segunda-feira, 13 de outubro de 2008

ASSALTO AO TREM BLINDADO (1978)


Foram os "bastardos sem glória" de um dos títulos alternativos ("The Inglorious Bastards") deste filme italiano que inspiraram o cineasta Quentin Tarantino a escrever seu fantástico épico de guerra "Bastardos Inglórios" (2009) - usando apenas o título, mas pouco ou nada da trama desta pequena gema dirigida pelo mestre Enzo G. Castellari em 1978. Enquanto Tarantino usou a Segunda Guerra como pano de fundo para uma história rocambolesca de traições, vinganças e conspirações, aqui temos um roteiro episódico escrito a 10 mãos (!!!), em que os personagens pulam de uma "missão" a outra como se estivessem num jogo de videogame.

Tanto no argumento quanto no título em inglês e na frase do cartaz norte-americano ("Whatever the Dirty Dozen did they do it dirtier!"), ASSALTO AO TREM BLINDADO faz referência ao clássico de guerra "Os Doze Condenados" ("The Dirty Dozen"), dirigido por Robert Aldrich em 1967. Naquele filme, um grupo de prisioneiros de guerra era escalado para uma perigosa missão durante a Segunda Guerra. Aqui, a idéia é semelhante: os "bastardos sem glória" são soldados e um oficial norte-americano condenados pelos mais diversos crimes (assassinato, roubo...).


Se os "Doze Condenados" eram gente do naipe de Lee Marvin, Ernest Borgnine, Charles Bronson, Jim Brown, John Cassavetes, George Kennedy, Telly Savalas e Donald Sutherland, para Castellari e seu orçamento muitas vezes reduzido só restou escalar um elenco de caras conhecidas do cinema classe B da época, liderado pelos norte-americanos Bo Svenson e Fred Williamson. O único "grande astro" do elenco é o falecido escocês Ian Bannen, que em 1965 ganhou o Oscar de Ator Coadjuvante por "O Vôo da Fênix", e que em 1978 já andava meio mal das pernas e estrelava estas produções baratas rodadas na Itália.

Das vinhetas animadas nos créditos de abertura à música épica de Francesco De Masi, passando ainda pela estrutura "man on a mission" do roteiro, ASSALTO A TREM BLINDADO é um perfeito retrato de uma época áurea do cinema italiano que infelizmente morreu na década de 90: a época dos exagerados e barulhentos filmes de ação feitos na esteira de sucessos norte-americanos, onde o orçamento reduzido era contornado com malandragem e soluções muitas vezes toscas, mas nem por isso o resultado era menos divertido.


A história se passa em 1944, último ano da Segunda Guerra Mundial, na França, onde um grupo de prisioneiros é escoltado por um comboio para uma outra base, onde serão julgados pela Corte Marcial pelos seus respectivos crimes. Entre eles estão os soldados norte-americanos Tony (Peter Hooten), que é viciado em apostas; Fred Canfield (Williamson), acusado do assassinato de um racista; Berle (Jackie Basehart), que tem ataques de pânico e ansiedade diante de tiroteios e explosões, e o italiano Nick (Michael Pergolani), que vive de roubar e vender posses dos soldados mortos no conflito. De última hora, chega o preso mais ilustre do comboio: o tenente Robert Yeager (Svenson), acusado de deserção (para visitar a namorada nos Estados Unidos!).

No caminho para o julgamento, o comboio militar é atacado por um avião nazista, que enche os veículos de chumbo. Quase todos os prisioneiros são mortos no interior do caminhão em que eram transportados, e os que tentam fugir são fuzilados pelos guardas de escolta. No fim do confronto, sobrevivem apenas o tenente Yeager e os quatro soldados anteriormente citados, que resolvem se unir para chegar à fronteira da Suíça – que, na época, era território neutro, e onde eles poderiam escapar da guerra.


Este é o toque mais genial do roteiro escrito por Sandro Continenza, Sergio Grieco, Franco Marotta, Romano Migliorini e Laura Toscano: os "bastardos sem glória" não recebem arrego de nenhum dos lados do conflito, sendo caçados pelos nazistas (afinal, ainda são inimigos) e também pelos seus próprios companheiros aliados (por serem prisioneiros de guerra fugitivos).

A única esperança de salvação é chegar à fronteira, mas, no processo, o grupo se envolve em uma série de batalhas sem relação com a trama principal, encarando de pequenos destacamentos alemães até um insólito encontro com mulheres nuas tomando banho de rio - e que logo pegam metralhadoras para expulsar os tarados dali!


O "maledetto treno blindato" do título original italiano e do título nacional só entra na trama depois de uma hora de filme, quando os fugitivos exterminam, acidentalmente, um grupo de soldados norte-americanos que estava vestido com fardas alemãs. Eles eram especialistas treinados para uma missão secreta e suicida: interceptar um trem blindado nazista para roubar o giroscópio de um novíssimo míssil V-2 para a Resistência Francesa.

Tendo matado a tropa acidentalmente, Yeager e seus homens resolvem tomar o lugar dos falecidos, combinando com o responsável pela missão, o coronel Charles Thomas Buckner (Bannen), o perdão pelos seus crimes caso consigam cumprir o objetivo.


ASSALTO AO TREM BLINDADO não tem um roteiro coeso que possa ser resumido em meia dúzia de linhas. Se você lê, por exemplo, o resumo do velho Guia de Filmes da Nova Cultural, que só fala da missão do trem blindado, fica sem ter uma idéia abrangente do que na verdade é o filme.

Como o tal trem só aparece no final, os dois primeiros atos são preenchidos com seqüências de ação cada vez mais exageradas, onde os fugitivos se metem em encrenca com os dois lados do confronto, e sempre se saem bem, claro, mas isso envolve matar dezenas, às vezes centenas de inimigos. Os perigos vão ficando cada vez mais complicados, na medida que os próprios "heróis" se colocam em risco quando se disfarçam de nazistas, por exemplo.


Castellari é um brilhante diretor de ação, e isso pode ser visto nas cenas de guerra, recheadas de tiroteios e explosões. Mas o estilo habitual do diretor (com a câmera lenta ao estilo do que o norte-americano Sam Peckinpah fazia na época) demora a aparecer, surgindo somente na conclusão, já na missão do trem blindado. Mas vale a pena esperar, pois as cenas estão entre as melhores que o velho Enzo já filmou, incluindo sangrentos tiros que explodem o peito das vítimas e fazem voar pedaços de "carne" e roupa contra a câmera.

O interessante é que o diretor não levou a coisa muito a sério, e, na maior parte do tempo, entrega apenas um divertido filme de ação e guerra, com tiroteios e explosões a rodo, sem aquela pretensa "seriedade" que as produções sobre a Segunda Guerra Mundial tinham na mesma época.


O único momento mais sério e dramático, em que Castellari parece tentar mostrar ao espectador a imbecilidade da guerra, é brilhante: durante uma violenta batalha, o volume da trilha sonora sobe e abafa o som de gritos, tiros e explosões da carnificina filmada em câmera lenta, com direito a soldados de ambos os lados do conflito lançados pelos ares por explosões ou se contorcendo com os tiros disparados pelas metralhadoras inimigas! Um momento que parece ter saído de "A Cruz de Ferro", de Peckinpah, que por sinal é do ano anterior (1977).

O filme também ganha pontos pelos toques de humor (especialmente de Williamson, interpretando um canalha que vive com um charuto no canto da boca, e de Pergolani, como o soldado malandro que tem todas as traquitanas necessárias "escondidas" no seu uniforme), pelo uso criativo de miniaturas para baratear custos (nas cenas mais complicadas de explosões de casas e de veículos), pelo fato de os próprios atores principais encararem algumas das cenas perigosas (Williamson aparece pulando de uma ponte sobre o trem em movimento, por exemplo) e pela conclusão completamente fora do convencional, especialmente no inesperado destino de alguns dos personagens.


Recentemente, aproveitando o "Inglorious Bastards" do Tarantino, foi lançada uma edição superespecial de ASSALTO AO TREM BLINDADO nos States, com três discos (!!!) repletos de extras (um deles é a trilha sonora composta por De Masi). O tipo de coisa que nunca vai chegar por aqui, e que traz também uma longa conversa entre o próprio Tarantino e Castellari.

Num momento do bate-papo, Castellari elogia Tarantino, chamando-o de gênio, e este responde de maneira humilde, dizendo que é Castellari o "maestro" ("mestre", em italiano). E, durante a conversa, percebe-se que Tarantino realmente respeita o trabalho de Castellari, um ótimo diretor que infelizmente não filma há anos.

Para finalizar: falam tanto de "Comando para Matar", "Rambo 4" e outros filmes com altos números de morte, mas ASSALTO AO TREM BLINDADO com certeza é um recordista neste quesito. Precisa, claro, ter paciência para contar os cadáveres, e segurar o riso quando os mesmos figurantes aparecem morrendo múltiplas mortes diferentes...

Trailer de ASSALTO AO TREM BLINDADO



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Quel Maledetto Treno Blindato/The Inglorious
Bastards (1978, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Bo Svenson, Peter Hooten, Fred Williamson,
Michael Pergolani, Jackie Basehart, Michel Constantin,
Debra Berger, Raimund Harmstorf e Ian Bannen.

17 comentários:

osvaldo neto disse...

Isso não é um texto, é um tratado! rs.

E pra ver mais figurantes italianos se fudendo, assistam FUGA DO BRONX e POLIZIOTTI VIOLENTI! hehehe

Ronald Perrone disse...

Excelente o texto mesmo! Preciso ver esse filme urgente...

Tiago disse...

Que tal uma parceria?

Exelente teu blog, abs!

Felipe M. Guerra disse...

OSVALDO - Você me conhece, sabe que não consigo escrever pouco. Outro com figurantes italianos se fudendo é o THE BIG RACKET, do Castellari.

RONALD - Obrigado. E veja mesmo o filme, pois daqui a pouco sai o do Tarantino e vai ser "cult" conhecer este do Castellari. hahaha

TIAGO - Que parceria você tem em mente? Abraço.

Ronald Perrone disse...

Haahah, é verdade. Mas meu interesse pelo Castellari vem de muito tempo. Vou tentar ver esse o mais rápido possível pra ser cult!

Leandro Caraça disse...

Felipe Guerra enfim tem um blog. Os cadáveres de Joe D'amato e Bruno Mattei devem estar dançando de felicidade !

Takeo Maruyama disse...

Pô, demorou pro Felipe Guerra ter um blog nos moldes tradicionais. Aquele Multiply passa tanto tempo parado que não sei como ainda não saiu do ar, he, he, he. O seu blog já está nos meus favoritos e nos links do meu blog.

Abraço

TITARA BARROS disse...

Putz que parilis..... Blog novo na area Felipão...
Ja estou visitanto...
Eu pergutando onde raios se enfiou o Guerra...
Tais de volta...vamos ae resenha esses filme de doidos q tanto nós adoramos...
Abs...

Felipe M. Guerra disse...

CARAÇA - Agora espero conseguir em um ano o número de visitas que você consegue em uma semana no seu blog! hehehe

TAKEO - Orra, nem conhecia esse teu blog sobre filmes de pancadaria... Já está nos meus favoritos. E em breve, em sua homenagem, estarei postando aqui minhas considerações sobre o excelente "Full Alert", do Ringo Lam.

TITARA - Fala velho de guerra, estou sempre aí, cheio de coisas pra fazer, e bola pra frente que tem muito filme ruim pra gente! hahaha

daniel disse...

Pena que o filme do tarantino so pegue o nome ou nem isso. Mas pelo menos vai fazer as pessoas conhecerem mais uma das obras do Castellari. Afinal e so postei no orkut e vi o original por causa do tarantino. Te mais.

artur disse...

e ai felipe beleza, aqui quem fala é o artur da sua comunidade bangue bangue a italiana, não sabia que você tinha esse blog sobre filmes, vou indicar o seu blog no meus 2 blogs, passei quase duas semanas lendo seus posts no "martin dolman" e o meu texto preferido é do "the new barberians" o texto é muito mas muito engraçado, nossa bem que esse assalto ao trem blindado poderia ser lançado em DVD junto com os guerreiros do bronx, fuga do bronx e os novos guerreiros, que eu que sou fã do castellari desde de que vi keoma, sempre quis ver outros gêneros que o mestre criou e tambem outros filmes do cinema europeu, mas infelizmente o mercado de DVDs se precupam em trazer pro mercado filmes americanos, nem pra ocean lançar esses filmes, mas sem avacalhação.

Felipe M. Guerra disse...

ARTUR - Seja bem-vindo. Migrei para cá justamente porque o Multiply não te permite esta liberdade de postar fotos e vídeos. Em breve vou republicar aqui este texto sobre o GUERREIROS DO FUTURO também, em versão resumida e com vários vídeos do YouTube. O Castellari é um ótimo diretor que infelizmente passou batido no Brasil pós-VHS (acho que os únicos filmes dele em DVD são VOU, MATO E VOLTO e TUAREG, que por sinal é excelente).

Anônimo disse...

Oi. Bom dia.. Gostei Muito de poder ter visto postados, assuntos sobre diversos filmes best, Gostaria de Poder Saber onde Encontrar as Legendas do ( Inglorious Bastards) em Portugues e claro..Abraçoes.

Anônimo disse...

Tem a legenda no site legendas divx em pt-pt, a unica legenda que eu achei. So que precisa de convite pra registrar, se alguem ja é registrado poderia upar em outro lugar a legenda (y)

Anônimo disse...

Puta merda, o Tarantino não se cansa de copiar títulos de filmes antigos???

Porra, porque esse cara pelo menos não cria seus próprios títulos?

Vinícius disse...

É o Christoph Waltz aos 2:10 do trailer?

Leonardo Peixoto disse...

VIVA O CINEMA ITALIANO !!!!