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sábado, 5 de março de 2011

A FÚRIA DO PROTETOR - Director's e Jackie Chan's Cut (1985)


(Alô amigos do FILMES PARA DOIDOS! Eis que nesta semana comecei num emprego temporário de um mês, e assim mais uma vez me vi sem tempo de atualizar o blog. Para compensar, como sou bonzinho, vou postar mais uma Sessão Dupla, dessa vez com duas versões do mesmo filme. É uma resenha que foi bastante requisitada pelos leitores, então espero que vocês se divirtam!)

Num daqueles interessantes fenômenos do mundo do cinema, divergências entre diretores e produtores, ou entre atores e diretores, ou entre toda essa cambada junta, acabam gerando versões diferentes de um mesmo filme.

Um caso clássico é "Blade Runner" (1982): a versão que todo mundo aprendeu a gostar foi aquela editada e alterada pelos produtores, e somente uma década depois o diretor Ridley Scott conseguiu lançar sua "director's cut", com uma série de alterações e um final pessimista. Outro exemplo, que chega a ser absurdo, é "O Exorcista - O Início" (2004): o diretor Paul Schrader rodou o filme todinho, mas o resultado desagradou os executivos da Warner e eles resolveram despedir Schrader e contratar Renny Harlin para recomeçar tudo do zero, fazendo com que existem duas versões completamente diferentes da mesma obra!


Há inúmeros outros casos dignos de citação, mas um bem curioso e pouco conhecido é o de um pequeno filme de ação de 1985 chamado A FÚRIA DO PROTETOR.

Nesta época, Jackie Chan já era um grande astro no Oriente, mas estava querendo fazer sucesso também nos Estados Unidos, já que o cinema ocidental estava carente de grandes astros de artes marciais desde a morte de Bruce Lee. Jackie já tinha tentado conquistar o mercado norte-americano cinco anos antes, com a dobradinha "O Grande Lutador" (1980, de Robert Clouse) e "Quem Não Corre, Voa" (mesmo ano, dirigido por Hal Needham), mas não conseguiu chamar a atenção do público.

A FÚRIA DO PROTETOR tinha tudo para dar certo: era um violento filme de ação em que Jackie interpretava um policial durão em Nova York. Como diretor, foi escalado James Glickenhaus, que alguns anos antes chamou a atenção dos grandes estúdios graças ao sucesso de sua produção independente "O Exterminador".


O roteiro mostra uma dupla de tiras (Jackie Chan e Danny Aiello!!!) investigando o seqüestro da filha de um milionário em Nova York. O caso acaba levando ambos a Hong-Kong, onde enfrentam um poderoso traficante de drogas - mesmo argumento da comédia "A Hora do Rush", que uniu Chan e Chris Tucker em 1998, fez muito mais sucesso e virou trilogia.

O problema é que tudo deu errado no set de A FÚRIA DO PROTETOR, principalmente porque Jackie não se bicava com Glickenhaus, que considerava um péssimo diretor. Em sua auto-biografia, o astro explicou que o diretor estava mais interessado em filmar tiroteios sangrentos (ao invés das mirabolantes lutas do astro) e mulheres nuas, e que simplesmente pulava de uma cena para a outra sem dar muita bola para o roteiro.


Além disso, segundo Jackie, Glickenhaus raramente filmava mais do que quatro takes das cenas de ação, enquanto na Ásia ele estava acostumado a fazer mais de 20! Astro e diretor brigaram o tempo inteiro e, lá pelas tantas, Jackie abandonou o set. "Glickenhaus vai destruir minha carreira!", choramingou para seu agente, e este recomendou que o ator voltasse ao set pelo menos para concluir o filme, ou então pagaria uma pesada multa por quebra de contrato e nunca mais conseguiria emprego nos EUA.

O resultado é, digamos, bem diferente da imagem que Jackie construiu para si: seu personagem quase não luta, mas passa o filme fuzilando bandidos como se fosse um Dirty Harry chinês; fala vários "fuck" e circula sem timidez no meio de diversas figurantes peladas. Embora tenha a cara do cinema de ação exagerado e inconseqüente dos anos 80, a versão do diretor de A FÚRIA DO PROTETOR não é, sob hipótese alguma, um "filme de Jackie Chan".


O ator sabia disso, e achou que seria "um insulto" (suas próprias palavras) lançar essa versão norte-americana na Ásia. Resolveu o problema de uma forma simples: rodou um montão de novas cenas em Hong-Kong (principalmente mais lutas exageradas, bem ao seu estilo), cortou várias coisas que Glickenhaus havia insistido para ter no filme (as cenas com mulheres nuas, por exemplo) e até criou novas subtramas para dar sentido ao roteiro caótico da versão norte-americana.

O resultado é um A FÚRIA DO PROTETOR totalmente novo, apelidado de "Jackie Chan's Cut": enquanto a versão norte-americana tem 91 minutos, a asiática, mesmo com um montão de cenas a mais, ficou com 88 minutos (por causa dos diversos cortes feitos pelo ator na remontagem).


Assim, existem dois A FÚRIA DO PROTETOR completamente diferentes, e cada um com seus próprios fãs. E a experiência ruim de Jackie com Glickenhaus acabou sendo benéfica para seus fãs: o ator gostou da experiência atrás das câmeras, ao filmar as novas cenas para a "sua versão" do filme, e isso incentivou-o a apostar também na carreira de diretor, gravando, no mesmo ano de 1985, o excelente "Police Story" em Hong-Kong.

Qual versão é a melhor? Quais são as diferenças entre elas? Saiba tudo e um pouco mais acompanhando mais esta exclusiva Sessão Dupla do FILMES PARA DOIDOS!



THE PROTECTOR - James Glickenhaus' Cut


O diretor do clássico cult "O Exterminador" tinha um objetivo em mente ao escrever e dirigir sua versão de A FÚRIA DO PROTETOR: transformar Jackie Chan, astro de sucesso na Ásia, em um fenômeno também no Ocidente. A melhor forma de fazer isso, pensou ele, era mudar sua imagem de "lutador engraçadinho", dos filmes asiáticos, para a de policial durão nos Estados Unidos, seguindo um modelo de heróis rabugentos e de poucas palavras muito em voga no período (era a época de Stallone, Schwarzenegger e Chuck Norris).

Mas quem já viu outros filmes do diretor sabe como é seu jeito de trabalhar: um caos! Os roteiros são absurdamente fragmentados, não raras vezes contendo situações que nem ao menos se relacionam com a trama. É o que acontece aqui, e um dos motivos que enfureceu Jackie Chan.


Para o leitor ter uma idéia, A FÚRIA DO PROTETOR começa com uma gangue de punks roubando um caminhão repleto de computadores no violento bairro do Bronx. Chegam dois policiais, Billy Wong (Chan) e seu parceiro Michael (Patrick James Clarke), mas eles não fazem nada além de ironizar com um "Bem-vindo a Nova York" para o motorista do caminhão. E assim a cena termina. Você leu corretamente: os heróis nunca investigam o roubo nem perseguem os punks. É um enigma o fato de essa cena inicial existir!

Na cena seguinte, a ronda da dupla termina e eles vão tomar umas num boteco, que coincidentemente é assaltado por um grupo de psicopatas com armas de grosso calibre. Billy está no banheiro no momento do ataque e reage, matando vários dos bandidos, mas um deles foge depois de fuzilar seu parceiro. Nosso herói persegue o vilão até o cais, onde ambos escapam em velozes lanchas. A cena termina com o policial agarrando-se a um helicóptero (!!!) e usando a sua lancha como míssel para destruir o barco do bandido em fuga (!!!).


Claro que não faltam motivos para o superior de Billy ficar puto com ele e rebaixá-lo para o departamento de controle de multidões, onde ele ganha um novo parceiro, Danny Garoni (Danny Aiello).

A primeira missão de ambos é investigar o sequestro de Laura Shapiro (Saun Ellis), filha de um poderoso empresário ligado ao tráfico de drogas. Billy desconfia que a garota foi seqüestrada pelo associado do seu pai, um traficante de Hong-Kong chamado Ko (Roy Chiao), e a dupla de policiais misteriosamente consegue permissão para ir até o outro lado do mundo investigar, embora seja totalmente fora da sua jurisdição!!!

Chegando em Hong-Kong, Billy e Danny passam os minutos seguintes dando tiros e porradas na bandidagem, investigando porra nenhuma e eventualmente causando a morte de todas as pessoas que tentam ajudá-los. Isso até o herói descobrir, por meio de um vidente (!!!), o cativeiro de Laura.


Ao invés de avisar a polícia de Hong-Kong, a dupla dinâmica prefere formar um trio com um traficante de armas (!!!), que guarda em seu barco metralhadoras Uzi e até um lança-foguetes (!!!), que ganhou de presente de um amigo de Israel (!!!!).

Realizado com desleixo por Glickenhaus, A FÚRIA DO PROTETOR é um filme de ação onde só se percebe esmero nos sangrentos tiroteios, com pistolas abrindo crateras no corpo das vítimas e sangue voando generosamente à la "Duro de Matar" (que foi feito depois). Logo no começo, por exemplo, o personagem de Jackie dá um tiro no ombro de um bandido e sai mais sangue do que se tivesse acertado na cabeça!


O diretor também parece ter uma fixação doentia por nudez gratuita: quando uma garota aparece nua frente e verso numa casa de massagens vá lá, mas nada justifica o fato de as mulheres no laboratório de cocaína de Ko trabalharem completamente peladas!!!

No New York Times de agosto de 1985, o crítico detonou o roteiro do filme: "O título é 'O Protetor', mas Jackie Chan não protege ninguém e ainda deixa uns 100 cadáveres para trás". Chama a atenção principalmente o fato de que Glickenhaus não tem qualquer intenção de fazer uma aventura de artes marciais (a especialidade do seu astro), mas sim um policial sanguinolento no estilo de seus filmes anteriores, "O Exterminador" e "O Ultimato" ("Codename: The Soldier", de 1982).


Tanto que Jackie raramente tem a oportunidade de lutar ALÉM da cena final, em que ele sai no pau com um dos capangas de Ko (interpretado pelo campeão mundial de artes marciais Bill "Superfoot" Wallace). O próprio Jackie queria coreografar a luta, mas é óbvio que Glickenhaus não deixou - e o resultado está na tela, burocrático e sem grandes lances.

Outra rara chance para o astro mostrar seus talentos acontece quando o herói persegue um vilão que foge de barco, obrigando-o a saltar com motocicletas e até varas de bambu, de um barco para outro, até chegar àquele em que seu rival está.

No restante do tempo, Jackie fica perambulando para lá e para cá com um olhar de peixe morto (sem esconder sua falta de entusiasmo com o filme), sem investigar nada, ouvindo as gracinhas do parceiro Danny Aiello e descobrindo tudo por pura sorte - ou por meio do vidente, que, numa das ferramentas mais imbecis que eu já vi para tocar um roteiro adiante, conta em detalhes tudo aquilo que o herói precisava descobrir. Ele é tão eficiente que os detetives da polícia de Hong-Kong deveriam ser substituídos por videntes que lêem I-Ching!


No cômputo final, A FÚRIA DO PROTETOR não é um filme ruim: é realmente muito engraçado ver Jackie Chan como policial durão, falando palavrões e atirando à queima-roupa, longe daqueles papéis engraçadinhos em que ele se especializou (a versão editada por Glickenhaus NÃO tem humor).

Os sangrentos tiroteios e algumas boas cenas de ação, como a da casa de massagens, o ataque ao laboratório de drogas e principalmente a luta final entre Jackie e Bill Wallace, fazem valer o espetáculo para quem procura um daqueles exagerados policiais dos anos 80. E os filmes de Glickenhaus, por piores que pareçam, ainda são bem mais interessantes que muita coisa que se faz hoje.

Agora, se o seu negócio é mais artes marciais e menos "policial durão enchendo bandidos de tiros", recomendo fortemente procurar a versão asiática editada por Jackie Chan. No Brasil, a única versão de A FÚRIA DO PROTETOR disponível (em VHS e DVD) é a original norte-americana.



WAI LUNG MAANG TAAM - Jackie Chan's Cut


Completamente insatisfeito com a versão norte-americana de A FÚRIA DO PROTETOR (que inclusive bombou nas bilheterias nos EUA, arrecadando pouco mais de 980 mil dólares), Jackie Chan considerou a hipótese de nem lançar o filme no mercado asiático. Depois pensou melhor e resolveu colocar a mão na massa, consertando tudo aquilo que ele achava errado no trabalho de Glickenhaus, e filmando diversas cenas novas com os atores asiáticos, Bill Wallace e um dublê de Danny Aielo.

Para quem só conhece a versão norte-americana, fica a dica: a versão de Chan é um filme quase totalmente diferente!

A trama básica continua a mesma: o início, com o inexplicável ataque dos punks, a morte do parceiro e a viagem a Hong-Kong para investigar o sequestro de Laura Shapiro continuam no filme.


A diferença é que Jackie filmou novas cenas para corrigir algumas bobagens feitas por Glickenhaus. Quando seu parceiro é assassinado no assalto ao bar, por exemplo, o personagem de Jackie originalmente saía correndo atrás do vilão, mas adivinhando para que lado o meliante havia fugido; na versão asiática, foi adicionada uma pequena cena em que o policial pergunta a um pedestre para onde o bandido foi. Pequenos detalhes assim acabam corrigindo furos grotescos da versão norte-americana.

Como a versão asiática foi dublada, Jackie também aproveitou para eliminar todos os palavrões que foi obrigado a dizer em inglês, como "Give me the fucking keys!". E passou a tesourinha em todas as cenas com mulheres peladas, principalmente a pra lá de gratuita cena com as peladonas no laboratório de cocaína (novas cenas foram filmadas mostrando-as totalmente vestidas e bombeando cocaína para dentro de frutas).


Não contente com essas pequenas alterações, o astro ainda chamou o roteirista King Sang Tang para criar novos personagens e subtramas, justificando as cenas de luta que pretendia filmar e adicionar à montagem (todas as cenas adicionais foram rodadas pelo próprio Jackie, que assim pôde coreografar as lutas).

A maior mudança é a inclusão de uma nova personagem, Sally (interpretada por Sally Yeh). Ela é a filha de um homem assassinado pelo grande vilão Ko, e ajudará o herói na sua investigação. O encontro entre Billy e Sally acontece numa academia de ginástica, onde a moça é cortejada por dois pretendentes ciumentos. Claro que isso é apenas desculpa para uma cena de luta "engraçadinha", ao estilo Jackie Chan, em que o herói usa os instrumentos da academia (halteres, esteira...) contra seus oponentes.


Inclusive é graças a Sally que finalmente descobrimos a história da moeda que Billy usa para buscar informações com um velho informante da polícia em cena posterior, algo que na versão de Glickenhaus ficava muito no ar.

Jackie também filmou mais cenas com os vilões discutindo seus planos e se irão matar ou não os dois policiais nova-iorquinos. Bill Wallace tem mais tempo para desenvolver seu vilão, e o proprietário da casa de massagens (que desaparecia logo do filme de Glickenhaus) aparece mais vezes, primeiro apanhando dos homens de Ko por ter falhado em matar os policiais, e depois revelando ser tio de Sally, quando vai à casa da garota para avisá-la de que sua vida corre perigo.


Essa cena, bem longa, inclui Billy desarmando uma bomba colocada sob a cama de Sally pelos homens de Ko, e um tiroteio entre o herói e um dos assassinos enviados pelo vilão. No fim, o herói acompanha Sally e seu tio ao aeroporto, já que eles resolvem fugir para os Estados Unidos. E é o tio de Sally quem conta a Billy onde é o cativeiro de Laura, eliminando assim a ridícula cena do vidente "descobrindo" o local via I-Ching da versão norte-americana!

Mas calma que não termina por aí: visando dar mais tempo para que Bill Wallace demonstre suas habilidades, Jackie filmou uma outra cena de ação com ele. Na versão de Glickenhaus, o informante de Billy, Lee Hing (Kwan Yeung), aparecia morto sem mais nem menos, e com seu barco incendiado.

Uma longa cena filmada especialmente para a versão asiática mostra Hing encontrando um colega numa fábrica de gelo para se informar sobre os planos de Ko, quando ambos são emboscados e mortos por Wallace e outros capangas do vilão, em mais uma violenta luta.

Uma das cenas exclusivas da versão oriental


Finalmente, como perfeccionismo pouco é bobagem, Jackie reeditou e inseriu alguns takes nas cenas de luta filmadas por Glickenhaus sem sua colaboração (a da casa de massagens e o duelo final com Wallace), tornando-as mais "orientais" (leia-se velozes e violentas).

Com tantas cenas a mais, como é que a versão asiática de A FÚRIA DO PROTETOR consegue ser três minutos mais curta que a norte-americana? Simples: Jackie adicionou as novas cenas enquanto cortava coisas da montagem de Glickenhaus, diminuindo a perseguição ao bandido após o assalto ao bar no início (aquilo nem faz parte da trama principal mesmo), deletando a cena do funeral do parceiro de Billy e apagando diálogos redundantes.


O resultado não é apenas uma "maquiagem", mas um filme diferente no tom e no ritmo. Por isso, é difícil escolher a melhor versão.

Eu confesso que gosto bastante do A FÚRIA DO PROTETOR de Glickenhaus principalmente porque ele vai direto ao assunto (tiros, sangue, pauleira e mulher pelada), sem perder muito tempo com investigações (e é por isso que o herói descobre tudo que quer saber através do vidente, por pura preguiça do roteiro de mostrar qualquer investigação!!!).


Mas a "Jackie Chan's Cut" do filme também tem seus pontos positivos, principalmente o upgrade nas cenas de luta (duas a mais) e a remontagem mais dinâmica das cenas de ação já existentes, embora contenha um excesso de investigação e personagens.

Talvez um grande filme saísse de uma mescla das duas edições. Afinal, Glickenhaus tentou fazer um policial sério e violento enquanto Jackie teimou em inserir uma dose do seu humor habitual (a luta na academia de ginástica) que não se encaixa muito bem na proposta original.

Por via das dúvidas, recomendo conhecer as duas versões, cada um com seus méritos e defeitos, mas uma prova de que o mundo do cinema também tem dessas coisas: quem diria que uma simples briguinha entre diretor e astro pudesse gerar dois filmes quase que completamente diferentes e rodados em países diferentes?

Trailer de A FÚRIA DO PROTETOR



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A Fúria do Protetor (The Protector, 1985, EUA)
Direção: James Glickenhaus
Elenco: Jackie Chan, Danny Aiello, Victor
Arnold, Roy Chiao, Saun Ellis, Bill Wallace,
Mike Starr e Moon Lee.

Wai Lung Maang Taam (1985, EUA/Hong-Kong)
Direção: James Glickenhaus e Jackie Chan
Elenco: Jackie Chan, Danny Aiello, Victor
Arnold, Roy Chiao, Saun Ellis, Bill Wallace,
Sally Yeh e Hoi Sang Lee.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

DELTA FORCE COMMANDO 1 e 2 (1987/1990)


Para compensar os dias que fiquei sem atualizar o FILMES PARA DOIDOS por causa da minha dissertação de mestrado, eis uma Sessão Dupla em que, numa tacada só, serão resenhados (e devidamente ridicularizados) os dois filmes da série italiana DELTA FORCE COMMANDO, ambos dirigidos por Pierluigi Ciriaci (aka Frank Valenti) em 1987 e 1990. É bom avisar que ambos são MUITO RUINS (com menção honrosa para o segundo).

E a pobreza destas duas produções só se equipara à picaretagem dos produtores. Afinal, é bastante óbvio que eles citam, nos títulos, dois sucessos do gênero dos anos 80, "Delta Force" (no Brasil, "Comando Delta", aquele com o Chuck Norris) e "Commando" (o famoso "Comando para Matar", com Schwarzenegger).

Não satisfeitos com a citação nos títulos, os produtores também chuparam algumas cenas dos dois filmes, mas tudo com aquele "padrão italiano de qualidade" que é uma garantia de diversão trash de grosso calibre. Aos filmes:


DELTA FORCE COMMANDO (1987)


"O Soldado da Força Delta" poderia ser uma boa tradução para o filme de Ciriaci/Valenti, mas a distribuidora que lançou-o no Brasil (a Sagres) preferiu nem quebrar a cabeça e deixou DELTA FORCE COMMANDO mesmo, talvez imaginando que as fotos de caças na capinha da fita já valeriam a locação.

Ciriaci não esconde sua inspiração naquela febre de filmes sobre caças e jatos que havia na época (que gerou obras como "Ases Indomáveis" e "Águia de Aço", ambos de 1986). Assim, tome cenas de caças zanzando para lá e para cá, muitas delas provavelmente tiradas de documentários ou filmagens do Exército.

A história começa com um militar levando uma prostituta para dentro de uma base norte-americana "de segurança máxima" (pffff!) em Porto Rico. E é só a vagabunda passar pelo portão para revelar-se uma espiã terrorista, que abre a entrada para seus amigos revolucionários terceiro-mundistas.


O grupo é liderado por um bandidão anônimo de expressões exageradas, que sempre usa camisetas rasgadas mostrando o peitoral, e tem cicatrizes nas laterais da boca que vive lambendo - 21 anos antes do Coringa de Heath Ledger.

E, vejam só, o sujeito é interpretado por MARK GREGORY, o Trash de "1990 - Os Guerreiros do Bronx" e o índio Thunder da trilogia homônima!!!

Os revolucionários estão em busca de uma poderosa arma nuclear (evidentemente), que, apesar do alto risco, é guardada numa sala em que simples portas de madeira (!!!) trazem o aviso: "Danger" e o símbolo de energia nuclear. Não bastasse isso, a tal arma convenientemente está acondicionada dentro de uma caixa portátil que os vilões podem levar nas costas. Isso é que é facilitar a ação dos terroristas, hein?


Na tal base, também vive um super-herói da Delta Force, o tenente Tony Turner (interpretado pelo "Robert DeNiro da péssima interpretação" Brett Clark, imortalizado no cinema no papel do stripper Nick The Dick em "A Última Festa de Solteiro").

Embora seja o melhor soldado do grupo de operações especiais, Turner aposentou-se para prestar serviços burocráticos na base e acompanhar os últimos dias da gravidez da esposa (Emy Valentino, de "A Face").

O problema é que os vilões em fuga dão o azar de passar bem na frente do apartamento do casal, e o bandidão interpretado por Gregory acaba atirando na esposa de Turner, matando instantaneamente mulher e filho do herói.


Cego de vingança, Turner resolve contrariar seus superiores e partir numa missão de vendetta rumo à Nicarágua, onde os revolucionários estão escondidos, chantageando as grandes lideranças mundiais. Para chegar lá, Turner "sequestra" o caça pilotado pelo capitão Samuel Beck (ninguém menos que FRED WILLIAMSON!), obrigando o famoso herói negro do cinema B a levá-lo até a Nicarágua.

Chegando lá, não pense que haverá investigação, bate-papo ou desenvolvimento de personagens: tudo o que Turner e Beck fazem é mandar chumbo no exército nicaraguense (!!!) e nos terroristas, enquanto dirigem (e eventualmente explodem) jipes, ônibus (!!!) e helicópteros.


Depois de incontáveis tiros, explosões e mortes, os heróis descobrem que a tal bomba atômica roubada pelos vilões, e que irá explodir em alguns segundos, é apenas uma bomba falsa usada em treinamentos. Bela forma de encerrar um filme, hein? Ainda mais considerando a quantidade de pessoas que foram mortas por causa da tal bomba de brincadeira!

DELTA FORCE COMMANDO é ruim de doer, e editado de forma catastrófica por Fiorenza Muller - o que proporciona saltos na narrativa, repetição de cenas e até erros grotescos, como Turner e Beck decolarem em um caça e se ejetarem de um outro completamente diferente!!!

A direção de Ciriaci é inexistente, e as cenas de ação se resumem a Brett Clark e Fred Williamson correndo enquanto disparam 50 tiros de metralhadora para matar cada vilão (mira não é o forte dos heróis; sorte que eles usam aquelas armas cinematográficas que nunca ficam sem munição!).


O que torna o filme divertido para uma sessão trash de bebedeira é justamente a quantidade de estupidez por segundo. Bo Svenson ("Assalto ao Trem Blindado"), que devia estar precisando muito de dinheiro, aparece em meia dúzia de cenas como o comandante da Delta Force, mas nunca interage nas cenas de ação com os demais atores, porque o cachê que recebeu deve ter pagado apenas umas quatro horas de filmagem, todas elas em internas.

Mesmo assim, Svenson é a melhor coisa do filme, ao disparar frases do tipo "Você já estaria morto se eu não fosse me aposentar daqui a três semanas".


Quase não acreditei ao ver que o roteiro é de Dardano Sacchetti (com o pseudônimo David Parker Jr.), um cara que normalmente sabe o que faz. Não é o caso aqui: existe um fiapo de roteiro que justifica as ações do herói (a morte da sua esposa), e logo qualquer tentativa de criar uma trama é substituída por tiros e explosões.

Mesmo o fato de os terroristas terem roubado uma arma nuclear acaba sendo secundário ou até terciário, já que o protagonista quer matá-los por vingança, e não para salvar o mundo. Nesse contexto, a pretensiosa "subtrama política" chega a ser ridícula.

Mas é sempre um prazer ver Williamson quebrando tudo, com aquele seu jeitão de quem não está nem aí para a pobreza do filme que estrela (aqui ele chega a ser torturado, tomando choques elétricos no saco!).


Aliás, é um verdadeiro alívio ter Williamson ao lado de Brett Clark, um "ator" horrível que não muda de expressão uma única vez (nem quando tem a esposa grávida morta em seus braços). Pior que Brett Clark, só mesmo Mark Gregory, um ator já limitado no papel de herói, aqui "interpretando" um vilão sem nome que faz caretas constrangedoras, arregalando os olhos até que eles saiam das órbitas.

Entre as muitas cenas antológicas que são um convite às risadas, vale destacar aquela em que Turner, de dentro de um ônibus, dispara uma flecha na perna de um piloto de helicóptero, e usa uma corda amarrada na ponta da flecha para subir até a aeronave - sem que o piloto ferido ou seu parceiro ofereçam qualquer reação, do tipo cortar a corda ou tentar fazer o herói despencar a chutes.


Ao estilo "Comando para Matar", Turner passa o filme desfilando com uma sacola repleta de armas roubadas da sua base.

Ah, também parece haver uma ordem expressa do diretor Ciriaci para que todo e qualquer veículo mostrado em cena seja obrigatoriamente explodido ao final da mesma cena. Inclusive um caça que está sem combustível, mas simplesmente explode no ar segundos depois que seus pilotos se ejetam. Afinal, todos sabemos que caças explodem quando o combustível acaba, eliminando a trabalheira de ficar reabastecendo as aeronaves...

Como curiosidade, não dá para deixar de citar a cena em que um dos terroristas faz um telefonema de um orelhão... bem na frente do Cristo Redentor! E ele fala com um repórter do Jornal do Brasil em bom português!!! Pode isso? Tem dedo brasileiro na produção, mas ela é tão obscura que não consegui apurar detalhes.


Entretanto, é fato que há uma atriz tupiniquim entre os figurantes (Divana Maria Brandão), e um agradecimento especial à Marinha Brasileira nos créditos finais. Se alguém souber mais sobre o caso, por favor escreva nos comentários!

Curto e grosso, DELTA FORCE COMMANDO é ruim de doer, mas há quem, como eu, ache divertido o festival de absurdos e imbecilidades desses filmes baratos tipo "exército de um homem só". Por isso, se você gostou de tralhas como "Deadly Prey", do David A. Prior, e "Strike Commando", do Bruno Mattei, provavelmente vai curtir mais esta comédia involuntária oitentista.

E é uma pena que a seqüência seja mais elaborada e proporcionamente menos divertida...

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DELTA FORCE COMMANDO 2 - PRIORITY RED ONE (1990)


O pomposo título em inglês pode fazer com que alguém espere mais desse filme do que a tralha baratíssima que ele é. Por isso, quando a Vic Vídeo lançou a obra no Brasil, optou por um título mais genérico, "Operação Delta", até para enganar aqueles que odiaram DELTA FORCE COMMANDO 1 e jamais locariam a fita se soubessem que era uma seqüência daquela bomba.

O mais engraçado é que, embora a produção seja bem melhorzinha (com mais dinheiro, provavelmente), esta continuação é muito pior do que o filme original.


Primeiro, DELTA FORCE COMMANDO 2 não tem absolutamente nada a ver com o primeiro, além de uma pequena (e burocrática) participação de Fred Williamson, reprisando seu papel de capitão Beck (seu nome é erroneamente grafado como "Back" durante o filme todo!).

Desta vez, ao contrário do anterior, Williamson mal participa da trama, aparecendo em algumas poucas cenas aleatórias apenas para justificar o número dois no título do filme - vai ver ele ficou com medo de tomar choques no saco novamente.

O grande herói agora é o ator norte-americano Richard Hatch, que nos bons tempos fez o capitão Apollo do seriado "Battlestar Galactica" (nos anos 70), e depois viu-se obrigado a tomar parte nesse tipo de mico para pagar o aluguel.


Outro que também está no filme só para faturar uma graninha em tempos difíceis é o veterano Van Johnson, que "interpreta" o malvado general McCailland. Johnson foi um grande astro de Hollywood nos anos 40-50; mas, velho e decadente, acabou mergulhando de cabeça nas produções trash italianas, incluindo "Killer Crocodile" (1989).

Se na resenha do primeiro filme eu reclamei que o roteiro era mais raso que sinopse de filme pornô, o grande problema de DELTA FORCE COMMANDO 2 é que o diretor Ciriaci (sim, ele voltou!) agora assumiu o papel de roteirista, junto com o nova-iorquino Lewis Cole. O resultado é um autêntico samba do crioulo doido, onde parece impossível entender o que acontece ou as motivações dos personagens.


Parece (ênfase no "parece") que um grupo de terroristas rouba mísseis soviéticos para chantagear as grandes potências (enfim, o roteiro do primeiro filme, só que geograficamente reciclado), mas a trama se complica desnecessariamente a cada minuto, somando reviravoltas e personagens que nunca dizem a que vieram.

O próprio herói, que é o agente Brett Haskell (Hatch), parece mais perdido do que bolacha em boca de velha desdentada. Ele cambaleia pelo filme encontrando e desencontrando uma ex-namorada que também é assassina de aluguel, Juno (Giannina Facio), que, não contente em assassinar várias pessoas ao longo da trama, tenta assassinar também nosso tímpanos ao cantar de maneira esganiçada a música dos créditos finais!


Haskell e Juno enfrentam um vilão apagado no Oriente Médio, numa trama de espionagem que não faz sentido, enquanto nos EUA nosso velho amigo Beck fica em seu gabinete comentando as ações de que nunca participa.

Na cena final, para tentar criar um elo entre os personagens Haskell e Beck (já que eles NUNCA se encontram), surge um comandante interpretado por Bobby "Demons" Rhodes para explicar ao herói que quem mandou os reforços que salvaram a pele dele foi "o seu velho amigo, o capitão Samuel Beck". Ah tá...


Quando eu digo que DELTA FORCE COMMANDO 2 não tem pé nem cabeça, não estou sendo exagerado. Para exemplificar, há uma cena que começa com um sujeito (terrorista?) colocando uma bomba num avião, somente para depois ser morto por Juno. Dois segundos depois, não é feita mais qualquer menção ao fato: nunca sabemos o que foi feito da bomba no avião e nem qual era a relação da assassina com o homem que matou. Legal, não?

O diretor Ciarici parece bem mais seguro no comando das cenas de ação desta vez, e inclusive adiciona uma grande dose de violência explícita que não havia no original. Quando os mísseis são roubados pelos terroristas, por exemplo, tiros explodem cabeças e dedos como se fossem de manteiga; antes disso, um diplomata é assassinado com um sangrento tiro no rosto (!!!) enquanto faz a barba.


É uma pena que Ciarici tenha separado esses momentos mais interessante com intermináveis diálogos de espionagem e teorias conspiratórias que não levam a lugar nenhum. Quase dá saudade do DELTA FORCE COMMANDO 1, que era pauleira da grossa, com tiros e explosões do início ao fim.

Aqui, os realizadores tentaram evidentemente fazer uma coisa mais sofisticada, com mais diálogos expositivos e reviravoltas, mas nada pode ser pior do que um filme de ação que dá sono. De tanta enrolação e lenga-lenga, acabei cochilando umas cinco vezes, e depois tive que voltar e ver uma boa parte do filme novamente, como se a trama já não fosse complicada o suficiente. Conselho de amigo: esqueça a história e concentre-se no fator trash da coisa.


Felizmente, como acontecia também no primeiro filme, há alguns momentos divertidos de tão toscos e sem noção, como Beck levando o vilão McCailland para uma voltinha de caça em território inimigo, apenas para ejetar-se quando aeronaves rivais surgem no horizonte, deixando o pobre general para explodir (não seria mais fácil e mais simples dar um tiro na cabeça do sujeito em terra mesmo?).

O resultado final é bem menos engraçado que o original, mas ainda assim válido para uma sessão dupla alcoólica com os amigos cinéfilos.

Gostaria inclusive de propor um "drinking game" para acompanhar a dobradinha DELTA FORCE COMMANDO: os participantes devem mandar goela abaixo um copo de cerveja ou de cachaça toda vez que os figurantes dispararem suas armas sem que saia fogo ou fumaça pelo cano (só o barulho do tiro), ou então toda vez que Fred Williamson aparecer com um charuto na boca. Bom divertimento, e prepare-se para cair de bêbado!

(A propósito, aceito sugestões para outras futuras sessões duplas...)

Trailer de DELTA FORCE COMMANDO



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Delta Force Commando (1987, Itália)
Direção: Frank Valenti (aka Pierluigi Ciriaci)
Elenco: Brett Clark, Fred Williamson,
Mark Gregory, Bo Svenson, Divana
Maria Brandão e Emy Valentino.

Delta Force Commando 2 -
Red Priority One (1990, Itália)

Direção: Frank Valenti (aka Pierluigi Ciriaci)
Elenco: Richard Hatch, Fred Williamson,
Giannina Facio, Van Johnson e
Bobby Rhodes.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Diabo também é brasileiro

Os leitores contumazes do FILMES PARA DOIDOS devem ter percebido que baixei a frequência de atualizações do blog nesse mês de fevereiro, ainda mais em comparação com a absurda quantidade de novos textos publicados em janeiro. Isso tem uma explicação: é coisa do Diabo!

Ou, mais especificamente, direcionei todo meu tempo e meus esforços para acabar minha dissertação de mestrado sobre a figura do Diabo no cinema brasileiro. Estou revisando as 170 páginas para entregar esta semana. Não foi fácil, e para piorar o trabalho coincidiu com uma época turbulenta da minha vida.

Em todo caso, está tudo consumado e em breve voltaremos às duas atualizações semanais aqui do FILMES PARA DOIDOS.

(Atualização 25/2)
Atendendo a pedidos, as fotos abaixo pertencem aos seguintes filmes, na ordem:
- OS ANOS DOURADOS DA SACANAGEM
- SUPER XUXA CONTRA O BAIXO ASTRAL
- OS TRAPALHÕES NO AUTO DA COMPADECIDA
- SEDUZIDAS PELO DEMÔNIO
- JECÃO, UM FOFOQUEIRO NO CÉU
- FILME DEMÊNCIA
- EXORCISMO NEGRO
- O HOMEM QUE DESAFIOU O DIABO
- O MANÍACO DO PARQUE
- O FIM DA PICADA
- MÔNICA E A SEREIA DO RIO
- PROEZAS DE SATANÁS NA VILA DE LEVA E TRAZ
- MULHER PECADO/EMBRUJADA
- 3 HISTÓRIA DA BAHHIA
- MARIA, MÃE DO FILHO DE DEUS
- O AUTO DA COMPADECIDA