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segunda-feira, 23 de março de 2009

Spirit de porco


O ano mal começou e talvez ainda seja muito cedo para dizer que THE SPIRIT é a grande bomba de 2009. Mas como eu sinceramente duvido que veremos algo tão decepcionante e tão surpreendentemente ruim até dezembro, vou dizer mesmo assim: caros leitores, THE SPIRIT é, por enquanto, a grande bomba de 2009.

(Ou pelo menos até que algum outro diretor consiga realizar a mesma façanha de Frank Miller, aqui diretor e roteirista, de desperdiçar um elenco fantástico e milhões de dólares numa narrativa sem pé nem cabeça calcada apenas no visual. E, para a sorte de Miller, sempre tem gente como Uwe Boll e Michael Bay correndo por fora na competição de pior do ano. Se bem que eu duvido que o próprio Uwe Boll conseguisse fazer um filme do Spirit tão ruim quanto esse...)

Comecemos do começo: Frank Miller é um dos grandes nomes dos quadrinhos contemporâneos. OK. E de visual o homem entende, não dá para negar. Mas daí para dizer que ele é "diretor de cinema", tendo como único crédito uma "co-direção" concedida de favor por Robert Rodriguez em "Sin City", é exagero.

Para piorar, em THE SPIRIT Miller parece não estar adaptando os exagerados, revolucionários, criativos e cartunescos quadrinhos do personagem homônimo criado por Will Eisner. Parece, isso sim, estar fazendo uma espécie de "Sin City 2" por conta própria, mas com o personagem de Eisner perdido no meio da coisa.

O humor negro, os personagens afetados, o visual escuro com algumas poucas cores (tipo o vermelho) se sobressaindo nos tons monocromáticos... tudo remete a "Sin City", e pouco ou nada ao material original de Will Eisner. Logo, este não é o "Will Eisner's The Spirit", como diz o cartaz internacional do filme, mas sim o "Frank Miller's The Spirit Attacks in Sin City"!!! Simples assim.


Não vou ficar aqui torrando a paciência do leitor e repetindo tudo que os críticos de verdade já escreveram sobre a importância dos quadrinhos de Eisner para a construção das modernas HQs para adultos. Particularmente, não sou um especialista na obra de Eisner, mas o pouco de material do Spirit que eu tenho e conheço é apaixonante. Em algumas histórias, por exemplo, o herói aparece apenas como coadjuvante, à margem de uma trama que não tem sua participação direta; em outras, importa mais o layout das páginas (com letreiros e desenhos invadindo o espaço da ação) do que a história em si.

Quem sabe Miller achou que seria uma grande coisa fazer seu filme do mesmo jeito que Eisner fazia os quadrinhos: ao invés de contar uma história, o diretor de primeira viagem prefere trabalhar o visual, filmando quadros absurdos e abusando de uma narrativa em estilo desenho animado - com aquela violência exagerada mas sem sangue, o extremo oposto de "Sin City".

O problema é que, por trás do visual fascinante do filme, não sobra nada - o contrário das narrativas escritas e desenhadas por Eisner nos quadrinhos, que eram ótimas! E quero ver alguém dizer que realmente acompanhou com interesse, no filme, a luta do Spirit (o novato Gabriel Macht, mais perdido que surdo em bingo) contra o vilão Octopus (Samuel L. Jackson, péssimo), em busca de uma relíquia arqueológica à la Indiana Jones.

A verdade é que este THE SPIRIT raramente faz sentido e nunca mostra ao que veio. Miller parece preocupado apenas com a parte artística da coisa, e esquece que os personagens precisam ter ações e motivações. Claro que não ajuda colocar um monte de atores na frente de um fundo verde e não saber dirigi-los. Acaba virando um samba do crioulo doido, sendo que este é o próprio Samuel L. Jackson, numa interpretação que deixaria com orgulho muito palhaço de festinha infantil.

Miller nem ao menos se preocupa em explicar a origem de Spirit para quem não conhece os quadrinhos (o que acabou ajudando a assinar a sentença de morte da película para o grande público), sumiu sem explicações com o parceiro que o herói tinha nos quadrinhos (Ebonny White, um taxista negro e trapalhão) e ainda desperdiçou um elenco feminino estelar em participações confusas e nada inspiradas - entre as beldades, Scarlett Johansson, Eva Mendes, Jaime King e Sarah Paulson. Acho que o sujeito ficou perdido com tanta mulher gostosa no set e esqueceu que precisava fazer um filme inteiro, e não apenas cenas esparsas com as moças e os outros atores.


O pior é que THE SPIRIT até tenta investir num humor caricatural no estilo do ótimo "Dick Tracy" do Warren Beatty (uma releitura criativa de quadrinhos para o cinema), mas sem qualquer sucesso. O que ficou lembra muito pouco os quadrinhos de Eisner: está muito mais para um cruzamento do horrendo "Batman & Robin" com o visual do igualmente decepcionante "300", e o resultado passa anos-luz à margem do que poderia ser um filme do Spirit.

É uma pena, pois o personagem tinha potencial para uma aventura bem colorida e divertida, e não escura e afetada como esta que só agora chegou aos cinemas brasileiros, depois de tomar pau de críticos no mundo inteiro (o que também deve abreviar a carreira de Frank Miller como "diretor de cinema").

E enquanto eu me contorcia na poltrona de um cinema espanhol tentando enxergar algum objetivo em cenas como aquela em que Octopus e sua parceira se vestem com uniformes nazistas, ou alguma graça nos capangas clonados do vilão (uma idéia que parece saída de filmes melhores, como o francês "Ladrão de Sonhos"), fiquei pensando que talvez aquilo não fosse realmente um filme do Spirit, mas uma sátira do filme do Spirit feita pelo programa humorístico norte-americano Saturday Night Live (ou uma paródia da revista Mad, como definiu o Leandro Caraça no blog Viver e Morrer no Cinema).

A dferença é que, aqui, a piada é de mau gosto e absolutamente sem graça, a despeito de todo o potencial e talentos envolvidos. Muita gente está mostrando boa vontade para com esse lixo, mas meu parecer é bem radical: nota zero com louvor!

Engraçado, mesmo, é que este tal de Frank Miller sempre reclamou da pouca consideração da "indústria do cinema de Hollywood" em relação aos seus roteiros para os filmes "Robocop 2" e "Robocop 3". Ele alega que ambos foram mutilados pelos produtores ao ponto de ficarem irreconhecíveis, e que quase todas as suas idéias foram descartadas. A julgar pelo resultado deste THE SPIRIT, começo a entender o porquê destes alegados cortes...


E não esqueçam, amiguinhos, que o mesmo Frank Miller que fez o clássico "O Cavaleiro das Trevas" e algumas das melhores HQs do "Demolidor" também escreveu e desenhou o pavoroso "O Cavaleiro das Trevas 2". Logo, todos erramos. O que nos difere é justamente o tamanho das nossas cagadas! E essa chamada THE SPIRIT é beeeeeeeem grande...

PS: Retornando ao blog depois de um período afastado cuidando de detalhes xaropes de mudança de cidade, saída de emprego e início de uma nova vida. Agradeço pela paciência dos leitores fiéis, voltarei a ser mais atuante a partir de agora.

sábado, 7 de março de 2009

"Who watches the Watchmen?" I did!


Sim, eu semprei pensei que a minissérie em quadrinhos "Watchmen", de Alan Moore e Dave Gibbons, era infilmável.

Sim, eu comemorei todas as vezes que o projeto foi engavetado ao longo dos anos, inclusive quando diretores bem mais conceituados tentaram levar os quadrinhos para as telas.

Sim, eu fui ver "Watchmen" no cinema louco para achar defeitos e falar mal.

Sim, eu me surpreendi. Quem diria, "Watchmen" ficou muito legal. Talvez não uma obra-prima como todo mundo esperava, mas bem longe de ser a bomba que muita gente (inclusive eu) também esperava.

Para quem não sabe, ou não viveu na Terra nos últimos 20 anos (especialmente nos dois últimos), os quadrinhos e o filme se passam num universo onde seres humanos comuns resolveram vestir-se como super-heróis para combater o crime. Homens como o Coruja (Patrick Wilson), o Comediante (Jeffrey Dean Morgan), Ozymandias (Matthew Goode), Rorschach (Jackie Earle Haley) e a Espectral (Malin Akerman) são pessoas normais, sem superpoderes, que combatem vilões idem, embora o maior inimigo seja a Guerra Fria.

A trama se passa numa década de 80 "alternativa", onde Richard Nixon é o presidente norte-americano reeleito pelo terceiro mandato, os Estados Unidos ganharam a Guerra do Vietnã e estão à beira de uma Terceira Guerra Mundial contra a União Soviética. E o único herói que realmente tem superpoderes é o Dr. Manhattan (Billy Crudup), transformado numa criatura capaz de modificar a matéria após um acidente de laboratório típico dos quadrinhos "normais" de super-heróis.

Nas páginas de "Watchmen", a história era contada sem pressa em 12 volumes, em que a narrativa principal é inúmeras vezes interrompida por devaneios de seus personagens, por incontáveis flashbacks, por intervenções de pessoas comuns afetadas pelas ações de heróis e vilões e até, acredite ou não, por uma história de piratas que um jovem jornaleiro aparece lendo em alguns momentos (sim, um gibi dentro do gibi!!!). É claro que não haveria como colocar tudo isso num filme com menos de três horas, como este que agora está nos cinemas.


Logo, continuo acreditando que "Watchmen" é infilmável como longa-metragem, pelo menos de uma forma ideal. Eu sempre sonhei com uma minissérie luxuosa para a TV, que pudesse cobrir literalmente todos os fatos apresentados nos 12 capítulos da graphic novel, quem sabe cada episódio da minissérie dirigido por um cineasta diferente.

Do jeito que ficou... Bem, pense no filme "O Nome da Rosa", do francês Jean-Jacques Annaud, que por sua vez é baseado no best-seller homônimo de Umberto Eco. Por mais que o filme (estrelado por Sean Connery) seja bom, ele abrange, sei lá, uns 20% do livro, no máximo. E uma das partes mais interessantes do romance, que é a discussão entre as ordens religiosas sobre a riqueza ou a pobreza de Jesus, ficou de fora para que o destaque recaísse sobre a trama de mistério.

A comparação não é gratuita. Como no caso de "O Nome da Rosa", o roteirista de "Watchmen", Alex Tse (David Hayter ganhou crédito como co-roteirista, mas na verdade foi autor de outro tratamento do roteiro, não-aproveitado por Snyder), espremeu bem a fruta, mas não aproveitou todo o suco. O foco do filme ficou mais na investigação sobre "quem está matando os mascarados?", deixando de fora muitos detalhes fascinantes dos quadrinhos, e abordando outros (como o verdadeiro pai da segunda Espectral) bem superficialmente. Isso sem contar que personagens como Ozymandias aparecem bem menos do que deveriam.

Enfim, isso que está na tela é um resumão de 163 minutos com o melhor da minissérie. E isso é ruim? Não. Ao contrário, por exemplo, de "O Código Da Vinci", de Ron Howard, este aqui é um resumão que funciona.

Como eu estava doido para falar mal, vou começar falando sobre o pior de "Watchmen - O Filme" (subtítulo nacional importantíssimo, para que ninguém pense que vai entrar no cinema e encontrar as revistas em quadrinhos para ler...).

Creio que um dos grandes problemas da adaptação é que o seu diretor, Zack Snyder, adora filmar cenas de ação estilizadas como estivesse dirigindo um videoclipe (e ele dirigiu vários no passado). Pior: quando faz isso, Snyder acha que está abafando. Este foi um dos motivos que me fez odiar "300", adaptação dos quadrinhos de Frank Miller que foi o trabalho anterior do diretor, e embora ele tenha conseguido se conter desta vez (até porque "Watchmen" é muito mais conversa do que ação), volta-e-meia insiste no mesmo erro.


Claro que estou me referindo àquela xaropice de câmera acelerada seguida de freeze-frame (quadro congelado), câmera lenta e então movimento acelerado novamente. Em "300", Snyder fazia isso o tempo todo até cansar - e teve gente que gostou. Em "Watchmen", a primeira cena do filme (o ataque do misterioso assassino ao Comediante) já é assim, mesmo nos momentos em que não haveria a menor necessidade da câmera lenta (como o take de um copo arremessado em câmera lenta). Fiquei com medo de que o filme todo fosse assim. Felizmente, estava enganado.

Para um texto original tão detalhado e intrincado, a narrativa do filme funciona bem demais. E as várias subtramas se encaixam perfeitamente, mesmo que perto do final o diretor dê uma acelerada no ritmo e o aspecto de "resumão" do roteiro fique mais evidente, com as informações se atropelando.

Talvez quem não conheça os quadrinhos vá ficar boiando um pouco na trama, mas nada que uma segunda assistida não corrija. Já a primeira parte do filme é muito bem narrada, seguindo a linha-mestra do mistério em torno do assassino dos mascarados e a partir daí, através de flashbacks, explicando mais sobre o passado de seus fascinantes personagens.

No enterro do Comediante, por exemplo, há uma sucessão de flashbacks onde cada personagem recorda cenas do passado - e estes momentos servem para mostrar que o Comediante, afinal, não era nada inocente. Mais adiante, o dr. Manhattan vai para Marte e parece dar um "pause" no filme quando começa a contar sua própria história (para dar uma idéia do impacto na narrativa, imagine aquele desenho animado que conta a origem de O-Ren Ishii e que interrompe a trama principal em "Kill Bill Volume 1"). Mas tudo indo num ritmo muito bom, sem cansar o espectador, muito pelo contrário.

O que mais surpreende é o respeito do diretor e dos roteiristas pelo material original. Talvez com medo da reação negativa dos fãs ("Watchmen" é uma das obras em quadrinhos mais importantes da história, como você pode ler em qualquer crítica "séria" sobre o filme, e portanto não vou repetir tudo aqui), Snyder chega a recriar seqüências inteiras quadro a quadro, usando até os mesmos ângulos dos desenhos dos quadrinhos. Já o roteiro de Hayter e Tse aproveita a maior parte dos diálogos escritos por Moore, sem tentar criar nada que fuja muito da proposta, apesar da dupla incluir alguns momentos de humor tipicamente cinematográfico.

Uma das principais invenções da adaptação é uma mudança drástica no final da história. Tudo bem, a alternativa utilizada pelos roteiristas ficou boa e perfeitamente aceitável dentro do universo da trama, mas eu ainda prefiro o final dos quadrinhos, (SPOILERS) que criava uma ameaça bem mais chocante à humanidade para exigir que os líderes mundiais esquecessem suas diferenças e se unissem. (FIM DOS SPOILERS) Estou curioso para saber a opinião dos leitores sobre esta mudança.


E embora o diretor Snyder tenha aumentado bastante a violência da trama, com closes em fraturas expostas, golpes de cutelo na cabeça e até braços decepados com serra circular, chegamos à pior coisa do filme: as cenas de luta. Felizmente são poucas, e isso não chega a estragar o filme como aconteceu com "300". Sim, o excesso de câmera lenta e ângulos estilosos do diretor incomoda, principalmente porque "Watchmen", a graphic novel, tratava de pessoas comuns combatendo o crime, e não lutadores invencíveis fazendo acrobacias sobrenaturais contra seus adversários.

Isso sem contar que as lutas do filme não empolgam: descontando um momento de forte humor negro em que o Coruja e a Espectral se sentem mais "vivos" quando voltam à ativa detonando de maneira sangrenta um grupo de marginais, os outros combates são bem fraquinhos, incluindo a luta final, onde o "vilão" atira os heróis contra paredes e pilares como se fosse o Hulk - e, embora sejam todos humanos comuns, sem superpoderes, ninguém quebra qualquer osso do corpo ou sequer se arranha no processo, o que seria impossível dada a violência dos golpes e "vôos".

Outra bola fora é que, na sua visão estilizada do universo dos quadrinhos, Snyder faz com que seus personagens não só lutem como o Jet Li após tomar um litro de Red Bull, mas também protagonizem movimentos impossíveis para os seres humanos normais que são. É o caso da Espectral pulando da nave do Coruja, atravessando o teto de um prédio em chamas e caindo de pé e sem arranhões no andar abaixo. Ou de Rorschach pulando de uma janela no 1º andar de um prédio e caindo de pé, como um gato, no térreo. É o tipo de exagero à la "Sin City" que não se encaixa bem na proposta aqui.

Tirando estes pequenos defeitos que não desmerecem o conjunto, "Watchmen" continua um filmaço. A parte boa dos quadrinhos está toda no filme, e fiquei bastante satisfeito porque tanto o diretor quanto os roteiristas entenderam a mensagem do texto de Moore: os heróis de "Watchmen" não passam de pessoas comuns, que têm rotinas de pessoas comuns e conversam como pessoas comuns - enfim, gente como a gente, imperfeitos, cheios de dúvidas, medos e angústias. Além disso, às vezes suas ações têm pouco de heróico e muito de fascista.

Nos quadrinhos normais de super-heróis, quando vemos Batman e Superman juntos, por exemplo, é sentando porrada nos bandidos e salvando o mundo, nunca jantando ou tomando uma cervejinha como os dois velhos amigos que são. Este é o diferencial de "Watchmen" para os quadrinhos "normais", e isso está também no filme: os mascarados são capazes de encontrar seus envelhecidos arquiinimigos para uma conversa informal, ou então relembrar fatos heróicos do passado entre cervejas. Um deles, Ozymandias, fica milionário ao revelar sua identidade secreta e viver de royalties sobre uma linha de produtos baseada em suas aventuras. E o Coruja confessa que o dinheiro para financiar seus uniformes e veículos personalizados veio da herança do pai, que não gostou quando ele disse que queria ser "super-herói" - diferente, por exemplo, do playboy Bruce Wayne, que sempre teve tudo de mão-beijada, e nos filmes consegue uniformes e equipamentos com a maior facilidade do mundo.


"Watchmen" também escapa da armadilha fácil de transformar o violento Rorschach em herói. Nos quadrinhos, fica claro que ele é um psicopata a ponto de explodir, como o Travis Bickle de "Taxi Driver". E como Rorschach é o narrador do filme, pensei que talvez o roteiro fosse transformá-lo numa figura mais simpática.

Claro, é comum que o espectador goste do personagem justamente pela sua postura mais valente e violenta (ele era o meu favorito também nos quadrinhos). Mas o roteiro não tenta aplacar a fúria e a periculosidade de Rorschach, inclusive trazendo uma cena de flashback onde ele, ainda garoto, arranca nacos do rosto de um coleguinha a dentadas. E só ajuda o fato de termos um ator "feioso" como Jackie Earle Haley no papel do personagem sem máscara, ao contrário de um galã bonitinho qualquer. Rorschach provavelmente também é o melhor personagem do filme!

A direção de arte é bastante inspirada, com uniformes, cenários e objetos idênticos às páginas dos quadrinhos também nas cores. Isso fica evidente nos créditos iniciais, que se desenrolam sobre cenas marcantes da vida dos vigilantes uniformizados, e parecem recriações perfeitas de quadros da graphic novel. Já a presença de personagens reais, como Andy Warhol, David Bowie, John Kennedy, Fidel Castro e Richard Nixon, torna tudo mais divertido. Só que, como a história se passa nos anos 80, senti falta de mais objetos que remetessem a esta época. Fora isso, tudo perfeito. Nenhum nerd xarope vai poder reclamar que os uniformes dos personagens não estão parecidos.

Agora, muitos críticos têm reclamado da trilha sonora do filme, que supostamente não se encaixaria nas cenas. Tirando o "Hallelujah" de Leonard Cohen durante uma cena de sexo (que realmente ficou muito ruim!), acho que Snyder foi bem nas escolhas, encaixando canções bastante conhecidas em momentos-chave da trama. Por exemplo, o Comediante é assassinado ao som de "Unforgetable", que dá uma força natural à cena, e seu funeral tem como trilha "The Sounds of Silence", de Paul Simon, o que cria um momento que chega às raias do humor negro.

E é ótimo você perceber que todos os detalhes mais interessantes (ou pelo menos os principais) foram aproveitados pelo diretor e pelo roteirista, tornando "Watchmen" um filme tão inteligente quanto a obra que adapta (mesmo que não seja uma adaptação completa), e certamente mais inteligente que 99% dos blockbusters que temos que engolir por ano.


Aproveitem, porque talvez vá demorar muito para aparecer outro "filme de super-heróis" onde seus personagens filosofem sobre a existência de Deus, ou sobre a necessidade de se sentirem heróicos para viverem satisfeitos - o que fica evidente na cena em que o Coruja "falha" na sua primeira transa com a Espectral, mas mete com vontade após arrebentar meia dúzia de marginais e salvar crianças de um incêndio!

Por tudo isso, não consigo entender porque a crítica "especializada" está criticando tanto o filme de Snyder. Será que acharam muito barulho por nada, considerando a enxurrada de marketing e informações sobre "Watchmen" de 2007 para cá? Será que não gostaram da conclusão tão otimista quanto pessimista? Será que deixaram-se levar pela tosquice das cenas de luta, que eu também não gostei, e usaram isso como bode expiatório para detonar o filme inteiro? Ou será que simplesmente são uns chatos procurado motivo para reclamar?

A única certeza que tenho é a de que me surpreendi, e positivamente, com esta adaptação. Claro, eu continuo sonhando com uma minissérie mais detalhada, continuo imaginando o que um diretor "de verdade" faria com o mesmo material - como Darren Aronofsky, um dos nomes cogitados para assumir esta adaptação em sua longa gestação. Mas, ora bolas, "Watchmen" ficou muito bom. E termina deixando a vontade de ver de novo. Quem sabe numa versão mais longa em DVD, preenchendo alguns buracos perceptíveis na narrativa.

A minha dúvida agora é a seguinte: como todo mundo usou a expressão "filme de super-herói para adultos" até a exaustão em todo e qualquer texto sobre "Batman - O Cavaleiro das Trevas" no ano passado, como é que iremos chamar agora este "Watchmen", que é muito mais "adulto" do que o supersucesso de Christopher Nolan (e bem melhor também, na minha humilde opinião)?

Ora, até agora nenhum filme de super-heróis da Marvel ou da DC, seja juvenil ou adulto, tinha trazido tanta violência explícita, mutilações sangrentas e cenas de sexo e nudez. Logo, é possível que o verdadeiro "filme de super-herói para adultos" seja esse aqui!

quinta-feira, 5 de março de 2009

E quem quer saber de WATCHMEN?

Algumas adaptações de quadrinhos que eu REALMENTE estou morrendo de curiosidade para ver:


JONAH HEX (2010, dir: Jimmy Hayward)
Imagine um faroeste ultraviolento onde o "herói" é um pistoleiro sanguinário e rápido no gatilho que tem metade da cara desfigurada. Este é Jonah Hex, que está ganhando sua primeira adaptação cinematográfica - e que, dependendo do talento dos envolvidos e de um bom roteiro, tem tudo para ser ótimo. O casca-grossa Josh Brolin já foi confirmado como "a meia cara boa" de Hex, e o elenco também terá, segundo as primeiras informações, Megan Fox como mocinha e John Malkovich como vilão (um rico fazendeiro cujo filho é morto pelo pistoleiro e usa vodu para se vingar, o que promete o tom sobrenatural típico das histórias de Jonah Hex). O "senão" é o diretor confirmado, Jimmy Hayward. Este é seu primeiro filme com atores, sendo que antes ele trabalhou apenas em animações por computador para o público infantil (a última delas foi "Horton e o Mundo dos Quem"). Ou seja, não tem o perfil necessário para um filme destes, ainda mais considerando que os candidatos anteriores eram Lexi Alexander ("Punisher: War Zone") e a dupla Mark Neveldine e Brian Taylor ("Adrenalina").
• O que eu espero: Uma versão sombria e hiperviolenta do universo dos bons spaghetti western, com um anti-herói nada bonzinho lutando contra inimigos ainda piores do que ele.




DEAD OF NIGHT (2009, dir: Kevin Munroe)
A adaptação "oficial" do personagem italiano Dylan Dog (o "Detetive do Pesadelo") para as telas tinha tudo para ser um filmaço, mas as últimas notícias me deixaram meio cabreiro. Primeiro, trocaram o título de "Dylan Dog" para o genérico "Dead of Night". Depois, David R. Ellis foi substituído na cadeira de diretor por Kevin Munroe (que fez a animação por computador "As Tartarugas Ninjas - O Retorno"), e Munroe também assinará o roteiro do projeto. Resultado: apesar de a trama se inspirar numa das boas histórias do personagem ("O Despertar dos Mortos-vivos", lançada no Brasil ainda nos tempos da Editora Record), e trazer zumbis, que estão na moda, como antagonistas, Munroe já alertou sobre algumas mudanças burras em relação aos quadrinhos, como a mudança de local de Londres para os Estados Unidos, e a contratação de Brandon Routh (o Superman de Bryan Singer) como Dylan e Sam Huntington como seu eterno parceiro, Groucho. Hmmmm... Cheiro de "Constantine" no ar! Agora é esperar para ver de que jeito Munroe vai destruir uma história que, adaptada de forma razoável, pode render pelo menos um bom filme de terror. E sempre lembrando que Dylan Dog já foi levado às telas, de maneira "disfarçada", no excelente filme italiano "Pelo Amor e Pela Morte", de Michele Soavi, lançado em 1994. Embora interpreta um personagem chamado Francesco Dellamorte neste filme, o ator Ruper Everett estava idêntico ao Dylan Dog dos quadrinhos (foto abaixo), coisa que a versão norte-americana dificilmente conseguirá fazer.


• O que eu espero: Considerando as mudanças toscas já anunciadas, espero que pelo menos o diretor consiga manter o tom sangrento e de humor negro das aventuras dos quadrinhos. E eu sei que é difícil, mas se sair algo pelo menos perto de "Pelo Amor e Pela Morte" (que também tomava muitas "liberdades poéticas" em relação aos quadrinhos, já que não era uma adaptação oficial) já está bom demais!




THOR (2010, dir: Kenneth Branagh)
Uma adaptação de um herói da Marvel com um diretor realmente decente no comando? Hmmm, a última vez que eu vi isso o resultado foi o péssimo "Hulk" do Ang Lee... Mas eu levo fé no Kenneth Branagh, que não deve ter feito nem três filmes ruins numa carreira repleta de trabalhos interessantes. Branagh, por sinal, assumiu a cadeira vaga deixada por Matthew Vaughn. Ainda não há protagonista confirmado para viver o Deus do Trovão, mas já se sabe que o roteiro foi adaptado para poder se encaixar no universo do longa-metragem dos Vingadores (previsto para 2011). Anteriormente, a trama se passava totalmente na terra mágica de Asgard, o reino dos deuses onde vive o herói. Para criar uma "ponte" com o filme dos Vingadores e trazer Thor ao mundo real, entrou no roteiro a "versão humana" do herói, o médico Donald Blake. Será que vai funcionar? Pelo menos uma coisa é certa: Branagh não é do tipo que se deslumbra com efeitos especiais (é só ver sua versão de "Frankestein"). Assim, pelo menos, não teremos um Thor lutando o tempo inteiro contra monstros de CGI em cenários criados por computação gráfica, como faria um videoclipeiro qualquer.
• O que eu espero: Um filme de super-heróis mais sério e inteligente e menos colorido e barulhento, graças à direção de Kenneth Branagh.




THE FIRST AVENGER - CAPTAIN AMERICA (2011, dir: Joe Johnston)
As primeiras notícias me deixaram apavorado (principalmente aquela que dava como certa a participação de, argh!, Will Smith no papel-título), mas ultimamente o novo filme do Capitão América é o que eu espero com mais ansiedade. Ao que parece, ao contrário daquela bomba dirigida por Albert Pyun no início dos anos 90, o filme se passará mais durante a Segunda Guerra Mundial do que nos tempos atuais, mostrando como o soldado magrela Steve Rogers se transforma no Capitão América para lutar contra o nazismo. Claro, o final deve levar o herói à época atual, também para fazer a ponte com o filme dos Vingadores (o título, "O Primeiro Vingador", já diz tudo!). O que mais me deixa entusiasmado em relação a este projeto é que não será nenhum Zack Snyder na direção, e sim Joe Johnston, apadrinhado do Spielberg que, em 1991, fez uma fantástica adaptação de quadrinhos que quase ninguém viu, "Rocketeer", que também se passava durante a Segunda Guerra Mundial.
• O que eu espero: Que o diretor Joe Johnston consiga fazer um filme mais humano e nostálgico, como já havia feito com "Rocketeer", e mais perto do clima de "Homem de Ferro" do que de "O Cavaleiro das Trevas".




THE ADVENTURES OF TINTIN - SECRET OF THE UNICORN (2011, dir: Steven Spielberg)
Como toda uma geração, eu cresci lendo as coloridas e divertidas aventuras do repórter de topete Tintin, criadas e desenhadas pelo belga Hergé. Ainda não tenho certeza se Steven Spielberg era realmente a melhor escolha para transformar os quadrinhos num blockbuster (que será feito como animação em 3D). Mas um detalhe que me deixa animado é a participação do inglês Edgar Wright (diretor de "Shaun of the Dead" e "Chumbo Grosso") como um dos três roteiristas. E dois atores-fetiche de Wright também estarão no filme, os engraçadíssimos Simon Pegg e Nick Frost, que emprestam suas vozes para os "quase gêmeos" detetives Dupont e Dumont (na versão em inglês, Thomson e Thompson). Já Tintin ficará com as feições de Jamie Bell. Boas notícias são a escolha da trama ("O Segredo do Licorne" era uma das histórias preferidas do falecido Hergé) e a presença de John Williams na trilha sonora.
• O que eu espero: Que o Spielberg não invente demais, não deixe o George Lucas sequer chegar perto do set e retorne aos tempos de "Os Caçadores da Arca Perdida", sem ser infantil demais.




PREACHER (2011?, dir: Sam Mendes)
Será que dessa vez vai? Em janeiro, a revista Variety anunciou oficialmente Sam Mendes (argh!) como diretor de "Preacher", filme baseado nos quadrinhos de Garth Ennis. Para dar uma idéia da enrolação do projeto, fala-se em adaptar o personagem para o cinema desde 2001, quando James Mardsen faria o papel-título e Samuel L. Jackson o demônio conhecido como Santo dos Assassinos. Desde então, o roteiro passou por tantas mãos, diretores e atores que parecia fadado ao limbo dos projetos problemáticos de Hollywood. Como o Constantine de Alan Moore (que foi transformado num filme bem aquém de seu potencial), "Preacher" também não é fácil de adaptar, considerando que mostra Jesse Custer, um pastor com superpoderes, caçando Deus pelos Estados Unidos, acompanhado pela namorada ninfomaníaca e por um vampiro irlandês, enfrentando adversários excêntricos como o Santo dos Assassinos, uma seita de fanáticos religiosos que protege o último descendente da linhagem sagrada de Cristo e até um rapaz deformado chamado... Cara de Cu!!! Os quadrinhos são tão violentos e amorais que eu sempre pensei que o filme era inadaptável (ainda mais em forma de blockbuster), mas a entrada do roteirista John August no projeto dá uma certa esperança, já que ele é acostumado com bizarrias (ele escreveu três longas de Tim Burton, entre eles "A Noiva Cadáver").
• O que eu espero: Na verdade, espero um desastre, ainda mais com Sam Mendes na direção. Mas a esperança é a última que morre, e creio ser mais fácil eles engavetarem o projeto pela milésima vez.



E o filme que eu gostaria de ver antes de comer capim pela raiz:


TEX WILLER
Sim, o pistoleiro implacável criado pelo italiano Giovanni Luigi Bonelli é um dos personagens de quadrinhos que eu mais gosto e religiosamente acompanho. E tem uma longevidade invejável: embora suas aventuras no Velho Oeste volta-e-meia se tornem repetitivas, a revista é publicada ininterruptamente desde 1948! Por isso é uma pena que a única adaptação cinematográfica tenha sido o fraquíssimo "Tex e o Senhor do Abismo", dirigido por Duccio Tessari em 1985. A produção era pobre, o roteiro era ridículo (baseado numa aventura mais "sobrenatural" do ranger) e o astro do spaghetti western Giuliano Gemma não convencia no papel-título. Portanto, estão devendo uma adaptação decente para todos os fãs do personagem. O filme do Tex que eu queria ver seria uma apresentação oficial do personagem, mostrando como um fora-da-lei se transforma em ranger, o início de sua amizade com o também ranger Kit Carson e, principalmente, o arco de histórias em que casa com uma jovem índia navajo, Lylith, transformando-se no "chefe branco dos índios", Águia da Noite. O filme poderia terminar com o nascimento do filho de Willer, Kit, e a morte da amada de Tex, dando o gancho para as futuras continuações. Um diretor sério e um roteirista decente poderiam fazer miséria com as aventuras do personagem, e é uma pena que ninguém mais tenha se interessado em investir no projeto, ainda mais depois do fiasco do filme anterior de Tessari.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Críticas rápidas para pessoas nervosas


SEXTA-FEIRA 13 (Friday the 13th, 2009, EUA. Dir: Marcus Nispel)
Tudo de bom e de ruim sobre este remake (ou "reinvenção") de "Sexta-feira 13" já foi dito e escrito. O novo filme, na verdade, é uma grande bobagem, tão ruim quanto os originais (que muitos insistem em tratar como clássicos que não são), embora bem menos divertido. A culpa não é exatamente do roteiro simplório, melhor que muitas seqüências oficiais da série, mas sim do diretor-anta Marcus Nispel, o mesmo que cometeu a atrocidade de refilmar "O Massacre da Serra Elétrica". Aliás, o que parece é que Nispel não saiu do set do seu remake de 2003: este novo "Sexta-feira 13" tem fotografia tão "suja" e escura quanto aquele, câmera epilética nas cenas mais legais, e o Jason bombado com esconderijo subterrâneo mais parece primo distante do Leatherface do remake do que aquele personagem legal dos anos 80. Também faz falta a seqüência de mortes exageradas dos filmes antigos, já que, com raras exceções (tipo o churrasquinho de potranca pelada no saco de dormir), é o mesmo feijão-com-arroz de sempre. E apesar de mais algumas besteiras (o xerife interpretado por Richard Burgi é desperdiçado, a maneira como Jason arranja sua máscara é ridícula, quase não há citações à colônia de férias de Crystal Lake....), pelo menos esta "reinvenção" não inventa muito (como o pavoroso "Halloween" do Rob Zombie), e entrega ao povo exatamente o que ele espera: jovens imbecis e drogados sendo esquartejados, cenas gratuitas de sexo e nudez (com gostosas de alta calibre, vale ressaltar) e uma morte a cada cinco ou dez minutos. Trocando em miúdos: é legal, mas está longe de virar clássico e perde para qualquer um dos "Sexta-feira 13" entre as partes 1 e 6.



NICK AND NORAH'S INFINITE PLAYLIST (idem, 2008, EUA. Dir: Petter Sollett)
Quem diria, o "Alta Fidelidade" para os adolescentes do século 21 funciona também para os velhos resmungões, como este que vos escreve. O simpaticão Michael Cera (de "Juno" e "Superbad") é Nick, um jovem nerd que toca numa banda formada por gays - mas é hetero, embora nunca pegue ninguém. Há meses ele levou um fora da namorada vagaba, e passa as semanas choramingando e gravando CDs com coletâneas de rock para a moça. E enquanto a ex joga os discos no lixo sem cerimônia, a tímida Norah (Kat Dennings) recolhe e escuta, fascinada pelo bom gosto musical do rapaz. É claro que os caminhos dos dois irão se cruzar numa noite de rock-and-roll, quando ambos procuram pelo "show secreto" de uma banda do momento. O mais curioso desta divertida comédia romântica é que ela vale mais pela química e pelos diálogos do casal de protagonistas do que pela história propriamente dita (que é bem fraquinha e envolve até uma amiga bêbada perdida pela cidade). A geração de jovens roteiristas contemporâneos a Diablo Cody parece estar tentando dar um toque mais emocional e humano aos seus trabalhos, que em nada lembram aquelas comédias adolescentes debilóides dos anos 90. A julgar por "Juno" e por este, vem muita coisa boa pela frente... E Michael Cera aos poucos vem se firmando como o grande pegador da sua geração, apesar da cara de panaca!



SEGURANDO AS PONTAS (Pineapple Express, 2008, EUA. Dir: David Gordon Green)
Desde aqueles velhos clássicos da dupla Cheech & Chong, muita gente tentou, mas não conseguiu, fazer filmes engraçados sobre maconheiros (os mais recentes são aquelas duas comédias fraquinhas com a dupla Harold e Kumar). Demorou, mas finalmente apareceram o Cheech e o Chong do novo milênio: em "Segurando as Pontas", Seth Rogen é um oficial de justiça que adora puxar fumo e, certa noite, testemunha uma execução na casa de um violento traficante (interpretado por Gary Cole). Perseguido pelos bandidos e pela polícia, só resta a ele fazer uma dupla improvável com seu traficante de estimação, interpretado por um impagável James Franco, e enfrentar todos os perigos - sempre completamente chapados. O filme já começa inspirado, com um prólogo em preto-e-branco mostrando testes dos militares para conhecer os efeitos da maconha; já as aventuras vividas pela dupla de doidões inclui cenas de humor negro dignas dos Irmãos Coen (a barulhenta briga na casa de um outro traficante parece saída de "Arizona Nunca Mais"). É legal ver atores como Rosie Perez, Ed Begley Jr. e James Remar numa comédia, e há diversos momentos bastante divertidos, principalmente aqueles envolvendo James Franco. Metendo ainda no balaio tiros, explosões e perseguições de automóvel, o resultado é um "Máquina Mortífera" estrelado por Cheech & Chong - sem contar que aqui existe um roteiro, e nos velhos filmes do Cheech & Chong não havia! O único defeito de "Segurando as Pontas" é esticar demais algumas cenas, provavelmente fruto do improviso dos seus astros. Mas piada enrolada demais cansa, e isso acontece também aqui, principalmente no café-da-manhã do final (uma última cena perfeitamente dispensável).



ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the Devil Knows You're Dead, 2007, EUA. Dir: Sidney Lumet)
Qualquer filme que comece com o balofo Philip Seymour Hoffman comendo a gostosa da Marisa Tomei, e de quatro, já merece virar clássico instantâneo. E esse aqui tem muitas outras qualidades: é uma daquelas obras-primas obrigatórias que quase ninguém viu nem comentou. Dirigido pelo veteraníssimo Sidney Lumet, o roteiro de Kelly Masterson narra um mesmo episódio por três pontos de vistas, indo e voltando no tempo, o que não é propriamente uma novidade - mas mostra-se um recurso eficiente quando empregado sem frescura. A história começa quando dois irmãos endividados (Hoffman e Ethan Hawke) bolam um "crime perfeito" para faturar grana fácil: assaltar a pequena joalheria do pai (Albert Finney, ótimo). O problema é que o plano simples se revela um pouquinho mais complicado, e uma série de desastres leva a família inteira rumo ao inferno. Quando você pensa que nada de pior pode acontecer, o filme surpreende com uma nova e inesperada tragédia, lembrando filmes como "Gosto de Sangue" e "Fargo", dos Irmãos Coen. A conclusão é pessimista, um soco no estômago, e nem podia ser diferente; mas o filme é fantástico como poucos.



OS ESTRANHOS (The Strangers, 2008, EUA. Dir: Bryan Bertino)
Pode um filme ser igualmente assustador e bobo, interessante e superficial? A julgar por esta estréia cinematográfica de Bryan Bertino (também roteirista), pode. Reciclando e regurgitando clichês de "pessoas normais isoladas no meio do mato e às voltas com violentos psicopatas", o marinheiro de primeira viagem consegue criar um climão de arrepiar nos primeiros 25 minutos, quando gradualmente aparecem os "Estranhos" do título, com suas máscaras inexpressivas e as piores intenções, aterrorizando o casal de namorados interpretado por Liv Tyler e Scott Speedman. Infelizmente, a trama que começava promissora logo resvala para aqueles clichês idiotas de celular sem bateria e garota que machuca o pé quando foge dos vilões - isso sem contar o fato de os dois pombinhos se separarem a toda hora, ao invés de tentar resolver juntos o problema. Mas é interessante ver assassinos mascarados que realmente assustam, principalmente por não terem qualquer motivação além da pura maldade ("Vocês estavam em casa."). Logo, eles são o principal argumento para aquilo que eu tanto reclamei no "Halloween" do Rob Zombie ou nos novos "O Massacre da Serra Elétrica": não é preciso ficar explicando a origem do Mal, e nem mostrar o que está por trás da máscara, para assustar. Pena que aqui uma boa idéia para um curta-metragem de meia hora seja esticada para quase intermináveis 1h20min... Concluindo: é bom, mas se você nunca assistir não vai perder absolutamente nada!



MARATONA DO AMOR (Run, Fatboy, Run, 2007, Inglaterra. Dir: David Schwimmer)
É até melhor do que eu esperava esta estréia na direção do ator de "Friends", Schwimmer. A trama é óbvia e o final não traz grandes surpresas, mas este é o típico filme valorizado pela presença do protagonista - no caso, o inglês Simon Pegg, de "Shaun of the Dead" e "Chumbo Grosso". Pegg tem uma cara engraçada como poucos, e é só a câmera enquadrá-lo que já dá vontade de rir. Na trama, ele é o eterno perdedor que resolve participar de uma maratona em Londres, só para tentar provar à sua ex-namorada que mudou e está mais responsável, depois de abandoná-la grávida no altar. O cínico Hank Azaria aparece como um bundão que também cobiça a moça. Não vai ser fácil, claro, e o "treinamento" do obeso, sedentário e fumante protagonista rende as melhores risadas da trama. Vale mais pelo Pegg mesmo; provavelmente não ia ter a mesma graça se fosse Adam Sandler ou Rob Schneider no papel. E o final pelo menos não tenta ser hipócrita (é claro que o molenga não vai ganhar a maratona!), dando um exemplo de superação e força de vontade. Passatempo perfeito para as tardes de domingo.



TERROR EM MERCY FALLS (Frágiles, 2005, Espanha. Dir: Jaume Balagueró)
Uma história de fantasmas curta, grossa e sem frescura assinada pelo espanhol Jaume Balagueró antes da consagração popular com "REC". Calista Flockhart (da série "Amy McBeal") é uma enfermeira chamada para o turno da noite da ala infantil de um hospital chamado Mercy Falls, que está para ser desativado. Ali, uma força sobrenatural tem espalhado o pânico entre as crianças, fazendo com que seus ossos quebrem. Investigando o mistério, a protagonista descobre que tudo pode estar ligado a uma garotinha chamada Charlotte, que foi internada no mesmo hospital na década de 50, com uma doença que deixava seus ossos extremamente frágeis. Não há grandes novidades na trama nem na forma de contá-la, mas algumas cenas são realmente arrepiantes (como as desagradáveis fraturas provocadas pela fantasma, ou as andanças por um escuro andar desativado do hospital). O mistério também rende uma bela reviravolta final, com direito a uma criatura asquerosa que parece uma espécie de treino para a menina Medeiros de "REC". Entretanto, o ritmo é lento e às vezes convida ao sono. Recomendado para quem cansou dos filmes com fantasminhas orientais.



O PANACA (The Jerk, 1979, EUA. Dir: Carl Reiner)
Nunca tinha visto este que é o primeiro filme de Steve Martin, e que a crítica costuma colocar em toda santa lista de "comédias mais engraçadas da história". Então o meu senso de humor deve ser bem diferente da crítica, pois não consegui achar graça nenhuma nesta grande bobagem, que até parece interminável. Trata-se da história de um idiota e de suas idiotices: Navin Johnson (Martin) é um branco imbecil criado por uma família de negros, que, quando adulto, resolve se aventurar pelo mundo. No percurso, se apaixona, trabalha num posto de gasolina e no circo, é perseguido por um psicopata e acaba tornando-se milionário graças a uma ridícula invenção - um grampo colocado no nariz como suporte para óculos! Parece até um precursor de outros filmes idiotas sobre idiotas, como "Debi & Lóide", mas bem menos engraçado. Até tem alguns momentos divertidos (principalmente na parte em que o personagem fica ricaço), mas é mais comum ficar com sorriso amarelo. Teve uma seqüência em 1984, "The Jerk Too", dirigida por Michael Schultz e com Mark Blankfield no lugar de Steve Martin.



JOGOS MORTAIS 5 (Saw 5, 2008, EUA. Dir: David Hackl)
Sim, eu tenho uma certa simpatia pela série "Saw", mesmo que às vezes precise fechar um dos olhos para a lógica e para a qualidade dos filmes. No caso deste quinto capítulo, entretanto, seria preciso fechar os dois olhos, então percebe-se claramente os (muitos) defeitos de um roteiro absurdo, que tenta ser surpreendente, mas na verdade só tem uma razão de existir: costurar incontáveis pontas soltas deixadas pela Parte 4, inclusive utilizando intermináveis flashbacks para tentar fazer o espectador acreditar que certo personagem (o detetive Hoffman, interpretado por Costas Mandylor) faz parte de tudo desde o início, embora só tenha dado as caras oficialmente no terceiro (e ainda pior) filme da série. Se há uma qualidade neste quinto episódio é trazer armadilhas menos absurdas que as dos capítulos anteriores (a melhor é aquela em que pobres prisioneiros precisam se automutilar para retirar o sangue necessário para a abertura automática da sua prisão). Mas não dá para engolir o fato de o grande vilão Jigsaw, morto na Parte 3, ter deixado tanta coisa preparada com antecedência, e tudo ainda funcionar como um relógio. O filme também desperdiça seu protagonista, o agente do FBI Strahm (Scott Patterson), que após escapar à la McGyver de uma armadilha mortal, tem um desfecho fuleiro e bastante previsível. Anuncia-se que a inevitável Parte 6 será a última da série. A julgar por este quinto filme, já está mais do que na hora. Aliás, seria perfeitamente possível pular direto do quarto para o sexto filme, a julgar a total falta de conteúdo deste quinto capítulo.



O ROQUEIRO (The Rocker, 2008, EUA. Dir: Peter Cattaneo)
A capinha me deixou sem qualquer esperança, mas não é que é bem divertida essa história sobre rock e sobre as tradicionais diferenças culturais entre adultos e adolescentes? O personagem principal é Robert Fishman (Rainn Wilson), um jovem adulto que se recusa a envelhecer e ficar sério. Nos anos 80, ele era baterista de uma banda que o dispensou na véspera de fazer sucesso. Nos dias atuais, ele persegue sua segunda chance de tornar-se rockstar quando o sobrinho nerd o convida para assumir a bateria de uma banda emo que formou com seus amiguinhos. É uma pena que o roteiro se acomode nas brigas entre os jovens músicos e o velho irresponsável, e prefira investir em piadas mais inocentes sobre o mundo da música - nada de sexo ou drogas, por exemplo, o que me faz ter saudade dos tempos de filmes como "Rock'n'Roll High School" e "Get Crazy". Assim, fica parecendo uma versão cômica do "The Wonders", sem tirar nem pôr. Mas Rainn Wilson está muito engraçado tentando aproveitar a vida de roqueiro como se ainda estivesse na adolescência. Outro para ver, rir e esquecer duas horas depois.



OS REIS DA RUA (Street Kings, 2008, EUA. Dir: David Ayer)
Dá pra dizer que este policial escrito por James Ellroy é uma espécie de versão gringa do fenômeno nacional "Tropa de Elite". Canastrão como sempre, Keanu Reeves é o Capitão Nascimento deles, um policial estressado da Divisão de Homicídios de Los Angeles, que prefere executar sem piedade os criminosos que cruzam seu caminho, afogando o remorso no álcool. Mas quando um ex-colega descontente com seus métodos é executado a rajadas de metralhadora, o próprio "herói" torna-se suspeito do crime, e precisa investigar por conta própria suas motivações - chegando à já batida trama de corrupção policial, aqui encabeçada por Forest Withaker. Numa época em que os filmes policiais estão cada vez mais contidos, "Os Reis da Rua" não poupa o espectador de violência explícita e cadáveres bastante detonados; nem tenta amenizar a brutalidade do personagem de Keanu, que adora sentar a mão na bandidada e chega a atirar um suspeito no arame farpado para obter informações. O roteiro só peca por deixar muito na cara o envolvimento dos colegas do "herói" no rolo, o que fica evidente desde o início – ironicamente, só o próprio detetive não vê! Mas vale só para ver o insuportável Chris Evans (o Tocha Humana dos filmes do "Quarteto Fantástico") tomar um tirambaço à queima-roupa!

domingo, 1 de março de 2009

JOHNNY MNEMONIC (1995)


"QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO? Toda minha vida eu tive o cuidado de ficar no meu canto, sem complicações. Agora, de repente, sou o responsável por toda a porra do mundo, e todos estão tentando me matar... Isso se minha cabeça não explodir primeiro! Você vê aquela cidade lá no fundo? Era lá que eu deveria estar! Não aqui embaixo com cães, lixo e essas merdas de jornais do mês passado. Me enchi deles, me enchi de você, me enchi de tudo isso! Eu quero um serviço de quarto! Eu quero um 'club-sandwich'! Eu quero uma cerveja mexicana gelada! Eu quero uma prostituta de 10 mil dólares! Eu quero minhas camisas lavadas... como eles fazem... no Imperial Hotel... em Tóquio!"

Em 1995, quando realidade virtual e internet ainda eram pura ficção científica, um filme chamado JOHNNY MNEMONIC tentou faturar em cima da estética "cyberpunk" dos romances de William Gibson - um universo então conhecido apenas por nerds, e que somente "Matrix", quatro anos depois, conseguiria transformar em "cultura pop".

Talvez JOHNNY MNEMONIC seja um filme à frente do seu tempo. Afinal, esta bizarra e sombria aventura de ficção científica parece bem melhor hoje do que na época do seu lançamento, quando foi detonada pela crítica e boicotada pelo público, quase enterrando a promissora carreira de um jovem astro chamado... Keanu Reeves! Que, por este trabalho, foi indicado ao Framboesa de Ouro de Pior Ator, depois passou um tempão estrelando porqueiras como "O Observador", e, ironicamente, voltou ao estrelato justamente ao revisitar o tema "cyberpunk" na bem-sucedida série "Matrix".


Roteirizado pelo próprio William Gibson, a partir do seu conto homônimo, este filme "quase B" (custou 26 milhões de dólares) parte de uma idéia intrigante: no ano de 2021, piratear informação é tão comum que internet e satélites não são mais confiáveis; a única maneira segura de "transportar" informação é carregar o cérebro dos chamados agentes mnemônicos com os dados em gigabytes e então mandá-los até o seu destino, incógnitos.

Pode parecer idiota, considerando que o tal agente corre o risco de sofrer um acidente no percurso e adeus informações. Mas, sei lá, soa mais seguro que o correio comum numa sociedade à beira do colapso como a que é mostrada no filme - uma sociedade extremamente capitalista e dominada por megacorporações, tipo a nossa.

Keanu interpreta Johnny, um destes agentes mnemônicos, cuja capacidade cerebral de informação é de 80 GB. Isso mesmo, igual a muitos smartphones de hoje (e insira aqui mesmo a sua própria piadinha em relação ao tamanho do cérebro de Keanu Reeves!).

Claro que o mundo de 2021 não é dos melhores: fazer implantes cibernéticos no corpo é tão comum quanto cortar o cabelo ou trocar de cueca; por outro lado, uma doença chamada NAS é transmitida através das ondas eletromagnéticas e está matando a maior parte da população mundial. Que horror, não?


A ação começa quando o pobre Johnny aceita uma "última missão" (alerta de clichê!!!): carregar dados confidenciais de uma poderosa indústria farmacêutica, de Tóquio para Newark. Ele "compacta" seu HD cerebral para poder carregar 160 GB, mas a quantidade de informação que os caras enfiam na sua cabeça chega a 320 gigas!!! Claro que isso não é nada bom: se Johnny não conseguir fazer o download dos dados em 24 horas, seu crânio vai literalmente explodir!!! Problema número 2: a Yakuza, ligada à tal indústria farmacêutica, está atrás dos dados confidenciais carregados por Johnny. E a vida do mensageiro não importa: tudo que eles precisam é da sua cabeça, e o resto que se exploda!

JOHNNY MNEMONIC tem muitos problemas que explicam a fria recepção na época do seu lançamento. Keanu vinha do sucesso de "Velocidade Máxima", e ninguém esperava vê-lo no papel de um herói desagradável e nada simpático, numa história complicada e sem humor. Embora o roteiro tente "humanizar" o agente mnemônico vivido pelo astro (o rapaz perdeu todas as memórias da sua infância por carregar mais informações no cérebro do que seria recomendável), a verdade é que Johnny Mnemonic é um herói bem diferente do usual, egoísta, insensível e sem a menor vocação para salvar o mundo - tudo que ele quer é salvar a própria cabeça.

Outro grande problema é que tudo soa bizarro demais para o público em geral, embora seja um verdadeiro deleite para quem gosta de FILMES PARA DOIDOS. A ambientação "cyberpunk", por exemplo, atropela o espectador com uma quantidade absurda de informação que não fazia muito sentido lá atrás, em 1995.


Se hoje termos como download, cyberspace e internet já são comuns até para crianças de 6 anos, é bem possível que a maioria do público tenha ficado boiando na época de lançamento do filme. Mesmo hoje, algumas operações "cibernéticas" dos personagens e certos termos técnicos utilizados parecem grego até para quem tem um mínimo de conhecimento na área.

Completando o quesito "bizarria", este é um filme não só estrelado por um herói nada heróico (o discurso do início do texto é feito pelo personagem no clímax da trama, para dar uma idéia de sua preocupação com o futuro da humanidade), mas que também conta com um assassino que usa seu chicote laser para cortar metal, pescoços e pessoas ao meio; um médico viciado em fazer implantes cibernéticos baratos em seus amigos; um golfinho que teve o cérebro modificado pela Marinha para decodificar códigos inimigos e que vive num aquário, além, é claro, de um padre psicopata, vestido como Jesus Cristo, com esqueleto biônico e uma espada em forma de cruz!!!

Para completar, JOHNNY MNEMONIC traz um dos elencos mais "diferentes" já reunidos numa produção hollywoodiana: um astro como Keanu Reeves divide a tela com roqueiros (Ice-T e Henry Rollins), com o astro oriental Takeshi Kitano e mais Dina Meyer, Udo Kier, Barbara Sukowa e, acredite se quiser, Dolph Lundgren (!!!), provavelmente no papel mais esquisito da sua carreira como o tal padre biônico assassino! O pior é que Lundgren quase rouba o filme. Inacreditável!

Obviamente, uma mistura tão estranha só pode ser apreciada por públicos bem específicos. Também não ajuda o fato de o filme ser de uma escuridão digna de Tim Burton (toda a história se passa à noite), e de ser o primeiro (e até agora único) longa-metragem de um obscuro artista plástico chamado Robert Longo, que até então só havia dirigido videoclipes do REM e do New Order e um episódio (ruim) da série "Contos da Cripta".


Contando ainda com as tradicionais e multicoloridas cenas criadas por computação gráfica para representar as viagens dos personagens pelo cyberspace (estilo "O Passageiro do Futuro"), JOHNNY MNEMONIC é o tipo de filme que você nem sabe direito como avaliar, em que idéias muito boas são jogadas lado a lado com outras completamente imbecis, e cenas bem legais (incluindo mãos e cabeças decepadas com o tal chicote-laser) são seguidas por momentos pouco ou nada inspirados (cortesia do diretor de primeira viagem).

Entretanto, várias imagens e situações seriam vistas posteriormente em outros filmes, dos sobretudos escuros que viraram mania em "Matrix" às traquitanas tecnológicas que se tornaram presença obrigatória em todo e qualquer filme sobre hackers e computadores (alguns aparelhos ligados no cérebro também lembram "Matrix"). E tem até a imagem do casal se beijando enquanto edifícios queimam no horizonte (vista depois em "Clube da Luta").

Será que estamos diante de uma obra visionária? Bem, dá para apostar que tanto o filme quanto os seus realizadores teriam muito mais sorte caso JOHNNY MNEMONIC tivesse sido lançado hoje, e não 14 anos atrás. Mas este é o preço pago por todas as obras à frente do seu tempo, como "Blade Runner", que também foi um fracasso na época de seu lançamento (1982).


Claro que seria covardia (para não dizer loucura) comparar este debut de Robert Longo ao eterno cult movie de Ridley Scott, embora ambos tenham muito em comum, da "estética" futurista à presença de um astro hollywoodiano completamente perdido no seu papel. Mas quem sabe JOHNNY MNEMONIC não seja redescoberto nos anos vindouros?

PS 1: O tradutor brasileiro que teve a genial idéia de colocar no filme o subtítulo "O Cyborg do Futuro" merecia ele mesmo um implante cibernético... no rabo! Afinal, não há um único cyborg no filme, seja do futuro ou do passado.

PS 2: A versão japonesa do filme tem 107 minutos (11 a mais que a versão original). Estes minutos adicionais dão mais tempo em cena para o personagem de Takeshi Kitano. Como o ator era muito mais conhecido no Oriente do que no Ocidente lá no ano de 1995, foram gravadas mais cenas com ele especialmente para atrair o público oriental. Não deu outra: esta versão estendida é mais respeitada (e realmente bem melhor, incluindo uma trilha sonora diferente) do que a "oficial".

Trailer de JOHNNY MNEMONIC



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Johnny Mnemonic (1995, EUA/Canadá)
Direção: Robert Longo
Elenco: Keanu Reeves, Dina Meyer, Dolph
Lundgren, Takeshi Kitano, Ice-T, Henry
Rollins, Barbara Sukowa e Udo Kier.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O dia em que QUASE conheci John Landis


Essa viagem que fiz para a Europa em janeiro foi uma viagem de "quases". Eu quase peguei o Fantasporto, famoso Festival de Cinema Fantástico na cidade portuguesa de Porto (passei por lá exatamente um mês antes do início do evento!). Eu quase dei de cara com o Jaume Balagueró e o Paco Plaza filmando as últimas cenas de "REC 2" em Barcelona (descobri tarde demais onde ficava o prédio usado para as filmagens, mas esta história eu conto numa próxima postagem). E eu quase, mas quase mesmo, conheci pessoalmente um dos meus ídolos, John Landis.

Para explicar a importância que este senhor barbudo e bonachão de 59 anos teve na minha vida, comecemos do princípio: meu interesse pelo cinema fantástico e de horror se deve a um dos seus clássicos, "Um Lobisomem Americano em Londres" (1981). Até ver esta perfeita mistura de horror, comédia, efeitos especiais e sangue na telinha do SBT, eu, então lá pelos meus 10 anos de idade, odiava (leia-se "morria de medo") filmes de terror. Com "Um Lobisomem Americano em Londres", Landis despertou o monstro que havia em mim - mais ou menos como o lobisomem que "saía de dentro" do David Naughton no filme.

E mesmo que esteja meio sumido há alguns anos (este ano teremos seu retorno com a comédia de humor negro "Burke and Hare", atualmente em pré-produção), Landis já imortalizou seu nome entre os grandes do mundo do cinema com clássicos do calibre de "Os Irmãos Cara-de-Pau" e "O Clube dos Cafajestes", e até pérolas da cultura pop como o imortal videoclip "Thriller", do Michael Jackson (sim, aquele em que o cantor dança com zumbis).

Mas vamos aos fatos: eu estava em Paris com meu irmão Goti e consegui, por acaso, um folder com a programação da Cinemateca Francesa (La Cinèmathèque Française, para os parisienses). Primeiro, fiquei louco ao descobrir que lá estava sendo realizada uma exposição sobre a vida e carreira do cineasta francês Georges Meliès (um dos pioneiros dos efeitos especiais, ainda nos tempos do cinema mudo). A exposição tinha cenários, figurinos, desenhos, câmeras, filmes... enfim, mais de 700 itens relacionados ao trabalho de Meliès, além de promover palestras e seminários sobre sua obra.

Depois, descobri que a Cinemateca tem um famoso museu sobre a história do cinema mundial, onde é possível ver peças famosas de grandes clássicos, como as engrenagens que sugam Charles Chaplin em "Tempos Modernos", a sedutora robô de "Metrópolis", de Fritz Land, e pôsteres de filmes da época.

E então veio o golpe de misericórdia: analisando a programação de filmes da Cinemateca, descobri que, entre retrospectivas dos trabalhos de Dennis Hopper, Freddie Francis e Michael Mann, e de uma exibição de "Luca, O Contrabandista", de Lucio Fulci (!!!), estava para começar um ciclo com todos os trabalhos de John Landis. E estava lá, em destaque, na programação, no dia 28 de janeiro: "Overture de la rétrospective John Landis: 'Inocent Blood', en présence du réalisateur".

Acho que nem preciso dizer que esta última frase significa "com a presença do realizador", não é mesmo?

Surtei. A exibição seria na noite do dia 28, uma quarta-feira. Então era segunda-feira, dia 26, e eu sabia que meu irmão já tinha comprado a passagem de trem para a Suíça, nosso próximo destino. Porra, para quando é que aquele desgraçado teria comprado a passagem, dia 28 ou 29?

Seguiu-se um diálogo mais ou menos assim:

- Goti, quando a gente vai pra Suíça?
- Deixa eu ver aqui... (Mentalmente, Felipe fica repetindo: "Dia 29, dia 29, dia 29!!!") Vamos no dia 28. De manhã.
- Dia 28? (Furioso) Por que não vamos dia 29?
- Mas já vimos tudo aqui em Paris, quer ficar aqui fazendo o quê?
- Tá, mas não dá para ir dia 29?
- Não dá, já comprei as passagens e a reserva do hotel aqui em Paris é só até dia 28. Por quê?
- Goti, tem certeza que não podemos ir dia 29?
- Não. Mas tu quer o quê afinal?
- (Resignado) Nada, nada...


E assim, por umas meras 12 horas de desencontro, eu não consegui conhecer pessoalmente o John Landis. Mesmo que fosse para vê-lo bem de longe, ou de relance - ainda assim eu estaria dividindo o mesmo ambiente com ele (para vocês terem uma idéia, este imenso prédio aí embaixo...).


Talvez eu devesse ter estrangulado meu irmão, rasgado as passagens já compradas para a Suíça e dito: "Nós vamos ficar aqui de qualquer jeito porque eu quero conhecer o John Landis! Essa é uma oportunidade única e não vai ser a tua mania de programar tudo com antecedência que vai me deter!".

Por outro lado, tive que reconhecer a paciência e a organização de meu pobre irmão caçula, que realmente programou tudo com perfeição e ia atrás destes detalhes burocráticos da viagem, como datas e horários de trens e aviões, enquanto eu ficava enchendo a cara e procurando DVDs baratos. Sim, eu devia isso a ele. Não podia esbofeteá-lo nem estrangulá-lo. Além disso, a culpa não era dele, mas sim da Cinemateca Francesa. Não podiam ter marcado o início da retrospectiva antes, tipo para a segunda-feira?

Já conformado em ter perdido o encontro com Landis, aumentei minha dor quando conferi o restante da programação: a retrospectiva do trabalho do cineasta se estenderia durante todo o mês de fevereiro, até 1º de março, com exibições de praticamente todas as obras do cineasta, das mais famosas às mais obscuras, como "The Kentucky Fried Movie" (que na França, estranhamente, foi rebatizado "Cheeseburger Film Sandwich"!!!) e até "Schlock", seu primeiro filme. De todo jeito, o homem em carne, osso e barba só estaria presente no dia 28.

E lembro que fiquei imaginando quando, aqui no Brasil, teríamos uma programação desse nível: uma retrospectiva da obra de um famoso cineasta, internacional ou brasileiro mesmo, com a exibição de todos os seus filmes e a presença do próprio fulano comentando seus trabalhos de antes e de agora.

No ano passado, participei da sessão de pré-estréia de "Encarnação do Demônio" em Porto Alegre, com a presença do Zé do Caixão em pessoa, mas não era a mesma coisa (alguém já promoveu uma retrospectiva completa e comentada da obra de Mojica, incluindo seus pornôs e filmes mais obscuros?). Assim, morri de inveja dos parisienses, das suas retrospectivas maravilhosamente completas e de sua maldita Cinemateca Francesa!

Para terminar este triste relato, na terça-feira, 27 de janeiro, antes da partida para a Suíça, fui tentar afogar minhas mágoas com uma visita à Cinemateca, onde pretendia pelo menos ver a exposição do Meliès e o museu com as relíquias de uma época de ouro do cinema.

E foi quando percebi que estou mesmo precisando me benzer: justamente naquele dia, o meu último dia livre em Paris, toda a estrutura da Cinemateca estaria fechada para preparar o início da Retrospectiva John Landis!!!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

ALERTA TOTAL (1997)


Quando se fala em cinema policial de Hong-Kong, os preconceituosos (aí incluídos muitos críticos e jornalistas "sérios" aqui do Brasil) já começam a pensar em tiroteios mirabolantes como os dos filmes da fase áurea de John Woo, cenas de ação absurdas ou as tradicionais e rocambolescas lutas com os atores suspensos por cabos metálicos.

Felizmente, isso é só preconceito. E filmaços como ALERTA TOTAL, de Ringo Lam, estão aí para esfregar isso na cara de quem não assiste produções orientais por considerá-las exageradas ou fantasiosas.

ALERTA TOTAL é uma daquelas desconhecidas produções do gênero feitas em Hong-Kong numa fase áurea para o cinema policial/de ação: a década de 90. No Brasil, o lançamento do filme foi ridículo e certamente apenas para aproveitar a "Woomania" (febre temporárias pelos filmes orientais do John Woo), saindo apenas naquelas velhas fitas dubladas em português. E é uma pena que obras tão interessantes permaneçam na obscuridade - caso também de "Conflitos Internos", de Wai-keung Lau e Siu Fai Mak, excelente filme policial que só começou a ganhar projeção depois de ser refilmado por Martin Scorsese como "Os Infiltrados".


Ironicamente, dada a obscuridade da produção até entre os entendidos da área aqui no Brasil, qualquer resenha estrangeira que você ler sobre ALERTA TOTAL trará elogios como "sublime" ou "quase perfeito". E acredite: não é fogo de palha.

Ringo Lam filmou-a no retorno à sua terra natal, após uma experiência traumática em Hollywood. Em 1996, como outros colegas do Oriente (e como o próprio John Woo), Lam foi "importado" para os EUA apenas para dirigir filmes de ação esquemáticos e sem maior interesse. O debut norte-americano foi "Risco Máximo", com Jean-Claude Van Damme, que nem é dos piores, mas que perde feio para o que Lam fazia em Hong-Kong (depois ele dirigiria, ainda nos EUA, os igualmente fracos "Replicante" e "Hell", todos com Van Damme).

E eis que na volta a Hong-Kong o diretor resolveu deixar de lado o show pirotécnico para concentrar-se na história e na relação entre os personagens de lados opostos da lei. Assim, surgiu um filme policial com cérebro e sentimentos, onde as ações dos personagens não são idiotas e nem "cinematográficas", e onde ninguém fica correndo sobre 100 bandidos disparando duas pistolas (por mais que isso seja bastante divertido... hehehe).

ALERTA TOTAL começa com um cadáver, já em decomposição, sendo encontrado na caixa d’água de um edifício - e o diretor não poupa o espectador de detalhes nojentos, como a informação de que vários inquilinos ficaram doentes ao beber a água "batizada". O cadáver pertence a um arquiteto que foi esfaqueado e afogado por Mak Kwan (o excelente Francis Ng, de "Infernal Affairs 2"), um jovem que trabalha com demolição na construção civil, e que de bandido não tem nada.


Investigando o crime está um policial estressado, o inspetor Pao (Ching Wan Lau, de "Máscara Negra", também perfeito). Dez anos antes da febre "Tropa de Elite", Pao já é um policial à beira de um ataque de nervos, estilo Capitão Nascimento, quase a ponto de explodir, que vê o caso do assassinato do arquiteto como um último grande caso antes de, quem sabe, pendurar as chuteiras - já que, como confidencia à esposa, passa os dias com medo de dar e de levar tiros.

Não demora para que a lei chegue a Kwan, já que, criminoso de primeira viagem, ele deixou diversas pistas no apartamento da vítima. O jovem confessa o assassinato, mas se recusa a falar sobre outras coisas que a polícia encontra em sua casa, como plantas do que parece ser um cofre e material para construção de explosivos. Tarimbado pelos muitos anos à frente da força policial, Pao sabe que Kwan está aprontando algo grande.

E está, claro. Associado a um perigoso bandido chamado Zang (Jack Kao), Kwan está tramando o "roubo perfeito": assaltar o jóquei-clube de Hong-Kong na final de um grande torneio, quando o cofre de segurança máxima está recheado com milhões em grana viva.

O local é impenetrável, mas, sendo um engenheiro e tendo estudado as plantas do local ao lado do arquiteto que assassinou, Kwan conhece o único ponto fraco da construção. E como ele está preso, seus "sócios" correm contra o relógio para libertá-lo, enquanto Pao e seus homens tentam fechar o cerco, sem saber ao certo o que a quadrilha está tramando.


Não há golpes de kickboxing em ALERTA TOTAL, nem elaborados tiroteios com dezenas de vítimas. Ringo Lam prefere centrar o foco na relação entre Pao e Kwan. Fica claro, desde o início, que ambos são bem parecidos, embora estejam em lados opostos da lei. O próprio Kwan é representado como alguém que virou criminoso por acaso: embora pareça frio e implacável, ele passa o filme com a consciência atormentada pelo único assassinato que cometeu na vida.

ALERTA TOTAL também mostra com bastante riqueza o relacionamento entre herói e vilão com os personagens secundários: a equipe de policiais e a família de Pao de um lado, os cúmplices, o irmão e a namorada de Kwan do outro. Quando Pao e Kwan se chocam de frente, os dois lados saem perdendo, levando a uma conclusão dramática e bem longe do tradicional "tudo acabou bem".

Por sinal, a impressão que fica é de que ALERTA TOTAL é uma espécie de versão oriental do clássico "Fogo Contra Fogo", de Michael Mann, com Wan Lau no lugar de Al Pacino e Ng no de Robert DeNiro. E a obra de Lam não faz feio em comparação.

Completando a lista de qualidades, o filme faz questão de mostrar a maneira como seu "herói", Pao, vai se tornando mais frio e obcecado na sua caçada, ao ponto de atingir um pedestre inocente com um tiro durante uma perseguição aos bandidos - e continuar a caçada por mais alguns minutos, sem nem ligar para a vítima da bala perdida -, ou ainda de arrebentar um dos seus desafetos a porradas quando finalmente consegue colocar as mãos nele. Como o Capitão Nascimento, Pao também passa o filme todo tomando calmantes para aliviar a tensão.


E embora não tenha nada tão mirabolante e exagerado quanto outras produções do gênero (especialmente as de John Woo), ALERTA TOTAL traz algumas cenas explosivas em seu realismo, como uma fantástica perseguição de carros (veja o vídeo abaixo) que lembra os bons tempos de William Friedkin.

Os malabarismos feitos pelos motoristas pelas ruas repletas de veículos são reais, sem CGI nem truques de câmera, o que só aumenta a tensão da cena - cujo clímax inclui carros invadindo os trilhos do trem e desviando por detalhes de um trem que vem em sentido contrário, momento que, diz a lenda, foi filmado de maneira ilegal, sem permissão das autoridades e sem que o condutor do trem soubesse. São 9 minutos de pura nitroglicerina, que deveriam deixar com vergonha os diretores destes "Velozes e Furiosos" da vida.

Logo, não deixe de garimpar sua locadora atrás desta perola. E ignore a dublagem ridícula em português. Vale a pena. Nem que seja para ver mais um filme policial sobre "crime perfeito", aqui executado com maestria e muita tensão e suspense.

A ótima perseguição de carros de ALERTA TOTAL


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Go Do Gaai Bei/Full Alert (1997, Hong-Kong)
Direção: Ringo Lam
Elenco: Ching Wan Lau, Francis Ng, Amanda
Lee, Jack Kao, Monica Chan, Kar Lok Chin,
Wing Lin Sho e Emily Kwan.