quinta-feira, 11 de outubro de 2018

FÉRIAS DO BARULHO (1985)


Com uma carreira de ator que já soma 30 anos, Johnny Depp deu vida a uma galeria invejável de personagens excêntricos, reais ou imaginários: Edward Mãos de Tesoura, o Chapeleiro Maluco, Donald Trump (!!!), Willy Wonka, Ed Wood, Don Juan DeMarco, John Dillinger, Sweeney Todd, Ichabod Crane, Hunter S. Thompson, Donnie Brasco, Cry-Baby e, claro, o excêntrico Capitão Jack Sparrow, da interminável saga “Piratas do Caribe”.

Pois duas décadas antes do primeiro “Piratas do Caribe” (que é de 2003), Depp interpretou outro Jack, este “só” Jack, em FÉRIAS DO BARULHO (1985), uma daquelas comédias eróticas que faziam a alegria da molecada na década de 1980 - principalmente de quem ainda não tinha a idade apropriada para assisti-las. Na época, o jovem Johhny estava com 21 anos de idade e não havia muito trabalho para atores nesta faixa etária: era mais comum que acabasse ou mostrando a bunda numa comédia erótica tipo “Porky's”, ou sendo eviscerado pelo vilão num filme de horror, ou interpretando um adolescente estereotipado em algum seriado de TV (lembra do Michael J. Fox em “Family Ties / Caras e Caretas”?).


E Depp teve a distinção de passar por todas as etapas do processo: em 1984, na sua estreia no cinema, ele foi eviscerado pelo Freddy Krueger no primeiro “A Hora do Pesadelo”, de Wes Craven; logo depois mostrou a bunda magricela em FÉRIAS DO BARULHO, e dois anos depois ganhou o papel de protagonista do seriado “21 Jump Street / Anjos da Lei”, onde interpretava um jovem policial investigando casos relacionados à sua faixa etária. Depp fez 82 episódios entre 1987 e 1991, quando enfim disparou para a fama com “Edward Mãos de Tesoura” (1990), de Tim Burton, que o dirigiria outras tantas vezes no futuro.

Em sua defesa, no que se refere a FÉRIAS DO BARULHO, o jovem ator pode pelo menos argumentar que não estava pagando mico sozinho. Aliás, ele sequer é o protagonista do filme, aparecendo em segundo lugar nos créditos iniciais. O verdadeiro “astro” da presepada é Rob Morrow, fazendo sua estreia no cinema - ele que depois seria indicado a prêmios como Emmy e Globo de Ouro por suas interpretações em seriados como “Northern Exposure” e “Numb3rs”, e ainda apareceu no elenco de um grande indicado ao Oscar, “Quiz Show - A Verdade dos Bastidores” (1994), de Robert Redford. Obviamente, hoje nenhum dos dois têm lá muito orgulho de seu trabalho conjunto em FÉRIAS DO BARULHO...


A gênese do filme remonta ao princípio dos anos 1980, quando este tipo de comédia sexista sobre a primeira vez (e às vezes também a segunda, a terceira, a quarta... mas enfim, sobre a iniciação sexual de adolescentes) estava na moda, e era dinheiro garantido nas bilheterias. O pai de FÉRIAS DO BARULHO é um produtor isralense de segunda categoria, e surpreendentemente não estamos falando nem de Yoram Globus, nem de Menahem Golan (os cabeças da mitológica Cannon Films), mas sim de um sujeito chamado R. Ben Efraim.

Provavelmente inspirado pelos compatriotas Golan & Globus, que lá em Israel tinham produzido uma bem-sucedida série de comédias juvenis com sacanagem chamada “Lemon Popsicle” (que depois deu origem a “O Último Americano Virgem” nos Estados Unidos, como você pode ler na nossa postagem sobre ambos os filmes), Efraim resolveu ir para os EUA fazer a mesmíssima coisa. E ele deu uma sorte danada ao produzir “Private Lessons” (1981, de Alan Myerson). Aqui no Brasil o filme se chamou “Uma Professora Muito Especial”, e traz a eterna “Emmanuelle” Sylvia Kristel como uma professora particular que seduz um moleque virjão.

“Private Lessons” foi um estouro e rendeu uma grana preta ao produtor, que resolveu tentar de novo para ver se o raio caía duas vezes no mesmo lugar. Seu filme seguinte, outra comédia erótica, se passa numa escola só para meninas e tem os jovens Phoebe Cates e Matthew Modine no elenco. Como em time que está ganhando não se mexe, Efraim trouxe de volta o mesmo roteirista de “Private Lessons” (Dan Greenburg), a mesma Sylvia Kristel (agora em participação especial e interpretando outra personagem), e ainda manteve a palavra private no título, justamente para tentar atrair o público da obra anterior (até a arte do cartaz dos filmes é bem parecida!).

Estamos falando de “Private School” - por aqui, “Uma Escola Muito Especial... Para Garotas” -, que foi dirigido por Noel Black. Enquanto “Private Lessons” tinha sido produzido e distribuído de maneira independente, “Private School” já teve um grande estúdio por trás (a Universal). Não faturou tanto quanto o anterior, mas teve melhor distribuição e fez relativo sucesso.

Foi quando R. Ben Efraim resolveu se especializar em filmes “Private... qualquer coisa”, para ver se o raio caía três, quatro, cinco vezes no mesmo lugar. Numa entrevista à Variety, em dezembro de 1983 (logo após “Private School” chegar aos cinemas), o produtor anunciou que ia investir 14 milhões de dólares nos próximos anos para financiar outras três pornochanchadas juvenis: a primeira seria “Yearbook”, a se passar numa faculdade; a segunda seria “I Love You, Miss Kristel”, cuja existência obviamente estava condicionada à hipótese de a atriz holandesa querer participar de mais uma comédia erótica, e finalmente PRIVATE RESORT - com o questionável Private no título para tentar criar uma conexão inexistente com “Private Lessons” e “Private School” -, o único dos três que acabou saindo do papel e acabaria se tornando FÉRIAS DO BARULHO no Brasil.

Porém, ao contrário dos seus dois “Privates” anteriores, PRIVATE RESORT foi um fracasso. O produtor tinha trocado a Universal por outro estúdio, a Tri-Star, em busca de um acordo melhor de distribuição dos lucros. Mas a Tri-Star, talvez consciente da ruindade deste novo filme, optou por lançá-lo em alguns poucos cinemas, numa única região dos Estados Unidos, ao invés de fazer uma estreia nacional, antes de desová-lo nas videolocadoras para o eterno esquecimento.


E provavelmente FÉRIAS DO BARULHO teria sido esquecido entre outras tantas comédias eróticas juvenis ruins daquela época, se não fosse por dois fatores: primeiro, a presença dos posteriormente famosões Depp e Morrow pagando mico e mostrando a bunda, que anos depois gerou um enorme reinteresse pela produção; segundo, e especialmente para nós, brasileiros, o fato de o filme ter caído nas graças do Homem do Baú Silvio Santos, que gostou tanto de FÉRIAS DO BARULHO que o reprisava com uma frequência completamente absurda na sua grade de programação - e em diferentes horários, da Sessão das Dez nos domingos ao Cinema em Casa no começo da tarde.

O SBT exibiu o filme pela primeira vez em 1988, e a chamada sequer mencionava o nome de Johnny Depp (à época fazendo “Anjos da Lei”, que era exibido no canal rival, a Globo). Deve ter sido um estouro de audiência, porque a partir de então a emissora colocou-o na grade de programação com bastante frequência. Eu não duvido que ele tenha sido exibido duas vezes NA MESMA SEMANA, de tanto que era reprisado pelo SBT. Por conta disso, FÉRIAS DO BARULHO virou uma espécie de “clássico” ou filme de culto para toda uma geração; eu mesmo perdi a conta de quantas vezes já revi.


Antes de mais nada, não quero defender que “Private Lessons” e “Private School” sejam grandes obras-primas do cinema ou algo assim. Mas, perto deste terceiro “Private...”, as duas produções anteriores do R. Ben Efraim parecem até ter sido escritas pelo Woody Allen...

O roteiro de FÉRIAS DO BARULHO foi assinado por Gordon Mitchell (não confundir com o ator de mesmo nome), veterano colaborador de séries de TV como “A Família Dó-Ré-Mi” e “Agente 86”. Em 1984, quando FÉRIAS DO BARULHO foi filmado (durante o mês de outubro), Mitchell estava com 52 anos de idade, e isso é perceptível - ele consegue “dialogar com a galerinha jovem”, que era o público-alvo do negócio, como se o roteirista de “A Praça é Nossa” resolvesse escrever um filme para a Kéfera.

Nossa história começa com os amigos Ben (Morrow) e Jack (Depp) chegando a um resort que devia ser o sonho molhado de todo homem hetero norte-americano dos anos 1980: a população feminina é cinco vezes maior que a masculina, e todas as mulheres são jovens gostosas com corpo perfeito, que ficam muito bem de biquíni ou fora dele. Gordinhas e idosas só aparecem em cena quando é para fazer piada de mau gosto com o contraste entre estas e as bonecas infláveis ambulantes que dançam e rebolam sensualmente ao redor da piscina.


O filme não identifica, claro, mas o “private resort” em questão é o Ocean Reef Club, um lugar super-exclusivo na Flórida que existe até hoje - e, pelas fotos, é brega pra cacete. Ou seja: você pode guardar uns trocos e se hospedar no mesmo resort em que Ben e Jack tiveram suas “férias do barulho”, mas não podemos garantir a mesma quantidade de gostosas de biquíni. Se interessar, pode conhecer mais sobre o local, e fazer sua reserva, clicando aqui.

Desde a primeira cena com os amigos chegando ao resort, fica claro que o roteiro não vai se preocupar em estabelecer qualquer coisa sobre estes dois jovens cujas aventuras acompanharemos pelos próximos oitenta-e-poucos-minutos. Quer dizer, nada além do fato de eles estarem no tal resort para pegar mulher sem compromisso. De maneira agressiva e inapropriada durante boa parte do tempo inclusive, mas lembre-se que estamos nos anos 1980 e ainda valia tudo para fazer rir.


Quem são Ben e Jack, afinal? Amigos curtindo as férias com as suadas economias de uma vida? Porque fica claro desde a primeira cena que a dupla não pertence àquele lugar, onde coroas ricaças desfilam com valiosos colares de diamante e os drinks no bar à beira da piscina custam caro - tanto que eles optam por econômica cervejinhas e passam por pobretões. Este é um dos motivos pelo qual ambos são perseguidos por Reeves, o chefe de segurança do local (interpretado por Tony Azito), que não acredita que aqueles dois pés-rapados possam ser hóspedes de um resort tão exclusivo.

Será que um dos amigos teve alguma grande decepção amorosa que o outro está tentando curar com a promessa de sexo fácil e sem compromisso num hotel cheio de gatas fogosas? Eles não parecem ser virgens - apesar de agirem como virjões, sem qualquer noção de como chegar nas mulheres ou de como tratá-las -, tampouco grandes pegadores...


Enfim, estou tergiversando aqui, mas o caso é que o roteiro não se preocupa em contar muito sobre os dois protagonistas ou como foram parar ali, e a única pista sobre a procedência de ambos é o fato de Jack vestir, na sua primeira cena no filme, uma jaqueta vermelha com o nome de uma agência funerária - seria ele um funcionário desta empresa, ou está usando o traje para fins humorísticos? (Uma das lendas não-confirmadas sobre a produção diz que havia uma cena pré-créditos que foi cortada, mostrando Ben e Jack ganhando a viagem para o resort como prêmio de um concurso.)

Obviamente, não demora para FÉRIAS DO BARULHO descambar para aquela cartilha moralistinha da maior parte dessas pornochanchadas juvenis do período: embora Ben e Jack estejam determinados a curtir o momento passando a vara no maior número possível de mulheres - desculpem pela expressão grosseira, mas basicamente é isso mesmo -, as poucas chances que eles têm com garotas “fáceis” acabam em confusão antes mesmo que se inicie qualquer tipo de relação sexual.


Aparentemente se trata de uma conspiração do destino, alertando os dois moços para o fato de sexo sem compromisso ser “errado”, pois não tarda para que a dupla encontre ali seus grandes amores: Jack mente que é médico para aproximar-se de uma herdeira rica chamada Dana (Karyn O'Bryan, péssima); já Ben se apaixona por Patti (Emily Longstreth), a garçonete gracinha que serve drinks na piscina, e terá que disputá-la com o chefe da moça, Scott (Michael Bowen, que anos depois interpretou o asqueroso enfermeiro cafetão de pacientes em coma de “Kill Bill Volume 1”).

Sem querer soltar spoiler sobre quem vai ficar com Patti, lá pelas tantas somos brindados com uma te-ne-bro-sa montagem de momentos românticos entre a moça e Ben ao pôr-do-sol, embalada por uma das mais preguiçosas baladinhas pop-rock já compostas para cenas assim (o vocalista nem se preocupou em cantar coisa alguma e foi de “Na-na-na-na, ô-ô-ô” o tempo inteiro, estilo Dinho Ouro Preto).


Também seguindo a cartilha das produções deste subgênero, a narrativa de FÉRIAS DO BARULHO é episódica, simplesmente saltando de uma confusão sexual para outra. Você pode inclusive começar a assistir o filme pela metade sem perder nada, já que o filme é movido a piadas do arco-da-velha e nudez gratuita.

Obviamente, esse tipo de produção nunca se sustentou apenas nas desventuras sexuais de jovens tapados: era preciso concluir a trama com algum grande confronto às regras sociais ou às instituições. Em “Porky's” os moleques enfrentavam um dono de puteiro e um xerife corrupto; em “O Último Americano Virgem”, um caso de gravidez indesejada e aborto, e por aí vai.


No caso de FÉRIAS DO BARULHO, o roteirista Gordon Mitchell, não contente em já ter o conflito com uma figura de autoridade adulta (o tal segurança do resort), resolveu incluir também uma patética trama policial: no mesmo hotel está um bandidão conhecido apenas como “The Maestro” (o grande Hector Elizondo, ainda jovem, mas já com cara de velho), contratado por alguém para roubar o supramencionado colar de diamantes da coroa ricaça (Dody Goodman).

Supostamente, o tal Maestro é um ladrão profissional que age com extremo planejamento e meticulosa precisão. Não dá para entender, portanto, sua insistência em “aparar um pouco o cabelo” na véspera de dar o bote na velha. Graças a uma daquelas confusões que justificam o título FÉRIAS DO BARULHO, o pobre Ben acaba sendo confundido com o barbeiro do resort e destrói o cabelo do bandido, que passará o resto do filme perseguindo o rapaz em busca de vingança.


Tal situação nos leva a um aspecto curioso de FÉRIAS DO BARULHO: sim, o filme tem peitos e bundas desnudas à vontade para poder ser vendido como comédia erótica, mas na maior parte do tempo não passa de uma bobagem inofensiva, infantil até. O humor é menos sobre sacanagem e mais em tom de farsa, de comédia-pastelão, com piadas envolvendo identidades trocadas, correrias, peladões se escondendo no armário, entra-e-sai de quartos por portas e janelas... Tem até homem disfarçado de mulher e guerra de comida no final, e se alguém usasse a tesourinha para limar a nudez ficaria parecendo um legítimo filme dos Trapalhões!

Para dar uma ideia da bobice do humor apresentado, pelo menos cinco piadas envolvem golpes no saco, outras duas têm cachorrinhos pequeninos que colocam sujeitos com o dobro do tamanho para correr de medo, e duas personagens femininas aparecem dando porrada em um homem como se isso fosse algo completamente impossível. Um punk doidão, lutadores de sumô e um sem-número de tombos e tropeções completam o excêntrico catálogo, confirmando que os realizadores tentaram de tudo um pouco para fazer o público rir, nem sempre com sucesso.


Em pelo menos dois momentos, o filme ainda apela para um injustificável humor nonsense, absurdo, que destoa completamente numa história que, mesmo caricatural e exagerada, parecia se passar num universo “real”.

O primeiro momento acontece logo no início, quando um garoto que está na piscina testemunha o início de um dos planos mirabolantes de Ben e Jack para pegar mulher. Ele então se vira intencionalmente para a câmera, lançando um olhar cúmplice para o próprio espectador e quebrando a quarta parede, para comentar conosco: “Rapaz, eu pagaria para ver isso!” (talvez para fazer o espectador acreditar que valeu a pena ter pagado ingresso para assistir o filme).

O segundo momento nonsense acontece no final, quando o Maestro está tentando matar Ben a tiros. No momento em que seu revólver fica sem munição, ele simplesmente puxa UMA METRALHADORA de trás das costas que simplesmente não existia antes!


Mas, apesar de o humor disparar para todos os lados em busca de risadas fáceis, nenhum dos atores demonstra muito timing para o humor, abusando das caretas e olhos arregalados sempre que o momento pede.

A exceção vai para Hector Elizondo, anos antes de sucessos como “Uma Linda Mulher”, interpretando o bandidão atrapalhado. Deve-se dizer que seu personagem fica ainda mais hilário na versão em português, graças ao tom de voz e a alguns improvisos do sujeito que lhe dublou.

Um deles é o impagável “Malhação por aqui também, é? Que que há, que que há, que que há, que é isso?”, quando no original Elizondo dizia apenas: “Bodybuilders aqui também? Que negócio é esse?”. Acho o improviso brasileiro tão estupidamente engraçado que fiz questão de colocar o diálogo no YouTube (clique aqui para relembrar).


Vale registrar que em 1985, quando FÉRIAS DO BARULHO enfim chegou aos cinemas, estas pornochanchadas adolescentes já não eram mais o sucesso estrondoso de alguns anos antes, principalmente por causa do excesso de repetição nas piadas e situações. Putarias no colégio ou na faculdade estavam mais do que batidas, então roteiristas de obras do gênero começaram a mudar a ambientação (e apenas a ambientação) para praias, acampamentos de férias ou, no caso em questão, resorts - uma grande desculpa para poder mostrar mulheres de biquíni, certamente.

Só que criatividade não era exatamente o forte dessa gente, e FÉRIAS DO BARULHO ainda deu o azar de ser lançado no mesmíssimo ano de outros TRÊS filmes que mostravam uma turminha do barulho aprontando altas confusões em resorts: “Hot Resort / Hotel dos Prazeres” (de John Robins), “Hot Chilli / Férias Ardentes” (de William Sachs) e “Fraternity Vacation / Quando a Turma Sai de Férias” (de James Frawley). Não é por nada que mal estreou e FÉRIAS DO BARULHO já parecia piada contada duas vezes - ou, neste caso, quatro vezes!


Embora eu até agora tenha tecido várias considerações sobre a bobice geral do filme, é preciso dar a mão à palmatória: ele tem pelo menos uma situação absolutamente genial, quando o pobre Ben é atraído pelo amigo-da-onça Jack para um programa duplo com a “Prima Shirley”.

Eis que a moça é seguidora do bizarro Baba Rama Nana, uma gozação com os gurus indianos que proliferavam no Ocidente do período (tipo o famigerado Osho). Inquestionavelmente um cara legal, Baba Rama Nana exige que seus seguidores “removam a casca exterior” - ou seja, fiquem peladões -, no mais próximo que Ben chega de traçar alguém durante o filme inteiro.

Infelizmente, Baba Rama Nana também é um puritano que não permite que “a carne seja maculada”, ainda que o impagável mantra entoado pela gostosíssima Shirley seja “Come to me... Come to me...”. Numa das mais antológicas dublagens brasileiras de todos os tempos, o cântico virou o clássico “Venhaaaa a miiiim”, que toda uma geração aprendeu a reconhecer imediatamente assim que escuta. É o ponto alto do filme e sua cena mais famosa, sem sombra de dúvida.


A cena toda fica ainda mais divertida quando a gente lembra onde terminou a atriz Hilary Shepard, que interpreta a Prima Shirley. Após alguns papéis de destaque em filmes B como “Caçada Alienígena” (1990) e “Scanner Cop - O Destruidor de Mentes” (1994), Hilary virou a vilã Divatox (ao lado) no seriado dos “Power Rangers” ao longo dos anos 1990, aparecendo inclusive em um dos filmes baseados na série! Quem diria: de seguidora peladona de Baba Rama Nana a pirata intergaláctica com roupa de baile de carnaval, e ainda ganhou sua própria action figure!

Num elenco repleto de beldades com pouca ou nenhuma roupa, o espectador interessado em nudez gratuita tem, como grande destaque, a presença da maravilhosa Leslie Easterbrook. Para quem não associou o nome à pessoa, ela é mais conhecida como a Sargento Callahan de “Loucademia de Polícia”, onde a piada era sempre com o tamanho dos seus peitos - que ela nunca chegou a exibir em qualquer dos sete filmes da série.

Pois FÉRIAS DO BARULHO registra a única cena de nudez que Leslie fez em toda sua carreira: como Bobbie Sue, a namorada do Maestro, ela se despe sem saber que o personagem de Johnny Depp a espia de dentro do armário, num daqueles momentos clássicos de voyeurismo desse tipo de produção. E depois veste uma camisolinha transparente que não deixa absolutamente nada para a imaginação.


FÉRIAS DO BARULHO foi dirigido por George Bowers, que tem mais créditos de editor do que de diretor. Entre seus trabalhos mais famosos na montagem estão o cult movie “As Aventuras de Buckaroo Banzai” (1984) e a adaptação de Alan Moore “Do Inferno” (2001), que acabou se tornando seu segundo e último trabalho com um agora astro Johnny Depp (duvido que eles tenham se reencontrado durante a produção, mas seria engraçado).

Como cineasta, este foi o último dos seus quatro créditos para a tela grande, e certamente o mais lembrado. Os anteriores são um filme de horror (“The Hearse / O Carro Sinistro”, de 1980), uma versão 'black' de “Rocky” (“Body and Soul”, de 1981, com Leon Isaac Kennedy), e outra comédia erótica rasteira, aparentemente derivada de “Private Lessons” (“Minha Professora de Francês”, de 1983). Ele faleceu em 2012, e foi lembrado no obituário da cerimônia do Oscar do ano seguinte.


Visivelmente produzido e finalizado “nas coxas”, sem maiores cuidados ou pretensões, FÉRIAS DO BARULHO traz um dos erros de continuidade mais grosseiros da história do cinema. Reeves, o segurança que fica perseguindo Ben e Jack ao longo do filme, tem um olho roxo que aparece e desaparece ao longo do filme. A cena que mostra como ele ganhou o olho roxo aparece somente aos 57 minutos de tempo corrido, quando o coitado leva um soco desferido por um brutamontes que queria atingir os “heróis” - o agressor é interpretado por Andrew Dice Clay, que posteriormente virou celebridade fazendo stand-up comedy e, consequentemente, um ator cultuado.

O problema é que toda esta cena originalmente devia ter acontecido NO INÍCIO DO FILME, e deveria ser a primeira enrascada sexual envolvendo os protagonistas na trama. Em algum momento do processo de montagem, alguém deve ter decidido que era uma cena muito longa para estar ali e quebrava o ritmo do filme; aí os gênios a passaram lá para perto do final, esquecendo que o olho roxo do chefe de segurança não teria qualquer justificativa antes que o soco fosse desferido! O editor deve ter imaginado que o espectador nem perceberia, sendo constantemente bombardeado por peitos e bundas...


Por fim, mesmo um filme bobo como FÉRIAS DO BARULHO ganha uma nota triste quando o espectador descobre o triste destino que teve a namoradinha de Rob Morrow na história, Emily Longstreth. Ela chegou a ter papéis de destaque em vários filmes conhecidos nos anos 1980, incluindo este aqui, “A Garota de Rosa-Shocking” e a ficção científica “Cilada Implacável” (ambos de 1986), onde foi protagonista. No começo dos anos 1990, contracenou com jovens e promissores talentos como Kevin Bacon, Brad Pitt e Juliette Lewis.

E foi quando Emily desapareceu totalmente do meio artístico e familiar. Muitos fãs tentaram encontrá-la nos últimos 20 anos, principalmente depois do advento da internet, mas as informações são muitas e desencontradas. Em 2007, por exemplo, acreditava-se que ela tinha morrido no anonimato após ter que recorrer à prostituição para pagar as contas; no ano passado, um blog publicou e-mail de uma fonte anônima dizendo que ela abandonou o cinema por causa de transtornos psicológicos e hoje vive (ou sobrevive) como mendiga, em abrigos para moradores de rua. Qualquer que seja a verdade, é um destino muito triste para alguém que irradia simpatia aqui, e cuja carreira parecia prestes a decolar.


Pornochanchadas adolescentes como FÉRIAS DO BARULHO tiveram seu apogeu na primeira metade dos anos 1980. O subgênero foi riscado do mapa logo depois, ficando restrito a produções vagabundas produzidas direto para o mercado de vídeo. Numa reviravolta inesperada, “American Pie” chegou aos cinemas em 1999, foi um estrondoso sucesso e reacendeu o interesse por esse tipo de filme, como “Pânico” fez com os slashers na mesma época. Mas aí é outra história.

Por causa das incontáveis reprises no SBT, FÉRIAS DO BARULHO é muito mais conhecido aqui no Brasil do que no seu país de origem. Pouca gente o viu lá nos Estados Unidos na época do lançamento, e tem muito gringo descobrindo só agora que o super-astro Johnny Depp mostrou a bundinha numa comédia tosca de 1985 (esta também é a sua única cena de nudez até o momento, mas não é como se estivéssemos acompanhando...).


Como eu já mencionei, nenhum dos envolvidos na produção tem muito orgulho do filme para ficar comentando em voz alta. O astro em questão recusa-se até a falar sobre ele em entrevistas, o que é uma pena. Uma das suas poucas manifestações a respeito foi reproduzida no livro “Depp”, de Christopher Heard: “O filme é muito ruim, mas foi apenas um trabalho. O que mais me atraiu no projeto foi estar sendo pago para ir à Flórida ficar de bobeira por algumas semanas. Eu certamente não estava me queixando naquela época”.

No conjunto, o que temos aqui é uma comédia extremamente tosca, que funciona pelos motivos errados (tipo rir da falta de graça das piadas, ou dos erros técnicos, ou do mico que muitos atores hoje conhecidos estão pagando por uma mixaria, provavelmente). E que, como tal, continua valendo como passatempo cretino.


Volta-e-meia me pego revendo FÉRIAS DO BARULHO, e isso me remete à minha infância e adolescência, quando eu, meus irmãos e meus amigos costumávamos assisti-lo às gargalhadas. Também foi uma “inspiração artística” (putz!), já que a cena em que uma senhora toma comprimidos de quaaludes (uma droga afrodisíaca) por acidente me inspirou a criar um momento parecido no meu próprio filme “Canibais & Solidão”, de 2006.

Quem sabe o mundo tenha ficado mais triste no momento em que esse tipo de bobice parou de passar na TV. Pois tudo parecia tão mais simples, mais inocente e menos dramático naqueles tempos em que o SBT reprisava FÉRIAS DO BARULHO semana sim, a outra também...


SBT anuncia FÉRIAS DO BARULHO em 1988!




25 comentários:

Leonardo Peixoto disse...

O RETORNO DO REI ... DO CINEMA OBSCURO
A Maratona Jess Franco será retomada ?

Fabiano disse...

No dia do meu aniversário, nesses tempos em que a família, tradição e propriedade vão cagar na nossa alma por um tempo, é alentador ver a volta desse blog. Fez falta. Bem vindo

Axofraum disse...

Bem vindo de volta, amigo!

Lucas disse...

Um clássico das tardes - e também das noites- do SBT.

Judd A. Cruz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcio Luz disse...

Poucas coisas me deram tanta alegria ultimamente como a volta desse blog. Que sejam mais 10 anos! Só para mencionar. A voz do personagem do Hector foi do grande Sílvio Navas (já falecido) que também dublava o Mumm-ra, Bud Spencer e Darth Vader

Unknown disse...

Cara, fiquei muito feliz com o retorno do blog. Ótimos textos

Marcel disse...

HOORAY!! Fiquei feliz ao abrir para ler os artigos antigos e descobrir que o blog voltou a ativa.

Eduardo Martins disse...

Que saudade do cinema em casa, muito obrigado Felipe!

spektro 72 disse...

O Mestre voltou, O Mestre voltou ! E de forma sensacional começando por um dos campeões de reprises na sessões de filmes do SBT no fim da década de 80 e inicio de 90 ,analisando de forma precisa ( apesar que comedia assim ,não precisam de muito texto para serem esclarecidas de suas piadas que não funcionam .. mas enfim !) leve e esclarecedora sobre esse filme que marcou uma época para quem curtia assistir de forma descontraída os filmes da TV sem se importar o que estava sendo exibido .. bons tempos da TV nonsense , hoje em dia só tem esse filmes de terror que ão assustam ninguem e filmes idiotas de heróis que só servem para ver para vender produtos licenciados dos mesmo sem apresentar na tela grande algo inovador ,por que para mim esses filmes não são filmes são roteiros de gibis colocados na tela do cinema sem profundidade nenhuma e por fim essa comedia "Ferias do Barulho " foi lançado aqui em DVD pela Sony com á sua dublagem clássica ,pelo mesmo isso eles fizeram de bom deixando á dublagem clássica á nossa disposição ... e por fim ! Feliz volta senhor absoluto do mundo do cinema underground e alternativo Mestre Felipe e esperamos novos textos engraçados , descontraídos e curiosos de como foi hoje ao ser retrato o filme 'Ferais do Barulho " .. Feliz Volta ! um Abraço de Spektro 72.

Marcelo Tinoco disse...

Primeira boa noticia do ano é a volta do Filmes para Doidos. Agora tudo vai melhorar.

Fernando disse...

Maravilha!
Volta em grande estilo!

Daniel I. Dutra disse...

Filmes para doidos retornando em grande estilo!

Esse Férias do Barulho é uma porcaria imensa. Umautentico filme para doidos.

O pior de tudo é que, ao julgar o quanto o SBT reprisou o filme ad infinitum, eu jurava que tinha sido um sucesso nos EUA.

Eis uma ideia para uma próxima maratona dos Filmes para Doidos: "filmes que fizeram mais sucesso no Brasil do que nos EUA".

Bem vindo de volta, Felipe.

Fernando Rodrigues disse...

Se eu não conseguia rir na época que eu assisti (e olha que eu contava com, sei lá, dez anos), imagina agora.

Lucas disse...

Se a Globo passava A Lagoa Azul até ninguém aguentar mais, o SBT reprisou Férias do Barulho um milhão de vezes. Clássico da infância de toda uma geração.

Cinema Lato Sensu disse...

Grande volta do filmes para doidos, lembro dessa cena Come to mee

Canide disse...

Alguém sabe onde posso vê os filmes que o Felipe já produziu ?

Fernanda Santolin de Oliveira disse...

Como não amar essas comédias toscas e sapequinhas! E tem homem pelado!
Lembrei de um certo filme brazuca em que um personagem fugindo de camisola, escapa pelo telhado e encontra um outro em pior situação: peladão e preso nesse mesmo telhado...

Escolheu uma ótima hora para voltar com blog!

Luciano Costa disse...

Guerra você tem acompanhando uma série brasileira da HBO chamada Magnífica 70? acho que tu iria gostar, ela conta a história de uma produtora de pornochanchadas em plena ditadura militar, achei muito boa. Sei que o blog analisa mais filmes, mas seria interessante ler sua opinião sobre esse seriado.

RogerioPG disse...

Putz que legal, muito feliz com o retorno das postagens! Nunca deixei de usar o blog como fonte de consulta e referencia.

Unknown disse...

Rapaz isso q é nostalgia. acompanho seus artigos desde do começo do boca do inferno e volta e meia me pego relendo e morrendo de rir de RATOS ou zombi 3. graças a voce corri atrás pra conhecer o genio chamado bruno mattei e seus milhares de pseudonimos hahaha

Fernando Theodosio disse...

Voltou com tudo \o/ show de bola

Diones Leal disse...

Comentei sobre esse filme na resenha de "O último americano virgem" e valeu a pena esperar essa resenha.

Diones Leal disse...

"O editor deve ter imaginado que o espectador nem perceberia, sendo constantemente bombardeado por peitos e bundas..."

O editor foi muito sábio. Hehe

Ricardo Prado disse...

Sobre o sujeito que dublou o Helizondo, era o falecido Sílvio Navas, mesmo que fazia a voz do Mun-Ha dos Thundercats e do Bud Spencer no Brasil. Era impressionante a versatilidade dele, podendo fazer vozes roucas e também mais agudas.