WebsiteVoice

terça-feira, 14 de junho de 2011

DOLLMAN - 33cm DE ALTURA... E ATIRA! (1991)


Imagine se, durante as filmagens de seu clássico "Stallone Cobra", o galã Sylvester Stallone acidentalmente entrasse no set de "Querida, Encolhi das Crianças". E, para não perder o dia de gravação, o malucão da Troma Lloyd Kaufman fosse chamado para dirigir algumas cenas com o Cobra em miniatura enfrentando bandidos gigantes.

Se você conseguiu visualizar alguma besteira parecida, certamente terá chegado bem perto do que é DOLLMAN - 33 CM. DE ALTURA... E ATIRA!, um delicioso e irresistível trash movie lançado em 1991 pela produtora Full Moon - aquela por trás de outros cults direct-to-video da década de 90, incluindo as franquias "Puppet Master" (com bonequinhos assassinos) e "Subspecies" (com vampiros e peitos de fora).


DOLLMAN (vamos esquecer o subtítulo brasileiro HORROROSO com seu trocadilho pra lá de infame a partir de agora) é um daqueles filmes que parecem rir da cara do espectador o tempo todo. Mesmo assim, você simplesmente não consegue desligar o videocassete e parar de ver – outro "Filme para Doidos" com direito a medalha de honra!

Tim Thomerson, um dos atores mais cool do cinema classe B (como é que Quentin Tarantino ainda não o convidou para um de seus filmes?), interpreta seu milésimo papel de tira durão, desta vez um policial alienígena (!!!). Após 20 minutos em seu planeta-natal, Arturos, o herói acaba na Terra, onde, e aí está a grande piada, tem apenas 33 centímetros de altura em relação a nós, seres humanos normais!!!
 

Charles Band, o homem por trás da Full Moon, parece ter alguma tara sexual por miniaturas, já que muitos de seus filmes trazem criaturinhas animadas em stop-motion (os brinquedos de "Puppet Master", "Demonic Toys", "Dolls" e outras podreiras, os diabinhos da franquia "Subspecies", os humanos reduzidos de "O Alien do Mal", as pequenas cabeças encolhidas de "Cabeças Voadoras", e por aí vai...).

DOLLMAN tinha tudo para ser uma das grandes realizações de Band; uma aventura trash onde o policial intergaláctico passaria o tempo todo encolhido e andando pelos cenários "gigantescos" da Terra, enfrentando ameaças como bandidos gigantes (para seu padrão de altura, é claro) e até insetos e ratos – para o tamanho do herói, verdadeiros monstros!


Mas se no papel a ideia é boa, a execução não é lá essas coisas: graças ao orçamento com tamanho digno do personagem-título e à realização tosca, praticamente improvisada, o espectador só consegue enxergar um Tim Thomerson "em tamanho real" zanzando pelo cenário, raras vezes passando a impressão de ser uma criaturinha de 33 centímetros!

Inicialmente, o projeto foi idealizado como uma cópia trash de "Querida, Encolhi as Crianças", blockbuster dos Estúdios Disney lançado em 1989 (e que gerou diversas sequências e imitações). Band imaginava Tim Thomerson como um cientista às voltas com os problemas de ficar encolhido em nosso mundo cotidiano. O personagem só se transformou em policial durão quando entrou no projeto o cineasta maldito Albert Pyun, que assumiu o controle da película.


O havaiano Pyun virou cineasta de culto nas últimas décadas, mas na época era um nome polêmico (para ser educado) que intercalava grandes filmes hoje lembrados como diversão pura (tipo “Cyborg – O Dragão do Futuro”, “Jogo de Assassinos” e “Nêmesis”) com bobagens como a primeira adaptação cinematográfica pobretona de “Capitão América” – aquela do escudo de plástico e do Caveira Vermelho italiano!

Quando acerta o alvo, Pyun entrega filmes no mínimo muito divertidos. Quando erra, entretanto, erra feio. DOLLMAN caminha perigosamente na tênue linha entre uma coisa e outra. Mas enfim, foi o cineasta quem surgiu com a idéia de transformar o "personagem encolhido" em tira alienígena ao invés de cientista humano, como queria o produtor Band.

Pyun uniu-se aos roteiristas Chris Roghair (em seu único crédito cinematográfico) e David Pabian (não-creditado, autor de "Puppet Master 2" e "Subspecies 1") para criar uma aventura maluca que começa muito bem, mas não demora a degringolar. Como os caras estavam trabalhando com orçamento de salário mínimo, nunca saberemos se algumas das “escolhas” da direção não foram meros sacrifícios impostos pela falta de dinheiro.


Mantendo uma bizarra característica da sua obra, também foi Pyun quem batizou o personagem-título como Brick Bardo ("Dollman", ou "Homem-Boneco", é apenas um apelido). Trata-se de uma homenagem a um amigo do cineasta, o cameraman Joseph Bardo, cujo apelido era "Brick". Curiosamente, tal homenagem já havia sido feita em outros filmes de Pyun - existem "Brick Bardos" em "Viagem Radioativa", "Uma Estranha em Los Angeles", "Nemesis 3", "Cyborg - O Dragão do Futuro" e outros.

"13 polegadas [33 cm.] com atitude", diz a frase no cartaz original de DOLLMAN, que começa a 10 mil anos-luz da Terra no tal planeta Arturos. Ali vive uma sociedade tecnologicamente avançada, com naves espaciais e carros voadores, mas todo o resto é igualzinho à Terra (provavelmente por questões orçamentárias). Os políticos continuam corruptos, a TV é sensacionalista, os policiais são violentos, a criminalidade é alta e até mesmo as roupas e gírias são as mesmas - e uma cena importantíssima acontece dentro de uma lavanderia igualzinha àquelas que pipocam nas ruas dos Estados Unidos!


Na cena inicial, que parece ter saído diretamente de "Stallone Cobra", um assaltante de banco psicótico (Frank Doubleday) foge da polícia e invade a supracitada lavanderia, pegando um montão de gordas e seus filhos gordinhos (!!!) como reféns. "Se tentarem entrar aqui vão encontrar um monte de banha espalhada pelas paredes!", ameaça, comprovando que "politicamente correto" passava longe na época.

A lavanderia é cercada, a polícia não sabe o que fazer e o prefeito sugere que se negocie com o refém para evitar problemas, pois, como acontece também por aqui, é "ano de eleição". Mas eis que entra em cena nosso herói, Brick Bardo (Thomerson com sobretudo e óculos escuros, apesar de ser noite!!!). Os superiores discutem que Bardo está suspenso por sua truculência, que é para ele ficar longe da cena do crime, bla bla bla.

Sem dar ouvidos, o herói entra tranqüilamente na lavanderia e, diante do olhar surpreso e estupefato do assaltante e dos reféns, simplesmente começa a lavar sua roupa!!! Quando o criminoso reclama e exige que Bardo saia do local, o herói saca sua arma - chamada Kruger Blaster, "a arma mais poderosa de todo o Universo" -, aponta para a fuça do bandido pé-de-chinelo e diz, com toda a calma do mundo: "Um de nós vai ter que sair, e eu já coloquei moedas na máquina". Genial!


Em seguida, entra em cena um velho inimigo do herói à procura de vingança. Trata-se de Sprug (Frank Collison). Outrora um vilão normal, Sprug teve vários encontros anteriores com Brick Bardo, e em cada um deles o policial sempre explodia uma parte de seu corpo. Por isso, o malvado acabou reduzido a uma mera cabeça que voa com um par de foguetes de propulsão atados ao pescoço!

Sprug quer vingança do herói e de todo planeta: quer explodir a chamada "bomba de fusão dimensional" e reduzir Arturos a cinzas. Mas é claro que o tira espacial não planeja deixar aquilo passar em branco: após massacrar os capangas do bandidão (espere só para ver a cena em câmera lenta do pistoleiro virando picadinho), ele persegue seu arquiinimigo pelo espaço, num duelo de naves espaciais.


Se DOLLMAN seguisse nessa linha, seria um clássico instantâneo. Infelizmente, é aqui que se encerra a melhor parte do longa. A exemplo do que a Cannon Films tinha feito anos antes, ao transferir a narrativa de "Mestres do Universo" para a Terra apenas porque seria mais barato, o longa de Pyun também mostra os personagens deixando Arturos e atravessando uma misteriosa "faixa de energia" para cair na Terra.

A partir daí, o filme perde parte do seu charme, exagero e senso de humor (ou de ridículo). Por algum misterioso motivo, Pyun e seus roteiristas Roghair e Pabian "esquecem" que o projeto que eles têm nas mãos é uma bobagem e começam a levar a coisa mais a sério do que deveriam. Eles tentam passar uma mensagem de CRÍTICA SOCIAL dentro de uma aventura trash sobre um policial alienígena em miniatura!

Assim que Bardo e Sprug chegam à Terra, eles acabam no bairro pobre e violento de South Bronx. Uma colagem de imagens mostra flagrantes da miséria urbana, como prostitutas, tráfico de drogas, mendigos pelas ruas, um assalto a uma loja de conveniência, guerra de gangues.

É como se, de repente, aquela produção bagaceira da Full Moon se transformasse num filme de Spike Lee! "O Milagre Veio do Espaço", de Matthew Robbins, outra sci-fi com aliens em miniatura e "consciência social", veio logo antes e pode ter inspirado os realizadores. A diferença é que o longa do Robbins foi produzido pelo Spielberg e o dinheiro investido aparecia na tela; aqui, em compensação...


O roteiro então apresenta seus personagens "humanos". A principal é Debi Alejandro (Kamala Lopez), viúva que perdeu seu marido numa guerra de gangues, e que agora tenta transformar o bairro num lugar mais seguro para criar seu filho Kevin (Humberto Ortiz). Só que ela está na mira do poderoso e violento Braxton Red (o hoje celebrado Jackie Earle Haley).

Os brasileiros praticamente desconhecem a carreira pregressa de Haley, que foi um astro mirim dos anos 1970 que caiu em decadência quando adulto. Hoje ele certamente tenta riscar do seu currículo o fato de ter sido vilão num trash como DOLLMAN, ainda mais depois de ter concorrido ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo seu desempenho em "Pecados Íntimos", de Todd Field. em 2007, e de ter participado de blockbusters como "Watchmen".

(Se bem que sua participação ridícula no remake de "A Hora do Pesadelo" é muito, mas muito pior do que seu papel aqui no filme de Albert Pyun...)


É óbvio que o valente Brick Bardo vai abandonar sua pequena nave para disparar tiros de super-arma na bandidagem, protegendo Debi dos "vilões gigantes" do planeta Terra, enquanto dispara reclamações como "I hate fucking giants!".

Aliás, algumas das melhores cenas de DOLLMAN só funcionam graças à presença de Tim Thomerson no papel-título. Fosse qualquer outro ator interpretando Brick Bardo, o filme não teria nem metade da graça. Thomerson está perfeitamente tranqüilo no papel, bem humorado e cínico, consciente da bobagem em que está metido. Claro que também podemos considerar que o ator está simplesmente repetindo seus trejeitos como Jack Deth na série "Trancers" (igualmente produzida pela Full Moon). Mas o caso é que funciona.


Mantendo permanentemente a expressão de quem está puto com a vida, e odeia ficar perdido num mundo esquisito entre aqueles "gigantes", Bardo chama crianças de "piece of shit", se enfurece ao ser tratado como brinquedo e resolve descontar a raiva nos pobres bandidos, que comem o pão que o diabo amassou nas mãos do pequeno herói e sua pistola.

DOLLMAN tem ainda um hilário diálogo repleto de fucks que só deve existir como citação ou paródia ao "Scarface" de Brian DePalma (supostamente no Livro dos Recordes pelo número de vezes que o palavrão é usado). Pois aqui, num único diálogo, um bandidão larga isso: "What the fuck are we fuckin' waitin' for? I mean, fuck this shit! Fuck man, the fuckin' set-up is fucked up! The little fucker knows what kind of fuckin' shit is waiting here to fuck him up! So lets get the fuck out of this fuckin' deal and go lookin' for the tiny motherfucker!!!".


Apesar dessa meia dúzia de momentos divertidos e da ideia tão ridícula quanto impagável, DOLLMAN é um filme muito longe da perfeição. A Full Moon é popular pelos seus efeitos bagaceiros em stop-motion. Ainda assim, eles evitaram usar efeitos em stop-motion nas cenas de ação deste filme.

Devido à produção barata, raramente vemos o herói em contraste com algo "de tamanho normal"; o diretor prefere mostrar todas as cenas de Bardo em close e, com truques simplórios de fotografia (como posicionar a câmera de cima para baixo), o espectador é obrigado a engolir que Tim Thomerson está "encolhido", o que nem sempre funciona.

Seria legal ver o ator interagindo com ratos ou insetos através de efeitos em stop-motion, mas nas duas cenas envolvendo animais o ator sequer chega a dividir o mesmo quadro com os bichos, e a edição apenas intercala sem muita criatividade takes de um e de outro (algo que de fato deve ter saído mais barato).


Nem mesmo cenários em escala "gigantesca" foram construídos para que Thomerson pudesse atuar – numa cena em que ele caminha por um terreno baldio, vê-se claramente que a grama e as capoeiras no chão têm o mesmo tamanho que ele, quando deveriam ser maiores em relação ao miniaturizado Brick Bardo. Logo, é uma pena que o filme tenha um personagem em miniatura e raramente explore este fato.

O sonho do produtor Charles Band era transformar as aventuras do minúsculo tira espacial em mais uma interminável e bem-sucedida franquia da Full Moon - afinal, a série "Trancers" sempre foi um sucesso cult nos Estados Unidos e chegou ao seu sexto filme.


Só que DOLLMAN não vingou, mesmo com Band teimosamente incluindo o personagem em outros dois filmes (ele aparece no epílogo de "O Alien do Mal", de Ted Nicolaou, e num crossover com outra franquia da Full Moon, no divertido "Dollman Contra os Brinquedos Diabólicos", de 1993, dirigido pelo próprio Band e bem melhor que esse seu filme de estréia!).

"Eu sempre achei uma vergonha o fato de Dollman ter aparecido em apenas dois filmes, ou três", lamentou o produtor numa entrevista a um site de cinema fantástico. "Ele era um ótimo personagem, no topo da minha lista, e eu adoraria trazê-lo de volta. Claro que agora eu teria que encontrar um novo ator... Mas ele é um grande pequeno personagem, que funciona bem na dimensão de brinquedos e bonecos que eu criei".

Já o diretor Pyun não guarda boas recordações de DOLLMAN, alegando que o orçamento da produção era menor que o próprio Brick Bardo! "Foi uma filmagem difícil, porque não havia dinheiro", confessou na entrevista a um site. "Charlie [Charles Band] é um cara muito legal, mas as severas restrições orçamentárias foram um desafio muito grande, mesmo para uma produção de apenas 12 dias de filmagem. Foi uma filmagem muito tensa com uma equipe muito decepcionada".


Entre mortos e feridos, DOLLMAN - 33 CM. DE ALTURA... E ATIRA! (ah, este maldito subtítulo nacional...) sobrevive no imaginário popular como um daqueles trash movies impagáveis que você pode até odiar, mas com certeza vai comentar por muito tempo com os amigos – e, daqui há uns 10 anos, vai se pegar pensando: "Como é mesmo aquele filme do policial alienígena em miniatura que mata traficantes no planeta Terra?".

É mais um daqueles filmes perfeitos para assistir bêbado ou chapado, e que por isso só pode ser indicado para pessoas com um senso de humor muito, mas muito peculiar.

Pois estes, e só estes, não irão desligar a TV na cena em que uma amiga de Debi solta a pior frase do filme inteiro: "Bem que eu gostaria de ver um homem de 33 centímetros...".

E ainda dizem que tamanho não é documento!


Trailer de DOLLMAN


*******************************************************
Dollman - 33cm. de Altura... e Atira! (Dollman, 1991, EUA)
Direção: Albert Pyun
Elenco: Tim Thomerson, Jackie Earle Haley,
Kamala Lopez, Nicholas Guest, Frank Collison,
Frank Doubleday e Vincent Klyn.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

WET WILDERNESS (1976)


Até a década de 1960, filmes sensacionalistas sobre sexo (os famosos "sexploitation") limitavam-se a produções baratas e quase inofensivas com mulheres nuas e cenas implícitas, até bem comportadas. Eram os chamados "nudies". Porém, já a partir da metade desta década - em grande parte por causa da sensação "the dream is over" provocada por desgraceiras como a Guerra do Vietnã -, os nudies deram lugar aos "roughies", filmes mais sérios e pesados que mostravam, sem pudor, cenas de violência contra mulheres, geralmente envolvendo sequestro, estupro e assassinato.

Diretores famosos como Russ Meyer, Herschell Gordon Lewis e Wes Craven dirigiram seus próprios roughies - respectivamente "Lorna" (1964), "Scum of the Earth" (1963) e "Aniversário Macabro/Last House on the Left" (1972) -, e a partir dos anos 70 começariam a surgir as primeiras obras explícitas nessa linha, como "Forced Entry" (1973) e "Hot Summer in the City" (1976), ambos pornôs sobre estupros e estupradores, sendo que este último supostamente é o filme pornográfico preferido de um tal de Quentin Tarantino...


Produzidos para platéias de depravados interessados em temas moralmente discutíveis, os roughies eram tão baratos e mal-feitos (geralmente filmados às pressas e de forma amadora) que hoje não chocam mais nem a vovó; pelo contrário, podem ser vistos como comédias involuntárias, retratos de uma década marcada pelo exagero e pelo sensacionalismo.

Uma bela introdução (ui!) ao subgênero é WET WILDERNESS (em português literal, algo como "Lugar ermo molhado"!!!), um pornô bagaceira que até meses atrás eu nem sabia que existia, mas me foi fortemente recomendado pela leitora assídua e fã de filmes de sacanagem Daniela Monteiro - que o considera um dos seus cult movies e já reviu infinitas vezes, a ponto de saber os diálogos de cor.


Sabe-se lá se algum dia WET WILDERNESS chocou alguém, mas hoje a abordagem sensacionalista do filme e a tosquice geral da produção mais provocam risos do que náuseas. Curto e grosso, o "roteiro" conta a "história" de uma família que vai passar as férias num bosque isolado da civilização e topa com um psicopata mascarado armado com um enorme machete (e com insaciável apetite sexual, lógico).

Parece até coisa séria, e se vocês virem o trailer produzido recentemente para o relançamento da obra em DVD (na janelinha no fim da resenha), podem até ser enganados e pensar que é um terrorzão pesado. Mas não é: o amadorismo e a falta de recursos permeia cada fotograma, e é impossível não rolar de rir em toda e qualquer cena que supostamente deveria ser chocante.


WET WILDERNESS começa com créditos ao som da trilha sonora chupada de "Psicose", de Alfred Hitchcock (e tenho certeza que o mestre ADOROU a homenagem). Misteriosamente, a música fica "pulando" como se o disco estivesse riscado...

Em seguida, vemos a tal família chegando ao bosque - família que na verdade se resume a um grupo de anônimos manés olhando deslumbrados ao redor e recitando diálogos decoradinhos como "Olhe como é lindo! Olhe todas essas árvores!".


A filha e sua amiga (não tem como saber quem é quem, já que os créditos não identificam os personagens) vão dar uma voltinha no bosque e uma começa a tirar fotos desinibidas da outra (leia-se: sem roupa). E daí para rolar um rósqui-fósqui entre as moças é um pulo.

(Por sinal, a amiga da filha tem um cabelo black power tão imenso que parece esconder um universo paralelo, à la "Homens de Preto". E seu suvaco é tão peludo que pode até ser confundido com uma segunda vagina!)


Enquanto as moças curtem um sexo oral bem tímido (umas lambidinhas inofensivas), surge nosso vilão armado de facão, com uma máscara de esqui amarela onde lê-se, ironicamente, a palavra "love" escrita na testa! Ele ameaça as moças com seu fálico machete e "força" ambas a fazerem sexo oral com ele. Forçar está entre aspas porque logo fica bem claro que elas estão curtindo muito tudo aquilo...

(Mais um parêntese: os efeitos sonoros da chupação são tão exagerados que lembram as onomatopéias dos quadrinhos da Disney, tipo SLURP! Devem ter gravado uma menininha chupando picolé para dublar os boquetes...)

A filha foge enquanto o psicopata enraba sua amiga black power. Para se vingar, o vilão diz à pobre amiguinha: "Tenho uma surpresa para você. Deite e feche os olhos". E não é que a garota obedece? Pimba! Toma uma faconada na barriga pra aprender a não ser besta - e o "efeito especial" é tão obviamente feito com um facão serrado no meio que até meus filmes caseiros parecem mais realistas nesse quesito!


Quando a filha reencontra o resto da família (mãe e irmão), explica o acontecido e eles tentam escapar. Mas o vilão volta a aparecer e força todo mundo a comer todo mundo. Detalhe: quando a garota revê o estuprador, solta um nada emocionado "Not again...", ou "De novo não", como se tivesse pisado pela segunda vez em cocô de cachorro, e não encontrado pela segunda vez um perigoso assassino estuprador!!!

Nosso vilão mascarado "obriga" a mamãe a chupar seu pinto e ordena que a irmã faça o mesmo com o irmão - "Crianças aprendem com as mães", sugere. Depois, "obriga" (sempre entre aspas porque ninguém parece muito contra a vontade ali) a mãe a chupar o filho, e é de doer a barriga de rir o momento em que a mulher dá uma olhada para o pau do rapaz e lamenta com um "Sorry, son" antes de cair de boca com gosto!


Um salto absurdo na edição leva o espectador a imaginar que o vilão matou o filho enquanto mãe e filha fugiram. De qualquer jeito, elas encontram um sujeito anônimo amarrado numa árvore (negro, para justificar alguns comentários racistas). Tentam ajudá-lo, mas logo o vilão aparece pela terceira vez e força as duas mulheres a transar com o prisioneiro, antes de matá-lo a machadadas!

Por fim, nosso "estuprador" tenta completar o serviço com mãe e filha. Mas, enquanto a coroa cai de boca no malvado, a filha aproveita um momento de distração dele para fazer o que devia ter feito ainda na primeira cena, lá no começo do filme: pega o machete que o sujeito deixou esquecido de lado e...

O FILME TERMINA! Com um "The End" tosco e mais nada, deixando subentendido que a garota salvou a mãe matando ou capando o perigoso estuprador. Ou será que, numa reviravolta inesperada, a garota matou a mãe e fugiu com o vilão mascarado, à la "Assassinos por Natureza"? Você decide!


Não pensem que estes saltos na edição e a ausência de cenas são opção estética ou narrativa dos realizadores: como muitos pornôs baratos do período, WET WILDERNESS foi feito para ser exibido em cinemas fuleiros e drive-ins, sem nenhuma pretensão de que um dia fosse relançado para o formato doméstico (videocassete ainda era novidade na época, imagine então DVD e blu-ray).

Assim, as poucas cópias desse tipo de obra ainda disponíveis geralmente encontram-se em péssimo estado, e muitas vezes com partes inteiras faltando porque os projecionistas dos cinemas daquele período costumavam cortar e guardar pedaços para suas "coleções particulares". Isso talvez explique a ausência de um final propriamente dito, e também a curta duração da obra (54 minutos).


WET WILDERNESS foi escrito e dirigido por um tal de Lee Cooper (o IMDB informa que este é seu terceiro e último filme). Hoje não dá pra saber ao certo quais eram as intenções do sujeito, mas como engolir uma obra supostamente séria em que as mulheres estupradas logo passam do choro e da lamentação para a imediata excitação, inclusive se masturbando enquanto são "violadas" pelo psicopata?

O filme também tenta provocar comoção através de cenas como a que o vilão obriga a irmã a fazer sexo oral no irmão, ou o filho a fazer sexo com a mãe. Mas qualquer tentativa de criar polêmica em cima de tabus como o incesto cai por terra quando o filho come a mãe com vontade, beija de língua e ainda goza nos peitos dela; ou quando a irmã lambe a porra do irmão depois da ejaculação - aham, parece mesmo que estão fazendo a coisa à força e contra a vontade...


O amadorismo também rola solto, com grosseiros erros de continuidade (tipo o lençol xadrez que se transforma em lençol preto entre os cortes de uma cena de trepada, como vocês podem conferir nas fotos acima) e uma falta de cuidado que parece proposital. Ao mostrar o cadáver do cara morto a machadadas, por exemplo, o diretor filma por tempo suficiente para que o "ator" respire e comece a se mexer, ao invés de cortar segundos antes!

Em outra cena hilária, mãe e filha fazem um ménage a trois "forçado" com o prisioneiro enquanto o vilão assiste. Pois as atrizes nem tentam fazer a menor cara de revolta ou comoção. Inclusive a filha assiste a mãe trepando enquanto despreocupadamente espanta algumas formigas que começam a subir pela sua perna! Estão tão à vontade que parece que são "estupradas" e "forçadas" a transar com desconhecidos uma vez por semana!!!


Outrora um roughie que, quem sabe, até chocou espectadores mais sensíveis, hoje WET WILDERNESS é indiscutivelmente uma engraçadíssima (embora bizarra) comédia involuntária. Óbvio que não para todos os públicos, mas não deixa de ser hilário imaginar uma sessão dessa podreira com os amigos, regada a cerveja ou substâncias ilícitas para "entrar no clima".

Não que assistir cenas de estupro, humilhação e incesto seja exatamente o meu ideal de diversão. Mas é que a coisa aqui é tão fuleira, tão exagerada, tão mal-feita - em suma, tão idiota! - que é impossível deixar de assistir e rir muito! E é exatamente isso que caracteriza este "clássico" como um autêntico "Filme para Doidos"...


PS 1: Alguns leitores contumazes devem ter percebido que volta-e-meia eu tenho aberto espaço para filmes pornográficos aqui no FILMES PARA DOIDOS. Não é que eu seja tarado e sedento por sacanagem (tá, eu sou, mas isso não vem ao caso). Acontece que as postagens mais acessadas do blog são justamente as de filmes de putaria, sendo que as três recordistas do momento são as de "48 Horas de Sexo Alucinante" (100.106 visualizações até o momento em que escrevo esta resenha), "O Império do Sexo Explícito" (72.532 visualizações) e "Coisas Eróticas" (60.002 visualizações). Sendo assim, para manter o ibope em alta, vou tentar falar de pelo menos um pornozão por mês. Mas é claro que tem que ser um "Pornô para Doidos"...

PS 2: Nenhum dos quatro atores creditados apareceu em outro filme além deste e da obra anterior do mesmo diretor. É compreensível, embora a gata peituda que interpreta a filha seja bem jeitosinha...

PS 3: Uma salva de palmas para a Daniela Monteiro por descobrir e divulgar essas podreiras. E ainda confessar, sem medo da possível humilhação em grupos de cinéfilos, que gosta MESMO do filme!

Trailer de WET WILDERNESS



*******************************************************
Wet Wilderness (1976, EUA)
Direção: Lee Cooper
Elenco: Daymon Gerard, Alice Hammer,
Faye Little e Raymond North.