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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

GYMKATA - O JOGO DA MORTE (1985)


Imagine, só por um minuto, que você é o chefe da "SIA" (Special Intelligence Agency!!!) e precisa despachar um agente para defender todo o mundo ocidental numa missão arriscadíssima, repleta de espiões, traições, ninjas e perigos. E aí, quem você escolheria para a missão? Jack Bauer? Os Boinas Verdes? O agente 007? John Matrix e Stallone Cobra?

Digamos que todas essas são ótimas opções. Mas que tal ser ousado e original, escolhendo um decadente campeão de ginástica olímpica (!!!), para então treiná-lo em karatê (em algumas poucas semanas) e finalmente enviá-lo para arriscar o pescoço e a segurança de todo o Ocidente?

Pois é exatamente essa a opção do chefão da SIA em GYMKATA, um impagável e hilário filme de ação dos anos 80 que começa absurdo desde a premissa - afinal, se um campeão de ginástica olímpica pode mesmo ser tão letal quanto é mostrado nesse filme, então nossa Daiane dos Santos seria uma autêntica arma de destruição em massa! (Sorte que o Bush tinha birra com o Iraque e não notou...)


GYMKATA foi dirigido por Robert Clouse em 1985. Mais conhecido por ter assinado dois sucessos estrelados por Bruce Lee ("Operação Dragão" e "O Jogo da Morte"), Clouse ficou marcado como diretor de artes marciais, mas naqueles tempos encontrava-se em tempos de vacas magras.

Aí algum espertalhão teve a idéia de tirar o sujeito da aposentadoria e dar-lhe mais uma aventura de artes marciais, mas com essa idéia estapafúrdia de ter um ginasta como herói, no lugar de um lutador "de verdade".

Essa "honra" coube a Kurt Thomas, um ginasta igualmente decadente na época, e que havia ganhado várias medalhas de ouro em competições mundiais de ginástica nos anos 70 - mas nunca chegou a participar das Olimpíadas, sua grande frustração.


GYMKATA é o primeiro e único filme de Thomas como protagonista (algo plenamente justificável, considerando sua atuação sofrível), e sua "carreira" se encerrou com apenas mais uma participação, agora como coadjuvante, numa produção obscura de 2003.

Além de péssimo ator, Kurt Thomas tem tudo de ruim: é feio, desengonçado, tem cabelo mullet e é nanico demais para convencer nas inúmeras cenas de ação do filme (nossa, isso ficou parecendo crítica do Rubens Ewald Filho!). A batata-quente ficou nas mãos do diretor de fotografia, que na maior parte do tempo filma o "ator" de baixo para cima, tentando "aumentar" seu tamanho.


A história é inspirada no livro "The Terrible Game", escrito por Dan Tyler Moore em 1957, e filmada na Iugoslávia, que aparece transformada num fictício país chamado Parmistão. Ali, uma pequena vila realiza uma dura prova conhecida como "O Jogo", em que campeões do mundo inteiro precisam superar uma série de provas enquanto são implacavelmente perseguidos pelos melhores guerreiros parmistanenses.

Quem chegar ao final do Jogo tem o direito de fazer um desejo (?!?) ao rei do Parmistão. Quem ficar pelo caminho, morre. Simples, não? Ah, creio que seja relevante informar que, em 900 anos, "O Jogo" não teve nenhum vencedor. Mas eles continuam tentando! Logo, sejamos otimistas...


Eis que a SIA pretende enviar um representante norte-americano para vencer o Jogo e usar seu desejo (hahahaha, não consigo não rir disso...) para adquirir a autorização do rei do Parmistão para instalar um sistema de satélites de defesa no país - mas pode esquecer isso, são apenas burocracias do enredo.

E o que o governo norte-americano faz? Recruta o atleta Jonathan Cabot (Thomas), cujo pai - um agente secreto - foi considerado desaparecido no Parmistão há algumas semanas. Cabot passa alguns dias sendo treinado por especialistas em artes marciais ao estilo Pai Mei em "Kill Bill", e desse treinamento nasce a tal "gymkata": uma mistura das habilidades de Jonathan como ginasta com os movimentos do karatê. Acredite, os caras levam isso a sério no filme!


Nesse meio-tempo, também, o jovem agente secreto ginasta apaixona-se pela Princesa Rubali (Tetchie Agbayani), filha do rei do Parmistão.

Após uma série de perigos envolvendo traidores e espiões, que são facilmente vencidos por Jonathan com seus movimentos de gymkata (hahahaha), a comitiva norte-americana finalmente chega ao Parmistão, onde vários campeões mundiais preparam-se para o jogo.

Aí, nosso herói descobre que sua amada está prometida em casamento para Zamir (Richard Norton, estrela de vários filmes de ação classe C da época), um dos melhores guerreiros do país, além do líder do time que irá caçar (e tentar matar) os participantes do Jogo no dia seguinte. Será que tendo Jonathan como rival pelo coração da princesa ele vai levar a coisa para o lado pessoal?


GYMKATA foi um fiasco na época do seu lançamento, e não é difícil imaginar o porquê. Com o tempo, entretanto, ganhou certa fama cult, justamente pela sua ruindade, entrando sempre em destaque nas listas de piores filmes de todos os tempos.

O auge da popularidade dessa divertida bomba veio em 2006, quando, nos EUA, a Warner Bros. e a Amazon.com fizeram uma enquete na internet para que cinéfilos do mundo todo escolhessem algum título ainda inédito do catálogo do estúdio para ser lançado em DVD. Pois GYMKATA ganhou de lavada, recebendo seu próprio disquinho em 2007.


A verdade é que o filme de Clouse é divertidíssimo - pelos motivos errados, óbvio. Some a péssima atuação de Kurt Thomas com o absurdo da situação toda (um ginasta karateka?), mais a história bisonha (como engolir esse lance do "desejo"... hahahaha... para quem vencer um jogo estúpido de resistência?) e a quantidade colossal de buracos no roteiro e situações forçadas, e pronto: temos um candidato a clássico instantâneo do FILMES PARA DOIDOS!

Só para o leitor ter uma ideia dos furos do roteiro: durante o Jogo, Jonathan enfrenta a fúria do rival Zamir, que quer matá-lo a qualquer custo. Mas não parece.


Quando os competidores precisam escalar uma corda até o topo de uma fortaleza, por exemplo, Zamir e seus guerreiros derrubam vários dos participantes com flechadas certeiras. Pois quando Jonathan está no meio da escalada, Zamir resolve não usar as flechas (que significariam morte certa), mas sim incendiar a corda por onde o rapaz sobe (!!!). Desnecessário dizer que o herói escapa, né?

Mais adiante, nova estupidez: os competidores precisam agarrar-se a uma corda para atravessar um penhasco enorme. Novamente, Zamir e seus guerreiros usam flechadas certeiras para derrubar todos os outros participantes. Mas quando Jonathan está no meio da travessia, o que faz seu rival? Descarta as flechas mortais (óbvio) e corta uma das extremidades da corda, esquecendo que o ginasta poderá utilizá-la como "cipó" e brincar de Tarzan para balançar-se até o outro lado do penhasco! Dã...


E nada pode preparar o espectador para os 20 minutos finais de GYMKATA, quando Jonathan enfrenta a última etapa do jogo: atravessar uma vila-fantasma sendo atacado por seus moradores.

Maltrapilhos e armados com machados e forcados, os caras parecem zumbis ou fantasmas, e inclusive agem como tal, numa cena que parece saída de algum filme de horror barato - e que destoa totalmente do clima até então! Tem até um sinistro sujeito com duas caras, como você pode ver na foto abaixo:


Embora Robert Clouse tenha dirigido o filme "a sério", às vezes ele solta umas evidências de que parece estar levando a coisa meio na brincadeira, como se aquilo fosse uma sátira ao gênero, e não uma aventura convencional.

Evidência número 1: Um personagem explica a Jonathan que ele irá viajar para "Karabal, no Mar Cáspio". Um segundo depois, a cena corta para um navio no mar com a legenda repetindo literalmente o que o sujeito falou: "Karabal, on the Caspian Sea"!


Evidência número 2: Jonathan sempre se dá bem nas cenas de perigo porque seus inimigos são muito burros. Por exemplo, eles preferem descarregar a munição das suas metralhadoras em paredes e garrafas, e depois ficam sem balas para acertar o herói!

Evidência número 3: Sempre que alguém cai de um penhasco ou de uma grande altura, a sonoplastia usa efeitos de desenho animado (aquele TUMPF! exagerado de quando o Coiote se estatela no desenho do Papa-Léguas).


Mas verdade seja dita: trash involuntário ou não, GYMKATA nunca é chato. Pelo contrário, é um filme de ação movimentadíssimo, em que acontece um tiroteio ou perseguição seguida de luta a cada cinco ou dez minutos.

Se Kurt Thomas não convence como ator, até que ele vai muito bem como lutador de "gymkata" (hahaha), embora suas habilidades como ginasta se resumam a dar pulinhos e piruetas bem boiolas por cima dos inimigos.

Somente no final é que o herói começa a mostrar uns movimentos realmente legais, tipo umas tesouras voadoras e malabarismos sobre um "cavalo" improvisado (o aparelho de ginástica, não o animal). Essa cena, sozinha, já vale o filme todo, e como eu sou camarada vou até postar aqui para vocês conferirem:

Como vencer uma vila inteira com ginástica olímpica
(Mas eles precisam atacar um de cada vez!)



E depois que você esquece que a tal "gymkata" (hahaha) não passa de uma baita estupidez, até que as cenas de luta são bem interessantes, além de bem filmadas e coreografadas, com a câmera abrangendo o cenário e os atores de corpo inteiro fazendo seu showzinho, sem os closes estapafúrdios e cortes rápidos que estragam as cenas de ação nos filmes atuais.

Além disso, a coisa toda tem aquele climão de aventura pobre do 007, com perigos e traições em países exóticos, inimigos exagerados, tiros e pancadarias. E, claro, as habilidades sobrenaturais do herói, capaz de vencer 30 inimigos sem disparar um único tiro, apenas com sua "gymkata" (hahahaha).


Visto com o devido clima e humor, GYMKATA é um filme bem divertido, que merece ser redescoberto por uma nova geração de cinéfilos. Trash até a medula, sim, mas daquele tipo que você ri, faz piada, vibra e até se espanta com algumas qualidades que ninguém parece ter percebido.

Que sirva de lição para o governo brasileiro, também: na próxima ocupação de favela no Rio, mandem a Daiane dos Santos e a Daniele Hypólito junto com o Bope. Se as duas usarem "gymkata" contra a marginália, vai ser uma verdadeira chacina!


PS 1: Ao ser lançado em VHS no Brasil, GYMKATA ganhou o dispensável subtítulo "O Jogo da Morte", talvez para linkar com o conhecido filme póstumo do Bruce Lee que Clouse dirigiu. Pensando bem, podia ser pior - algo como "Operação Gymkata - O Jogo da Morte".

PS 2: Se GYMKATA tivesse feito sucesso, qual seria o próximo projeto de Robert Clouse? KARATANGO, sobre um dançarino de tango treinado em artes marciais para combater um ditador na Argentina? Ou MIMITÊ, que traria o famoso mímico francês Marcel Marceau aliando mímica e karatê contra algum terrorista europeu?

Opa, é melhor não dar ideias...

Trailer de GYMKATA - O JOGO DA MORTE



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Gymkata - O Jogo da Morte
(Gymkata, 1985, EUA)

Direção: Robert Clouse
Elenco: Kurt Thomas, Tetchie Agbayani, Richard
Norton, Edward Bell, John Barrett, Conan Lee,
Bob Schott e Buck Kartalian.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

WHOOPS - APOCALYPSE JÁ! (1986)


Minha infância e pré-adolescência foi na década de 80. À época, eu estava muito ocupado me divertindo para entender os graves problemas daquele período, como a hiperinflação (que fazia os preços mudarem de um dia para o outro, às vezes até no mesmo dia) ou a lenta abertura da Ditadura para a Democracia, com o movimento Diretas Já!

Mas mesmo não sabendo direito o que era a Guerra Fria (entre Estados Unidos e União Sovitética), eu sabia que vivíamos tempos paranóicos e terríveis, em que a qualquer momento um dos lados podia apertar um botão vermelho e explodir o mundo inteiro, inclusive quem, como eu, não tinha nada a ver com a história (e imagine o que faz esse medo na cabeça de uma CRIANÇA, principalmente depois que vi o chocante "O Dia Seguinte" na Globo).


Hoje a gente olha para trás e respira aliviado, até dá risada daquela tenebrosa corrida armamentista que parece tão distante (embora as bombas nucleares ainda estejam estocadas por aí).

E uma das melhores maneiras de lembrar/rir do medo da Terceira Guerra Mundial é uma obscura comédia inglesa que quase ninguém viu, mas eu considero uma das mais geniais dos anos 80, e uma verdadeira síntese do que foi aquela década: WHOOPS - APOCALYPSE JÁ!

O título original (apenas "Whoops Apocalypse!", algo como "Opa, Apocalipse!") já ironiza a iminência de uma guerra nuclear por qualquer bobagem, dependendo do humor de quem estava com o dedo no botão vermelho - medo muito comum na época em que o filme foi feito.


Lançado em VHS no Brasil pela saudosa Hipervídeo, WHOOPS - APOCALYPSE JÁ! pode ser descrito como uma caótica mistura de "Dr. Fantástico", do Kubrick, com o humor do grupo inglês Monty Python.

Se Stanley Kubrick já tinha feito piada com a Guerra Fria e com o medo da bomba lá em 1964, a comédia de Tom Bussmann (quem?) atualiza esse mesmo medo para a caótica década de 80, a famigerada Era Reagan/Thatcher, oscilando entre inteligente sátira política e humor nonsense.

O filme começa quando Santa Maya, uma pequena (e fictícia) colônia britânica na América Central, é invadida pelo (igualmente fictício) país vizinho, Maguadora, num golpe militar encabeçado pelo terrível general Mosquera (Herbert Lom).


O caso faz referência a um triste episódio verídico: a Guerra das Malvinas, em 1982, quando Argentina e Inglaterra disputaram no tiro o domínio das ilhas de mesmo nome. Os hermanos, claro, se deram mal, num capítulo ainda traumático de sua história (se você visitar a Argentina, verá várias placas dizendo "As Malvinas são argentinas" espalhadas pela estradas!).

A invasão logo se transforma num delicado incidente internacional, que põe em rota de colisão os líderes das principais nações. O primeiro-ministro inglês, Sir Mortimer Chris (Peter Cook), quer aproveitar sua enorme popularidade para bombardear Maguadora e recuperar a colônia para a Inglaterra. O político é tão popular que basta passar em frente a uma janela, em qualquer momento do filme, para ser ovacionado pelo povo!

Por outro lado, os Estados Unidos tentam fazer papel de mediador do conflito sem a necessidade de uma guerra. Entra em cena a vice-presidente Barbara Adams (Loretta Swit), uma boçal que assumiu o comando da nação depois da morte do titular, que era ex-palhaço de circo (numa brincadeira com o passado de ator do presidente norte-americano da época, Ronald Reagan).


Só que, para complicar a situação, o terrorista internacional Lacrobat (Michael Richards, o Cosmo Kramer do seriado "Seinfeld") sabota todas as tentativas de negociar a paz, levando os países a um conflito que pode ser o estopim para a Terceira Guerra Mundial. Principalmente quando os russos entram na jogada com uma base de mísseis secreta, e a princesa inglesa Wendy (uma gozação com a então ingênua princesa Diana) é sequestrada por Lacrobat e Maguadora leva a culpa!

WHOOPS - APOCALYPSE JÁ! é um filme que vi ainda garoto, e obviamente não entendi direito toda a parte da sátira política, mas mesmo assim curti pelo seu humor negríssimo, do tipo "Seria cômico se não fosse trágico".


Acompanhe: a trama também envolve um almirante inglês durão, mas homossexual (Ian Richardson), que é a peça-chave para o final brilhante, uma das conclusões mais absurdas e surpreendentes da história do cinema - daquelas em que você se pega olhando para os créditos finais subindo e pensa: "Puta que o pariu!".

Outra alfinetada política vai para o ex-presidente norte-americano Richard Nixon (na época, ainda vivo), satirizado no filme através do personagem do ex-presidente Jack "Mate os Comunistas" Preston (Murray Hamilton), que é procurado na cadeia (!!!) pela sua sucessora em busca de conselhos políticos.


Quem viveu nos anos 80 certamente vai achar o filme muito mais engraçado. Herbert Lom, por exemplo, faz uma caricatura daqueles generais das repúblicas das bananas, que estavam sempre nas capas dos jornais por darem um golpe de estado por semana.

Numa cena hilária, ele se reúne com sua cúpula e todos na sala usam enormes óculos escuros, até a imagem de uma santa num pedestal, brincando com a imagem desses ditadores sul-americanos (como Pinochet e até o nosso Costa e Silva), que sempre apareciam em público com enormes óculos escuros e caras de buldogue.


Mas quem rouba a cena é Peter Cook como o dócil primeiro-ministro que, na metade do filme, subitamente enlouquece, mas é tão popular que suas ordens continuam sendo inquestionavelmente seguidas pelo povo - mesmo quando ele sugere combater o desemprego atirando 10 mil pessoas empregadas de um penhasco para liberar suas vagas nas empresas! O personagem parece uma versão inglesa do general Jack Ripper, de "Dr. Fantástico".

Lá pelas tantas, com a ajuda da CIA, seus aliados políticos tentam matá-lo num atentado mirabolante envolvendo ácido na banheira, mas só conseguem corroer sua mão (que ele pôs na água para testar a temperatura). Pois o enlouquecido primeiro-ministro até fica feliz em substituir a mão perdida por um gancho de pirata (!!!), e começa a crucificar seus conselheiros em praça pública!


Entre os hilários momentos "não-políticos" de WHOOPS - APOCALYPSE JÁ!, o auge da loucura é quando os líderes mundiais descobrem que a princesa sequestrada está sendo mantida refém num museu de cera. Uma unidade do exército inglês é enviada para o resgate, e simplesmente entram no local atirando e destruindo tudo.

No final, o comandante faz a contagem de cadáveres e comemora: "Perdemos 11 homens, mas os bonecos perderam 28". A cena completa, hilária e repleta de humor negro, pode ser vista no vídeo abaixo e já dá uma idéia do tom do filme:

A invasão ao museu de cera


Outras gags visuais envolvem a presidente dos Estados Unidos, sempre acompanhada de dois seguranças brutamontes, mesmo quando está nadando ou deitada em sua cama. Os brucutus espancam todos que tentam se aproximar da presidente, incluindo uma pobre menininha que vai oferecer um ramalhete de flores à governante!

Mas é bom não falar muito mais para não estragar as surpresas. Afinal, esse é mais um daqueles filmes tão obscuros e desconhecidos que dá gosto de "descobri-los" - uma entre inúmeras pérolas perdidas e/ou esquecidas do nosso mercado de vídeo.


Pesquisando para escrever essa medíocre resenha, descobri que WHOOPS - APOCALYPSE JÁ! é uma espécie de remake de um seriado de TV britânico exibido em 1982, e que tinha o mesmo nome, "Whoops Apocalypse!".

Com seis episódios de meia hora, a série também brincava com a idéia de uma Terceira Guerra Mundial, mas a história pegava ainda mais pesado (mostrando uma explosão atômica em Israel e com a participação do Irã, um dos maiores inimigos do "mundo ocidental" na época). O elenco era todo diferente, com o ex-Monty Python John Cleese interpretando o terrorista Lacrobat. Isso me deixou curioso para ver a série.


No Brasil, não lembro de WHOOPS - APOCALYPSE JÁ! ter tido grande repercussão na época do seu lançamento. Só lembro das críticas do Guia de Filmes Nova Cultural (com apenas uma estrelinha, detonando a produção) e de uma surpreendente resenha positiva escrita pelo super-mala Rubens Ewald Filho, que também comparou o filme a "Dr. Fantástico".

Engraçado era ler, no verso da capinha da Hipervídeo, a escabrosa propaganda falsa: "A gloriosa direção é de Tom Bussman (sic), cuja fama como diretor de humor é notória". Tão notória que o sujeito só fez esse filme, e antes havia dirigido um único episódio de um seriado de humor lá na Inglaterra. Se isso bastou para ter uma "fama notória", o que aconteceria se Bussmann tivesse feito outro filme? Sua fama viraria "lendária"?

Embora às vezes seja mais bagunçado/caótico do que propriamente engraçado, WHOOPS - APOCALYPSE JÁ! é um filme que eu recomendo com louvor, e que colocaria sem pensar duas vezes em qualquer lista das comédias imperdíveis dos anos 80.


E se parecerá mais divertido para quem viveu na época - e lembra de coisas como a Era Reagan e a Guerra das Malvinas, e personagens como Margaret Thatcher e a princesa Diana -, hoje também serve como brilhante retrato satírico de uma época de paranóia e medo nuclear, que por muito pouco não teve a mesma conclusão do filme. Acredite: não seria nada engraçado!

Encerro com uma dica: se "Dr. Fantástico" e WHOOPS - APOCALYPSE JÁ! representaram tão bem os problemas políticos e medos de suas épocas, já está mais do que na hora de alguém com muita coragem fazer uma comédia anárquica sobre esses nossos tempos atribulados (programa nuclear do Irã, ocupação do Iraque, o fiasco das "armas de destruição em massa" inexistentes).

Afinal, às vezes é melhor rir para não chorar...

Trailer de WHOOPS - APOCALYPSE JÁ!


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Whoops - Apocalypse Já! (Whoops
Apocalypse!, 1986, Inglaterra)

Direção: Tom Bussmann
Elenco: Loretta Swit, Peter Cook, Herbert Lom,
Murray Hamilton, Shane Rimmer, Ian Richardson,
Michael Richards e Rik Mayall.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A NOIVA E A BESTA (1958)


(Aproveitando o "gancho símio" da última atualização - com "The White Gorilla" -, preparem seus cachos de bananas que hoje tem mais macacos tarados e/ou assassinos aqui no FILMES PARA DOIDOS!!!)

O lendário Edward D. Wood Jr., ou simplesmente Ed Wood, é reconhecidamente um dos piores diretores da história da sétima arte, responsável por filmes tão ruins e baratos que se tornaram divertidíssimos clássicos trash, como "Bride of the Monster" e o já clássico "Plan 9 From Outer Space".

Agora responda rápido: o que pode ser pior que um filme dirigido por Ed Wood?

Ora, um roteiro escrito por Wood e filmado por um cara ainda pior do que ele!


Por mais incrível que possa parecer, considerando a qualidade nula de seus filmes mesmo para os padrões da época, Wood foi roteirista contratado para diversas produções de terceiros, que são ainda piores do que as pérolas dirigidas pelo próprio Ed.

Entre seus trabalhos exclusivamente como roteirista estão bombas do calibre de "The Violent Years" (1956, dirigido por William Morgan), sobre delinqüência juvenil; "Orgia da Morte" (1965, de A.C. Stephen), sobre shows de striptease feitos por assombrações (!!!) num cemitério, e "One Million AC/DC" (1969, dirigido por Ed De Priest), onde homens pré-históricos lutam contra ridículos dinossauros de borracha.


Mas uma das obras mais antológicas de Ed Wood como roteirista chama-se "The Bride and the Beast, ou, no Brasil, A NOIVA E A BESTA, de 1958. Este filme barato de aventura e horror é o único dirigido por Adrian Weiss, que contratou Wood para escrever o roteiro baseado numa idéia original sua.

(Ainda não consegui descobrir se Adrian tinha algum parentesco com George Weiss, um famoso produtor de filmes "sexploitation" daquela época, que entrou para a história como o homem que deu a primeira chance a um então iniciante Ed Wood, financiando seu debut como diretor, o lendário "Glen or Glenda?", de 1953.)


A NOIVA E A BESTA é aquele tipo de zorra total que só pode ter saído da cabeça de um lunático como Wood - e que só encontra espaço nobre num blog como o FILMES PARA DOIDOS.

Sua história mistura elementos dos "gorilla movies" tradicionais do período (com sujeitos metidos em ridículas fantasias de macaco), de aventuras sobre a vida na selva (neste caso, os ataques de dois tigres indianos que fugiram do zoológico) e até, acredite se quiser, uma inacreditável trama sobre reencarnação, onde uma inocente garota descobre que, numa vida passada, foi... um gorila!!!


O filme começa apresentando os recém-casados Dan Fuller (interpretado por Lance Fuller) e Laura (Charlotte Austin). Ele é um experiente caçador que tem a mansão repleta de troféus de caça, como animais selvagens empalhados, e ela é uma garota meio maluca com fetiche por materiais felpudos, como o angorá.

O casal Fuller irá comemorar sua lua-de-mel com... um safári na África! Mas Dan resolve passar a noite anterior à viagem em sua própria casa. Ali, acredite se quiser, há uma câmara subterrânea secreta, onde o caçador guarda enjaulado um gigantesco gorila chamado Spanky (!!!!), que ele aprisionou quando ainda era filhote.


É nesse momento que começam os problemas: Spanky (hahahaha) parece se apaixonar por Laura, e, durante a noite, escapa de sua jaula, sai milagrosamente da câmara subterrânea secreta e sobe até o quarto onde o casal de recém-casados dorme em camas separadas (!!!).

Ali, começa a acariciar e cheirar a pobre Laura, que sente-se estranhamente atraída pelo gorila e resolve não gritar por socorro. Mas Dan acorda e, talvez com medo de levar corno de um símio, saca seu revólver, enchendo Spanky de tiros.


No dia seguinte, o pobre marido chama até sua casa um amigo médico, o dr. Carl Reiner (interpretado por William Justine; curiosamente, um conhecido diretor de comédias dos anos 80-90 também se chama Carl Reiner!), para examinar Laura.

O doutor resolve hipnotizar a garota e tentar uma experiência de regressão, quando ele e Dan descobrem, estupefatos, que a inocente garota havia sido um feroz gorila numa outra vida!


Reiner então desperta Laura do seu transe, mas não fala nada sobre o que descobriram com a regressão. Ele também orienta ao marido que evite levá-la para a África, devido aos traumas recentes, mas é claro que Dan não escuta.

Fielmente seguidos pelo escravo africano do caçador, Taro (Johnny Roth, branco maquiado para parecer um nativo, que fica o filme inteiro repetindo "Yes, bwana!"), Dan e Laura chegam à África (obviamente, as cenas foram todas gravadas em um matagal qualquer na Califórnia mesmo).



Mas não há tempo para lua-de-mel, pois Dan é imediatamente recrutado pelo capitão Cameron (Gil Frye) para capturar ou matar a tal dupla de ferozes tigres fugitivos, que anda devorando nativos nas redondezas. Enquanto o marido se ocupa da difícil função, Laura se vê às voltas com seu misterioso passado como gorila, exercendo um estranho fascínio sobre estes animais.

Quem gosta de trash e de filmes na linha "quanto pior, melhor" (o público do FILMES PARA DOIDOS, enfim) não pode perder A NOIVA E A BESTA, possivelmente uma das maiores bobagens já filmadas.

Se já parece impossível levar a sério a história de uma garota que é reencarnação de um gorila (!!!), espere só para ver momentos como Dan lutando corpo a corpo com um tigre visivelmente empalhado, ou a conclusão completamente sem pé nem cabeça que Wood inventou para o drama de Laura - digamos apenas que é de rolar de rir.


Muitos filmes baratos do período costumavam roubar cenas de outras produções mais endinheiradas para economizar dinheiro - quem leu minha resenha de "The White Gorilla" já sabe bem disso. Pois é mais ou menos a mesma coisa em A NOIVA E A BESTA: Weiss e sua trupe contornam o problema de nunca terem pisado na África utilizando, na edição, cenas roubadas de outros dois filmes, "Man-Eater of Kumaon" (dirigido por Byron Haskin em 1948) e "Bride of the Gorilla" (dirigido por Curt Siodmak em 1951).

A coisa funciona mais ou menos assim: na sua selva fuleira feita em estúdio, os atores que interpretam Dan e Laura olham assustados em direção à câmera; aí pimba!, corta para uma fantástica cena roubada de "Man-Eater of Kumaon" onde um tigre de verdade luta contra um crocodilo de verdade bem no meio do rio (graças à boa edição de George M. Merrick e Samuel Weiss, parece que os atores do filme de Weiss REALMENTE estão testemunhando aquele momento que foi simplesmente retirado de uma outra produção).


Em outra cena, closes dos dois atores dentro de um caminhão são editados com cenas de uma caçada a girafas que obviamente também não foi filmada por Weiss, mas sim retirada de um dos outros filmes. Assim fica fácil, não é?

Por esse motivo, é até difícil avaliar o filme no conjunto. Por exemplo, eu ia escrever que o diretor de primeira e única viagem Adrian Weiss tinha conseguido escapar da mediocridade com algumas belas cenas, como a luta do tigre com o crocodilo, ou o plano em que um dos tigres espreita o caçador iluminado pela luz da lua (abaixo), mas depois descobri que talm cena foi tirada de "Man-Eater of Kumaon"!


E como a maior parte das cenas boas de A NOIVA E A BESTA deve realmente ter saído destes dois outros filmes citados, fica difícil tentar avaliar a direção de Weiss - mais fácil é congratular os editores Merrick e Samuel pela sua hábil costura.

Já o roteiro de Wood é péssimo como de costume. Não bastasse a total falta de coerência e de ligação entre os vários elementos da trama (garota que é reencarnação de um gorila, tigres assassinos, regressão a vidas passadas, pesadelos, gorilas apaixonados), nosso amigo Eddie simplesmente não consegue resistir a escrever diálogos horríveis, como "Animais não brigam comigo! Eu tinha um macaco quando criança, e ele me amava, mas odiava todo mundo".


A citação a um suéter angorá em certo momento do filme é a marca registrada do roteirista, que tinha fetiche por esse tipo de roupa (e, como todos devem saber, adorava se vestir de mulher, embora não fosse homossexual).

Isso tudo se soma a um caminhão de incoerências que desafiam a lógica, como o porão secreto da casa de Dan, que é iluminado por uma tocha eternamente acesa, mas ironicamente também tem um freezer que funciona com eletricidade (e se há eletricidade, o local poderia ter luz elétrica, e não a iluminação com uma tocha!!!!).


Ou a longa e redundante cena da hipnose, operada por um médico (!!!) que usa termos científicos mirabolantes para tentar convencer o espectador de que a regressão a vidas passadas é possível e tão simples quanto o filme mostra!

Enfim, é o tipo de coisa que faz esta aventura na selva rápida e rasteira (com menos de 1h20min de duração) tornar-se uma daquelas engraçadíssimas comédias involuntárias digna dos nomes envolvidos, mas especialmente do incompetente Ed Wood. Encare de bom humor (ou sob efeito de drogas) e prepare-se para umas boas gargalhadas!


Como última curiosidade, todos os gorilas de A NOIVA E A BESTA foram "interpretados" por Steve Calvert. Falecido em 1991, Calvert era um especialista em pagar mico (literalmente) dentro de roupas de gorila, tendo interpretado macacões em sete dos 11 filmes que fez na vida - entre eles, "Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla" (1952) e "Panther Girl of the Kongo" (1955). Bela carreira, hein?

Em tempo, esse filme saiu em DVD nos Estados Unidos num programa duplo com "The White Gorilla" - trasheira total, para detonar todos os neurônios e talvez regredir ao estado de gorila!!!

Trailer de A NOIVA E A BESTA



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A Noiva e a Besta (The Bride and
the Beast, 1958, EUA)

Direção: Adrian Weiss
Elenco: Charlotte Austin, Lance Fuller, Johnny
Roth, William Justine, Gil Frye, Jeanne Gerson
e Steve Calvert com roupa de gorila.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

THE WHITE GORILLA (1945)


Quer fazer um filme de aventura/horror na África, mas está sem grana para contratar figurantes, construir aldeias indígenas, pagar figurinos, alugar animais selvagens? Ora, não se desespere: com um pouquinho de malandragem e um muitinho de cara-de-pau, você consegue rodar sem dificuldade e com orçamento praticamente zero o tal filme.

Basta se inspirar no "exemplo" do diretor e picareta de marca maior Harry L. Fraser e seu clássico da sem-vergonhice THE WHITE GORILLA, produzido no longínquo ano de 1945.

Fraser queria fazer um filme sobre um gorila assassino na África, mas obviamente não tinha dinheiro para filmar em território africano, e muito menos para recriar a África nos Estados Unidos, como faziam outros produtores de mais cacife.


O que você faria se estivesse no lugar dele? O mais correto seria desistir da idéia, claro, mas o cineasta aparentemente era um sujeito teimoso.

Resolveu, então, "reproduzir" a África usando cenas de um filme mudo de 1927, "Perils of the Jungle", dirigido por Jack Nelson, que foi cortado e reeditado na maior cara-de-pau para "encaixar-se" em meio à meia dúzia de cenas filmadas pelo próprio Fraser em 1945.

Agora imagine: você não tem mais os atores daquele filme de 1927, muito menos os cenários da tal produção. Como fazer para que estas cenas "reaproveitadas" se encaixem com aquelas filmadas 18 anos depois?


Fácil: basta transformar todas as cenas mudas e antigas de "Perils of the Jungle" na história contada em flashback por um dos personagens de THE WHITE GORILLA!!!! Não é demais? Dá até vontade de fazer seu próprio filme de aventura na África depois de ver o resultado do "copiar + colar" de Fraser.

E o resultado, claro, é um daqueles trashaços de rolar de rir, que deixaria até mesmo o lendário Ed Wood envergonhado.

Com as cenas de "Perils of the Jungle" ocupando a maior parte da narrativa, os produtores de THE WHITE GORILLA não precisaram de muito esforço para realizar seu filme. Consta que as filmagens levaram apenas três dias e uma noite, e o elenco tem apenas seis atores: Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd Buster, Francis Ford, Charles King e George J. Lewis.


Todos os outros atores que dão as caras ao longo do filme são os atores de "Perils of the Jungle", e portanto não foram creditados, mas são Harry Belmour, Eugenia Gilbert, Will Herman, Frank D. Hutter, Walter Maly, Frank Merrill, Milburn Morante, Bobby Nelson e Albert Smith.

(Não perca as contas: só nessa brincadeira de reaproveitar cenas de um filme antigo, os produtores já econonizaram nove cachês!!!)

THE WHITE GORILLA começa no Posto de Trocas do Morgan, no coração do continente africano, onde uma dupla de caçadores, Stacey (Francis Ford) e Hutton (George J. Lewis), esperam por notícias de um explorador chamado Ed Bradford, que desapareceu há algumas semanas na selva.

Enquanto eles jogam conversa fora com o proprietário do lugar, J. Morgan (Charles King), eis que surge um dos batedores da expedição do desaparecido Bradford, Steve Collins ("interpretado" por Ray Corrigan), com as roupas em farrapos e coberto de ferimentos ensangüentados.


Pelos próximos cinquenta e poucos minutos, Collins põe-se a narrar o que aconteceu ao azarado grupo que integrava. E a maior parte destas cenas de "flashback" são, na verdade, cenas extraídas do já citado "Perils of the Jungle".

Como tal produção de 1927 ainda era silenciosa (ironicamente, o cinema sonoro começou naquele mesmo ano com "O Cantor de Jazz"), é fácil de identificar quais são as (poucas) cenas filmadas por Fraser para THE WHITE GORILLA e quais são as (muitas) cenas roubadas da produção dirigida por Jack Nelson.

Para "maquiar" o problema das cenas reaproveitadas serem mudas, não há diálogos quando elas são exibidas, apenas a narração em off de Collins explicando a história. Acredite: é de rolar de rir!


Collins conta como Bradford e sua turma se meteram em encrencas com uma tribo belicosa da região. Bradford, no caso, é o personagem construído a partir das cenas que Frank Merrill fez em "Perils of the Jungle", quando se chamava Rod Bedford.

O engraçado é a forma utilizada pelo editor Adrian Weiss (um notório produtor e diretor de exploitation movies do período) para casar as cenas de 1945 com as filmadas em 1927: alguns takes com o ator Ray Corrigan escondido em meio a moitas ou árvores são encaixados entre a ação de "Perils of the Jungle", e Corrigan, obviamente, nunca se mistura ou interage com aqueles atores dos anos 20 - apenas "observa".

Para justificar essa falta de interação, a narração em off usa frases como "Escondido, descobri que Bradford e Allison eram prisioneiros de uma das tribos", ou "Eu resolvi segui-los à distância". Abaixo você pode ver como isso funciona na edição: a cena da esquerda foi feita em 1945 e mostra o ator Corrigan teoricamente testemunhando a ação da cena da direita, que foi retirada do filme de 1927! Sim, amiguinhos, é muita cara-de-pau!!!


Quando acabam as tais cenas de "Perils of the Jungle", finalmente surge a criatura que dá nome ao filme, o gorila branco (que, em várias cenas, foi interpretado pelo próprio Ray Corrigan, para economizar ainda mais dinheiro em cachê de figurantes!!!!).

O monstruoso animal vive hostilizado na selva justamente pela sua cor, diferente da pelagem negra dos gorilas "comuns" - o que não deixa de ser irônico, considerando que o filme foi feito em plena época de preconceito racial dos brancos contra negros.

Collins acaba topando com o monstro enquanto "participa" como observador das cenas de "Perils of the Jungle", e escapa por pouco. Mas a conclusão prevê um novo e mortal duelo entre o caçador e o gorila branco.


Ah: por causa da picaretagem do reutilização de cenas, e como "Perils of the Jungle" NÃO tratava de um macacão assassino, é claro que os personagens e atores do filme de 1927 nunca interagem com o gorila, apenas Collins!

Acho que já deu para entender a mensagem: THE WHITE GORILLA é um trashão picareta e muito divertido, onde a edição das cenas de épocas diferentes funciona como perfeita comédia involuntária. Afinal, a montagem é tão cara-de-pau que quase todas as cenas filmadas por Fraser em 1945 mostram os (poucos) atores sentados e ouvindo a "narração" da "história".

Na conclusão, como não existe qualquer possibilidade de os atores dos anos 40 encontrarem os dos anos 20, o roteiro do próprio diretor utiliza uma solução que beira o surreal: todos estes personagens originais de "Perils of the Jungle" morrem devorados por tigres - "off-screen", é claro, porque isso não acontecia no filme de 1927!


Mas filmes sobre gorilas assassinos estavam em alta naquela época, e isso deve ter sido uma grande motivação para os realizadores dessa pérola, que certamente estavam buscando um dinheiro fácil.

Os chamados "gorilla movies" começaram a pipocar ainda na década de 30, com "The Monster Walks" (1932), de Frank R. Strayer, que mostrava um gorila assassino aprontando o diabo em um casarão durante uma noite de tempestade. Isso um ano antes do clássico "King Kong" de 1933, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, trazer o famosíssimo gorila gigante que já ganhou duas refilmagens, uma seqüência e inúmeras aventuras não-oficiais.

Vai saber que graça o povo enxergava nesse tipo de história, mas os gorilas assassinos (obviamente atores enfiados dentro de ridículas fantasias de macaco!) continuaram fazendo vítimas no cinema até os anos 60, em produções paupérrimas como "The Ape" (1940), de William Nigh, com Boris Karloff; "Bride of the Gorilla" (1951), de Curt Siodmak, com Lon Chaney Jr., onde um homem é vítima de uma maldição vodu e se transforma em gorila à noite (vai ver não tinham dinheiro para comprar uma roupa de lobisomem, então inventaram um "gorilatropo" ao invés de um licantropo!); e "The Bride and the Beast" (1958), de Adrian Weiss, outro trashão impagável, este com roteiro do mitológico Ed Wood!


Até o pobre Bela Lugosi, que um dia foi Drácula, viu-se perdido no inferno dos "gorilla movies", interpretando um cientista que se transforma em gorila assassino nos filmes "The Ape Man" (1943), de William Beaudine, e "Return of the Ape Man" (1944), dirigido por Phil Rosen (e que, apesar do título, nada tem a ver com o outro filme).

Lugosi também pagou um mico símio em "Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla", dirigido novamente por William Beaudine em 1952, e o último filme "normal" do ator antes de ele começar a trabalhar exclusivamente com Ed Wood.

Voltando a THE WHITE GORILLA, uma resenha do filme que encontrei na internet sugere usá-lo para um criativo "drinking game", e acho que é mesmo uma boa forma de encarar algo tão ruim. As regras são as seguintes: cada vez que a cena muda de 1945 para 1927, você e seus amigos tomam uma dose de alguma bebida alcoólica potente, e vice-versa. De tanto que isso acontece, será bem fácil acabar completamente embriagado ou em coma alcoólico antes do "The End" aparecer - e isso que o filme é curtíssimo, com cerca de 60 minutos de duração!


E não bastasse a edição criminosa, e os malabarismos que ela exige para manter uma narrativa minimamente coerente, THE WHITE GORILLA ainda está coalhado com todo tipo de defeito de produção classe Z, do cenário pobre (a "selva africana" parece o quintal da casa de alguém) às roupas dos gorilas, onde percebe-se nitidamente os buracos para os olhos nas máscaras!!!

Resumindo: um filme divertidíssimo, hilário, de rolar de rir do começo a fim, e que com certeza fica ainda melhor quando visto em turma, preferencialmente sob efeito de álcool ou substâncias entorpecentes.

Um autêntico FILME PARA DOIDOS, digno de figurar entre as produções-símbolo deste blog.

Veja THE WHITE GORILLA na íntegra



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The White Gorilla (1945, EUA)
Direção: Harry L. Fraser
Elenco: Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd
Buster, Francis Ford, George J. Lewis, Charles
King e vários atores em cenas de arquivo.