domingo, 9 de fevereiro de 2020

A PRAIA DO PESADELO (1989)


(Esta resenha foi sugestão do leitor Sergio Campos via twitter. Siga o Filmes para Doidos por lá e colabore com sugestões tuitando AQUI.)

Nos anos 1930, adolescentes norte-americanos iniciaram uma das mais perenes tradições do país: o spring break. Como o início das férias de escolas e universidades dos Estados Unidos é em abril, e coincide com o começo da primavera por lá - além de um longo feriado em comemoração à Páscoa -, jovens com hormônios em ebulição passaram a usar estas três incríveis coincidências como desculpa para lotar as praias em busca de álcool, loucura e pegação.

Para os brasileiros o conceito talvez não funcione tão bem, já que costuma-se usar qualquer desculpa e feriadinho para ir ao litoral em busca de farra. Mas nos EUA é uma tradição quase sagrada, aguardada ansiosamente durante o ano inteiro, além de uma rara oportunidade para jovens não tão sociáveis perderem o cabaço.




Considerando que um dos alvos prioritários dos assassinos mascarados em filmes slasher são jovens tarados, até que demorou para algum desses psicopatas fictícios associar sua temporada de caça ao spring break. Mas, entre os anos 1970-80, produtores e roteiristas de todos os naipes e talentos estavam muito ocupados esgotando primeiro as datas comemorativas (Halloween, Natal, Dia dos Namorados…), depois as locações ermas (cidades pequenas, acampamentos de férias, prédios abandonados…).

Foi só no final dos anos 1980 que alguém teve a ideia genial de levar o slasher à praia com NIGHTMARE BEACH, tosquíssima produção norte-americana e italiana lançada em 1989. Títulos alternativos são “Welcome to Spring Break” e “La Spiaggia del Terrore”; no Brasil, virou A PRAIA DO PESADELO. Uma absurda redundância, claro: para mim as praias brasileiras, com seus turistas mal-educados, calor insuportável, mar poluído, preços caríssimos e estrutura improvisada, sempre foram um pesadelo!



É incrível como ninguém pensou nesta associação antes. A PRAIA DO PESADELO mistura os clichês do slasher com a temporada de spring break, associando os crimes do maníaco não apenas a uma data comemorativa (o feriado de Páscoa, embora esta sequer seja mencionada), mas também a uma ambientação na praia que dá a desculpa perfeita para a câmera explorar corpos de garotos e garotas com bastante pele à mostra, sem a necessidade de se criar desculpas para eles tirarem a camisa e elas o resto da roupa, como acontece tão frequentemente em séries como “Sexta-feira 13” e “Halloween”. É a tal da win-win situation!



E o momento não poderia ser mais propício para um slasher praiano. Ao longo dos anos 1980, rolou um inesperado revival dos chamados “filmes de praia” – comédias românticas da década de 1960 sobre as aventuras amorosas de jovens de ferias no litoral. O casal Frankie Avalon e Annette Funicello fez grande sucesso em produções ingénuas como “A Praia dos Biquínis” (1964) e “Como Rechear um Biquini” (1965), mas tudo ainda era muito recatado e comportadinho.

Os filmes de praia oitentistas, por outro lado, vinham na esteira das comédias sexistas tipo “Porky’s” e “O Último Americano Virgem”, e mostravam justamente as aventuras sexuais de jovens tentando perder a virgindade na praia. Um dos pioneiros, quem diria, foi justamente o criador de “Sexta-feira 13”, Sean S. Cunningham, com uma comédia rasteira cujo título não deixa nada para a imaginação: “Spring Break”, de 1983 (no Brasil, “Primavera na Pele”).

Seguiram-se várias outras comédias eróticas com mais ou menos sacanagem, tipo “Garotas da Praia” (1982, de Bud Townsend), “Hardbodies - Aventuras no Paraíso” (1984, de Mark Griffiths) e “Hot Moves” (1984, de Jim Sotos), onde grandes gostosas daquele período, como Monique Gabrielle e Kathleen Kinmont, apareciam de biquíni ou fora dele.

A PRAIA DO PESADELO aproveita não apenas a ambientação, mas também, em parte, o estilo desse breve ciclo. Durante considerável parte do tempo, o filme parece justamente uma típica comédia erótica adolescente do período, com confusões sexuais, festinhas de embalo, shows de rock e concursos de camiseta molhada.

Os próprios protagonistas lembram os “heróis” de comédias tipo “Primavera na Pele”. Skip e Ronnie são jogadores de futebol e amigos de infância; o primeiro (Nicolas De Toth) faz o estilo bonitão loiro, e o segundo (Rawley Valverde) é o sidekick latino desbocado que também já era clichê na época. Como era comum em quase todas essas comédias adolescentes, os atores que interpretam “jovens” já estavam batendo nos 30 anos de idade - mas se colar, colou.



Skip anda meio deprimido e Ronnie o convence de que a melhor maneira de arejar a cabeça é passar o rodo em gatinhas alcoolizadas durante o spring break – ou “a migração anual dos idiotas”, segundo um dos raros personagens adultos do filme. E qual o motivo da depressão do amigo? O fim de um relacionamento? Divórcio dos pais? Morte em família? Não, só a típica preocupação de atleta mocorongo mesmo: Skip foi responsável pela jogada errada que fez o time da sua escola perder o Orange Bowl, o torneio de futebol americano inter-escolas de Miami, e agora está nessas de “Ó céus, ó vida”.

Ronnie, por outro lado, alega que cair na gandaia pode curar a tristeza do amigo – e se ele próprio também conseguir molhar o biscoito no processo, ótimo! Numa cena antológica, digna de uma comédia tipo “Porky’s” ou “American Pie”, Ronnie joga uma dúzia de preservativos sobre o deprimido Skip e anuncia: “Só vamos voltar pra casa depois que você usar todos!”.



O local escolhido pela dupla para curtir o spring break é Fort Lauderdale, na Flórida. E não é por acaso: na vida real, a cidade era destino de adolescentes festeiros desde o longínquo ano de 1934, e acabou virando um símbolo da inconsequência juvenil durante o período graças ao livro “Where the Boys Are”, de Glendon Swarthout, publicado em 1960, que trata justamente sobre amores e conflitos durante as férias de primavera em Fort Lauderdale.

O livro virou best seller e já foi adaptado duas vezes para o cinema, sacramentando o local como o grande point do spring break. Até o final dos anos 1980, quando A PRAIA DO PESADELO foi filmado por aquelas bandas (mais especificamente em Manatee Beach), Fort Lauderdale recebia até 350 mil jovens do país inteiro no feriado. O número baixou bastante nas décadas seguintes, em grande parte pela nova lei proibindo menores de 21 anos de consumir bebidas alcoólicas. Hoje, a molecada com mais grana prefere curtir o feriado em Ibiza, onde tudo ainda é liberado.



Mas voltemos ao filme: infelizmente, nossos amigos Skip e Ronnie escolheram um ano ruim para curtir o spring break. Acontece que, conforme descobrimos na cena inicial do filme, há uma perigosa gangue de motoqueiros autoproclamada Demons operando no lugar. E eles são tão malvados que usam jaquetas de couro com a logotipia do clássico “Demons – Filhos das Trevas”, de Lamberto Bava.



O grandalhão Diablo (Tony Bolano), que era líder dos Demons, aparece sendo executado na cadeira elétrica no início de A PRAIA DO PESADELO, acusado do brutal assassinato de uma adolescente local. Jurando inocência e furioso com a condenação, Diablo berra aos quatro ventos que vai voltar para se vingar, antes da brutal corrente elétrica impedi-lo de dizer qualquer outra coisa.

Por coincidência, logo um misterioso motoqueiro, vestido de preto dos pés à cabeça (com exceção de alguns detalhes em vermelho no capacete), começa a circular pela cidade. Será Diablo de volta dos mortos? Bem, digamos apenas que se fosse ele não haveria necessidade de ficar escondendo o próprio rosto com um capacete, não é? Mas pelo menos a misteriosa figura parece disposta a materializar a promessa de vingança do assassino executado, dedicando-se a exterminar os jovens em busca de farra com... eletricidade?!?




Num subgênero que já teve maníacos usando todo tipo de arma excêntrica (de serras elétricas e luvas com navalhas, de bengalas a guitarras com brocas na ponta), o psicopata de A PRAIA DO PESADELO certamente merece um lugarzinho de honra no ranking da criatividade: ele aparelhou sua enorme motocicleta para poder ELETROCUTAR vítimas até elas torrarem, num destino que remete diretamente à cadeira elétrica que despachou Diablo para o além na cena inicial.

Claro que uma moto eletrificada não é lá uma arma muito prática, e logo não fica mais tão fácil de convencer as futuras vítimas a sentarem na área eletrificada, ou tocarem nas partes mortíferas do veículo. Pois é aí que o filme realmente toca o “Foda-se” e o motoqueiro-do-mal simplesmente começa a matar com eletricidade e fogo, conforme ficar mais prático - seja enfiando cabos desencapados na boca de uma menina, seja incendiando outra viva em frente a uma fornalha. Subitamente, “ficar queimado na praia” ganha outro significado!



Quando o falastrão Ronnie tem ele próprio um encontro pouco amigável com o assassino eletrificado, e “desaparece”, seu amigão Skip utiliza o restante do filme para investigar o que aconteceu. Acaba topando com Gail (Sarah Buxton), a ‘barwoman’ do boteco local, que numa incrível coincidência é irmã da jovem por cujo assassinato Diablo foi executado originalmente.

Agora o improvável casal tem cada um o seu próprio motivo para investigar os misteriosos desaparecimentos/mortes que estão deixando o spring break da galera ainda mais “quente” do que o habitual...



Apesar dos toques de slasher, e das looooongas cenas de morte beirando o sadismo (afinal, fogo e eletricidade não são exatamente as formas mais rápidas de eliminar alguém), A PRAIA DO PESADELO lembra, durante a maior parte do tempo, aquelas comédias adolescentes de verão que fizeram muito sucesso durante os anos 1980.

A trama se passa num universo povoado por personagens bem característicos deste subgênero, e que parecem saídos de alguma comédia safadinha - tipo o gerente do hotel que espia as garotas trocando de roupa por um buraquinho na parede, ou a prostituta que, com a desculpa de “pagar a faculdade”, aparece levando homens de todas as idades e tamanhos para o seu quarto!

Também vem diretamente do “filme de praia adolescente” a garçonete queridinha que parece ser o único vestígio de pureza num mar de putaria (e por quem, obviamente, o protagonista se apaixona).




Isso torna o clima do filme bem esquisito, porque num momento vemos a praia fervilhando de garotas de biquíni e jovens curtindo, com muito sol e muita cor, e no momento seguinte alguém é morto violentamente num cantinho escuro qualquer. É como se um psicopata invadisse uma bobagem tipo “Férias do Barulho” e matasse os personagens em meio às piadas escrotas. E isso quase duas décadas antes de Eli Roth criar o mesmo choque entre o humor sexual-chulo e a violência desenfreada em seu “Hostel” (2005).

A própria montagem cria um choque curioso ao cortar da imagem de rostos desfigurados/carbonizados pelo assassino diretamente para corpos perfeitos de sunga ou biquíni, e se você estiver assistindo a esta tralha com qualquer espírito filosófico pode até encarar o casamento entre as imagens como um comentário irônico sobre a brevidade de nossas vidas!





A PRAIA DO PESADELO foi filmado durante um spring break verdadeiro no ano anterior (1988). Isso garantiu figurantes de graça nas várias cenas que mostram multidões de jovens zanzando pela cidade e pela praia. Eu não duvido que momentos como o concurso de camiseta molhada mostrado no filme já estavam rolando por conta própria e os caras só colocaram a câmera para filmar. (Há sites que alegam que a picaretagem é ainda maior e foram usadas cenas de arquivo de um concurso verdadeiro organizado pela revista Playboy!)




A não ser que você seja um completo retardado, fica claro desde o começo que o pobre Diablo não tem nada a ver com a história, e que o assassino mascarado (ou “capacetado”) está apenas usando elementos como a moto e a eletricidade da cadeira elétrica para fazer com que a culpa recaia sobre o finado.

Uma série de pistas falsas, como o fato de o cadáver de Diablo ter sumido do necrotério, tenta ressaltar esse clima de mistério estilo “Será que ele voltou?”; mas, novamente, só quem nasceu ontem vai cair nessa.



Porque logo fica claro que A PRAIA DO PESADELO é um legítimo ‘whodunit’, um mistério onde parte da graça é descobrir quem se esconde por trás do traje do maníaco e porquê – dando origem a nem sempre convincentes “Finais Scooby-Doo” que passariam a ser regra do subgênero a partir dos anos 1990, especialmente depois do sucesso de “Pânico”.

E quem será o culpado? Willet, o legista local, interpretado pelo genial Michael Parks (que Tarantino usaria várias vezes em seus filmes como “Kill Bill” e “Death Proof”)? Strycher, o xerifão interpretado por John Saxon, que guarda fotos das vítimas e suspeitos acessórios de S&M em sua casa? Ou algum dos motoqueiros barra-pesada da gangue de Diablo, querendo “continuar o trabalho” do seu líder? Acredite: a revelação do final não apenas está na cara desde o início, mas também é de rolar de rir!




O curioso é que, enquanto tenta vender a ideia de que o culpado seja um assassino executado na cadeira elétrica que ressuscitou e usa a eletricidade como arma, A PRAIA DO PESADELO acaba ficando lado a lado com três outros filmes de horror, feitos mais ou menos na mesma época, sobre psicopatas ou assombrações geradas por execução similar: “Prison / Duro de Prender” (1987), de Renny Harlin; “Cadeira Elétrica” (1988), de Waldemar Korzeniowsky; “The Horror Show / A Casa do Espanto 3” (1989), de James Isaac; e “Shocker: - 100 Mil Volts de Terror” (1989), de Wes Craven. Misteriosamente, a execução por injeção letal nunca trouxe nenhum psicopata de volta à vida. Talvez seja a hora de aposentar a maldita cadeira elétrica, pois o cinema de horror comprova que ela não funciona.



Há ainda a presença de um idiota que fica assustando todo mundo ao simular a própria morte repetidas vezes por pura sacanagem, tipo o gordinho de “Sexta-feira 13 Parte 3”, e que obviamente vai morrer de verdade lá pelas tantas e ninguém vai acreditar – a velha lição de moral do “Garoto que gritou ´Lobo!´”, sempre atualíssima no cinema de horror. Este mesmo idiota, lá pelas tantas, veste uma barbatana de tubarão para assustar as garotas na beira da praia, numa referência direta (para não dizer chupação tosca) a uma cena de “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg.

Também de “Tubarão” vem a ideia do prefeito inescrupuloso (interpretado por Fred Buch) que tenta encobrir os assassinatos para que a presença de um maníaco à solta não impacte na economia local dependente do spring break. Não contente, o ardiloso político pede que o xerife enterre os cadáveres das vítimas no subúrbio da cidade para manter as aparências, uma proposta absurda que o homem da lei segue sem questionar! Será que este prefeito é do mesmo partido do prefeito de Amity, de “Tubarão”?




Embora tenha uma ambientação tipicamente americana, uma temática totalmente americana e um elenco e equipe técnica quase que predominantemente americanos, A PRAIA DO PESADELO foi conduzido por um italiano. Ou melhor, o filme ‘teria’ sido dirigido por Umberto Lenzi, aquele toscano maluco que fez um pouco de tudo na sua carreira - e que, entre outros “méritos”, criou o ciclo de filmes de canibais que aterrorizou o mundo do cinema durante uma década (com o pioneiro “Il Paese del Sesso Selvaggio”, de 1972). Lenzi também dirigiu vários ‘gialli’ bem legais nos anos 1970, como “Gatti Rossi in un Labirinto di Vetro / Eyeball” (1975), que com suas mortes sangrentas lhe dariam qualificações mais do que apropriadas para fazer um legítimo slasher.




O caso é que a paternidade de A PRAIA DO PESADELO é um daqueles mistérios aparentemente longes da resolução, e que nem mesmo o Teste de DNA do Ratinho conseguiria resolver: embora o nome de Lenzi esteja associado à direção desde sempre, quem quer que tenha dirigido esta tralha assinou com um pseudônimo americanizado, “Harry Kirkpatrick”.

Lenzi já tinha usado pseudônimo antes para assinar alguns dos seus filmes menos celebrados, mas geralmente adotava a alcunha “Humphrey Humbert” (uma duvidosa homenagem ao Humbert Humbert de “Lolita”, talvez?). Numa entrevista de 1996 para o livro “Spaghetti Nightmares”, ele jurou que não dirigiu A PRAIA DO PESADELO: o verdadeiro culpado seria o obscuro roteirista norte-americano James Justice.



O fato de que, sendo assim, este se tornaria o único crédito na direção de Justice já levanta suspeitas, mas ainda tem o fato de que atores e equipe técnica LEMBRAVAM DE LENZI DIRIGINDO O FILME! Como seria possível? Pois o velho Umberto justificou dizendo que tinha sido contratado como “consultor” para ajudar Justice a dirigir o filme. Aham, senta lá, Lenzi...

O caso é que mesmo tendo dirigido coisa bem pior na vida, o veteraníssimo cineasta nunca quis assumir a paternidade de A PRAIA DO PESADELO, e levou a verdade com ele para o túmulo: Lenzi morreu em outubro de 2017 sem nunca esclarecer a questão, embora respeitados pesquisadores de cinema de gênero italiano afirmem que, sem sombra de dúvida, foi ele quem dirigiu esta tralha bastarda.



O que se sabe com certeza é que A PRAIA DO PESADELO surgiu de um projeto bastante particular de se tentar “importar” mão-de-obra italiana para fazer filmes baratos de horror nos Estados Unidos. O cinema de gênero em Roma andava moribundo na época, e começava a se resumir a produções burocráticas feitas para a TV (o próprio Lenzi filmou várias).

Tanto este filme quanto um outro chamado “Fúria Primata” foram realizados pelos mesmos produtores, escritos pelo mesmo sujeito (o tal James Justice) e dividem os mesmos técnicos – há quem aposte que foram filmados praticamente ao mesmo tempo, também. A equipe italiana de ambos foi composta pelo ex-Goblin Claudio Simonetti, que fez as trilhas; pelo diretor de fotografia Antonio Climati e pela família Rambaldi - o pai Carlo e os filhos Vittorio e Alex -, que ficou a cargo dos efeitos especiais (Vittorio também assina a direção de “Fúria Primata”).



As novas gerações já não lembram mais do pobre Carlo Rambaldi, falecido em 2012. Mas, durante pelo menos duas décadas, seu nome esteve ligado a algumas das criaturas mais fantásticas do cinema, que ele construiu e animou antes de existir computação gráfica. Entre outros trabalhos marcantes, Carlo foi o responsável por ter construído o animatrônico da cabeça do monstro em “Alien – O Oitavo Passageiro”, o gorila gigante da refilmagem de “King Kong” de 1976, e seu trabalho mais popular: o simpático alienígena de “E.T. – O Extraterrestre”, do Spielberg (ele e sua equipe ganharam o Oscar de Efeitos Especiais pelos três trabalhos).

Como no final dos anos 1980 o CGI da Industrial Light & Magic já começava a dar as caras, e também já havia excelentes técnicos de efeitos como Rick Baker e Chris Wallas trabalhando nos Estados Unidos, Rambaldi caiu na obscuridade e teve que voltar a produções menos dinheirudas e celebradas, como estas, ajudando os filhos a criar mortes grotescas e monstros fajutos.




Em A PRAIA DO PESADELO, os Rambaldi ficaram responsáveis pelos bonecões animatrônicos que literalmente tostam nas cenas de morte - seja pela ação do fogo, seja pela ação da corrente elétrica. Lembro muito bem de o célebre Guia de Vídeo Nova Cultural referir-se ao trabalho da família da seguinte maneira: “Os efeitos são de lascar”.

E são mesmo: os bonecões substituindo os atores são visíveis e nem sempre muito bem feitos. Mas ainda acho mais legal ver um animatrônico derretendo do que o mesmo efeito em computação gráfica porca. Embora a produção seja visivelmente barata, dá pra ver que a família empenhou bastante trabalho nesses efeitos, e provavelmente o orçamento do filme escoou todo para os pobres animatrônicos sendo incendiados/eletrocutados ao som de um engraçado tema de rock composto por Simonetti.




Mas a minha cena de morte preferida sequer tem bonecos sendo queimados on-camera. Trata-se daquela em que uma garota assustada tenta se esconder num elevador e é atacada pelo psicopata que estava escondido no teto do negócio (e vá entender como diabos o sujeito foi parar aí em cima, ou como adivinhou que a vítima iria correr para o elevador para poder esperá-la ali escondido). Demonstrando uma agilidade e uma mira absurdas, ele consegue enfiar um cabo de alta tensão na boca da moça no exato momento em que ela grita, e o resultado é uma “eletrocução” apresentada através de fagulhas desenhadas NO PRÓPRIO NEGATIVO, lembrando (sem querer, obviamente) os trabalhos experimentais do animador escocês Norman McLaren! Esta cena, sozinha, já vale o filme e as gargalhadas.



Um grande ponto negativo de A PRAIA DO PESADELO é desperdiçar o cenário e a ambientação, já que, tirando o fato de o filme se passar numa praia durante o spring break, as mortes continuam rolando em locais distantes e desertos que poderiam ser em qualquer localização geográfica do mundo, de Crystal Lake à cidadezinha de Haddonfield da série “Halloween”. A morte envolvendo uma caldeira em chamas até lembra a refinaria onde estão ambientadas várias cenas da franquia “A Hora do Pesadelo”.

Tudo bem, eu mesmo assumo que não seria tão fácil colocar um maníaco mascarado atacando na praia à luz do dia - imagina o sujeito com máscara e sunga de banho! Mas não ajuda nada ter um vilão tão fraco e pouco ameaçador, que não passa de um zé-mané vestindo roupa de couro e capacete de motoqueiro. Sequer é original, pois os vilões dos slashers “Night School” (1981, de Ken Hughes) e “Nail Gun Massacre” (1985, de Bill Leslie e Terry Lofton), já tinham vestido traje de motoqueiro anos antes.




Num elenco com diversas caras conhecidas (Parks, Saxon) defendendo personagens que não passam de caricaturas, a nota negativa vai para o casal de protagonistas. Principalmente Sarah Buxton, que parece uma boneca Barbie que ganhou vida e resolveu desfilar pelo filme, sem nunca reagir espontaneamente ou se importar com o que acontece ao seu redor.

Nicolas De Toth é igualmente inexpressivo, e a única curiosidade é o fato de ele ser filho do veterano diretor André De Toth - do “Museu de Cera” de 1953, por coincidência outro filme que mostra bonecões sendo queimados ou derretidos! O pobre Nicolas percebeu que a coisa não era pra ele e aposentou a carreira de “ator” depois deste filme, tornando-se editor de blockbusters como “O Exterminador do Futuro 3” e “X-Men Origens: Wolverine”.




Outra participação curiosa é a do envelhecido Lance LeGault como o puritano reverendo local (que definitivamente está na paróquia errada!). Nos áureos tempos, LeGault foi dublê de ninguém menos que Elvis Presley em filmes como “Garotas e Mais Garotas” (1962) e “Amor a Toda Velocidade” (1964). Este aqui é um de seus raros trabalhos fora das séries de TV.




Em suma, A PRAIA DO PESADELO é mais um daqueles filmes que, como eu canso de escrever aqui no blog, atualmente funcionam pelos motivos errados (se é que um dia funcionaram pelos motivos certos!). O casal de protagonistas é horroroso, tornando tudo que acontece ao redor deles mais interessante do que deveria ser; as mortes violentíssimas continuam hilárias, e confesso que nem parecem mais tão toscas depois de estarmos acostumados a uma dieta de CGI ruim; e há todo aquele clima de comédia bobona na praia que às vezes invade a trama e parece até um outro filme.

E o personagem zé-graça que vive a simular a própria morte (antes de morrer “de verdade”, claro) parece existir para nos lembrar constantemente daquilo que nos atrai a esse tipo de tranqueira em primeiro lugar: o fato de ser tudo de mentirinha, uma besteira inofensiva que repele e atrai tanto quanto o passeio num trem-fantasma de parque de diversões fuleiro.




Hoje, 30 anos depois, funciona ainda como um bizarro túnel do tempo, um recorte com o pior da década de 1980, dos mullets ao rockzinho-farofa de bandas chamadas Kirsten e Rough Cut, interpretando baladinhas românticas com nomes tipo “Don't Take My Heart” e “Bad Love So Right” num filme escabroso em que pessoas morrem queimadas vivas.

É masoquismo, eu sei, mas confesso que ainda prefiro revisitar A PRAIA DO PESADELO a sofrer na pele os efeitos das nossas “nightmare beaches” do mundo real...

PS: Se você estiver pensando em se mudar para Los Angeles, compre sua casa com o Rawley Valverde, que abandonou essa dura carreira de morrer eletrocutado em filmes B para virar corretor de imóveis chiques



Trailer de A PRAIA DO PESADELO

12 comentários:

Raphael Silvierri disse...

O que acontece sempre que leio os textos do "Filmes para doidos": logo após me vem uma vontade irresistível de caçar a tosqueira na internet...

Colecaoema disse...

Excelente texto como sempre!!

Thales O. disse...

Talvez Lenzi nega a paternidade da criança pelo fato do filme não ter saido tão ruim quanto suas demais “obras”

Aline S. Ferreira disse...

Olá Felipe! Será que você poderia me ajudar?
Você por acaso se lembra de um filme que passava no SBT nos anos 90 onde aparecia a cena de uma mulher nua amarrada (em pé, amarrada na parede pelos braços)? Quando um cara ia boliná-la, um outro sujeito aparecia e a salvava. É tudo o que lembro do filme, mas queria saber o nome dele.

Parabéns pelo blog!

spektro 72 disse...

Esse filme é tão que sua ultima exibição na TV Aberta foi no Cine Trash na Rede Bandeirantes em 08/04/1996,depois disso nunca mais ele passou na TV.
Night School passou no SBT em suas sessões filmes com o titulo " Olhos do Terror " tem ate um chamada dele no YouTube quando ele foi exibido no Festival de Filmes do SBT em 1989.
ótima resenha desse perola tosca ,
um abraço de Spektro 72.

makintochi disse...

Poderia fazer dos filmes do hercules com lou ferrigno

Daniel I. Dutra disse...

John Saxon em filme chamado Nightmare Beach? Sinto o cheiro de uma tentativa dos produtores de forçarem uma relação com Nightmare on Elm Street.

Leonardo Peixoto disse...

Estou muito feliz pela resenha nova ... na verdade , fico feliz sempre que tem resenha nova .
Espero que em breve você poste a resenha de "Braddock 3 - O Resgate" , pra completar a Trilogia Braddock .
Falando em completar trilogias , espero que não esqueça a de "Cyborg Cop III - Resgate Espetacular" .

Pedro Pereira disse...

Parece-me uma loucura completa. Lá terei de o procurar...

Unknown disse...

Somos dois. Esse do texto está no YouTube, por sinal

Vinícius disse...

Que curioso! Eu não acessava esse blog a anos, desde que ele entrou em hiato. Lembrei dele hoje, vim ver se ainda era atualizado e me surpreendo ao ver que o artigo mais recente fala do último filme que assisti.
Também estranhei bastante como o filme não se decide entre ser um slasher e uma comédia do tipo porky's. A identidade do assassino é bem óbvia, e o confronto final e sua morte é tão repentina que fiquei meio "ué, já acabou?", achei até que ele levantaria ao mesmo pra dar aquele susto final, como era esperado na época.
Ótimo artigo, continuarei acessando o blog em busca de atualizações.

Vinícius disse...

Eu fiquei obcecado pela franquia eskimo limon depois de um artigo aqui do blog. Foi o primeiro que li, aliás.