segunda-feira, 29 de novembro de 2010

PROJETO MORTAL (1992)


Depois de assistir PROJETO MORTAL, é inevitável imaginar um fictício encontro entre o diretor John Eyres e seu roteirista Stephen Lister antes de as filmagens começarem.

Eyres, emocionado, explica a Lister a sua idéia para um novo projeto:

"Você viu aquele filme com o Bruce Willis, 'Duro de Matar'? Pois eu quero fazer algo parecido. Claro que com muitos milhões de dólares a menos, mas a mesma idéia de um sujeito preso acidentalmente num prédio repleto de terroristas. O cara errado no lugar errado, entende? Sabe, eu também gostei daquele filme em que o Stallone é congelado. Como é mesmo?... 'O Demolidor'! Por que você não escreve uma cópia de 'Duro de Matar' no futuro, com um herói que é congelado e depois descongelado, como em 'O Demolidor'?"


Então Lister senta em frente à sua máquina de escrever e inicia o trabalho no roteiro sob encomenda, mas logo o telefone toca. É Eyres novamente, falando sem parar:

"Tive outra idéia incrível: e se colocássemos um cyborg como líder dos terroristas, para fazer uma coisa estilo 'O Exterminador do Futuro'? É genial ou não é? Então, coloca o cyborg aí. Ah sim, eu também gosto muito de 'Blade Runner', então vamos fazer nosso robô igual ao Rutger Hauer no 'Blade Runner', OK? Com cabelo platinado e tudo mais. Vou correndo procurar um ator que se enquadre na descrição e trabalhe pela metade do salário do Rutger Hauer!"


Claro que dificilmente foi assim, mas poderia ter sido. Afinal, PROJETO MORTAL é exatamente isso: um "Duro de Matar" dos pobres com toques de "O Exterminador do Futuro", "Blade Runner" e "O Demolidor", além de um daqueles elencos repletos de caras conhecidas e/ou cults que só uma produção classe B (ou C, neste caso), feita direto para o mercado de VHS dos anos 90, consegue reunir.

Analisando friamente, PROJETO MORTAL é um horror - um arremedo de filme que não esconde suas fontes de inspiração, e poderia facinho ser processado por plágio de qualquer uma delas.


Mas é claro que eu não pretendo e nem vou analisar a obra de John Eyres "friamente". Lembre-se, isso aqui é o blog FILMES PARA DOIDOS; se você quer ler textos profundos sobre a sétima arte, vá procurar os textos do Merten ou do Inácio Araújo. Aqui o buraco é mais embaixo!

É óbvio, portanto, que PROJETO MORTAL é uma bagaceira; para os iniciados, porém, é mais uma daquelas porcarias divertidas, com tanta bobagem por segundo que vale o tempo perdido só pelas gargalhadas e pela quantidade colossal de situações estúpidas ou furos de roteiro.


Acompanhe: a trama se passa num futuro indeterminado, e começa com o andróide Romulus despertando em um laboratório e fugindo peladão (mera desculpa para fartos closes nos músculos do sujeito e nos seus "peitos", maiores que os de muitas ex-namoradas minhas).

Frank Zagarino, astro de filmes C de ação direct-to-video, "interpreta" o robô, com visual copiando ao mesmo tempo Rutger Hauer em "Blade Runner" e o vilão russo de Dolph Lundgren em "Rocky 4".

Ele até que manda bem, mas convenhamos que não é muito difícil interpretar um robô quando você é um péssimo ator que atua justamente de maneira robótica!


Adivinhe qual é a primeira coisa que Romulus faz após despertar? Junta um time de terroristas (não pergunte como) e assume o controle de um hospital.

Acontece que a filha do presidente dos Estados Unidos é, veja só que conveniente, ENFERMEIRA do tal hospital (mas se diferencia das demais funcionárias por usar uniforme chique, de seda!).

Sabe-se lá porque, o andróide malvadão quer trocar a filha do presidente (interpretada por Meg Foster, outra figurinha carimbada do "cine-bagaço") por vários milhões de dólares. E nem tente entender para quê diabos um robô quer dinheiro.


Pois nesse futuro de robôs peladões que atacam hospitais e pedem resgates milionários, as prisões são diferentes, estilo "O Demolidor": os criminosos são congelados eternamente, e vá saber qual é a praticidade da coisa (imagine o espaço que os picolés humanos ocuparão depois de uns 50 anos!).

Um dos condenados, o ex-jogador de futebol DeSilva (!!!), é descongelado para ajudar o FBI a encontrar a melhor entrada para invadir o hospital e libertar os reféns. É claro que os homens do FBI procuravam por outro prisioneiro - o arquiteto que construiu o prédio do hospital -, e não pelo palerma DeSilva. Mas este se aproveita do engano para ganhar a liberdade, sem saber que estará arriscando a própria pele numa missão quase suicida.


Quando todo o time de resgate (apenas quatro soldadinhos, provavelmente por limitações orçamentárias) é morto numa explosão assim que entra no hospital sitiado, resta apenas o pobre DeSilva para enfrentar os terroristas, o maléfico andróide e ainda resgatar a filha do presidente.

Como o John McClane interpretado por Bruce Willis em "Duro de Matar", DeSilva está na hora errada no lugar errado, mas ainda pior em desvantagem por não saber lutar e nem atirar como a sua fonte de inspiração.

O herói é interpretado por Martin Kove, que volta-e-meia faz o mocinho (como podemos ver também no obscuro "Olho por Olho", dos anos 80), mas geralmente é o vilão em produções como "Karate Kid", o original.


A boa notícia é que Kove consegue segurar o show com seu jeito de herói bonachão; a ruim é que o roteiro não lhe dá muitas oportunidades de imitar Bruce Willis em "Duro de Matar", além de esgueirar-se por dutos de ventilação, escalar o poço do elevador e ficar o tempo todo falando no walkie-talkie com o pessoal fora do prédio (coisas que aparentemente ele só faz porque John McClane também fazia em "Duro de Matar").

Confesso que acho interessantes estes filmes com heróis imperfeitos, que não sabem exatamente como agir numa situação como a da trama. Normalmente, os mocinhos do gênero demonstram um talento natural para sentar porrada e atirar nos malvados (além de uma mira fabulosa, mesmo quando nunca seguraram uma arma na vida).


Não é o caso do nosso amigo DeSilva em PROJETO MORTAL; pelo contrário, o cara faz cagada atrás de cagada, sendo praticamente responsável pela morte de uma refém (!!!); fica escondido covardemente a maior parte do filme, e se dá bem no final mais por sorte do que por méritos próprios, algo que torna o filme um pouquinho diferente da média.

Para o leitor ter uma idéia, a filha do presidente é muito mais "macho" do que ele, e inclusive pega uma metralhadora enorme para enfrentar os terroristas enquanto DeSilva corre e se esconde um lado para o outro!


No elenco, temos ainda um ator de respeito, Joss Ackland (o vilão de "Máquina Mortífera 2"), pagando mico como "pai" de Romulus, e ao mesmo tempo emprestando certa dignidade a essa tranqueira. Também aparece Paul Koslo ("O Portal do Paraíso", "Mr. Majestyk") como o bambambam do FBI que passa o filme todo pentelhando o herói.

O roteiro de Stephen Lister é assumidamente trash. Além de todos os absurdos já enumerados (cyborg sequestrador? filha do presidente dos EUA enfermeira?), temos dois agentes do FBI chamados WHITEside e BLACKwood, e claro que eles são um branco e um negro, respectivamente! Dá pra levar a sério?

Não, não dá. Até porque o roteiro nunca se preocupa em explicar porque um andróide indestrutível, que é uma máquina de matar ambulante, precisa de comparsas humanos para tomar conta de um hospital, ao invés de invadi-lo sozinho.


Pior: no final, revela-se que um dos personagens secundários da trama também é um cyborg. Ora, porque não o enviaram para dentro do hospital desde o começo para lutar com Romulus, deixando o confronto nas mãos de dois robôs ao invés de arriscar o pescoço de tantos seres humanos?

É bom que se diga que a presença de um andróide entre os vilões jamais se justifica, pois o robô faz pouco ou nada de diferente de um vilão "humano". Somente nos 15 minutos finais é que o diretor começa a aproveitar melhor o personagem robótico, sua resistência a tiros e superforça (capaz de atravessar paredes para agarrar os heróis, por exemplo).


Mas é muito pouco para a "máquina de matar indestrutível" que o filme anuncia. Quando Romulus é incendiado por DeSilva, eu até pensei: "Agora ele vai finalmente aparecer meio humano, meio robô". Que nada! Nunca vemos as "partes cibernéticas" do andróide, como em "O Exterminador do Futuro" e suas incontáveis imitações.

Para compensar, a capa do DVD alemão estampa uma tosquíssima imagem da cara do Frank Zagarino com um chip eletrônico "photoshopado" de qualquer jeito por cima, para passar a idéia de que ele está com metade do rosto deformado, tipo o Scharzenegger na série "Terminator"! Impagável, como você pode conferir aí embaixo:


PROJETO MORTAL tem também todas aquelas absurdas conveniências de roteiro, como quando o herói DeSilva leva uma punhalada (ou "bisturizada") na perna e simplesmente DEIXA O BISTURI CRAVADO durante longos minutos no próprio corpo ao invés de retirá-lo, somente para numa outra cena posterior arrancar a lâmina para usar como arma contra um adversário. Aham...

Com tanta besteirada, PROJETO MORTAL podia ser mais um daqueles clássicos da tosquice. Infelizmente, o diretor Eyres leva a sério DEMAIS o roteiro que tem nas mãos. Este é o grande problema do filme.

Às vezes parece que o diretor pensa estar no comando de uma superprodução hollywoodiana, tratando um filme bagaceiro e descompromissado como se fosse material para Oscar. Em algumas cenas de ação ele até consegue disfarçar o orçamento, mas é inevitável constatar que os caras tinham uma merreca para filmar.


Afinal, o hospital é um prédio de trinta e poucos andares, mas ali só estão, milagrosamente, uma meia dúzia de pessoas (sabe como é, figurantes custam caro). Mais adiante, a limusine do presidente dos Estados Unidos é vista indo em direção ao hospital, mas sem nenhum carro de escolta ou cordão de isolamento ao redor!

Quem conhece um mínimo da "filmografia" de John Eyres sabe que o sujeito é um dos piores diretores em atividade. "Octopus"? "Ripper"? "Monolith - A Energia Destruidora"? Fala sério, porra!

Como Albert Pyun, o cara não tem filmografia, mas sim ficha criminal. Se você andar com o DVD de um filme do John Eyres debaixo do braço, é capaz de ser preso pela polícia por porte ilegal de arma.


Ainda assim, PROJETO MORTAL está entre os melhores trabalhos do "cineasta", e talvez seja um dos seus poucos filmes que não é completamente intragável. No fim, fica a impressão que o resultado poderia ser bem melhor (e mais divertido) em outras mãos, mas mesmo assim você não se arrepende pelo tempo perdido - por causa do humor involuntário e das atuações de Kove e Zagarino.

Aliás, senti falta de uma emocionante luta final entre os dois; mas, ora bolas, nosso herói DeSilva não é um habilidoso lutador, nem mesmo um herói, então o confronto apressado e meio covarde é plenamente justificável.


Acredite se quiser, mas PROJETO MORTAL deu origem a uma franquia, com histórias independentes e sem relação, ligadas apenas pela figura do cyborg interpretado por Frank Zagarino (mas nem ao menos é o mesmo personagem, pois ele sempre volta depois de ser destruído no final do filme anterior).

Eyres dirigiu as duas primeiras, "Fora de Controle" (praticamente um remake do original, mas numa usina nuclear) e o melhor da série, "Projeto Mortal - O Retorno", ambas feitas em 1995; já Mark Roper comandou o quarto filme, "Caçada Sem Trégua" (1997), que é muito ruim.

Enfim, eu devo ser muito débil mental, mas confesso que me divirto com essa série do Frank Zagarino cyborg. Talvez porque, se analisados descompromissadamente, como eu fiz aqui, estes filmes se revelam muito mais divertidos e menos pretensiosos do que muitas sequências do seu "primo rico", a série "O Exterminador do Futuro".

Não sei vocês, mas eu certamente prefiro rever Kove e Zagarino suando por uma merreca do que assistir novamente o terceiro e quarto "Terminator", pastuscadas milionárias em que pouco ou nada se salva.

Trailer de PROJETO MORTAL



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Projeto Mortal (Project Shadowchaser, 1992, EUA)

Direção: John Eyres
Elenco: Martin Kove, Frank Zagarino, Meg Foster,
Paul Koslo, Joss Ackland, Ricco Ross, Raymond
Evans, e Robert Freeman.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

THE LAST HUNTER (1980)


Existem duas formas de ver THE LAST HUNTER, do italiano Antonio Margheritti.

A primeira forma é como filme de ação casca-grossa sobre o Vietnã, com o bônus de trazer tanto sangue e mutilações on-screen que até parece filme de horror - veja bem, isso décadas antes de Sylvester Stallone chutar o pau da barraca com o violentíssimo "Rambo 4"!

A segunda forma é como um incrível filme "anti-guerra" sobre a estupidez de confrontos como o do Vietnã, repleto de ação, sim, mas também momentos alegóricos que refletem a loucura bélica.


E eu sou tão cara-de-pau que não tenho vergonha de colocar THE LAST HUNTER como um dos melhores filmes sobre o Vietnã já feitos, numa mesma lista com os clássicos "O Franco-Atirador" e "Apocalypse Now", e várias posições acima de obras consagradas (e, na minha opinião, superestimadas) como "Platoon" e "Pecados de Guerra".

THE LAST HUNTER saiu no Brasil, nos primórdios do VHS, com um título no mínimo esquisito: "Apocalypse 2".

Era, claro, uma tentativa de linkar o filme com o clássico do Coppola, "Apocalypse Now", com o qual THE LAST HUNTER até tem algumas semelhanças.


Outra grande fonte de inspiração foi "O Franco Atirador", de Michael Cimino. Não por acaso, o título italiano original do filme de Margheritti era "Cacciatore 2" (O Franco-Atirador 2), posteriormente trocado para "L'Ultimo Cacciatore" (O Último Caçador) para escapar de problemas com direitos autorais.

De Coppola, o roteiro de Dardano Sacchetti "emprestou" a narrativa episódica, em que o personagem principal, tal qual um Martin Sheen macarrônico, recebe uma missão secreta, mas passa o filme inteiro às voltas com outros problemas e experiências traumáticas, até finalmente chegar ao seu objetivo, no final, transformado num bagaço, meio vivo, meio morto.


"Apocalypse Now" também influenciou o personagem do Major Cash (John Steiner), um militar maluco e filosófico muito parecido com o Major Kurtz de Marlon Brando.

Já de Cimino, THE LAST HUNTER tirou todo o foco "War is hell" e, principalmente, as cenas cruéis de violência e de tortura perpetradas pelos vietcongues contra os inimigos ianques.

(Sem contar que um figurante com faixa amarrada na testa parece um clone do personagem de Christopher Walken em "O Franco-Atirador"!)


Margheritti, um ótimo diretor que infelizmente só começou a ser reconhecido depois de morrer, filmou sua sangrenta aventura de guerra nas Filipinas. Reconhecendo suas inspirações, usou o mesmo local em que Coppola filmara "Apocalypse Now" anos antes.

O início é num bordel de Saigon, e lembra muito o clima de "O Franco-Atirador". Ali, encontramos nosso protagonista, o capitão Henry Morris (o saudoso David Warbeck, brilhante), ao lado de um amigo transtornado que balbucia doideiras, visivelmente afetado pela guerra.

Após uma discussão estúpida, o amigo louco dá um tiro na fuça de outro soldado e explode os próprios miolos - uma cena realista, com direito ao clarão do disparo dentro da boca do sujeito, anos antes de cena parecida em "Clube da Luta".


Morris nem tem muito tempo para assimilar a tragédia, pois os vietcongues atacam, explodindo um campo de pouso ao lado do bordel (ataque mostrado através das cenas com miniaturas que Margheritti adorava filmar). O próprio puteiro vai para os ares, e o herói é o único sobrevivente.

Afetado pelo incidente, o capitão resolve voluntariar-se para uma missão suicida, cujo alvo só ficamos sabendo na cena final - explodir uma estação pirata de rádio que vem transmitindo mensagens pacifistas aos soldados norte-americanos, convencendo-os a parar de lutar uma guerra "já perdida".

Para realizar sua missão, ele recebe a escolta de um grupo formado pelo sargento George Washington (Tony King, que interpretou um personagem de mesmo nome no clássico "Os Caçadores de Atlântida"), pelo cubano Carlos (Bobby Rhodes, de "Demons"), pelo soldado Stinker Smith (Edoardo Margheriti, filho do diretor) e por uma correspondente de guerra, Jane Foster (Tisa Farrow, de "Zombie").


Durante o restante do filme, o grupo percorrerá a selva enfrentando todo tipo de perigos e adversidades, de bebês-bomba a soldados americanos convencidos a enfrentar seus próprios colegas pela tal rádio pirata; de armadilhas mortais espalhadas pela selva a cobras venenosas; de ataques-surpresa do inimigo ao insano Major Cash.

Apesar de soar drasticamente "anti-guerra", THE LAST HUNTER não foi feito como tal. Segundo o filho de Antonio, Edoardo, que além de ator foi assistente do diretor, o objetivo do pai não era fazer uma história política ou contrária à Guerra do Vietnã, mas apenas um filme divertido.


E divertido o filme é, sem sombra de dúvidas. Principalmente a seqüência toda que se passa na base-caverna do insano Major Cash, onde foi montado até um bar com danceteria e fliperama para os soldados - tão enlouquecidos, pela guerra, pelo isolamento e pelo consumo de drogas, que consideram a coisa mais normal do mundo estuprar a pobre correspondente de guerra!

Cash, que é uma mistura do Major Kurtz com o personagem de Robert Duvall em "Apocalypse Now", passa os momentos de folga ouvindo uma trilha sonora de tiroteios e explosões que sai de alto-falantes em seus aposentos. No auge da loucura, ele manda um de seus soldados enfrentar todo um batalhão inimigo somente para pegar um coco no meio da selva - "brincadeira" que aparentemente já havia sido feita outras vezes, pois o tempo do sujeito é cronometrado para ver se ele conseguirá "bater seu recorde". Ver o pobre soldado desviando de tiros e explosões para pegar o coco lembra bastante a cena do surfe entre bombas no filme de Coppola.


Porém THE LAST HUNTER se caracteriza mesmo é pelo fator exploitation. A violência é forte e sempre presente. Margheritti faz questão de mostrar a fragilidade dos corpos dos soldados ao rasgá-los em pedaços, jogando na cara do espectador o resultado insano de uma guerra estúpida.

No cardápio de mutilações, há de tudo um pouco: tiro no olho, cadáver decomposto com as tripas pra fora, sujeito rasgado no meio por uma armadilha, pessoas em chamas, fraturas expostas e membros decepados, tudo representado com uma crueza impactante. O realismo das feridas e mutilações é garantido pela presença de Massimo Giustini na equipe de efeitos especiais - o mesmo responsável pela maquiagem realista de "Cannibal Holocaust".


Porém a cena mais incômoda do filme, que remete ao realismo brutal de "O Franco-Atirador", mostra Morris sendo aprisionado pelos vietcongues numa cela parcialmente submersa num rio imundo, onde os prisioneiros são atacados por ratos famintos. Seu colega de cela é um outro soldado com o rosto parcialmente devorado pelos roedores, e o próprio herói é ferido com golpe de baioneta para que o sangue possa atrair os animais.

É preciso dar um desconto para a conclusão absurda, em que revela-se que a responsável pelas mensagens "subversivas" é uma pessoa ligada ao passado do próprio Morris (muita coincidência para ser verdade). Mas é coisa típica da italianada, que não consegue falar sério o tempo todo e precisa jogar alguma bobagem nos filmes.


Além de todos os pontos positivos já elencados, eu não posso deixar de mencionar que THE LAST HUNTER traz um anti-herói imperfeito e com ações moralmente condenáveis. Embora numa primeira assistida o espectador simpatize com o Capitão Morris e seu heroísmo inabalável (principalmente por causa do ator gente-boa), é pensando no filme e na trama, depois, que você começa a perceber como o "herói" de David Warbeck é, na verdade, um canalha, daquele tipo que leva seus homens à morte por uma missão imbecil e que só pensa em seguir suas ordens, não importa quem tenha que matar (afinal, "missão dada é missão cumprida", como vimos em "Tropa de Elite").

Logo no começo, por exemplo, Morris aponta sua arma para um piloto do helicóptero, forçando-o a arriscar-se sobrevoando uma área de bombardeio. Durante um ataque-surpresa dos vietcongues a uma base norte-americana, ele só pensa em salvar o próprio pescoço, abandonando seus homens ao próprio destino. E a própria missão do "herói" não tem nada de heróica, pois representa a vitória do militarismo cego sobre o pacifismo!


Por essas e por outras é que sempre coloco THE LAST HUNTER na minha lista de obras-primas sobre a Guerra do Vietnã, e não tenho vergonha de compará-lo aos clássicos consagrados pela crítica, como Coppola e Cimino (certos críticos certamente teriam um treco ao ver Margheritti sendo citado na mesma frase que esses dois).

Sem contar que, como eu escrevi no começo, THE LAST HUNTER também funciona apenas como filme de ação casca-grossa sobre o Vietnã, com uma contagem de cadáveres tão alta que pode brigar de igual para igual com "Top Gang 2" pelo título de "filme mais violento de todos os tempos"!


PS 1: Este é o último trabalho do diretor de fotografia Riccardo Pallottini, que morreu num acidente de helicóptero durante as filmagens. Pallottini trabalhava com Margheritti desde os anos 60, e também fez filmes conhecidos de outros diretores, como "Matador Implacável", de Luigi Cozzi, e "Blindman", de Ferdinando Baldi.

PS 2: Cenas aéreas e de explosões foram reaproveitadas por Margheritti em seus dois filmes posteriores, "Tiger Joe - Escapando do Inferno" (1982) e "Tornado" (1983), que alguns consideram ser uma espécie de trilogia do diretor sobre a Guerra do Vietnã. O picareta Bruno Mattei também reaproveitou estas cenas (provavelmente sem pedir autorização) em seu clone de Rambo "Strike Commando - Comando de Ataque", de 1987.

Trailer de THE LAST HUNTER



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Apocalypse 2 (The Last Hunter / L'Ultimo
Cacciatore, 1980, Itália)

Direção: Antonio Margheritti (aka Anthony M. Dawson)
Elenco: David Warbeck, Tisa Farrow, Bobby Rhodes,
Tony King, Margit Evelyn Newton, John Steiner,
Massimo Vanni e Edoardo Margheritti.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Muito mais resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO (Scott Pilgrim vs. the World, 2010, EUA. Dir: Edgar Wright)
É uma pena que o público-alvo desse filme (nerds viciados em videogames e/ou quadrinhos) não tenha lotado as salas de cinema, e por isso SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO foi um injusto fracasso de bilheteria (provavelmente baixaram para ver em casa, os putos!). Injusto porque, mesmo um tanto afetado e exagerado, o trabalho do inglês Edgar Wright é MUITO divertido, até para quem odeia nerds e tudo que é relacionado a eles. Quando li os quadrinhos do "Scott Pilgrim", em que o filme se baseia com bastante fidelidade, lembro de ter ficado ora maravilhado, ora bestificado (tipo: "Por que estou lendo esse negócio afinal?"). O filme provoca a mesma sensação: não é fácil acompanhar uma narrativa estilo videogame em que um looser precisa enfrentar e derrotar os sete ex-namorados da sua atual paixão. Como num videogame, os inimigos derrotados viram moedas (!!!), e o personagem principal ganha vida extra para continuar lutando mesmo quando morre (na HQ tem também "save points" e várias referências a games clássicos, como Sonic e Kid Chameleon). Mas é entrar no espírito da brincadeira para curtir SCOTT PILGRIM como a comédia romântica nonsense que é, bobo e ao mesmo tempo inteligente, afetado e ao mesmo tempo original, com Wright comprovando que é um dos melhores cineastas contemporâneos (as passagens entre as cenas são simplesmente brilhantes). Alguns vão embarcar na proposta já com o logo da Universal estilo game 8 bits, no início; outros provavelmente vão ficar pensando "Mas por que eu estou vendo esse filme afinal?". Para mim, mesmo dividido entre os dois sentimentos (o filme às vezes parece longo demais), SCOTT PILGRIM entra sem ressalvas na lista dos melhores do ano. Agora, numa coisa eu concordo com os detratores: Michael Cera está ficando quase insuportável!


PELOTÃO DE GUERRA (POW - The Escape, 1986, EUA. Dir: Gideon Amir)
Quando você tem um roteiro de James Bruner (que escreveu os principais filmes do Chuck Norris) e David Carradine como astro numa produção da saudosa Cannon Pictures, é difícil errar. PELOTÃO DE GUERRA pode até não ser um grande filme, mas funciona que é uma beleza para uma descompromissada "Sessão da Tarde de macho". Carradine interpreta um militar linha-dura que, com o iminente fim da Guerra do Vietnã, resolve resgatar prisioneiros de guerra norte-americanos antes que eles sejam executados pelos vietcongues. Acaba ele mesmo preso e tendo que liderar uma rebelião e fuga. Achei que o filme seria um remake disfarçado de "Braddock 2", que tem o mesmo argumento, mas felizmente aqui a fuga do campo de prisioneiros acontece já aos 15 minutos, e o restante do filme mostra o drama dos fugitivos para sair das linhas inimigas. O roteiro é um festival de absurdos (dois personagens, um deles o vilão interpretado por Mako, são onipresentes e vivem reaparecendo quando menos se espera), mas é engraçado, hoje, ver o barulhento retrato de uma época (a Era Reagan) em todos os seus exageros. Mais engraçado ainda é perceber como esses filmes da Cannon são muito mais divertidos que as tentativas recentes de emular o cinema de ação oitentista, como "Os Mercenários" e "Machete". Enfim, para ver, rir e esquecer, mas rende uma bela sessão dupla com algum dos "Braddock" ou "American Ninja".


UMA HERANÇA DA PESADA (Larger Than Life, 1996, EUA. Dir: Howard Franklin)
Quando um ator famoso aceita fazer filmes contracenando com algum animal, isso geralmente significa o ponto mais baixo da sua carreira. De Chuck Norris a Tom Hanks, vários astros já caíram na armadilha. Era justamente o que eu esperava desse filme aqui: Bill Murray fazendo gracinhas ao lado de um elefante. Até estava na minha lista de "boicotados forever". Por isso, foi uma grata surpresa descobrir que Murray não caiu na armadilha. Apesar de contracenar com um animal (uma elefanta treinada), ele não deixa de lado seu cinismo característico nem suas tiradas ("one-liners") ferinas. O resultado passa longe do público infantil, e é agradável principalmente para adultos: um bem-humorado road movie que mostra um Bill Murray muito inspirado e muito engraçado tendo que cruzar metade dos Estados Unidos com o paquiderme que ganhou de herança. Só a cena em que ele tenta dirigir um caminhão já vale o filme inteiro. Mas, para completar, o ótimo elenco se dá ao luxo de ter Linda Fiorentino (ainda na sua fase "sex symbol") e Matthew McConaughey em papéis secundários. Esse último surpreendentemente mostra a veia cômica que lhe falta nas comédias em que é protagonista, impagável como um caminhoneiro caipira e meio psicopata. UMA HERANÇA DA PESADA também marca a transição entre o Bill Murray das comédias inofensivas e o Bill Murray que virou "ator sério" ao estrelar as produções cults de Wes Anderson, Jim Jarmusch e Sofia Coppola.


ATRAÇÃO PERIGOSA (The Town, 2010, EUA. Dir: Ben Affleck)
Acho que o único filme do Ben Affleck que eu gostei foi "Procurando Amy", do Kevin Smith. No geral, sempre achei o cara um péssimo ator, cheio de tiques irritantes, e ele ainda estragou o Demolidor, meu super-herói preferido! Agora, tem que dar o braço a torcer: Affleck deu a volta por cima com esse ATRAÇÃO PERIGOSA, filme em que o ator medíocre de sempre (e cuja carreira vinha em perceptível decadência) mostra-se um diretor e co-roteirista bem decente. Na prática, este é mais um "filme sobre assaltos", mostrando um grupo de bandidos que passa seu tempo criando planos infalíveis para roubar fortunas e despistar a polícia. Isso até um deles (o próprio Affleck, menos afetado que de costume) apaixonar-se pela gerente de um dos bancos assaltados, que foi levada por eles como refém. Seguem-se as confusões/tensões de praxe, até a conclusão com um plano muito ambicioso que dá errado. Apesar do título nacional prometer mais romance do que o filme realmente entrega, o resultado é de tirar o fôlego. Inclusive as cenas de assalto/troca de tiros com a polícia não fazem feio em comparação ao clássico contemporâneo "Fogo Contra Fogo", de Michael Mann, com um tiroteio final eletrizante Vá lá que o roteiro escolhe a conclusão mais fácil - ao contrário de "Atraídos pelo Crime", outro bom policial recente, em que quase todos os personagens acabam se dando mal no fim. Mas é pouco para desmerecer este belo trabalho. No elenco inspiradíssimo, destaque para Jeremy Renner (como bandido) e o quase desconhecido Jon Hamm (como agente do FBI, roubando todas as cenas em que aparece).


O HOMEM QUE VIRÁ (L'uomo che Verrà, 2009, Itália. Dir: Giorgio Diritti)
É uma equação infalível: crianças corajosas + nazistas cruéis + fotografia linda + reconstituição de época notável + drama de partir o coração = forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O HOMEM QUE VIRÁ é uma produção belíssima, mas que infelizmente cai naquela máxima dos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial: de "A Lista de Schindler" a "O Pianista", quem viu um, viu todos. Esse não é diferente: apesar de mostrar que os nazistas não centraram fogo só nos judeus, mas também nos pobres colonos italianos de uma cidade ocupada, ele não muda muito o disco em relação a outras obras com a mesma temática, mostrando os alemães como sádicos extremamente cruéis, e fazendo questão de catalogar nos mínimos detalhes as suas barbaridades contra os inocentes habitantes (em cenas duras de assistir). O diferencial é justamente o fato de centrar o foco no impacto que essa barbárie toda provoca numa menininha, que, traumatizada pela morte do irmãozinho recém-nascido, ficou muda, mas espera ansiosa pelo nascimento de um novo bebê, o "homem que virá" do título. A menina e o bebê são os únicos sinais de esperança numa história que você mais ou menos já sabe, desde o começo, que vai acabar em tragédia. Para quem já está farto de histórias do gênero, o filme vale sobretudo pela fotografia e reconstituição de época - que será especialmente nostálgica para quem, como eu, foi criado numa cidadezinha de imigrantes italianos, com hábitos muito semelhantes aos das pessoas mostradas no filme. Também vale por um olhar um pouquinho mais imparcial que os "Lista de Schindler" da vida, como quando mostra que o movimento rebelde anti-nazistas foi tão nocivo aos pobres inocentes quanto o próprio inimigo. Para ver com o lenço na mão.


IMPACTO (Bay Rong, 2010, Vietnã. Dir: Le Thanh Son)
A máxima dos filmes da Segunda Guerra também se aplica aqui: se você já viu algum filme de ação vindo do Oriente, já viu IMPACTO. Burocrática e sem nada de novo em relação ao que já foi feito pelo pessoal de olhinho puxado (de John Woo a "Ong Bak"), essa produção nada original talvez funcione como cartão de visitas para quem nunca viu um filme do gênero. A história da mercenária que precisa fazer serviços sujos para salvar sua filha, refém de um perigoso gângster, pelo menos é contada com certo estilo, e as lutas, cada vez mais violentas e exageradas, são realistas e bem coreografadas (pobres dos dublês!). Mas, lá pelas tantas, fica evidente a intenção do diretor Thanh Son de plagiar todo e qualquer filme de Quentin Tarantino: não bastasse a própria trama ser uma reconstrução da idéia básica de "Kill Bill", há uma discussão de bandidos sobre os apelidos usados numa operação (como em "Cães de Aluguel"), cenas engraçadinhas (a garota seminua correndo no meio de um tiroteio) e diálogos espirituosos e auto-referenciais ("Isso até parece um filme de Hong-Kong!"). No geral não é grande coisa, mas vale pelas lutas e por ter uma conclusão completamente inesperada em relação ao destino da filha sequestrada. Só que é filme para ver e esquecer meia hora depois. O mais divertido foi ver IMPACTO em plena Mostra de Cinema de São Paulo (!!!) e testemunhar o público pseudo-cult abandonando a sala gradativamente. Sabe como é, filme de ação oriental é "popular" demais para eles (e não é chato o suficiente).


FÚRIA PRIMATA (Primal Rage, 1988, Itália/EUA. Dir: Vittorio Rambaldi)
Escrito pelo cineasta italiano Umberto Lenzi (!!!), esse é o primo pobre (e mais velho) de "Extermínio". Como no filme de Danny Boyle, um macaco usado em experiências escapa do laboratório (graças à ação idiota de um "ecologista") e começa a espalhar uma vírus modificado da raiva pelos corredores de uma universidade. O vírus transforma suas vítimas em zumbis extremamente violentos, embora menos irracionais que os de "Extermínio". A ameaça é combatida por um estudante e sua namorada. A boa premissa inicial não se sustenta, e, apesar do nome do renomado Carlo Rambaldi nos efeitos especiais, não há momentos memoráveis de violência explícita e nem monstrinhos decentes. O auge da bagaça é um baile de Halloween invadido por um grupo de contaminados, que começam a matar seus colegas das maneiras mais criativas possíveis (mas, infelizmente, sem maquiagens interessantes para fazer valer o programa). E a narrativa é lenta demais para quem espera um clone de "Extermínio", já que a busca pelo primeiro infectado toma um tempão do filme, fazendo com que a praga só se espalhe perto do final. Ainda assim, tem certo valor trash, especialmente pelos bisonhos diálogos escritos por um pouco inspirado Lenzi (com o pseudônimo Harry Kirkpatrick). O mais fantástico é aquele em que três rapazes se preparam para estuprar uma garota inocente, todos ao mesmo tempo, e um deles comenta: "Nós vamos te transformar num porco-espinho!". O diálogo é genial, mas o filme não é. E Bo Svenson paga um micão como cientista louco com rabinho-de-cavalo.


TUDO QUE AMO (Wszystko, Co Kocham, 2010, Polônia. Dir: Jacek Borcuch)
Adolescência e rebeldia são duas coisas inseparáveis - se você não foi rebelde, também não foi adolescente. E quer forma melhor de demonstrar a sua rebeldia do que uma banda punk, grande oportunidade para poder questionar as instituições (família, igreja, forças armadas...) sem nem ao menos aprender a tocar instrumentos? É disso que trata essa sensível comédia dramática polonesa sobre o amadurecimento de garotos que montam sua própria banda punk na Polônia de 1981, varrida por tumultos político-militares provocados por greves de trabalhadores. A música é a chance para os garotos mostrarem sua insatisfação com o "establishment", mesmo que o máximo de rebeldia dos personagens seja tocar no bailinho do colégio contra a vontade das autoridades. Mas é o tipo de ingenuidade típica de adolescente rebelde, que acha que pode mudar o mundo antes de ficar mais velho e "se vender para o Sistema". Pessoalmente, me identifiquei com o filme porque já fui como a garotada e também tive uma banda punk (que FELIZMENTE nunca saiu da garagem). Além disso, os personagens são simpáticos (o pai de um dos rapazes, militar, mostra-se o completo oposto do que se espera dele), e as relações entre eles oscilam entre o sensível e o engraçado. Um grande filme, nostálgico e emocionante, que eu coloco tranquilamente na lista dos melhores de 2010. E sempre é bom ver uma comédia adolescente com algo a dizer, longe dos tradicionais "besteróis americanos".


CRIAÇÃO MONSTRUOSA (The Kindred, 1987, EUA. Dir: Stephen Carpenter e Jeffrey Obrow)
Quem é das antigas deve lembrar que, na época de lançamento desse filme, as revistas brasileiras de cinema (VideoNews, SET, Cinemin...) escreveram páginas e páginas sobre ele. Não vi na época e só fui conhecer agora. Pois CRIAÇÃO MONSTRUOSA é a cara daqueles exagerados anos 80: tem cientistas loucos, mutantes, monstrinhos melequentos pré-CGI e até uma melancia assassina! Pode ser melhor? Pode: um ator veterano e respeitado (Rod Steiger) aparece tomando um banho de gosma, e uma atriz razoavelmente conhecida (Amanda Pays) passa por uma bizarra mutação que a transforma numa criatura muito parecida com os homens-peixe do Sergio Martino!!! Enfim, é um autêntico samba do crioulo-doido, com um roteiro que parece misturar dois filmes diferentes. Steiger é um cientista louco estilo dr. Moreau que tem um laboratório cheio de criaturas mutantes, mas isso tudo é esquecido depois dos 15 minutos iniciais, quando a trama segue um rapaz em busca da verdade sobre as experiências genéticas da falecida mãe, outra criadora de humanóides. A investigação leva um grupo de personagens toscos até um casarão antigo, onde as experiências da mamãe ainda estão bem vivinhas e com sede de sangue. Impossível de levar a sério, cheio de furos de roteiro, mas muito divertido como representante barato de uma década regada a nojeiras diversas e sangue falso, onde nem mesmo atores como Steiger escapavam de pagar mico e se melecar (a veterana Kim Hunter, da série "O Planeta dos Macacos", também aparece em pequena participação).


VC TÁ AÍ? (R U There?, 2010, Holanda. Dir: David Verbeek)
Um ocidental em viagem à cidade chinesa de Taipei vive um amor introspectivo com uma garota que conhece por lá. Dá até para dizer que o drama holandês VC TÁ AÍ? é o "Encontros e Desencontros" da geração internet, e o filme consegue retratar sem exageros a alienação provocada pela vida virtual. O protagonista é um jovem que viaja pelo mundo participando de competições de games; assim, seu mundinho particular é aquele da guerra de mentirinha do videogame, e ele simplesmente não consegue sociabilizar com pessoas "reais" fora desse universo de bits e bytes. As coisas parecem melhorar quando ele conhece uma simpática chinesinha, mas o relacionamento de ambos no mundo real é movido a silêncio. Chega a ser irônico: o rapaz é capaz de revelar seus sentimentos e beijar a menina no ambiente virtual do Second Life, mas jamais o faz na vida real. E quando um médico-acupunturista define o problema do jovem ("Você vive muito dentro da sua cabeça e esquece que tem um corpo"), parece estar se referindo a uns 80% da geração atual. VC TÁ AÍ? parecerá estranho para quem tem mais de 35 anos, mas trata do mesmo tema da "comunicação pela internet/falta de comunicação fora dela" visto no pretensioso "Os Famosos e os Duendes da Morte". Sai-se muito melhor, mas compartilha com o insuportável longa de Esmir Filho a falta de conflitos e a ausência de qualquer conclusão para as angústias dos protagonistas. É o final xoxo, apelativo até, que acaba estragando o filmaço que VC TÁ AÍ? podia ser. Vale a pena conhecer, mas é preciso estar preparado para seus longos silêncios e narrativa arrastada - que ironicamente será um porre para a maior parte da geração retratada no filme!


ESQUADRÃO COBRA 2 (Snake Eater II: The Drug Buster, 1989, Canadá. Dir: George Erschbamer)
Um policial durão, conhecido pelo apelido de "Soldier" (Soldado), vinga-se violentamente de uma quadrilha que vem matando jovens ao vender cocaína misturada com veneno de rato (!!!). O argumento "brilhante" (sim, foi ironia) e a presença do galã classe C Lorenzo Lamas dão a idéia de que ESQUADRÃO COBRA 2 será um policial casca-grossa e politicamente incorreto, cheio de tiros e corpos ensanguentados tombando. Pena que é o contrário: o filme, na verdade, se aproxima da comédia absurda, com cenas nonsense que me fizeram duvidar da sanidade dos realizadores. Depois de passar chumbo nuns traficantes pé-de-chinelo, ainda no início da história, o herói é preso e considerado insano; assim, acaba condenado à prisão num manicômio judiciário. Mas ele sai do lugar a toda hora para exterminar o resto da quadrilha, inclusive conseguindo bombas e munições com a maior facilidade graças aos próprios internos (!!!). A cena mais absurda é aquela em que o herói está fugindo do manicômio pelo duto de ventilação e cruza, no caminho, com uma prostituta e um entregador de pizza que estão ENTRANDO na instituição para atender os internos!!! Para completar a zorra total, o sujeito age com a ajuda de um dos piores parceiros engraçadinhos da história do gênero, um negro metido a malandro que é insuportável. Não sei se é pior o filme, o fato de ele fazer parte de uma trilogia (!!!) ou o fato de Lorenzo Lamas ficar usando armadilhas e disfarces escrotos (!!!) para matar os vilões, ao invés de simplesmente dar tiros ou socos nos meliantes. Lixo total.


SCREAM - GRITOS NA NOITE (Scream, 1981, EUA. Dir: Byron Quisenberry)
E para fechar com chave de ouro (ou chave de merda), esse foi o primeiro dos dois únicos filmes dirigidos pelo dublê Quisenberry (o outro saiu APENAS 23 anos depois, em 2004!). Ele tenta aproveitar a "febre slasher" que tomou o mundo após o sucesso de "Sexta-feira 13" no ano anterior. Pena que, ao contrário de outros divertidos slashers do mesmo ano ("The Burning", "Dia dos Namorados Macabro"), esse aqui falha em todos os quesitos. Trata-se da história de um grupo de turistas que paga uma fortuna para visitar uma cidade-fantasma dos tempos do Velho Oeste. Isolados no lugar, tornam-se alvos fáceis para um misterioso psicopata. Na verdade, SCREAM (mesmo título daquele famoso filme do Wes Craven) é um horror sobrenatural travestido de slasher, com uma explicação final fantasmagórica para os crimes. Mas não faz muita diferença, pois os clichês são os mesmos: alguém que tem um "mau pressentimento" sobre o lugar, as vítimas que saem sozinhas para fazer coisas estúpidas (mesmo SABENDO que há um assassino à solta), e até os personagens são clichês (não falta nem o sujeito misterioso, aqui interpretado pelo veterano Woody Strode, nem o gordo engraçado). Pena que o diretor de primeira viagem desperdice o clima e a ambientação (pois a cidade-fantasma realmente é arrepiante), e não tenha a menor noção de ritmo, transformando seu filme num dos piores e mais sonolentos slashers de todos os tempos. Pior: com 14 personagens em cena, a contagem de cadáveres é ínfima: cinco assassinatos, e todos off-screen!