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sexta-feira, 31 de julho de 2020

ANDRÓIDE ASSASSINA (1991)


Em agosto de 2003, eu fui um dos tantos brasileiros a lotar os cinemas para ver uma bomba atômica chamada “O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas”, terceiro episódio de uma franquia absolutamente desnecessária, cujo primeiro filme já tinha encerrado de maneira brilhante. Passados mais de 15 anos daquele momento decepcionante, não lembro de absolutamente nada deste terceiro filme que não seja a ma-ra-vi-lho-sa Kristanna Loken (abaixo) no papel da vilã T-X, apelidada (com justa causa) de “Terminatrix”. Na época a moça tinha 24 anos e parecia mirradinha; não era uma daquelas super-mulheres bombadonas que a gente espera fazendo um personagem assim. E isso apenas aumentava a surpresa quando a Terminatrix tocava o terror e saía no braço com um brutamontes tipo o Schwarzenegger. A carreira da moça foi ladeira abaixo a partir daí, mas “O Exterminador do Futuro 3”, por pior que seja, é todinho da Kristanna Loken, e isso ninguém pode tirar dela.


Embora soasse como novidade para os virjões que foram ver “O Exterminador do Futuro 3” lá em 2003, a ideia da mulher-robô é tão antiga quanto a humanidade. Antes mesmo de haver a definição de robô como conhecemos hoje, enquanto estrutura mecânica capaz de replicar um ser humano, o mito finlandês “Kalevala” já tinha um herói que, para suportar a perda da amada, construía uma mulher-autômato de ouro e prata para ocupar seu lugar. Segundo historiadores, os relatos da “Kalevala” têm pelo menos 3.000 anos de idade! Tão antigo quanto, o poema épico “Ilíada”, atribuído a Homero e escrito entre 1260 e 1180 antes de Cristo, também já mostrava Hefesto, o deus do Fogo, rodeado de autômatos feitos de ouro e com forma de mulher, que lhe serviam como criadas.

No século 19, as mulheres-robô ganharam protagonismo graças a Olimpia, o autômato feminino por quem o herói Nathanael se apaixona no clássico “Sandman”, de E.T.A. Hoffmann (publicado em 1814), e graças a Hadaly, uma mulher-mecânica movida a eletricidade que aparece em “L'Ève Future” (A Véspera do Futuro), novela do francês Auguste Villiers de l'Isle-Adam publicada em 1886, e que foi uma das primeiras a usar o termo “andróide”.

Mas foi a chegada do cinema que popularizou os autômatos com curvas femininas. Especialmente a partir da obra-prima “Metrópolis” (1927), do alemão Fritz Lang, que trazia um belíssimo robô interpretado por Brigitte Helm, cujas formas inspiraram o C-3PO da série “Star Wars”.

Já a década de 1980 trouxe uma avalanche de filmes com mulheres robóticas, numa febre provavelmente inspirada por “Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott, cujas moças artificiais (interpretadas por Sean Young, Daryl Hannah e Joanna Cassidy) são ao mesmo tempo lindas e mortais. No pós-“Blade Runner”, tivemos “roboas” em “Uma Agente do Ano 2000” (1985, de Virgil W. Vogel), “Cherry 2000” (1987, de Steve De Jarnatt, onde as andróides são assumidamente usadas como escravas sexuais!), “The Retaliator” (1987, de Allan Holzman), e “Robochic” (1990, de Ed Hansen e Jeffrey Mandel). O fato de as personagens serem sempre interpretadas por mulheres lindas ou boazudas (respectivamente Wendy Kilbourne, Pamela Gidley, Sandahl Bergman e pela coelhinha da Playboy Kathy Shower) diz muito sobre a cabacice dos cientistas que criaram estas andróides em seus respectivos filmes...


E assim finalmente chegamos a 1991 e EVE OF DESTRUCTION, nosso analisado de hoje aqui no Filmes para Doidos, que foi lançado no Brasil com um título mais “direto ao assunto”: ANDRÓIDE ASSASSINA. No mesmo ano em que foi lançado “O Exterminador do Futuro 2”, mas cinco meses antes (a sequência de James Cameron estreou nos cinemas dos Estados Unidos em julho; este aqui, em janeiro de 1991), ANDRÓIDE ASSASSINA também traz uma mulher sintética sexy e mortal, na linha do que já vinha sendo feito nos anos 1980.

Obviamente que quando você disputa a atenção do espectador com o novo blockbuster dirigido por James Cameron, e seus efeitos especiais revolucionários para a época, a competição fica bem difícil. E por isso este aqui já saiu perdendo de começo – um daqueles casos de bad timing, quando filmes com temas parecidos (neste caso, ameaças robóticas indestrutíveis) chegam aos cinemas praticamente ao mesmo tempo. E é óbvio que enquanto “O Exterminador do Futuro 2” é uma aventura bem divertida, imortalizada merecidamente na cultura pop, este aqui foi varrido para baixo do tapete da história, sendo lembrado hoje apenas pelo Filme para Doidos que é...


ANDRÓIDE ASSASSINA começa de maneira falsamente prosaica, com um sujeito (Loren Haynes) se vestindo diante do espelho, no que parece ser um quarto de hotel como qualquer outro. Um funcionário entra com a bandeja do café-da-manhã e estranha quando o “hóspede” agradece repetidas vezes, mas nada que chame a atenção do espectador até então. É quando a câmera “entra” no espelho e revela que, do outro lado da superfície reflexiva, à la “Alice Através do Espelho”, há todo um novo universo povoado por técnicos e cientistas diante de computadores, analisando as reações daquele homem que se veste no quarto de hotel.

Então o sujeito “trava” enquanto tenta apertar o nó da sua gravata, como se tivesse dado um bug no sistema. Um alarme dispara nos computadores do outro lado do espelho. “Muito estresse nas áreas HK3 e HK4”, informa uma cientista. “Há uma irregularidade no impulso elétrico”, complementa outro. “É a maldita mão de novo! Vamos desligá-lo”, anuncia, finalmente, a Dra. Eve Simmons (Renée Soutendijk), que é a pesquisadora-chefe do projeto.

No “quarto de hotel”, as paredes caem e técnicos entram para analisar o “homem” agora imóvel, na verdade um andróide avançadíssimo, mas com pequenos problemas de adaptação, como percebemos. Um cientista prontamente arranca a pele da mão da criatura, deixando à mostra seus sistemas eletrônicos, enquanto a Dra. Eve lamenta que aquele contratempo vá atrasar a entrega de dados sobre o projeto, que já está bastante acima do orçamento e correndo risco de ser cancelado.


Felizmente, o andróide que não consegue nem colocar sua gravata sem travar não é o único experimento do time: eles têm um outro modelo muito mais avançado com formato feminino, Eve VIII. Como o nome já denuncia, trata-se de UMA andróide, e construída seguindo os moldes da sua própria criadora, a cientista de mesmo nome (o quanto isso diz sobre a vaidade da moçoila?).

Mais adiante descobriremos que Eve VIII também foi alimentada com as memórias e padrões cerebrais da cientista, literalmente dando origem a um clone cibernético dela (a andróide é interpretada pela mesma atriz Renée Soutendijk, em papel duplo à la Brigitte Helm em “Metrópolis”). O roteiro não explica o que aconteceu às outras sete Eves anteriores, mas, considerando a dor-de-cabeça que o oitavo modelo dará mais adiante, podemos ter uma boa ideia...


Como Eve VIII parece responder melhor aos testes do que seu colega de linha de produção (bem, pelo menos ela não precisa colocar uma gravata, e assim já sai em vantagem!), os pesquisadores resolvem enviá-la para um teste de campo, para descobrir se ela passaria por “humana” sem levantar suspeitas. A andróide é despachada para San Francisco com um único agente no seu encalço (Greg Collins), o que não me parece a decisão mais inteligente. A princípio, tudo funciona perfeitamente: Eve VIII engana as pessoas que não conhecem sua verdadeira natureza e até atrai olhares de flerte no metrô.

Só que aí a dupla dá o azar de entrar numa agência bancária justo no momento em que ela está para ser assaltada. O agente que ciceroneia a andróide reage, mata um dos assaltantes e logo é abatido pelo outro com um tiro. É quando a moça artificial sofre um bug, sem saber como reagir à situação. Acaba seguindo seu instinto: tendo sido criada como arma de guerra, ela primeiro sobrevive a um tirambaço de espingarda no peito, depois arremessa o segundo assaltante pela vitrine da agência bancária, antes de se mandar rapidinho dali, agora entregue ao próprio destino e levando a metralhadora Uzi deixada por um dos criminosos.


Entra em cena nosso “herói”, o Coronel Jim McQuade, um especialista em contraterrorismo interpretado por Gregory Hines. Quando o encontramos pela primeira vez, ele é refém no que parece ser uma republiqueta das bananas sul-americana. Mas nada é o que parece ser em ANDRÓIDE ASSASSINA e, como no caso do quarto de hotel da cena inicial, o lugar na verdade é um campo de treinamento para unidades de elite que combatem terroristas. McQuade está passando um sermão nos soldados, por causa de um deslize que cometeram durante a operação, quando surge um helicóptero do NSC (National Security Council) e ele é recrutado para perseguir e desativar Eve VIII.

Àquela altura ninguém sabe onde exatamente a andróide está, mas McQuade é alertado de que o tiro que a atingiu deve ter travado a criatura em “modo de combate”. Aí o herói recebe algumas notícias nada animadoras. Primeiro, ele terá que caçar a ameaça cibernética sozinho, contando apenas com a ajuda da Dra. Eve, a cientista que a criou à sua imagem e semelhança. Depois, a única maneira de “desativar” a andróide é dar-lhe um tiro no olho que destrua o seu cérebro eletrônico – o único ponto fraco no organismo sintético da criatura. Finalmente, Eve VIII também está equipada com uma mini-ogiva nuclear que pode explodir a qualquer momento e vaporizar completamente uma grande cidade!


Acho que neste momento já podemos fazer uma pausa e destacar algumas bobagens que forçam a sensação de suspension of disbelief (o termo usado para atentados à lógica em obras de ficção) em ANDRÓIDE ASSASSINA. Tudo bem, eu já vi filmes suficientes com animais gigantes assassinos produzidos como armas de guerra para acreditar que o governo dos EUA é burro o suficiente para construir qualquer coisa mortal que supra esta necessidade. Agora, como diabos os caras constróem uma andróide praticamente indestrutível, e com tamanho potencial de letalidade, sem colocar-lhe um sistema de segurança que permita desativá-la à distância (o próprio protagonista brinca que deviam ter colocado um “botão liga-desliga” em Eve VIII)?

E mais: não há sequer um sistema de rastreamento, para que seja possível descobrir mais fácil e rapidamente onde a andróide está, no caso de ela sair do controle e resolver fugir sozinha, como acontece! Logo, nosso herói McQuade está num mato sem cachorro e só pode contar com a ajuda da cientista responsável pelo projeto – porque como a andróide usa as memórias e padrão de inteligência da sua criadora, em teoria também pensa como ela.


Enquanto isso, Eve VIII tem suas próprias prioridades. Depois de descolar munição suficiente para vencer uma pequena guerra, comprar um figurino em couro mais sensual (e MUITO parecido com a roupa usada por Kristanna Loken em “O Exterminador do Futuro 3” uma década DEPOIS, inclusive na cor, numa daquelas coincidências beeeem curiosas), e alugar um carro com um cartão de crédito roubado, a andróide põe o pé na estrada. Ela pára num inferninho de beira de estrada e sensualiza ao som da jukebox, atraindo a atenção de um galã de rodoviária (David Hayward).

A andróide curte um breve momento de intimidade no motel ao lado do inferninho, mas logo entra novamente em battlefield mode quando o galã de rodoviária começa a usar palavras de baixo calão para se referir a ela. A resposta vem na forma de um boquetinho que termina dolorosamente mal para o sujeito – numa cena filmada da maneira menos sutil possível, deixando o espectador encabulado pela pobre atriz (se liga na boquinha prestes a dar um “nhact!” na imagem abaixo!).


Quando dois amigos do agora castrado galã de rodoviária irrompem no quarto para defender a masculinidade do rapaz (imagino que a essa altura seja tarde demais, caras!), Eve VIII democraticamente também enche os dois de bolacha, e ainda quebra o braço de um deles para aprenderem a não se meter onde não são chamados.

A polícia aparece (depois que o veículo usado pela andróide é localizado) e precisa enfrentar a cyborg em modo full pistola, distribuindo tiros de metralhadora nos homens da lei e explodindo carros sem desfazer o penteado, como se estivesse naquela icônica cena da delegacia do primeiro “O Exterminador do Futuro” – aqui também este é um dos pontos altos do filme.


McQuade e a doutora chegam atrasados ao local do massacre, e é quando a cientista tem uma epifania que a ajuda a prever os próximos passos de sua problemática criação: o inferninho em questão era uma fantasia sexual que ela tinha na juventude, e que nunca concretizou – entrar no local e insinuar-se para estranhos. Como a andróide foi construída com os padrões cerebrais da Eve humana, a cientista acredita que sua invenção está tratando de vivenciar estas fantasias, e ainda resolver todas as frustrações que vieram “de brinde” com as memórias da sua inventora!

Logo, os próximos passos de Eve VIII devem ser acertar as contas com o pai alcoólatra (o veterano Kevin McCarthy, de “Vampiros de Almas”) e com o ex-marido Peter (John M. Jackson), que mora em Nova York e com quem a cientista tem um filho, o pequeno Timmy. A dupla de heróis precisa correr contra o tempo para chegar aos alvos antes da robô. Até porque existe a possibilidade de Eve VIII detonar seu dispositivo nuclear a qualquer momento e varrer Nova York do mapa!


Embora hoje ANDRÓIDE ASSASSINA tenha cara e jeitão de filme produzido direto para vídeo (e em muitos momentos até de telefilme), ele foi tratado, e principalmente divulgado, como se fosse um blockbuster lá atrás, em 1991. Teve ampla divulgação na imprensa e em revistas especializadas em cinema de gênero, como Fangoria e Starlog.

Seu orçamento de 13 milhões de dólares pode parecer mixaria para os padrões atuais (ou em comparação aos 100 milhões investidos em “O Exterminador do Futuro 2” no mesmo ano), mas uma produção média da época ficava nessa faixa. A Orion, empresa que o produziu, fez no mesmo ano o premiado “O Silêncio dos Inocentes” por 19 milhões.


A direção ficou a cargo do inglês Duncan Gibbins, um dos mais respeitados diretores de videoclipes dos anos 1980. Entre seus trabalhos mais famosos estão os que fez para “Wake Me Up Before You Go-Go”, do Wham!, e para a clássica música de pegação “Careless Whisper”, de George Michael. Mas seu trabalho mais “cinematográfico”, e que deve ter lhe aberto portas em Hollywood, foi o videoclipe de “Don't Leave Me This Way”, do The Communards. Antes ele tinha dirigido um único filme, o romance “Brincando com Fogo”, de 1986, hoje considerado um cult movie.

O trabalho de Gibbins em ANDRÓIDE ASSASSINA é correto, e em mais de uma cena é perceptível o olhar de videoclipeiro – felizmente, de uma época anterior aos cortes de milésimo de segundo e câmera sacudindo freneticamente que a MTV popularizou. Mas o diretor parece ter ambições muito maiores do que o orçamento ou o formato de aventura de ficçáo científica lhe permitiam explorar.


Em entrevistas da época, por exemplo, Duncan tinha esperanças de que seu filme se tornasse um sucesso tão grande quanto “O Exterminador do Futuro” original, ao mesmo tempo em que declarava que a obra era completamente diferente: “O que eu realmente tentei fazer foi um thriller psicológico com elementos de ficção científica. Está mais próximo de ‘As Três Máscaras de Eva” do que de ‘O Exterminador do Futuro’ ou ‘Robocop’. Foi isso que eu tentei fazer”, declarou à Fangoria de outubro de 1990, num artigo com o título impagável de “Bride of the Terminator”!

A referência feita pelo diretor é do tipo que, hoje, acenderia uma luzinha vermelha no cérebro de produtores e distribuidores: “The Three Faces of Eve”, o filme citado por ele como grande influência, não tem nada a ver com andróides ou com “O Exterminador do Futuro”; é um drama de 1957 sobre uma mulher que sofre de Transtorno de Personalidade Múltipla!


E vendo o filme percebe-se que Gibbins não estava apenas tentando ser espertinho ao fazer esta associação. Suas duas personagens principais (a cientista e a robô) se chamam Eve, como a personagem de “The Three Faces of Eve”, e a figura da mulher sintética (lembrando que já estamos na oitava versão da Eve artificial) parece funcionar como uma materialização das personalidades múltiplas da protagonista do filme de 1957. Enquanto a cientista Eve é cheia de conflitos pessoais e familiares, além de fantasias sexuais nunca exploradas, a robô Eve não foi programada para ter as inibições da sua versão humana, e portanto pode manifestar o que a sua criadora reprime – seja sexo com desconhecidos, seja o desejo de matar o próprio pai!

O diretor escreveu o roteiro em conjunto com Yale Udoff (da obra-prima “Bad Timing”, dirigida por Nicolas Roeg). Na mesma edição da Fangoria anteriormente mencionada, Udoff confirmou a intenção da dupla de seguir numa linha mais psicológica e menos convencional: “Não tem nada de interessante em apenas fazer um filme sobre um robô. Mas um filme sobre um robô que tem problemas muito humanos, isso é interessante. A protagonista cria seu duplo, um doppelganger, que de muitas formas é mais humano do que ela. A robô recebeu todo o background emocional e psicológico da sua criadora, e acaba acessando muitas coisas que a própria cientista nunca fez”. Detalhe: nas entrevistas da época, tanto Gibbins quanto Udoff eram reticentes em chamar sua história de “ficção científica”, preferindo o termo “thriller psicológico”. Então tá...


Parece lindo na teoria, mas na prática muito pouco do que eles declararam à Fangoria (e outras revistas da época) aparece em ANDRÓIDE ASSASSINA – embora a ideia da versão robótica exteriorizar os sentimentos reprimidos e inseguranças da sua criadora seja muito boa. Ou o material mais “psicológico” ficou no chão da sala de edição, ou o espectador quase nem se dá conta, pois são momentos pontuais que acontecem na correria, entre rajadas de metralhadora e explosões.

O aspecto mais diferente da coisa toda é que, lá pelas tantas, o personagem de Hines é obrigado a arrancar da sua parceira cientista mais detalhes sobre o “lado negro” da moça, de maneira a antecipar os passos da andróide. Tirando isso, e apesar das referências e do lero-lero dos criadores, trata-se justamente de uma aventura de ficção científica simplória feita para tentar imitar sucessos da época, como “O Exterminador do Futuro”, ou mesmo “Blade Runner”.


A propósito: a “sofisticação” das referências se estende ao título original do filme, “Eve of Destruction”. É um trocadilho que se perde na tradução, mas em inglês pode significar tanto “Eve da Destruição”, com o nome da andróide, quanto a iminência da destruição caso a vilã exploda sua ogiva nuclear, já que eve também é a palavra em inglês para “véspera”.

Finalmente, “Eve of Destruction” é o nome de uma famosa canção de protesto dos anos 1960, contra a Guerra do Vietnã, escrita por P. F. Sloan e cantada por Barry McGuire. E claro que Eve também é a versão em inglês do nome próprio Eva, o que remete à primeira mulher, para quem acredita em seres humanos feitos de barro por um Deus onipresente e todo poderoso.


O grande problema de ANDRÓIDE ASSASSINA é que o filme sempre parece um passo atrás do seu potencial. Mesmo amontoando pilhas de cadáveres durante os rompantes de fúria de Eve VIII, as cenas nunca são tão violentas quanto poderiam ser, comparando com os anteriores “O Exterminador do Futuro” ou “Robocop”. E embora os efeitos especiais sejam práticos e bem bons (assinados por R. Christopher Biggs, que trabalhou em franquias de horror como “Sexta-feira 13” e “A Hora do Pesadelo”), o filme é econômico ao utilizá-los, às vezes até os desperdiça.

Quem queria ver Eve VIII meio humana, meio robô, tipo o Terminator de Schwarzenegger, vai quebrar a cara: a andróide não é mecânica ou cibernética, e sim sintética. Isso quer dizer que é produzida com um material que imita a carne humana, e até sangra para deixar a farsa mais convincente. Mas os tiros disparados contra ela não podem atingir nenhum órgão vital, simplesmente porque estes não existem. Poderia ser uma boa desculpa para mostrar a andróide em cacarecos à medida que enfrentasse a dupla de heróis, mas, novamente, o filme é bastante tímido neste sentido, com alguns poucos ferimentos mais pesados e visíveis apenas na cena final.


Curiosamente, a já mencionada reportagem da Fangoria traz duas belas fotos mostrando efeitos de maquiagem que não aparecem no filme pronto. Quer dizer, parte de um deles até aparece, num vídeo que o personagem de Hines assiste enquanto é preparado para a sua missão, mas o enquadramento da cena não mostra boa parte da maquiagem, que parece ter levado um tempão para fazer no corpo da atriz. Já a imagem do crânio da andróide aberto, provavelmente um outro trecho da mesma cena, desapareceu do produto final. Abaixo, as duas fotos de divulgação publicadas pela Fangoria em 1990, com efeitos que não estão no filme, ou aparecem de relance.


Outros grandes problemas do filme são a total falta de química entre o casal de protagonistas, e o fato de Gregory Hines não convencer, nem com muita boa vontade, como herói de ação. Em relação ao primeiro tópico, o diretor Gibbins tentou se justificar naquela entrevista à Fangoria: “Os heróis estão correndo contra o relógio, e você não pode simplesmente parar tudo para que de repente, do nada, eles tenham um romance”. Convenhamos também que fica difícil rolar química quando o herói precisa ficar improvisando sessões de terapia com a heroína para tentar entender como ela pensa e, consequentemente, como Eve VIII pensa.

Já o finado Hines (1946-2003) como militar fodão é injustificável. Mais lembrado primeiro como cantor e dançarino (na vida real ele teve bandas, e anos de prática em sapateado), depois por papéis mais leves e bem humorados (e geralmente como parceiro de alguém, poucas vezes ele foi protagonista), o ator não tem o físico e nem a atitude para aparecer como um sujeito durão habituado a trocar tiros e socos. E olha que nos anos 1980 ele chegou a ser cogitado para estrelar duas grandes aventuras: “48 Horas” (o papel ficou com Eddie Murphy) e “Os Caça-Fantasmas” (onde foi substituído por Ernie Hudson). A julgar pela sua performance apagada em ANDRÓIDE ASSASSINA, as trocas foram acertadíssimas.


Quem se sai consideravelmente melhor é a holandesa Renée Soutendijk. O papel duplo das Eves boa e má lhe permite brincar com a dobradinha “interpreta humana/interpreta robô”: enquanto a cientista é toda certinha e recatada, Eve VIII é uma sedutora máquina de matar, e Renée compõe interpretações completamente diferentes para cada uma das personagens.

Como a andróide não foi programada para ter freios morais, seus rompantes de fúria geram alguns momentos em que o espectador quase torce pela vilã, como quando ela castra o galã de rodoviária e abusador em potencial, ou destrói o carro de um motorista estressadinho que a xinga de “vagabunda” durante uma ultrapassagem perigosa na rodovia. E é óbvio que o filme também explora a imagem de sex symbol que a holandesa trazia de seus filmes europeus: ela aparece pelada, com uns microvestidos colados no corpo, de lingerie, sensualizando muito, etc e tal...


Em 1991, Renée era uma atriz bastante popular na Europa (aparece inclusive nos primeiros trabalhos da fase holandesa de Paul Verhoeven, “Sem Controle” e “O Quarto Homem”), e tentava vingar em Hollywood. Após alguns telefilmes e produções baratas, ANDRÓIDE ASSASSINA seria o seu primeiro “blockbuster”. Se tivesse funcionado, ela entraria num seleto grupo de atores europeus que fizeram sucesso nos EUA “interpretando” máquinas, como o conterrâneo holandês Rutger Hauer em “Blade Runner” ou o austríaco Schwarzenegger em “O Exterminador do Futuro”.

Só que o filme não vingou. Com “O Exterminador do Futuro 2” perto de estrear, ninguém quis perder tempo vendo outra história com robôs malvados que parecem humanos. Depois de uma estreia pífia, o filme saiu de cartaz tendo arrecadado menos de 6 milhões de dólares – ou seja, não recuperou nem metade do seu orçamento. Renée voltou para a Holanda e continua trabalhando no cinema europeu até hoje. Recentemente, fez até uma participação no remake de “Suspiria” do Luca Guadagnino.


Visto hoje, e depois da própria franquia “O Exterminador do Futuro” ter ido pro vinagre, ANDRÓIDE ASSASSINA pode ser saboreado como um filme B razoavelmente divertido, com alguns bons momentos aqui, algumas risadas involuntárias acolá (aquela boquinha de arrancar pinto... Jesus!). O sentimento de que algo melhor poderia ter saído do projeto segue transparecendo a cada minuto, mas o duelo final numa estação de metrô é razoavelmente bem feito e encenado.

O que se percebe claramente é um conflito entre o que o filme é, o filme que o diretor e o roteirista queriam que fosse, e o filme que os produtores queriam lançar. Naquela entrevista para a Fangoria já mencionada, o diretor Gibbins disse que não queria que ANDRÓIDE ASSASSINA fosse vendido como um filme de ação repleto de violência e mulher pelada, embora tenha um pouco de todos esses elementos: “Meu maior pesadelo é ver um pôster gigante com Renée Soutendijk de minissaia e segurando uma Uzi espalhados por toda a Sunset Boulevard”.


Isso revela, claro, uma inocência tremenda do cineasta, já que o pôster dos seus pesadelos seria um belíssimo chamariz de público, e certamente faria ainda mais sucesso nas videolocadoras! No fim, os responsáveis pelo marketing optaram por dar ouvidos ao cineasta, destacando no pôster original a figura de Gregory Hines com um revólver enorme, e colocando a pobre Renée pequenina num cantinho, e numa foto só de rosto! Deu no que deu: apelo zero.

Se Gibbins pudesse ver 12 anos no futuro, teria percebido que “O Exterminador do Futuro 3” explorou justamente a imagem da Exterminadora Kristanna Loken, que aparecia com destaque no pôster e nas fotos de divulgação, e foi um sucesso de bilheteria a despeito de o filme ser uma porcaria. Um dos pioneiros do cinema hollywoodiano, D.W. Griffith, já dizia: “O que é cinema? Uma garota e uma arma”. Duncan Gibbins deveria ter seguido essa máxima...

PS: Escrevi “Se Gibbins pudesse ver...” mais acima porque o cineasta teve um destino trágico e inesperado pouco depois da estreia de ANDRÓIDE ASSASSINA. Em novembro de 1993, um incêndio florestal espalhou-se sem controle, e durante vários dias, pelo sul da Califórnia. Diversos imóveis foram atingidos e destruídos à medida que as chamas se alastravam. Um destes imóveis foi a casa onde Duncan Gibbins vivia. Ele conseguiu escapar por um fio da residência em chamas, mas na última hora decidiu voltar para resgatar seu gato, que estava preso no interior do prédio. Como resultado do ato (tolo, porém muito bonito) de heroísmo, o cineasta foi envolto em chamas e tentou salvar-se pulando na piscina. Com queimaduras graves por 95% do corpo, acabou contaminado pelos produtos químicos usados na água, e morreu dias depois no hospital, encerrando, aos 41 anos de idade, uma carreira cinematográfica que demonstrava certo potencial. Já o gato que ele se sacrificou para resgatar escapou praticamente ileso, comprovando que os felinos têm sete vidas, mas os diretores de filmes B sobre andróides assassinas psicologicamente complexas, não.


Trailer de ANDRÓIDE ASSASSINA
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10 comentários:

Raphael Silvierri disse...

Saboroso texto como sempre. Lembro da atriz na filme do Verhoeven...o Quarto Homem. Não achei na época a atriz atraente, mas o papel a colocava como "femme fatale" realmente, o que se repete aqui, literalmente...vou querer ver esta pérola.

spektro 72 disse...

Eu tenho esse filme "ANDROIDE ASSASSINA" em VHS lançado pela extinta MUNDIAL FILMES ,comprei essa fita de uma locadora que esta se desfazendo de suas fitas VHS de seu acervo de locação .. isso já faz uns dez anos mais eu nunca assisti essa fita por falta de tempo e assistirei nesse dias , tem um filme que tambem possuo em minha vídeoteca chamado "PROTOTYPE -X29A " da Paris Filmes ,uma copia B de "Robocop -1987 " e tambem nunca assisti essa fita novamente por falta de tempo.
Muito boa essa postagem sobre esse tema de mulheres robôs assassinas ,com um texto leve ,cheio de curiosidades e uma boa dose de humor ,parabéns ,Mestre Felipe ,você esta cada dia nos surpreendendo com essas novas postagens .
Um abraço de Spektro 72.

Anônimo disse...

Kim Cattrall tambem fez um filme de uma mulher ciborg assassina chamado "Running Delilah" aqui no Brasil foi lançado em VHS " Androide Assassina " pela TV Vídeo.
Ótima postagem ,esperamos mais postagem como essa de filmes esquecidos pelo o tempo.
Abraços.

Anônimo disse...

Uma coisa que eu gosto do Exterminador 3 são as cenas de luta entre os rôbos que ficaram muito boas.

Daniel I. Dutra disse...

Um outro filme com mulher androide (na verdade o correto seria ginoide, o feminino de androide, mas ninguém usa esse termo) da mesma época é "Cyborg 2", filme de estreia da Angelina Jolie. Inclusive esse filme tem outro ponto em comum com o "Eve of Destruction", em ambos as mulheres robôs (Androides? Ginoides?) podem explodir.

O livro do Auguste Villiers de l'Isle-Adam foi lançado no Brasil com o título "A Eva Futura". Já li. É um tijolo de 500 páginas. Boa leitura.

Vi o "Eve of Destruction" quando foi lançado. A impressão que tive foi que Hines tentou fazer um herói um pouco mais intelectualizado que o típico machão desse tipo de filme. Teria que rever para saber se a impressão seria a mesma, mas acho que irei concordar com a resenha, a julgar que lembro muito pouco do Hines no filme.

@jb1969cinema disse...

Caro Felipe, sempre o seu texto melhor que o filme. Ate melhora o filme, rsrs! Meu trash movie vimeo.com/324407596 Chupa Cabra o filme

Luis disse...

Aaah como amo esse blog!!!

Tulespa disse...

Tava no youtube ate pouco tempo,um pedido,poderia fazer qualquer filme sobre macacos?

João Paulo disse...

Bem legal o texto.

Unknown disse...

Muito interessante o teu blog. Esse filme nao me é estranho.... Será que passou na tela quente nos anos 90?