sábado, 20 de dezembro de 2008

CANNONBALL (1976)


Você sabe que CANNONBALL é um autêntico FILME PARA DOIDOS, além de um daqueles "clássicos cult" de todos os tempos, só pela cena em que um afrescalhado chefão da máfia (feito pelo próprio diretor do filme, Paul Bartel) come um balde de frango frito e conversa com outros dois mafiosos, interpretados por, veja você, Martin Scorsese (!!!) e Sylvester Stallone (!!!), ambos em participação especial de 30 segundos! É mole ou quer mais?

Se quer mais, então saiba que CANNONBALL é estrelado por uma respeitável galeria de atores conhecidos, como os irmãos Carradine, Gerrit Graham, Mary Woronov e James Keach (irmão do Stacy), e tem mais um punhado de divertidas participações-relâmpago de gente como Dick Miller, os produtores Roger Corman e Don Simpson e os cineastas Joe Dante ("Gremlins"), Carl Gottlieb ("Amazonas na Lua"), Allan Arkush ("Rock'n'Roll High School") e Jonathan Kaplan ("Acusados").


Na época (anos 70), todos eles - inclusive o jovem Stallone - integravam a turma da New World Pictures, a produtora de Roger Corman, e acabaram entrando nisso que se transformou numa bela brincadeira de cinéfilo. Era uma época, também, em que filmes com carros em alta velocidade estavam na moda, apesar de a garotada de hoje achar que bobagens tipo "Velozes e Furiosos" (argh!) são novidade.

CANNONBALL (que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo "A Corrida do Século") faz parte de um ciclo de filmes de perseguições automobilísticas produzido por Roger Corman. Entre as obras, se destacam o cult "Ano 2000 - Corrida da Morte" (1975, também dirigido por Paul Bartel), "Eat My Dust" (1976) e "Grand Theft Auto" (1977, ambos dirigidos pelo hoje famoso Ron Howard).

Este ciclo foi recentemente homenageado por Quentin Tarantino em "À Prova de Morte", como parte do mal-sucedido projeto "Grindhouse", mas ele não chegou nem perto do clima dos filmes antigos.


E foi em 76, logo após o sucesso de "Ano 2000 - Corrida da Morte", que o mesmo Bartel escreveu o roteiro (com Don Simpson) sobre uma famosa corrida ilegal chamada Cannonball.

Com o valor de alguns galões de gasolina e David Carradine, o astro de seu filme anterior, ele rodou esta pequena gema - que alguns desavisados sites informam ser continuação de "Ano 2000...", quando os dois filmes não têm qualquer relação. Curiosamente, no mesmo ano de 76, foi lançado outro filme com o mesmo tema, a comédia "The Gunball Rally".


Tanto CANNONBALL quanto "The Gunball Rally" são inspirados numa famosa corrida fora-da-lei real, criada pelos amigos e pilotos Brock Yates e Steve Smith em 1971, e batizada "Cannonball Baker Sea-To-Shining-Sea Memorial Trophy Dash".

Era, ao mesmo tempo, uma homenagem e um protesto ao sistema rodoviário norte-americano: homenagem porque celebrava a boa condição das estradas, e protesto porque fazia escárnio do reduzido limite de velocidade nas mesmas estradas. O objetivo da tal corrida era pilotar qualquer veículo de quatro rodas de Nova York até Los Angeles, driblando a polícia e outros competidores.

A mesma competição deu origem à famosa comédia "The Cannonball Run" (no Brasil, "Quem Não Corre, Voa!"), em 1981.


E é a tal competição ilegal a verdadeira protagonista deste filme do Bartel: os demais personagens são apenas caricaturas, uma espécie de versão adulta e violenta do desenho "Corrida Maluca", e a graça de CANNONBALL é ver pilotos e veículos se estrepando em fantásticas cenas em alta velocidade, realizadas por dublês, anos antes da computação gráfica tornar fichinha a produção desse tipo de malabarismos.

O nome da corrida ilegal do filme é "Trans-America Grand Prix", com trajeto entre Los Angeles, California e Nova York. O "Cannonball" do título é o apelido do piloto interpretado por David Carradine, Coy "Bala de Canhão" Buckman, ex-presidiário em liberdade condicional que tenta retomar sua carreira no automobilismo justamente vencendo o tal torneio, que dá uma bolada em dinheiro como prêmio.


Junto com Coy, competem outros malucos em máquinas envenenadas, usando de trapaças, golpes sujos e violência para eliminar os rivais pelo caminho e faturar o prêmio. Entre os competidores estão o malvado Cade Redman (Bill McKinney), que pilota acompanhado de um astro da música country (Gerrit Graham, de "O Fantasma do Paraíso"); uma van com três gostosas, conduzida pela estrelinha cult Mary Woronov (que, na vida real, nem sabia dirigir); um alemão arrogante que dirige falando sozinho (James Keach), e até um simpático casal de adolescentes apaixonados (Robert Carradine, irmão de David, e Belinda Balaski, atriz de estimação do Joe Dante).

Num toque de gênio, Coy disputa a corrida auxiliado pelo seu mecânico, Zippo Friedman (Archie Hahn), que pilota um outro carro, idêntico ao seu, para confundir os rivais!


É claro que, à medida que os quilômetros são superados e a rivalidade aumenta, CANNONBALL descamba para incríveis acidentes e explosões. Só duas destas cenas já valem o filme todo: Coy acelerando seu carro para saltar o trecho ainda não-construído de um viaduto (cena que se tornaria clichê do "cinema de velocidade", e aqui realizada com maestria), e um incrível engavetamento envolvendo dezenas de veículos, numa sucessão de batidas e explosões digna do final de "Os Irmãos Cara-de-Pau", de John Landis!

Como os carros e cenas em alta velocidade (filmadas e editadas com maestria) são as verdadeiras atrações, e os atores e participações especiais acabam ficando em segundo plano, torna-se até desnecessário tentar acompanhar a história, que, como no caso de "Ano 2000 - Corrida da Morte", tem vários toques de humor, principalmente aqueles que envolvem os criativos truques usados pelos pilotos para tirar seus rivais da jogada ou para fugir da polícia - destaque para as garotas da van, que seduzem dois policiais para não serem presas por dirigir em alta velocidade! O trailer é uma aula de como vender um filme de ação.


No fim, o espectador se pega até torcendo para que o seu piloto preferido cruze antes a linha de chegada (eu fiz o mesmo em "Quem Não Corre, Voa!"). E é este mosaico de personagens excêntricos e suas rivalidades que transformam CANNONBALL num divertido e barulhento filme de ação à moda antiga. Nem que seja só para curtir as participações especiais.

Resumindo: diversão pura e simples para pessoas de bom gosto. Pena que, ao contrário de "Quem Não Corre, Voa!", que teve duas seqüências, CANNONBALL ficou apenas neste primeiro filme. Seria divertido ver Coy "Cannonball" Buckman encarar outras edições do "Trans-America Grand Prix", disputando quilômetros com outros pilotos ainda mais malucos.

Só espero que o Paul W.S. Anderson, que maculou "Ano 2000 - Corrida da Morte", não invente de refilmar este também.

Trailer de CANNONBALL



****************************************************************
Cannonball (1976, EUA)
Direção: Paul Bartel
Elenco: David Carradine, Bill McKinnney, Veronica
Hamel, Dick Miller, Paul Bartel, Gerrit Graham,
Robert Carradine e Belinda Balaski.

20 comentários:

Thales Oss disse...

Nao vi esse, mas so pelos envolvidos: Carradine, Corman e Stallone é obrigatorio para assistir em uma sessao de "filmes para doidos" =)

Gosto bastante do ator Gerrit Graham, ele fez muitas tralhas "B". E uma pena que hoje em dia ele nao esta fazendo bons filmes.

Bruno C. Martino disse...

O que falta nos filmes de corrida de hoje é um bom coreógrafo de corridas (Err.. é assim que se chama? :P) e usarem carros de verdade ao invés de CGI.

"Corrida da Morte Ano 2000" eu achei bem fraco, acho que envelheceu mal. Qualquer diretor mequetrefe poderia refilmá-lo bem, mas já me disseram que Paul Anderson cagou legal no filme. Já desconfiava disso, só a idéia de fazer o filme se passar numa prisão já denota a cagada.

Allan Verissimo disse...

A trombada de carros nesse filme consegue ser superior a espetacular trombada de carros no climax de OS IRMÃOS CARA-DE-PAU(que é um dos meus classicos da infancia prediletos)?

Thales Oss disse...

O Martino deve adorar o filme do Speed Racer entao =D

Engraçado falarem de Irmaos Cara-de-Pau, ta passando agora no TCM.

Matheus Ferraz disse...

Eu acho que eu fui o único desgraçado que gostou do Death Proof do Tarantino. Acho que ele fica MUITO melhor quando assistido fora do programa duplo do Grindhouse. Não é clássico mas é bacana.

Ronald Perrone disse...

Calma, que você não é o único. Eu também me amarro em DEATH PROOF.

Felipe M. Guerra disse...

Eu vi a versão do Grindhouse e não gostei porque achei que freava a diversão descompromissada do segmento do Rodriguez (além do quê é muito bla-bla-bla para um grande filme de 3 horas de duração). Aí assisti separado, aquela versão de 120 minutos relançada pelo Tarantino, e gostei menos ainda. Se DEATH PROOF fosse produzido pelo Corman nos anos 70, ele teria botado o Tarantino na rua, cortado mais de 1h30min do que ele filmou e rodado por conta própria umas novas cenas de ação e mulher pelada para complementar os tempos mortos da narrativa. Taí um filme de que não consegui gostar - e olha que me esforcei. Aqueles loooongos diálogos sobre o nada me cansaram, e olha que os personagens do Tarantino normalmente são mestres em discutir amenidades (mas neste passam dos limites).

Allan Verissimo disse...

Em DEATH PROOF,não nenhuma conversa digna da impagavel discussão sobre massagem nos pés de PULP FICTION?

Matheus Ferraz disse...

o negócio de Death Proof é que ele não é um filme exploitation, é um filme tarantinesco. nesse sentido eu acho que os trailers falsos de grindhouse ficaram bem mais perto do espírito. é só ver que o Thanksgiving tem mais sacanagem edo que os dois outros filmes inteiros!

Leandro Caraça disse...

Também adoro DEATH PROOF. Esse sim é um legítimo filme grindhouse, ao contrário do PLANET TERROR. Se Corman tivesse produzido nos anos 70, teria surtado com certeza, assim como surtava quando Monte Hellman e Peter Bogdanovich faziam filmes 'artísticos' para ele, quando o que importava mesmo era faturar com violência e peitinhos.

Thales Oss disse...

Se Tarantino corta-se aqueles dialogos que nada acrescentam a trama e coloca-se o "Stunt Man Mike" fazendo nova vitimas ou enrrolando os policiais acho que sairia um bom filme. Agora, nos cinemas deviam exibir primeiro o do Tarantino e depois do Rodriguez, o seguimento do Tarantula é muito lento =/

Allan Verissimo disse...

Tem esse filme em vhs no Brasil?

Felipe M. Guerra disse...

Sim, saiu pela Zircon Vídeo.

Mas para encontrar...

Allan Verissimo disse...

Se esse A PROVA DA MORTE é tão chato como o Felipe diz,então agradeco a deus por Tarantino não ter filmado 007 CASSINO ROYALE nem o remake de SEXTA-FEIRA 13...
Talvez o Felipe poderia filmar um novo SEXTA-FEIRA 13 ai em Carlos Barbosa...é só filmar mulheres semi-nuas e rapazes idiotas sendo atacados por um cara do tamanho de uma porta com uma mascara de hoquei.Asiim até eu!Desde que não passe nos EUA...

Bruno C. Martino disse...

Allan, o Felipe já fez isso. Se bem que o assassino mudava de tamanho durante o filme, hehehe.

Eu achei PLANETA TERROR divertido, mas não acho que se pareça com cinema grindhouse. Aquilo homenageia mais o cinema exagerado dos anos 80. Até "Machete" segue o mesmo estilo. Acho que os únicos que honraram o grindhouse foram o "DON´T" e "THANKSGIVING". O do Zombie também, mas o trailer dele é o mais fraco e sem graça. Já o segmento do "Samuel Rosa" (Taranta) não vi ainda.

E colocarem um filme de 3 horas nos cinemas foi burrice do Tarantino/Rodriguez/Weinstein Bros. Eles deveriam ter feito filmes de 1 hora no máximo e depois relançar em DVD as versões completas. É idéia de jerico eu sabia que o filme ia fracassar por causa disso, as pessoas "normais" não são como a gente que aguenta isso.

É mole, filme de 3 horas e nem devia ter intervalo! Poderiam fazer como os italianos que dividem qualquer filme que seja em PRIMO e SECONDO TEMPO e colocar uns anúncios da bomboniére no intervalo. Ia ficar muito grindhouse! :D

PS: Felipe, te parabenizo pelo artigo dos movie gimmicks! ;)

Allan Verissimo disse...

Também adorei a reviravolta final de CLUBE DA LUTA.

Thales disse...

Nao preciso nem dizer que os fanaticos de Rob Zombie defereram com unhas e dentes o trailer dele. Apesar de ser bem Grindhouse como Bruno disse, o trailer do Zombie é bem fraquinho a unica coisa boa é o elenco: Bill Molesey, Tom Towles, Udo Kier e um "estranho" Fu Manchu =P

Allan Verissimo disse...

Ué,como é que convenceram Martin Scorsece a participar desse filme?

Leandro Caraça disse...

Como se Scorsese já tivesse nascido famoso, prestigiado, rico e com o Robert de Niro a tiracolo.

spektro72 disse...

comentario atrasado ,pois na epoca o meu computador era um lixo ,mas aqui vai este filme e um espetacular filme de corrida apesar que eu gostou mas do "ANO 2000 - A CORRIDA DA MORTE " exibido pela ultima vez na TV Aberta la na decada de 80 na TV RECORD,o filme mencionado GUNBALL RALLY passou no SBT na SESSAO FIM DE NOITE EM 2002 eu particularmente gosto mais deste filme de corrida do estas porcarias como :VELOZES & FURIOSOS etc...
filme lançado em VHS pela ZIRCON FILMS empresa na epoca que pertencia á F.J.LUCAS NETTO VIDEO.
valeu por este post Mestre Felipe e desculpe o comentario atrasado e que estou com tempo e relendo vosso post e colocando somente agora os meus desnecessarios e pateticos comentarios,ok!
Um Abraço deste discipulo Spektro 72