WebsiteVoice

domingo, 13 de fevereiro de 2011

MCBAIN - O GUERREIRO MODERNO (1991)


James Glickenhaus é um sujeito cuja obra precisa ser urgentemente descoberta (ou redescoberta) pelos cinéfilos "alternativos" desse mundo.

Não só como produtor, que através da sua empresa, a Shapiro-Glickenhaus Home Video, bancou obras como "Maniac Cop", do William Lustig, e boa parte da filmografia de Frank Henenlotter (a série "Basket Case", "Frankenhooker - Que Pedaço de Mulher").

Mas principalmente como diretor e roteirista, já que James Glickenhaus foi o cara que comandou alguns dos filmes de ação mais sem-noção dos anos 80, até aposentar-se prematuramente no início da década de 90 (para trabalhar como corretor da bolsa em Wall Street), deixando a área livre para um monte de bunda-moles e praticamente decretando o fim do "cinema de macho" daquele período.


É ele o responsável por filmes casca-grossa como "O Exterminador", em que um bandido era solenemente esquartejado num moedor de carne, e "A Fúria do Protetor", onde o diretor teve o mérito de transformar o Didi Mocó do Oriente, Jackie Chan, em policial durão, violento e que fala palavrões, numa obra que o astro renega até hoje (e que em breve também estará aqui no FILMES PARA DOIDOS).

MCBAIN - O GUERREIRO MODERNO é de 1991 e, provavelmente, o último grande clássico de Glickenhaus (que depois só dirigiu mais um suspense e uma aventura infanto-juvenil).


É o tipo de filme em que os níveis de testosterona ultrapassam todos os limites, a contagem de cadáveres passa dos três dígitos e a trilha sonora praticamente se resume ao som de tiros e explosões. Tanto que o cartaz original de cinema trazia uma apropriada frase do L.A. Times em destaque: "A macho action fantasy"!!! Não podia ser mais apropriado.

Eu até sugeriria uma impagável sessão dupla de MCBAIN com "Os Mercenários", a recente homenagem ao truculento cinema de ação dos anos 80 comandada por Sylvester Stallone.


Primeiro, porque os dois filmes têm muito em comum (o roteiro e algumas cenas bem parecidas); segundo, porque a obra de Glickenhaus coloca a do Stallone no chinelo, e mostra que não adianta QUERER fazer um filme de ação como aqueles da época de ouro do gênero, mas principalmente tem que SABER fazer. E Glickenhaus sabe.

Como em "O Exterminador" - filme mais conhecido do diretor-roteirista -, a história começa no Vietnã, mais precisamente nos últimos dias do sangrento conflito. Soldados norte-americanos comemoram o retorno para casa.


Mas alguns deles, num helicóptero rumo a Saigon, passam pelo que parece um campo de prisioneiros, e resolvem dar uma paradinha para averiguar - embora a guerra, oficialmente, já esteja "acabada".

Ali, um tenente durão chamado McBain (Christopher Walken) e alguns outros prisioneiros de guerra enfrentam um desafio muito parecido à "Cúpula do Trovão" do terceiro "Mad Max" - aquele lance do "dois homens entram, um homem sai". Dentro de uma imensa gaiola de bambu, nosso herói é obrigado a enfrentar um vietcongue gigantesco, até que os seus parceiros aparecem de surpresa e metralham todos os soldados inimigos.


McBain agradece aos seus salvadores e promete um dia retribuir o favor. Eis que o soldado que teve a idéia de voltar para investigar o acampamento, Santos (Chick Vennera), rasga uma cédula no meio e dá metade ao homem que salvou. Se um dia ele receber a outra metade, explica, é porque chegou a hora de pagar a dívida.

Após um salto de décadas no tempo, encontramos Santos como líder de um exército revolucionário que tenta derrubar o violento presidente da Colômbia, um milita linha-dura interpretado por Victor Argo.


O presidente é um daqueles vilões sanguinários que fuzila seus inimigos políticos no "paredón" e ameaça esmagar mulheres e crianças com tanques de guerra.

Quando a revolução falha em recuperar o controle do país, e o presidente em pessoa executa Santos com um tiro na cabeça transmitido no mundo inteiro via TV, a irmã do falecido, Cristina (Maria Conchita Alonso, de "O Limite da Traição"), vai aos EUA com aquela metade da cédula para pedir o favor que McBain deve. Neste caso, vingar a morte de Santos e depor o presidente colombiano.


Só que McBain é um metalúrgico pé-de-chinelo em Nova York, e não um herói com poder de fogo para derrubar o governo militar de um país sul-americano. A solução é ir atrás dos velhos colegas do Vietnã (entre eles, Michael Ironside e Steve James!!!), conseguir dinheiro para a operação e finalmente partir rumo à Colômbia para uma missão suicida.

Achou parecido demais com "Os Mercenários"? Pois é isso mesmo. E algumas cenas de matança lembram também o ótimo "Rambo 4", principalmente quando um sujeito assume o comando de uma enorme metralhadora .50 e passa fogo em jipes e caminhões cheios de inimigos, que são instantaneamente moídos pela munição de grosso calibre. Será que Stallone é um grande fã de James Glickenhaus?


MCBAIN tem todas as qualidades (ação, violência, personagens durões) e defeitos típicos do cinema de Glickenhaus. Falando especificamente nos defeitos, o principal é o roteiro desestruturado, mais interessado em criar desculpas para as cenas de ação do que uma história linear.

Na primeira metade do filme, por exemplo, os ex-combatentes reunidos precisam arranjar dinheiro para financiar sua operação de guerrilha na Colômbia. Resolvem, sem mais nem menos, atacar e matar uns traficantes (!!!) para roubar-lhes a féria do dia. Porém, quando o chefe da boca passa um sermão nos heróis (!!!), eles decidem deixar o cara com seu suado dinheirinho (!!!) e atacar um perigoso gângster para conseguir os fundos necessários (!!!).


Essa cena do traficante dando discurso é tão gratuita e sem pé nem cabeça que se torna involuntariamente engraçada: McBain e seus amigos invadem a boca-de-fumo matando todo mundo sem piedade, até sobrar apenas o chefão interpretado por Luis Guzmán. Segue-se um diálogo impagável:

Traficante: Que porra vocês querem?
McBain: Dinheiro.
Traficante: Dinheiro? Porra cara, leva o dinheiro! Vocês mataram um montão de pessoas por pouquíssimo dinheiro!
Parceiro de McBain: Pessoas? E quem se importa com uns merdas como vocês?
Traficante: Ah, entendi! Mercadores da morte, né? Quem se importa com pessoas que vendem drogas para crianças de 8 anos? Ei cara, você espera que a gente trabalhe no Burger King recebendo US$ 3,75 por hora? Eu pago a eles 200 dólares por dia! Eles estão apenas tentando viver! Eu pareço o tipo de cara que conseguiria emprego num daqueles prédios de escritórios? E em relação a vender drogas para crianças de 8 anos, você vê alguma criança aqui? Tudo que eu vejo é um bando de babas de New Jersey!

Simplesmente genial!


Mais adiante, o roteiro de Glickenhaus também perde um tempão mostrando a viagem de avião de McBain e seu pequeno exército até a Colômbia, quando eles são atacados por caças da força militar colombiana. Eis que um piloto norte-americano surge do nada na história para ajudar os heróis, num longo combate aéreo que não fede e nem cheira (parece até um aproveitamento tardio da onda "Top Gun").

E a ajuda do sujeito no fim nem era necessária, já que McBain é tão fodão que consegue a façanha de derrubar um dos jatos inimigos com um tiro disparado do cockpit de outro avião - em mais uma cena absurda e nonsense que quase transforma o filme em comédia involuntária!


Finalmente, quando McBain e seu grupo de amigos mercenários chega à Colômbia, MCBAIN transforma-se num festival ininterrupto de ação explosiva e exagerada. Ajudados pelos rebeldes agora comandados por Cristina, os ianques enfrentam todo o exército colombiano para chegar ao maligno "el presidente" - uma tarefa que não será nada fácil.

Se alguém duvida que James Glickenhaus é um autêntico doente mental, esse filme divertidíssimo é a prova perfeita. Balas atravessam pessoas como se elas fossem de manteiga. O diretor também faz questão de mostrar bonecos em chamas voando para os ares em cada explosão de veículos e casamatas.


Já o final é um autêntico massacre em frente ao palácio do governo colombiano (na verdade, o filme foi rodado nas Filipinas). Sabe a cena de "Regras do Jogo", do Friedkin, em que Samuel L. Jackson comanda um massacre de inocentes em frente à embaixada americana no Iêmen?

Pois a cena parece tirada de MCBAIN, quando os cruéis soldados colombianos abrem fogo covardemente contra o povo que tenta invadir o prédio para derrubar o presidente!


O caso é que não tem como contabilizar, mas a contagem de mortos dessa maravilha passa dos 300, com toda certeza. Entre as mortes provocadas pelos homens de McBain e o extermínio liderado pelo exército colombiano, o Produto Interno Bruto da Colômbia deve ter caído uns 80%! Quase não sobra ninguém no país para o futuro presidente governar!

É por isso que eu digo que filmes como MCBAIN - O GUERREIRO MODERNO não existem mais (ou pelo menos não existiam, até "Rambo 4"). E o recente "Os Mercenários" perde feio na comparação. Não duvido que o McBain, sozinho e com um braço nas costas, derrotaria com a maior facilidade todo o time de "expendables" do Stallone.


Aliás, entre mortos e feridos, Christopher Walken mantém-se soberbo como o implacável, incansável e indestrutível McBain. Dá até pena de ver um ator bom desses sendo sub-aproveitado, hoje, como "coadjuvante de luxo" em filmes tipo "Penetras Bons de Bico". Walken precisa URGENTE de um bom papel como o de McBain, pois seu olhar gélido e ar cínico se encaixam perfeitamente nesse tipo de personagem.

E é uma pena que Glickenhaus tenha abandonado essa vida de diretor de filmes casca-grossa para se dedicar a Wall Street e à sua cobiçada coleção de Ferraris (sim, o sujeito é milionário, por incrível que pareça!).

Sem ele, o mundo do cinema de ação perdeu futuras "macho action fantasies" como MCBAIN, e o máximo que se vê atualmente são pálidas homenagens a essas produções absurdas, porém sem o mesmo talento e criatividade.

Trailer de MCBAIN - O GUERREIRO MODERNO



*******************************************************
McBain - O Guerreiro Moderno
(McBain, 1991, EUA)

Direção: James Glickenhaus
Elenco: Christopher Walken, Maria Conchita Alonso,
Michael Ironside, Chick Vennera, Steve James, Luis
Guzmán e Victor Argo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

GYMKATA - O JOGO DA MORTE (1985)


Imagine, só por um minuto, que você é o chefe da "SIA" (Special Intelligence Agency!!!) e precisa despachar um agente para defender todo o mundo ocidental numa missão arriscadíssima, repleta de espiões, traições, ninjas e perigos. E aí, quem você escolheria para a missão? Jack Bauer? Os Boinas Verdes? O agente 007? John Matrix e Stallone Cobra?

Digamos que todas essas são ótimas opções. Mas que tal ser ousado e original, escolhendo um decadente campeão de ginástica olímpica (!!!), para então treiná-lo em karatê (em algumas poucas semanas) e finalmente enviá-lo para arriscar o pescoço e a segurança de todo o Ocidente?

Pois é exatamente essa a opção do chefão da SIA em GYMKATA, um impagável e hilário filme de ação dos anos 80 que começa absurdo desde a premissa - afinal, se um campeão de ginástica olímpica pode mesmo ser tão letal quanto é mostrado nesse filme, então nossa Daiane dos Santos seria uma autêntica arma de destruição em massa! (Sorte que o Bush tinha birra com o Iraque e não notou...)


GYMKATA foi dirigido por Robert Clouse em 1985. Mais conhecido por ter assinado dois sucessos estrelados por Bruce Lee ("Operação Dragão" e "O Jogo da Morte"), Clouse ficou marcado como diretor de artes marciais, mas naqueles tempos encontrava-se em tempos de vacas magras.

Aí algum espertalhão teve a idéia de tirar o sujeito da aposentadoria e dar-lhe mais uma aventura de artes marciais, mas com essa idéia estapafúrdia de ter um ginasta como herói, no lugar de um lutador "de verdade".

Essa "honra" coube a Kurt Thomas, um ginasta igualmente decadente na época, e que havia ganhado várias medalhas de ouro em competições mundiais de ginástica nos anos 70 - mas nunca chegou a participar das Olimpíadas, sua grande frustração.


GYMKATA é o primeiro e único filme de Thomas como protagonista (algo plenamente justificável, considerando sua atuação sofrível), e sua "carreira" se encerrou com apenas mais uma participação, agora como coadjuvante, numa produção obscura de 2003.

Além de péssimo ator, Kurt Thomas tem tudo de ruim: é feio, desengonçado, tem cabelo mullet e é nanico demais para convencer nas inúmeras cenas de ação do filme (nossa, isso ficou parecendo crítica do Rubens Ewald Filho!). A batata-quente ficou nas mãos do diretor de fotografia, que na maior parte do tempo filma o "ator" de baixo para cima, tentando "aumentar" seu tamanho.


A história é inspirada no livro "The Terrible Game", escrito por Dan Tyler Moore em 1957, e filmada na Iugoslávia, que aparece transformada num fictício país chamado Parmistão. Ali, uma pequena vila realiza uma dura prova conhecida como "O Jogo", em que campeões do mundo inteiro precisam superar uma série de provas enquanto são implacavelmente perseguidos pelos melhores guerreiros parmistanenses.

Quem chegar ao final do Jogo tem o direito de fazer um desejo (?!?) ao rei do Parmistão. Quem ficar pelo caminho, morre. Simples, não? Ah, creio que seja relevante informar que, em 900 anos, "O Jogo" não teve nenhum vencedor. Mas eles continuam tentando! Logo, sejamos otimistas...


Eis que a SIA pretende enviar um representante norte-americano para vencer o Jogo e usar seu desejo (hahahaha, não consigo não rir disso...) para adquirir a autorização do rei do Parmistão para instalar um sistema de satélites de defesa no país - mas pode esquecer isso, são apenas burocracias do enredo.

E o que o governo norte-americano faz? Recruta o atleta Jonathan Cabot (Thomas), cujo pai - um agente secreto - foi considerado desaparecido no Parmistão há algumas semanas. Cabot passa alguns dias sendo treinado por especialistas em artes marciais ao estilo Pai Mei em "Kill Bill", e desse treinamento nasce a tal "gymkata": uma mistura das habilidades de Jonathan como ginasta com os movimentos do karatê. Acredite, os caras levam isso a sério no filme!


Nesse meio-tempo, também, o jovem agente secreto ginasta apaixona-se pela Princesa Rubali (Tetchie Agbayani), filha do rei do Parmistão.

Após uma série de perigos envolvendo traidores e espiões, que são facilmente vencidos por Jonathan com seus movimentos de gymkata (hahahaha), a comitiva norte-americana finalmente chega ao Parmistão, onde vários campeões mundiais preparam-se para o jogo.

Aí, nosso herói descobre que sua amada está prometida em casamento para Zamir (Richard Norton, estrela de vários filmes de ação classe C da época), um dos melhores guerreiros do país, além do líder do time que irá caçar (e tentar matar) os participantes do Jogo no dia seguinte. Será que tendo Jonathan como rival pelo coração da princesa ele vai levar a coisa para o lado pessoal?


GYMKATA foi um fiasco na época do seu lançamento, e não é difícil imaginar o porquê. Com o tempo, entretanto, ganhou certa fama cult, justamente pela sua ruindade, entrando sempre em destaque nas listas de piores filmes de todos os tempos.

O auge da popularidade dessa divertida bomba veio em 2006, quando, nos EUA, a Warner Bros. e a Amazon.com fizeram uma enquete na internet para que cinéfilos do mundo todo escolhessem algum título ainda inédito do catálogo do estúdio para ser lançado em DVD. Pois GYMKATA ganhou de lavada, recebendo seu próprio disquinho em 2007.


A verdade é que o filme de Clouse é divertidíssimo - pelos motivos errados, óbvio. Some a péssima atuação de Kurt Thomas com o absurdo da situação toda (um ginasta karateka?), mais a história bisonha (como engolir esse lance do "desejo"... hahahaha... para quem vencer um jogo estúpido de resistência?) e a quantidade colossal de buracos no roteiro e situações forçadas, e pronto: temos um candidato a clássico instantâneo do FILMES PARA DOIDOS!

Só para o leitor ter uma ideia dos furos do roteiro: durante o Jogo, Jonathan enfrenta a fúria do rival Zamir, que quer matá-lo a qualquer custo. Mas não parece.


Quando os competidores precisam escalar uma corda até o topo de uma fortaleza, por exemplo, Zamir e seus guerreiros derrubam vários dos participantes com flechadas certeiras. Pois quando Jonathan está no meio da escalada, Zamir resolve não usar as flechas (que significariam morte certa), mas sim incendiar a corda por onde o rapaz sobe (!!!). Desnecessário dizer que o herói escapa, né?

Mais adiante, nova estupidez: os competidores precisam agarrar-se a uma corda para atravessar um penhasco enorme. Novamente, Zamir e seus guerreiros usam flechadas certeiras para derrubar todos os outros participantes. Mas quando Jonathan está no meio da travessia, o que faz seu rival? Descarta as flechas mortais (óbvio) e corta uma das extremidades da corda, esquecendo que o ginasta poderá utilizá-la como "cipó" e brincar de Tarzan para balançar-se até o outro lado do penhasco! Dã...


E nada pode preparar o espectador para os 20 minutos finais de GYMKATA, quando Jonathan enfrenta a última etapa do jogo: atravessar uma vila-fantasma sendo atacado por seus moradores.

Maltrapilhos e armados com machados e forcados, os caras parecem zumbis ou fantasmas, e inclusive agem como tal, numa cena que parece saída de algum filme de horror barato - e que destoa totalmente do clima até então! Tem até um sinistro sujeito com duas caras, como você pode ver na foto abaixo:


Embora Robert Clouse tenha dirigido o filme "a sério", às vezes ele solta umas evidências de que parece estar levando a coisa meio na brincadeira, como se aquilo fosse uma sátira ao gênero, e não uma aventura convencional.

Evidência número 1: Um personagem explica a Jonathan que ele irá viajar para "Karabal, no Mar Cáspio". Um segundo depois, a cena corta para um navio no mar com a legenda repetindo literalmente o que o sujeito falou: "Karabal, on the Caspian Sea"!


Evidência número 2: Jonathan sempre se dá bem nas cenas de perigo porque seus inimigos são muito burros. Por exemplo, eles preferem descarregar a munição das suas metralhadoras em paredes e garrafas, e depois ficam sem balas para acertar o herói!

Evidência número 3: Sempre que alguém cai de um penhasco ou de uma grande altura, a sonoplastia usa efeitos de desenho animado (aquele TUMPF! exagerado de quando o Coiote se estatela no desenho do Papa-Léguas).


Mas verdade seja dita: trash involuntário ou não, GYMKATA nunca é chato. Pelo contrário, é um filme de ação movimentadíssimo, em que acontece um tiroteio ou perseguição seguida de luta a cada cinco ou dez minutos.

Se Kurt Thomas não convence como ator, até que ele vai muito bem como lutador de "gymkata" (hahaha), embora suas habilidades como ginasta se resumam a dar pulinhos e piruetas bem boiolas por cima dos inimigos.

Somente no final é que o herói começa a mostrar uns movimentos realmente legais, tipo umas tesouras voadoras e malabarismos sobre um "cavalo" improvisado (o aparelho de ginástica, não o animal). Essa cena, sozinha, já vale o filme todo, e como eu sou camarada vou até postar aqui para vocês conferirem:

Como vencer uma vila inteira com ginástica olímpica
(Mas eles precisam atacar um de cada vez!)



E depois que você esquece que a tal "gymkata" (hahaha) não passa de uma baita estupidez, até que as cenas de luta são bem interessantes, além de bem filmadas e coreografadas, com a câmera abrangendo o cenário e os atores de corpo inteiro fazendo seu showzinho, sem os closes estapafúrdios e cortes rápidos que estragam as cenas de ação nos filmes atuais.

Além disso, a coisa toda tem aquele climão de aventura pobre do 007, com perigos e traições em países exóticos, inimigos exagerados, tiros e pancadarias. E, claro, as habilidades sobrenaturais do herói, capaz de vencer 30 inimigos sem disparar um único tiro, apenas com sua "gymkata" (hahahaha).


Visto com o devido clima e humor, GYMKATA é um filme bem divertido, que merece ser redescoberto por uma nova geração de cinéfilos. Trash até a medula, sim, mas daquele tipo que você ri, faz piada, vibra e até se espanta com algumas qualidades que ninguém parece ter percebido.

Que sirva de lição para o governo brasileiro, também: na próxima ocupação de favela no Rio, mandem a Daiane dos Santos e a Daniele Hypólito junto com o Bope. Se as duas usarem "gymkata" contra a marginália, vai ser uma verdadeira chacina!


PS 1: Ao ser lançado em VHS no Brasil, GYMKATA ganhou o dispensável subtítulo "O Jogo da Morte", talvez para linkar com o conhecido filme póstumo do Bruce Lee que Clouse dirigiu. Pensando bem, podia ser pior - algo como "Operação Gymkata - O Jogo da Morte".

PS 2: Se GYMKATA tivesse feito sucesso, qual seria o próximo projeto de Robert Clouse? KARATANGO, sobre um dançarino de tango treinado em artes marciais para combater um ditador na Argentina? Ou MIMITÊ, que traria o famoso mímico francês Marcel Marceau aliando mímica e karatê contra algum terrorista europeu?

Opa, é melhor não dar ideias...

Trailer de GYMKATA - O JOGO DA MORTE



*******************************************************
Gymkata - O Jogo da Morte
(Gymkata, 1985, EUA)

Direção: Robert Clouse
Elenco: Kurt Thomas, Tetchie Agbayani, Richard
Norton, Edward Bell, John Barrett, Conan Lee,
Bob Schott e Buck Kartalian.