quarta-feira, 2 de setembro de 2009

SETE DÓLARES PARA MATAR (1966)


Quando você acha que ja viu tudo em matéria de western spaghetti, eis que surge um filme como SETE DÓLARES PARA MATAR com uma corajosa e melancólica conclusão digna de tragédia grega: o herói é obrigado a encarar um duelo com o próprio filho, desaparecido desde a infância, sendo que o rapaz simplesmente ignora a relação de parentesco entre eles, e o herói só fica sabendo em cima da hora, quando não tem mais como escapar do trágico desfecho!

O que acontecerá a seguir? O pai matará o filho, vivendo com a dor de ter acabado com o próprio herdeiro? O filho matará aquele que não sabe que é seu pai, descobrindo isso apenas após o crime? Ou ambos se matarão, encontrando assim a paz há muito perdida? Ah, isso você só vai saber vendo o filme!

Filmada e editada de maneira magistral, esta cena é uma daquelas obras-primas do western: pai e filho caminham lentamente em direção um do outro, açoitados por uma chuva torrencial que parece sublinhar a tragédia iminente, numa sucessão de belíssimos planos que levam a um desfecho triste e repentino. Cena tão boa, aliás, que faço questão de ilustrar praticamente na íntegra nessa seqüência de fotos abaixo - omitindo, obviamente, a resolução do confronto, para não estragar a surpresa de quem não viu o filme.


Produzido em 1966, quando o ciclo spaghetti já era forte nos faroestes italianos (com herói sujos e barbados, e tramas mais corajosas e trágicas do que as dos westerns norte-americanos), SETE DÓLARES PARA MATAR é estrelado pelo brasileiro Antonio De Teffé, imortalizado no gênero com seu pseudônimo americanizado, Anthony Steffen. O ator estrelou, entre outros filmes daquele período, o ótimo "Django, O Bastardo", de Sergio Garrone. Aqui, a direção é de Alberto Cardone.

A história originalmente começava com um provérbio de Salomão retirado da Bíblia ("Quem anda com os sábios será sábio; mas o companheiro dos tolos sofre aflição."), introdução que inexplicavelmente foi cortada de todas as versões do filme lançadas fora da Itália.

Em seguida, a quadrilha de um bandoleiro mexicano chamado Sancho (no original italiano era "El Chacal", interpretado por Fernando Sancho) ataca a fazenda do herói Johnny Ashley (Steffen) justamente quando ele não está em casa.


Os bandidos matam friamente sua esposa, uma mestiça de branco com índia, e fogem levando não só os objetos de valor da casa, mas também o filho pequeno de Johnny, Jerry (David Mancori). Como Sancho não tem um herdeiro (o roteiro deixa no ar que ele é impotente), o bandidão exige que sua mulher (Carla Calò) crie a criança raptada como se fosse seu próprio filho.

Neste ínterim, Johnny volta para casa e encontra o cenário de destruição deixado pelos bandidos. Sobre o vestido vermelho da esposa morta, ele encontra sete moedas de um dólar, justificando assim o título original, "Sete Dólares no Vermelho" (Sancho deixou o dinheiro dizendo: "Era apenas um squaw. Com este dinheiro, o marido poderá comprar outra"). Como vocês podem ver, o título em inglês, adotado pela tradução brasileira, não pegou o espírito do original.

Sedento de vingança, e obcecado pela idéia de encontrar o filho seqüestrado, nosso herói passa os próximos 20 anos agindo como caçador de recompensas, buscando as pistas dos mexicanos que atacaram sua fazenda. O que ele não sabe é que Jerry, criado por Sancho e sua esposa, cresceu e tornou-se um bandido violento e sádico (agora interpretado por Roberto Miali, aka "Jerry Wilson"), e que os caminhos de ambos logo entrarão em rota de colisão.


Valorizado pela linda música do especialista Francesco De Masi, SETE DÓLARES PARA MATAR faz parte da chamada "Trilogia Bíblica" criada pelo diretor Cardone (que assinava "Albert Cardiff") e pelo produtor Mario Siciliano (ou "Marlon Sirko"). A trilogia era inspirada por salmos bíblicos, como aquele que aparece no início, e continuou com "Johnny Texas" ("1.000 Dolari Sul Nero", também estrelada por Steffen), mas ficou incompleta quando a sociedade entre Cardone e Siciliano foi desfeita. Para compensar, cada um rodou sua própria "conclusão não-oficial" da trilogia: o diretor fez "20.000 Dólares para Gringo", em 1967, e o produtor filmou "Ódio e Vingança", em 68.

Este SETE DÓLARES PARA MATAR é aquele filme clássico por excelência, mas que, analisado friamente, tem muito mais defeitos do que qualidades, como o colega Cesar Almeida analisou com muita propriedade em seu excelente (e recentemente extinto) blog Dollari Rosso - que, por sinal, foi batizado assim por causa do título italiano do próprio filme, "Sette Dolari Sul Rosso".

A verdade é que, apesar do ótimo roteiro escrito a seis mãos por Juan Cobos, Melchiade Coletti (ou "Mel Collins") e Arnaldo Franciolini (vulgo "Arne Franklin"), a direção de Cardone é frouxa, o ritmo titubeante, e a edição de José Antonio Rojo (aka "Fritz Mallery"), uma piada.


A passagem dos 20 anos em que o herói busca pelo filho e pelos seus seqüestradores, por exemplo, é inexistente: vemos Steffen sepultando sua esposa e, no corte de cena seguinte, teoricamente já se passaram duas décadas, mas o protagonista continua com a mesma roupa, a mesma barba por fazer e não envelheceu um único minuto, quem dirá 20 anos (o período de tempo é simplesmente citado verbalmente por um personagem secundário).

O mesmo se aplica ao vilão Sancho: além de não envelhecer, ele continua com a mesma roupa (incluindo aquele clichê das cartucheiras cruzadas sobre o peito), o mesmo sombreiro e até o mesmo bigodão (com o MESMO comprimento depois de 20 anos!!!).

O único que envelhece, obviamente, é Jerry, e o roteiro não tenta transformar o personagem naquele típico inocente que tornou-se bandido sem querer. Pelo contrário, Jerry é mostrado como um homem frio e sanguinário, que gosta de matar e o faz o tempo inteiro, atirando inclusive contra adversários desarmados.


Uma cena-chave que demonstra a maldade do pistoleiro acontece num salloon, quando Jerry dá em cima da bela mulher do taverneiro. O corno se vinga pagando um amigo para dar uma lição em Jerry, usando um chicote. Só que a coisa acaba mal: após umas chicotadas, o bandidão se vinga matando seu agressor, o taverneiro e até a mulher dele, que deu origem a toda a encrenca! Mais adiante, Jerry se apaixona pela bela Sybil (Elisa Montés), uma cantora de salloon, apenas para matá-la friamente, com um tiro nas costas, quando a moça descobre que ele é um bandido e tenta fugir para avisar o xerife!

Tanta frieza torna ainda mais dramático aquele aguardado confronto final entre pai e filho, pois o espectador realmente espera qualquer desfecho para o duelo, EXCETO, é claro, o tradicional final feliz de filme hollywoodiano. O terceiro ato é justamente o ponto alto do filme, que até então vinha se arrastando sem grandes novidades ou lances surpreendentes.

Pois os 20 minutos finais são simplesmente eletrizantes, e incluem ainda um bilhante duelo entre Johnny e Sancho, o homem responsável pela ruína do herói (e por 20 anos de amargura e rancor). A briga é num paiol, com ambos usando ganchos metálicos como armas!


Um outro destaque bastante positivo é que, ao contrário da maioria dos filmes do gênero, aqui socos têm o mesmo efeito que têm na vida real. Eu odeio aqueles filmes em que os caras ficam cinco minutos trocando bordoadas sem apresentar um mínimo sangramento nasal. Já a obra de Cardone mostra os efeitos devastadores provocados pelos punhos: socos no rosto deixam hematomas e cortes ensangüentados, e um adversário pode ser morto a pancadas, como acontece na vida real, ao invés de sair caminhando normalmente.

Portanto, é de se perguntar, como fez César Almeida em seu blog, por que o resto do filme não tem a mesma qualidade desta parte final. Será que o produtor Siciliano assumiu a direção para corrigir o que Cardone vinha fazendo ate então (já que o produtor é creditado como "assistente de direção" nos créditos finais), ou foi justamente o contrário? Mistério... O próprio trailer, que você pode assistir aí embaixo, consegue ser melhor e mais interessante do que o filme.

Infelizmente, SETE DÓLARES PARA MATAR não teve muita sorte em nosso mercado de vídeo: tanto em VHS (pela Reserva Especial) quanto em DVD (pela Spectra Nova), a obra foi lançada numa versão criminosa, que, além de granulada, foi ampliada para caber no formato full screen, arrasando completamente a belíssima fotografia original em widescreen (que você pode conferir nas imagens desta resenha, capturadas do DVD italiano em belíssimo widescreen).


Os cortes nas laterais da imagens são tão exagerados que personagens ficam para "fora da TV", e deles escutamos apenas as vozes. Para piorar, até algumas ações (como o esfaqueamento de um personagem) acabaram cortadas graças à copiagem em full screen, e a versão nacional em DVD está com uma qualidade de imagem tão ruim que às vezes os atores ficam quadriculados!!! Enfim, um verdadeiro desrespeito com colecionadores e espectadores em geral. Deveria ser crime vender esse DVD, mas no Brasil vale tudo mesmo, e ninguém parece se importar com os tais "direitos do consumidor".

O negócio é correr atrás de uma cópia em widescreen, como eu fiz, pois o filme ganha muitos pontos quando o espectador consegue apreciá-lo com sua fotografia original - especialmente o belíssimo duelo final, cujo imagem está absurdamente escura nas cópias nacionais em VHS e DVD.

Mesmo com mais baixos do que altos, SETE DÓLARES PARA MATAR é aquele tipo de obra referencial e antológica que deve ser conhecida, especialmente pelos fãs de western spaghetti. Nem que seja apenas pelo ato final, e pela brilhante conclusão de uma das histórias mais tristes que o faroeste italiano já contou.

PS 1: Olho vivo na atriz que interpreta Emily, a amiga do personagem de Steffen no filme. Trata-se de Loredana Nusciak, que no mesmo ano apareceria como interesse amoroso de Franco Nero no clássico "Django", de Sergio Corbucci.

PS 2: Quer saber mais sobre a produção do filme e sobre a carreira do galã Anthony Steffen? Então não deixe de ler o livro sobre o ator, escrito por Daniel Camargo, Fábio Vellozo e Rodrigo Pereira, obrigatório na estante de qualquer fã de western spaghetti.

Trailer de SETE DÓLARES PARA MATAR


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Sette Dolari Sul Rosso / Seven Dollars
to Kill (1966, Itália/Espanha)

Direção: Albert Cardiff (Alberto Cardone)
Elenco: Anthony Steffen (Antonio De Teffé),
Fernando Sancho, Elisa Montés, Jerry Wilson
(Roberto Miali) e Loredana Nusciak.

10 comentários:

herax disse...

o encontro do protagonista com seu filho lá pelo meio do filme também é muito bom; apesar dos defeitos eu acho esse filme ótimo, tem aquela atmosfera trágica que só os italianos conseguiam fazer

Cesar Almeida disse...

Perfeita resenha, Felipe! E obrigado por mencionar o meu texto.

Esse filme é um enigma. Tem um dos finais mais arrasadores do gênero, mas também tem todas as falhas que você citou (e que poderiam ter sido facilmente evitadas).

Uma falha dá pra explicar: o cara que fez a roupa do personagem do Steffen deve ter sido o mesmo cara que fez o uniforme confederado do Jonah Hex, que quarenta anos depois do fim da guerra civil ainda estava inteiro!

Abração!

Ryunoken disse...

Dica: Ta cheio de DVD dulo (série Duplex) de western nas Americanas, dois filmes cada, inclusive tem esse, Django, Blindman e vários outros, a R$ 9,90. E se comprar 3 paga 2. Seis filmes por 20 pila! E tem outros géneros também. Pelo menos aqui no DF.

Felipe M. Guerra disse...

O problema é que o DVD nacional do SETE DÓLARES PARA MATAR não vale o preço, nem mesmo os R$ 9,90. Aliás, nem mesmo dado de graça, porque a versão é tão ruim que destrói o filme.

anareis disse...

Querido(a) novo(a) amigo(a),estou precisando muito da ajuda de todos os amigos. estou montando uma minibiblioteca comunitária pra crianças e adolescentes na minha comunidade carente aqui no Rio de Janeiro,se voce puder me ajudar estou fazendo uma campanha de doações. pode doar qualquer quantia no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3, ou pode doar livros ,ou pode doar máquina de costura, ou pode doar retalhos, ou pode doar computador usado. se quizer fazer aguma doação entre em contato com meu email: asilvareis10@gmail.com ,eu darei o endereço de remessa. se voce não puder me ajudar com doações pode divulgar minha campanha, tenho 2 blogs no google gostaria da sua visita: Eulucinha.blogspot.com ,obrigado pela sua atenção

artur disse...

o Cesar tem razão, esses erros poderiam mesmo ser evitados na película, e se eu fosse o realizador desse filme o filho do Steffen ainda seria criança e não se passariam 20 anos não, mas eu aproveitaria o personagem do Miali, e também se eu acatasse a idéia dos realizadores desse filme de 20 anos depois, terminaria mesmo era com um final feliz, confesso que detesto finais trágicos e o Roberto Miali seria um ladrão bonzinho (hahahahaha) só pra no final o Steffen dizer: "não podemos nos matar" Jaerry: "porque?" Ashley: " Jerry, eu sou seu pai" ai eu daria um Big-clouse no rosto surpreso do Miali com uma música ao fundo, então o Miali sorri, o Steffen também, para de chover, um arco-iris sobe no céu , FINE. quer um final mais feliz que esse? hehehehehe

Anônimo disse...

grande toque...

abrx

mrlx

Anônimo disse...

Felipe , parabéns pelo blog. Excelente.

Gostei tanto que adicionei ao meus favoritos no meu humilde blog de cinema. (http://blogfotogramadigital.blogspot.com).

Começamos a menos de um mês, e quando puder nos visite.

Abraços !

JF McQuade disse...

Adicionar sentimento... seja em horror, ação ou seja lá mais o q, é sempre um desafio, ainda mais no cinema fantástico! Tô sempre tentando destrinchar o segredo de fazer essa união... cinema despretencioso e sentimentos verdadeiros, por isso, vou aceitar a sua velha dica, velho Guerra e correr atrás desse western. o/

Anônimo disse...

Felipe, comprei o dvd desse filme e comprei também o livro do Daniel, do Fábio e do Rodrigo sobre o Steffen.Lendo a filmografia, descobri que ele protagonizou dois filmes interessantes: "O Peixe Assassino" e "Femmine Infernali".