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sábado, 1 de agosto de 2009

PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS (1985)


Imagine uma mistura entre a série Indiana Jones, as aventuras de "Tudo por uma Esmeralda" (dirigido por Robert Zemeckis, em 1984) e o horror dos filmes italianos de canibais, como "Cannibal Holocaust", acrescentando ainda uma pitada das aventuras ingênuas dos Trapalhões (brigas pastelão e gracinhas diversas) e um toque dos velhos western spaghetti. E não é que existe uma coisa assim? A doideira chama-se PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS e foi feita aqui mesmo, no Brasil, em 1985, numa produção ítalo-brasileira dirigida por um tal de Michael E. Lemick.

Apesar da história se passar na Amazônia, as cenas foram todas filmadas na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. E não se espante com o tal "Lemick", pois não se trata de nenhum famoso cineasta norte-americano, e sim do italiano Michele Massimo Tarantini, escondido atrás de pseudônimo em inglês.

PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS na verdade é um daqueles filmes para públicos bem específicos: trata-se de uma aventura tosca em ritmo de pornochanchada, misturando no mesmo balaio canibais, aventuras na selva (com ataques de cobras, piranhas e sanguessugas) e até um grupo de violentos garimpeiros, sempre sem se levar a sério, apostando no humor e em tiradas absurdas, estilo história em quadrinhos. Inclusive uma das melhores descrições que já li sobre essa pérola classifica assim: "Uma mistura de 'Indiana Jones e o Templo da Perdição' com 'A Montanha dos Canibais'". Perfeito!


A primeira vez que vi esse clássico foi ainda fedelho, quando ele foi exibido em horário nobre pela TV Bandeirantes e eu gravei. Mas minha mãe, furiosa com a quantidade de violência e (principalmente) mulher pelada, ordenou que eu imediatamente gravasse um filme mais "inofensivo" na mesma fita, por cima daquela baixaria. Se bem me lembro, a honra foi de "O Exterminador do Futuro", que acabou exterminando também o meu único registro da exibição do filme de Tarantini na TV aberta...

Depois demorou um bom tempo para que eu descolasse uma fita VHS "oficial" do filme (lançada pela extinta Video Cassete do Brasil), e finalmente o DVD lançado lá nos States com o título "Massacre in Dinosaur Valley" (olha que chique!), e que traz uma versão mais completa do filme, com cenas que não existem na nossa cópia nacional (inclusive uma cena de sexo!!!).

Naquele longínquo ano de 1985, o diretor Tarantini assinou duas produções em conjunto Brasil/Itália, PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS e "Fêmeas em Fuga" (um impagável WIP que em breve também estará aqui no blog), ambos estrelados pela belíssima brasileira Suzane Carvalho. A morena linda vinha de ensaios em revistas masculinas, como Ele & Ela, trabalhos na TV e desfiles de escolas de samba, e subitamente resolveu mostrar o corpão no cinema "exploitation". Também só fez estes dois filmes e sumiu de cena, tornando-se piloto de automobilismo!

Sim, amiguinhos, pode parecer incrível, mas a estrela de algo chamado PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS saiu do cinema não para o esquecimento, mas sim para se tornar a primeira mulher a conquistar um título em Fórmula 3, inclusive tendo seu nome registrado no Guiness, o Livro dos Recordes!!! (Há alguns anos tentei entrevistá-la, via e-mail, para o site Boca do Inferno, mas Suzane preferiu não responder as perguntas sobre sua participação no filme de Tarantini, talvez por vergonha...)


Num clima total de pornochanchada, a sacanagem impera em PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS, o que talvez tenha assustado minha inocente mãe lá atrás, na minha infância. As atrizes principais do filme (quase todas brasileiras) passam a maior parte do tempo sem roupa; há ainda um pouco de sexo implícito e rápidas cenas de estupro, banho (de chuveiro e de rio) e até lesbianismo! Tudo no filme é desculpa para tirar a roupa da mulherada, desde bêbados chatos levantando a saia de modelos até índios tarados que despem suas prisioneiras para o sacrifício. Ou seja, definitivamente um daqueles filmes feitos para quem gosta de cinema com muito sangue e sacanagem. E quem não gosta?

O filme começa com um ônibus imundo transitando por uma poeirenta estrada de chão batido, levando no seu interior o Professor Ibanez e sua filha Eva (Suzane). Logo descobrimos que ele é um paleontologista famoso, que está no Brasil para visitar o Vale dos Dinossauros, bem no meio da floresta amazônica. O lugar é famoso tanto por seu interesse histórico quanto por uma suposta maldição indígena que o rodeia.

Ibanez e Eva param na minúscula Vila de São Sebastião e vão para o hotel, onde o carregador de malas, negro, se chama "Maizena". No mesmo hotel também estão um fotógrafo de São Paulo, Robi, com duas belíssimas modelos, Monica e Belina; um casal exótico de americanos formado pelo violento, e impotente, capitão John Reines, um veterano do Vietnã, e sua mulher bebum e clone envelhecida de Marilyn Monroe, Beth.

Quando o herói do filme entra em cena, percebemos que não é para levar o negócio a sério. O "arqueólogo" vagabundo Kevin Hall (o norte-americano Michael Sopkiw, em seu último trabalho no cinema), aparentemente um funcionário do Museu de Paleontologia de Boston, chega à vila deitado na carroceria de um caminhão cheio de bananas, sem um único dólar no bolso e arrastando uma caixa cheia de velhos ossos de dinossauro como uma versão (ainda) mais pobre de Django e seu caixão.


Kevin é uma espécie de Indiana Jones de terceiro mundo: malandro, cheio de piadinhas e disposto a comer quantas mulheres cruzarem seu caminho (neste quesito ele é o contrário do casto personagem de Harrison Ford nos filmes da série de Steven Spielberg). Mas Kevin também tem sangue-frio para matar as dezenas de índios e vilões que cruzam seu caminho, e muita cara-de-pau para chegar junto na mulherada. Isso que é herói!

Ao descobrir que o Professor Ibanez planeja voar até o Vale dos Dinossauros, Kevin fica louco para juntar-se à expedição. Antes, entretanto, tenta dar uma de cavalheiro heróico e salvar uma das belas modelos de um bêbado que estava tirando a roupa da moça, no bar do hotel. Péssima idéia: o bêbado, baixinho, apanha fácil, mas tinha dois irmãos gigantescos, que dão uma surra violenta no arqueólogo americano (o momento "Os Trapalhões" do filme, inclusive com aquela clássica cena em que a mão de uma pessoa é apertada e ouvimos o estalar dos ossos se partindo!!!

No dia seguinte, Kevin vai procurar o Professor Ibanez, mas encontra algo melhor: sua filha Eva tomando banho, completamente pelada. Uma bela forma de conhecer aquele que será seu interesse romântico na trama. Quando ele e Ibanez entram em acordo, logo todos estão num pequeno avião sobrevoando a Amazônia. Claro, a tal maldição do Vale dos Dinossauros revela-se verdadeira.

O avião começa a perder altitude até cair, numa cena trash até a medula, onde Tarantini não tem a menor vergonha na cara e simplesmente atira um avião de brinquedo em uma ridícula miniatura da selva, enquanto filma seus atores sacundindo dentro de um cenário precário, como se estivessem dentro do avião!!!


Na queda morrem o piloto, o Professor Ibanez e uma das modelos. Os sobreviventes então resolvem seguir pela selva em busca da civilização, liderados, claro, pelo tal capitão Reines, pois ele acredita que os três anos passados no Vietnã o credenciam a ser guia no meio da selva.

A partir de então, todas as provações da floresta são mostradas: sanguessugas, serpentes, jacarés e piranhas. Além, é claro, de um rápido plágio de "Tudo por uma Esmeralda", quando Reines corta os saltos do sapato da modelo sobrevivente com um facão.

E logo os sobreviventes se vêem às voltas com uma belicosa tribo de canibais, que quer sacrificar as moças do grupo para seu "Deus Dinossauro" (hahahahaha), e ainda com um grupo de garimpeiros de esmeraldas, selvagens e violentos, liderados por China, que é interpretado por ninguém menos que CARLOS IMPERIAL (famoso cantor brasileiro e autor de sucessos como "O Bom", da Jovem Guarda)!!!!!

A partir de então, o que era uma história sobre canibais e sobrevivência na selva se transforma em WIP. É ou não é um autêntico clássico do FILMES PARA DOIDOS?


PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS é um filme maluco, roteirizado pelo próprio Tarantini e por Dardano Sacchetti (o inspirado roteirista de nove entre 10 bons filmes italianos da época), que nem ganhou crédito. Bastante divertido e com doses cavalares de mulher pelada e de violência (incluindo coração arrancado, mutilação de seio e perna devorada por piranhas), é a pérola perfeita para "iniciar" jovens virgens no cinema bagaceiro italiano dos anos 80 - ironicamente, foi o que aconteceu no meu caso. É incrível como não fazem mais filmes bobos e divertidos assim nos dias de hoje.

Na entrevista que acompanha o DVD importado, há uma entrevista com o diretor Michele Tarantini, onde ele explica como surgiu essa bizarra aventura: "O produtor Luciano Martino, com quem trabalhei em vários filmes, leu em algum lugar sobre a descoberta de pegadas de dinossauro em um vale brasileiro. E na mesma época, nos cinemas italianos, estava passando um filme de Michael Douglas, chamado 'Tudo por uma Esmeralda'. Pensamos em fazer uma história parecida, mas mais violenta, para o mercado asiático. Principalmente para o Japão, onde Ruggero Deodato e o cinema italiano dominavam. Então adicionamos alguns elementos de canibalismo e fizemos uma mistura de aventura, comédia, erotismo e canibais".

Para quem duvida da precariedade da produção: a tribo canibal é formada por meia dúzia de figurantes que, mesmo quando são mortos pelo herói, voltam à cena usando outra roupa para disfarçar; a espingarda do herói nunca fica sem munição (e miraculosamente nunca é recarregada); as cenas da selva são realizadas quase que totalmente em um mesmo trecho de rio (que, graças à magia do cinema, leva o espectador a acreditar que os personagens estão andando quilômetros e quilômetros); a "areia movediça" é um buraco cheio de água, e por aí vai.


Isso sem contar a picaretagem de utilizar uma trilha sonora composta para outro filme: enquanto os heróis caminham pela selva, tocam dois temas da trilha de "Blastfighter", filme realizado no mesmo ano (1985) por Lamberto Bava, e coincidentemente também com o ator Michael Sopkiw no papel principal!

Além de tudo isso, há cenas de briga de galo (!!!), muitos palavrões tipo pornochanchada ("Seu fudido!", "Seu filho da puta!") e uma tonelada de abobrinhas diversas para fazer o espectador chorar de rir, incluindo os antológicos diálogos, como aquele em que o vilão China justifica sua maldade ("Talvez porque eu tenha tido uma infância muito infeliz... Ou talvez porque eu sou um filha da puta!"), ou o comentário de Kevin ao topar com dois irmãos cuja cor da pele é, digamos, bastante diferente ("A julgar pela cor da pele, eu diria que a mãe de vocês é uma tremenda piranha!"). Ou ainda o clássico momento em que o herói interrompe a transa com a gostosa da Suzane Carvalho para examinar fósseis!!! Enfim, é difícil escolher uma cena ou diálogo preferido, pois o filme inteiro é simplesmente antológico.

A propósito: apesar do título, e do nome "Vale dos Dinossauros", não aparece qualquer dinossauro em cena, o que foi motivo de fúria para muitos desavisados na época de lançamento do filme!


Eu só não consigo entender como é que um clássico trash como PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS não é mais conhecido e valorizado por aqui. Tem gente que se emociona quando filmes como "Cidade de Deus" ou "Olga" (argh!) chegam ao Oscar. Ora bolas, com toda a máquina do marketing e dinheiro investido nesses filmes fica fácil, mas o que realmente me deixa com lágrimas nos olhos é ver o cartaz japonês de uma produção ítalo-nacional pobre, como PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS, comprovando que mesmo um filme que é feito com um mínimo de dinheiro e recursos pode se destacar no resto do planeta por suas qualidade e defeitos, mesmo quando é solenemente esquecido na sua pátria de origem, o Brasil.

PS: Morram de inveja, colecionadores de tralhas, mas uma das minhas relíquias, guardada a sete chaves aqui em minha fortaleza rio-grandense, é um pôster brasileiro de cinema de PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS, tosco e mal-feito como o próprio filme, mas que um dia eu ainda vou emoldurar e pendurar com orgulho no meu quarto. Sim, desculpem se pareço piegas, mas eu amo essa porcaria de filme do fundo do meu coração!


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Massacre in Dinosaur Valley/ Nudo e
Selvaggio/ Cannibal Ferox 2/
Amazonas (1985, Brasil/Itália)

Direção: Michael E. Lemick (Michele
Massimo Tarantini)
Elenco: Michael Sopkiw, Suzane Carvalho,
Milton Morris, Marta Anderson, Jofre Soares,
Gloria Cristal e Carlos Imperial.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A BATALHA FINAL (1990)


Oficialmente, a temível Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética terminou em 3 de dezembro de 1989, quando os líderes das duas superpotências finalmente fumaram o cachimbo da paz, depois de quatro décadas de ameaças mútuas de uma possível Terceira Guerra Mundial - no caso, uma guerra nuclear, com grandes possibilidades de destruir o mundo inteiro além dos dois impérios brigões!

O tratado de paz acabou com algo que era comum no cinema de ação da década de 80: vilões russos, fossem eles terroristas, como os que invadem os Estados Unidos e enfrentam Chuck Norris em "Invasão USA", fossem eles meros boxeadores, como o Ivan Drago, que quase matou o Stallone de pancada em "Rocky 4".

E embora os vilões comunas tenham saído rapidinho da moda, um certo cineasta norte-americano achou que ainda era cedo para terminar a Guerra Fria. E, em 1990, lançou sua própria versão do final do conflito: A BATALHA FINAL.


É claro que estamos falando de David A. Prior, possivelmente um dos piores cineastas da história. Quem vem acompanhando fielmente o FILMES PARA DOIDOS deve ter percebido que eu ando fazendo um retrospecto da "carreira" do homem, já que minha infância/adolescência provavelmente não teria sido tão divertida casos os filmes de Prior não fossem exibidos no Cinema em Casa (não deixe de ler minhas resenhas de "Deadly Prey" e "Operation Warzone", outros inacreditáveis "clássicos" do diretor).

Já sobre A BATALHA FINAL, só tenho uma coisa a dizer: é, de longe, um dos piores filmes de Prior - e quando estamos falando de um sujeito que praticamente só fez filme muito ruim, isso não significa pouca coisa!

O SBT costumava reprisar o filme religiosamente nas suas tardes de Cinema em Casa, e duvido que exista algum fã de filmes bagaceiros que nunca tenha visto ao menos uns minutinhos desta "maravilha" (sim, as aspas significam ironia). E é só saber como surgiu a idéia de A BATALHA FINAL para entender a "qualidade" (idem ao parêntese anterior) da película: David e seu irmão e galã habitual, Ted Prior, compraram num leilão de quinquilharias alguns metros de negativos contendo cenas de testes do Exército, mostrando explosões nucleares, mísseis sendo disparados de silos e coisas do gênero. Isso pela bagatela de 75 dólares! A dupla dinâmica então encarnou o espírito de Ed Wood e pôs-se a imaginar um roteiro que pudesse aproveitar todas estas cenas (como essa aí embaixo), e que custasse o mínimo possível. É mole?


Assim, o roteiro assinado por David inicia no calor da então terminada Guerra Fria, com Estados Unidos e União Soviética trocando mísseis nucleares. Mera desculpa para usar aquele montão de cenas de arquivo com disparos de mísseis e explosões que ele tinha à disposição, todas muito granuladas/estragadas, destoando completamente do restante do filme. Através de noticiários, descobrimos que houve pesadas perdas civis para as duas superpotências, e que a ONU irá reunir os principais líderes mundiais em Genebra, na Suíça, para tentar chegar a uma solução pacífica para o conflito, antes da destruição total da Terra.

Corta para um monte de manés sentados ao redor de uma mesa de jantar comum (imagine isso como sendo a sala de reuniões da ONU), votando na tal "solução pacífica" para a Guerra Fria. E adivinhe qual é a idéia dos "principais líderes mundiais"? Acredite ou não, eles decidem que o destino da humanidade será traçado não mais através de uma guerra atômica, mas sim no simples duelo corpo a corpo entre dois homens, representando "o melhor" das duas nações!!! É, alguém viu "Rocky 4" muitas vezes...

E enquanto a União Soviética escolhe como representante o sargento Sergei Schvackov (o queixudo Robert Z'Dar, da série "Maniac Cop"), um gigante condicionado física e psicologicamente para matar, os norte-americanos surpreendentemente optam por um velho herói de guerra, o sargento Thomas Batanic (Ted Prior, quem mais?), que foi condenado pela corte marcial por crimes de guerra que supostamente não cometeu.



Batanic é o pior representante possível para uma nação inteira: cínico, preguiçoso, trapaceiro e magrela, parece mais uma espécie de Snake Plissken dos pobres. Em outras palavras, você não consegue acreditar, nem por um minuto, que ele realmente teria alguma chance contra o monstruoso Z´Dar, ainda mais numa luta corpo a corpo! Mas como os ianques posteriormente elegeriam George W. Bush como presidente, a escolha nem parece tão absurda assim...

O local escolhido para a "batalha final" é uma extensa selva na Virginia (que, veja só que incongruência, fica em território norte-americano!!!). Ali, os dois soldados são monitorados e rastreados por suas devidas superpotências, enquanto basicamente caminham de um lado para o outro, entre árvores e casebres, trocando tiros, bombas e socos durante o restante do filme.

E é só isso: um filme inteiro sobre dois sujeitos que supostamente são os melhores de cada lado, mas que passam uns bons 40 minutos tentando se matar sem jamais conseguir, mesmo contando com um verdadeiro arsenal à disposição!!! Quem conseguir ficar acordado, ainda terá pela frente uma das conclusões mais absurdas já filmadas.


Como legítima produção de David A. Prior, A BATALHA FINAL está repleto daqueles absurdos e defeitos que costumam tornar seus filmes bastante engraçados e divertidos. O maior absurdo, que surpreendentemente é levado a sério o tempo inteiro, é a idéia de decidir o destino do mundo numa luta banal entre dois soldados, que pode ser definida muito mais na sorte do que na habilidade. Isso é tão ou mais ridículo do que decidir uma eleição presidencial no par ou ímpar!

E se (ênfase MUITO GRANDE no "e se...") as duas superpotências realmente optassem por um mano a mano estilo gladiadores da Roma Antiga, certamente uma disputa desta grandiosidade não aconteceria na Virginia (dando ligeira vantagem a um dos lados do conflito), mas sim em algum país neutro. Para piorar, não só o local da "batalha final" fica nos EUA, como ainda garante acesso livre para qualquer mané: lá pelo final do filme, um desafeto de Batanic consegue infiltrar-se pessoalmente naquela área para tentar matar o herói, sem que ninguém descubra ou apareça para impedir.

Também não dá para engolir o fato de que um evento desta magnitude, por mais absurdo que pareça, seria monitorado por apenas duas pessoas representando cada superpotência. Caso (ênfase MUITO GRANDE no "caso...") uma coisa dessas realmente acontecesse, é claro que cada lado da batalha teria à sua disposição uma daquelas salas cheias de técnicos e computadores tipo as da Nasa, para poder monitorar cada passo dos dois soldados e descobrir em milésimos de segundo o que está acontecendo.


Pois em A BATALHA FINAL, muito provavelmente por limitações orçamentárias, temos apenas uma dupla de "monitores" para cada lado, diante de uma tela de computador que mostra duas bolinhas representando os soldados - e o herói norte-americano quase é morto porque a moça (Renée Cline) que deveria estar de olho no monitor preferiu ficar paquerando o sujeito!!! Detalhe: nem EUA nem URSS têm uma mísera camerazinha na área do confronto para poder visualizar o que realmente está acontecendo, tornando muito fácil a possibilidade de trapaças para qualquer um dos lados.

Agora, descontando essas palhaçadas do roteiro, o que sobra são 40 minutos apresentando a situação e "desenvolvendo" os personagens, e mais uns 45 minutos com a "batalha final" propriamente dita. Como seria pedir demais um tiro certeiro disparado por um dos lados (pois assim a luta terminaria muito rápido), resta ao espectador desafiar os limites da sua paciência enquanto assiste Ted Prior e Robert Z'Dar trocando tiros sem jamais se acertar, mesmo quando um deles está escondido atrás de uma árvore tão fininha que até uma cuspida bem dada atravessaria o seu tronco!

E se os dois "melhores soldados do mundo" não conseguem se acertar nem ao menos de raspão, como engolir o fato de que Batanic constrói uma única armadilha (daquele tipo "pise no barbante para explodir tudo") num território com dezenas de quilômetros de extensão, mas mesmo assim consegue adivinhar que Sergei pisará exatamente naquele local?


Novamente, a tal "batalha final" poderia terminar em cinco minutos, mas o adversário russo é um verdadeiro Jason, que escapa vivo não somente desta armadilha, mas também da explosão de uma cabana inteira. E, apesar de estar no interior da tal cabana e sem qualquer chance de fuga, Sergei não apenas sobrevive, como acaba apenas com metade do rosto levemente desfigurado!!!

Resta, então, um confronto frouxo, que rende algumas boas risadas (pela total inexperiência dos "melhores soldados", e também pelo fato de Sergei aparecer e desaparecer misteriosamente em questão de segundos, mesmo quando está em campo aberto e sem nenhum lugar para se esconder). O tal confronto é mais chato do que propriamente divertido ou empolgante.

Para piorar, o diretor e roteirista Prior tenta uma solução diplomática para o impasse, e ainda fica gastando tempo com subtramas ridículas envolvendo corrupção no Exército e a investigação de um senador.


E embora A BATALHA FINAL seja puro David A. Prior (incluindo a tradicional cena dos soldados se arrumando para o confronto, com closes em armas, granadas e facas sendo colocadas no uniforme), o resultado final não é ruim e divertido, como um "Deadly Prey", mas apenas ruim - e, neste caso, BEM RUIM. Percebe-se claramente a pobreza da produção, principalmente dos cenários.

Mas cá entre nós: como é que um filme criado a partir de um monte de cenas velhas poderia ser diferente?

E mais uma coisa: já pensou se a moda pega e esse sistema de decidir questões importantes no mano a mano fosse adotado a sério? Aí quem sabe a próxima Copa do Mundo seria decidida somente na cobrança de pênaltis entre os melhores artilheiros de cada país. Agora imagine o craque representante do Brasil chutando a bola para fora ou na trave adversária durante 1h30min, e o outro lado (Argentina? Itália? Alemanha?) fazendo a mesma coisa. Pois A BATALHA FINAL é exatamente assim. Talvez até menos empolgante, se é que isso é possível...

Trailer de A BATALHA FINAL



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The Final Sanction (1990, EUA)
Direção: David A. Prior
Elenco: Ted Prior, Robert Z'Dar, Renée
Cline, William Smith, David Fawcett,
Barry Silverman e Graham Timbes.