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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ATÉ A MORTE (2007)


O tempo foi implacável com os heróis de ação dos anos 80: Chuck Norris se aposentou e virou pregador do cristianismo, Schwarzenegger largou o cinema para ser governador e Michael Dudikoff sumiu do mapa. Entre os que teimaram em seguir na ativa, apenas Stallone conseguiu manter-se "fiel às origens" ao interpretar versões envelhecidas de seus personagens mais famosos, Rocky e Rambo. Já os outros "vovôs" que ainda insistem na profissão - Dolph Lundgren, Steven Seagal e Jean-Claude Van Damme - acabaram relegados ao inferno das produções direct-to-DVD.

Se Lundgren sempre foi astro de filmes B (e às vezes vilão de "filmes A"), Van Damme e Steven Seagal tiveram trajetórias bem parecidas: ambos passaram anos ralando em produções baratas até finalmente ganhar status de astros milionários na metade dos anos 90; ambos também perderiam o estrelato na virada para o século 21, devido a escolhas equivocadas, crises de estrelismo e problemas pessoais (no caso de Van Damme, o vício em drogas).


Entretanto, ao contrário dos colegas Lundgren e Seagal, Van Damme abriu os olhos depois de fazer algumas aventuras bem baratas e descartáveis. Resolveu investir em papéis mais complicados, heróis problemáticos como ele, em produções um pouquinho mais caprichadas. Claro que exigir que Van Damme realmente INTERPRETE é um pouco demais, mas ele vem tentando, e ganha méritos por isso - ao contrário do Steven Seagal gordão repetindo pela enésima vez o papel de policial durão.

ATÉ A MORTE é um dos grandes filmes dessa nova fase do belga, e provavelmente um dos melhores trabalhos da sua carreira. É uma produção de 2007 que foi lançada em DVD no Brasil sem grande alarde e que logo acabou soterrada naqueles balaios de ofertas das Lojas Americanas. Uma injustiça.

Antes de mais nada, esqueça todas aquelas bobagens que Van Damme estrelou enquanto sua carreira seguia ladeira abaixo. Falo de "Inferno" (1999), "Replicante" (2001), "A Irmandade" (2001) e o asqueroso "Ameaça Biológica" (2002). Perto destes lixos, ATÉ A MORTE parece Shakespeare. Ou filme para ganhar Oscar.


Se estivéssemos nos anos 70, o roteiro de Dan Harris (co-escrito por James Portolese) provavelmente teria sido filmado por Sam Peckinpah, Don Siegel ou William Friedkin, já que é uma história policial crua, violenta e realista como essa trinca de mestres adorava filmar.

Ironicamente, Dan Harris nem era nascido na época dos clássicos dirigidos por esse trio: ele tinha apenas 28 anos na época das filmagens de ATÉ A MORTE, e, entre seus outros créditos, estão os roteiros de "X-Men 2" e "Superman - O Retorno".

Como o título já anuncia, o que veremos é uma história sobre extremos. Inclusive para o próprio Van Damme, aqui encarnando um personagem complexo e que passa longe dos seus papéis característicos de herói carismático e piadista.


Em ATÉ A MORTE, o belga interpreta (sem ironia) um personagem profundo e complexo. Trata-se de um agente da Divisão da Narcóticos chamado Anthony Stowe, um dos melhores homens da corporação, mas ao mesmo tempo um tira corrupto, alcoólatra e viciado em heroína. Seu principal objetivo é colocar atrás das grades um ex-parceiro de departamento e agora traficante, Gabriel Callaghan (o excelente Stephen Rea).

Em meio à caçada obsessiva, Stowe entra em rota de auto-destruição. Uma das operações da sua equipe acaba com dois agentes mortos - e tudo por culpa da impulsividade do "herói", que sai dando tiros pra tudo quanto é lado, estragando a emboscada. Isso faz com que ele perca a credibilidade no departamento, além de atrair o ódio do policial cuja namorada morreu na ação.


Além disso, Stowe se afunda cada vez mais nas drogas, e isso destrói seu casamento e o seu relacionamento com os colegas de profissão. Mas, claro, isso não o impede de continuar atrás de Callaghan.

Certa noite, completamente chapado, ele é atraído para uma cilada numa lanchonete. Após detonar vários capangas do vilão com tiros certeiros (mesmo "alto" de heroína e álcool), Stowe se dá mal e toma um balaço certeiro na cabeça. Se ele morresse, o filme seria um curta-metragem; portanto, a bala disparada por um capanga de Callaghan provoca apenas uma lesão superficial no cérebro, deixando o protagonista em coma profundo.


Durante os meses no hospital, a vida do nosso "herói" piora ainda mais: seu superior descobre evidências do seu vício em heroína, sua esposa (Selina Giles) engravida de um amante e vai morar com ele, e seu arquiinimigo Callaghan continua sua carreira de crimes, eliminando a concorrência e tornando-se cada vez mais poderoso e perigoso.

Mas eis que um belo dia Stowe acorda do coma. Suas funções motoras e seu raciocínio estão comprometidos devido à lesão cerebral, e lentamente ele precisa recuperar os movimentos e até a fala.

Ironicamente, Anthony Stowe volta à vida como um novo homem, que viu na quase morte a oportunidade de "renascer" e uma chance de redenção, de corrigir os erros do passado. Isso inclui reaproximar-se da esposa, apagar a má imagem que conquistou transformando-se num policial íntegro e finalmente deter Callaghan.


Cinéfilos acostumados ao cinema de ação casca-grossa irão perceber que o roteiro de ATÉ A MORTE lembra bastante "Difícil de Matar", produção de 1990 em que Steven Seagal interpretava um policial que também acabava em coma após um atentado e tempos depois acordava em busca de vingança.

A diferença é que ATÉ A MORTE dá muito mais destaque para o lado dramático da questão do que aquele velho filme estrelado por Seagal.

Não é novidade ver Van Damme interpretando um tipo malvadão. Afinal, ele começou no cinema como vilão russo (em "Retroceder Nunca, Render-se Jamais"), e até já interpretou um serial killer que incendiava mulheres (no péssimo "Replicante").


Entretanto, em ATÉ A MORTE Van Damme está realmente barra pesada. Além de injetar heroína a seco, nosso "herói" destrói a carreira de um policial veterano por bobagem e, num bar de quinta categoria, enraba violentamente uma prostituta.

E mesmo que não seja propriamente um Pacino ou DeNiro, o belga consegue expressar todos os demônios internos do seu personagem com uma interpretação visceral, que não é nem exagerada e nem caricatural. Ele está ótimo até visualmente, com o rosto pálido e detonado pelos excessos. Também fiquei surpreso com a maneira como Van Damme, um ator limitado, consegue convencer na composição do "antes" e do "depois" de seu personagem.


ATÉ A MORTE começa e termina a mil por hora, com muitos tiroteios, mortos e feridos, mas o miolo do filme é puro drama, quando Stowe vê-se obrigado a rever seus conceitos em busca da redenção.

Com poucos filmes no seu currículo (incluindo outro do belga, "Segundo em Comando", que é uma aventura barata e genérica), o diretor Simon Fellows sai-se bem durante a maior parte do tempo, mas infelizmente é muito burocrático na construção do vilão do filme.

Inclusive acho inadmissível que Fellows tenha à disposição um ótimo ator indicado ao Oscar, como Stephen Rea, e o desperdice num personagem completamente superficial, que poderia ser interpretado por qualquer cabeça-de-bagre - e que só aparece em meia dúzia de cenas, sempre tentando parecer ameaçador, mas sem conseguir.


O roteiro também não escapa de uma bobagem aqui e ali. O cúmulo da estupidez é o momento em que um capanga algemado prefere arrancar a própria mão a tiros para escapar (!!!), ao invés de atirar apenas na corrente da algema!

Mesmo com esses errinhos primários, Fellows mostra capricho, com vários movimentos de câmera estilosos, e certo requinte técnico nas cenas de ação. Não há nada tão fantasioso: os tiroteios são realistas e brutais, com muito sangue e câmera lenta. As lutas também são bem pé no chão, sem malabarismos exagerados, até porque Van Damme já não é mais nenhum garotão.

Aliás, o cinema contemporâneo anda tão politicamente correto e chato que não tem como não se emocionar com o herói implacável encarnado pelo baixinho belga, que dá uma banana para os direitos humanos e sai executando inimigos rendidos ou atirando nas costas de bandidos desarmados que tentam fugir.


E se ATÉ A MORTE não vai mudar a vida de ninguém, pelo menos é uma tentativa bem-sucedida de um astro decadente de tentar reconstruir sua carreira, dessa vez buscando personagens mais difíceis e elaborados, ao invés de investir no "mais do mesmo" como os colegas Seagal e Lundgren. Inclusive esse seu filme é muito melhor que qualquer coisa que Seagal e Lundgren fizeram nos últimos 20 anos.

Van Damme levou tão a sério esse "novo rumo" que sua filmografia foi ficando cada vez mais rica após ATÉ A MORTE: ele fez o originalíssimo "JCVD" (2008), em que tem coragem de brincar com a própria imagem interpretando a si mesmo; o divertido "Soldado Universal 3" (2009), novamente como um herói menos "heróico" e mais problemático; e até emprestou a voz a um personagem da animação "Kung Fu Panda 2" (2011). Ficou tão cheio de si que recusou-se a participar de "Os Mercenários", de Stallone, apenas porque seu personagem não tinha "profundidade" (mas parece que se arrependeu e estará na Parte 2, em 2012).


Finalizando, eu recomendo ATÉ A MORTE por vários bons motivos: pela história que foge da mediocridade reinante no cenário do direct-to-DVD; pela direção eficiente; pelo personagem atormentado de Van Damme e principalmente pelos esforços de atuação do belga.

Além do mais, sempre é bom ver um filme de ação e/ou policial mais realista e "pé no chão", principalmente nesses tempos de bobagens exageradas como a série "Velozes e Furiosos" ou "Duro de Matar 4". E confesso que estou acompanhando curioso todos os novos trabalhos de Jean-Claude Van Damme depois desse.

PS: O IMDB informa que existem duas versões de ATÉ A MORTE. A que foi lançada no Brasil é a versão do diretor, feita para o mercado europeu. É mais longa (107 minutos), tem uma montagem menos picotada nas cenas de ação e uma conclusão pessimista e corajosa. Nos Estados Unidos, os produtores (Millenium Films) optaram por uma versão mais convencional reeditada com a supervisão do próprio Van Damme. Ela é mais curta (101 minutos), tem edição mais frenética e o final é feliz. Não vi essa segunda versão, mas, sinceramente, duvido que seja melhor que o corte do diretor.

Trailer de ATÉ A MORTE



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Until Death (2007, EUA)
Direção: Simon Fellows
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Stephen Rea,
Selina Giles, Mark Dymond, William Ash, Stephen
Lord, Gary Beadle e Adam Leese.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

DEUS OS CRIA... EU OS MATO! (1968)


E hoje o FILMES PARA DOIDOS traz mais um western spaghetti, porque a última resenha de filme do gênero foi publicada há quase um ano ("O Dólar Furado", em setembro de 2010). Para compensar a ausência dos cowboys da Terra da Bota aqui no blog, nada melhor do que falar um pouco (ou um muito) sobre um dos meus westerns preferidos: DEUS OS CRIA... EU OS MATO!

Começo explicando que esse filme não é um clássico do gênero, nem tem nada muito diferente de outros tantos westerns produzidos na Itália naquele período. Por que, então, é um dos meus preferidos entre tantos outros melhores?


Em primeiro lugar, pela nostalgia. Foi um dos primeiros westerns italianos que eu assisti, numa sessão de filmes de bangue-bangue que a Bandeirantes exibia semanalmente no começo da tarde, logo depois do almoço (alguém lembra o nome disso?).

Em segundo lugar, porque na minha modesta opinião esse western tem um dos melhores títulos da história do cinema: como resistir à tentação de ver um filme chamado DEUS OS CRIA... EU OS MATO!, mesmo sabendo que ele não tem nenhuma relação com a história?

E em terceiro lugar... Bem, eu já chego lá!


Dirigido por Paolo Bianchini em 1968, DEUS OS CRIA... EU OS MATO! traz o cantor de rock norte-americano Dean Reed no papel de um caçador de recompensas chamado Slim Corbett. Ele é contratado pelas lideranças de Wells City, uma pequena cidade na fronteira com o México, para desbaratar uma misteriosa quadrilha que tem esvaziado o banco local com bastante regularidade, sempre fugindo sem deixar pistas.

O espectador já sabe desde cedo que os responsáveis pelos crimes são o xerife de Wells City, Lancaster (Piero Lulli, de "Mata, Bebê, Mata"), e um poderoso fazendeiro mexicano da região, Don Luis (Pietro Martellanza, de "A Cruz dos Executores"). Para que o recém-chegado Corbett não mele a lucrativa parceria, eles resolvem incriminá-lo. Só que o herói foge da cadeia para um sangrento acerto de contas.


À primeira vista (ou lida), a trama do filme não tem nada de novo ou revolucionário, certo? Então o que faz de DEUS OS CRIA... EU OS MATO! um faroeste tão memorável para que eu o inclua entre os meus preferidos do gênero, além do fator nostalgia e do título, já citados?

Vamos por partes: o roteiro é de Fernando Di Leo, um dos grandes roteiristas do faroeste italiano - ajudou a escrever "Por um Punhado de Dólares" e "Por uns Dólares a Mais", embora não tenha recebido crédito -, que depois mostraria muito talento também no cinema policial (escreveu "Uomini si Nasce, Poliziotti si Muore", de Ruggero Deodato, e dirigiu "La Mala Ordina" e "Milano Calibro 9").


Pois Di Leo deu um ar absurdo de história em quadrinhos a uma trama originalmente chinfrim, fazendo com que DEUS OS CRIA... EU OS MATO! às vezes pareça uma sátira do gênero, embora seja um filme "sério" a maior parte do tempo.

Slim Corbett, o herói interpretado por Reed, certamente é um dos personagens mais excêntricos do western spaghetti - e olha que estamos falando de um ciclo de filmes que deu origem a todo tipo de herói bizarro, como Django, Trinity, Sartana e Aleluia!

Diferente de seus "colegas de tiro", sempre homens durões e de poucas palavras, sujos, vestindo roupas em farrapos e com barba por fazer, Corbett é um verdadeiro almofadinha, que se veste com trajes sob medida feitos pelos melhores alfaiates com os melhores tecidos, carrega maletas feitas de "tapeçaria francesa", come ostras, tem uma afeminada charrete com bar embutido (!!!) e é um exímio dançarino de valsa.


Se sujeitos como Django ou o Homem Sem Nome que Clint Eastwood interpretou na Trilogia do Dólar falam muito pouco, e apenas o necessário, Corbett não pára de falar um minuto sequer; e enquanto seus colegas estão sempre sérios e carrancudos, nosso herói vive com um sorriso estampado na sua carinha lisa de bunda-de-bebê...

Entretanto, é só os revólveres começarem a cuspir chumbo para Corbett mostrar que, apesar desse jeitinho um tanto "suspeito" para o período, é um pistoleiro tão bom quanto os anteriormente citados. Às vezes até mais cruel, já que tem o costume de executar inimigos desarmados e até atirar pelas costas! Portanto, embora pareça uma sátira aos cowboys bonitões e bem arrumadinhos dos faroestes norte-americanos, o personagem não brinca em serviço quando saca a arma.


(Confesso que já fiquei imaginando um encontro de Slim Corbett com um desses pistoleiros durões tipo Django. Quem sacaria primeiro? Talvez Corbett fosse alvo fácil ao demorar muito para atirar porque estava ocupado arrumando o cabelo. Por outro lado, imagino o rival morrendo de rir das frescuras de Corbett e virando alvo fácil do pistoleiro mauricinho. Taí um duelo que eu queria ver...)

E não pára por aí: DEUS OS CRIA... EU OS MATO! também tem um ótimo vilão de história em quadrinhos, o tal Don Luis, que, como Zorro, ostenta o sobrenome "de la Vega". Martellanza (usando o pseudônimo Peter Martell) está a cara do Kevin Kline, e parece se divertir muito como ricaço sádico que leva sempre consigo uma bengala cheia de gadgets escondidos (isqueiro, punhal retrátil na ponta...), e tem como capanga, acredite, um anão bom de tiro!


Aqui entre nós, não parece um filme do James Bond situado no Velho Oeste? Pois eu acho que é por aí mesmo. Inclusive Slim Corbett antecipa o 007 de Roger Moore em cinco anos (já que a primeira aventura do inglês como Bond foi "Com 007 Viva e Deixe Morrer", de 1973).

Dean Reed não só é muito parecido fisicamente com Roger Moore, como ainda demonstra certas peculiaridades que caracterizariam o Bond do ator inglês anos depois, como as tiradas bem humoradas e o ar bonachão ao mesmo tempo em que é frio e fulminante com os inimigos quando necessário.

Numa cena, por exemplo, o pistoleiro enfrenta quatro valentões, e, embora apenas um deles saque seu revólver, Corbett simplesmente executa todos a sangue-frio, mesmo aqueles que estão desarmados! Em outra, diz para três capangas do vilão levarem um recado seu para o patrão. Então corrige: "Pensando melhor, só um de vocês pode levar o recado", e mata os outros dois sem cerimônia!


Para ficar ainda mais parecido com um 007 do Velho Oeste, Slim Corbett também passa a maior parte do filme seduzindo a mulherada (ele traça umas quatro ou cinco, e toda garota que cruza seu caminho se apaixona na hora, como acontece com as "bond girls"). Perto do final, protagoniza até uma daquelas "cenas de cassino" tão comuns nas aventuras de James Bond, quando o herói joga pôquer com o grande vilão!

(A destacar: uma das "bond girls", ou "corbett girls", é a linda de rosto e de nome Linda Veras, que também apareceu nos westerns "Face a Face" e "Corri Uomo Corri", de Sergio Sollima.)


DEUS OS CRIA... EU OS MATO! foi belissimamente fotografado em widescreen por Sergio D'Offizi, que depois trabalhou com Lucio Fulci e Ruggero Deodato (foi o diretor de fotografia do clássico "Cannibal Holocaust").

D'Offizi ajudou o diretor Bianchini a conseguir alguns inusitados ângulos e movimentos de câmera, mas é claro que torna-se obrigatório ver o filme na sua versão original. Quem lembra dele da TV, ou das fitinhas VHS em tela cheia, precisa revê-lo em widescreen, pois a fotografia perdeu muito com aqueles cortes laterais da TV e do VHS.


Milagrosamente, o DVD lançado no Brasil pela Ocean está em widescreen. Entretanto, a distribuidora cometeu duas heresias imperdoáveis: mudou o maravilhoso título original para um absurdamente genérico ("Sua Vida Me Pertence"), e colocou um selinho com o logotipo da empresa aparecendo no canto da tela a cada 15 minutos, como se fosse um filme gravado da TV (sinceramente, o que esses caras têm na cabeça quando fazem tais idiotices?). Por conta disso, eis mais um título para a gigantesca lista "Melhor baixar do que comprar"!

Pesquisando enquanto me preparava para escrever esta resenha, descobri que o galã Dean Reed era um cantor de baladinhas muito popular nos anos 60 (não sabia disso, e ele também canta a música-tema do filme, "God Creates Them, I Kill Them"). O curioso é que as suas canções faziam muito mais sucesso fora dos Estados Unidos: consta que, na América do Sul, ele era mais conhecido que um certo Elvis Presley (até apresentava um programa de TV em Buenos Aires). Seu grande hit por aqui era "Our Summer Romance".


Porém, na metade dos anos 60, certas atitudes "humanitárias" do músico, como cantar gratuitamente em bairros pobres e presídios ou participar de protestos anti-guerra, deram-lhe fama de comunista. Reed foi deportado da Argentina em 1966 e acabou em Roma, onde virou astro de westerns a partir de 1967 (antes só tinha feito alguns musicais).

No livro essencial "Dizionario del Western All'Italiana", o autor Marco Giusti entrevistou o diretor Bianchini, e este lembrou-se de uma história fantástica: numa folga das filmagens de DEUS OS CRIA... EU OS MATO!, ele e Reed foram para o centro de Roma participar de um dos primeiros protestos anti-Guerra do Vietnã realizados no país. Pois ambos acabaram presos! Enquanto o ator saiu da cadeia rapidinho, por ser americano e muito mais famoso, Bianchini teve que amargar quase uma semana no xadrez antes de ganhar a liberdade e voltar ao trabalho!


Reed construiu uma sólida carreira com músico, ator e até diretor na Europa. Mas sempre lamentou o fato de ser praticamente desconhecido nos EUA, onde ainda era acusado de ser comunista (chegou a escrever uma canção chamada "Nobody Knows Me Back in My Hometown").

Em 1985, começou a cogitar um retorno oficial à América, e anunciou que seu próximo projeto seria dirigir um filme sobre a Guerra Fria. Em 13 de junho de 1986, uma semana antes do início dos trabalhos, Reed foi encontrado morto num lago próximo à sua casa, em Berlim. A versão oficial foi suicídio, mas os familiares juram que ele foi morto numa conspiração envolvendo a KGB (o serviço secreto soviético)!


Enfim, a vida de Dean Reed (sobre a qual eu praticamente não sabia nada até escrever esta resenha, confesso) é tão interessante que Tom Hanks já cogitou dirigiu um projeto chamado "Comrade Rockstar", sobre a carreira do cantor-astro de western spaghetti!

Fofocas à parte, DEUS OS CRIA... EU OS MATO! é uma bela recomendação para todo fã de western spaghetti, e mesmo para quem não tem muita familiaridade com as produções do ciclo e quer começar por algum lugar. Embora o início seja meio lento, com excesso de papo furado, o ato final reserva muita ação e violência, inclusive um grande massacre na fortaleza do vilão, com direito ao belo tiroteio entre Corbett e Don Luis.


Finalizando, anuncio que gosto tanto do título deste western que batizei com esse mesmo nome o meu sonhado roteiro de um faroeste sul-brasileiro, cuja trama se passa na época da imigração italiana no Rio Grande do Sul. É um projeto que tento viabilizar há uma década e que espero um dia conseguir tirar do papel.

E se o Tarantino pôde se apropriar do título de um filme de Enzo G. Castellari ao fazer "Bastardos Inglórios", eu faço questão de homenagear o western spaghetti em geral pegando emprestado esse belíssimo título DEUS OS CRIA... EU OS MATO! Com o diferencial que, no meu roteiro, a frase tem mais relação com a trama do que aqui.

PS: O diretor de segunda unidade é Tonino Ricci, que a partir do ano seguinte (1969) começaria a dirigir suas próprias obras. Ricci assinou algumas tranqueiras divertidíssimas, como o filme de monstro "Pânico", com David Warbeck e Janet Agren, e a aventura "Thor, o Conquistador", uma das muitas cópias italianas de "Conan".

Trailer de DEUS OS CRIA... EU OS MATO!



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Dio li Crea... Io li Ammazzo! /
God Made Them... I Kill Them (1968, Itália)

Direção: Paolo Bianchini
Elenco: Dean Reed, Pietro Martellanza (aka Peter
Martell), Piero Lulli, Agnès Spaak, Linda Veras,
Ivano Staccioli e Fidel Gonzáles.