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quarta-feira, 11 de julho de 2012

A espetacular história do Espetacular Homem-Aranha da Cannon Films


Estreou no começo deste mês (julho/2012) a nova aventura cinematográfica do herói aracnídeo da Marvel Comics, “O Espetacular Homem-Aranha”, dirigida por Marc Webb. Eu não vi o filme, e nem pretendo ver tão cedo. Antes que algum curiosão pergunte o motivo, citarei três: primeiro, porque o Homem-Aranha deixou de ser um dos meus heróis preferidos depois que passei dos 13 anos de idade; segundo, porque já tive minha dose suficiente de Homem-Aranha com a trilogia recentemente dirigida por Sam Raimi, e terceiro, porque acho uma estupidez fazer um remake (ou “reboot”, o novo termo favorito dos nerds) de uma série que mal completou 10 anos. Lembrem-se que o primeiro “Homem-Aranha” do Raimi é de 2002!

Agora pare um pouco e pense comigo: qual a lógica de pagar para ver a mesmíssima origem do herói sendo recontada quando a versão apresentada por Sam Raimi ainda é tão recente? Por que perder tempo revendo a picada da aranha radioativa, o bullying sofrido por Peter Parker no colégio, a morte do Tio Ben e o clichê do “Grandes poderes, grandes responsabilidades”, somente com outros atores e ângulos de câmera? Ainda mais considerando que a origem do herói mostrada por Raimi era bem fiel aos quadrinhos, e nem os nerds chorões podiam se queixar disso - tá bom, o Aranha de 2002 tinha lançadores de teia biológicos, mas quem em sã consciência engole um moleque criar em casa uma cola semelhante a teia de aranha e lançadores mecânicos para dispará-la?


Enfim, mesmo que as três aventuras estreladas por Tobey Maguire tenham lá seus defeitos (e têm muitos), também têm várias qualidades e são razoavelmente divertidas e fiéis à fonte. Não vejo muita lógica em recomeçar tudo da origem se bastava continuar contando novas aventuras do Homem-Aranha estreladas por outros atores e dirigidas por outros diretores - mais ou menos como Joel Schumacher tentou fazer ao herdar o Batman de Tim Burton, ou Bryan Singer com seu “Superman Returns”, por piores que sejam estes filmes.

Mas chega de “O Espetacular Homem-Aranha”, porque vocês podem ler sobre ele na maioria dos sites e blogs de cinema pela internet afora. E somente aqui no FILMES PARA DOIDOS você vai encontrar um outro Homem-Aranha, um inexistente, mas que durante quase uma década povoou os sonhos de muitos cinéfilos. Estou falando, é claro, do Espetacular Homem-Aranha da Cannon Films!

Quem cresceu na década de 80 certamente lembra das produções baratas da Cannon, lançadas no Brasil pela América Vídeo com aquelas tradicionais capinhas azuis com estrelinhas brancas. Não vou me repetir: se quiser saber mais sobre Cannon/América Vídeo, leia meu post sobre o assunto clicando aqui.

A Cannon era bem popular pelas aventuras baratas estreladas por Chuck Norris, Charles Bronson e Michael Dudikoff, mas nunca escondeu o sonho de comandar produções milionárias. O problema é que eles se estreparam nas raras oportunidades em que gastaram um pouquinho mais de grana.

Para dar um exemplo: em 1987, Menahem Golan e Yoram Globus, os primos israelenses que presidiam a Cannon, viraram assunto na mídia por pagarem uma fortuna (15 milhões de dólares) para Sylvester Stallone estrelar o filme “Falcão - O Campeão dos Campeões”, cujo orçamento total ficou em 25 milhões (ou seja: Stallone embolsou sozinho a maior parte da grana!!!). Mas a carreira de “Falcão” nos cinemas foi um fiasco, e a bilheteria mal cobriu o que o astro do filme custou.

Tá, mas onde o Homem-Aranha entra nessa história toda?

Pois o personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko nos anos 60 estava praticamente implorando para virar filme. Até então, ele tinha ganhado sua própria série de desenhos animados (exibida entre 1967-1970), um seriado de TV live-action com 13 episódios chamado “The Amazing Spider-Man” (entre 1977-79), e até um seriado japonês chamado “Supaida-Man”, que estreou em 1978 e teve um total de 41 episódios, mostrando o herói às voltas com monstros e ninjas - e sim, ele também tinha um robô-gigante tipo “Jaspion” e “Changeman”.


Abertura do seriado “The Amazing Spider-Man”


Abertura do seriado “Supaida-Man”


Mas embora fizesse sucesso na TV e nos quadrinhos, o Homem-Aranha continuava inédito nos cinemas. Isso, claro, relevando-se picaretagens como a aventura turca “3 Dev Adam”, de 1973, que trazia Capitão América e El Santo enfrentando um Homem-Aranha malvado que, além do uniforme pobretão, em nada lembrava o personagem dos quadrinhos, muito menos lançava teias!

Mas eis que, em 1978, Richard Donner fez o mundo todo acreditar que o homem podia voar com “Superman - O Filme”, que transformou-se numa referência para toda e qualquer aventura cinematográfica de super-heróis - e, com uma bilheteria monstruosa, atraiu a atenção de outros produtores, que passaram a investir em filmes baseados em personagens dos quadrinhos tão díspares quanto Flash Gordon e Popeye.

Ironicamente, o mesmo Super-Homem que mostrou que era lucrativo fazer filmes de super-heróis também comprovou o perigo de investir em adaptações de quadrinhos, quando o fracasso comercial de “Superman III”, em 1983, deixou os grandes estúdios em alerta vermelho.


A partir de então, as aventuras de super-heróis migraram para as produções de baixo orçamento, onde permaneceriam até o "Batman" de Tim Burton.

E foi por volta dessa época que os nossos amigos da Cannon Films adquiriram os direitos para fazer sua própria versão cinematográfica do Homem-Aranha. A produção do filme começou a tomar corpo em 1984, quando a Cannon comprou uma página na Variety (famosa revista semanal especializada em cinema) e publicou o primeiro anúncio de “Spider-Man - The Movie”, com produção executiva de James Galton e Joseph Calamari (Galton era presidente e Calamari um diretor da Marvel à época).


O ARANHA DE TOBE HOOPER
Em 1984, Tobe Hooper era mais conhecido como um diretor de clássicos do horror, tipo “O Massacre da Serra Elétrica” e “Pague Para Entrar, Reze Para Sair”. Mas também tinha fama de encrenqueiro e junkie (diz-se que fazia quilômetro de arrancada com cocaína nos bastidores das filmagens), e saiu brigado do blockbuster “Poltergeist - O Fenômeno” (1982), produzido por Steven Spielberg. Uma das lendas mais famosas sobre o mundo do cinema garante que foi Spielberg quem realmente dirigiu o filme, com Hooper servindo apenas de figura decorativa.

Queimado em Hollywood por conta da experiência e da forma como lidou com ela, Hooper resolveu bandear-se para a Cannon em 1983, porque à época a produtora prometia total liberdade para seus diretores trabalharem. Assinou um celebrado contrato que lhe garantia dirigir três filmes, e a única exigência era que um deles fosse “O Massacre da Serra Elétrica 2”. Sabe-se lá quem teve a ideia de jerico de colocar logo Hooper para comandar o filme do Homem-Aranha, mas provavelmente Golan e Globus queriam aproveitar o fato de Tobe ter trabalhado com Spielberg em “Poltergeist” - àquela altura, Tobe era o mais próximo de “um grande diretor de Hollywood” fazendo filmes na Cannon, o que daria certa moral à produtora.

Mas parecia um desastre anunciado. E foi. Só que a culpa dessa vez não era de Hooper...

Acontece que a Cannon contratou o roteirista Leslie Stevens para escrever a adaptação para o cinema. Stevens era um veterano da TV norte-americana, que produziu e escreveu seriados como “Quinta Dimensão” (The Outer Limits, 1963-1965) e “Buck Rogers” (1979-1981), mas nunca deve ter lido um único gibi do Homem-Aranha. Ao invés de seguir a linha dos quadrinhos, o sujeito resolveu dar sua própria visão do personagem, aproveitando apenas o nome do herói!

Dá só uma sacada: no roteiro de Stevens, Peter Parker seria um fotógrafo trabalhando para um poderoso laboratório chamado Zyrex Corporation. Seu diretor, o maligno Dr. Zyrex, faria experiências com Parker sem o consentimento do rapaz, bombardeando-o com raios radioativos. Quando uma inofensiva aranha entra na mistura, Parker sofre uma mutação estilo “A Mosca”, transformando-se num monstro meio homem, meio tarântula, com oito patas (!!!). Zyrex convida o recém-criado “Homem-Aranha” para integrar seu exército de mutantes e dominar o mundo, mas ele prefere voltar-se para o lado do bem e combater o cientista e seus monstros, numa aventura que estava mais para “A Ilha do Dr. Moreau” do que para o Homem-Aranha que todo mundo conhece!

Àquela altura, Hooper estava em Londres filmando seu primeiro longa para a Cannon, a mistura de horror e ficção científica “Força Sinistra”, baseada no livro “Space Vampires”, de Colin Wilson. Golan e Globus tentavam emplacar o projeto há anos (antes, ele tinha passado pelas mãos de diretores como Luigi Cozzi e Michael Winner!), e investiram pesado para que aquele fosse um dos grandes blockbusters de 1985 (o que não aconteceu: o filme custou 25 milhões e rendeu apenas 11 milhões nos cinemas...).

Enquanto filmava “Força Sinistra”, Tobe recebia relatos sobre a polêmica em torno daquele que seria o seu primeiro filme de super-herói. Um artigo da revista Cinefantastique sobre a adaptação de Homem-Aranha enfureceu os fãs do herói e o próprio co-criador do personagem, Stan Lee, que exigiu mudanças no roteiro para ficar minimamente parecido com os gibis. Preocupados com a repercussão negativa, Golan e Globus voltaram à estaca zero: demitiram Leslie Stevens e chamaram Ted Newsom (que até então havia escrito apenas roteiros de filmes pornográficos!) e John D. Brancato para escrever um novo roteiro usando ideias do próprio Stan Lee.

Só que, enquanto o novo roteiro era escrito, foi Tobe Hooper quem resolveu desligar-se do projeto. Ele decidiu que o segundo de seus três filmes para a Cannon seria um projeto dos sonhos: a refilmagem da ficção científica “Invasores de Marte” (1953), um dos seus filmes preferidos quando criança. Na época, vários mestres do terror estavam revisitando seus clássicos da infância dos anos 1950: John Carpenter refilmou “The Thing”, David Cronenberg logo estaria refilmando “The Fly”. Embora nostálgico e bem intencionado, o remake de Hooper naufragou e foi seu segundo fracasso consecutivo para a Cannon. “O Massacre da Serra Elétrica 2” seria o terceiro, jogando o até então promissor Tobe num ostracismo de dar pena...


O ARANHA DE JOSEPH ZITO
Com a saída de Tobe Hooper, o Homem-Aranha da Cannon estava sem diretor. Mas pelo menos tinha um roteiro novo, escrito a quatro mãos por Newsom e Brancato a partir dos pitacos de Stan Lee. Era bem mais fiel ao personagem dos gibis do que aquela aberração anterior, mas tomava algumas liberdades poéticas em relação à origem do Homem-Aranha: Peter Parker seria aluno do cientista Otto Octavius, o Dr. Octopus, e ambos ganhariam seus poderes a partir de um acidente no laboratório do mentor do herói.

A partir de então, enquanto Octopus inicia sua carreira de crimes, o jovem Peter aproveita seus novos poderes primeiro numa exibição de luta-livre com Hulk Hogan (um astro do esporte popularíssimo na época), depois participando do “The Tonight Show with David Letterman” - e sim, as duas celebridades estavam cotadas para aparecer no filme! Então seu Tio Ben seria morto pelo mesmo bandido que ele deixou escapar horas antes, fazendo surgir um Homem-Aranha bem fiel aos gibis.

Se quiser ler este roteiro nunca produzido, basta clicar aqui.


Vários personagens e situações dos quadrinhos já apareciam nesse roteiro, como o valentão da escola, Flash Thompson, que abusava de Peter Parker, mas ao mesmo tempo era fã do Homem-Aranha. E, claro, o editor-chefe do Clarim Diário, patrão e arquiinimigo do herói, J. Jonah Jamenson - que, vejam só, seria interpretado pelo próprio Stan Lee!

Mas o detalhe mais interessante deste roteiro era em relação ao interesse romântico do herói. Nem Gwen Stacy, nem Mary Jane Watson: Newtom e Brancato optaram por colocar Liz Allen (imagem abaixo), que, nos gibis, foi o primeiro interesse romântico de Peter Parker! Ignorada em todas as outras adaptações para o cinema, ela era namorada de Flash Thompson e apareceu já nas primeiras aventuras do Aranha, entre 1962-1965, mas nunca chegou a realmente namorar Peter - pelo contrário, mais tarde ela acabou se casando com seu amigo, Harry Osborn!

Numa entrevista recente, Ted Newsom comentou a decisão de colocar Liz (ao lado) como interesse romântico do herói: “Nós não escolhemos Liz Allen, John e eu originalmente queríamos Gwen Stacy, e o filme terminaria com a sua morte nas mãos do Duende Verde e tudo mais. Mas Stan era totalmente contra isso, e ele queria usar o Dr. Octopus como vilão. Depois de Gwen, Liz Allen era nossa única escolha, porque Mary Jane não era a pessoa certa para Peter naquele momento. Seria como se Raquel Welch com 40 anos se apaixonasse por um moleque de 14 anos. Mary Jane conhece Peter na fase certa nos quadrinhos, mas antes disso ele não teria nenhuma chance com uma gata como ela. Assim, nossa Liz era o tipo de garota pela qual todo mundo ficaria atraído no colégio: bonita, mas não linda demais, inteligente e divertida”.

O roteiro também foi aprovado pelo presidente da Marvel e produtor executivo James Galton, que, numa carta timbrada a Cannon, escreveu: “O script é soberbo. A esse ponto eu já li uns 12 roteiros e tratamentos para filmes do Homem-Aranha, mas esse é de longe o melhor!”.

(Na mesma carta, Galton reclama de um outro projeto que estava sendo tocado pela Cannon na época e que não saiu do papel: o filme do Capitão América, que seria dirigido por Michael “Desejo de Matar” Winner. Galton queixou-se que o roteiro de Winner e Stan Hey era “bloody awful”, decretando a morte prematura da produção. Mas esta é outra história que contaremos em breve por aqui...)

Sem Tobe Hooper, a Cannon resolveu chamar outra das suas galinhas dos ovos-de-ouro para comandar o filme do Aranha: Joseph Zito, que havia feito “Sexta-feira 13 Parte 4” para a Paramount e desde então trabalhava exclusivamente com a Cannon. Seus trabalhos anteriores para a produtora (“Braddock - O Super Comando” e “Invasão USA”, ambos com Chuck Norris) custaram pouco e renderam uma boa grana.

Zito era fã dos gibis do Homem-Aranha desde criança e ficou emocionadíssimo com o convite. Como piada interna, resolveu colocar um trecho do velho desenho animado do herói numa cena em que Chuck Norris assistia TV em “Braddock”, anunciando assim, extraoficialmente, que seu próximo projeto seria o filme live-action do Aranha. Pena que não rolou...

Mas o projeto pelo menos começou a tomar forma, novamente com James Galton e Joseph Calamari como produtores executivos. O dublê Scott Leva foi contratado para interpretar Peter Parker e o Homem-Aranha, e o inglês Bob Hoskins seria o Dr. Octopus. Embora Hoskins nunca tenha sido oficialmente contratado, Leva chegou a fazer fotos de divulgação vestindo o uniforme do Aranha, e uma delas foi usada na capa da revista “The Amazing Spider-Man” nº 262, de março de 1985 (ao lado), atiçando ainda mais a curiosidade dos fãs.

A pré-produção não parou por aí: Zito escolheu estúdios na Itália e na Inglaterra para rodar o filme, e contratou os renomados ilustradores Mentor Huebner e Nikita Knatz para desenhar os storyboards.

Foram feitos testes de efeitos especiais para ver como ficariam os movimentos do Homem-Aranha balançando em suas teias e dos tentáculos do Dr. Octopus. Também foi produzido um teaser trailer que não mostrava muita coisa além do uniforme do herói, anunciando “Joe” Zito como diretor.


Teaser trailer do "Homem-Aranha" da Cannon!


A Cannon gastou 1,5 milhão de dólares só nessa etapa de pré-produção do filme, e tudo indicava que agora o Aranha finalmente sairia dos gibis para o cinema. Tanto que a produtora chegou a comprar duas páginas na edição de outubro de 1985 da Variety para divulgar “Spider-Man - The Movie”.

Mas aí recomeçaram os problemas: o roteiro já estava pronto e aprovado, mas Zito resolveu chamar seu amigo Barney Cohen (que escreveu "Sexta-feira 13 Parte 4") para “polir” o trabalho de Newsom e Brancato. Aí o produtor Menahem Golan, usando o pseudônimo “Joseph Goldman”, aproveitou para mexer no roteiro também, dando origem a um segundo tratamento no começo de 1986.

As principais mudanças em relação ao roteiro anterior é que o Dr. Octopus ganhou uma expressão característica (“Ookey-dookey”, repetida toda hora) e um capanga chamado Weiner, que seria o responsável por matar o tio de Peter Parker. O herói também foi representado de uma maneira mais dark e violenta (chupa, Zack Snyder!), inclusive surrando o rival Flash Thompson quase até a morte em determinado momento!



A Cannon já tratava “Spider-Man - The Movie” como seu principal lançamento de 1986, marcando a data de lançamento para o Natal daquele ano. Foram produzidos teaser posters e banners anunciando a chegada do Homem-Aranha aos cinemas em “Christmas 86”, mas então um novo empecilho emperrou de vez a produção: os problemas financeiros que a pequena produtora enfrentava na época.

Como outros filmes de super-herói feitos nos anos anteriores tinham dado prejuízo (entre eles o péssimo “Supergirl”, em 1984), Golan e Globus achavam arriscado investir entre 15 e 20 milhões numa aventura do Homem-Aranha. Eles precisavam de um outro projeto que fosse garantia de bom retorno nas bilheterias, e cujo lucro pudesse ser depois investido no filme do Aranha.

Ironicamente, a opção foi por “Superman IV - Em Busca da Paz”! A Cannon torrou 17 milhões, um valor expressivo na época, para colocar o finado Christopher Reeve em sua quarta aventura como Super-Homem. Mas o resultado foi um fracasso: o filme arrecadou pouco mais de 15 milhões nas bilheterias, colocando a saúde financeira da produtora praticamente em coma.

No mesmo ano de 1987, outra cacetada: a Cannon investiu US$ 22 milhões em “Mestres do Universo”, a versão live-action do desenho animado do He-Man, com Dolph Lundgren. Tinha tudo para ser um sucesso, mas os fãs do desenho não engoliram a produção barateira - que transferia os personagens de Eternia para o planeta Terra para economizar em cenários e figurinos. A resposta nas bilheterias ficou em 17 milhões, bem abaixo do custo do filme.

Com duas decepções em tão pouco tempo, ainda mais considerando que eram produções relativamente caras para os padrões da produtora, os cofres da Cannon Films sofreram danos irreparáveis. E o filme do Aranha, claro, foi abortado pela segunda vez, enquanto Golan e Globus colocavam em prática um plano desesperado: investir no maior número possível de aventuras baratas com Chuck Norris, Charles Bronson e Michael Dudikoff, os “astros” da Cannon àquela altura, para tentar estancar a sangria, pagar as dívidas e colocar-se de volta no jogo.



O ARANHA DE ALBERT PYUN
Em 1987, a Cannon perdeu temporariamente os direitos sobre o Homem-Aranha para a New World Pictures, mas a pequena produtora também não conseguiu levar o herói para os cinemas. Golan e Globus não desistiram e compraram de volta os direitos. Durante um curto espaço de tempo, os produtores ofereceram o projeto para quem quer que estivesse trabalhando com eles e fazendo filmes que dessem dinheiro. Até mesmo o italiano Ruggero Deodato, de “Cannibal Holocaust”, que tinha acabado de fazer a cópia de Conan “Os Bárbaros” (1987) para a Cannon, disse que chegou a ser sondado para dirigir a tal aventura do Aranha!

“Spider-Man - The Movie” voltou a ser a menina-dos-olhos da Cannon em 1988, e Albert Pyun acabou sendo o terceiro diretor oficialmente contratado para levar o aracnídeo aos cinemas. Ele vinha numa carreira ascendente no cinema independente: depois da bem-sucedida aventura pós-apocalíptica “Viagem Radioativa” (1985), fez três filmes para Golan e Globus que se pagaram (“Caçada Perigosa”, “O Tesouro de San Lucas” e “Uma Estranha em Los Angeles”, entre 1986 e 1987).

Mais do que isso, Pyun provou aos primos israelenses em dificuldade financeira que conseguia não apenas trabalhar rápido e com pouco dinheiro, mas ainda fazer milagres: o diretor chegou a completar um filme deixado inacabado por outro diretor, e que se transformaria numa aventura incompreensível batizada “Jornada ao Centro da Terra” (para cumprir compromissos assumidos com distribuidores).

Pyun teria um orçamento irrisório de 10 milhões de dólares para filmar seu Homem-Aranha, mas não esmoreceu. Se desse certo, seria um belo empurrãozinho para produções maiores em grandes estúdios. Só que os planos foram se complicando: de repente, os produtores resolveram filmar “Spider-Man” e “Mestres do Universo 2” ao mesmo tempo, e reutilizando os mesmos cenários, para economizar dinheiro. E as duas aventuras seriam dirigidas back-to-back por Pyun: num momento ele filmaria o Aranha entrando por uma porta; uma hora depois, o He-Man entrando pela mesma porta!


O diretor chegou a dar entrevistas falando sobre a adaptação do Aranha - uma delas publicada na revista Cinefantastique em 1988. Ele chamou o ator Don Michael Paul para escrever um novo roteiro, já que a história com o Dr. Octopus jamais poderia ser filmada com um orçamento tão baixo.

A essa altura, os executivos da Marvel já tinham deixado a produção executiva, que ficou com Tom Karnowski, o produtor habitual dos filmes baratos de Albert Pyun.

A nova aventura do Homem-Aranha seguiria os passos da anterior, narrando a origem do herói, mas com um vilão “original”: o cientista Russell Tanner, que se transformava num híbrido de humano e morcego chamado The Night Ghoul (nossa, que original!).


Enquanto Don Michael Paul escrevia seu roteiro, os produtores publicaram sobre a pré-produção do filme na Variety de 24 de outubro de 1988. Meses depois, a revista fez uma reportagem sobre a obra e inclusive entrevistou Stan Lee, que falava otimista sobre a adaptação.

O problema é que quando o novo script ficou pronto, os produtores perceberam que este também tinha fugido do clima dos gibis - era uma história cheia de sangue e violência. Decidiram chamar às pressas Shepard Goldman (roteirista de “Salsa - O Filme Quente”, musical com Robby Rosa produzido pela Cannon) para “corrigir” o script, dando um tom mais leve e censura livre à trama. Goldman acabou creditado como único roteirista em alguns materiais de divulgação, tal a quantidade de alterações que fez no script original de Don Michael Paul.

Apesar de nem haver um roteiro definitivo, a Cannon continuava marcando o “lançamento” do filme, dessa vez para o Natal de 1989. Mas precisou baixar ainda mais o orçamento, obrigando Pyun a buscar um novo roteiro. Dessa vez foi Ethan Wiley (diretor-roteirista de “A Casa do Espanto 2”!) quem assumiu a bronca, dando origem a mais uma história sem pé nem cabeça, à altura daquela criada por Leslie Stevens lá em 1984.


Olha só que bagaça: Peter Parker seria um pobre estudante de ciências vivendo no Queens, bairro pobre de Nova York, e que trabalha como pupilo para um cientista louco. Este cria uma poderosa droga batizada T-Devil, que vende para a Máfia. O entorpecente dá superpoderes aos usuários (!!!), mas seu consumo constante provoca a explosão do coração do infeliz! Finalmente, durante uma experiência frustrada, tanto o cientista quanto Peter ganham superpoderes: ele vira o Homem-Aranha, e o vilão uma mistura de homem e escorpião, que seria combatido pelo novo herói!

Até esse momento, o dublê Scott Leva continuava sendo sondado para viver Peter Parker/Homem-Aranha na telona. Ele leu todas as versões do roteiro feitas desde 1985, testemunhando como o negócio foi degringolando. Num artigo publicado pela revista Starlog em 2002, intitulado “The Man Who Was Almost Spider-Man”, declarou: “O roteiro de Ted Newsom e John Brancato era bom, mas ainda precisava de alguns detalhes. Infelizmente, ele foi reescrito por outros roteiristas tantas vezes que foi do bom para o ruim, até chegar ao terrível!”.

A Variety de 22 de fevereiro de 1989 (abaixo) traz mais uma vez o filme do Aranha como “futuro projeto” da Cannon, com data de início das filmagens marcada para março daquele ano, ao lado de outros filmes que realmente foram produzidos, como “De Volta Para o Futuro 2”.


Aí veio o golpe de misericórdia: tanto a empresa de brinquedos Mattel (que tinha os direitos sobre He-Man) quanto a Marvel rescindiram o contrato com a Cannon devido aos problemas financeiros da produtora, e a tão sonhada filmagem conjunta de “Mestres do Universo 2” e “Spider-Man - The Movie” foi cancelada de vez.

Como Pyun já havia gasto bastante dinheiro na pré-produção dos dois filmes, inclusive construindo cenários e figurinos para as aventuras, foi contratado para dirigir “Cyborg - O Dragão do Futuro”, com Van Damme, praticamente de graça, como tapa-buraco, reaproveitando os materiais produzidos originalmente para as aventuras do He-Man e do Homem-Aranha! Assim, da próxima vez que você ver o filme do Van Damme, tente imaginar que podia ser o escalador de paredes, ou o He-Man, andando por aqueles cenários...

“Cyborg - O Dragão do Futuro” acabou sendo o último filme da Cannon a chegar aos cinemas, já que a produtora pediu falência no final da década de 80.


O ARANHA DE JAMES CAMERON
No mesmo ano de 1989 em que a Cannon cancelou de vez a produção do filme do Aranha, o “Batman” de Tim Burton estreou arrebentando a boca do balão e mostrando que aventuras inspiradas em heróis dos quadrinhos ainda podiam ser lucrativas. Afinal, a Warner faturou mais de 410 milhões de dólares no mundo todo com um filme que custou “apenas” US$ 35 milhões (calcule aí o lucro).

A Cannon já não existia mais a essas alturas, mas um de seus sócios, Menahem Golan, criou a 21st Century Film Corporation e achava que aquele era o momento certo para emplacar seu “Spider-Man - The Movie”. Ele jogou no lixo todos aqueles scripts horríveis de baixo orçamento e recuperou o roteiro que Newsom e Brancato escreveram lá atrás em 1985 - aquele com o Dr. Octopus como vilão.


Em maio de 1989, no Festival de Cannes, Golan disse que começaria a filmar em setembro e conseguiu vender os direitos para lançamento doméstico, que ficaram com a Columbia Pictures. Através dela, o diretor Stephen Herek (“Criaturas”) chegou a ser cogitado para comandar a adaptação. Mas o estúdio pediu algumas alterações no script. Dois roteiristas foram contratados e entregaram seus tratamentos: primeiro Frank LaLoggia (diretor-roteirista de “A Dama de Branco”, e mais associado ao cinema de horror); depois Neil Ruttenberg (roteirista de aventuras vagabundas como “Deathstalker 2”, produzido por Roger Corman).

Enquanto isso, Golan não parava de publicar anúncios na Variety sobre a suposta “pré-produção” da aventura, numa tentativa de tentar atrair possíveis investidores. O primeiro anúncio saiu em 1990, e dizia: “1990 - O ano do Homem-Aranha!”.

O segundo é de 1991 (ao lado), e anuncia como roteiristas Ruttenberg e “Joseph Goldman” (o próprio Golan), além da produção executiva de Stan Lee e Joseph Calamari (de volta ao projeto depois da “fase Pyun”).

O máximo que Golan conseguiu dessa vez foram alguns testes de efeitos especiais realizados em 1990 pela empresa canadense Light and Motion e pelo animador em stop-motion Steven Archer, que trabalhara em “Krull” e “Fúria de Titãs”.

Vencido pelas dificuldades de trabalhar com baixo orçamento, Golan desistiu do Aranha e partiu para a produção daquela aventura do Capitão América que também vinha tentando fazer desde os anos 80, e que seria bem mais fácil porque envolvia um herói mais humano, sem exigir grandes efeitos especiais. O resultado foi aquele trashão dirigido por Albert Pyun em 1990, com Matt Salinger no papel principal.

Já os direitos sobre o Homem-Aranha passaram para uma outra companhia, a Carolco de “Rambo 3”, “O Vingador do Futuro” e “O Exterminador do Futuro 2”. E, graças à mudança de casa, um certo James Cameron acabou se interessando pelo projeto.

Cameron resolveu escrever o seu próprio filme do Homem-Aranha, e enviou um pré-roteiro com 47 páginas para os executivos da Carolco em 1991. Esse tratamento conta a origem do herói e traz dois vilões de uma só vez, Electro e Homem-Areia (algo que depois viraria moda nos filmes de super-heróis).

Mas Cameron não se manteve tão fiel aos gibis, preferindo criar a sua própria versão da origem desses bandidões. O filme terminaria com uma batalha épica no topo do World Trade Center, quando Peter Parker revelaria a Mary Jane que era o Homem-Aranha.

Quer ler como seria o “James Cameron's Spider-Man”? Então clique aqui!

Embora o argumento tenha sido bastante elogiado à época, os produtores discordavam do tipo de aventura que Cameron pretendia fazer. Eles queriam um filme censura livre e divertido para a garotada, mas o pré-roteiro do diretor tinha violência, um Homem-Aranha que falava palavrões (inclusive xingando os vilões de “filho da puta”) e até uma cena de sexo entre Parker e Mary Jane - afinal, eram os anos 1990, quando todo mundo estava trepando no cinema!

Com o andar da carruagem, o projeto começou a ser revisado. A Carolco anunciou nas páginas da Variety a pré-produção de “Spider-Man - A James Cameron Film”, e o diretor de “Titanic” chegou até a mexer naquele antigo roteiro de Newsom e Brancato, anunciando que gostaria de ter Arnold Schwarzenegger como Doutor Octopus (o que nunca aconteceu, mas restou ao gigante austríaco o “consolo” de interpretar um vilão da DC, o Senhor Frio, no abominável “Batman & Robin” de 1997).


Aí foi a vez de a Carolco falir, e com ela o Homem-Aranha acabou perdido nas teias da burocracia, passando de um estúdio a outro, numa trajetória longa e complicada demais para resumir aqui. Parecia até um projeto amaldiçoado, e, como tal, ninguém mais quis gastar dinheiro com ele.

Até a Columbia/Sony finalmente produzir o “Homem-Aranha” de Sam Raimi em 2002, quase 20 anos depois da primeira concepção de uma aventura cinematográfica do herói.

Coincidentemente, Raimi também era um diretor associado ao cinema de horror, como Tobe Hooper, que foi a primeira escolha para dirigir o filme do Aranha lá atrás, em 1984...


O resto é história: se a Cannon suava para juntar uns 20 milhõezinhos para poder fazer o seu “Spider-Man - The Movie”, a Columbia transformou a primeira aventura do herói num blockbuster de US$ 139 milhões, que arrecadou, no mundo inteiro, assombrosos 821 milhões de dólares!

Apesar disso, eu confesso que fico imaginando como seria aquele Espetacular Homem-Aranha pobretão da Cannon Films, e o que diretores tão díspares quanto Tobe Hooper, Joseph Zito, Albert Pyun e James Cameron poderiam ter feito com o personagem...

PS: A tragicômica história do Homem-Aranha da Cannon Films estava praticamente esquecida, mas foi resgatada há alguns anos através do livro “Spider-Man Confidential: From Comic Icon to Hollywood Hero”, de Edward Gross, e pelos relatos publicados nos sites The Cannon Films Archive e Video Junkie, principais fontes de pesquisa para esse dossiê em português. Curtiu? Então divulgue e torne pública a espetacular jornada do herói aracnídeo pelo mundo do baixo orçamento!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

GUERREIROS DO FUTURO (1983)


Quem viver, verá: o mundo será destruído, nos próximos anos, por uma gigantesca explosão nuclear, e em 2019 os sobreviventes desta tragédia precisarão se adaptar à vida em um planeta árido e semi-destruído. Neste ano, os edifícios e as cidades se transformaram em escombros e a face da Terra virou um enorme deserto, mas, milagrosamente, todos os automóveis estão em perfeitas condições e, pelo jeito, os postos de gasolina continuam funcionando, já que ninguém nunca fica sem combustível. Neste mundo do futuro, o maior desafio não será a falta de água ou de comida, nem a radiação da atmosfera, mas sim um grupo de mercenários frutinhas, com fetiche por ombreiras enormes e um bizarro ritual de iniciação, que varrem o deserto aniquilando os sobreviventes do holocausto sem motivo.

Assim será o nosso futuro, pelo menos na visão do cineasta italiano Enzo G. Castellari e seu irresistível trash movie "I Nuovi Barbari", lançado duas vezes no Brasil: pela Jota Home Vídeo como GUERREIROS DO FUTURO (adotaremos este nome a partir de agora) e pela Sagres como "2019 - Os Bárbaros do Futuro".


Como fã de podreiras e filmes bagaceiros, toda noite, antes de dormir, eu rezo uma Ave-Maria para o cineasta George Miller, aquele australiano que dirigiu a trilogia "Mad Max". Afinal, Miller não só deu ao mundo do cinema dois filmaços (o terceiro é fraco), mas também originou toda uma série de clones e imitações baratas feitas no mundo inteiro, do Brasil às Filipinas!

E foi na Itália que a estética "pós-nuclear" fez mais sucesso, talvez por serem produções razoavelmente baratas: não era necessário construir cenários, pois bastava usar sets semi-destruídos de outras produções; nem era necessário gastar em figurinos, pois bastava usar roupas rasgadas e sobras de outros filmes.


De uma vez só, entre 1982 e 84, pipocaram diversos filmes de ação apocalípticos na Terra da Bota, como "O Exterminador do Século 3000", "O Guerreiro do Mundo Perdido", "O Executor Final" e este GUERREIROS DO FUTURO, que é, disparado, um dos melhores (ou pelo menos mais engraçados) da safra.

O responsável pela brincadeira, Castellari, acabava de sair de uma pendenga judicial que tirou dos cinemas americanos sua produção anterior, "O Último Tubarão" (1981), acusado de ser "muito parecido" com o "Tubarão" de Spielberg. Aparentemente com um orçamento precário, que transparece o tempo inteiro na tela, o diretor fez de GUERREIROS DO FUTURO uma aventura esquisita, barata e involuntariamente cômica.


Eu nunca consegui entender até que ponto o roteiro (assinado por Castellari, Tito Carpi e Antonio Visone) é sério ou sátira ao subgênero, mas uma coisa é certa: este é um dos filmes mais gays da história. Esqueça "Top Gun", esqueça "A Hora do Pesadelo 2", esqueça Rocky e Apollo correndo e se jogando água na praia em "Rocky 3", pois aqui o nível de baitolagem é da pesada!

GUERREIROS DO FUTURO já começa a mil: nos créditos iniciais, a explosão de uma maquete super-tosca em cartolina representa o suposto fim do mundo. Na minha opinião, porém, o verdadeiro fim do mundo é o tenebroso tema de sintetizador que toca na abertura, composto pelo mestre Claudio Simonetti (sim, o ex-Goblin, em dia de dor de barriga)!


Imediatamente após os créditos, vemos alguns escombros, esqueletos (um deles veste uma bizarra roupa feminina com um espaço transparente para colocar os peitos!!!) e um letreiro informativo: "2019 A.D. - O holocausto nuclear terminou".

Dali, a câmera de Castellari corta imediatamente para uma colônia de sobreviventes do fim do mundo - na verdade, um mero acampamento com carros velhos e tendas -, onde um operador de rádio tenta encontrar sinais em ondas curtas. Os tais sobreviventes, pelas roupas e bigodões, parecem figurantes saídos de algum filme barato sobre a Segunda Guerra Mundial - tem até um velho vestido como coronel nazista!!!


Quando o operador de rádio finalmente detecta um sinal distante, prova irrefutável de que há gente transmitindo de algum lugar ali perto, o tema de sintetizador recomeça e surgem os vilões do filme, os tenebrosos Templários!

Os Templários são malvados, vestem-se de branco dos pés à cabeça, com umas ombreiras enormes tipo jogador de futebol americano, e suas roupas estão sempre limpinhas (apesar de viverem num mundo pós-apocalíptico sem máquina de lavar nem Omo). São revoltadinhos provavelmente por causa de suas roupas abichonadas, de seus cortes de cabelo grotescos e de seus carros fuleiros, porque todo mundo no filme possui carrões envenenados, mas eles dirigem umas latas-velhas que parecem aqueles velhos buggies de praia - e, ao invés de barulho de motor, emitem um som xarope tipo "bzzzzzzzzz".


Dentro da sua "missão sagrada" de exterminar todos os sobreviventes do holocausto, os malvados atacam o acampamento com suas armas que disparam laser e seus carrinhos fuleiros, mas cheios de acessórios à la James Bond. Um deles tem até uma hélice circular, tipo ventilador, que surge na lateral para decepar cabeças de imbecis que tentam fugir correndo - arma que seria completamente inútil se alguma das vítimas tivesse a inteligência de DEITAR no chão para escapar por baixo da maldita hélice!

Você sabe que está vendo um filme de Enzo G. Castellari quando, por piores que sejam os efeitos e figurinos, as cenas de ação - extremamente violentas - acontecem todas em câmera lenta, mostrando em detalhes pessoas caindo fulminadas por tirambaços ou explodidas em pedacinhos sangrentos, além de dublês virando cambalhotas, atirados ao ar por explosões!


O líder dos Templários é um gigante chamado One, interpretado por ninguém menos que George Eastman (nome de batismo: Luigi Montefiori), o assassino canibal de "Antropophagous" e vilão em incontáveis produções italianas do período. One passa o filme todo dando discursos sem pé nem cabeça que, teoricamente, justificam a matança injustificada perpetrada pelo seu grupo. Ao rasgar no meio uma Bíblia encontrada no acampamento dos ex-sobreviventes, por exemplo, ele declara, filosófico: "Livros... Foi isso que começou o Apocalipse"!

O que importa é que pelo menos os próprios Templários seguem fielmente o seu mestre, e parecem entender seus discursos desconexos, já que vibram e gritam "One! One!" em uníssono após cada abobrinha dita pelo seu líder.


One tem um braço direito, um frescão chamado Shadow, que fica uma gracinha com seu cabelo comprido amarrado em cima da cabeça num coque, tipo uma bailarina anabolizada - e é interpretado por Thomas Moore, ou Enio Girolami, irmão do diretor Castellari, pagando mico provavelmente em consideração aos laços familiares.

Ah sim: One também tem um "queridinho" entre seus soldados, Mako (Massimo Vanni), com corte de cabelo moicano e tudo mais. "Você mima ele demais!", queixa-se um ciumento Shadow, mas o líder quer Mako como seu sucessor - ou namorado, tire suas próprias conclusões. E a baitolagem está só começando...


Mas os Templários não perdem por esperar: eis que naquele mundo devastado também existe um valente guerreiro pós-apocalíptico chamado Mad Max... ou melhor, Scorpion! E interpretado por Timothy Brent (nome de batismo: Giancarlo Prete), um dos grandes nomes do cinema de ação oitentista carcamano, que apareceu também em "Tornado" e "Fuga do Bronx".

Scorpion, na verdade, é um projeto de herói: odeia os Templários, mas nunca fica claro se já foi um deles ou se era ex-namorado de One; veste uma justíssima calça de couro marrom com uma proteção ultra-gay sobre o saco, amarrada com o que parece ser um fio-dental que passa pela bunda; usa também um casaco de pele com duas ombreiras extra-large (será uma herança dos seus tempos como Templário?), e dirige um velho Dodge Charger com um crânio prateado na lataria e uma enorme abóboda de vidro (plástico?) no teto, lembrando tanto um disco voador quanto um carro alegórico de alguma escola de samba de quinta categoria!


Ah, vale destacar que o carrão de Scorpion é ainda mais incrementado que os carrinhos dos Templários. Aliás, dá um banho no Batmóvel, no Aston Martini do James Bond e no carro do Stallone Cobra JUNTOS.

Acompanhe: além da abóboda de vidro no teto, do crânio na lataria e de canos prateados que saem misteriosamente das laterais e não têm nenhuma finalidade específica, o carrão tem um painel repleto de botões coloridos, que Scorpion usa para fazer praticamente TUDO. Um botão abre o capô, outro abre as portas, outro faz a porta do lado do motorista voar para longe do carro quando um vilão gruda uma bomba na dita cuja, outro dispara mísseis, e por aí vai.


E como todo carrão tem que ter sonzeira, Scorpion também tem um rádio - que não toca nem fitas nem CDs, mas uns moderníssimos cubinhos de plástico que são a mídia digital do futuro. Isso mesmo, amiguinhos: Castellari previu o pen drive!

Em sua primeira aparição no filme, Scorpion detona meia dúzia de saqueadores que estavam roubando o que sobrou daquele acampamento destruído pelos Templários. Encontra um sobrevivente em estado lamentável (interpretado pelo diretor Castellari, em participação especial), e dá um tiro no homem para poupar-lhe do sofrimento, transformando-o também em ex-sobrevivente.


Depois, o herói dá uma passada em sua "oficina mecânica pós-apocalíptica", um trailer administrado pelo garotinho Giovani Frezza ("A Casa do Cemitério"). Além de mecânico dos bons, eis que o anônimo garoto também é um terror no estilingue, e aparentemente só sobreviveu até então porque mata seus desafetos disparando certeiras estilingadas (o filme nunca se preocupa em mostrar o quê, exatamente, ele dispara, mas os inimigos colocam a mão no pescoço, dão gritos de dor e caem mortos instantaneamente!!!).

Em seguida, quando um pelotão de Templários está perseguindo um comboio de sobreviventes (resumido a um único furgão prateado por limitações orçamentárias), Scorpion tem sua primeira chance de mostrar porque, afinal, é o herói do filme. Ele aparece do nada e salva uma garota que está vestida como assistente de mágico, com biquíni e capa púrpura - o IMDB diz que seu nome é Alma, mas ninguém nunca chama a pobre moça pelo nome durante o filme inteiro!


Ela é interpretada pela bela Anna Kanakis, Miss Itália de 1977 que depois acabou se perdendo nessas presepadas. A moça protagoniza até uma cena de sexo com o galã italiano à meia-luz, dentro de uma esquisita tenda de plástico!

Ao perceber que o herói não vai deixar que matem a garota, Shadow (aquele vilão-bailarina com cabelo em coque, lembra?) prefere discutir com Scorpion ao invés de matá-lo de uma vez: "Você também rouba e mata, não é diferente de nós!", acusa Shadow. Calmamente, o herói responde: "Eu quero viver, enquanto vocês querem exterminar todos os seres humanos para que nada mais viva na Terra".


O que me leva a uma velha dúvida: a missão de "exterminar todos os sobreviventes do fim do mundo" não desembocará neles mesmos, que também são sobreviventes, tipo a serpente que come o próprio rabo? Será que, quando acabarem seu "trabalho", os Templários vão matar um ao outro, ou simplesmente passar o resto da vida escutando os discursos de One e fazendo troca-troca?

E já que estamos falando em One, é claro que o bofe não está nem um pouco contente ao saber que Scorpion salvou a moça do extermínio. Shadow sugere matá-lo, mas One aparentemente ainda mantém uma pontinha de amor platônico e berra: "Não! Seu sangue não é suficiente... Ele tem que me dar seu orgulho, e sua alma!". Orgulho e alma??? Hmmm... Tá bom, mudou de nome...


A partir de então, GUERREIROS DO FUTURO transforma-se num festival de encontros e desencontros do herói com os Templários, que evoluem para o progressivo extermínio desses últimos e de praticamente todos os sobreviventes do apocalipse que são pegos no meio do fogo cruzado.

Lá pelas tantas, também surge o norte-americano Fred Williamson, astro de nove entre cada dez tralhas da época que precisavam de um negro mal-encarado e bom de briga. Ele, que já tinha sido dirigido por Castellari em "1990 - Os Guerreiros do Bronx", interpreta Nadir, um arqueiro que usa uma ridícula luva dourada repleta de pontas de flecha explosivas (coloridas, mais parecem luzinhas de Natal!). Detalhe: as tais pontas de flecha nunca acabam, nem se tenta explicar onde Nadir consegue repor seu arsenal...


O que interessa é que, durante os combates, Nadir perde um tempão escolhendo a ponta, atarrachando na flecha e só então disparando - e, nesse meio-tempo, nenhum vilão é esperto o suficiente para meter um tiro na fuça do sujeito! Como são explosivas, elas fazem os Templários em pedacinhos - espere só para ver o bandido que toma uma flechada no pescoço e tem a cabeça explodida em câmera lenta, mas continua pilotando sua motocicleta por algum tempo sem cabeça!

GUERREIROS DO FUTURO é um clássico instantâneo para os escolados em bagaceirices italianas, fãs de tralha diversas e adoradores de trash movies. Se você assisti-lo em turma, fica difícil segurar o riso por mais de cinco segundos: ou você gargalha com os diálogos bisonhos (e a dublagem medonha), ou com os nomes ridículos dos personagens, ou com as situações "suspeitas", ou com a roupa ultra-fashion da galera, ou com os carros sucateados do futuro, ou com a sonoplastia bagaceira... Enfim: não faltam motivos para rir do filme!


Tudo é inconsistente: num mundo devastado por uma explosão nuclear, os sobreviventes se preocupam mais em turbinar seus carros e enchê-los com traquitanas do que em tentar reconstruir cidades (o tempo todo vemos os sobreviventes vivendo como nômades ou em acampamentos fuleiros, mas o filme nunca mostra de onde eles tiram água, comida e gasolina, por exemplo).

Outra coisa engraçada é que, no mundo devastado, não existem cidades, hospitais, postos de gasolina ou supermercados (enfim, não existe prédio algum!), mas mesmo assim todos os sobreviventes têm um suprimento ilimitado de gasolina, maquiagem (para as mulheres, sempre com o rosto absurdamente pintado) e ombreiras (para heróis e vilões). Tanto heróis quanto vilões passam o dia todo zanzando com seus carros, os primeiros procurando os sobreviventes e os segundos caçando sinais de rádio, mas nenhum deles fica sem gasolina em momento algum. Vai ver que os automóveis do futuro são movidos a ar...


Ah, e não se preocupe com essa história dos sinais de rádio: apesar de ser um dos detalhes mais interessantes do roteiro (haverá ainda um resquício de civilização no mundo pós-apocalíptico?), GUERREIROS DO FUTURO termina num massacre onde quase todos morrem, e não resta praticamente ninguém para continuar seguindo os sinais de rádio!

E aí o roteiro nem se preocupa em explicar se realmente ainda existia algum resto de civilização transmitindo para reagrupar os sobreviventes, ou se os sinais eram simplesmente uma armadilha dos Templários para atrair suas vítimas.


E é impossível não citar a cena mais sem-noção do filme, aquela pela qual GUERREIROS DO FUTURO é infamemente reconhecido: lá pelas tantas, Scorpion é aprisionado pelos Templários e obrigado a passar pelo ritual de "iniciação" das bonecas antes de morrer.

O tal ritual é a maior prova de que os os vilões gostam de queimar a rosca: enquanto Shadow força Scorpion a ficar de quatro, One "faz o serviço" no fiofó do nosso herói, numa cena que parece ter sido tirada de "Amargo Pesadelo" - e não consigo lembrar de nenhuma outra aventura em que o herói é sodomizado pelo vilão ao invés de ser simplesmente torturado ou surrado! Assista à "iniciação" no vídeo abaixo, se tiver coragem:

Veja ANTES de decidir juntar-se aos Templários!



Além dos seus habituais tiroteios e explosões em câmera lenta, Castellari ainda aproveita para homenagear os velhos tempos como diretor de western spaghetti. O filme todo tem um climão de faroeste futurista. Os ataques dos vilões, por exemplo, lembram os ataques de índios a caravanas nos filmes de Velho Oeste, com os carros dos bonzinhos adotando uma formação em círculos para se defender.

Porém o momento de maior referência ao western acontece quando Scorpion surge para o duelo final de "quem saca primeiro?" com One, vestindo um poncho marrom (à la Clint Eastwood na Trilogia do Dólar, de Sergio Leone). Neste momento, até a música de sintetizador de Simonetti assume um tom de western. One tenta matar Scorpion a tiros, mas, por baixo do poncho, o herói veste uma afrescalhada armadura indestrutível, citação direta a uma cena idêntica em que Eastwood vestia uma placa de ferro por baixo do poncho para escapar dos tiros do vilão, no clássico "Por um Punhado de Dólares". Só esta brincadeira já vale o filme inteiro.


Cineasta experiente, o velho Enzo também utiliza uma série de divertidos subterfúgios para fazer seu pequeno filme parecer maior do que realmente é: o fato dos vilões utilizarem roupas brancas padronizadas e capacetes de motoqueiro (como uma versão trash dos Storm Troopers de "Star Wars") facilita a reutilização dos mesmos figurantes pelo menos umas dez vezes, já que os anônimos Templários mortos em uma cena podem voltar em outras sem que se saiba a identidade.

E muita atenção para perceber um inteligente truque de montagem: numa das cenas do cerco dos Templários ao acampamento de sobreviventes, a câmera passa por dezenas de vilões em seus carros e motos, depois passa por algo que bloqueia a visão da câmera e, neste momento, Castellari aproveita para fazer um corte imperceptível e rearranjar todos os figurantes e veículos DO OUTRO LADO, fazendo parecer que há muito mais gente na cena do que existe na verdade!.


GUERREIROS DO FUTURO também está coalhado de momentos antológicos pela sua extrema imbecilidade, mas vou destacar apenas dois deles para não me alongar demais:

Quando Scorpion é perseguido por Mako em seu carrinho com hélice mortífera, Nadir aparece para salvar o herói com suas fechas explosivas. Não, ele não explode o carro do vilão, o que seria muito fácil: ele explode um buraco no chão onde Scorpion se atira para escapar da hélice!

A outra: quando Scorpion é aprisionado e torturado pelos Templários (aliás, o nosso herói parece precisar de ajuda em tempo integral!), os bandidos amarram-no a uma corda e começam a arrastá-lo com seus carros. Nadir aparece novamente para salvar o dia, mas, ao invés de soltar Scorpion de uma vez, ele fica uns cinco minutos disparando suas flechas NOS OUTROS VILÕES, e não naquele que arrasta o herói - que, assim, continua sendo dolorosamente arrastado!!!


Seja como for, amiguinhos, 2019 está logo aí. Portanto, preparem seus estoques de ombreiras e de gasolina, encham seus carros de equipamentos desnecessários que possam ser acionados com um botãozinho colorido e decidam-se por um dos lados do conflito: desmunhecar e entrar para os Templários (o ritual de iniciação não é dos mais agradáveis), ou virar crente e correr atrás de sinais de rádios inexistentes? Você decide!

Mas, pelo menos na visão de Enzo Castellari, o nosso futuro já está bem definido: baitolas ou crentes, seremos todos uns imbecis dirigindo veículos caindo aos pedaços, mas repletos de acessórios (tipo os Chevettes tunados dos dias atuais), e nos mataremos até restar dois ou três. Logo, nada muito diferente dos dias de hoje - só faltam mesmo as ombreiras...

Trailer de GUERREIROS DO FUTURO



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I Nuovi Barbari / Warriors of the Wasteland
(1983, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Giancarlo Prete (aka Timothy Brent), Fred Williamson,
George Eastman, Giovanni Frezza, Anna Kanakis, Ennio
Girolami, Massimo Vanni, Iris Peynado e Zora Kerova.