta popular para realizar cenas de ação, e BANZAI RUNNER é uma produção bem fundo de quintal, os realizadores simplesmente filmaram os carros em velocidade "normal" (90, no máximo 100 km/h) e depois "aceleraram" a velocidade dos fotogramas na montagem, para fazer parecer que os caras estão dirigindo a 200 km/h! Às vezes funciona, mas quase sempre não.


E é até curioso ver Dean Stockwell como "herói de ação", considerando que seu personagem é bunda-mole a maior parte do tempo, demonstrando um mínimo de atitude apenas na cena em que enfrenta um motorista bêbado na estrada.

Seu policial, chamado Billy Baxter, vive com o sobrinho órfão, Beck ("interpretado" por John Shepherd, o Tommy de "Sexta-feira 13 Parte 5"). Algumas das cenas mais engraçadas do filme decorrem da completa incapacidade de atuação de Sheperd. E de momentos esdrúxulos como aqueles em que o jovem insiste em fumar maconha mesmo sabendo que tem um tio-padrasto policial por perto, ou às vezes até do lado (mesmo o mais doidão dos maconheiros evitaria acender um baseado enquanto dirige com o tio-padrasto policial dormindo no banco do passageiro!).


E se em "Velozes e Furiosos" o bicho pega o tempo inteiro, aqui o herói só tem a chance de mostrar suas habilidades de rachador na meia hora final. É quando o policial é despedido da corporação (por insistir em usar um carro envenenado para cumprir suas funções) e aceita uma missão secreta da Narcóticos para se infiltrar na quadrilha que pratica rachas e, nas horas vagas, trafica cocaína.

Baxter descobre que o malvadão da trupe, Syszek (Billy Drago com penteado de Martin Short!!!), é o homem responsável pela morte do seu irmão, e todos os conflitos serão resolvidos na estrada e em alta velocidade.


Apesar da lentidão, da pobreza e das poucas cenas de ação, confesso que fiquei entretido com BANZAI RUNNER. Ok, não é "o" filme sobre rachadores que eu indicaria caso me pedissem dicas de produções com o tema, e a "idade" da produção não influencia em nada, pois "Mad Max" foi feito quase 10 anos antes e é muito mais "veloz e furioso".

Gostei de BANZAI RUNNER justamente por ele oferecer uma abordagem mais realista, quase intimista, de um argumento semelhante ao do posterior "Velozes e Furiosos". Você dificilmente vai engolir o surfistinha Paul Walker como policial, mas Dean Stockwell parece um; é difícil entender as motivações do herói de Walker, mas não as de Stockwell em sua busca de vingança; finalmente, as poucas perseguições e rachas de BANZAI RUNNER são muito mais críveis e menos absurdos do que toda e qualquer cena de "Velozes e Furiosos".


E o filme de John G. Thomas tem algumas bobagens divertidíssimas. Além da teimosia do jovem Beck de acender baseados perto do tio careta, há um momento belíssimo em que uma garota vadiazinha propõe ao rapaz uma brincadeira chamada "Speed Strip", em que tirará uma peça de roupa para cada 20 km/h que ele ultrapassar do limite de velocidade da rodovia! (Mas não se assanhe, o filme não tem nem um único peitinho de fora...)

A pobreza geral da produção também rende algumas gargalhadas, como na cena em que Baxter vai encontrar um mega-executivo dono de dezenas de carrões como Porsches e Ferraris, e o escritório do sujeito tem apenas uma mesinha e um telefone, sem nenhuma decoração ou mobília chique no cenário!


Phil Harnage, que co-escreveu BANZAI RUNNER ao lado do diretor Thomas, antes era roteirista de desenhos animados, como "He-Man" e "She-Ra". Isso talvez explique a presença de personagens como Traven (Charles Dierkop), um mecânico maluco que mata moscas com tiros de revólver! Ele é um personagem tão deslocado na narrativa que parece ter saído de uma história em quadrinhos!

Pelo lado negativo, muita coisa está sobrando no enredo, como a relação atribulada de Beck com sua namorada (um conflito que jamais chega a uma resolução), ou o drama de Baxter estar prestes a perder sua casa para a ex-esposa (um único diálogo sobre isso já bastaria, mas o filme estica esse dramalhão até parecer novela mexicana).


Embora passe longe de ser um grande filme, BANZAI RUNNER é uma obra a ser (re)descoberta. Principalmente pela sua obscuridade (existem poucas resenhas sobre ele mesmo lá nos EUA).

E também porque, hoje, já não se fazem filmes assim, paradões, instrospectivos, realistas, com um quarentão como Dean Stockwell no papel principal e Billy Drago como vilão...

Só tem um grande problema: quem engole um filme sobre carros velozes e rachadores que não passa dos 30 km/h? Ou que parece estar em câmera lenta?

Trailer de GLADIATOR



Créditos iniciais de BANZAI RUNNER



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The Gladiator (1986, EUA)
Direção: Abel Ferrara
Elenco: Ken Wahl, Nancy Allen, Robert Culp,
Stan Shaw, Rosemary Forsyth, Bart Braverman,
Brian Robbins e Rick Dees.

Banzai Runner (1987, EUA)
Direção: John G. Thomas
Elenco: Dean Stockwell, John Shepherd, Charles
Dierkop, Barry Sattels, Billy Drago, Dawn Schneider,
Ann Cooper e Rick Fitts.