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terça-feira, 24 de maio de 2011

Filmes de mentirinha que eu queria ver - Parte 1


"Machete", de Robert Rodriguez, começou com o trailer falso de um filme de mentirinha no início de "Grindhouse", o mal-sucedido projeto conjunto entre Rodriguez e Quentin Tarantino. Mas a ideia de um filme de ação casca-grossa estrelado por Danny Trejo vingou, e Rodriguez resolveu transformar o trailer de mentirinha em um longa de verdade. Entretanto, para muitos (inclusive eu), "Machete" deveria ter continuado apenas como brincadeira, considerando o resultado burocrático do longa inspirado no fake trailer.

Mesmo assim, surgiram notícias de que outros trailers falsos de "Grindhouse" poderiam virar longas, como o slasher "Thanksgiving", de Eli Roth. Teve fã fazendo coro e comemorando a proposta, talvez sem perceber que todas as possíveis cenas legais de "Thanksgiving" JÁ ESTÃO no trailer falso, e tudo que Roth vai fazer, caso realmente transforme o projeto em longa, é filmar as partes chatas entre elas!

Isso me levou a pensar numa série de trailers e filmes fictícios já usados em outras produções, e que poderiam muito bem transformar-se em longas bem mais interessantes que "Machete", "Thanksgiving" e qualquer outro fake preview de "Grindhouse". Acompanhe-me nessa viagem por alguns filmes de mentirinha que INFELIZMENTE são apenas de mentirinha, mas que eu adoraria ver "de verdade":


SAND PIRATES OF THE SAHARA
Em "Cine Majestic" (2001, dir: Frank Darabont), Jim Carrey interpreta Peter Appleton, um roteirista na Hollywood dos anos 50. Antes de sofrer um acidente, perder a memória e dar início à trama, Appleton vai à premiére de seu novo projeto, uma aventura B em preto-e-branco chamada "Sand Pirates of the Sahara". Estrelado por Brett Armstrong (Bruce Campbell de bigodinho!), o filme dentro do filme mostra uma luta de espadas num velho templo e um vilão segurando o mesmo ídolo que Indiana Jones procurava no início de "Os Caçadores da Arca Perdida"! Confesso que essa ceninha curta me deixou curioso para ver um filme B estilo Indiana Jones estrelado por Bruce Campbell. No pôster de "Sand Pirates of the Sahara" mostrado na fachada de um cinema de "Cine Majestic", descobrimos que o diretor da aventura falsa é "Ferenc Árpád" (anagrama que não consegui decifrar) e o produtor, Charles Russell (colaborador de longa data de Frank Darabont)!!!




CHUBBY RAIN
Policiais derretendo, mulheres fatais, alienígenas que invadem a Terra escondidos em gotas de chuva e uma frase de efeito hilária gritada pelo herói no final: "I get you, SUCKERS!!!". Assim é "Chubby Rain", o filme B de ficção científica que o cineasta Bobby Bowfinger (Steve Martin) quer desesperadamente filmar em "Os Picaretas" (1999, dir: Frank Oz). Só que ele precisa de um ator famoso, e, sem dinheiro para pagar um, resolve filmar o astro Kit Ramsey (Eddie Murphy) sem que ele saiba. As cenas hilárias que mostram Bowfinger e sua equipe filmando "Chubby Rain" me fizeram sonhar com um bizarro filme de ficção científica bagaceiro dirigido por Fred Olen Ray ou Jim Wynorski e estrelado por um decadente Eddie Murphy, falido e precisando de dinheiro para pagar o aluguel. O resultado certamente seria tão engraçado quanto aparenta nas cenas do filme dentro do filme. E não tem forma melhor para terminar uma história de invasão alienígena do que o herói olhando para o alto e gritando: "I get you, SUCKERS!!!".




FILME DE TERROR EM "DEMONS"
Quando era moleque e vi "Demons" (1985, dir: Lamberto Bava), jurava que o filme que os personagens assistem no cinema era de verdade. Pena que não é, pois teria potencial para ser um belo terrorzão daqueles que os italianos faziam tão bem. Nas cenas projetadas antes da invasão dos demônios do "filme oficial", vemos um quarteto de jovens (um deles interpretado pelo futuro diretor Michele Soavi) chegando a uma cripta e encontrando o túmulo do profeta Nostradamus. De lá retiram um livro e uma máscara sinistra (homenagem do Bavinha ao clássico do seu pai Mario Bava, "A Máscara do Demônio"). O livro traz uma profecia de Nostradamus sobre o fim do mundo ("Eles farão dos cemitérios as suas catedrais, e das cidades os seus túmulos"), e a máscara, ao ser usada por um dos rapazes, inicia um processo de contaminação que os transforma em demônios à la "Evil Dead". Claro que logo tudo isso se repete dentro do cinema em que os personagens de "Demons" estão e o filme falso é esquecido, mas eu sempre quis saber como ele terminava...





REMOTE CONTROL
"Controle Remoto" (1988, dir: Jeff Lieberman) é um filmaço que quase ninguém viu, o que é uma pena. Conta a história de alienígenas que tentam dominar a Terra através da fita VHS de um velho clássico de ficção científica dos anos 50 chamado "Remote Control"; ao assisti-lo, as pessoas são hipnotizadas e forçadas a matar quem quer que esteja próximo. O curioso é que a trama de "Remot Control", o filme dentro do filme, é muito semelhante à trama do próprio "Controle Remoto" (porque os aliens "se inspiraram" na ideia da obra dos anos 50 para elaborar sua invasão na década de 80!!!). É uma pena que Lieberman não tenha filmado uma versão de "Remote Control" em média-metragem (extras de DVD ainda eram um sonho distante lá em 1988), pois as cenas da ficção fake dos anos 50, em preto-e-branco, são incríveis, com direção de arte propositalmente exagerada e muita criatividade (inclusive uma versão pré-histórica de videocassete).





SLASHER DE CHARLES RUSSELL
Em "A Bolha Assassina" (1988, dir: Charles Russell), dois moleques vão ao cinema para assistir a um slasher movie sem título. A única cena que vemos do filme dentro do filme é um casal namorando junto à fogueira e o namorado reclamando de um sujeito que insiste em podar moitas com uma serra elétrica àquela hora da madrugada. É claro que o jardineiro da madrugada é um assassino mascarado, e é claro que o casalzinho vai se dar mal. Embora não seja nenhuma novidade, fiquei pensando como seria um slasher movie "real" dirigido por Charles Russell, ele que começou a carreira trabalhando com Roger Corman (como assistente de produção de "Cannonball - A Corrida do Século") e produzindo o slasher "Noite Infernal" (1981), de Tom DeSimone. Baseado nessas poucas cenas do filme falso mostradas em "A Bolha Assassina", creio que Russell usaria sua experiência no horror dos anos 80 (ele também dirigiu "A Hora do Pesadelo 3") para fazer um slasher satírico e auto-referencial muito mais interessante do que os "Pânico" do Wes Craven...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

ROBOJOX - OS GLADIADORES DO FUTURO (1990)


Há algum tempo, quando escrevi sobre o trashaço "A Batalha Final", de David A. Prior, aqui no FILMES PARA DOIDOS, ironizei a estupídez de um roteiro em que o destino da humanidade era decidido através do simples duelo corpo a corpo entre dois homens que representavam "o melhor" de duas superpotências, nesse caso Estados Unidos e a extinta União Soviética.

Então, por esses dias, revi a ficção científica ROBOJOX - OS GLADIADORES DO FUTURO, uma daquelas produções classe C da produtora Empire que quase ninguém lembra que existe, e muito menos que foi dirigida por Stuart Gordon (é capaz de o próprio Gordon ter esquecido que fez esse filme).


Eu mesmo tinha algumas memórias bem esparsas sobre o filme, e me surpreendi ao constatar que ele tem uma história tão tosca quanto a de "A Batalha Final" - embora, nesse caso aqui do filme do Gordon, levada bem menos a sério.

A trama se passa 15 anos após uma guerra atômica, e as duas superpotências (EUA e União Soviética, como sempre) decidiram que iriam resolver suas diferenças não mais com bombas nucleares, mas sim com o duelo corpo a corpo entre seus "campeões" (chamados Robojox), estilo "A Batalha Final".

A diferença é que os campeões de cada superpotência não lutam pessoalmente, mas sim "pilotando" enormes robôs gigantes!!!


Você não leu errado, e é claro que quando você passa dos 13 anos de idade toda a proposta do filme se demonstra uma idiotice desde o começo. Afinal, se as superpotências do futuro têm recursos e tecnologia para construírem robôs gigantes avançadíssimos e cheios de armas e equipamentos, por que diabos precisam colocar SERES HUMANOS dentro deles ao invés de programar os robôs para lutarem sozinhos - eliminando, assim, a possibilidade de "falha humana"?

Seja como for, e fechando um olho para a estupidez do conceito, ROBOJOX revela-se um filme razoavelmente divertido, que lembra até, com certo saudosismo, aqueles velhos seriados japoneses com robôs gigantes feitos de plástico, como "Jaspion" e "Changeman".


A trama começa com o Western Market (novo nome dos Estados Unidos) perdendo um de seus principais competidores, que é esmagado pelo robô gigante do grande campeão da Confederação Russa - um psicopata chamado Alexander (interpretado pelo eterno vilão Paul Koslo, de "Projeto Mortal" e "Mr. Majestyk").

Com isso, sobra para o maior campeão do mundo ocidental, Achilles (Gary Graham), a missão de derrotar Alexander e conquistar novos territórios para os EUA. Acontece que, como num gigantesco jogo de War, as lutas entre os robôs determinam a posse dos territórios do mundo para a nação vencedora do confronto robótico (!!!).


Só que a batalha entre os dois arquiinimigos acaba mal: o robô de Alexander dispara um míssil contra as arquibancadas que ficam ao redor do campo de batalha, repletas de inocentes espectadores. Achilles tenta usar seu próprio robô para abafar o impacto da explosão, mas mesmo assim tomba sobre uma das arquibancadas, matando 300 pessoas no desastre!!!

Traumatizado com o incidente, o campeão norte-americano decide parar de lutar. No seu lugar, o Western Market coloca Athena (Anne-Marie Johnson), uma garota que faz parte de um time de jovens manipulados geneticamente para serem guerreiros infalíveis (!!!).

Sabendo que ela não tem nenhuma chance contra o psicótico Alexander, e apaixonado pela moça, Achilles resolve sair da aposentadoria para uma batalha final de robôs gigantes.


Como eu sempre escrevo em relação à maioria dos filmes analisados aqui no FILMES PARA DOIDOS, é preciso fechar um olho (às vezes até os dois) para curtir ROBOJOX.

Na verdade, o filme é bem pior do que eu me lembrava nas minhas memórias de infância, mesmo que tenha algumas coisas muito legais e seja razoavelmente curto, terminando antes de começar a realmente incomodar - embora a conclusão seja abrupta e sem maiores explicações sobre o destino dos personagens e dos conflitos, como se o dinheiro tivesse acabado de repente, ou talvez as ideias...


Stuart Gordon é mais lembrado pelos seus terrores escatológicos inspirados em H.P. Lovecraft, como "Reanimator" e "Do Além", do que pelos filmes de ação/ficção científica que fez nos anos 90. Este foi o primeiro deles, e depois viriam ainda "A Fortaleza" (1992) e "Space Truckers - Piratas do Espaço" (1995), sendo que, na minha humilde opinião, apenas o filme com o Christopher Lambert presta.

Fugindo do estilo que caracteriza a maior parte da sua filmografia, Gordon não abusa da violência e nem do humor negro em ROBOJOX: o filme não passa de uma aventura quase inofensiva voltada ao público infanto-juvenil, e se digo "quase inofensiva" é por causa de uma breve cena de nudez (uma bundinha que aparece bem rápido) e de algum sanguinho aqui e ali.

(E com certeza as crianças veem coisas bem piores no YouTube hoje em dia...)


A indefinição do público-alvo do filme parece ser um dos seus principais problemas. Às vezes ele tenta ser adulto e sarcástico (os guerreiros geneticamente manipulados, por exemplo, foram apelidados de "tubbies" pelos humanos "normais", e quase todos os personagens têm nomes de mitos greco-romanos, como Aquiles, Atenas, Alexandre, Ajax e Hércules). Mas, na maior parte do tempo, o negócio todo é apenas infantil, quase inocente.

Essa indefinição chegou a motivar brigas entre o diretor Gordon e o roteirista do filme, o autor de livros de ficção científica Joe Haldeman, aqui em seu primeiro e único trabalho para o cinema.


Acontece que Gordon queria, abertamente, fazer um filme para crianças, enquanto Haldeman escreveu um roteiro adulto sobre soldados durões que enfrentavam-se até a morte nos duelos com robôs gigantes. Furioso com o resultado do projeto, o autor chegou a declarar que ROBOJOX era como um filho que nasceu saudável e de repente teve morte cerebral!!!

Uma das principais críticas de Haldeman foi em relação aos personagens do filme, que teriam sido transformados em estereótipos pelo diretor. Realmente, além do campeão (ianque) de bom coração e do seu rival (comunista) psicopata, temos um treinador texano que se chama Tex (!!!), que anda sempre com chapéu de caubói, e um cientista chamado Matsumoto - japonês, é claro.


Para piorar o negócio, o herói sem sal interpretado por Gary Graham compromete qualquer identificação do espectador com o que está acontecendo.

O elenco secundário traz alguns colaboradores habituais de Gordon, como Robert Sampson (o reitor de "Reanimator") e Jeffrey Combs (numa participação rapidíssima); o próprio diretor aparece em ponta como o barman do que parece ser o único bar do mundo pós-apocalíptico, já que TODOS os personagens, heróis e vilões, sempre se encontram ali na mesma hora!

Destaque também para uma pequena participação de Hilary Mason, a assustadora médium cega de "Inverno de Sangue em Veneza", aqui interpretando uma cientista sem maior destaque.


Agora, a principal qualidade de ROBOJOX são, claro, as lutas com robôs gigantes. Produzidas através de miniaturas e de efeitos em stop-motion, elas recuperam aquele clima ingênuo de Sessão da Tarde, num trabalho eficiente do saudoso Dave Allen (um dos grandes magos dos efeitos especiais do cinema B da época, falecido em 1999).

Ao ver aqueles robôs lutando em stop-motion, e os criativos truques utilizados pelos realizadores para que o espectador realmente acredite que aquelas miniaturas são robôs GIGANTES (entre eles, o bom e barato chroma-key), eu não pude deixar de pensar em como filmes tipo "Transformers" seriam muito mais charmosos e divertidos com esse tipo de efeito simples e barato, e não com computação gráfica de videogame. (Você pode conferir uma das lutas entre robôs no vídeo abaixo)

Transformers produzido por Charles Band



É uma pena, portanto, que ROBOJOX não funcione do jeito que deveria. Não se sabe quem é o verdadeiro culpado pelo que se vê na tela (o roteirista ou o diretor), mas é duro de engolir que o destino de países esteja nas mãos de dois guerreiros lutando a bordo de robôs - até porque os caras parecem não fazer praticamente nada antes de receber as ordens de seu treinador e equipe via rádio, embora sejam, em teoria, os grandes campeões de cada superpotência!!!

A conclusão moralista para a luta mortal entre Achilles e Alexander (bem parecida com o desfecho de "A Batalha Final") também não ajuda.

E mesmo que a pobreza de ROBOJOX esteja estampada em cada cena da película, esta foi a produção mais cara da Empire Pictures, a produtora de Charles Band, tendo custado cerca de 10 milhões de dólares (uma mixaria perto de um "Transformers", por exemplo).


O filme inclusive teria sido responsável pela falência da Empire: rodado em 1988, ficou na geladeira por dois anos até que o material foi adquirido por outra produtora (Epic Productions) e finalmente finalizado.

Enquanto isso, Band fundou outra empresa (a Full Moon) e dedicou-se a tentar recuperar o prejuízo obtido com ROBOJOX, reutilizando as mesmas miniaturas em outros dois filmes (!!!) sobre robôs gigantes, os divertidos "Rebelião no Século 21" (1990, dirigido pelo próprio Charles) e "Robot Wars" (1993, dirigido pelo seu pai Albert Band).

Ambos foram vendidos como sequências de ROBOJOX em algumas partes do mundo, e, dos três, "Rebelião no Século 21" é o melhor e mais divertido.

Trailer de ROBOJOX - OS GLADIADORES DO FUTURO



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Robojox - Os Gladiadores do Futuro
(Robot Jox, 1990, EUA)

Direção: Stuart Gordon
Elenco: Gary Graham, Anne-Marie Johnson, Paul
Koslo, Robert Sampson, Danny Kamekona, Hilary
Mason, Michael Alldredge e Jeffrey Combs.