segunda-feira, 23 de novembro de 2009

...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE (1968)


Quando eu li em algum lugar que ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE tinha uma das cenas iniciais mais lindas da história do western spaghetti, achei que era um pouco de exagero. Afinal, como alguém poderia fazer melhor que a maravilhosa introdução de "Era Uma Vez no Oeste", de Sergio Leone, por exemplo? Então resolvi conferir in loco. E o filme dirigido por Giulio Petroni (do clássico "A Morte Anda a Cavalo") começa assim...

...uma diligência cruzando uma planície desértica é atacada por um numeroso grupo de bandidos a cavalo. Os facínoras enchem o veículo de tiros, até que um deles consegue matar o condutor e parar a diligência. De dentro dela, tiram os cadáveres de um homem e de uma linda garota loira, e dão o tiro de misericórdia num segundo homem que ainda estava vivo. Mas os bandidos não tocam em nada, nem roubam nada. Esperavam encontrar alguém que DEVERIA estar na carruagem, mas não está. Furioso, o líder comanda a fuga, deixando para trás o cenário do massacre completamente inútil. A câmera então se aproxima lentamente da diligência cheia de buracos de bala, a música extremamente triste de Ennio Morricone (orquestrada por outro mestre, Bruno Nicolai) começa a tocar, e a cena - brilhante - termina num close do rosto sem vida da loira. Até que uma mão entra no quadro e limpa a areia do rosto da morta. É a mão de Giulianno Gemma, o homem que os bandidos esperavam encontrar na carruagem!


Sim, amigos, a cena inicial é belíssima, e só ela já valeria pelo filme inteiro. Felizmente, este western diferente tem outras qualidades que o colocam um pouco acima da média das produções do período.

O triste massacre inicial logo dá lugar ao encontro do personagem de Gemma, que se chama Tim Hawkins, com o do garimpeiro Harry (interpretado por Mario Adorf), que passava por ali minutos após o ataque à carruagem. Silenciosamente, os dois desconhecidos cavam sepulturas para os quatro mortos que nem conhecem, e então seguem até uma cidade próxima, onde acabarão se tornando parceiros de aventuras.

O que nem Harry e nem o espectador sabem, ainda, é que Tim é um grande trapaceiro, que pasará o restante do filme aplicando golpes no "amigo" garimpeiro e em outros personagens secundários. Após roubar as pepitas de ouro que Harry passou seis meses garimpando, os dois acabam o restante do filme juntos, com o pobre homem lesado forçando o espertalhão a reaver sua grana.


Mas, desde o começo, sabemos que o garimpeiro bonachão não é o único que quer a cabeça do simpático golpista: aquela violenta quadrilha que matou os inocentes ocupantes da diligência, liderada pelo sádico Roger Pratt (em excelente interpretação de Federico Boido, com direito a cicatriz em metade do rosto e tudo mais), está caçando obsessivamente o fora-da-lei. E qualquer pessoa vista em sua companhia, como Harry, é considerada cúmplice e passa a ser perseguida também. Assim, sem querer, o garimpeiro logrado torna-se também um fugitivo e precisa associar-se ao "rival" Tim para sobreviver à caçada humana.

O mais curioso é que, após aquele início brutalmente melancólico, ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE desenvolve-se como um western cômico, no estilo dos filmes da série Trinity. A própria associação Gemma/Adorf lembra muitas vezes a dupla engraçadinha imortalizada por Terence Hill e Bud Spencer.

Boa parte da trama cobre os golpes engraçados que Tim e Harry aplicam durante a fuga para conseguir algum dinheiro, o que envolve desde abrir um serviço de telégrafo com mensagens para todos os Estados Unidos (quando o aparelho nem ao menos tem fio!) até seduzir uma bonita viúva (a lindíssima Magda Konopka, de "Blindman"), na mesma tarde do funeral de seu marido! Mas, como Harry faz o tipo trapalhão estilo Bud Spencer, sempre arruína todos os golpes no final.


Já Tim faz aquele estilo vigarista simpático, com quem o espectador se identifica - mesmo sabendo que ele está lesando pobres pessoas inocentes. Não gosta de usar armas e deixa o trabalho pesado para o "colega" Harry, que protesta: "No Oeste, você vive pouco sem ter uma pistola". Mas Tim retruca: "Eu prefiro usar o cérebro".

Eu normalmente não gosto muito destes westerns cômicos (alguns pesquisadores do western spaghetti alegam que esse tipo de produção foi responsável pela morte prematura ao ciclo), mas ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE fica acima da média, e especialmente das aventuras mais leves e inocentes de Terence Hill e Bud Spencer. Isso porque, apesar de investir numa trama bem humorada, o filme ainda tem cenas bastante tristes e um tom melancólico, reforçado pela belíssima música de Morricone/Nicolai.


Embora Tim seja um protagonista simpático, logo fica claro que ele é encrenca para todas as pessoas que se relacionam com ele. Perto do final, um simpático casal de artistas, que apresenta um espetáculo de freakshow (uma falsa sereia), é impiedosamente morto pelos homens de Pratt, numa cena inesperada e bastante dramática, que arruína totalmente o clima de humor em que o filme investia até então.

É quando entra em cena o pai de Roger, Samuel Pratt (interpretado por Anthony Dawson, um dos vilões de "007 Contra o Satânico Dr. No"). Ele revela a verdade sobre Tim: o estelionatário do Oeste na verdade era um pistoleiro chamado Blly, que integrava a quadrilha dos Pratt. Rápido e mortal no gatilho, ele cansou da vida de crimes e resolveu "se aposentar".

Perseguido pelo patriarca Samuel, que não aceitou a "demissão", Billy/Tim matou dois dos filhos do criminoso na fuga, o que deu início à caçada sem trégua movida pelo único filho restante, Roger. Tudo se encaminha para o tradicional confronto final e uma conclusão que também é bastante triste, e somente valoriza ainda mais este belo filme.


Sempre é bom esclarecer a confusão dos títulos nacionais da obra: "Quem Dispara Primeiro?" é o título genérico e nada inspirado adotado pela distribuidora Ocean no recente relançamento do filme em DVD. Segundo uma troca de mensagens postadas na minha comunidade Bangue-Bangue à Italiana, no Orkut, o primeiro título do filme, quando foi exibido nos cinemas nacionais, também era genérico: "A Pistola é Minha Bíblia". Finalmente, em VHS (e posteriormente num primeiro DVD bagaceiro), a distribuidora CineArt optou por um terceiro título, este enganoso: "A Vingança de Ringo" (um personagem interpretado por Giuliano Gemma em outros filmes).

Vale ressaltar que todos estes três títulos ficam bem longe da poesia do original, "E Por Teto um Céu Cheio de Estrelas", que diz respeito tanto aos vários mortos que tombam ao longo da narrativa quanto às noites que Tim e Harry passam na velha cabana de um rancho herdado pelo garimpeiro, e cujo telhado tem um enorme buraco que permite ver o céu e as estrelas.

Bastante diferente de outros clássicos do western spaghetti, já que o protagonista aqui prefere usar mais a malandragem do que a pistola (e passa a maior parte do filme FUGINDO dos seus perseguidores ao invés de enfrentá-los, mesmo sendo um ás do gatilho), ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE vale ainda pelos ótimos tiroteios da metade para o fim - a primeira vez que o personagem de Gemma é obrigado a mostrar sua destreza no uso da pistola é sensacional e inesperada!


Por isso, mesmo aqueles que, como eu, não são lá muito chegados em westerns mais engraçadinhos podem arriscar, pois deverão encontrar boas qualidades nesse filme do Petroni. Especialmente quando o diretor surpreende ao quebrar o tom de humor para mostrar como era dura e violenta a vida do Velho Oeste. Quem procura por um western dos bons não pode deixar passar essa bela obra.

Dica: Vale a pena comprar o DVD Duplex lançado pela Spectra Nova. Normalmente, os DVDs de western spaghetti lançados no Brasil são um lixo, mas este surpreende por trazer uma imagem cristalina em letterbox e ainda, como programa duplo, o excelente "Blindman", de Ferdinando Baldi, cuja cópia também é em letterbox e sem cortes. Uma bela (e barata, cerca de R$ 9,90) aquisição para colecionadores do gênero.

Trailer de QUEM DISPARA PRIMEIRO?


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...E Per Tetto un Cielo di Stelle
(1968, Itália)

Direção: Giulio Petroni
Elenco: Giuliano Gemma, Mario Adorf,
Magda Konopka, Federico Boido, Anthony
Dawson e Julie Menard.

11 comentários:

Pedro Pereira disse...

Pois é, eu também faço parte daqueles que culpam a inclusão de elementos cómicos no cinema western-spaghetti pela sua estagnação. A culpa é desses italianos malucos que tendem sempre para copiar e voltar a dar aquilo que atinge sucesso. Apesar disso reconheço que este filme que agora falas não se pode incluir nessa facção, até porque ainda saiu nos anos 60. Gosto bastante das cenas iniciais de que falas, aliás é preciso ser um fraco apreciador de cinema para não gostar daquilo...

Matheus Ferraz disse...

É do diretor de A Morte Anda a Cavalo, aquele com o Lee Van Cleef? Porque aquele também tem uma belíssima cena inicial, quando o garoto testemunha o massacre da família e observa os detalhes que permitirão identificá-los no futuro.

Felipe M. Guerra disse...

Ele mesmo, MATHEUS. Inclusive o "A Morte Anda a Cavalo" é um dos meus westerns preferidos, e em breve ganhará o devido destaque aqui no FILMES PARA DOIDOS.

vitor disse...

conferi o filme hoje!Eu já tinha ele faz um tempo, só que apenas ontem eu fui conferir.O filme é realmente muito bom apesar de tbm não gostar muito desses westerns engraçadinhos.Felipe vc já assistiu vigilante de 1986 com robert foster e fred willianson?

vitor disse...

apenas hoje*

Felipe M. Guerra disse...

Vi sim. É do William Lustig, diretor do Maniac Cop. Comprei o DVD importado só pela fama, mas confesso que achei aquém do que eu esperava.

artur disse...

Ola Felipe, esse western eu tenho aqui em casa, é muito legal, o que mais gosto é que o roteiro não nos apresenta logo de cara quem é o personagem do Giuliano Gemma só ficamos sabendo tudo sobre o malandro ao decorrer da história, quanto aos westerns cõmicos gosto muito de assisti-los embora alguns não sejam tão engraçados, acho um preconceito besta ficarem dizendo que esse tipo de western matou o gênero, é como o próprio Terence Hill explica, as pessoas etavam fartas de ver o bandido chegar e matar umas vinte pessoas, daí surgiu uma proposta nova, e outra: sugiram algums faroestes ruins no começo dos anos 70, mas até surgiram bons filmes como Sela de Pratae Keoma, e se fosse desse jeito gênero já estaria morto nos próprios westerns do Leone, pois personagens como: Tuco, Cheyenne e Juan, são personagens engraçadissimos e isso não atrapalha em nada os westerns de Leone, muito pelo contrário, então acho que devemos abrir mais a cabeça e relaxar, dar risada de vez em quando não faz mal a ninguém, abraços!

Felipe M. Guerra disse...

ARTUR, eu até costumo ter certa tolerância em relação aos westerns cômicos quando eles não "arregam" na hora de mostrar que a vida no Oeste também era dura e violenta. É o caso desse filme aqui e até do BOOT HILL.

Agora, tem alguns filmes desse filão que descambam para a gracinha e para as piadas infames, e nem ao menos têm tiroteios ou mortes. O segundo filme da série "Aleluia", com o George Hilton, por exemplo, eu penei para conseguir ver até o final, é um humor pastelão muito tosco e besta, estilão "Zorra Total" mesmo.

Acho que a mistura nem sempre é benéfica. Ou é comédia que se passa no Velho Oeste (como vários filmes da dupla Terence Hill e Bus Spencer) ou é western com toques de humor, e eu prefiro esse último caso.

eduardo disse...

felipe, essa copia da spectra nova é melhor do que da Cine Art?

Felipe M. Guerra disse...

Infelizmente não vi a da Cine Art para poder comparar. Essa da Spectra Nova está em widescreen e com imagem boa até, ainda mais comparando com outras atrocidades lançadas no nosso mercado de DVD (como o absurdo e criminoso "Sete Dólares para Matar").

O único ponto negativo é que as cores parecem bem desbotadas, como você pode ver nas fotos.

vitor disse...

Outro filme que promete ser um western clássico e acaba indo pelo caminho da palhaçada é "vou mato e volto" do castellari.Aquelas cenas la do cara fazendo os seus marabalismos acabam sendo muito constragedoras!