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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

EL CHARRO DE LAS CALAVERAS (1965)


Você sabe que está testemunhando um daqueles momentos mágicos da sétima arte quando topa com um filme como o obscuro western mexicano EL CHARRO DE LAS CALAVERAS, aka "The Rider of the Skulls" - em bom português, "O Cavaleiro das Caveiras". Não porque é um filme maravilhoso, nem porque é algum clássico perdido da cultura mundial, mas simplesmente porque ele resgata um tipo de mágica e de ingenuidade cinematográficas que parecem ter se perdido há décadas.

Topei com EL CHARRO DE LAS CALAVERAS por puro acaso. Estava procurando alguma outra coisa no Google e a busca indicou este filme. A descrição era fantástica: "Weirdest western ever!". Sempre pensei que o western mais esquisito de todos os tempos fosse o fantástico "Matalo", de Cesare Canevari, então resolvi dar uma conferida nesse outro. Fiquei hipnotizado.


Sabe o Dylan Dog, aquele personagem italiano de histórias em quadrinhos que investiga ameaças sobrenaturais? Pois o herói aqui, o tal "Charro de las Calaveras" do título, pode ser considerado uma espécie de avô cucaracha do Dylan Dog, igualmente combatendo monstros e fantasmas na zona rural mexicana - apesar da aparência de western, com pequenas vilas e pessoas a cavalo, o filme não se passa no século 19, mas sim numa cidadezinha dos anos 1960.

Interpretado por Dagoberto Rodríguez, El Charro é um cavaleiro misterioso, todo vestido de preto e com três crânios bordados na camisa. Esconde o rosto com uma máscara porque, segundo ele, "a justiça não tem face".


(Mais tarde descobrimos que seus pais foram mortos pelos bandidos e ele vingou-se de cada um deles, jurando sobre seus cadáveres que combateria todo o mal e injustiça do mundo. Enfim, um plágio disfarçado do Fantasma do Lee Falk, misturado com o visual do Zorro/Lone Ranger!)

O primeiro e único filme do personagem na verdade não é um filme, mas a união de três episódios de um daqueles velhos seriados exibidos nos cinemas de antigamente antes que começasse a atração principal. O cartaz anuncia até o título dos episódios: "El Lobo Humano", "El Vampiro Sinistro" e "El Jinete sin Cabeza". Assim, a cada 25 ou 30 minutos, nosso herói inicia uma nova aventura fechada e auto-conclusiva com outros personagens e monstros.


Não quer dizer, entretanto, que El Charro algum dia foi exibido como seriado. Inclusive nunca foram produzidas outras aventuras: só existem mesmo estes três episódios unidos em forma de longa. Eu li certa vez, em algum lugar, que esta prática era comum no México da época, pois havia muito mais incentivos para a produção de seriados do que para longas. Por isso, realizadores espertinhos filmavam dois ou três episódios de uma suposta futura série e depois juntavam todo o material para lançar como se fosse um único longa-metragem!

EL CHARRO DE LAS CALAVERAS começa com a viciante canção-tema do herói, cantada a plenos pulmões pelo "Trio Calaveras". Como os menestréis da Idade Média, eles celembram os feitos do personagem ("Amigo del justo / Y con los canallas / Fue por sus hazañas / Un gran paladín"), dando todo o clima do espetáculo que virá pela frente!

Cante com o Trio Calaveras



Começa então o primeiro episódio, "El Lobo Humano" (no filme, os segmentos não estão intitulados, nem há qualquer marcação entre o final de um e começo do outro, embora a transição seja perceptível). Essa primeira parte tem o objetivo de apresentar El Charro e sua origem, ao mesmo tempo em que o herói enfrenta o terrível lobisomem que está assombrando a fazenda da família Alvatierra.

Fica bem claro desde o começo que o homem-lobo é o próprio patriarca da família, Don Luis (David Silva, de "Alucarda" e "El Topo"). Afinal, ele veste uma camisa xadrez, e o lobisomem veste uma camisa xadrez também. Seria muita coincidência que ambos tivessem o mesmo alfaiate...


Ajudado/atrapalhado pelo empregado da fazenda, Cleofas (Pascual García Peña), e pelo caçula da família, Perico, o herói não consegue evitar que o licantropo Don Luis mate a própria esposa (Alicia Caro). Também não consegue dar um fim no monstro, que morre por puro acidente ao despencar de um precipício enquanto persegue o garotinho! Logo, digamos que este não é exatamente um início promissor para as aventuras de El Charro...

Por outro lado, esse episódio inicial tem um charme todo especial. Primeiro, por causa da hilária transformação de Don Luis em lobisomem (repetida umas quatro ou cinco vezes em 20 minutos): ao invés de virar lobo direto, o processo tem uma fase intermediária em que ele se transforma num esqueleto (?) e sua roupa desaparece (???), para só então virar homem-lobo, e novamente vestido!


Outro momento mágico e maravilhoso de "El Lobo Humano" é a intervenção de uma bruxa que vive num cemitério, e que lembra, inclusive visualmente, a feiticeira interpretada por Eucaris Moraes no filme de estréia do Zé do Caixão, "À Meia-noite Levarei Sua Alma" (1964).

Pois eis que a bruxa ressuscita um dos defuntos do cemitério (!), cujo caixão está enterrado numa sepultura com uns meros 5 cm de terra por cima (!!!), para contar a El Charro a identidade do lobisomem!!! Pode?


"El Vampiro Sinistro" começa logo em seguida. Com a morte de toda a família Alvatierra no episódio anterior, Cleofas passou a acompanhar El Charro como fiel escudeiro, um Sancho Pança mexicano. Após um diálogo para justificar a ausência do menino Perico ("Ele está na escola", ou algo do gênero), somos apresentados a um novo parceiro-mirim chamado Juanito, que saiu sabe-se lá de onde.

Existe uma explicação lógica para essa mudança no elenco: deve ter passado um grande período de tempo entre a filmagem do primeiro episódio e dos dois posteriores, já que a roupa de El Charro está diferente (a máscara agora cobre a cabeça toda, não apenas o rosto, e há caveiras bordadas também no peitoral da camisa). Provavelmente o garoto que participou da história anterior pulou fora do projeto e teve que ser substituído por um outro menino e um novo personagem.


Seja como for, o trio de heróis chega a uma cidadezinha que está sendo aterrorizada por um terrível vampiro daquele estilo monstruoso, à la Nosferatu (e que usa um cinto com um morcego desenhado na fivela, que parece roubado do Batman!). Eles se hospedam na casa de Maria (Laura Martínez) para protegê-la da ameaça sanguessuga, mas não adianta nada, pois o vampiro ataca uma noite e leva a garota para ser sua noiva. El Charro precisa ir até o esconderijo do vilão (um cemitério abandonado) para uma luta até a morte.

O charme deste segundo episódio é o vampirão, permanentemente imitando a pose de Bela Lugosi em "Plan 9 From Outer Space", segurando as pontas da capa como se fosse um morcego gigante. Aliás, são incontáveis as transformações do vampiro num enorme morcego de borracha, e vice-versa, através de corte seco (desliga a câmera, tira o ator, coloca o morcego, liga a câmera).


E é hilário o momento em que o morcegão de borracha, suspenso por fios de nylon, tenta entrar por uma janela: a falta de habilidade do sujeito que está manipulando o morcego é tamanha que o bicho precisar dar "marcha-a-ré" duas vezes até conseguir passar pela janela!

Enfim, sem querer spoilear a conclusão de "El Vampiro Sinistro", nosso trio de heróis está vivinho e saudável na terceira e última história, "El Jinete sin Cabeza", a melhor do filme.

Baseado no conto "A Lenda de Sleepy Hollow", de Washington Irving, mostra um terrível cavaleiro sem cabeça atacando em outra vila do interior do México, onde coincidentemente vão parar El Charro, Cleofas e Juanito.


Enquanto isso, numa cidade perto dali, a milionária Gloria Mendez (Rosario Montes) descobre, entre as quinquilharias deixadas pelo seu falecido avô, uma caixa de madeira contendo uma cabeça mumificada (!!!). A moça começa a ser aterrorizada pelo sinistro souvenir, pois a cabeça fala e exige que seja devolvida ao seu corpo. Adivinhe qual é o corpo? Bem, não é coincidência o fato de existir um cavaleiro sem cabeça aterrorizando uma vila nas cercanias...

Descobrimos que o cavaleiro na verdade é um bandidão chamado El Chacal, cuja cabeça foi decepada pelo avô de Gloria para estudos científicos. A profanação, entretanto, transformou o criminoso comum num vilão sobrenatural, auxiliado por dois mortos-vivos cujo visual lembra muito os "mortos sem olhos" daqueles filmes feitos anos depois pelo espanhol Amando de Ossorio.


"El Jinete sin Cabeza" é o melhor momento de EL CHARRO DE LAS CALAVERAS por causa das criativas trucagens utilizadas para "dar vida" ao cavaleiro decapitado e sua cabeça decepada falante. E também porque é o único dos episódios em que o herói El Charro realmente mostra serviço, travando uma feroz luta de espadas (na verdade, machetes!) com o demoníaco adversário!

(Aliás, vale destacar que quando o cavaleiro sem cabeça recupera a dita cuja, ele fica a cara do Michael Jackson versão branquela, como você pode ver na foto abaixo!)


Bem, se você aguentou até aqui, deve ter percebido que EL CHARRO DE LAS CALAVERAS é um daqueles filmes bizarros e imperdíveis que servem para matar a saudade de um tipo de cinema popularesco e amalucado que já não se faz mais - motivo pelo qual apaixonei-me pelo filme à primeira vista.

Enquanto o assistia, voltei aos meus tempos de moleque assistindo obras tão fascinantes quanto absurdamente amalucadas, tipo "Os Aventureiros do Bairro Proibido", de John Carpenter, que misturava lutadores de artes marciais com fantasmas, monstros e ninjas voadores.

Hoje, infelizmente, não há mais espaço para filmes assim. Se você pegar uma bomba como "Van Helsing", do Stephen Sommers, por exemplo, a proposta é exatamente a mesma de EL CHARRO DE LAS CALAVERAS (um herói lutando contra diversos monstros famosos), mas a execução é pífia, com um excesso de efeitos por computação gráfica que chega a incomodar o espectador.


Prefiro muito mais o clima de ingenuidade e de "fundo de quintal" do filme mexicano, em que vampiros e lobisomens andam em plena luz do dia, enquanto os personagens dizem frases como "Em algumas horas vai amanhecer" (aparentemente, os realizadores não tinham iluminação suficiente para filmar REALMENTE à noite).

Também prefiro muito mais o morcego de borracha e as máscaras de carnaval inexpressivas usadas pelo lobisomem e pelo vampiro (só os olhos se mexem) do que esses efeitos toscos e exagerados de CGI.

E no fim você não se importa com essa pobreza mambembe dos efeitos porque É A PROPOSTA do negócio: uma aventura barata, rápida, rasteira, sem muita enrolação, feita para consumo popular, sem grandes pretensões nem muitos recursos. O tipo de cinema que passava nas cidades pequenas e era ovacionado por uma platéia ávida por esse tipo de produção, décadas antes dessa Era de Multiplex e da "magia" criada por computação gráfica.


Há um irresistível charme trash em EL CHARRO DE LAS CALAVERAS. O herói, apesar da pose de fodão e do ar misterioso, é um completo desastre: nunca consegue salvar ninguém e sempre é subjugado pelos monstros, mas salvo na última hora por algum dos companheiros (geralmente o garotinho, o que torna tudo ainda mais engraçado, pois o moleque é muito melhor e mais esperto que o PROTAGONISTA DO FILME!).

E se no começo eu comparei El Charro com Dylan Dog, vale ressaltar que eles compartilham até de um alívio cômico: nos quadrinhos é Grouxo, um sósia de Grouxo Marx; aqui é Cleofas, o típico gordinho fanfarrão e medroso que só faz cagada.


EL CHARRO DE LAS CALAVERAS é o primeiro filme dirigido pelo célebre roteirista Alfredo Salazar, que faz uma ponta como a primeira vítima do vampiro. Nascido em 1922, durante quatro décadas ele foi responsável por escrever roteiros que mais pareciam histórias em quadrinhos ou "pulp fictions" (aqueles livrinhos de rodoviária), mais ou menos como o Rubens Francisco Luchetti fez aqui no Brasil (escrevendo primeiro os roteiros do Mojica, depois do Ivan Cardoso).

Salazar costumava escrever aventuras absurdas juntando criaturas fantásticas de maneira surreal, em títulos como "La Momia Azteca Contra el Robot Humano", de Rafael Portillo, "Las Luchadoras Contra la Momia", de René Cardona, e até uma versão feminina do Batman, "La Mujer Murciélago", também dirigido por Cardona.


Também foi Salazar quem mais colocou o lutador mascarado El Santo para combater ameaças sobrenaturais, escrevendo as aventuras "Santo y Blue Demon vs Drácula y el Hombre Lobo", "Santo en La Venganza de la Momia", "Santo en El Tesoro de Drácula", e muitas outras. Ou seja, o negócio do sujeito era fazer crossover entre todos esses monstros e heróis mascarados, mas sem muito compromisso com a lógica nem muita explicação (usando a velha estratégia "se colar, colou")!

Tanto que ninguém perde tempo explicando a origem do lobisomem e do vampiro em EL CHARRO DE LAS CALAVERAS, e a história por trás do cavaleiro sem cabeça é narrada em três minutinhos. Salazar joga no lixo até as convenções clássicas dos personagens, pois o lobisomem é morto sem a necessidade de balas de prata!


Roteiro e direção do filme também lembram muito uma história em quadrinhos, em seu desenvolvimento, narrativa e até composição das imagens (há uma cena em que ele mostra tiros em primeira pessoa décadas antes de isso ficar popularizado nos videogames). Salazar não enrola e dá ao público exatamente o que ele quer, inclusive repetindo numerosas vezes as cenas fantásticas (transformação de homem em lobisomem e de morcego em vampiro), mesmo que os efeitos não sejam lá grande coisa.

Salazar não é erudito, é econômico: seu vampiro não fica lamentando a vida imortal, e seu lobisomem não fica choramingando a maldição de virar fera na Lua Cheia, como é moda no cinema fantástico atual. O mais perto disso que o filme chega é no último episódio, quando o cavaleiro sem cabeça discute com Deus (!!!), reclamando que não vai descansar em paz. Ainda assim, é uma cena curta e que não está ali só para encher linguiça.


É uma pena, portanto, que esse seja o primeiro e único filme de El Charro de las Calaveras, pois, além de ser muito divertido, o personagem teria grande potencial para continuar varrendo o México de ameaças sobrenaturais. Se bem que depois de vampiros, lobisomens e mortos-vivos, não sobraram muitas criaturas poderosas para o herói detonar numa futura aventura...

Bem que alguém podia criar um "Cavaleiro das Caveiras" brasileiro, para livrar o interior do país de criaturas igualmente ameaçadoras como a Mula Sem Cabeça, o Chupa-cabras, o ET de Varginha (ou, agora, ET Bilú) e o zumbi Oscar Niemeyer!

"Aquí está el Charro / Aquí está el charro / El Charro de las Calaveras"...

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El Charro de las Calaveras (1965, México)
Direção: Alfredo Salazar
Elenco: Dagoberto Rodríguez, David Silva, Alicia Caro,
Pascual García Peña, Laura Martínez, Rosario Montes,
Carlos del Muro e Jose Luis Cabrera.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

OLHO POR OLHO (1987)


O período 1984-85 marcou uma bela safra de filmes de ação casca-grossa estrelados pelos astros daquele momento. Entre os maiores sucessos, "Braddock - O Super Comando" (com Chuck Norris), "Comando para Matar" (com Schwarzenegger) e "Rambo 2 - A Missão" (com Stallone), que viraram referência e deram origem a um festival de imitações de pouco ou nenhum brilho.

Nunca foi tão fácil fazer filmes de ação quanto nessa fase pós-Braddock-Commando-Rambo: bastava você pegar um sujeito fortinho e mal-encarado e colocá-lo para correr suado e sem camisa no meio da selva, com um montão de armas nas mãos para matar gente e explodir coisas.

E quando Norris, Schwarzenegger e Stallone não estavam disponíveis, bastava encontrar um nome alternativo para colocar como protagonista e torcer para dar certo.


Produção de 1987, OLHO POR OLHO foi justamente uma tentativa frustrada de lançar um novo astro do gênero: Martin Kove. Não funcionou, e vendo o filme dá para entender perfeitamente o porquê.

O engraçado é que, revisto hoje com outros olhos (ops, trocadilho não-intencional), OLHO POR OLHO funciona por dois outros motivos. Primeiro, é uma fantástica comédia não-intencional, quase uma sátira dos filmes de ação do período, com todo clichê possível e imaginável já visto antes nos filmes de Norris, Schwarzenegger e Stallone. Segundo, tem um elenco tão bizarro que poderia ser redistribuído atualmente como uma brincadeira para fãs de ação estilo "Os Mercenários" ou "Machete".


O fato de ter Martin Kove como protagonista e HERÓI lembra um pouco a brincadeira de Robert Rodriguez em "Machete". Afinal, assim como Danny Trejo (o astro do filme de Rodriguez), Kove até então estava marcado por papéis de vilão no cinema, entre eles o instrutor de karatê malvado da trilogia "Karatê Kid" e o piloto de helicóptero que abandona Rambo no Vietnã em "Rambo 2 - A Missão".

O público não engoliu, e apesar de ter participado de mais alguns filmes "direct-to-video" como protagonista (como "Projeto Mortal", já resenhado por aqui), Kove logo voltou ao seu posto tradicional de vilão e/ou figurante em produções cada vez mais mequetrefes.

Também como "Machete" ou "Os Mercenários", OLHO POR OLHO tem um elenco repleto de caras famosas ou conhecidas, daquele tipo que você bate o olho e diz: "Já vi ele em algum lugar". Veja só: tem Sela Ward como esposa do herói e Soon-Tek Oh como vilão (ele que já tinha enfrentado Chuck Norris em "Braddock 2"). Do lado da lei, temos Ronny Cox ("Um Tira da Pesada", "Robocop"...) e Bernie Casey (Felix Leiter em "007 - Nunca Mais Outra Vez"). Do lado dos malvados, aparecem também Peter Kwong (um dos ninjas voadores de "Os Aventureiros do Bairro Proibido"), Eric Lee (um dos heróis do mesmo filme) e Al Leong (aquele cabeludo de barbicha que é sempre o capanga do vilão em aventuras como "Duro de Matar" e "Máquina Mortífera").


É pouco? Quer mais? Então, também aparecem em estilo "piscou, perdeu" Sarah Douglas (a vilã kriptoniana de "Superman 2") como advogada, Shannon Tweed (estrela da finada Sexta Sexy) como gostosa de biquíni, e o anão Phil Fondacaro ("Bordel de Sangue", "Terra dos Mortos") como bartender. Ah, o IMDB também informa que a ex-esposa de Kurt Russell, Season Hubley (a prostituta devorada pelos canibais em "Fuga de Nova York"), também aparece no filme, mas essa eu não reconheci.

OLHO POR OLHO começa no Vietnã, nos dias que antecedem o final do conflito, e a primeira cena já mostra que é impossível levar o filme a sério: o sub-galã Kove aparece vestido e camuflado como Schwarzenegger no final de "Comando para Matar", coberto de armas e com sua cobra venenosa de estimação (!!!) enrolada no pescoço!


Após uma ação desastrosa que inclui a ameaça de ratos com granadas amarradas ao corpo (ratos-bombas?!?), o herói John Steele (Kove) e seu parceiro Lee (Robert Kim) descobrem que há um traidor no seu batalhão, o tenente Kwan (Soon-Tek Oh), que pretende aproveitar que a guerra acabou para fugir para os Estados Unidos com uma fortuna roubada.

A "discussão" termina com a dupla de heróis baleada e Kwan mortalmente ferido com a lâmina de uma baioneta. Mas é claro que ele sobrevive para infernizar o herói anos depois...

...nos dias atuais (no caso, 1987). Enquanto Steele transformou-se num veterano do Vietnã alcoólatra que não consegue parar num emprego e nem segurar a esposa insatisfeita Tracy (Sela Ward), Kwang tornou-se um milionário e cidadão respeitável, embora por baixo dos panos seja um dos grandes traficantes de cocaína dos EUA. Ele é aquele tipo de vilão de respeito que executa uma família a sangue-frio e horas depois doa milhões de dólares para a construção de um hospital.


Pois embora vivam na mesma cidade, nem Kwang nem Steele conhecem o paradeiro um do outro (aham). Seus destinos voltam a se cruzar quando o vilão ordena a chacina da família de Lee, que agora é um policial da Narcóticos. Todos são mortos, mas, para o azar dos bandidos, Steele estava na casa como convidado para o jantar, e consegue matar alguns dos capangas do vilão e proteger a filha de Lee, Cami (Jan Gan Boyd).

A partir de então, os velhos inimigos voltam a entrar em rota de colisão. Kwang insiste que precisa terminar o serviço e matar Cami a qualquer preço, mesmo que para isso precise mandar homens armados com metralhadoras para um tiroteio num hotel de luxo durante a filmagem de um videoclipe (sutileza zero).


Já Steele declara guerra a Kwang e seu filho Pham (Peter Kwong), e isso envolve entrar com a maior facilidade no arsenal de um quartel do exército (!!!) para roubar armas de grosso calibre - e até um tanque experimental!!! - para o confronto final com os vilões!

OLHO POR OLHO está repleto de todo e qualquer clichê dos "macho action films" do período. Cena inicial no Vietnã, onde começa a desavença entre herói e vilão? Confere. Herói suado e sem camisa, com faixinha amarrada na testa e camuflagem preta no rosto? Confere. Vilões vietnamitas e traficantes de drogas? Confere. Briga no bar? Confere. Interrogatório a pancadas? Confere. Briga na prisão? Confere. Fuga da cadeia vestido com uniforme do guarda? Confere. Vilão usando a amada do herói como refém? Confere. Tiroteio final num armazém abandonado perto do porto? Confere. Melhor amigo morto? Confere. Herói protegendo filho do amigo morto? Confere. Montagem de cenas do treinamento do herói ao som de uma música pop sofrível dos anos 80? Confere. Montagem de cenas em close do herói preparando suas armas para a batalha final? Confere. E por aí vai...


Enfim, é quase uma enciclopédia de clichês dos filmes de ação dos anos 80, com direito a frase de efeito no trailer e no pôster de cinema ("You Don't Recruit John Steele. You Unleash Him."), e um herói com nome curto e fácil de lembrar, Steele, que ainda por cima tem pronúncia parecida com a palavra inglesa steel (aço), o que só pode ter sido intencional.

Se isso, mais a presença de tantos atores conhecidos no elenco, já não fosse motivo mais do que suficiente para recomendá-lo, OLHO POR OLHO ainda tem outras qualidades para confirmá-lo como autêntico "Filme para Doidos".


As cenas de ação, por exemplo, funcionam, embora não tenham nada de muito espetacular. Há um montão de tiroteios, carros explodindo e um pequeno massacre no final, quando também rola uma rápida luta de espadas entre herói e vilão. Está na cara que o filme é barato, mas ainda assim com uma realização bem-cuidada, diferente de quase tudo que Kove faria depois.

Também tem momentos hilários, como quando Kwang usa a esposa de Steele como refém e o herói simplesmente responde "Ex-esposa" antes dar ele mesmo um tiro na moça (depois descobrimos que ela está bem e que o tiro foi apenas de pressão, mas mesmo assim é uma surpresa na hora em que acontece!). Ou a "auto-medicação" de Steele após ser atingido por um dardo envenenado (não pergunte...), cauterizando o ferimento com uma frigideira quente sem nem sequer fazer cara feia! Ou, ainda, a hilária cena da luta na prisão, quando Steele usa um cabo de vassoura como arma, já que algum faxineiro desleixado deixou sua vassoura abandonada EXATAMENTE na porta da cela!!!


O curioso é que Martin Kove tinha potencial para se transformar num divertido herói de ação classe B, mas desperdiçou essa sua chance de ouro por levar o papel de Steele muito mais a sério do que deveria. Na cena final, quando ele se despede do capitão de polícia (Ronny Cox, quem mais?) com um sorrisão maroto na cara, é impossível não ficar pensando que Kove devia ter feito o filme inteiro daquele jeito bonachão, ao invés de tentar "atuar" (ele saiu-se muito melhor no posterior "Projeto Mortal" como herói engraçadinho).

Para encerrar, não sei se Quentin Tarantino viu OLHO POR OLHO (e deve ter visto, porque aquele mala viu tudo), mas é muito provável que tenha se inspirado numa cena daqui. (SPOILER)Acontece que a cobra de estimação de Steele chama-se "Três Passos", porque seu veneno é tão forte que a vítima picada só consegue dar três passos antes de morrer. Dito e feito: um vilão picado pela cobra dá três passos (contados lentamente pelo herói) antes de cair estatelado no chão, exatamente como David Carradine após receber o golpe dos "cinco pontos que explodem o coração" no final de "Kill Bill - Volume 2"!(FIM DO SPOILER)


E se a carreira de Martin Kove não decolou depois dessa bagaça, tampouco a do diretor-roteirista Robert Boris. Depois desse, ele só dirigiu mais três filmes, sendo que o mais conhecido é "Frank & Jesse - Fora-da-Lei", um western de 1995 que quase ninguém viu (apesar do elenco liderado pelos famosões Rob Lowe e Bill Paxton).

Se você está com saudade daquelas aventuras toscas, absurdas e engraçadíssimas da década de 80, em que um sujeito só enfrenta dezenas de vilões e vence, sem nenhuma pretensão de ser realista ou "passar mensagem", não deixe de procurar uma cópia de OLHO POR OLHO. Ele é tudo que "Os Mercenários" quis ser e não conseguiu.

Aliás, falando nele: Ei, Stallone!!! Não deixe de convidar Martin Kove para "Os Mercenários 2"!!!


PS 1: Só para nos lembrar que essa é uma típica produções dos anos 80, temos a participação especial de Astrid Plane (vocal da banda Animotion) cantando num music video que está sendo filmado antes de um tiroteio dos diabos. Para quem não lembra da banda e nem da moça, um de seus maiores sucessos era "Obsession", que você pode ouvir clicando aqui.

PS 2: "Olho no Olho" foi o título nacional que o filme recebeu quando lançado inicialmente no país, pela Transvídeo. Anos depois, a Reserva Especial mandou-o de volta para as locadoras rebatizado como "Steele Justice - O Justiceiro".

Trailer de OLHO POR OLHO



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Steele Justice (1987, EUA)
Direção: Robert Boris
Elenco: Martin Kove, Sela Ward, Soon-Tek Oh,
Ronny Cox, Bernie Casey, Joseph Campanella,
Peter Kwong e Robert Kim.