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sábado, 21 de agosto de 2010

Os filmes que eu vi no Festival de Gramado (latino-americanos)

HISTÓRIA DE UN DÍA (2009, Venezuela. Dir: Rosana Matecki)
Espécie de "Berlim - Sinfonia da Metrópole" às avessas, esse "documentário" venezuelano propõe 90 minutos de reflexão através de imagens - sem ligação e sem diálogos - da vida no campo. Logo de início vemos um sujeito fazendo a barba, uma mulher dando comida para os porcos e depois ordenhando uma vaca, pescadores lançando-se ao mar em seus barcos, imagens de uma festa de casamento e outra de aniversário, e por aí vai. Ainda acordado? Feliz de você: aos 20 minutos, eu já estava quase entrando em coma profundo na sala de cinema. Primeiro porque as imagens em si mostram apenas cenas cotidianas e triviais, bem conhecidas de quem já viveu no interior, como eu; segundo porque a ausência de diálogos, sons, música ou qualquer tipo de narração é um convite ao sono, por mais que a fotografia e os enquadramentos adotados pela diretora sejam belos. Mas é como eu sempre digo: se quero ver fotografia bonita sem sons, movimento ou história, compro um livro do Sebastião Salgado! Pior que aturar os 90 minutos de tédio, só mesmo ler as críticas maravilhadas publicadas pela imprensa dita "especializada", sempre com palavras difíceis para tentar transformar o nada absoluto em alguma coisa. Uma delas, por exemplo, dizia que o filme adota uma postura "radicalmente passiva" para "instigar a reflexão do público". Eu escreveria em outras palavras: o filme é chatíssimo e instiga o sono do público, isso sim! E não acaba aí: entre as imagens rotineiras da vida no campo, a câmera de Rosana capta, sem cortes, o abate e esquartejamento de um terneiro, um funeral e até a exumação de um cadáver, com direito a close do corpo putrefato sendo retirado do caixão. Fiquei embasbacado com a morbidez das imagens, mas os críticos acima citados acharam tudo lindo e maravilhoso. Engraçado que quando falamos de um "Cannibal Holocaust" ou de um "Mondo Cane", animais sendo mortos de verdade e cadáveres reais captados pela lente da câmera são puro sensacionalismo; aqui no filme venezuelano, sabe-se lá porque, as mesmas coisas são ARTE. Enfim, um belo exemplo para instigar aquela velha discussão entre o que é sensacionalismo e o que é artístico. Mas eu ainda acho que faria um filme bem parecido (e tão chato quanto) editando imagens da vida tediosa na minha cidade com todas as festas de aniversário dos meus irmãos que eu já filmei. O filme de Rosana não é muito diferente disso.


EL VUELCO DEL CANGREJO (2009, Colômbia/França. Dir: Oscar Ruiz Navia)
E já que estamos falando de filmes chatos e críticos de cinema idem, nada melhor do que passar diretamente para essa pretensiosa bomba made in Colômbia. "El Vuelco del Cangrejo" chegou ao Festival de Gramado cheio de moral (premiado inclusive no Festival de Berlim), e saiu de Gramado com mais moral ainda (os tais críticos malas da imprensa gaúcha elegeram-no o melhor filme da seleção!!!). No que depender da minha modesta opinião, entretanto, foi mais uma das perdas de tempo que tive no festival. Inclusive vibrei de contente quando seus realizadores saíram de mãos abanando da competição, sem levar para casa nenhum dos prêmios principais do festival gaúcho (aleluia, aleluia!). A história é narrada de forma lenta e silenciosa ("artística", diriam alguns), e tenta dar aquelas lições de moral simbólicas que só crítico baba-ovo e cinéfilo pseudo-intelectual curte. Basicamente, é a história de um forasteiro que chega a uma ilha habitada por negros, onde um branco (óbvio!) vem quebrando a paz local com seu projeto de construir um hotel para turistas. No papel pode até parecer emocionante, mas no filme... NADA ACONTECE! É mais um daqueles filmes parados e silenciosos ("reflexivos" e "contemplativos", para os críticos), que termina do mesmo jeito que começa. No caso, o protagonista passa a história toda esperando pelo barco que irá levá-lo ao continente; na conclusão, quando o barco finalmente chega, NADA aconteceu com ele, com os outros personagens ou com o espectador. Quer dizer, comigo pelo menos aconteceu: dormi durante uns 15 minutos do filme! Óbvio, o ignorante da história sempre serei eu. Afinal, se você ler qualquer crítica "profissional" sobre "El Vuelco del Cangrejo", vai descobrir que o filme trabalha "questões da realidade colombiana", como "a desigualdade social, o desemprego, o racismo e a guerrilha das FARC". Não sei onde foi que viram tudo isso na história chatíssima de um sujeito careca zanzando por uma ilha que só tem meia dúzia de habitantes... Em todo caso, é mais um daqueles filminhos que todo mundo precisa assistir para não ficar de mal com seu círculo de amiguinhos cinéfilos. Mas se forem ao cinema, não me chamem: prefiro gastar meu precioso tempo revendo "Os Caçadores de Atlântida" a aturar essas pretensiosas patacoadas artísticas uma segunda vez.


LA YUMA (2009, Nicarágua. Dir: Florence Jaugey)
"Menina de Ouro" versão maloqueira, este filme modestíssimo vindo da Nicarágua foi o melhor do Festival de Gramado, na minha humilde opinião. Já na "nem tão humilde" opinião da crítica especializada, foi o pior - talvez porque tente contar uma história com começo, meio e fim, e sem longos takes contemplativos de 10 minutos de duração. É sobre Yuma, uma garota valentona que enfrenta no seu dia-a-dia a realidade violenta de uma favela em Manágua (ahá, achou que só tinha isso no Brasil?). Ela põe na cabeça que quer ser lutadora de boxe, enfrentando tudo e todos no processo. Não é apenas amor pelo esporte: Yuma usa o ringue para exorcisar seu cotidiano sem perspectivas, composto por irmão e namorado membros de gangue, um padrasto com tendências pedófilas e um emprego medíocre numa loja de roupas. Ao contrário de outros "filmes de boxe", como o já citado "Menina de Ouro" e até a série "Rocky", a vitória da luta, na conclusão, não representa esperanças de melhoria na vida da protagonista, nem mesmo de um futuro de fama e riqueza, muito pelo contrário. Não é, portanto, a típica historinha da esportista iniciante que enfrenta todas as adversidades e vence na vida. É uma história extremamente triste e "pé-no-chão", cujo final deixa o espectador imaginando qual futuro a pobre Yuma terá pela frente. Ao que parece, "La Yuma" é o primeiro filme produzido na Nicarágua em duas décadas (!!!). Percebe-se isso pela produção pobre e pela interpretação fraquíssima de alguns atores, principalmente Gabriel Benavides, que interpreta o estudante de jornalismo por quem a protagonista se apaixona. Já Alma Blanco, no papel-título, é um achado, passando coragem, fúria e, ao mesmo tempo, inocência e fragilidade. Mereceu o Kikito de Melhor Atriz no festival (desprezado por alguns dos críticos bananas anteriormente citados) só pela cena belíssima em que sua personagem, sempre valentona e disposta a enfrentar tudo e todos, demonstra ter medo de algo tão belo, natural e "inofensivo" quanto o mar. Um ótimo filme, longe dos padrões hollywoodianos de filmes de boxe, mas ainda assim bem filmado e bem narrado. Talvez seja a menos "artística" (ou chata) e mais popular das obras estrangeiras exibidas em Gramado, e por isso mesmo não posso deixar de recomendar a todos. Uma pérola a ser descoberta!


PERPETUUM MOBILE (2009, México. Dir: Nicolás Pereda)
Quando o interminável "Perpetuum Mobile" finalmente terminou, juro que me peguei pensando no que o diretor tinha na cabeça ao fazer um "filme sobre o nada" como este. O choque veio quando eu descobri que o tal diretor não era um velho caquético de 90 anos, mas um rapaz mais novo do que eu, um sujeito de 28 anos chamado Nicolás Pereda (certamente daquele tipinho que cresceu idolatrando Godard). Lentíssimo, seu filme nem se preocupa em narrar história alguma: simplesmente acompanha o cotidiano medíocre e praticamente silencioso de um marmanjão chamado Gabino, que vive com a mãe e trabalha fazendo mudanças. Nada de emocionante ou interessante acontece com Gabino ao longo dos intermináveis 90 minutos do filme: ele anda sem rumo pela cidade, enfrentando as encheções de saco da mãe (que vive gritando "Gabinooooooooo!") e atendendo clientes com histórias de vida igualmente desinteressantes. Pereda narra a sua "não-história" através de longuíssimoooooooooooooos takes, como se quisesse atirar na cara do espectador a realidade chata, estagnada e nada emocionante de Gabino e sua turma. Acho até que o diretor não sabe como desligar a câmera: em cada cena, os atores ficam zanzando de um lado para o outro no quadro, acabam de falar seus diálogos e continuam enrolando por mais cinco minutos (às vezes repetindo os mesmos diálogos, talvez esperando que o diretor grite "corta!"). O cúmulo da falta de assunto é que, em três momentos diferentes do filme, alguém pede para Gabino "esperar um pouco", e o espectador é obrigado A ESPERAR JUNTO COM O PERSONAGEM, enquanto ele senta ou caminha olhando para as paredes, aguardando a volta do outro personagem para a continuidade da cena!!! Sinceramente, tenho pena dos pobres coitados que ainda tentam fazer filmes CONTANDO HISTÓRIAS, pois aparecem caras como este Pereda e ganham prêmios e festivais respeitados de cinema com suas ridículas divagações sobre o nada - e a crítica (novamente ela) ainda vai na onda e fica maravilhada com este "nada", enxergando aí mil-e-uma metáforas para a sociedade atual. Resta o consolo de que os últimos 10 minutos do filme pelo menos são engraçados - de tão inacreditáveis -, envolvendo uma morte, o translado do cadáver e o enterro sem mais nem menos no meio de um matagal. Subitamente, o filme acaba sem maiores informações, como se o dinheiro da produção tivesse terminado de repente! Se estivesse vivo, Ed Wood certamente daria muita risada de "Perpetuum Mobile". Ou choraria de desilusão ao ver um filme que parece nem ter sido dirigido render ao seu realizador o Kikito de Melhor Diretor! É de doer...



MI VIDA CON CARLOS (2009, Chile/Espanha/Alemanha. Dir: Germán Berger)
Eu citei esse filme na resenha do filme nacional "Diário de uma Busca", de Flávia Castro. Ambos têm propostas e temas bem semelhantes, mas o diretor Germán Berger sai-se melhor na comparação por conseguir envolver o espectador na sua busca pessoal - coisa que o documentário brasileiro falha em repetir. Carlos Berger, pai de Germán, foi assassinado pela ditadura do General Pinochet no começo dos anos 70. O diretor viveu apenas alguns dos primeiros anos da sua infância com o pai antes que ele fosse executado. Assim, o documentário surge como uma desculpa para que o próprio Germán descubra mais sobre Carlos junto com o espectador, e, no processo, denuncie a ditadura e a execução dos presos políticos no Chile, algo não muito diferente do que aconteceu aqui no Brasil no mesmo período. O primeiro ato do documentário é um tanto enfadonho; pessoal demais, traz entrevistas com os irmãos de Carlos e muitas fotos e filmes caseiros da família. A partir do segundo ato, entretanto, "Mi Vida con Carlos" vai melhorando progressivamente. Chega a mostrar algumas imagens impressionantes da época, com os milicos descendo o sarrafo em manifestantes - até agora estou pensando como conseguiram fazer essas imagens sem que a câmera fosse confiscada ou destruída. A história continua narrando o destino de Carlos em detalhes mórbidos, mas o terceiro e último ato é sensível e belíssimo ao mostrar algumas famílias de "desaparecidos" da ditadura procurando restos mortais no deserto onde eles teriam sido executados e sepultados. A cena começa num plano fechado que vai se abrindo, mostrando a imensidão do deserto e revelando a inutilidade do trabalho daquelas pessoas, que provavelmente jamais terão um cadáver para sepultar devidamente. Assim, "Mi Vida con Carlos" sai do ângulo "pessoal" do assunto (o pai Carlos) para mostrar um panorama mais geral de uma época negra em toda a América do Sul. Algo que "Diário de uma Busca", por exemplo, não conseguiu, porque sua diretora ficou mais limitada ao ângulo pessoal da questão. Não sou um grande fã de documentários, menos ainda quando eles tratam de assuntos que não me interessam diretamente. Mas este eu recomendo - e mereceu os vários prêmios recebidos em Gramado, embora o de Melhor Filme pudesse ter ficado com "La Yuma"...


LA VIEJA DE ATRAS (2010, Argentina/Brasil. Dir: Pablo José Meza)
Os dois filmes argentinos exibidos em Gramado falam do mesmo assunto - a velhice - de maneiras totalmente diferentes. Vou começar por "La Vieja de Atras", que busca um ângulo melancólico da questão. A "velha ultrapassada" do título é Rosa, soberbamente interpretada por Adriana Aizenberg. Ela vive num pequeno apartamento e tem um cotidiano depressivo, repetindo dia após dia os mesmos hábitos. Ranzinza, não gosta dos orientais que tomaram conta dos mercadinhos do seu bairro. Solitária, passa horas na esquina da sua rua olhando para um velho vendedor de flores, porém sem coragem de se apresentar para falar com ele. Quem vai quebrar essa rotina silenciosa é o jovem estudante de Medicina interpretado por Martin Piroyanski. Vizinho da "vieja", ele veio do interior e não está conseguindo pagar as contas do aluguel. Rosa então oferece seu apartamento, com a condição de que o rapaz converse com ela todos os dias - uma chantagem para enfrentar a ultrajante solidão em que a pobre senhora vive. O problema é que o rapaz é introspectivo e repleto de problemas. A relação entre os dois, que deveria ser benéfica para ambos, torna-se ainda mais melancólica e silenciosa, chegando a um final inesperado. Reparou quantas vezes eu escrevi as palavras "silencioso", "melancólico" e "introspectivo" na resenha? Pois é: "La Vieja de Atras" é um filme que exige certa disposição, pois, como seus rivais no festival, é narrado praticamente em câmera lenta, sem pressa - através de loooooongos takes sem movimentos de câmera, e sem trilha sonora. Considerando que o cotidiano dos dois personagens principais é absurdamente medíocre, é inevitável que as pálpebras do espectador comecem a pesar. Mas quem estiver "no clima" verá uma história muito bem-desenvolvida, com um relacionamento curioso entre dois protagonistas completamente diferentes. O filme é um drama sério e sem humor, mas algumas tiradas da "vieja" são tão amargas que levam o espectador a um riso nervoso, quase como se estivesse vendo uma comédia de humor negro. Sonoros aplausos, ainda, para a performance de Adriana como a melancólica Rosa. Ela só não ganhou o Kikito de Melhor Atriz porque enfrentou os punhos de "La Yuma".


DOIS IRMÃOS (Dos Hermanos, 2010, Argentina. Dir: Daniel Burman)
Se "La Vieja de Atras" enfoca a amargura da velhice solitária, "Dois Irmãos", de Daniel Burman, é uma comédia dramática na linha de filmes italianos como "Os Novos Monstros" e "Parente é Serpente" - tratando de temas sérios no limite entre o humor e o drama. Passou fora da mostra competitiva, o que é uma pena, pois certamente iria roubar vários prêmios arrebanhados por bombas como "Perpetuum Mobile". O filme conta a história de Marcos (Antonio Gasalla), um velhinho simpático que passou a vida cuidando da mãe doente e, com a morte dela, acredita estar livre para seguir a própria vida - aos 64 anos de idade! O problema é que ele vai morar com a irmã mais nova, Susana (Graciela Borges), uma cinqüentona alcoólatra que exige atenção e tem verdadeira obsessão pela ascensão social. Quando Susana percebe que Marcos está levando uma vida mais feliz e interessante que a dela, e inclusive participando de um grupo de teatro, faz de tudo para sabotar a vida do irmão, numa seqüência de cenas ao mesmo tempo tristes e engraçadas - que, como em "La Vieja de Atras", fazem o espectador rir de nervoso, e até sentir-se meio culpado por estar achando graça de atitudes tão terríveis. A dupla central é um achado, especialmente a fiasquenta personagem de Graciela Borges, que chega ao cúmulo de roubar a correspondência do apartamento vizinho em busca de convites para festas chiques - uma rara oportunidade para sentir-se popular participando destes eventos. Seu relacionamento com Marcos é de amor e ódio, mas é difícil não passar o filme todo torcendo por uma reconciliação dos dois. Num universo de comédias com atores jovens e rostinhos bonitos, é sempre interessante assistir um filme que se sustenta inteiramente com a interpretação de dois "velhos". E não dá nenhuma saudade dos rostinhos bonitos diante do show de interpretação de Antonio e Graciela. Outra pérola que merece ser conhecida, e um pouco mais popular e "acessível" do que a maioria dos filmes estrangeiros exibidos em Gramado (em outras palavras, não é chato, "artístico" e nem "difícil").


OJOS BIEN ABERTOS: UN VIAJE POR LA SUDAMERICA DE HOY (2009, Uruguai/França. Dir: Gonzalo Arijon)
Política não é a minha praia. Se querem me ver fugir de uma conversa de mesa de bar, basta começarem a discutir política, religião ou esporte - três temas que já vi gerarem discussões acaloradas e até troca de socos entre VELHOS AMIGOS! Não me considero um "analfabeto político" como o daquele velho ditado, só tenho uma visão bem particular da coisa e não gosto de ficar conversando sobre o assunto. Assim, nada mais natural do que achar maçante um documentário cujo foco é justamente o sócio-político. Não me entendam mal, porém: o filme uruguaio "Ojos Bien Abertos" traz rico material sobre a situação política na América do Sul, com comentários muito pertinentes do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, e imagens interessantíssimas que mostram a realidade de diversos países sul-americanos, entre eles Brasil, Bolívia e Venezuela, às vezes por pontos de vista geralmente ignorados pela imprensa. Há imagens fantásticas, como Hugo Chávez presenteando o presidente norte-americano Barack Obama com um exemplar do livro de Galeano "As Veias Abertas da América Latina" (recebido com um risinho amarelo do governante ianque). Ou Maradona (o próprio!) sendo chamado ao palco durante uma manifestação anti-Alca (Área de Livre Comércio das Américas), presidida pelo mesmo Chávez, que fez seu povo gritar em uníssono: "Alca, Alca, al carajo!!!". Porém, como toda discussão/conversa sobre política e sobre a realidade social da América Latina, este documentário também logo se torna repetitivo e longo demais. Parece que dura uma eternidade, e o final chega com uma sensação de alívio. Talvez Arijon fizesse melhor dividindo seu material em pelo menos dois filmes diferentes, pois elementos riquíssimos acabam soterrados pela tonelada de informações. Para quem curte o assunto, um prato cheio. Para quem, como eu, costuma fugir de documentários e de conversas sobre política, um misto de tortura psicológica com aula de sociologia, apesar dos momentos curiosos já citados. Para públicos beeeeeem específicos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os filmes que eu vi no Festival de Gramado (nacionais)

BRÓDER (2010. Dir: Jeferson De)
Antigamente, dizia-se que quem viu um filme de faroeste viu todos, pois a história raramente era diferente de uma obra para outra. Hoje, este dito popular poderia muito bem ser adaptado aos "filmes de favela" produzidos às pencas no Brasil pós-Retomada. E será que ainda há histórias para contar depois de filmes como "Cidade de Deus", "Linha de Passe", "Era Uma Vez" e outras inúmeras películas bastante representativas sobre temas como união familiar, miséria e violência urbana? "Bróder", filme de estréia de Jeferson De e grande premiado do Festival de Gramado, é exatamente isso: mais um filme de favela, que até pode ter algum frescor para quem não viu muitos filmes brasileiros da última década, mas parecerá repetitivo para os que já fizeram sua lição de casa. A trama acompanha o reencontro de três amigos no Capão Redondo, em São Paulo: o branquelo no rumo do crime (interpretado por Caio Blatt) e dois negros, um deles casado e com filho (Silvio Guindane), e o outro jogador de futebol famoso (Jonathan Haagensen), que deixou o bairro pobre para ir jogar na Europa. O reencontro reabre velhas feridas e cria algumas novas. Quando o candidato a marginal recebe a ordem de seqüestrar o amigo boleiro, enfrenta uma crise de consciência: cumpre ou não a missão, sabendo que uma das opções custará sua vida e a outra, a amizade? Mesmo com a sensação de "já vi isso antes", há coisas muito boas no filme, principalmente na parte técnica. Os três amigos correndo pelos becos e vielas com câmeras amarradas ao corpo lembra o início de "Cidade de Deus", com a galinha em fuga; já as cenas aéreas da favela, que encerram o filme, são de tirar o fôlego. Cássia Kiss e Ailton Graça, pais de Caio Blatt no filme, também escapam do clichê e compõem personagens mais tridimensionais que a média do "gênero". Ele, principalmente, foge da caricatura de "padrasto alcoólatra malvado". Mas a grande qualidade de "Bróder" é, quem diria, Caio Blatt: o sujeito encarna tão bem um maloqueiro, tanto fisica quanto "culturalmente" (falando gírias sem parecer falso), que eu certamente teria medo de cruzar com ele pelas ruas de São Paulo. O ponto fraco é que o diretor às vezes exagera nos "contrastes": se a cena em que o jogador de futebol sai de um moderno consultório médico para se benzer com uma preta velha é muito bem bolada, o contraste entre o sujeito no meio da favela falando ao celular com seu empresário no meio de um campo de golfe soa ingênuo e muito forçado. O resultado é um filme muito bom tecnicamente e com ótimas interpretações, mas fraquinho dramaticamente; e se não chega a surpreender, pelo menos diverte, o que não é pouca coisa. Uma espécie de "Orfeu", do Cacá Diegues, melhorado - e, felizmente, sem Toni Garrido.


ELVIS & MADONA (2010. Dir: Marcelo Laffitte)
Uma das grandes surpresas do Festival de Gramado, que certamente faturaria vários Kikitos se estivesse participando da mostra competitiva (passou fora da competição). Espécie de versão bem-humorada do norte-americano "Transamérica", este é um daqueles raros filmes sobre as "confusões" geradas pela mistura de sexos neste início de século 21, quando a simplória divisão em "masculino" e "feminino" parece tão "demodé". Igor Cotrim (cujo crédito mais expressivo até aqui era o reality show "A Fazenda") está em estado de graça como Lady Madona, uma travesti cujas economias são roubadas pelo ex-namorado e ex-colega de filmes pornográficos João Tripé (Sérgio Bezerra, assustador). Conhece, então, Elvira, ou Elvis, uma entregadora de pizzas, lésbica, interpretada por Simone Spoladore. As duas figuras solitárias vivem um caso de amor entre muitos diálogos e tiradas divertidas, e a situação se complica quando, de tão estranho casal, nasce uma inesperada gravidez. Apesar do início com humor estilo "Zorra Total" (nas cenas do salão de beleza), logo "Elvis & Madona" revela-se um filme inspirado e muitas vezes emocionante e sensível, principalmente ao retratar, sem frescuras ou falso moralismo, o caso de amor "impossível" entre o homossexual e a lésbica. E há momentos muito engraçados envolvendo aqueles quiprocuós típicos desse tipo de história, como quando Madona precisa "voltar a ser homem" para ser apresentada(o) à família da amada. Claro, alguns poderão se queixar que certos personagens GLS são muito estereotipados na busca pelo riso fácil. Mas se até um filme supostamente sério, como "Milk", traz gays estereotipados, não há muito que reclamar. E o show da dupla Cotrim/Spoladore vale o filme inteiro, fazendo com que o espectador perdoe qualquer exagero ou piada infame no processo. Simone, que até mostra os peitinhos, está uma gracinha, mesmo interpretando uma personagem "machona". Destaque ainda para Bezerra como João Tripé - arrepiante, ele é um dos melhores vilões do moderno cinema brasileiro. E há ótimas pontas de Maitê Proença e José Wilker. Este último aparece em cena durante cinco segundos, mas sua participação é responsável por sonoras e saborosas gargalhadas. Vale a pena e encabeça a lista de melhores filmes brasileiros de 2010, mostrando que as comédias produzidas por aqui não se resumem a bobagens como "Se Eu Fosse Você" e os "especiais televisivos" da Globo Filmes. Lançamento comercial já!!!


ENQUANTO A NOITE NÃO CHEGA (2009. Dir: Beto Souza)
"Os Descendentes", aquele péssimo filme de zumbis feito no Chile, em que o diretor reaproveita as mesmas cenas a cada 10 minutos, fez escola: "Enquanto a Noite Não Chega", de Beto Souza, é justamente um curta-metragem com 70 minutos de duração. Souza não tem história para contar durante 1h10min; assim, usa e abusa de artifícios como esticar os takes (intermináveis) ou repetir as mesmas cenas em flashback até o espectador ficar com vontade de arrancar os olhos. Juro que depois da sétima vez em que ele reutiliza o mesmíssimo take do André Arteche olhando para a câmera num flashback, fiquei com vontade de levantar e sair da sala - coisa que muita gente fez, aliás. Baseado numa elogiada obra de Josué Guimarães, o filme conta a história de um casal de velhos, os últimos sobreviventes de uma cidade-fantasma. Passam o tempo conversando sobre a morte e sobre o nada, sobre a perda do filho na guerra, sobre o trem, ou em silêncio. Tudo bem, a fotografia é belíssima, isso não se discute. Só que "Enquanto a Noite Não Chega" é bonitinho, mas ordinário. Cansa porque parece não ter objetivo nem um rumo a seguir. Os diálogos são pífios, redundantes, até risíveis (tipo o "Meu trabalho é cumprir minha tarefa", ou coisa que o valha, dito por um velho coveiro). Às vezes parece um exercício de sadomasoquismo: o filme já é lento e silencioso por si só, e mesmo assim o diretor adota câmera lenta (!!!) em cenas com os velhinhos fazendo coisas prosaicas - e já naturalmente lentas -, como tomar café. Talvez acreditasse estar passando dramaticidade, melancolia, mas tudo o que conseguiu foi aproximar seu filme daquela clássica piada sobre o cúmulo da lentidão (para quem não sabe, uma corrida de lesmas em câmera lenta). O resultado é esse mesmo, com a exceção de que, talvez, a corrida de lesmas em câmera lenta seja mais emocionante e divertida. Curiosamente, encontrei na internet a página de um primeiro projeto de adaptação de "Enquanto a Noite Não Chega", que não passou da fase de captação de recursos e teria, no elenco, Paulo Autran, Carmen Silva e Leonardo Villar (dois deles já mortos e enterrados há algum tempo), com direção de Guilherme de Almeida Prado.


O ÚLTIMO ROMANCE DE BALZAC (2010. Dir: Geraldo Sarno)
O primeiro candidato a "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" de 2010 (e sim, quero dizer que isso é ruim!). Esta injustificável patacoada apresenta-se como mistura de documentário e ficção sobre aquele que seria o último livro do escritor francês Honoré de Balzac, "Cristo Espera por Ti", supostamente psicografado pelo médium brasileiro Waldo Vieira nos anos 60. O tema é curioso e, vá lá, interessante. Isso, claro, se o filme discutisse a validade de um livro "psicografado" atribuído a um grande escritor. Não é o que acontece: este é um dos documentários menos imparciais e mais absurdos que já vi. Ao invés de questionar ou investigar, o diretor Geraldo Sarno simplesmente entrevistou o próprio Waldo, que põe-se a filosofar sobre como recebeu o espírito de Balzac (neste momento já começam a ecoar as primeiras risadinhas involuntárias pela sala), e um psicólogo que estudou o tal livro psicografado durante dez anos da sua vida, e que jura de pés juntos que a obra foi mesmo ditada pelo espírito de Balzac. Para tentar provar seu ponto de vista, o "especialista" fala sem parar (e sem ser questionado por ninguém) durante uns 70% do filme, em longuíssimos e cansativos depoimentos sem cortes, direto para a câmera. E, apesar de falar sem parar, não convence ninguém de nada, até porque durante a maior parte do tempo refere-se a um único parágrafo (!!!) do texto psicografado. Lá pelas tantas, até um quadro do pintor holandês Paul Potter entra na salada, e um artista brasileiro anônimo que pintou uma cópia do quadro original (!!!) também aparece dando seu depoimento, como se fosse uma grande autoridade no assunto. Enfim, todo mundo fala sobre o caso, menos quem realmente deveria ser entrevistado. Por exemplo, algum respeitado especialista sobre Balzac, que certamente iria esculhambar com qualquer argumento "pró-psicografia". E quando você acha que a coisa não pode piorar, o diretor Sarno começa a intercalar os escalafobéticos depoimentos com a "reconstituição" de um romance "verdadeiro" de Balzac, "A Pele de Onagro", sem que isso tenha muita justificativa na proposta do "documentário". E o faz da maneira mais caduca possível: a ficção aparece em forma de filme mudo (!!!), em preto-e-branco e sem som, com gigantescos (e prolixos) quadros de texto no lugar dos diálogos!!! O resultado é uma piada de mau gosto, verdadeiramente difícil de agüentar até o final. No dia seguinte à exibição do filme no Festival, parte da equipe deu uma coletiva para a imprensa, quando o diretor argumentou ser "muito comum" que médiuns sejam possuídos por espíritos de escritores famosos que querem ditar novas obras. Não sei se o próprio Sarno é médium ou não, mas ele certamente foi possuído por um espírito na hora de dirigir este filme: o de Ed Wood!


OS INQUILINOS (2009. Dir: Sergio Bianchi)
Um brilhante estudo da paranóia provocada pela violência urbana, que infelizmente passou batido pelos cinemas brasileiros - a exibição em poucas salas não fez justiça à qualidade da obra. Também passou fora da mostra competitiva em Gramado, e por isso não faturou os vários Kikitos que merecia. Uma injustiça, considerando que o filme retrata por um outro viés (muito mais interessante) o mesmo assunto do fiasco "Salve Geral", que acabou recebendo todos os holofotes. É praticamente uma versão brasileira do thriller "O Suspeito da Rua Arlington": naquele fatídico ano de 2001, na véspera do mega-ataque do PCC que provocou caos em São Paulo, a rotina de uma família de classe média baixa é radicalmente alterada pela chegada de três estranhos inquilinos para morar na casa ao lado. No começo eles parecem simples baderneiros, mas Valter, o patriarca da família, começa a desconfiar que podem ser perigosos bandidos - e uma ameaça à segurança dos seus filhos pequenos. Bianchi constrói sua história lentamente, mostrando como a ilusão de "segurança" do protagonista é progressivamente destruída pelo ambiente caótico ao seu redor (as notícias sensacionalistas que vêm pela TV, inclusive com participação especial do Datena; as agressões por bobagem nas ruas do bairro; as provocações dos "manos" no caminho de volta para o trabalho). Valter é interpretado soberbamente por Marat Descartes, que consegue passar toda a fragilidade do seu personagem, sem exageros, caricaturas ou falsos (e absurdos) heroísmos, que não têm lugar nessa história realista. Também há pequenas participações de Ailton Graça, Cássia Kiss e Caio Blatt (que depois se reencontraram no set de "Bróder"), interpretando personagens que representam diferentes facetas da insegurança da periferia. "Os Inquilinos" conta ainda com um final irônico e contundente, sem falsas esperanças, que apenas evidencia a seriedade com que a questão foi tratada - o extremo oposto do já citado "Salve Geral". Talvez o único ponto negativo da obra seja o fato de SPOILER revelar cedo demais que os três vizinhos realmente são bandidões, ao invés de deixar isso na dúvida até o final, trabalhando assim a delicada questão do preconceito em relação a determinados estereótipos associados à criminalidade. FIM DO SPOILER. Mas é muito pouco para depreciar este filme tenso e angustiante, um dos bons exemplares do cinema brasileiro contemporâneo.


NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR (2010. Dir: Jorge Durán)
Rivaliza com "O Último Romance de Balzac" pelo título de "piada de mau gosto do Festival de Gramado", embora se saia um pouco melhor na comparação por pelo menos tentar contar uma história - diferente do "documentário" de Geraldo Sarno. O roteiro de Dani Patarra e do diretor Jorge Durán segue a linha Paul Haggis e Iñárritu/Arriaga: as vidas de vários personagens se cruzam numa véspera de Natal no Rio de Janeiro, a partir da busca de uma mulher (Simone Spoladore) pelo pai de um garotinho hiperativo. Pelo caminho, eles cruzam com personagens como o professor universitário que também é motorista de táxi (Angelo Antonio) e o galã de rodoviária metido a marginal (Cauã Reymond), que está apaixonado por uma prostituta (Fabiula Nascimento, praticamente repetindo seu papel em "Estômago"). Como precisa urgentemente de dinheiro para tirar a amada da "vida fácil", o bandido apaixonado resolve partir para o crime, quando entra no caminho dos demais personagens. O filme se sustenta muito bem até a metade, mesmo com um personagem infantil muito irritante - o tal menino em busca do pai. Cenas como a do assalto frustrado realizado por Cauã numa padaria ou o banho de chuva no meio da rua são ótimas e alimentam a expectativa do espectador. Mas da metade em diante, o filme segue ladeira abaixo, principalmente quando sai da linha mais realista de "encontros e desencontros" para seguir um tom de fábula e misticismo, com direito a poderes sobrenaturais de um dos personagens (é ver para crer!). Aí "Não Se Pode Viver Sem Amor" vira uma bobagem. Pior: uma bobagem levada a sério, que acaba escorregando na própria pretensão e ainda acaba num final absurdo. Uma tristeza, considerando o belo potencial que o filme vinha demonstrando. É como se o diretor-roteirista Jorge Durán tivesse tomado ácido no meio do trabalho, de tanto que as duas metades da obra destoam em tudo (principalmente na qualidade). E em nada lembra o sujeito que escreveu clássicos do cinema nacional, como "Pixote - A Lei do Mais Fraco" e "Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia". Certamente vai achar seu público quando sair em DVD (ou passar na TV), mas é inevitável aquela sensação de "What a fuck?" quando a trama toda começa a degringolar de maneira cada vez mais veloz.


180º (2010. Dir: Eduardo Vaisman)
Curto e grosso: o "21 Gramas" brasileiro. Como no filme de Iñárritu/Arriaga, a trama escrita por Claudia Mattos (e dirigida por Eduardo Vaisman) acompanha os acontecimentos no passado, presente e futuro de três personagens, mas as seqüências são apresentas fora de ordem, com idas, vindas e voltas no tempo. O drama começa quando um escritor confessa ao amigo que seu primeiro livro, um estrondoso best-seller chamado "180º", foi baseado em histórias retiradas de uma caderneta que ele encontrou na rua. E o verdadeiro dono da caderneta está ameaçando desmascará-lo. A partir de então, por meio da narrativa não-linear, o filme volta e avança no tempo para mostrar como aconteceu o episódio da caderneta, e também como o escritor roubou a esposa do amigo e confidente. O final-surpresa não é tão surpresa assim (quem prestar atenção vai matar a charada na metade), mas o grande problema do filme é que a conclusão, por demais aberta e "inacabada", é frustrante, ainda mais para quem esperava uma resolução para os conflitos entre os três personagens principais. No geral, o filme é bem feitinho e mantém o interesse, além de fugir de muitos estereótipos e clichês do moderno cinema brasileiro. A fotografia é linda, e o diretor Vaisman comprova saber o que faz. Só faltou mesmo um cuidado maior com a história e com a edição, que não alterna tão bem quanto "21 Gramas" a questão da não-linearidade dos acontecimentos (revelando alguns detalhes cedo demais, por exemplo). Comprovando que a inspiração no filme de Iñárritu não foi mera coincidência, o roteiro até brinca com a escolha do título do livro (e do filme), "180º", quando a editora justifica que esta é a temperatura da ebulição total do sangue (!!!). Depois, ao confessar que era tudo balela, argumenta: "É preciso inventar uma baboseira dessas para o pessoal comprar a idéia", numa citação mais do que descarada a "21 Gramas" e seu marketing igualmente absurdo (os tais 21 gramas que as pessoas perderiam na hora da morte). Enfim, nada de muito espetacular, mas um filme tecnicamente bom e razoavelmente curioso, embora faltem mais conflitos para que a trama mantenha o interesse durante o segundo ato. Esquecível, mas parece até melhor diante de muitas bobagens exibidas em Gramado, como "O Último Romance de Balzac" e "Ponto Org".


PONTO ORG (2010. Dir: Patrícia Moran)
"Este é um filme bastante experimental", disse a diretora Patrícia Moran, momentos antes da exibição de "Ponto Org" no Festival de Gramado. Neste exato momento, senti um calafrio, pressentindo o que vinha pela frente. Dito e feito. Nem sei se "Ponto Org" pode ser chamado de filme: parece mais uma obra de "vídeo-arte" esticada para intermináveis 80 minutos. Se a proposta poderia até ser suportada durante uns, digamos, 15 ou 20 minutos, ampliar a balbúrdia para o formato de longa é o mesmo que assinar a sentença de morte do projeto. No papel, a "história" de um casal que pede a um trio de crianças da periferia para captarem imagens do miserê urbano, supostamente para a realização de um jogo de videogame, até é interessante. Pela fragmentação do olhar dos moleques, descortina-se uma São Paulo com diferentes facetas e personagens excêntricos, incluindo uma velha mendiga que não quer deixar seu lugarzinho debaixo da ponte, mesmo quando herda um confortável apartamento da irmã morta. Na prática, porém, o "filme" não passa de um amontoado de imagens com pouco ou nenhum nexo, e sem relação umas com as outras - repletas de trucagens, sons e colagens estilo "quero ser moderninho". É vídeo-arte pura e sem pé nem cabeça (o filme poderia ser exibido sem diálogos, que não faria qualquer diferença). O pobre Paulo César Pereio aparece em meia-dúzia de cenas como um indecifrável personagem onipresente, uma espécie de oráculo sem muita função - que me lembrou, pasmem, o personagem de Bela Lugosi em "Glen ou Glenda". "Ponto Org" também tem certa semelhança com o igualmente insuportável "O Fim da Picada", já que ambos não passam de uma colagem de imagens bizarras da miséria em São Paulo. Logo, aquele tipo de coisa que só pseudo-intelectual modernete vai conseguir suportar até o final. Já para mim, um espectador comum, a única coisa digna de lembrança é a aparição-relâmpago de José Mojica Marins, provavelmente acidental, como anônimo trauseunte ao fundo de uma cena externa.


O CONTESTADO - RESTOS MORTAIS (2010. Dir: Sylvio Back)
Se "O Último Romance de Balzac" e "Não Se Pode Viver Sem Amor" foram as piadas de mau gosto do Festival de Gramado, este documentário do veterano Sylvio Back é, disparado, o pior filme do evento. Inclusive bateu o recorde de gente dormindo e/ou saindo da sala de cinema no meio da exibição, de todas as sessões de cinema que já vi na vida. E não sem motivo. Afinal, "O Contestado" é um documentário sobre um fato pouco conhecido da história brasileira, a Guerra do Contestado, disputa territorial entre os Estados de Santa Catarina e Paraná no começo do século passado. Se o assunto em si interessa a pouquíssima gente, imagine ver um documentário sobre a Guerra do Contestado que tem intermináveis 2h35min de duração ("redução" de um primeiro corte com 4 horas)!!! Parece lindo? Pois os 155 minutos são preenchidas com um zilhão de repetitivas entrevistas com historiadores, pesquisadores e gente comum que vive na região onde aconteceu o conflito. Todos falam mais ou menos a mesma coisa, e sem muita contextualização histórica, assumindo que espectador já sabe tudinho a respeito da história do Brasil ao entrar no cinema. É difícil agüentar sem dormir o preciosismo do diretor Back, que demonstra o entusiasmo de um professor de história, mas sem conseguir cativar os alunos (ou espectadores). Mesmo seus filmes mais famosos e premiados, como "Aleluia Gretchen" e "A Guerra dos Pelados", não passam de aulas de história bem chatinhas. Mas "O Contestado" extrapola qualquer limite, e, para piorar (prepare-se para as gargalhadas), o diretor ainda comete a façanha de intercalar os depoimentos e imagens históricas com inacreditáveis intervenções de 30 médiuns EM TRANSE, supostamente recebendo OS ESPÍRITOS DAS VÍTIMAS DO CONFLITO!!! Você não leu errado: um documentário que era para ser sério traz DEPOIMENTOS DE ESPÍRITOS, transformando-se automaticamente em piada - a não ser, claro, que você acredite em vida após a morte. É de questionar o que virá depois: um documentário sobre a Segunda Guerra Mundial com médiuns encarnando Hitler para pedir desculpas à humanidade, talvez? Seja como for, confesso que vi menos de uma hora desse martírio chamado "O Contestado": dormi durante a maior parte, como quase todos os outros espectadores, e saí da sala faltando meia hora para terminar - tão burro quanto no momento em que entrei, sem aprender nadica de nada sobre a tal Guerra do Contestado. Sem sombra de dúvidas, esta é a versão brasileira para o lendário "A Cura para a Insônia" (se não conhece, veja aqui), mas sem a necessidade de 87 horas de duração para colocar a platéia toda em coma profundo!


DIÁRIO DE UMA BUSCA (2010. Dir: Flávia Castro)
Quando este documentário estreou no Festival de Gramado, já havia sido exibido o filme chileno "Mi Vida com Carlos", cuja proposta é bem parecida. Se no documentário estrangeiro o diretor Germán Berger contava a história do pai morto pela ditadura de Pinochet, aqui a diretora Flávia Castro reconstitui os passos do pai Celso Afonso Gay, que, na luta contra a Ditadura Militar, viveu em diferentes países da América do Sul. O irônico da história é que Celso não foi morto pelos militares, mas sim num até hoje inexplicável assalto a uma mansão em Porto Alegre, em 1984, quando já havia voltado ao país. "Diário de uma Busca" mostra a filha visitando os antigos locais em que o pai viveu como exilado, traçando um rico painel de como era a vida dos militantes contra a Ditadura. Também tenta obter mais informações sobre o assalto em que o pai foi morto - ou se suicidou, conforme a versão oficial. O problema do filme brasileiro, em comparação com "Mi Vida com Carlos", é justamente a falta de emoção: tudo é frio e mecânico na "busca" de Flávia, e por mais que ela tente representar seu falecido pai como um sujeito idealista, é inevitável que o espectador sinta um distanciamento da figura de Celso. Se o objetivo do diretor Germán Berger parece ser o de se libertar, de exorcisar o passado no filme chileno, o documentário brasileiro segue por outro viés - o acusatório e investigativo. Para piorar, enquanto Germán idealiza a figura do pai como um homem perfeito e vítima inocente da ditadura de Pinochet, a brasileira cria um distanciamento natural ao contar todos os "podres" do pai, fazendo dele uma figura pouco simpática ao espectador. Além disso, as visitas aos países onde Celso morou, por exemplo, parecem mais uma desculpa para a equipe viajar do que qualquer outra coisa, pois as cenas não fazem nenhuma diferença no contexto do documentário. Ao mesmo tempo, não há informações suficientes sobre o misterioso assalto em que Celso morreu ou foi morto, o que pode ser frustrante para quem não viveu na época e não acompanhou o caso na imprensa (até documentos nazistas estariam no rolo). Ainda que tenha conquistado a maior parte da imprensa e do júri, "Diário de uma Busca" é um filme cujo maior mérito é mostrar a difícil situação dos militantes que lutaram contra a Ditadura, e que, com a abertura política, acabaram descobrindo que o "sonho acabou" e que mudar o Brasil não seria tão fácil. Quando se foca na figura de Celso e sua família, entretanto, o documentário perde a força. Flávia e sua família devem ter se sensibilizado muito com o material, mas o resultado não atinge o espectador como o superior "Mi Vida com Carlos".

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Os filmes que eu vi DEPOIS do Fantaspoa

No final de semana que passou, estive mais uma vez em Porto Alegre para conferir algumas das atrações da mostra retrospectiva "O Melhor do Fantaspoa", que exibiu os filmes premiados e as maiores bilheterias do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre.

Como sempre, tudo foi muito corrido e não consegui ver todos os que eu queria (faltou tempo e disponibilidade para pegar as sessões de "Vampire Girl Vs. Frankenstein Girl" e "Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza", que acabei não conseguindo conferir na telona).

Em todo caso, fica aqui um registro das quatro últimas obras que vi no Fantaspoa 2010, e também um agradecimento público aos nobres realizadores do evento - o hiperativo João Pedro Fleck, sua querida esposa Mari e o sábio oriental Nicolas Tonsho - por terem me tratado a pão-de-ló nestes dias do Festival, deixando-me cada vez mais mal-acostumado. E que venha o do ano que vem!



O LEGADO VALDEMAR (La Herencia Valdemar, 2010, Espanha. Dir: José Luis Alemán)
Eu tinha lido algumas resenhas bem entusiasmadas sobre esta caprichada produção espanhola e estava muito animado para vê-la. Ainda que não seja tãooooo maravilhoso quanto falam, "O Legado Valdemar" é uma história de terror muito bem construída e repleta de detalhes, lembrando até as obras de H.P. Lovecraft. Bastante ambiciosa, a trama começa no presente e depois volta para o começo do século 20, misturando personagens fictícios com figuras reais como o satanista Aleister Crowley, o escritor Bram Stoker e a famosa assassina Lizzie Borden. O filme começa lembrando "A Casa do Cemitério", de Lucio Fulci, com uma corretora de imóveis encontrando cadáveres putrefatos num velho casarão ao inventoriar os bens da propriedade. Ela então some de cena, e a imobiliária contrata um detetive para investigar seu desaparecimento. É quando começa o longo flashback contando a história da Mansão Valdemar, que, veja só, se estende até o final! Isso mesmo: a história não termina aqui, mas sim numa futura segunda parte, "La Sombra Prohibida", já filmada e com lançamento previsto para 2011 (um teaser da seqüência é exibido durante os créditos finais). O fato de a história não ter conclusão é de certa forma frustrante, principalmente porque o filme termina aberto demais e sem concluir nenhuma das muitas situações iniciadas - sugiro que quem ainda não viu, espere para ver num programa duplo quando sair a segunda parte. Talvez os realizadores pudessem ter enxugado o imenso flashback para fazer um filme só, ou pelo menos intercalar algumas das subtramas (como a da corretora desaparecida) em meio ao flashback, para não deixar tudo a resolver na segunda parte. De todo modo, "O Legado Valdemar" é um belo filme, surpreendentemente inteligente e rico em detalhes nestes tempos de remakes e produções descartáveis. A lamentar apenas o papel apagado de uma lenda do cinema fantástico espanhol, o falecido Paul Naschy, numa participação indigna do seu talento como o mordomo da mansão Valdemar.


VIDA E MORTE DE UMA GANGUE PORNÔ (Zivot i Smrt Porno Bande, 2009, Sérvia. Dir: Mladen Djordjevic)
Esta bizarra produção vinda da Sérvia foi a mais idolatrada do festival porto-alegrense, colecionando elogios generalizados. Ou eu não entendi o filme, ou não comprei a idéia: só sei que não vi nada de tão espetacular assim. Na verdade, "Vida e Morte..." começa muito bem e muito divertido: o impagável primeiro ato acompanha a frustração de um estudante de cinema que não consegue dinheiro para produzir suas películas, e acaba envolvendo-se com cinema pornô e com uma trupe itinerante que promove shows de sexo ao vivo pelo interior do país. A partir da metade, entretanto, a coisa descamba ao entrar no território (cada vez mais batido) dos snuff movies. Aí parece que o objetivo do diretor-roteirista Mladen Djordjevic é o de chocar a qualquer custo: se não for com a extrema violência, é com as cenas de sexo explícito, inclusive entre homossexuais, e chegando ao auge do mau gosto no momento em que um travesti chupa o pau de um cavalo (explicitamente)! É como se Rob Zombie e o catarinense Petter Baiestorf estivessem refilmando o clássico "Emanuelle in America", do Joe D'Amato, sob efeito de LSD: vale tudo para chocar e/ou incomodar o espectador. Mas confesso que não consegui embarcar na brincadeira, não me importei com o destino dos personagens e comecei a achar tudo muito cansativo e repetitivo da metade para o final. Sem contar que o filme nunca se decide entre ser avacalhação pura e simples ou fazer crítica social e política séria sobre certos aspectos do país (como na cena do velho fazendeiro que aceita ser "ator" de um snuff para que sua família finalmente saia da miséria com o dinheiro do "cachê"). Enfim, um filminho curioso pela proposta e pelo país de origem, mas do tipo que se assiste uma vez e logo se esquece. Claro, o errado aqui pode ser eu, já que todo mundo a-do-rou "Vida e Morte de uma Gangue Pornô", e ele inclusive ganhou o prêmio de Melhor Filme no Fantaspoa! Veja e tire suas próprias conclusões.


OS CISNES FEIOS (Gadkie lebedi, 2006, Rússia. Dir: Konstantin Lopushansky)
Outro filme celebrado do Fantaspoa (ganhou o prêmio de Melhor Roteiro) que eu não achei grande coisa. Se "Vida e Morte de uma Gangue Pornô" parecia "Emanuelle in America" refilmado por Rob Zombie e Baiestorf, "Os Cisnes Feios" pode ser descrito como uma versão de "A Aldeia dos Amaldiçoados" dirigida por Andrei Tarkovsky: a fotografia é belíssima, as imagens são fantásticas (principalmente os créditos iniciais, com o trem que viaja ao lado de um grande incêndio florestal) e a idéia até é interessante, mas a narrativa segue em câmera leeeeeeeenta, com gigantescos diálogos às vezes interessantes, mas na maior parte do tempo redundantes, quase prolixos. Basicamente, o filme conta a história de um escritor russo em busca da filha, que integra um grupo de crianças superdotadas enclausurado na escola de uma cidade-fantasma. Os "professores" do local são misteriosos mutantes de rosto deformado e poderes desconhecidos, que vêem na garotada a possibilidade de um novo rumo para o futuro da humanidade - o que, claro, vai de encontro aos interesses dos governantes. A trama se desenrola em cenários sempre escuros e durante uma chuva incessante, elementos que criam um clima dramático e opressivo. Mas o ritmo lento e os diálogos pseudo-filosóficos intermináveis são um convite ao sono (sem contar que às vezes os personagens trocam mais informação por segundo do que o espectador é capaz de assimilar). Novamente, é possível que o errado seja eu, pois todo mundo que eu conheço saiu maravilhado da sessão; mas continuo achando que havia filmes muito mais interessantes e intrigantes (e menos chatos) no Festival do que este, como o francês "8th Wonderland". Mais um caso de "assista e veja por si mesmo".


EU VENDO OS MORTOS (I Sell the Dead, 2008, EUA. Dir: Glenn McQuaid)
Uma bela surpresa esse filme que já está na roda de download há um bom tempo, mas que eu nunca tive curiosidade de conferir antes do Fantaspoa. É uma trama de horror e humor negro que ficaria maravilhosa se dirigida por Sam Raimi, Peter Jackson ou Don Coscarelli lá nos anos 80, mas que ganha um tratamento no mínimo divertido nas mãos do desconhecido diretor-roteirista Glenn McQuaid. A trama começa com a execução de um notório ladrão de cadáveres na guilhotina, e logo em seguida um padre (Ron Pearlman!) vai ouvir a confissão do comparsa do falecido, que está preso e em breve também será executado. O anti-herói é interpretado por Dominic Monaghan (de "O Senhor dos Anéis"), que põe-se a relatar sua vida pouco comum como ladrão de cadáveres, desde a época em que surrupiava defuntos dos velórios para vender a um cientista louco (Angus Scrimm, o Tall Man da série "Phantasm", que aparentemente esqueceu de morrer!) até o momento em que ele e seu parceiro descobriram a existência de perigosos mortos-vivos. Estas criaturas, lógico, valiam muito mais dinheiro por causa das suas propriedades mágicas. Com um climão de história em quadrinhos e alguma violência gráfica (quase sempre bem-humorada), "Eu Vendo os Mortos" diverte pela história inusitada, mas a mão pesada do diretor-roteirista principiante aparece nitidamente perto do fim, quando o filme se enrola mais que o necessário. Para piorar, o roteiro desperdiça alguns dos personagens mais interessantes - no caso, a sinistra quadrilha dos Murphy, rival da dupla de protagonistas no negócio de roubo e venda de cadáveres. Defeitos facilmente perdoáveis pelo elenco simpático, pelas piadas inspiradas e pelo ótimo desfecho, que cita descaradamente o já clássico "Reanimator".

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os filmes que eu vi no Fantaspoa

TUCKER & DALE ENFRENTAM O MAL (Tucker & Dale vs. Evil, 2009, Canadá. Dir: Eli Craig)
Talvez o filme mais divertido do Festival, e um dos melhores "terrir" da última safra. O roteiro inspiradíssimo parte de uma idéia original que muita gente irá arrancar os cabelos por não ter pensado antes: o medo daqueles típicos caipiras norte-americanos (os chamados "rednecks"), quase sempre representados como vilões estupradores, assassinos ou canibais em filmes como "O Massacre da Serra Elétrica" e "Amargo Pesadelo". Pois Craig, co-roteirista da pérola, transforma estes rednecks em heróis: os simpáticos Tucker e Dale são dois pobres coitados que compram uma cabana caindo aos pedaços no meio do bosque e se mandam para passar as férias no local, pensando apenas em pescar e beber cerveja. O problema é que um grupo de adolescentes promíscuos e idiotas (tradicionais vítimas de slasher movies) vai acampar naquela mesma área. Após uma série de mal-entendidos, os jovens acreditam que aqueles inocentes caipiras são assassinos cruéis como os dos filmes de horror. E, na tentativa de escapar deles, ou de enfrentar os "vilões", acabam sempre morrendo, numa sucessão de acidentes violentíssimos que, claro, parecem ter sido provocados pelos pobres Tucker e Dale! O filme é repleto de sangue e violência, mas nunca se leva a sério. Tudo que os caipiras fazem para "ajudar" os jovens acaba piorando a situação, num festival de gags e piadas muito engraçadas. Destaque para a cena da serra elétrica, em que Tucker serra acidentalmente uma colméia de abelhas. No terceiro ato o ritmo cai um pouco e a trama tenta ficar mais "séria", mas nada que estrague a diversão. E o resultado é uma belíssima comédia de humor negro onde, pelo menos uma vez na vida, os rednecks são os heróis!


O CAVALEIRO (The Horseman, 2006, Austrália. Dir: Steven Kastrissios)
Esta tradicional história de vingança lembra bastante dois filmes: "Hardcore", de Paul Schrader, e "Busca Implacável", de Pierre Morel. Em todos eles, um pai vingativo e extremamente furioso parte numa cruzada solitária em busca dos homens que fizeram mal à sua filha - a motivação dos vilões sempre envolve sexo e pornografia. A diferença é que "O Cavaleiro" parece uma versão muito mais casca-grossa dos dois filmes citados: não há astros de cinema nem frases de efeito para suavizar a brutalidade do negócio. E bota brutalidade nisso: Christian, o pai vingativo cuja filha morreu de overdose após "estrelar" um filme pornô, sai arrebentando todo e qualquer sujeito que ele considere responsável pela sua perda, usando instrumentos como pé-de-cabra, marretas e até anzóis enfiados no pênis (ouch!). Para quem gosta dessas histórias "nuas e cruas" de vingança, o filme é um prato cheio. Afinal, Christian não brinca em serviço e parece ter prazer em torturar e matar os homens que persegue. Infelizmente, "O Cavaleiro" tem dois probleminhas. O primeiro é a estrutura do filme, que praticamente só pula de um sujeito torturado e morto para outro, sem grandes reviravoltas ou acontecimentos entre cada momento sangrento. O segundo probleminha é o final, quando se revela que os bandidos são todos malvados e sádicos, sacrificando a coisa mais interessante da trama: a dúvida de que talvez as pessoas mortas por Christian não fossem realmente culpadas pela morte da sua filha, e que ele as estaria castigando apenas para minimizar a dor da perda e o fato de ter sido um péssimo pai. Mesmo assim, o filme prende a atenção do começo ao fim, e é difícil encontrar tramas de vingança sérias e pesadas como esta (que parece saída diretamente dos anos 70) no cinema atual, bem como um herói imperfeito e mais sádico que os vilões. Com certeza vale o ingresso.


GLENN, O ROBÔ VOADOR (Glenn, The Flying Robot, 2010, Bélgica. Dir: Marc Goldstein)
Se eu apenas tivesse visto o filme sem jamais conhecer seu realizador, provavelmente ficaria com a impressão de que o diretor belga Marc Goldstein não tinha a menor idéia do que estava fazendo ao escrever, produzir e dirigir esta sua estréia cinematográfica. Mas tendo convivido alguns dias com o esquisitão Marc, e principalmente acompanhando sua palestra pós-exibição de "Glenn", o que era apenas uma impressão se confirmou: o coitado realmente não tinha A MENOR IDÉIA do que estava fazendo, e até confessou ao público que hoje faria tudo completamente diferente! Do jeito que está, o filme é uma zona em que pouco se salva: nunca se decide entre ser uma história de suspense, de ficção científica ou a fantasia censura livre que o título propõe. Aliás, o título não se justifica, considerando que todos os robôs da história voam, e não apenas o tal Glenn. Em linhas gerais, Goldstein situa sua história num futuro próximo, quando os robôs trabalham como escravos para a humanidade (tão original...). O fiel robô Glenn pertence a Jack, um pianista famoso que perdeu o dom depois de um acidente. Após muita lenga-lenga, Glenn toma para si o desejo de vingança do seu mestre e aprisiona Henry, o seboso pianista rival de Jack, propondo um "jogo mortal": ele precisa tocar habilmente uma sinfonia ao piano para não morrer numa explosão. Enfim, um fiapo de história que até daria um curta-metragem interessante, mas que, esticada para virar longa, se transforma num melodrama frustrante e muito chato. A parte final, com a ameaça mortal de Glenn, jamais passa qualquer tensão, e é até um alívio quando o filme termina. Afora alguns mínimos detalhes, como o visual dos robôs, "Glenn, O Robô Voador" é um fiasco de primeira, onde não se salvam nem mesmo os atores conhecidos (Billy Boyd, Dominic Gould, Gérard Depardieu numa ponta). Mais divertido que o próprio filme foi conviver com as excentricidades do seu realizador, mas isso é assunto para outra hora.


AMARGO (Amer, 2009, França/Bélgica. Dir: Hélène Cattet e Bruno Forzani)
Confesso: dormi uns 15 minutos durante a sessão deste filme, cansado que estava das maratonas etílicas que eram praticamente diárias nos bastidores do Fantaspoa. Cheguei a taxar o filme de chato ao sair da sessão, e ele ingavelmente o é em vários momentos. Apesar disso, as imagens não saem da cabeça. Esta é uma belíssima homenagem ao cinema italiano dos anos 70, especialmente os trabalhos de Mario Bava e Dario Argento. O fiapo de trama acompanha três momentos na vida de uma moça, desde a infância até a vida adulta. Não há muita relação entre estes momentos além de uma atmosfera de sensualidade e, ao mesmo tempo, perigo e horror. É quase um "giallo", pois lá pelas tantas aparece um assassino com navalha e luvas de couro pretas. Mas também tem um tom sobrenatural à la Bava, com um cadáver arrepiante que lembra o episódio do anel em "As Três Máscaras do Terror". No fim, "Amargo" não é nem uma coisa nem outra, nem giallo nem terror, mas sim uma experiência artística belíssima. Quase não há diálogos; em compensação, há uma maravilhosa composição de efeitos sonoros que praticamente joga o espectador no universo do filme. Quase não há planos abertos, e toda a história é contada em detalhes, closes cada vez mais próximos. Isso tudo, somado à iluminação e à montagem, comprovam que "Amargo" não tem muito interesse em contar uma história, mas sim em acumular cenas e imagens tão bonitas que poderiam ser emolduradas e penduradas na parede. Outras provocam arrepios em cada pêlo do corpo, como a do homem retalhado a navalhadas em close! Eu tenho o hábito de às vezes pegar o DVD de filmes como "Era Uma Vez no Oeste" não para assisti-lo inteiro, mas sim para rever as cenas mais bonitas. Quando "Amargo" sair em DVD, eu provavelmente vou fazer a mesma coisa, assistindo e reassistindo várias vezes os seus diversos belos momentos. Definitivamente não é para todos os públicos, mas é um dos filmes mais visualmente hipnotizantes que eu vi em, sei lá, muito tempo!


MASSACRE ESTA NOITE (Masacre Esta Noche, 2009, Argentina. Dir: Adrián e Ramiro García Bogliano)
Um dos destaques do Fantaspoa 2010. Com câmera digital e produção quase amadora, conta a história de um pobre videomaker argentino contratado para trabalhar como operador de câmera nas filmagens de um suspeitíssimo filme pornô, numa fazenda deserta e durante a noite. Quando o diretor grita "Ação!", os temores do rapaz se concretizam: ele acabou envolvido com uma cadeia internacional de realizadores de "snuff movies", e terá que lutar - literalmente - para não se transformar no próximo "ator" a ser assassinado diante das câmeras. Com idéia simples e divertida, tudo funciona que é uma beleza no filme. Inicialmente, pelo resumo da trama, pode até parecer uma comédia de humor negro, mas na verdade "Massacre Esta Noite" é um terror sério e violentíssimo, embora com um senso de humor doentio que faz graça de momentos asquerosos (como aquele em que os sujeitos posam para fotografias ao lado de um cadáver decapitado!). O elenco está inspiradíssimo, principalmente o diretor malucão que acredita estar fazendo arte (interpretado por Diego Cremonesi) e o decadente e barrigudo ator pornô (Rolf García). Os diálogos também fogem do besteirol típico do gênero e buscam discutir seriamente a questão do fascínio pelos "snuff movies" - um tema recorrente em diversas produções recentes. Principalmente quando o afetado diretor compara o gigantesco número de acessos em um vídeo real colocado no YouTube com a bilheteria reduzida do último filme de David Lynch. Já o final é um show de sangue e variados tipos de agressão física, com direito a faca enfiada no pescoço saindo por dentro da boca (à la "Terror na Ópera"). Uma verdadeira surpresa, que mais uma vez comprova o banho que nossos hermanos estão nos dando também em matéria de cinema fantástico.


FILHOS DA FORMATAÇÃO (Eraser Children, 2009, Austrália. Dir: Nathan Christoffel)
Até os primeiros 20 minutos de "Filhos da Formatação", eu acreditava estar diante de uma daquelas pérolas sobre as quais ninguém fala ou escreve, e que depois de ver você sai animado recomendando para todo mundo. Havia algo de muito interessante e sedutor na mistura bem-humorada de "Brazil - O Filme" com "Max Headroom" (aquele seriado que só quem é dos anos 80 vai lembrar). Infelizmente, após os tais 20 minutos, o filme afunda como uma bigorna na piscina, e a trama sobre uma opressiva sociedade futurista à la "1984" se transforma numa bobajada pseudo-mística envolvendo colírios alucinógenos, regressão a vidas (ou memórias) passadas e MUITA pretensão. A história se passa num futuro em que uma megacorporação domina a humanidade, despejando dezenas de novas leis estúpidas por dia (tipo "É proibido apertar mãos"), todas elas rigorosamente monitoradas pela polícia fascista. Os cidadãos também podem apagar suas memórias e comprar sonhos "pré-fabricados" para escapar das suas vidas medíocres. O problema é que um deles, um funcionário burocrático que vive de revisar as novas leis criadas pelo Governo, descobre que era um terrorista cuja memória foi apagada. Contatado por um "ex-colega", é convencido a tomar parte num plano para eliminar o ditador que comanda a sociedade. Lendo assim até parece divertido, mas a história perde completamente o foco quando a dupla de protagonistas foge para os subterrâneos, onde se passa a maior parte do filme até a conclusão - num festival de flashbacks, diálogos desnecessários e delírios, bem distante daquele clima de humor negro do início. Uma ótima idéia mal-conduzida. E ainda não foi dessa vez que surgiu um novo "Brazil - O Filme"...


RECORTADAS (2009, Argentina. Dir: Sebastián De Caro)
Ironicamente, na mesma semana em que "À Prova de Morte", do Tarantino, finalmente chegava aos cinemas brasileiros, esta obscura produção argentina foi exibida no Fantaspoa. E a comparação é inevitável: em oitenta e poucos minutos, "Recortadas" é uma homenagem muito mais sincera e fiel ao espírito "anos 70" de cinema sexploitation do que as duas horas do filme do Tarantino, ou do que as mais de três horas do fracassado projeto "Grindhouse" - algo que eu disse aos próprios realizadores do filme, os simpáticos Juan Pablo Caserta (produtor) e Mauro Narducci (assistente de direção), no final da sessão. Como muitas daquelas amalucadas produções feitas nos anos 70 para exibição em cinemas pobretões ou drive-ins, "Recortadas" tem um fiapo de história (muito semelhante a "Hostel 2") costurado com uma miscelânea de cenas, personagens e diálogos que pouco ou nada têm a ver com o "todo": um sujeito engraçado falando sobre a importância das estátuas-vivas, um velhote se masturbando num museu diante de pássaros empalhados, o sexo virtual praticado por uma garota com um nerd numa lan house, e por aí vai. No meio dessa balbúrdia, e com as generosas cenas de nudez das duas gatinhas que estrelam o filme (mulheres fortes e "machonas", como as de Tarantino), fica até fácil embarcar na brincadeira e esquecer que o filme não tem muito objetivo. Mantendo o espírito "grindhouse" que nem Tarantino nem Robert Rodriguez conseguiram emular a contento, "Recortadas" também traz uma divertida seqüência com os atores dublados em outras línguas (alemão e italiano), homenageando o sexploitation produzido na Europa. Um filme que com certeza cumpre seu objetivo (e diverte) muito mais que o pretensioso e cansativo "Death Proof".


THE UH-OH SHOW (2009, EUA. Dir: Herschell Gordon Lewis)
Não dá para esperar muita qualidade do veterano Herschell Gordon Lewis, atualmente com 81 anos. Tudo bem que ele foi um dos precursores do gore no cinema de horror, mas mesmo seus "clássicos" dos anos 60 e 70, como "Banquete de Sangue" e "Maníacos", já eram bem ruinzinhos, e só valiam mesmo pelo pioneirismo do uso de mutilações explícitas. "The Uh-Oh Show", novo filme do maníaco, é um atentado ao bom gosto e a prova cabal de que Lewis não só ficou gagá, como perdeu completamente a vergonha na cara com a idade. Tão ruim ou pior que seus filmes antigos, soa ainda mais enfadonho pelo fato de a violência exagerada no cinema de horror hoje ser regra, e não exceção. A história não é nova (lembra um pouco "O Sobrevivente", aquele filme do Schwarzenegger), e envolve um bizarro programa televisivo de perguntas e respostas em que os membros dos participantes são arrancados com serra elétrica quando eles erram as questões. No começo parece bobagem assumida, com direito a pessoas ainda vivas mesmo depois que suas cabeças são decepadas ou suas tripas arrancadas. Mas Lewis, também autor do roteiro, comete um pecado mortal quando passa a levar a história a sério, colocando uma repórter para investigar os bastidores do programa. Os baratíssimos efeitos sangrentos são tão mal-encenados que pareceriam vergonhosos mesmo num filme amador do catarinente Petter Baiestorf; mas o pior é que o filme tem uma quantidade absurda de "matação de tempo", com uma infinidade de personagens (interpretados por PÉSSIMOS atores) e diálogos sem razão de existir. Enfim, uma das grandes bombas dos últimos tempos, que eu nem consegui suportar até o final!


ARMAZENAGEM A FRIO (Cold Storage, 2006, EUA. Dir: Tony Elwood)
Pelo título, pelo pôster e pelo argumento, você pode até não levar muita fé nessa produção independente - que, pasmem, demorou mais de 20 anos para sair do papel. É uma trama que lembra muito "Psicose": uma moça sofre um acidente na estrada, morre e é "raptada" (seu cadáver, no caso) por um caipira esquisitão, que vive isolado numa floresta, nas cercanias de uma cidadezinha. Alguns dias se passam e, sem notícias da garota, a irmã e o namorado da finada resolvem investigar seu paradeiro, como também acontecia no clássico de Hitchcock. O que faz de "Armazenagem a Frio" outra boa surpresa do Fantaspoa é que o "Norman Bates" da hora, Clive Mercer (muito bem interpretado por Nick Searcy), é apresentado como uma figura mais humana, nada maléfica e até simpática aos olhos do espectador. Ele não é assassino e muito menos necrófilo (em nenhum momento o filme sugere que Clive tenha atração sexual pelo cadáver que abrigou em sua cabana; é "amor" mesmo). Mas é claro que, à medida que a história vai se complicando (não é fácil esconder uma falecida, ainda mais numa cidade pequena), o pobre ermitão acabará se transformando num vilão meio trágico, que foge muito daquela cartilha padrão de psicopatas cinematográficos. Outros pontos positivos são as boas reviravoltas do roteiro, algumas cenas nojentas ou sangrentas (incluindo uma gráfica decapitação no prólogo, que não tem nada a ver com o resto do filme) e impagáveis e engraçados momentos da vida interiorana, com destaque para o personagem do xerife balofo e preguiçoso que, em momento inesquecível, aparece chupando a gema de um ovo com canudinho!!! Vale a pena conhecer.


É PRECISO AMAR A MORTE (Must Love Death, 2009, Alemanha. Dir: Andreas Schaap)
Com um senso de humor (negro) muito estranho, às vezes lembrando Eli Roth e outras vezes lembrando Peter Jackson, o alemão Andreas Schaap é o responsável por "É Preciso Amar a Morte", uma amalucada mistura de comédia romântica com horror gore. O filme conta a história de um panaca de coração partido que, sem coragem para se matar, resolve apelar para um grupo de suicidas em potencial que, pelo menos teoricamente, irão ajudá-lo em seu intento. Mas o rapaz acaba topando com uma dupla de psicopatas cuja diversão é torturar e matar pessoas em frente à câmera, simulando um programa de auditório. A partir daí, é um festival de sangueira e cenas macabras de violência, mas que, graças aos diálogos irônicos e às atuações cômicas da dupla de psicopatas, não chocam o espectador; pelo contrário, fazem você rir de nervoso diante de atrocidades como a garota que tem seu pé esmigalhado em um torno mecânico. O filme termina com um banho de sangue à la Peter Jackson, e a ambientação numa cabana na floresta também lembra Sam Raimi e "Evil Dead", com um toque de Irmãos Coen na estupidez dos personagens e nos rumos que a trama vai tomando. Schaap não poupa seus personagens, e o resultado fica beeeeem no limite entre comédia e terror. Logo, é um programa perfeito para quem quer "iniciar" sua namorada fã de comédias românticas no mundo do horror sangrento.


8th WONDERLAND (2008, França. Dir: Nicolas Alberny e Jean Mach)
Outra das boas surpresas do Fantaspoa: 8th Wonderland é um "país virtual" criado pela internet, e que reúne pessoas do mundo inteiro. Cansados de esperar pelos seus governantes "oficiais" para mudar os problemas sociais do planeta, os habitantes deste país de mentirinha reúnem-se semanalmente via internet para votar em novas ações para tornar o mundo melhor. Seus atos começam com vandalismos bem-humorados, como a instalação de máquinas de preservativos nas igrejas do Vaticano ou a publicação de uma nova Bíblia devidamente adaptada para a Teoria da Evolução de Darwin. Mas logo seus integrantes começam a aproveitar a fama conquistada na mídia para atos mais extremos, praticamente terroristas, como executar um ditador reeleito na América do Sul ou contaminar os filhos dos presidentes do G-8 com o vírus da Aids para acelerar as pesquisas de novas vacinas para a doença. Os governantes do "mundo real" tentam acabar com a ameaça mas... como entrar em guerra com um país que não existe? A idéia é incrivelmente criativa e muito bem desenvolvida, e o filme oscila entre momentos de puro humor negro e outros mais sérios, questionando as ações da 8th Wonderland em sua busca por um "mundo melhor". Mas também não é para todos os públicos: a dupla de diretores franceses sacrifica o ritmo e a "ação" em prol dos diálogos em dezenas de idiomas e das intermináveis deliberações dos "habitantes" do país virtual. Milagrosamente, apesar disso, o filme nunca se torna chato. Às vezes, os diretores até conseguem criar certo clima de tensão só com os diálogos. Uma obra bastante criativa, talvez uma das primeiras a discutir, a sério e sem exageros, a influência da internet na sociedade moderna. E se esta influência é boa ou ruim, cabe a cada espectador julgar - embora a conclusão (feliz) do filme deixe bem claro qual é o ponto de vista dos realizadores.