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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

TNT JACKSON (1974)


Cirio H. Santiago foi um cineasta filipino que, numa carreira que totalizou 73 filmes, atirou para todos os lados: fez aventuras de artes marciais, produções sobre a guerra do Vietnã, ficção pós-apocalíptica, sexploitation, blaxploitation... Enfim, o que quer que estivesse dando grana. Se fosse o caso, até misturava temas e gêneros, como fez em "O Samurai Negro", que mesclava os cânones do ciclo blaxploitation com os filmes orientais de samurai.

Pois o tema de hoje aqui no FILMES PARA DOIDOS é outra saborosa mistureba comandada por Cirio: TNT JACKSON, aventura barata de 1974 que junta, num mesmo balaio, as produções blaxploitation com negras valentonas e as aventuras baratas de artes marciais made in Hong-Kong. O resultado é curioso, para não dizer coisa pior.


1974 era "o" ano para aventuras blaxploitation estreladas por mulheres. Afinal, no ano anterior, 1973, estouraram dois filmes baratos com personagens femininas, "Coffy", de Jack Hill, com Pam Grier no papel principal, e "Cleopatra Jones", de Jack Starrett, estrelado por Tamara Dobson (que teve uma seqüência em 1975). TNT JACKSON foi uma tentativa de criar mais uma personagem negra popular e de lançar uma nova estrela do ciclo blaxploitation, a magricela Jeannie Bell.

Longe das curvelínias e voluptuosas Pam e Tamara, Jeannie era uma garota comum e bem sem graça até, cujo passaporte para o mundo do cinema barato foi um ensaio na Playboy em 1969. Nem a atriz e nem a sua personagem, TNT Jackson, fizeram o mesmo sucesso das "concorrentes", e Jeannie logo abandonou a carreira de atriz para assumir um emprego melhor em tempo integral: casou com um multimilionário!


Mesmo assim, a curta passagem pelo ciclo blaxploitation garantiu pelo menos um grande fã: Quentin Tarantino, que homenageou a atriz em "Kill Bill - Volume 1", onde a personagem de Vivica Fox usa o nome falso "Jeannie Bell" (valeu pela dica, Leandro Caraça).

Comparando com as aventuras de Pam Grier (principalmente "Coffy" e "Foxy Brown"), e com a série "Cleopatra Jones", este TNT JACKSON realmente não é o filmão que o pôster de cinema prometia. Porque, como disse Robert Rodriguez na divulgação do filme "Grindhouse", os pôsteres destas produções bagaceiras dos anos 70 geralmente eram melhores que os próprios filmes.

A trama é um primor de obviedade: Diana "TNT" Jackson é uma ex-presidiária e especialista em artes marciais que vai a Hong-Kong para investigar o desaparecimento do seu irmão. Lá chegando, começa a distribuir porrada para todo lado até descobrir que o maninho foi morto a mando de Sid (Ken Metcalfe, de "Ninja - A Máquina Assassina"), o chefe de uma quadrilha de traficantes de cocaína.


Do lado dos vilões também estão a bela loirinha Elaine (Pat Anderson) e outro negro karateka, Charlie (Stan Shaw, fazendo filmes até hoje, entre eles blockbusters tipo "Daylight", com o Stallone).

Paralelamente, há uma trama bem deslocada que mostra os carregamentos de drogas de Sid sendo roubados misteriosamente, o que leva o vilão a desconfiar da vingadora TNT Jackson. Somente no final descobrimos que o culpado pela sabotagem é o próprio Charlie, que quer assumir o posto de chefão. E Elaine também se revela uma agente federal infiltrada.

A conclusão terá a tradicional luta até a morte entre TNT e Charlie, mas isso só depois de os dois terem se envolvido romanticamente, para a tradicional cena de sexo e nudez.


Se TNT JACKSON serviu para alguma coisa - além de ter transformado Jeannie Bell em citação do Tarantino, claro - foi como uma inesperada reunião de talentos por trás das câmeras. De um lado, o diretor Cirio Santiago, cujo cinema divertido, barato e improvisado ainda precisa ser redescoberto pelas novas gerações; de outro lado, o produtor Roger Corman, monstro sagrado do cinema que finalmente está recebendo o devido reconhecimento (ganhando até Oscar pelo conjunto da sua obra, e enquanto ainda está vivo!).

Uma terceira figurinha carimbada envolvida na produção do filme é ninguém menos que Dick Miller, aquele eterno ator coadjuvante de quase duas dezenas de produções, aqui em seu primeiro e único crédito como roteirista - que ele divide com o também ator Metcalfe e com Leonard Hermes. Três pessoas para escrever uma aventura rasteira como TNT JACKSON? Quem diria...

Eu só queria saber qual dos três foi o responsável pela mais deliciosa e engraçada cena do filme: aquela em que TNT está cercada por vilões num quarto de hotel e ameaça: "You want it black? You got it black!". Dito isso, a bela heroína tira a roupa e apaga a luz, já que, pelada, fica "camuflada" no escuro e pode distribuir safanões nos capangas à vontade!


É um momento tão absurdo e inesperado, ainda mais por estar sendo levado totalmente A SÉRIO, que se transforma no ponto alto de uma película nada memorável. (Até porque a calcinha da moça muda de cor duas vezes ao longo da cena, evidenciando o descuido do continuísta, ou a falta de um!)

O restante é aquela rotina da maioria das aventuras de artes marciais do período. Como TNT prefere usar os pés e punhos ao invés de armas, nem ao menos há grandes cenas de ação ou de violência no estilo "Coffy".

Mesmo assim, a mocinha encarna Bruce Lee em dois momentos bem sangrentos: ao quebrar o braço de um bandido (com direito a fratura exposta e sangue esguichando), e ao atravessar o tórax de um vilão com o punho durante uma luta!


O problema é que Jeannie Bell pode ser bonita e gostosinha, mas não tem a "atitude" de uma Pam Grier, e muito menos sabe lutar. Em todas as cenas de ação, ela é visivelmente substituída por um dublê (acredite se quiser, mas um HOMEM de peruca blackpower!); nas demais, quando a atriz precisa aparecer no quadro, apenas fica encaixando socos e chutes que passam a quilômetros das "vítimas".

A coreografia da pancadaria é bem pouco original, e só melhora um pouco na luta final. Até porque o vilão é interpretado por Stan Shaw, que na vida real era professor de karatê, judô e jiu-jitsu. Eis outro grande problema: a desenvoltura de Shaw só deixa ainda mais evidente a pouca intimidade da estrelinha Jeannie com a coisa.

Ainda que pouco memorável, TNT JACKSON é uma aventura rápida e rasteira (tem pouco mais de 70 minutos) daquele tipo que hoje mais provoca risadas do que excitação. Diálogos como "Ah é? E eu sou Branca de Neve com queimadura do sol" (frase dita, obviamente, por uma negra) garantem as gargalhadas involuntárias, complementadas com a pobreza geral da produção, dos cenários e dos figurinos.


E é claro que vale a pena conhecer justamente por estes pequenos achados, como a cena da heroína lutando nua (que o Tarantino de certa forma "homenageou" no seu "Jackie Brown", quando Samuel L. Jackson e Pam Grier ficam no escuro no apartamento da heroína). Momentos impagáveis e bizarros como este são a síntese do cinema barato de outros tempos, tão difícil de rever nesses nossos tempos politicamente corretos e nada criativos.

PS 1: Esta é a CENTÉSIMA postagem do FILMES PARA DOIDOS. Rumo à "duzentésima"!

PS 2: Na minha aula de ontem de Teorias e Práticas das Análises de Produtos e Linguagens Audiovisuais, um colega fez uma interessantíssima comparação entre outro blaxploitation clássico, "O Chefão de Nova York", de Larry Cohen, e "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Além de a trajetória do personagem interpretado por Fred Williamson ser muito parecida com a do Zé Pequeno no filme brazuca, o desfecho de ambos é praticamente idêntico, com o bandidão sendo ironicamente atacado por marginais muito mais jovens. Fiquei embasbacado, pois não lembrava dos detalhes do filme do Cohen e a semelhança realmente transparece! Parabéns ao colega!

Trailer de TNT JACKSON


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TNT Jackson (1974, EUA/Filipinas)
Direção: Cirio H. Santiago
Elenco: Jeannie Bell, Stan Shaw,
Chiquito, Max Alvarado, Pat Anderson,
Ken Metcalfe e Chris Cruz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA (1983)


Um casal de lésbicas se chupando durante um banho de cachoeira. Uma bela garota retalhada a navalhadas no chuveiro. Anthony Steffen comendo Rossana Ghessa e logo depois Fátima Leite comendo Rossana Ghessa! Será que sou só eu tenho saudade exatamente DESTE tipo de cinema nacional que não se faz mais? Sexo, violência explícita, lesbianismo e tanta mulher pelada que o cara quase enjoa de ver peitos, bundas e pererecas (ênfase beeeeeem grande no "quase"); assim é MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA, um daquele raros filmes de suspense estilo "whodunit" (quem é o assassino?) feitos no Brasil.

A bem da verdade, esta produção escrita e dirigida por Adnor Pitanga é quase um giallo - se o assassino usasse luvas negras e os atores fossem dublados em italiano, o filme poderia muito bem ser lançado como um legítimo giallo made in Italy que ninguém iria perceber!


Ajuda, para criar este elo com o cinema de mistério italiano, a rara presença do galã Steffen numa produção brasileira. "Anthony Steffen" é o pseudônimo americanizado de Antonio de Teffé, filho de brasileiros criado na Itália, e que se transformou num astro do western spaghetti europeu - entre outros filmes, estrelou "Django, O Bastardo", de Sergio Garrone. O ator também pôde ser visto em alguns filmes do ciclo giallo, como "The Crimes of the Black Cat" e "The Night Evelyn Came Out of the Grave".

MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA é único filme 100% brasileiro que Steffen estrelou. O IMDB informa que o ator também estaria no brasileiríssimo "Mulheres Liberadas", também dirigido por Adnor Pitanga, mas o especialista na carreira do astro Rodrigo Pereira garantiu que a informação é equivocada. Assim, com uma única produção realmente brasileira no seu currículo, Anthony Steffen morreu vitimado por câncer em 2004, quando morava no Brasil e vivia praticamente esquecido.


Consta no obrigatório livro sobre a carreira de Anthony Steffen, escrito por Daniel Camargo, Fábio Vellozo, Rodrigo Pereira, que o ator não gostava destas suas produções brasileiras, nem fazia muita questão de falar sobre elas, o que é estranho, pois este suspense pelo menos é muito bem realizado e produzido, ao contrário de algumas tralhas que ele fez com os italianos. No mesmo livro, consta que Steffen brigou o tempo todo com a estrela e produtora Rossana Ghessa.

Dublado, Steffen interpreta Rodolfo, um rico fazendeiro do interior do Rio de Janeiro que vive obcecado com a idéia da velhice e da proximidade da morte. Ele namora Marília (Rossana Ghessa, de "Fêmeas em Fuga", que na época era um MULHERÃO, em maiúsculas mesmo!), uma professora que deixou os tumultos da cidade grande para viver no interior, onde também pretende esquecer o fim da sua relação lésbica com a amiga Renata (Fátima Leite, de "Eu Matei Lúcio Flávio").


Sem saber, Marília despertou a paixão de uma aluna da sua turma, Leila (Leila Correia, em seu único filme), que, apesar de namorar o capataz da fazenda de Rodolfo, Lauro (Rinaldo Gines, de "Bye Bye Brasil"), tem dúvidas sobre a própria sexualidade.

Certo dia, voltando para casa depois da aula, Leila corta caminho pelo bosque e encontra o acampamento de duas amigas lésbicas, Lucinha (Helena Andrea) e Rose (Ismênia Kreis). Observa enquanto ambas, após o tradicional banho de cachoeira peladas, transam animadamente. Excitada, Leila vai para um ponto mais isolado do bosque, onde se despe e se masturba pensando na cena.


Paralelamente, chega à cidade a ex-amante de Marília, Renata, agora casada com Hartur (o gaúcho Marco Wainberg, de "A Pantera Nua"), que é cego. O retorno provoca o caos no pequeno universo rural, deixando Rodolfo enciumado. Logo, o corpo nu de Leila é encontrado no bosque, coberto de ferimentos de facão. O principal suspeito é o namorado Lauro, mas a professora começa a suspeitar que Renata está tentando reatar o romance entre elas eliminando todos os obstáculos pela frente.

Novos crimes se sucedem, sempre violentos. Quem será o assassino? A enciumada Renata? O possessivo Rodolfo? Lauro, que se diverte mutilando as galinhas da fazenda? O casal de lésbicas acampado no bosque? Ou Hartur, que na verdade pode nem ser cego? A identidade só será revelada no final, mas não será uma grande surpresa para quem já conhece as tradicionais armadilhas do gênero.


MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA certamente não pode ser acusado de propaganda enganosa, já que são 90 minutos com exatamente isso que o título anuncia: muito sexo (prazer) e algumas mortes e sangueira explícita (agonia).

Eu acho até que mudaria o título para "MUITOS Momentos de Prazer e ALGUNS de Agonia": temos duas longas e calientes cenas de sexo "normal" (entre Steffen e Rossana e entre Rinaldo e Ismênia), duas longas e calientes cenas de sexo lésbico (entre Rossana e Fátima e entre Helena e Ismênia), e até duas cenas de masturbação feminina quase explícita (protagonizadas pela gatinha Leila).

Isso sem contar o fato de a câmera de Adnor Pitanga dar closes quase ginecológicos nas pererecas e não poupar detalhes quando filma as relações sexuais, com simulações bem realistas de sexo oral (tanto hetero quanto lésbico), deixando o filme às raias do pornô.


Mas a produção é requintada e não cai nessas armadilhas de muitas produções brasileiras do período. As cenas de sexo são filmadas com muito bom gosto, de maneira que soam mais eróticas, quase poéticas, do que vulgares ou pornográficas, como podiam ficar nas mãos de um diretor "pau pra toda obra" como Ody Fraga ou Fauzi Mansur.

A cena em que Renata seduz e transa com a ex-namorada Marília em frente a Hartur, o marido cego, é de longe uma das mais bonitas - e cruéis, obviamente - cenas do filme, e rodada num nível de realismo que fiquei me perguntando se as duas atrizes não estavam REALMENTE se comendo!!!


E quem tem saudade dos tempos em que havia sexo e mulher pelada no cinema nacional não vai poder reclamar desse filme do Pitanga, já que todo o elenco passa a maior parte do tempo SEM a roupa. Isso não só nas cenas de sexo, mas também nos incontáveis banhos de rio e cachoeira (por que será que todo diretor de cinema acha que no interior o pessoal toma banho de rio pelado???), e até nos momentos em que as mocinhas precisam fugir do assassino correndo pelo meio do mato, e sempre acabam com a blusa rasgada e os peitinhos de fora! Sinceramente, é tanta mulher pelada em 1h30min que quase cansa (ênfase beeeeeem grande no "quase").

Quanto aos "momentos de agonia", estes também são razoavelmente bem executados, com efeitos simples e cortes rápidos, sem investir muito na maquiagem nas cenas de morte. Até que o filme tem bastante sangue, com a já citada morte a navalhadas lembrando ao mesmo tempo "Psicose", de Hitchcock, e "Vestida para Matar", do Brian DePalma. O destino final do(a) assassino(a) é bastante violento, e há inclusive duas cenas de mutilação (real, é claro) de galinhas que deverão provocar arrepios em quem não mora no interior e não vê isso normalmente.


Sabe aquele preconceito bem comum do espectador brasileiro, de dizer que o cinema nacional pré-Retomada era uma porcaria, tecnicamente inclusive? Pois MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA é um belo argumento para calar a boca desses ignorantes: tudo no filme é de ótimo nível, desde a forma como são filmadas as cenas de sexo até a fotografia de Ruy Santos, passando pela bela trilha sonora (composta por Antônio Krisna e interpreta pela própria Rossana Ghessa) e pelo som, que é alto e claro - você entende perfeitamente TODOS os diálogos, algo que não era muito comum nas produções da época.

Claro, alguns metidinhos poderão questionar se era realmente necessária a grande quantidade de sexo e de nudez mostrada no filme. Quer saber? Era sim, porra! O nome do filme não é "Momentos de PRAZER e de Agonia"? É bom lembrar também que, naquela época (entre 1982 e 1983), diversos realizadores brasileiros estavam descambando para o sexo explícito, devido à grande dificuldade de produzir filmes "normais", e mesmo diretores "sérios" enchiam suas obras de mulher pelada para atrair o público, cada vez mais distante das salas de cinema.


Eu, pelo menos, não tenho problema algum com nudez no cinema brasileiro, e acho ridículos protestos como aquele absurdo feito pelo Pedro Cardoso recentemente. Mas cada macaco no seu galho, não é?

Fica o aviso: se você não curte sexo e nudez em filme nacional, é melhor ficar bem longe de MOMENTOS DE PRAZER E AGONIA. Já quem não tem preconceito pode encarar numa boa: em 1h30min, você vai ver todo sexo e mulher pelada que o cinema brasileiro não mostrou nos últimos 15 anos!

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Momentos de Prazer e Agonia
(1983, Brasil)

Direção: Adnor Pitanga
Elenco: Rossana Ghessa, Anthony Steffen,
Fátima Leite, Helena Andrea, Rinaldo Gines,
Ismênia Kreis e Leila Correia.