WebsiteVoice

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Personagens secundários não têm sentimentos?


Ontem eu finalmente vi "Um Beijo a Mais" (The Last Kiss, 2006), remake norte-americano praticamente cena a cena do fantástico filme italiano "O Último Beijo" (L'Ultimo Bacio, 2001). O original é de Gabriele Muccino; a refilmagem foi dirigida por Tony Goldwyn, que muitos devem lembrar como o vilão do filme "Ghost - Do Outro Lado da Vida" (aquele que morre espetado por um pedaço enorme de vidro).

Quando chegou o final do filme, novamente me peguei pensando na gigantesca injustiça cometida pelo personagem principal para que se consumasse o "final feliz" esperado pela maior parte da platéia, mesma atitude questionável que eu já havia presenciado no original italiano.

Para quem não viu nenhum dos filmes: Michael (Carlo no original) é um "adultescente" de 29 anos que, às vésperas de chegar nos 30, começa a sentir aquele tradicional medo de que sua vida se transforme num gigantesco tédio. Ele tem um bom emprego, uma namorada fantástica e divertida, e o casal espera seu primeiro filho. Por outro lado, todos os outros casais ao redor do rapaz (seus amigos, seus sogros...) parecem estar em crise ou se separando. Será isso um sinal?

Finalmente, na festa de casamento de um dos amigos, Michael conhece Kim (Francesca no original), uma irresistível ninfetinha que começa a dar mole para ele. A garota percebe que ele está com o namoro em crise e passa a seduzi-lo; já Michael, assustado com a possibilidade de passar o resto da vida com a mesma mulher, cede aos encantos da "invasora", com quem tem um breve caso de amor.


Pois tanto em "L'Ultimo Bacio" quanto em "The Last Kiss", nosso herói repentinamente "abre os olhos" e percebe que aquela ninfeta não passa de uma aventura, e que a mulher da sua vida é mesmo a namorada traída, aquela que vai ter um filho seu. Claro, essa "descoberta" só acontece depois que ele come a pobre garotinha que estava dando mole para ele!

E assim "Um Beijo a Mais" repete a cena em que nosso "herói" dá o fora na menina para voltar para o seu "grande amor". E é incrível como continuo ficando sensibilizado com esse momento, para mim uma das cenas mais tristes da história do cinema.

E isso que o remake norte-americano ainda dá uma maneirada, pois no filme italiano a coisa é ainda pior: a pobre Francesca aproxima-se de Carlo, toda apaixonada, presenteando-o com um livro, cobrando atenção e afeto (já que o rapaz não faz contato desde que transou com ela); e Carlo simplesmente arranca para longe com seu carro, fugindo daquela menina que dias antes seduziu sem culpa, deixando atirado ao chão o presente que Francesca comprou com todo amor e carinho (veja abaixo).

O fora mais triste da história do cinema



Talvez ajudasse se os roteiros de "O Último Beijo" e "Um Beijo a Mais" transformassem as personagens de Francesca e Kim em simples predadoras sexuais, em Lolitas insensíveis atrás de homens comprometidos, com o único objetivo de destruir um casal por pura diversão.

Mas não: Francesca e Kim são garotas realmente apaixonadas pelo protagonista, seja Carlo ou seja Michael, que não estão seduzindo o rapaz apenas por diversão, mas por amor. Além disso, ambas são garotas lindas, sensíveis e divertidas, daquele tipo por quem é muito fácil se apaixonar, o que justifica o fato de Carlo e Michael ficarem caidinhos por elas. O único "pecado" das personagens foi se apaixonar por um rapaz comprometido e tentar salvá-lo de um relacionamento em crise.


E é justamente por isso que a atitude de nossos supostos "heróis" soa tão horrível. Tanto Francesca quanto Kim só servem para uma trepadinha rápida; não são elas que estão brincando com os sentimentos do "herói", mas sim o contrário. E, após conseguirem o que querem (a pulada de cerca), tanto Carlo quanto Michael não demoram para fugir correndo da menina, quando qualquer homem na mesma situação pensaria pelo menos um milhão de vezes antes de voltar para um relacionamento já caindo na rotina. (As fotos aqui publicadas são de Carlo e Francesca no filme de Mucino; repare na felicidade do casal antes do "herói" voltar acovardado para os braços da namorada.)

Eu sempre tive essa fraqueza de pensar no destino dos personagens secundários dos filmes, especialmente comédias românticas. Os roteiros tentam nos fazer torcer pelo protagonista, por mais estúpido que ele seja, mas eu normalmente fico com pena daquele sujeito que perde a namorada para o "herói", ou da pobre mocinha abandonada quando o "herói" redescobre o amor da sua vida (como Francesca e Kim no caso em questão).

Normalmente, os roteiristas corrigem essa falha de caráter de seus protagonistas transformando os personagens secundários em malas cheios de defeitos, que justificam a torcida por parte do espectador. Mas isso não acontece em "O Último Beijo"/"Um Beijo a Mais". No fim, eu realmente acho que Carlo/Michael devia ter ficado com Francesca/Kim, com quem certamente teria uma vida mais divertida e apaixonada do que com a namorada que, afinal, traiu.

Outra comédia romântica recente que me deixou com a pulga atrás da orelha (comecem a namorar e vocês também serão obrigados a ver váriaaaas comédias românticas) foi "O Melhor Amigo da Noiva", onde Patrick Dempsey rouba Michelle Monaghan de um nobre escocês em pleno dia do casamento da moça.

Por mais "romântico" e "bonitinho" que possa parecer o final desse filme, tem que ser muito insensível para não ficar pensando no coitado do noivo abandonado. Pois o pobre rapaz era um partidão (bonitão, ricaço, cavalheiro, apaixonado...), a mocinha passou o filme todo perdidamente apaixonada por ele, mas é claro que o roteiro exigia que ela ficasse com o mocinho trapalhão e mulherengo na cena final.


E por isso, sem pensar duas vezes, é só o filme se aproximar da conclusão para que a moça saia da igreja, no dia do seu casamento, subitamente tomada de paixão fulminante pelo herói banana. Isso, claro, para o alívio da maioria dos espectadores - e para a fúria de quem, como eu, sempre espera um pouco de lógica do roteiro dos filmes.

Aí, enquanto o casalzinho central curte seu final feliz, o maluco aqui se põe a pensar: e quanto àquele pobre ricaço escocês, cujo único defeito e única culpa era ser o personagem secundário do filme?

Talvez o errado seja eu, pois confesso que já torci até pelo Belloq, o rival de Indiana Jones em "Os Caçadores da Arca Perdida" (puxa, ele nem era de todo mal, e ainda ajudava a Marion quando ela era prisioneira dos nazistas!!!).

Mas toda vez que esse tipo de injustiça acontece, eu me lembro do filme "Austin Powers" e da impagável piada que mostra o drama dos familiares e amigos dos ajudantes do Dr. Evil mortos pelo herói. "Ninguém pensa nas famílias dos capangas dos vilões", reclamam eles, entre lágrimas. Pelo jeito, ninguém pensa nos sentimentos dos personagens secundários, também...

PS: Descobri agora que o diretor Gabriele Mucino está trabalhando em uma seqüência de seu "L'Ultimo Bacio", que vai se chamar "Baciami Ancora" e será lançada em 2010, mostrando seus personagens 10 anos depois dos acontecimentos do original. Pensei que era a chance da redenção de Carlo, e que ele finalmente voltaria aos braços da apaixonada Francesca. Mas caí do cavalo ao olhar os créditos do filme no IMDB: a linda Martina Stella, que interpretou a ninfeta no original, não estará na seqüência. E, pelo jeito, Carlo não vai se redimir daquele fora terrível que deu na garota - uma das cenas mais tristes da história do cinema.

Olha só o que o babaca do Carlo dispensou!!!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O pior livro de todos os tempos da última semana


"Um pai. Um filho. Três filmes por semana."

É essa a frase na capa de O CLUBE DO LIVRO, obra do crítico de cinema canadense David Gilmour (não confundir com o músico homônimo) que parece estar fazendo sucesso também no Brasil. Ando lendo demais ultimamente, e não resisti quando encontrei esse livro na FNAC com 20% de desconto.

O que me atraiu foi a frase da capa e especialmente o resumo na contracapa. Segue:

"David Gilmour, crítico de cinema desempregado e com o dinheiro contado, vivia uma fase complicada. Além disso, o filho de 15 anos colecionava reprovações em todas as disciplinas. Diante da falta de rumo daquele estudante perdido e despreparado, uma proposta paterna radical: o garoto poderia sair da escola - e ficar sem trabalhar e sem pagar aluguel - desde que assistisse toda semana a três filmes escolhidos pelo pai, e com o pai. Assim surgiu o Clube do Filme..."

Bem, pelo resumo, eu esperava uma história realmente interessante onde filmes seriam utilizados como uma forma de educar um jovem para as diversas etapas e dificuldades da vida - como de fato eles podem ser utilizados, pois, se pensarmos, há cenas de filmes que se encaixam em cada situação que encontramos no dia-a-dia. Enfim, esperava algo que fosse para o mundo do cinema o mesmo que o excelente "Alta Fidelidade" havia sido para o mundo da música.

Quebrei a cara. Não se julga um livro pela capa, realmente...

O CLUBE DO FILME na verdade não passa de um diário piegas e mal-escrito, onde o tal Gilmour fica relatando as desventuras amorosas de seu filho, um adolescente mimado, antipático e boçal chamado Jesse, que tem um talento tão natural para se meter em encrenca que, se eu fosse o autor do livro, sentaria porrada no rapaz o dia todo, ao invés de convidá-lo para ver filmes. O cinema não fica em segundo, mas em décimo-quinto plano na narrativa simplória do autor.

Pior que as narrações melosas de Gilmour, que morre de orgulho do filho mesmo quando ele abandona a escola sem pensar duas vezes para trabalhar como lavador de pratos (belo futuro, hein?), somente a forma como os filmes são citados e utilizados ao longo da narrativa.

Para quem espera algo no estilo "Alta Fidelidade", os comentários cinéfilos do autor parecem coisa de redação escolar de alguém que viu meia dúzia de filmes na vida. Raramente cenas e diálogos são usados para ilustrar episódios da vida, como eu esperava pela descrição da história na contracapa do livro. Surgem mais como citações gratuitas mesmo, ou para motivar comparações óbvias e sem qualquer talento.

Quer alguns exemplos? Então acompanhe:

"Ele levantou os olhos, mas não com a expressão de quem olha para um pai, mas da forma como Al Pacino olha para um idiota em 'O Pagamento Final' (1993), de Brian DePlama. Tínhamos ultrapassado algum limite, em algum momento."

"Eu sou como aquele cara em 'O Último Tango em Paris', imaginando se a mulher dele fez com o cara de roupão lá embaixo as mesmas coisas que fez com ele."

"Começamos com 'Rocky 3' (1982). Chamei a atenção de Jesse para o apelo barato, mas irresistível, do personagem Mr. T, suado, fazendo flexões e supinos em seu cubículo. Nada de pratos com guarnições de leito de cogumelos, nada de cappuccinos afrescalhados para ele."

"Achei que fosse ter um ataque do coração, ou que minha cabeça fosse explodir, como a daquele cara no filme do Cronenberg... 'Scanners'."

"No fim de semana passado, fui a um bar na rua Queen. Parecia aquela cena de 'Caminhos Perigosos', do Scorsese."

"Bem, ele já tem 19 anos, é assim que funciona. Pelo menos ele sabe que Michael Curtiz filmou dois finais diferentes para 'Casablanca', para o caso de o final triste não funcionar. Isso provavelmente vai ajudá-lo, no mundo lá fora. Ninguém vai poder dizer que deixei meu filho partir indefeso."

"Sabe o que ela disse uma vez? Disse que a versão de 'Lolita' de Stanley Kubrick, de 1962, é melhor que a de Adrian Lyne, de 1997. Aquilo tem de estar errado. A 'Lolita' de Adrian Lyne é uma obra-prima!"


E por aí vai... As citações não vão muito além desse uso raso e bobo. Se a proposta de Gilmour era educar o seu filho para a vida, substituindo a escola pelo uso de filmes, e as únicas relações que ele consegue criar entre filmes e vida real são essas frases banais, então só posso imaginar que o pobre Jesse continua lavando pratos até hoje!!!

Logo, fujam desse livro, que provavelmente ainda vai ganhar algum "Prêmio Paulo Coelho de Qualidade Literária".

PS: Voltei para o Sul do Brasil para um mês de férias. O blog provavelmente ficará abandonado nesse período, pois, entre outros compromissos inadiáveis, vou participar do Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, e filmar meu novo longa-metragem. Abraços a todos.

terça-feira, 23 de junho de 2009

BLINDMAN (1971)


Existem vários westerns em que o protagonista se vê temporariamente cego e precisa enfrentar seus inimigos privado da visão. Um dos mais lembrados é "Mannaja", do Sergio Martino, que traz o saudoso Maurizio Merli como um pistoleiro que, na cena final, tem as pupilas queimadas pelo sol após uma terrível tortura.

Mas não consigo lembrar de outro bangue-bangue em que o protagonista seja um cego de nascença. Só por isso, BLINDMAN já é uma produção diferente e curiosa. Afinal, como pode um pistoleiro sem visão sobreviver num ambiente violento onde sacar primeiro (e ter olhos para mirar, obviamente) faz toda a diferença?

O interessante é que esta pequena pérola inventada pelo próprio astro e co-produtor Tony Anthony não tenta enrolar o espectador com malabarismos sobrenaturais do seu personagem principal: diferente do samurai cego Zatoichi ou do super-herói da Marvel Demolidor, que têm os outros sentidos absurdamente ampliados para compensar a perda da visão, o pistoleiro deficiente de BLINDMAN é, na mais generosa das definições, um completo inútil, que não tem qualquer chance diante dos adversários que enxergam normalmente, e precisa usar de muita astúcia e esperteza para sobreviver. E não é difícil acreditar nas proezas do personagem, provavelmente o mais humano dos heróis cegos já mostrado pelo cinema.


Criador da idéia, o norte-americano Anthony escreveu o roteiro com a ajuda de Pier Giovanni Anchisi e Vincenzo Cerami, e, embora não tenha lá muita pinta de galã, fez questão de interpretar "Blindman", o pistoleiro cego sem nome.

Para dirigir, foi contratado o especialista Ferdinando Baldi, que vinha de vários westerns clássicos do período, como o ótimo "Preparati La Bara/Viva Django", com Terence Hill.

Mas talvez o aspecto mais curioso do filme seja a presença do ingês Ringo Starr, baterista dos Beatles, tentando investir na carreira de ator apenas um ano depois do fim da banda.


Em primeiro lugar, é bom esquecer o ridículo título nacional "poético" que inventaram para o original BLINDMAN (por que não "O Pistoleiro Cego", ou simplesmente "O Cego"???). "Preso na Escuridão", o tal título poético, foi a tradução adotada pela distribuidora Ocean no recente relançamento do filme em DVD. Antes, na época do VHS, a escolha tinha sido ainda pior: o filme se chamava, sem nenhuma justificativa ou explicação lógica, "O Retorno do Gringo" (!!!), e trazia na capinha uma foto ampliada de Ringo Starr, que nem ao menos é o protagonista!

A trama é sobre Blindman, um cego que, ironicamente, recebeu a missão de escoltar 50 belas garotas para o Texas, onde elas têm casamento arranjado com alguns ricos garimpeiros - que inclusive já pagaram antecipadamente pelas "noivas".

O problema é que o pobre deficiente visual é passado para trás por seu contato, Skunk (Renato Romano), que prefere entregar as mulheres a um bandoleiro mexicano chamado Domingo (Lloyd Battista). Após explodir o amigo traidor com uma banana de dinamite, Blindman resolve que vai cumprir sua missão a qualquer preço, nem que para isso tenha que cavalgar até o México para recuperar as garotas.


Segue-se um diálogo impagável: cavalando às cegas (literalmente), o pistoleiro chega até um homem e pede orientações.

- Para que lado fica o México?
- Como eu posso te mostrar?
- Mostre ao cavalo!


Dito e feito: o cavalo do herói é inteligente e, além de atender prontamente aos chamados do seu dono por assobios, também segue as orientações dadas pelas outras pessoas. Após mais alguns dias de cavalgada, Blindman chega à vila de Domingo e descobre que as garotas estão sendo usadas como isca para seduzir e aprisionar um poderoso general mexicano (Raf Baldassarre). Descobre, também, que o irmão de Domingo, Candy ("interpretado" por Ringo), é apaixonado por Pilar (Agneta Eckemyr), a filha de um fazendeiro, e utiliza a moça como trunfo para conseguir suas noivas de volta.

Primeiro, Blindman tenta convencer Domingo a devolver suas mulheres na camaradagem, mostrando-lhe o contrato de casamento com os garimpeiros e tudo mais. Claro que o vilão não aceita assim tão fácil, e, após aplicar uma sova no cego, joga-o no meio da rua, forçando o herói a transformar a vida de Domingo e sua quadrilha num verdadeiro inferno, utilizando truques sujos e muita habilidade.


Como escrevi no início, BLINDMAN não tenta convencer o espectador de que seu herói cego é capaz de façanhas absurdas: mesmo que ele tenha a audição significativamente apurada para ouvir os passos de seus inimigos, por exemplo, ainda assim ele precisa atirar diversas vezes até conseguir realmente acertar alguém - e continua atirando mesmo quando o inimigo cai morto no chão, pois não tem como saber se o antagonista está mesmo morto. Em diversos momentos do filme, Blindman recebe a ajuda de pessoas que enxergam para se locomover ou montar armadilhas; sem elas, dificilmente o herói sobreviveria muito tempo no filme.

Diferente de outros western spaghetti do período, este tem uma grande quantidade de mulheres nuas - o que não deixa de ser irônico, já que o personagem principal é cego! -, inclusive um banho coletivo das 50 garotas.


Em certo momento do filme, para vingar-se da irmã de Domingo, Sweet Mama (interpretada pela gracinha Magda Konopka, de "Quem Dispara Primeiro?"), Blindman deixa a moça amarrada e completamente nua - embora ele não possa ver, sabe que todos os homens do vilão fatalmente a enxergarão, consumando a humilhação tanto da mulher quanto do seu irmão.

Principalmente por causa destas cenas de nudez, BLINDMAN teve diversos problemas com a censura norte-americana: a cópia foi praticamente retalhada para exibição nos Estados Unidos. Quem adquirir o DVD lançado no Brasil terá a cópia remasterizada e sem cortes, onde é possível perceber direitinho onde agiu a tesourinha da censura, já que as cenas cortadas ainda trazem o áudio original em italiano (não chegaram a ser dubladas em inglês na época do lançamento).



Por causa disso, a cada cinco minutos os atores deixam de falar inglês para falar italiano, dando uma idéia da quantidade de cortes que o filme sofreu! Curiosamente, a censura também havia retirado várias falas do próprio Blindman para tentar transformá-lo num herói mais honesto e boa gente - o que ele está bem longe de ser!

BLINDMAN também é bastante violento em comparação a outros filmes daquele período, graças principalmente à direção do sanguinário Baldi. Os tiros aqui já deixam sangrentos buracos de bala à la "Meu Ódio Será Sua Herança", de Peckinpah (que é de 1969), o herói não tem o menor problema em atingir inimigos desarmados pelas costas, e há até um massacre de soldados realizado com uma metralhadora gatling, à la "Django", de Corbucci, e "Preparati La Bara/Viva Django", do próprio Baldi.



Já o duelo final entre Blindman e Domingo sofreu tantos cortes da censura norte-americana que deve ter ficado incompreensível; mas, para dar uma idéia da crueza do troço, o vilão tem seus olhos queimados com um charuto (!!!) por um amigo de Blindman, para que o duelo com o herói possa ser de igual para igual!!!

BLINDMAN ainda reserva boas surpresas num gênero em que normalmente as idéias se repetem. Há uma cena de forte suspense em que os vilões colocam uma cobra venenosa entre os pratos do jantar do cego - e é preciso ter sangue de barata para não ficar arrepiado com aquela serpente zanzando a centímetros das mãos do pobre herói, que nem desconfia do perigo.

Também há uma cena numa estação de trem, "sonorizada" pelos barulhos do lugar, que lembra bastante o início do clássico "Era Uma Vez no Oeste". E o duelo final, claro, acontece num cemitério!



Outro ponto positivo do filme é o vilão Domingo, representado como uma figura menos caricatural do que a média do período. Domingo tem uma relação de grande carinho por seus irmãos Candy e Sweet Mama, que o torna mais humano e menos clichê do que outros vilões do western spaghetti.

Embora tenha sido um grande sucesso na época de seu lançamento, o filme não deu origem a seqüências. O que é ótimo: seria difícil acreditar que Blindman sobreviveria muito tempo caso acabasse envolvido em uma nova aventura (a própria cena final reforça isso, mostrando como é fácil enganar o pobre herói sem visão!).

Dez anos depois, em 1981, Baldi e o astro/roteirista/co-produtor Anthony se reuniram para filmar a aventura "Comin' at Ya!", que é considerada uma espécie de refilmagem disfarçada de BLINDMAN, só que em 3D (e com uma jovem Victoria Abril no elenco). Finalmente, em 1994, Armand Assante assumiu o papel de outro pistoleiro cego num filme norte-americano feito para a TV, "Vingança Cega", mais uma refilmagem disfarçada da obra de Baldi, com direção de Richard Spence e um elenco de caras conhecidas (além de Assante, Elizabeth Shue, Robert Davi e até um jovem Jack Black).


Mas duvido que qualquer um dos dois (que eu não vi) seja tão divertido quanto BLINDMAN, que ainda tem o mérito de trazer aquele que possivelmente é o mais realista e dramático herói sem visão já criado, um homem comum que se vê diante de grandes dificuldades, e que só sobrevive porque é mais esperto que seus antagonistas - além de contar com uma boa dose de sorte, é claro. Enfim, bem diferente do excesso de fantasia de um Zatoichi ou de um Demolidor. Se os cegos de verdade pudessem ver, tenho certeza que iriam aplaudir de pé.

Para terminar, uma curiosidade: anos depois, Tony Anthony produziu um filme aqui no Brasil, o clássico do mau gosto "Orquídea Selvagem", estrelado por um então decadente Mickey Rourke e filmado na Bahia e no Rio de Janeiro!

Dica: Vale a pena comprar o DVD Duplex lançado pela Spectra Nova. Normalmente, os DVDs de western spaghetti lançados no Brasil são um lixo, mas este surpreende por trazer uma imagem razoável em letterbox e a versão sem cortes do filme. Tem ainda, como programa duplo, o ótimo "Quem Dispara Primeiro?", de Giulio Petroni (que em breve também estará aqui no blog). Uma bela (e barata, cerca de R$ 9,90) aquisição para colecionadores do gênero.

Trailer de BLINDMAN


*******************************************************
Blindman/ Il Cieco (1971, Itália/EUA)
Direção: Ferdinando Baldi
Elenco: Tony Anthony, Ringo Starr, Lloyd
Battista, Magda Konopka, Raf Baldassarre
e Marisa Solinas.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

EU MATEI LÚCIO FLÁVIO (1979)


Lembra daquele montão de críticas mal-humoradas acusando "Tropa de Elite" de fascista e racionário na época do seu lançamento? Pois os autores destas críticas certamente ficariam de cabelos em pé vendo EU MATEI LÚCIO FLÁVIO, um filme policial de 1979 (portanto quase 30 anos antes do Capitão Nascimento e sua trupe colocarem "suspeitos" no saco).

Dirigido por Antonio Calmon, que hoje comanda inofensivas novelas para a Globo, este provavelmente é o filme mais fascista e amoral da história do cinema brasileiro - e, ironicamente, também uma das nossas obras-primas esquecidas.

Duvida? Pois a coisa já começa nos créditos iniciais: enquanto os nomes dos atores se desenrolam sobre uma tela preta, ao fundo escutamos o som do que seria um dia de treinamento da polícia carioca. O comandante, exaltado, inicia um discurso de arrepiar defensores dos direitos humanos: "A primeira coisa que vocês têm que aprender é que isso aqui é uma guerra. A polícia é a protetora da sociedade! O marginal não existe. O marginal não é gente! Agora eu quero todos vocês repetindo comigo... E repitam com ódio!!! (som do batalhão berrando "O marginal não existe. O marginal não é gente!"). A nossa farda existe para acabar com eles, como vocês vão fazer aqui e agora: NA PORRADA... ATÉ MATAR!!!".


Ainda está em dúvida? Então saiba que EU MATEI LÚCIO FLÁVIO é a dramatização de uma história real: a vida do policial Mariel Mariscotte de Mattos, que no filme é interpretado por Jece Valadão (seguramente, o ator mais foda do cinema brasileiro de todos os tempos), e que teria sido o responsável direto pela morte de um bandido famoso na crônica policial carioca dos anos 60, o boa-pinta Lúcio Flávio Villar Lírio.

A vida deste criminoso já havia gerado um outro clássico em 1977, "Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia", de Hector Babenco, onde Lúcio foi interpretado por Reginaldo Faria. Entretanto, como 99% dos filmes policiais brasileiros, "Lúcio Flávio..." preferia dar destaque à trajetória do bandido.

Assim, EU MATEI LÚCIO FLÁVIO surgiu como um contraponto, uma resposta à obra de Babenco, focando os holofotes sobre os policiais que caçaram o criminoso, principalmente Mariel Mariscotte. Astro e também produtor do filme, Jece era amigo do verdadeiro Mariel, e assumiu a bronca de mostrar "o outro lado" do filme do Babenco. Pessoalmente, prefiro esta "resposta" ao original do que a dramatização da vida do bandido.


O roteiro de Alberto Magno e Leopoldo Serran começa contando a trajetória de Mariel, desde sua juventude como salva-vidas e leão de chácara num inferninho (ou "diretor de disciplina", como ele explica antes de surrar três caras que estavam passando dos limites), até sua entrada na polícia e o convite para atuar como guarda-costas de políticos corruptos.

Como o Rio de Janeiro da época estava completamente dominado pela alta criminalidade (não muito diferente de hoje, no caso), a polícia resolve criar uma tropa de elite formada por 12 policiais excepcionais, chamados "Homens de Ouro", com carta-branca para caçar e matar bandidos perigosos, escapando impunemente da burocracia dos tribunais.

Logo Mariel, que já vinha chamando a atenção pelo seu estilo truculento de não fazer prisioneiros, é chamado para integrar o grupo. E corpos crivados de balas começam a aparecer pelas ruas, com cartazes trazendo o desenho de uma caveira, o logotipo do Esquadrão da Morte e ameaças a outros bandidos. Finalmente, nosso "herói" declara guerra ao bandido que vem dominando as manchetes dos jornais: Lúcio Flávio (aqui interpretado por Paulo Ramos).


Talvez o grande problema de EU MATEI LÚCIO FLÁVIO seja o roteiro extremamente fragmentado e pouco explicativo. Na época do lançamento (1979), provavelmente os fatos da crônica policial ainda estavam fresquinhos na mente do espectador, e o próprio Mariel Mariscotte ainda estava vivo e, diz a lenda, aprovou a interpretação de Jece, inclusive presenteando-o com a medalhinha (com desenho de caveira!) que o ator usa no filme.

Hoje, entretanto, pouca gente lembra de Mariel e mesmo de Lúcio Flávio, e o filme não se preocupa em dar muitas explicações sobre aquela época, forçando o espectador a pesquisar por conta própria.

Só assim você descobre que a representação de Mariel no filme não é nada exagerada: durante seu período áureo, o policial linha-dura era exatamente como o herói personificado por Jece, sempre nas manchetes de jornais ou no noticiário da TV, acompanhado de atrizes, modelos e das mulheres mais bonitas daquela época.

Mariel seria assassinado numa emboscada apenas dois anos depois do lançamento do filme, em 1981, e logo caiu no esquecimento - ironicamente, como seu arquiinimigo Lúcio Flávio.


E embora o filme de Calmon mostre Mariel como um sujeito sangue-frio, que não hesita em encher bandidos de tiros ao invés de prendê-los, a caracterização de Jece é tão boa, cheia de frases antológicas e aquele ar de machão que só o ator conseguia fazer, que torna-se impossível não ficar do lado de Mariel - mesmo que o filme de Babenco, lançado anos antes, tenha tentado transformar Lúcio Flávio numa figura mais simpática que os policiais que o perseguiam.

É um fenômeno semelhante ao que ocorreu recentemente com o truculento Capitão Nascimento de "Tropa de Elite", que a platéia adotou como herói ao invés de repreender suas atitudes. A diferença é que Nascimento não ia durar cinco minutos num confronto com o Mariel de Jece: enquanto o capitão interpretado por Wagner Moura não pegava ninguém, e ainda era pau-mandado da esposa no filme de José Padilha, o policial de Jece come umas 10 mulheres ao longo do filme!!!

Curiosamente, embora tenha vários "casos" e até uma namorada oficial, Mariel vive uma relação de amor e ódio com Margarida Maria (a bela Monique Lafond), uma prostituta viciada em heroína. O policial prometeu ao pai suicida da moça que a salvaria da vida perdida que ela levava. Infelizmente, não consegue cumprir a promessa: quando Margarida Maria morre de overdose, e Mariel fica sabendo que irão enterrá-la como indigente por não ter outros familiares vivos, nosso herói intercepta a ambulância do IML e "rouba" o cadáver nu da amada, saindo com ele nos braços enquanto brada: "Vão enterrar como indigente a mãe de vocês!".


EU MATEI LÚCIO FLÁVIO mostra Mariel Mariscotte como um sujeito extremamente vaidoso, egocêntrico até, que anda sempre alinhado em terninhos brancos, duas vezes aparece transando com mulheres enquanto se olha no espelho (numa delas, chega a dizer para o próprio reflexo: "Mariel, você é o maior"!!!), e adorava os flashes e as manchetes dos jornais (em outra cena impagável, ele "ajeita" o cadáver de um bandido que acabou de fuzilar para que saia mais bonito nos jornais!). Logo fica claro que seu motivo para caçar e matar Lúcio Flávio é mais pelo "status" que isso representa à sua carreira do que por idealismo profissional.

É óbvio que o filme não pode nem deve ser visto com um olhar contemporâneo. Entretanto, para quem concorda com aquela máxima de que "bandido bom é bandido morto", EU MATEI LÚCIO FLÁVIO tem cenas lindas no seu exagero e brutalidade.

Uma delas é o assalto a uma farmácia, quando três marginais (liderados por um jovem André di Biasi, aquele da "Armação Ilimitada") provocam o caos em busca de anfetaminas. Um deles leva a balconista (uma jovem Maria Zilda) para os fundos da loja e a estupra violentamente, enfiando o revólver inteiro na vagina da moça!



Finalmente, surgem os defensores da lei e da ordem, Mariel e seu fiel companheiro interpretado pelo fantástico Anselmo Vasconcellos. Pois a dupla simplesmente entra no lugar dando tiro pra todo lado - é um verdadeiro milagre não matarem também os proprietários do estabelecimento.

Quando Anselmo dá o golpe de misericórdia em um dos criminosos, atirando à queima-roupa, o sujeito cospe sangue no rosto do policial. Mariel, sorrindo, ainda faz escárnio: "O malandro vomitou sangue, é?".



Por essas e por outras, EU MATEI LÚCIO FLÁVIO é, definitivamente, um filme para pessoas com estômago forte. O que nos leva à cena mais clássica e "politicamente incorreta", aquela que faz de "Tropa de Elite" uma produção dos Estúdios Disney: Vasconcellos coloca um disco de Roberto Carlos na vitrola e tortura um bandido no pau-de-arara, com choques elétricos, ao som do clássico "Lady Laura".

E enquanto o sujeito esperneia, a música cria um curioso contraponto às imagens brutais: "Tenho às vezes vontade de ser/Novamente um menino/E na hora do meu desespero/Gritar por você/Te pedir que me abrace/E me leve de volta pra casa". Finalmente, após enjoar da tortura, Anselmo se aproxima do sujeito todo quebrado, com marcas de tortura pelo corpo inteiro, e exclama sem qualquer emoção: "Marginal tem mais é que morrer...", antes de apunhalar o homem até a morte! Lindo.

Outra cena antológica coloca Mariel e Lúcio Flávio frente a frente, numa das muitas rápidas passagens do bandido pela cadeia. O diálogo entre os dois, repleto de raiva, me lembrou um encontro entre o Batman e o Coringa na HQ "A Piada Mortal" (escrita por Alan Moore), quando o Homem-Morcego tentava convencer seu inimigo de que, se continuassem duelando daquele jeito, mais cedo ou mais tarde um dos dois terminaria morto. Só que a conversa no filme é menos amena. Quando Lúcio provoca o policial, dizendo "O fato de eu estar aqui não significa que a luta acabou. Guerra é guerra!", Mariel responde seco: "Ô Lúcio, vai pra puta que te pariu!".


Como um daqueles raros filmes que defende (sem restrições) o trabalho da polícia, mesmo quando este é levado às últimas conseqüências, EU MATEI LÚCIO FLÁVIO retrata uma saudosa época em que, quando um policial matava um bandido, aparecia na capa dos jornais, era condecorado pelos seus superiores e elogiado pelos políticos na televisão (hoje, provavelmente, o mesmo policial seria processado por usar "força excessiva").

É claro que o Esquadrão da Morte que Mariel integrava passou bastante dos limites aceitáveis, o que fica evidente na cena que Vasconcellos pendura o cadáver de um bandido torturado em frente a uma estátua de São Sebastião (aquele com o corpo crivado de flechas), numa "cópia humana" da imagem. Quando Mariel vê o trabalho, ainda elogia: "Mas que obra-prima, hein?".

A dupla Jece/Vasconcellos brilha no filme, e o fato de Anselmo hoje ser mais lembrado como humorista do quadro fixo do "Zorra Total" do que como o grande ator que é soma-se à cada vez mais longa lista de injustiças do cinema brasileiro (lembrando sempre que Anselmo também interpretou a única múmia do nosso cinema, em "O Segredo da Múmia"!!!).

O filme tem ainda uma pequena participação de Otávio Augusto como instrutor dos cadetes na academia de polícia. Com seu jeito bonachão, ele tem um diálogo impagável em que orienta os policiais a atirarem na cabeça, no coração e no saco dos seus alvos! Jece e ele fariam dupla no filme posterior de Calmon, o impagável "O Torturador", já resenhado aqui.


Acabei me estendendo demais, mas é justamente porque EU MATEI LÚCIO FLÁVIO é uma daquelas muitas obras-primas esquecidas da nossa filmografia tupiniquim. Inclusive recomendo a todos que leiam a excelente resenha da Andrea Ormond no blog Estranho Encontro, pois praticamente tudo que eu queria dizer está escrito lá (e não foi fácil conseguir escrever um texto diferente do dela!).

Só sei que, depois de ter encarado "O Torturador" e EU MATEI LÚCIO FLÁVIO num curtíssimo espaço de tempo, estou começando a achar que o Antonio Calmon era o "Tarantino brasileiro", antes mesmo do Tarantino começar a fazer filmes!

Diálogos espirituosos? Confere. Atores "cool"? Confere. Violência e humor negro? Confere. Trilha sonora bizarra? Confere (com direito, além de Roberto Carlos, a "A Divina Comédia Humana", de Belchior, "As Rosas Não Falam", na voz de Fagner, e disco music). Citações à cultura pop em geral? Confere! Em EU MATEI LÚCIO FLÁVIO, por exemplo, a casa de Mariel tem um pôster de Clint Eastwood em "Três Homens em Conflito", Monique Lafond deita-se nua sobre um lençol vermelho imitando aquela clássica foto da Marilyn Monroe (veja abaixo), e a cena da tortura ao som de música pop lembra diretamente o posterior "Cães de Aluguel"!


Além disso, só mesmo num filme do Calmon (ou do Tarantino lá no norte...) você vai ver um policial, inspirado no personagem real Milton Le-Cocq, falar "Salve a Umbanda. Entrego minha alma aos homens da encruzilhada!", antes de cair fulminado com um tiro na cabeça. E ainda tem gente que acha que HOJE é que o cinema brasileiro está interessante... Povo sem memória e sem cultura é fogo!

PS: Outro filme que aborda o Esquadrão da Morte que limpou o crime do Rio de Janeiro dos anos 70 é "República dos Assassinos", de Miguel Faria Júnior, que ironicamente foi lançado no mesmo ano de EU MATEI LÚCIO FLÁVIO, e tem Tarcísio Meira, Sandra Bréa e, surpresa!, Anselmo Vasconcellos nos papéis principais. Ainda não consegui encontrar este para ver, mas quem já viu jura que é outro clássico.

Veja o massacre da farmácia!


*******************************************************
Eu Matei Lúcio Flávio (1979, Brasil)
Direção: Antonio Calmon
Elenco: Jece Valadão, Monique Lafond,
Anselmo Vasconcellos, Paulo Ramos,
André Di Biasi e Maria Zilda.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Exterminador de Roteiros


Saí de uma sessão de cinema de "O Exterminador do Futuro - A Salvação" ainda embasbacado com o bombardeio de efeitos especiais e com o primor das cenas de ação do filme dirigido por (gasp!) McG. Mas cinco minutos depois, pensando no que tinha acabado de ver, e ladeado pelos colegas de Boca do Inferno (Marcelo Milici e João Pires Neto), comecei a me perguntar: "Tá, e daí?".

Mais alguns minutos, e eu me sentia um completo idiota. Isso porque, amiguinhos e amiguinhas, o novo "Terminator" pode até ser muito bem-feito, pode até ser divertido e pode até ser um belo programa para uma ida descompromissada ao cinema. Mas, quando você se põe a pensar naquilo que está vendo, o filme não passa de uma ofensa à inteligência do espectador. O roteiro deste quarto filme não está apenas subestimando a esperteza de quem assiste, e sim chamando o espectador de burro o tempo inteiro.

E isso é uma coisa que já vem do terceiro filme, "O Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas", dirigido por Jonathan Mostow em 2003 e, até agora, o mais fraco da franquia. Por mais que os aspectos técnicos da terceira aventura fossem irrepreensíveis, já era evidente que não havia mais história para contar, e a perseguição de um jovem John Connor (então interpretado por Nick Stahl) por uma máquina do futuro, sendo protegido por outro cyborg bonzinho (Schwarzenegger), não passava de um remake disfarçado de "O Exterminador do Futuro 2" - que, por sua vez, não passava de uma versão mais turbinada de "O Exterminador do Futuro 1".


Não contente em apresentar uma história requentada e sem acrescentar qualquer nova informação ao que já tinha sido mostrado antes, "O Exterminador do Futuro 3" ainda encerrava com um golpe baixo, sugerindo que o destino já está traçado e que não existe como alterá-lo - no máximo, adiá-lo temporariamente. Em outras palavras, todo o trabalhão que Sarah Connor teve para tentar impedir o surgimento do Skynet em "O Exterminador do Futuro 2" foi em vão, já que o supercomputador apareceu de qualquer jeito, apenas alguns anos mais tarde. Sentiu a imbecilidade?

Ora, dentro desse raciocínio estapafúrdio, quer dizer que mesmo se as máquinas tivessem conseguido matar Sarah ou John Connor nos primeiros filmes, um outro líder da Resistência humana surgiria de qualquer jeito, apenas alguns anos mais tarde. Sendo assim, qual é a graça?

Chegamos então a "O Exterminador do Futuro - A Salvação", que como diversão passageira pode até ser melhor que a Parte 3 (não que isso signifique grande coisa...), mas ainda assim perde feio para os dois primeiros filmes. Pior: também não acrescenta nada ao que já se viu.


"A Salvação" se passa em 2018, anos depois da Skynet ter detonado uma guerra nuclear que devastou o planeta (vista no final da Parte 3), e já no meio do conflito entre a Resistência (formada pelos humanos sobreviventes) e as máquinas. A guerra entre humanos e cyborgs tem o melhor dos efeitos que um orçamento de 200 milhões de dólares pode pagar. O interessante é que esta mesma guerra já tinha sido apresentada, através de criativos flashbacks e com efeitos jurássicos, no primeiro "O Exterminador do Futuro". Logo, nem ao menos é novidade para quem viu o filme de 1984.

John Connor agora está crescido e tem o rosto e o físico de Christian Bale, o novo Batman. Ele ainda não se tornou o grande líder da Resistência de que tanto ouvimos falar nos outros três filmes, mas está a caminho de se tornar. E como as máquinas não conseguiram destruí-lo voltando ao passado nas três vezes anteriores, o espectador já sabe, desde o começo, que Connor também não vai morrer neste quarto filme.

Por quê? Ora, lógica temporal: se no primeiro filme descobrimos que foi em 2029 que o velho John Connor enviou Kyle Reese ao passado para proteger sua mãe do Exterminador, é óbvio que nosso herói não pode morrer, pelo menos até 2029 - ou isso criaria um daqueles paradoxos no tempo que a série "De Volta Para o Futuro" explicou tão bem.


Ao mesmo tempo em que apresenta uma ação desesperada da Resistência para tentar lançar um ataque maciço à Skynet, "A Salvação" introduz (ui!) um segundo personagem principal, Marcus Wright (interpretado por Sam Worthington), que é um cyborg, mas ainda tem partes humanas, como coração e consciência - e ele realmente acredita que é humano até pisar numa mina e descobrir que tem o esqueleto metálico tipo de cyborg.

É Marcus quem protege um jovem Kyle Reese (Anton Yelchin) da perseguição das máquinas. Porque, como sabemos, em 2029 Connor irá enviar Reese de volta no tempo até 1984, onde Reese irá transar com Sarah para que John possa nascer. Complicado, né?

Até aí, tudo bem... Mas então o filme começa a amontoar explosivas cenas de ação e perseguições, e é claro que isso é um artifício para que o espectador não possa PENSAR muito naquilo que está vendo. E faz bem em não raciocionar dentro da sala de cinema, pois é sair dali para começar a analisar friamente a coisa e então perceber a imbecilidade do conjunto.

"O Exterminador do Futuro - A Salvação" tem tantos momentos WTF ("What The Fuck?") que merecia uma tese de mestrado. Mas vamos aos principais deles:

* O alvo prioritário das máquinas neste filme não é John Connor, mas Kyle Reese. Afinal, a Skynet falhou em matar Sarah Connor, falhou duas vezes em matar John Connor, e sendo assim Reese torna-se o próximo alvo da família: se ele morrer, não tem como voltar a 1984 e transar com Sarah, e assim John não nasce. Correto. Mas calma lá: estamos em 2018, certo? O velho John só vai mandar Reese de volta a 1984 em 2029 - ou seja, em 11 anos. Então como é que a Skynet já sabe que Reese vai ser o pai de John? Será que a Skynet também sabe prever o futuro? Pois é...

* Digamos que haja uma explicação racional (mas não há) para que a Skynet saiba que Reese será o pai de John. Digamos que as máquinas tenham interceptado alguma das gravações deixadas por Sarah Connor para o filho, dizendo que Reese é o seu pai, por exemplo. Bem, isso só torna ainda mais absurdo o desenvolvimento de "A Salvação", já que os cyborgs aprisionam Reese na metade do filme e o mantém numa cela até o final. Putz, mas não era só eles acabarem com o jovem Reese e pimba!, fodiam com todo o futuro (ele nunca voltaria no tempo, nunca transaria com Sarah Connor e John conseqüentemente não existiria)??? Logo, se a Skynet sabia da importância de Reese para o passado/futuro (afinal, ele era o número 1 na lista de humanos perseguidos, como a Resistência fala em determinada cena), por que não o destruíram no momento em que ele foi capturado? Pois é...


* Por que John Connor fica tão desconfiado ao descobrir que Marcus é um cyborg, a ponto de não acreditar nele e ainda ordenar sua imediata destruição? Ora, pelo que eu me lembro, John teve duas experiências anteriores com cyborgs fabricados pela Skynet - o T800 e o T850 reprogramados pela Resistência, e interpretados por Schwarzenegger nas partes 2 e 3. Sendo assim, ele não deveria ficar ao menos com um pouquinho de dúvida em relação às intenções de Marcus? Pois é...

* Ainda sobre Marcus: a revelação de que ele é um cyborg acontece somente na metade do filme, embora todo mundo desconfie disso desde o início. As máquinas sabem que Marcus é um cyborg e o identificam imediatamente como "colega metálico" quando ele entra na fortaleza da Skynet, portanto não o atacam. Muito curioso isso, pois antes da revelação de que o personagem era uma máquina (ou seja, na primeira metade do filme), Marcus foi atacado o tempo inteiro pelos cyborgs como se fosse um humano normal. Um furo imperdoável, considerando que os cyborgs deveriam identificá-lo imediatamente com sua visão computadorizada. Só para refrescar a memória: um cyborg T600 tenta metralhar Marcus quando ele caminha pelas ruas devastadas de Los Angeles, e posteriormente as máquinas o atacam o tempo inteiro enquanto ele foge com Reese no caminhão-guincho. Será que podemos dizer que faz parte do plano de tornar Marcus um "espião" infiltrado entre os humanos? Olha, até podemos pensar assim... Mas e dá para engolir? Pois é...

* "A Salvação" se passa em 2018, correto? No "O Exterminador do Futuro" original, ficamos sabendo que a Skynet envia de volta a 1984 o seu modelo mais avançado de terminator, o T800, isso no ano de 2029. No final de "A Salvação", aparece um modelo do T800 para lutar contra John Connor (uma cena bem legal inclusive, com a cara digitalizada do Schwarzenegger sobre um dublê e tudo mais). Mas espera aí: como é que já temos um T800 em 2018? Quer dizer que durante mais de uma década, até 2029, a Skynet não consegue desenvolver nada mais avançado que ele? Estranho, porque os modelos T850 ("upgrade" do T800, visto na Parte 3) e os muito melhores T1000 (Robert Patrick na Parte 2) e TX (Kristanna Loken na Parte 3) parecem ter sido desenvolvidos num curtíssimo espaço de tempo (para não se perder, confira os modelos na montagem abaixo). A TX, por exemplo, é a última moda em 2032 (data citada na Parte 3), apenas três anos após o 2029 da Parte 1 (quando o T800 ainda era o modelo mais avançado, segundo Reese). Estranho? Pois é...



* No primeiro "O Exterminador do Futuro", o já envelhecido Kyle Reese explica a Sarah Connor que os primeiros modelos de exterminador desenvolvidos pela Skynet, os T600, tinham pele de borracha e eram fáceis de reconhecer, enquanto os T800 eram impossíveis de distinguir dos humanos. É estranho, porque "A Salvação" traz vários T600, só que nenhum deles com pele de borracha - todos aparecem já como esqueletos metálicos, sem qualquer revestimento.

* Outro furo se compararmos o jovem Reese com o velho Reese do filme original: em 1984, ele explicava a Sarah que não sabia como era a fisionomia do T800, e por isso precisou esperar que o Exterminador se revelasse (no tiroteio da boate Technoir) para poder proteger a moça. Mas pô, o final de "A Salvação" mostra o jovem Reese enfrentando o modelo T800, e já com o corpo e o físico de Schwarzenegger! Como é que o sujeito esqueceu aquela carranca em apenas 11 anos, quando foi enviado de volta a 1984? Pois é...

* O final do quarto filme acontece na fábrica onde a Skynet produz, em série, seus modelos de exterminadores - tanto o ultrapassado T600 quanto o inovador T800. Ali estão pelo menos duas figuras de fundamental importância no passado/futuro da saga: John Connor (filho) e Kyle Reese (futuro pai). Bastaria matar qualquer um dos dois para arrasar o passado/presente/futuro visto na série inteira de maneira irrecuperável. Mas o que a Skynet faz? Manda um único T800 atrás da dupla dinâmica, mesmo que a batalha aconteça numa fábrica repleta de cyborgs novinhos em folha! Pois é...


E tenho certeza que se eu ficasse pensando na lógica temporal das viagens para o passado e para o futuro, encontraria mais um caminhão de furos de roteiro. E vejam bem que nem estou contando aqui outras coisas difíceis (ou impossíveis) de engolir, como o fato de John Connor, um humano comum, safar-se sem maiores problemas de duas quedas de helicóptero.

Isso inclusive me lembra de uma coisa engraçada: a onda de choque de uma explosão simples derruba o helicóptero em que John está na primeira cena do filme; porém, na conclusão, o helicóptero onde estão os heróis voa sem problemas bem pertinho do cogumelo atômico formado por uma gigantesca explosão nuclear, que, teoricamente, também deveria provocar uma onda de choque que derrubaria a aeronave!!! Pois é...

Por causa desse tipo de coisa que eu fico puto: os caras torram 200 milhões de dólares num blockbuster e não podem dar um pouquinho mais de atenção a uma coisa fundamental como o roteiro? É o tipo de besteira que você vê num trash podreira dirigido pelo Bruno Mattei e até acha engraçado, mas que não deveria de forma alguma estar numa superprodução desse nível, principalmente quando ela é seqüência direta de uma franquia conhecida pela qualidade.


Sabe-se que o que foi para as telas não é um roteiro, mas sim uma colcha de retalhos. Do roteiro inicial, escrito por John D. Brancato e Michael Ferris (os mesmos infelizes que escreveram a Parte 3), deve ter sobrado bem pouco. Pelo menos o galã Christian Bale não cansa de repetir, em toda e cada entrevista que dá, que esta primeira versão era péssima e fazia de John Connor um mero personagem coadjuvante.

Seguiram-se, então, diversos convites para que outros autores reescrevessem o material. No começo de 2008, quem colocou a mão na massa foi o oscarizado Paul Hagis. Alguns meses depois, foi a vez de Shawn Ryan fazer novas modificações. Mesmo assim, a coisa ainda não estava com cara boa, pois durante as filmagens também apareceram ainda Anthony E. Zuiker e Jonathan Nolan (co-roteirista de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", convidado pelo próprio Bale para o set de "A Salvação") para mexer no roteiro. E mesmo com tanta gente metida, sobrou esse monte de buracos e informações equivocadas, que qualquer reprise dos três primeiros filmes da série corrigiria facilmente!

Agora, eu me pergunto: como pode um roteiro reescrito um milhão de vezes por pelo menos meia dúzia de pessoas continuar ruim e mesmo assim ser filmado? O que se vê na tela é não tem qualquer profundidade ou pelo menos o suspense da perseguição dos personagens humanos por máquinas indestrutíveis, que havia nos dois primeiros filmes e, vá lá, no terceiro.

A melhor coisa do roteiro é o tal Marcus Wright, uma máquina com sentimentos, que nem sabe ao certo o quanto é homem e o quanto é cyborg. Infelizmente, esse conflito mal é aproveitado pelo diretor entre uma explosão e outra. Aliás, me lembrou muito uma tralha italiana do Sergio Martino, "Keruak - O Exterminador de Aço", onde o protagonista, como Marcus aqui, era um cyborg em busca de sua humanidade. A diferença é que a produção italiana, além de ter sido feita 23 anos antes, custou 199 milhões de dólares a menos.


E por falar em "roteiro ruim", alguém sinceramente lembra o que a Bryce Dallas Howard está fazendo no filme? É que ela é tão mal-aproveitada que podia ficar em casa vendo TV ao invés de abraçar um papel sem sal e sem participação alguma na trama principal. Está fácil ganhar dinheiro na Hollywood de hoje...

Mas é claro que agora é tarde e esse meu choro não vai adiantar nada: "O Exterminador do Futuro - A Salvação" certamente acabará sua trajetória nos cinemas como um estrondoso sucesso de bilheteria, dando o sinal verde para a já anunciada quinta parte, agendada para 2011.

Fico pensando o que mais eles têm a acrescentar a tudo que já foi feito, e que novos furos estão preparando para esta nova aventura. Certamente não teremos maiores novidades do que o que já sabemos até agora - lembre-se que já sabemos até que John Connor será morto por um T-850 em 2032, conforme explicado na Parte 3, certo?

E era por isso que eu estava torcendo para que a Resistência finalmente vencesse sua interminável guerra contra a Skynet, como muitas vezes é prometido ao longo das quase duas horas do filme - e, afinal, o subtítulo não é "A Salvação"??? Assim, quem sabe, seríamos poupados de mais uma, duas ou sabe-se lá quantas continuações de uma série que estaria completíssima e com 100% de aproveitamento caso tivesse parado em "O Exterminador do Futuro 2". Mas aí veio aquele papinho xarope de "Vencemos a batalha, mas não a guerra", e eu perdi a esperança de ver o fim dessa série tão cedo.

Enfim, "O Exterminador do Futuro - A Salvação" é mais um belíssimo caso de filme que não é exatamente ruim, mas que eu provavelmente jamais terei vontade de ver de novo. E conquistou um lugar de honra numa quilométrica lista que já inclui coisas como o Superman do Bryan Singer e o King Kong do Peter Jackson.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (1985)


A primeira vez que vi VIVER E MORRER EM LOS ANGELES foi num dos muitos Corujões da Globo que encarei durante os anos 90 - aquela triste fase pré-baixação de filme, quando você precisava ficar acordado até as três da matina para gravar os filmes que gostava. Eu não lembro a quantidade de cortes que a emissora fez no filme (mas tenho certeza que algumas cenas não foram exibidas), e nem lembro como era a voz dos dubladores dos personagens principais. Tudo que lembro é que foi um daqueles casos raros de amor à primeira vista.

Por muito tempo, inclusive, eu considerei esta obra-prima do diretor William Friedkin (dispensa apresentações, não é?) o último filme policial realmente perfeito. Claro, isso foi antes de maravilhas como "Fogo Contra Fogo", do Michael Mann, mas lembro que demorou um bom tempo para surgir algum outro policial contemporâneo que me deixasse tão hipnotizado quanto VIVER E MORRER EM LOS ANGELES. E se você é um daqueles pobres mortais que ainda não viu o filme, obviamente sem saber o que está perdendo, convido-o a ir direto ao fim desta resenha e assistir ao trailer. Será amor à primeira vista também, eu garanto.


Como revi o filme recentemente, resolvi escrever aqui umas porcas linhas, sem nenhuma tentativa de esgotar o assunto ou de fazer justiça à qualidade dessa maravilha, mas apenas para motivar aqueles que não conhecem ou nunca viram, e também para deixar quem já viu com vontade de rever.

Após uma introdução absurda e tosca que até hoje estou tentando entender como é que Friedkin filmou e ainda deixou na edição (envolvendo a segurança do presidente e um terrorista que se explode com uma bomba, algo que parece saído de um filme ruim do Steven Seagal), a trama principal de VIVER E MORRER EM LOS ANGELES finalmente começa, sem perder muito tempo com bla-bla-bla ou apresentações desnecessárias dos personagens.

Sabemos apenas que Richard Chance (interpretado por William Petersen) é um agente do Serviço Secreto especializado em caçar falsificadores de dólares, e Rick Masters (Willem Dafoe, magnífico no papel) é um artista plástico que usa seus dotes justamente para falsificar grandes somas de verdinhas. Perceba que eu não identifiquei nenhum deles como "herói" ou "vilão"; mais tarde você entenderá o porquê.


Os caminhos de Chance e Master entram em rota de colisão quando o falsificador mata Jim Hart (Michael Greene), parceiro de longa data e único amigo do agente. O pobre defunto estava a apenas três dias da aposentadoria. Chance, é claro, prepara-se para a vingança e promete pegar Masters custe o que custar. Entretanto, seus superiores, para tentar mantê-lo na linha, designam um novo parceiro careta e certinho, John Vukovich (John Pankow), para acompanhá-lo no caso. O resto do filme mostra a dupla encarando tudo e todos para colocar as mãos no falsificador.

A idéia principal, na verdade, é bastante simples (a típica historinha de vingança e do policial obcecado caçando o vilão que não deixa provas). O que transforma VIVER E MORRER EM LOS ANGELES num daqueles clássicos únicos, que nunca envelhecem ou perdem o pique, é exatamente o desenvolvimento da narrativa. Após perceberem que nada conseguirão do "jeito tradicional", com suas tocaias e investigações dentro da lei, Chance e Vukovich vão cavando fundo a própria cova ao bolarem armações cada vez mais mirabolantes para tentar prender Masters.


Sabe no filme "Miami Vice", do Michael Mann, em que uma situação vai levando a outra, e a outra e a mais outra, e o que parecia simples lá no começo acaba se tornando um problema impossível de solucionar? Pois é mais ou menos assim o roteiro assinado por Friedkin e Gerald Petievich, que é apenas ligeiramente inspirado no livro deste último.

Acompanhe: Chance e Vukovich começam o filme prendendo Carl Cody (um jovem John Turturro), que é o "distribuidor" das notas falsas de Masters. Masters, por sua vez, tenta matar o "ex-funcionário" na prisão para que ele não dê com a língua nos dentes. O plano falha e Cody continua vivo. Chance vê aí uma chance de ouro para conseguir o testemunho contra Masters, liberta Cody para negociar um acordo, mas o bandido acaba fugindo, fazendo com que o policial volte ao ponto de partida!

Finalmente, sem mais recursos para usar contra o falsificador, Chance resolve negociar 30 mil dólares em notas falsas com o próprio Masters, para prendê-lo com a boca na botija. Mas seus superiores não liberam a grana. Assim, ele resolve esquecer que é policial e roubar um contrabandista de diamantes que está chegando à cidade, sem saber que o sujeito na verdade é um agente disfarçado do FBI! E assim a coisa vai se complicando mais e mais ao ponto de o espectador se perguntar onde tudo aquilo vai parar.


Por isso que o mais interessante de VIVER E MORRER EM LOS ANGELES é a caracterização do seu protagonista e do seu antagonista. Chance e Masters têm absolutamente tudo em comum, e, mesmo que isso tenha virado clichê em incontáveis policiais posteriores, poucas vezes a linha entre "polícia e ladrão" foi tão tênue.

Chance é aquele tipo de policial que gosta de viver perigosamente (inclusive pratica base jump, saltando de pontes altíssimas apenas com um cabo amarrado a uma das pernas), sabe que vai morrer antes de se aposentar e vive uma relação de (pouco) amor e (muito) ódio com sua informante, Ruth (Darlanne Fluegel, linda), a quem vive ameaçando colocar na cadeia, caso não obtenha as informações que precisa.


Masters, por outro lado, é um artista conceituado e ricaço que parece trabalhar com dinheiro falso apenas porque é proibido (compartilhando com Chance o amor pelo perigo), que vive queimando as próprias telas por não achá-las perfeitas o suficiente (como são perfeitas as suas falsificações, por exemplo), e tem um caso de amor moderninho (com pouquíssimo amor) com uma dançarina, Bianca (Debra Feuer, linda também), que costuma dividir na cama com uma outra garota.


Quando você percebe que ambos têm mais em comum do que deveriam, e que Chance está tão obcecado em pegar Masters que não medirá esforços (mesmo tendo que agir fora da lei), percebe também a beleza dúbia da história que Friedkin está contando: um filme onde o herói não é nada bonzinho e o vilão parece mais inteligente, mais "correto" e está sempre um passo a frente do seu perseguidor. O crítico norte-americano Roger Ebert descreveu isso de maneira perfeita: "Não é uma história sobre policiais e ladrões, mas sobre dois sistemas de fazer negócio, e como um deles precisa encontrar uma forma de mudar a si próprio para derrotar o outro".

Enfim, é um jogo de gato e rato incrível, como o cinema policial poucas vezes mostrou. E com uma reviravolta final tão surpreendente, inesperada e CORAJOSA que lembro de ter ficado boquiaberto quando "aquilo" aconteceu. É a cereja do bolo e o toque de mestre de Friedkin, uma reviravolta quase cortada pelos produtores furiosos (que ordenaram a filmagem de um absurdo "final feliz" para a trama), mas que felizmente ficou na montagem final. Sem ela, o filme perderia uns 80% do seu impacto.


Eu adoro boa parte dos filmes de William Friedkin (outros, como "A Árvore da Maldição" e "Jade", acho bem fraquinhos), e um dos aspectos mais positivos dos seus policiais é o realismo das tramas, situações e protagonistas. Em VIVER E MORRER EM LOS ANGELES não é diferente: Petersen e Pankow interpretam dois agentes à beira do colapso (por causa do estresse) de maneira bastante convincente. A fantástica trilha da banda Wang Chung ajuda a criar um clima pulsante e desesperador, como se o filme nunca parasse de martelar a cabeça do espectador.

Sempre achei uma grande injustiça o fato de Petersen (hoje no seriado "CSI") não ter se transformado num grande astro da sua geração, e sua interpretação neste filme é argumento mais do que suficiente para corroborar minha teoria (somado ao posterior Will Graham que ele interpretou em "Manhunter", de Michael Mann, outro "herói" bastante imperfeito). Mas Dafoe também está ótimo como um vilão ameaçador e que põe a mão na massa, ao invés de ficar em casa dando ordens pelo telefone, como é comum nesse tipo de história.


E apesar de ser mais lembrado por "O Exorcista", o fato é que Friedkin parece ter nascido para dirigir policiais. VIVER E MORRER EM LOS ANGELES não deve nada ao clássico "Operação França", que o diretor filmou nos anos 70.

Na verdade, tem uma cena de perseguição de automóveis que praticamente deixa na poeira aquela ótima seqüência em que Gene Hackman perseguia o metrô em "Operação França". Aqui, Chance e seu parceiro fogem de velozes perseguidores armados entrando na contramão numa auto-estrada - um cena tão perigosa, ainda mais por ter sido feita na era pré-CGI, que parece até uma completa loucura.



Ainda não está convencido a ver o filme? Então saiba que os 116 minutos de VIVER E MORRER EM LOS ANGELES foram cuidadosamente elaborados por um cineasta que é digno desse nome. Algumas cenas poderiam ser impressas e emolduradas como quadros, de tão lindas.

E o filme todo valeria apenas pelo belíssimo momento em que o personagem de Dafoe falsifica cédulas de 20 dólares. Toda a produção das notas falsas é mostrada DIDATICAMENTE pela câmera de Friedkin (ele teve como "consultor" um falsificador verdadeiro!), ao som frenético da trilha sonora. Um momento antológico e inesquecível, perfeito casamento de montagem e música, além de uma aula para quem realmente quiser falsificar cédulas. De tão boa, a cena merece figurar aqui no blog, e você pode vê-la na íntegra abaixo.

Como fazer 200 dólares por segundo


VIVER E MORRER EM LOS ANGELES ainda tem cenas bastante violentas de lutas corporais e tiroteios. O diretor parece ter fetiche por sangrentos balaços no rosto (aqui tem até tiro de espingarda na cabeça à queima-roupa!), mas pode esperar também por tiro no saco e uma pessoa sendo queimada viva, só para mostrar como, no mundo do crime, "os fracos não têm vez".


Bem, eu poderia ficar aqui até amanhã falando da maravilha que é este filme injustamente desprezado pela crítica (e pela maioria do público também), mas prefiro terminar por aqui, com medo de falar demais e acabar estragando algumas das muitas surpresas que Friedkin reserva ao espectador de primeira viagem.

Porém ressalto que este é talvez o penúltimo filme policial perfeito (ainda estou hipnotizado e não consigo lembrar com certeza, mas acho que o último foi mesmo o "Fogo Contra Fogo"), e com certeza um dos meus filmes favoritos de todos os tempos.

E como não gostar de uma obra em que um policial fala para uma mulher "O Tio Sam não liga para as suas despesas. Se quer pão, vá transar com o padeiro!", e o tal sujeito ainda deveria ser O HERÓI DO FILME??? Ah, bons tempos politicamente incorretos aqueles em que tínhamos personagens como Richard Chance...

Trailer de VIVER E MORRER EM LOS ANGELES


*******************************************************
To Live and To Die in L.A. (1985, EUA)
Direção: William Friedkin
Elenco: William Petersen, Willem Dafoe,
John Pankow, Debra Feuer, Darlanne
Fluegel e Dean Stockwell.