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domingo, 25 de outubro de 2009

Bem mais críticas rápidas para pessoas nervosas


VÍCIO FRENÉTICO (Bad Lieutenant - Port of Call New Orleans, 2009, EUA. Dir: Werner Herzog)
Quando o diretor alemão Werner Herzog anunciou, ainda em 2008, que pretendia fazer uma refilmagem de "Vício Frenético", um filme policial perfeito dirigido por Abel Ferrara em 1992, muita gente quis a cabeça do sujeito. Inclusive o próprio Ferrara, que, entre outras palavras carinhosas, disse que todos os responsáveis pelo remake deveriam "morrer no inferno"!!! O fato de Herzog ter escalado Nicolas Cage para o papel que originalmente pertenceu a Harvey Keitel inclusive parecia anunciar uma iminente bomba. Aí é que vem a surpresa: este novo filme, apesar do mesmo título, não tem absolutamente nada a ver com o original de Abel Ferrara, além da presença de um policial corrupto e viciado em drogas. São dois filmes totalmente diferentes, e até agora estou tentando adivinhar o que tinha no cachimbo que o diretor alemão fumou quando resolveu fazer uma obra com o mesmo nome de outra, mas sem que as duas tenham qualquer relação (UPDATE: Acabei de ler uma entrevista do Herzog explicando que o título foi imposição dos produtores, mas que, para ele, o nome do filme seria apenas "Port of Call New Orleans"). Enfim, o que vale é que o novo "Bad Lieutenant", exibido na Mostra de Cinema de SP com o mesmo título nacional do filme de Ferrara, "Vício Frenético", é muito bom, desde que o espectador não compare com o outro, bem entendido. Enquanto Ferrara fez um drama deprimente e sério, o filme de Herzog está mais para uma comédia de humor negro sobre um policial viciado em drogas (Cage) que, injustamente condecorado como herói por sua atuação durante o caos provocado em New Orleans pós-furacão Katrina, é promovido a tenente e investiga uma chacina comandanda por traficantes de drogas. Mas, durante 120 minutos, o "herói" faz de tudo - acumula dívidas de jogo, inferniza a vida da namorada prostituta interpretada por Eva Mendes, desvia droga da sala de evidências da delegacia... -, MENOS investigar o crime que deveria investigar. A atuação exagerada e caricatural de Cage é perfeita para o tipo de filme que Herzog está dirigindo, e o espectador até ri de nervoso nas cenas em que o "herói", completamente chapado, vê iguanas sobre a sua mesa ou ameaça atirar em duas velhinhas indefesas. A trama toma rumos imprevísiveis, e o inferno em que o personagem do ator mergulha acaba prendendo a atenção até o final fraquinho, que tenta descambar para uma absurda conclusão moralista. Resumindo: não compare com o maravilhoso policial dirigido por Abel Ferrara em 1992 e divirta-se!




DISTRITO 9 (District 9, 2009, EUA/Nova Zelândia. Dir: Neill Blomkamp)
Eis um ótimo filme que merece todos os numerosos elogios que recebeu (não, não é mais um caso de "hype" injustificado). "Distrito 9" é uma versão ampliada do curta-metragem feito pelo mesmo diretor, Neill Blomkamp, em 2005 (chamado "Alive in Joburg"). Em forma de "mockumentary", aquele curta apresentava, em 6 minutos, a tensa relação entre humanos e seres extraterrestres que chegaram à Terra e começaram a morar em Johannesburg, na África do Sul. O prólogo de "Distrito 9", que dura quase meia hora, apresenta a mesma situação através de várias câmeras "amadoras" (de segurança, de uma equipe de documentaristas, de televisão...), também tentando criar um clima de realismo para uma situação no mínimo interessante: o fato de uma raça alienígena estar vivendo à margem da sociedade e hostilizada pelos humanos em uma gigantesca favela na África do Sul. A reviravolta acontece quando uma multinacional decide desapropriar a favela (chamada de Distrito 9) e deportar todos os aliens para um local distante, onde viveriam em uma espécie de campo de concentração. Ao entregar as ordens de desapropriação, o burocrata Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley, engraçadíssimo) é infectado por um organismo alienígena e começa a sofrer mutação, transformando-se em um dos extraterrestres, e obviamente sendo perseguido pelos humanos, que pretendem estudá-lo "a fundo". Ele terá que vencer o próprio preconceito e buscar a ajuda dos aliens que vivem no Distrito 9. O roteiro de Blomkamp e Terri Tatchell logo deixa a sátira e a crítica social (a metáfora para o "apertheid"; o fato praticamente inédito de vermos aliens no Terceiro Mundo, e não nos EUA) para entrar no terreno da ação e violência. É um amálgama de situações de vários outros filmes ("Missão Alien", "Inimigo Meu", a nojenta metamorfose de "A Mosca"), mas de uma forma criativa e muito original. E o fato de o cineasta Peter Jackson assinar a produção deve ter contribuído para que os burocratas de Hollywood não colocassem suas mãos no projeto e estragassem a história. Indiscutivelmente, um dos melhores filmes do ano: uma estranha combinação de aventura, ficção científica, humor negro, violência e crítica social, que milagrosamente funciona do início ao fim.




GAROTA INFERNAL (Jennifer's Body, 2009, EUA. Dir: Karyn Kusama)
A ex-stripper Diablo Cody ganhou o Oscar de Melhor Roteiro original pela comédia romântica "Juno", em 2008. Considerando que no roteiro daquele filme ela citava, com muita propriedade, obras de diretores como Dario Argento e Herschell Gordon Lewis, não deixa de ser um tanto frustrante este seu novo trabalho, "Garota Infernal", dirigido por Karyn Kusama. Vendido como horror adolescente, realmente não passa disso: um "terrir" PG-13 cuja idéia (a garota mais cobiçada da escola é possuída por um demônio e começa a devorar, literalmente, os colegas) nem é das mais originais, lembrando filmes como "Decoys" (2004) e o bastante superior "Possuída" (2000). A grande vedete da coisa toda é a linda Megan Fox ("Transformers"), no papel principal de "garota infernal". Mas o excesso de cenas "Vejam como sou gostosona", com a moça desfilando em câmera lenta, ou aparecendo apenas de calcinha e blusas decotadas, chega a cansar. Sim, Megan Fox É gostosa, mas depois do milésimo take dela caminhando em câmera lenta, até o mais tarado dos admiradores da atriz acaba cansando. Isso sem contar que ela só ameaça, mas nunca aparece pelada, o que seria uma das grandes atrações do filme. O que sobra é uma historinha bem-humorada de horror feita para adolescentes, com muito sangue e nojeira, mas pouquíssima violência. Para quem passou dos 20 anos (de idade física e mental), "Garota Infernal" já não assusta e nem surpreende; até diverte, mas não passa de "bonzinho". Resta, então, apreciar o corpitcho da srta. Fox e algumas boas sacadas do roteiro (como a cachoeira misteriosa), além de citações a obras como "Evil Dead" e "The Rocky Horror Picture Show" ("Não gosto de filmes sobre boxe", responde a moça convidada a ver este filme!). E por falar em citação, será que o título original, "Jennifer's Body", tem alguma coisa a ver com o giallo "What Are Those Strange Drops of Blood Doing on Jennifer's Body?" (1972, dirigido por Giuliano Carnimeo) ou foi apenas uma feliz coincidência?




O INFERNO DE CLOUZOT (L'Enfer D'Henri-Georges Clouzot, 2009, França. Dir: Serge Bromberg e Ruxandra Medrea)
Stanley Kubrick foi um diretor maluco e publicamente conhecido pela sua obsessão por detalhes e por infernizar a vida de seus atores e atrizes. Porém, perto do francês Henri-Georges Clouzot durante as filmagens de sua obra-prima inacabada, "L'Enfer", Kubrick fica parecendo um cordeirinho. Este interessante documentário francês, outra das atrações da Mostra Internacional de Cinema de SP, resgata imagens do filme nunca-lançado de Clouzot (diretor de clássicos como "O Salário do Medo"), acompanhadas de relatos de integrantes da equipe que viveram aquele pesadelo ao vivo durante todo o ano de 1964. Explicando para quem não conhece a história: Clouzot escreveu um roteiro sobre um homem (Serge Reggiani) consumido pelo ciúme doentio que sofria pela sua bela esposa (Romy Schneider). Embora fosse um filme com pouquíssimos atores e locações, o diretor torrou meses de filmagens (e muita grana também) só fazendo testes de efeitos para filmar as alucinações sofridas pelo personagem principal - principalmente trucagens fotográficas e efeitos de iluminação, numa época em que não havia CGI. Quando as filmagens da obra em questão finalmente iniciaram, Clouzot forçou seus atores ao limite, até que Reggiani, puto dos cornos, abandonou a produção, e o próprio diretor sofreu um ataque cardíaco quase fatal, decidindo, então, arquivar as 15 latas de negativos (com horas e horas de cenas e testes de filmagens), deixando "L'Enfer" inacabado e nunca exibido até a realização deste documentário. O trabalho de Bromberg e Medrea é bastante reverente a Clouzot (que morreu em 1977). Aliás, às vezes é reverente DEMAIS, e os diretores parecem tão preocupados em exibir as imagens inéditas de "L'Enfer" que esquecem de cuidar do ritmo do filme, obviamente pesado com a repetição "ad nauseum" das cenas e fragmentos filmados por Clouzot. O que sobra é um retrato bastante lúcido da loucura de um cineasta extremamente detalhista e perfeccionista, e do pesadelo que se tornou o seu sonho de fazer um filme perfeito (é uma pena que jamais vejamos uma versão finalizada de "L'Enfer", já que, pelas imagens exibidas no documentário, a obra tinha tudo para ser realmente genial). Acho que, em termos de megalomania cinematográfica, "O Inferno de Clouzot" fica na mesma linha de "Final Cut" (2004, dir: Michael Epstein), sobre as filmagens do mega-desastre "O Portal do Paraíso", de Michael Cimino, em 1980. Mas há um porém: este documentário francês, tão didático quando o tema é a pré-produção e as filmagens de "L'Enfer", falha ao não trazer explicações, na conclusão, sobre porquê, afinal, o filme foi cancelado. Também não informa que o mesmo roteiro de Clouzot foi filmado, em 1994, por seu colega Claude Chabrol, transformando-se no ótimo, mas pouco conhecido, "Ciúme - O Inferno do Amor Possessivo", em que a musa Emmanuelle Béart assumia o papel que fora de Romy Schneider. Mesmo assim, para quem curte documentários sobre os bastidores do mundo cinematográfico, este é obrigatório.




PACTO SECRETO (Sorority Row, 2009, EUA. Dir: Stewart Hendler)
Refilmagem de um interessante slasher de 1983 ("The House on Sorority Row", de Mark Rosman), "Pacto Secreto" não só é um dos piores remakes do ano, como um dos filmes de horror mais estúpidos dos últimos tempos. Para começo de conversa, o roteiro deste suposto "remake" não tem nada a ver com o original, além do fato de a história se passar em uma casa de fraternidade. Analisando friamente, parece mais uma refilmagem de "Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado" do que qualquer outra coisa. A trama é sobre fúteis garotas de uma fraternidade que, durante uma brincadeira que dá errado, provocam a morte de uma amiga. Resolvem ocultar o crime, apenas para serem aterrorizadas por um psicopata durante a sua festa de formatura. Nada de novo no front, hein? O original já não era nenhuma maravilha, mas pelo menos divertia e tinha um final-surpresa muito legal, com um assassino idem. Neste remake, resolveram partir para o vale-tudo, incluindo um absurdo "final Pânico" em que um dos personagens principais se revela o assassino, mas com um motivo tosco e absurdo para cometer os crimes. E se a bengala usada pelo assassino no filme de 1983 já era uma arma ridícula, o que dizer da CHAVE-DE-RODA NINJA usada pelo assassino agora, que funciona tanto para apunhalar pessoas quanto como arma de arremesso? O resultado é um filme patético, cheio de furos de roteiro, clichês e piadinhas fora de lugar, que poderia ser lançado com o título "Todo Mundo em Pânico 5". Dá até pena de Carrie Fisher, velha, acabada e decadente, numa "participação especial" que é o fundo do poço. (E se você ainda não está convencido da ruindade do filme, clique aqui para ler minha crítica na Boca do Inferno.)




SALVE GERAL (idem, 2009, Brasil. Dir: Sérgio Rezende)
O diretor Sérgio Rezende gosta de fazer filmes que têm como tema momentos da história do Brasil, como "Lamarca" (1994), "Mauá - O Imperador do Brasil" (1999) e "Zuzu Angel" (2006). Pois seus filmes parecem exatamente isso: uma aula de história, e das mais chatas, que nunca envolve nem emociona o aluno, ou melhor, o espectador. Rezende sempre esquece que o cinema tem que ser cinema, e não Telecurso Segundo Grau, e volta a repetir este erro em "Salve Geral" - que, como os bandidos do PCC retratados na história, atira para todos os lados, mas raramente acerta o alvo. Com roteiro do diretor e de Patrícia Andrade, o filme aborda o famoso mega-ataque do PCC que parou a cidade de São Paulo em 2006, agora sob a ótica de uma mãe de classe média (Andréa Beltrão), cujo filho, preso por um "homicídio acidental", está num dos presídios rebelados. Se fosse só isso, talvez "Salve Geral" encontrasse algum foco para desenvolver sua narrativa. O problema é que o roteiro de Rezende e Patrícia tenta criar um caleidoscópio de personagens e fatos, estilo "Crash - No Limite". Assim, o filme se transforma num festival de pequenas histórias que nunca chegam a envolver o espectador, mas que, sozinhas, até poderiam render bons filmes, tipo a relação da mãe desesperada com o Professor, um dos líderes do PCC (elemento tão gratuito na trama que podia ter ficado no chão da sala de edição), o policial linha-dura que aproveita a rebelião para sair fuzilando bandidos à la Capitão Nascimento, ou a forma como a mãe descobre o funcionamento do PCC fora dos presídios. Até um filme "men in a mission" com os bandidos ligados ao PCC aterrorizando São Paulo ficaria melhor que essa mistureba feita por Rezende. Mas, tudo junto, a coisa não funciona, e mortes como a do amigo do filho da protagonista (no início) ou a do Professor são tão repentinas e sem graça que o espectador acompanha tudo muito distante. O melhor do filme são as cenas que recriam os ataques do PCC, principalmente as longas tomadas aéreas da cidade "parada". Fora isso, é pura rotina: um novelão mal-dirigido e com um roteiro que tenta abraçar o mundo, mas não consegue nem deixar o espectador interessado. Tanto que, quando os créditos finais sobem, o mais comum é você se pegar perguntando: "Tá, e daí?". Além disso, enche o saco o fato de quase todos os bandidos mostrados no filme serem bonzinhos ou bem-intencionados - parece até um "Carandiru 2 - A Missão"!!!




A COLHEITA MALDITA (Children of the Corn, 2009, EUA. Dir: Donald P. Borchers)
"A Colheita Maldita" é um filme dirigido por Fritz Kiersch em 1984, inspirado num ótimo conto curto de Stephen King ("As Crianças do Milharal"), e que deu origem a seis continuações (!!!). Assisti todos os filmes para fazer um artigo no site Boca do Inferno e, sinceramente, é tudo muito ruim, inclusive o original, que adquiriu uma inexplicável aura de "cult movie" com o passar do tempo. Nunca gostei da adaptação de 1984, que destruía os melhores elementos do conto de King e ainda tinha um absurdo final feliz. Tudo isso foi corrigido com este novo "A Colheita Maldita", agora dirigido pelo produtor do filme de Kiersch, Donald P. Borchers, como produção para um canal de TV a cabo. O melhor de tudo é que não se trata de um remake do fraquinho filme de 1984, mas sim de uma readaptação fidelíssima do conto de Stephen King, com pouquíssimas liberdades poéticas. Torna-se, assim, a melhor coisa que já saiu com o título "A Colheita Maldita". A nova versão mostra um casal em crise, Burt e Vicky, viajando de carro pela zona rural do Nebraska nos anos 70. Após atropelar um garotinho que fugia do milharal, Burt resolve pedir ajuda na cidade mais próxima, Gatlin, apenas para descobrir que o local está deserto - ou quase, já que ali existe uma sinistra seita de crianças fanáticas. O restante é uma versão "live action" do conto sem tirar nem pôr, com muito sangue e violência, e resultado bastante corajoso para os padrões atuais, principalmente ao mostrar o "herói" matando crianças a sangue-frio e até uma cena de sexo, entre adolescentes rodeados de crianças, DENTRO DE UMA IGREJA. Nestes tempos em que até "Last House on the Left" é refilmado com final feliz, o novo "A Colheita Maldita" pode até não ser nenhum filmaço ou clássico do gênero, mas é muito superior ao filme original e uma das melhores adaptações de Stephen King feitas nos últimos anos.




CHE PARTE 1 - O ARGENTINO/CHE PARTE 2 - A GUERRILHA (Che Part One/Che Part Two, 2008, EUA/Espanha/França. Dir: Steven Soderbergh)
É praticamente impossível avaliar separadamente os dois capítulos da saga de Steven Soderbergh sobre o guerrilheiro Che Guevara, já que eles se complementam à perfeição. Seria o mesmo que analisar "Kill Bill" Volume 1 e Volume 2 como duas aventuras diferentes. Penso até que algum editor eficiente poderia juntar sem muita dificuldades os dois filmes para fazer um só, com umas três horas de duração (bastaria cortar as incontáveis cenas dos guerrilheiros perambulando pela selva, ou os longos apertos de mão e apresentações entre os personagens, por exemplo). O que importa é que, com a história separada em dois filmes, cada "episódio" acaba narrando etapas bem distintas da vida de Che, perfeitamente representado por Benicio Del Toro. A primeira parte, que tem o subtítulo "O Argentino", se passa em 1956, e mostra o argentino Ernesto "Che" Guevara integrando a tropa de revolucionários cubanos que pretende depor o ditador Fulgencio Batista. Após fantásticas batalhas contra o exército cubano, a Revolução sai vitoriosa e Fidel Castro assume o comando do país. Já a segunda parte, "A Guerrilha", apresenta fatos ambientados em 1967: Che abandona sua vida de regalias no governo de Cuba para tentar dar um novo golpe de estado, agora na Bolívia - só que dessa vez ele se dá mal, como contam os livros de história. Só a interpretação hipnótica de Benicio já faria valer os dois filmes, que somam quase 5 horas de duração. Mas há vários outros pontos positivos, como o tom humano e realista adotado pelo diretor Soderbergh (que só torna mais dramática a queda do protagonista no final do segundo filme), a belíssima fotografia, e ainda o fato de serem duas produções norte-americanas totalmente faladas em espanhol - ao contrário do "Che!" dirigido por Richard Fleischer em 1969. Acredito até que o tempo (e o lançamento em DVD) irá fazer mais justiça aos filmes, que no Brasil chegaram aos cinemas com um enorme intervalo entre um e outro, ao contrário do que acontecia lá fora. Na Europa, por exemplo, você podia sair de uma sessão da Parte 1 e já entrar direto na da Parte 2!




A ÓRFÃ (Orphan, 2009, EUA. Dir: Jaume Collet-Serra)
Casal em crise adota uma menininha sinistra, Esther, para viver com seus outros dois filhos biológicos. Coisas terríveis começam a acontecer. Quando a mãe adotiva percebe que há algo errado com Esther e tenta alertar o marido, quem passa por louca é ela. Afinal, como aquela inocente garotinha poderia ser malvada? Em resumo, "A Órfã" é só isso. O trailer até tenta vender um novo "A Profecia", mostrando uma criancinha demoníaca que apronta horrores. Mas não passa de um preview exagerado e que não condiz com a realidade, já que a trama do filme está mais para "O Anjo Malvado" (aquele suspensezinho descartável com Macaulay Culkin). O final dá uma guinada bizarra, com uma reviravolta que até surpreende o espectador, mas também destrói todo o conceito (e principalmente toda a coragem que o filme demonstrava até então). O que importa é que este novo trabalho do diretor Jaume Collet-Serra (diretor do legalzinho "A Casa de Cera") até diverte, especialmente se você estiver com pouca ou nenhuma expectativa. Apesar daquele climão de telefilme do Supercine, ele reserva alguns momentos escabrosos, como a pequena Esther matando uma freira a marteladas. O filme alterna momentos bastante corajosos (o destino do pai boa-pinta, essa cena da freira...) com outros de extrema covardia (por que Esther nunca consegue matar seus irmãos adotivos, mesmo quando sufoca um deles num hospital até ele ter uma parada cardíaca?). E a "reviravolta final", ainda que interessante e surpreendente, só torna tudo ainda mais covarde. O achado de "A Órfã" é a atriz mirim Isabelle Fuhrman, de apenas 12 anos, compondo uma daquelas vilãs que deixam o espectador morrendo de raiva. Com uma performance "adulta" e assustadora em vários momentos, ela inscreve sua Esther entre as grandes vilãs infantis da história do cinema. Pena que o filme esteja muito distante de outros contos com crianças assassinas, e abuse do tradicional "susto-TCHAM", motivado simplesmente pelo aumento da trilha sonora.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT (1985)


Sam Raimi, diretor da trilogia "Evil Dead", e seu irmão e ator Ted Raimi. Bruce Campbell, famoso astro do cinema classe B. Scott Spiegel, diretor de "Intruder" e "Um Drink no Inferno 2". Sheldon Lettich, roteirista de "Rambo 3" e diretor de vários filmes do Van Damme. Considerando o potencial "cult" de todos os envolvidos, é inexplicável o fato de THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT ser um filme tão desconhecido mesmo para garimpeiros de podreiras e filmes obscuros. Trata-se de uma bizarra mistura de "revenge movie" ("Quando a violência exige vingança", dizia a frase no cartaz) com horror e humor negro, produzida por Josh Becker nos fundos da sua casa (literalmente!) em 1985, e que traz participações de toda essa galera aí de cima.

Josh era amigo de infância de Sam Raimi, e conseqüentemente também passou a fazer parte da turma de amigos que incluía Bruce Campbell, Robert G. Tapert (o produtor de "Evil Dead") e Scott Spiegel. Todos começaram a produzir pequenos filmes amadores em Super 8 entre a década de 70 e o começo dos anos 80. Becker chegou a filmar uma adaptação de "Édipo Rei", do grego Sófocles, estrelada por Bruce Campbell (!!!).


Quando Raimi começou a filmar o "Evil Dead" original, em 1981, pediu a ajuda de todos os seus parceiros para tocar o projeto em frente a custo zero. Se você olhar os créditos do filme, lá estão todos os conhecidos de Sam, alguns acumulando várias funções: Bruce Campbell, Robert G. Tapert, Scott Spiegel, Ted Raimi e até o futuro diretor Joel Coen (participando como assistente de edição). Josh Becker também deu sua colaboração: cuidou da segunda unidade de som e iluminação.

Alguns anos depois, em 1985, Becker resolveu fazer seu próprio longa-metragem, no esquema custo zero e improvisação que havia aprendido com Raimi durante as filmagens de "Evil Dead". E não pensou duas vezes em chamar toda a turma de amigos para dar uma força. Sam já estava em alta com o sucesso do seu primeiro longa. Mesmo assim, não negou o convite do parceiro e acabou interpretando o grande vilão de THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT: um hippie malucão e assassino à la Charles Manson (foto abaixo)! Hoje, vendo Raimi todo almofadinha, de terno e gravata, no set de blockbusters como "Homem-Aranha", é impossível segurar o riso diante da sua participação nesse filme de baixíssimo orçamento.


THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT (em tradução literal, algo como "Não Matarás... Exceto") começou a ser rodado com a mixaria de 18 mil dólares (!!!) e um roteiro escrito pelo diretor Becker a partir de uma história criada em colaboração com Bruce Campbell, Sheldon Lettich e Scott Spiegel. Embora a primeira parte do filme se passe no Vietnã, praticamente todas as cenas foram filmadas no quintal e na garagem da casa do diretor (!!!), e intercaladas com cenas de documentários.

Becker queria Bruce Campbell no papel principal de Jack Stryker, mas problemas com o Sindicato dos Atores, que exigia o pagamento de um salário mínimo para a função (neste caso, maior que todo o orçamento do filme!), impediu a participação do ator. Para não deixar o amigo Becker na mão, Campbell participou numa ponta não-creditada (como apresentador de TV, como você pode ver na foto abaixo) e ajudou na edição de som, reaproveitando vários efeitos sonoros de "Evil Dead"!!! Quem ficou com o papel principal foi Brian Schulz, que, misteriosamente, não está creditado no Internet Movie DataBase.


A história se passa em 1969 e começa em plena Guerra do Vietnã, quando o sargento Jack Stryker serve em uma pequena unidade cercada por tropas inimigas, e passa seus dias lembrando da namorada que deixou nos Estados Unidos, Sally (Cheryl Hausen, em seu único filme). Num daqueles toques de humor negro tipicamente "Raimianos", a unidade de Stryker anda perdendo seus superiores com uma velocidade espantosa, e o mais recente, o tenente David Miller (John Manfredi), resolve mostrar serviço com um plano mirabolante para atacar uma bem-guardada vila vietcongue.

Stryker protesta, mas é obrigado a liderar um batalhão formado por seus amigos, o sargento Walker J. Jackson (Robert Rickman, único filme) e o capitão Tim Tyler (Timothy Patrick Quill, que fez pequenas participações em diversos filmes de Sam Raimi, incluindo a trilogia "Homem-Aranha"). Mas eles são emboscados e massacrados; apenas Stryker, Jackson e Tyler sobrevivem, após uma investida heróica e suicida, sendo que nosso herói é ferido numa das pernas e fica inválido.


De volta à sua pequena cidade-natal nos Estados Unidos, e obrigado a andar com uma bengala por causa do ferimento na perna, Stryker tenta refazer sua vida, mudando-se para uma cabana no meio da floresta ("Evil Dead"?) e reaproximando-se da ex-namorada Sally. O problema é que o retorno do herói de guerra à cidadezinha coincide com a chegada de um grupo de malvados hippies satanistas, liderados por um malucão estilo Charles Manson (Sam Raimi!!!). Os vilões invadem casas para torturar e matar seus habitantes, não poupando nem bebês. Isso, claro, até se meterem a amada de Stryker.

Quando os velhos amigos do Vietnã - Jackson, Tyler e o tenente Miller - aparecem em sua cabana para uma visita, Stryker consegue convencê-los a voltar às armas para exterminar os hippies satanistas, numa longa e sangrenta batalha campal repleta de mortes criativos e momentos de puro humor negro (pessoas são esmagadas por capôs de carro, empaladas em galhos de árvore ou acabam com tesouras enfiadas nos olhos, entre outros belos momentos). O irmão de Sam, Ted, e Scott Spiegel aparecem como alguns dos hippies assassinos combatidos por Stryker e sua turma.


THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT é um filme estranho, mas muito divertido, que não se decide entre ser história de ação séria ou comédia bizarra de humor negro. É claro que aqueles 18 mil dólares que Becker tinha para a produção não duraram nem uma semana, e os realizadores precisaram fazer um mutirão, pedindo dinheiro para seus familiares e amigos, completando o orçamento total de 200 mil dólares.

E é justamente pelo fato de ter um orçamento tão merreca que THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT deve ser valorizado: o diretor-roteirista-editor-diretor de fotografia Becker conseguiu tirar água de pedra, filmando uma história ambiciosa, repleta de tiroteios, cenas de ação e sangue, usando um mínimo de recursos, inclusive reaproveitando próteses e "corpos falsos" usados em "Evil Dead" e emprestados pelo amigo Sam.


Embora o baixo orçamento esteja evidente nos cenários, atores e efeitos (as cenas no "Vietnã" lembram os filmes do diretor David A. Prior), o resultado é interessante principalmente pelo talento demonstrado pelo realizador para contornar o problema da falta de grana, embora o ritmo seja arrastado em todo o segundo ato.

Fãs incondicionais de "Evil Dead" vão perceber que Becker aprendeu muitas lições no set do clássico de Sam Raimi, como o uso da câmera em movimento pela floresta (nas cenas finais), ângulos muito parecidos com os de Raimi ou o bizarro senso de humor pastelão que o próprio Sam levaria às raias do absurdo em "Evil Dead 2", de 1987.

As mortes em THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT geralmente são seguidas por improváveis alívios cômicos, num humor negríssimo que definitivamente não é para todos os públicos.


O resultado dessa união da turma de amigos de Raimi é um filme bastante esquisito, mas divertido e curto o suficiente para não chatear (não chega a durar 80 minutos). Claro que não pode e nem deve ser comparado com "Evil Dead", e muito menos ser levado a sério.

Até porque esta é apenas uma história classe C de vingança sangrenta rodada no fundo do quintal de alguém (literalmente). E é exatamente o tipo de brincadeira macabra e bizarra que se espera que uns caras tipo Sam Raimi e Bruce Campbell façam no seu tempo livre.

Sem contar que o fato de ter sido feita com pouquíssimo dinheiro é uma prova de amor à arte de fazer cinema, um exemplo para muitos cineastas independentes aqui do Brasil mesmo, daquele tipo que vive chorando pela falta de recursos ou de incentivo.

Trailer de THOU SHALT NOT KILL... EXCEPT


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Thou Shalt Not Kill... Except/
Stryker's War/ Bloodbath (1985, EUA)

Direção: Josh Becker
Elenco: Brian Schulz (não-creditado), John
Manfredi, Robert Rickman, Timothy Patrick
Quill, Sam Raimi, Ted Raimi e Scott Spiegel.

domingo, 18 de outubro de 2009

Ninguém deve PERDER!


No final da sessão de estréia de NINGUÉM DEVE MORRER, novo filme (na verdade curta) do catarinense Petter Baiestorf, fui saudar o vivente e recomendei, brincando, que ele parasse de usar drogas na hora de fazer suas mirabolantes produções cinematográficas. Para meu espanto, Petter garantiu que já não usava há tempos. Ou seja, é um doido varrido por natureza! E esse seu novo trabalho, aquele tipo de brincadeira bizarra que parece ter sido feita sob efeito de entorpecentes, se encaixa como poucos no rótulo FILMES PARA DOIDOS que dá título a esse blog.

Algum tempo atrás, quando o Petter me confidenciou que estava pensando em fazer um filme de bangue-bangue, eu lhe desejei boa sorte dizendo que também tinha um roteiro em forma de homenagem ao western spaghetti, e que só não havia filmado ainda devido às dificuldades técnicas (de conseguir figurinos, armas, os efeitos para fazer os tiros...). Ele riu da minha ingenuidade dizendo que o seu seria um "faroeste diferente".

Pois a forma mais simplificada de tentar descrevê-lo é dizer que NINGUÉM DEVE MORRER é um western musical (!!!). E apesar do título e da ambientação lembrarem o clássico ciclo do western spaghetti (principalmente o filme "Meu Nome é Ninguém", de 1973, com Terence Hill), a inspiração de Baiestorf não veio dos faroestes produzidos na Itália, mas sim dos escalafobéticos e ultrajantes filmes realizados na Boca do Lixo, como "Um Pistoleiro Chamado Papaco" (1986), de Mário Vaz Filho.


Todo o filme pode ser considerado uma brincadeira cinéfila de citação-colagem-paródia. Gurcius Gewdner interpreta Ninguém, um cowboy envolvido com a produção de filmes pornográficos sobre zoofilia. Certo dia, ele se revolta contra os produtores e abandona o set sem concluir uma cena de sexo oral com um touro (!!!). Furioso, o produtor ordena que Ninguém deve morrer! Um pequeno bando de pistoleiros é reunido para a missão, que envolve os clichês do faroeste (como o ataque à namorada do "herói"), mas logo descamba para o "Baiestorfismo".

Em diversos momentos, por exemplo, a história é interrompida por números musicais que se passam "dentro da cabeça" dos personagens, quando os atores dançam e fingem cantar canções populares, acompanhados de homens travestidos como dançarinas dos cabarés de filmes de western.

Mais adiante, quando a missão do título finalmente é cumprida, o faroeste é deixado de lado para se transformar numa parábola místico-religiosa (em forma de sátira, claro), quando aparece um personagem tradicional do cinema de Baiestorf: o religioso hipócrita que cheira cocaína enquanto balbucia suas mensagens edificantes.


Para completar a balbúrdia, o filme nem ao menos tem uma conclusão, substituída por uma colagem de fotos do tornado que varreu Santa Catarina (e a região das filmagens) em 7 de setembro deste ano, quando NINGUÉM DEVE MORRER estava sendo gravado.

Este novo trabalho de Baiestorf é engraçado por ser totalmente débil mental. Ninguém deve assisti-lo esperando por uma narrativa séria. Além dos bizarros números musicais que entrecortam a história, os figurinos são propositalmente pobres; a cor do sangue que sai dos ferimentos nos personagens muda de vermelho para verde e azul; um carro suspenso em uma árvore (protesto "anti-carro" feito pelo próprio diretor no prólogo) invade o filme numa cena-chave; os cowboys fingem cavalgar cavalos invisíveis, à la Monty Python (simplesmente porque a produção não tinha cavalos para utilizar!), e quase todos os "atores" são dublados com diálogos impagáveis tirados de filmes da Boca (o já citado "Papaco" e "Fuk-Fuk à Brasileira"), e da dublagem nacional do clássico "Comando para Matar", com Schwarzenegger (de onde saíram frases tipo "Cortar a garganta de uma menina é como cortar manteiga quente" e "Ele é um gigante pra ninguém botar defeito!", entre outras).


O resultado é uma brincadeira cinéfila (como assume o próprio diretor) bastante divertida, desde que se entre no espírito da coisa. A proposta de homenagear a Boca do Lixo e seus filmes excêntricos e inacreditáveis sempre é válida.

Mas, apesar da fonte de inspiração, Petter não apela para a sacanagem que vinha como uma constante em seus últimos trabalhos ("Arrombada" e "Vadias do Sexo Sangrento"): a nova musa do diretor, Ljana Carrion, aparece travestida como um dos pistoleiros, e a única mulher em cena, Lane ABC, está sempre com roupa.

Como atração à parte, NINGUÉM DEVE MORRER reúne várias caras conhecidas da cena underground e do cinema independente brasileiro, incluindo atores já conhecidos do cinema de Baiestorf (Gurcius, Ljana, Lane, Elio Coppini, Coffin Souza, Jorge Timm) e participações especiais de Cristian Verardi, Insekto e mais uma trupe de malucos de várias partes do Brasil.


Nesses tempos inglórios em que o cinema independente brasileiro tem descambado para um experimentalismo chatíssimo, sempre resta a esperança de aguardar com ansiedade pela próxima loucura (sem efeito de drogas) de Petter Baiestorf.

ATUALIZAÇÃO (18/12/2009):
Acabo de receber a notícia de que o Baiestorf, através do Gurcius, "uplodeou" o filme no YouTube, dividido em três partes, conforme vocês podem ver abaixo. Agora sim que ninguém deve perder!!!

NINGUÉM DEVE MORRER - Parte 1



NINGUÉM DEVE MORRER - Parte 2



NINGUÉM DEVE MORRER - Final

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

KING DINOSAUR (1955)


Muitos leitores do FILMES PARA DOIDOS devem conhecer uma engraçadíssima comédia dos anos 80 chamada "As Amazonas na Lua", dirigida por um time de feras (Joe Dante, John Landis, Carl Gottlieb, Peter Horton e Robert K. Weiss), e dividida em quadros que satirizavam, entre outras coisas, comerciais e programas de televisão. Um dos momentos mais hilariantes era a exibição de um filme falso, supostamente uma ficção científica classe B da década de 50, chamada "Amazon Women on the Moon". Essa parte, claro, ironizava os clichês, as interpretações canastronas e principalmente os defeitos técnicos (e absurdos científicos) das produções daquela época.

Para quem já viu "As Amazonas na Lua", torna-se ainda mais engraçado topar com uma ficção científica classe B da década de 50 que se leve a sério, por mais ridículo que ela possa parecer nos dias hoje. É o caso dessa pequena gema trash chamada KING DINOSAUR, de 1955, que não passa de uma versão séria de "As Amazonas na Lua" - também dá para perceber que foi uma grande inspiração para os realizadores da sátira, que inclusive fizeram piada com várias cenas outrora sérias deste filme!

A produção é de um nome conhecido para os que curtem "cinema alternativo": Bert I. Gordon, ou Mister BIG (olha a pretensão do sujeito), o responsável por coisas como "The Amazing Colossal Man", de 1957, e o clássico do SBT "O Império das Formigas", de 1977. KING DINOSAUR é seu primeiro filme, e, vendo-o hoje, ninguém apostaria que o sujeito conseguiria chegar tão longe - e olha que o Mister BIG dirigiu filmes até o começo dos anos 90, embora atualmente esteja sumido.


Esta ficção científica é tão trash e ingênua que poderia muito bem rivalizar com o posterior "Plan 9 From Outer Space", de Ed Wood, pelo prêmio de "pior filme de todos os tempos" - na verdade uma injustiça, já que tem coisa bem pior e menos divertida do que ambos os filmes. A verdade é que KING DINOSAUR é tão ruim e mal-feito que para o espectador contemporâneo já funciona automaticamente como comédia na mesma linha de "As Amazonas na Lua". Alguém poderia exibi-lo nos cinemas hoje dizendo que é uma sátira aos filmes B dos anos 50, e não uma produção séria!

Eu nem sei por onde começar a falar sobre as "qualidades" do filme. Só sei que qualquer produção que tenha uma frase como "Eu trouxe a bomba atômica. Essa parece uma boa hora para usá-la..." merece entrar com louvor para o panteão dos clássicos do cinema trash.

KING DINOSAUR inicia com uma tonelada de cenas de arquivo (espírito de Ed Wood?) e uma narração explicando que foi descoberto um novo planeta em nosso Sistema Solar, batizado, sem qualquer originalidade, de "Planeta Nova". Os Estados Unidos formam um time com quatro cientistas para uma missão de reconhecimento no novo astro.


Tal equipe conta com o zoogeógrafo Richard Gordon (Douglas Henderson, que havia feito uma pontinha no "A Guerra dos Mundos" original), com a especialista em minerologia Norah Pierce (Patti Gallagher), com o médico Ralph Martin (William Bryant, que ironicamente faria uma ponta em "As Amazonas na Lua"!!!) e com a química Patricia Bennett (Wanda Curtis). Os quatro são os únicos atores "humanos" do filme, que certamente não entrou para a história do cinema pelo seu numeroso elenco...

A narração interminável dura mais de 10 minutos, com uma voz cavernosa explicando todo detalhe possível e imaginável sobre a missão, da construção do foguete que levará os quatro intrépidos aventureiros ao Planeta Nova até a explicação minuciosa dos testes feitos para assegurar o sucesso da viagem espacial ("Novos metais precisam ser criados para resistir à pressão atmosférica. Fraquezas estruturais também são estudadas e testadas... Cada teste possível é feito por máquinas e homens. Não há margem para erros", e por aí vai...).

Finalmente, o foguetinho em miniatura preso por um fio de nylon chega a Nova, e você percebe que a produção é furreca simplesmente porque não há qualquer cena no interior da nave (talvez não houvesse dinheiro para construir o cenário!). Já o momento que mostra dois dos astronautas improvisados descendo do foguete é hilariante: percebe-se claramente que uma miniatura de metal foi colocada bem pertinho da lente da câmera para dar a impressão de que existe uma estrutura imensa ali, e não apenas os atores descendo por uma escada de lugar nenhum! Veja a imagem abaixo e tire suas próprias conclusões:


Chegando a Nova, a coisa só vai ficando mais e mais engraçada, com direito a todos os diálogos toscos e cientificamente imprecisos que se espera de uma ficção dos anos 50: os quatro aventureiros descobrem que a atmosfera de Nova tem oxigênio (uma desculpa para eliminar as roupas de astronauta), e resolvem explorar o planeta.

É quando descobrem que o lugar é habitado por criaturas gigantescas, que se materializam através de tosquíssimos efeitos especiais de sobreposição de imagens (bichos filmados em seu tamanho real são "aumentados" sobre os fotogramas para os atores parecerem bem menores).

Saiba, por exemplo, que o "rei dinossauro" do título é um tiranossauro rex "interpretado" por uma iguana comum. Através de truques fotográficos simples, a pobre iguana "interage" com os atores humanos como se fosse um bicho gigantesco - o que obviamente não é.


E tome cenas da iguana andando de lá para cá num cenário em miniatura para parecer gigantesca. E tome cenas da iguana lutando com outros "gigantescos dinossauros", neste caso um lagarto e um filhote de crocodilo! (As lutas dos bichinhos são verdadeiras, com direito à morte dos pobres seres, décadas antes dos produtores italianos exterminarem animais em seus clássicos filmes sobre canibalismo.)

KING DINOSAUR é rápido e rasteiro, com 63 minutos de duração e um número tão expressivo de risadas por minuto que bate tranqüilamente qualquer "comédia" contemporânea do Will Ferrell ou do Adam Sandler.

Acredite: o filme do Mister BIG é engraçadíssimo, não só pela tosquice dos seus efeitos especiais e pelos répteis comuns "interpretando" dinossauros, mas especialmente pelos diálogos sem noção escritos anos antes da conquista do espaço, quando a mente fértil dos roteiristas de ficção científica ainda podia voar beeeem longe.


Vejamos alguns diálogos que dão uma bela idéia do que estou tentando explicar. Que tal este, entre um dos casais da expedição:
- Você tem idéia da hora?
- Talvez umas três da tarde no horário da Terra...
- Mas não sabemos quantas horas têm o ciclo do dia aqui. Talvez o tempo aqui passe mais rápido do que o nosso.
- Bem, vamos chutar três da tarde de qualquer jeito. Isso nos dá umas quatro horas antes de escurecer.


Ou este, que começa quando uma das moças faz uma pergunta inocente a um dos rapazes:
- Talvez você possa me ajudar. Lembra algo de química?
- O bastante para saber da química entre nós!


Ou ainda a reação de um dos casais ao topar com a "iguana rex":
- O que é aquilo?
- Não sei. Algo pré-histórico!
- Ai, é horrível! Atire nele...
- Pra quê? Não vai ajudar.



E por aí vai... Se fosse para elencar todos os diálogos antológicos de KING DINOSAUR, eu poderia muito bem publicar o roteiro na íntegra. Além disso, o diretor Gordon mostra que é realmente muito fácil e barato fazer um filme de ficção científica usando imagens de arquivo e até cenas roubadas de outra produção ("One Billion B.C.", dirigida por Hal Roach e Hal Roach Jr. em 1940).

Não bastasse toda a ruindade natural da coisa, KING DINOSAUR ainda brilha pela "intrépida" atuação de Douglas Henderson, que, sem qualquer jeitinho para lidar com as moças que dividem a cena com ele, acaba empurrando as pobres coitadas de um lado para o outro, isso quando não as arrasta brutalmente pelo chão, visivelmente machucando as atrizes.

E é por esse conjunto de brilhantismo que essa película merece seu lugar de honra entre os grandes trash movies jamais produzidos!

PARA ENCERRAR, UM SPOILER: Nada, mas nada mesmo, pode preparar o espectador para a conclusão, quando, após explodir Nova com uma bomba atômica portátil que levavam em sua nave, os astronautas declaram, sem o menor constragimento: "Acabamos de trazer a civilização para o Planeta Nova". hahahahahahaha. Genial genial...

Trailer de KING DINOSAUR


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King Dinosaur (1955, EUA)
Direção: Bert I. Gordon
Elenco: William Bryant, Wanda Curtis,
Douglas Henderson, Patti Gallagher e
um monte de répteis!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bastardos cheios de glórias


Este blog nunca teve a proposta de discutir aqueles filmes novos sobre os quais todo mundo já está escrevendo, e sim dar espaço a obras mais obscuras. Entretanto, peço licença aos leitores mais radicais para abrir este pequeno post dedicado a BASTARDOS INGLÓRIOS, o novo filme de Quentin Tarantino.

Comentá-lo ao menos rapidamente, para mim, é quase uma obrigação. Primeiro porque é uma homenagem ao cinema de ação "alternativo" sobre a Segunda Guerra Mundial, principalmente a obras italianas, como o cult "Assalto ao Trem Blindado", de Enzo G. Castellari - cujo título em inglês, "Inglorious Bastards", Tarantino roubou para ele. E segundo porque esta provavelmente é a grande obra-prima do diretor.

Todo mundo sabe, por outros sites, blogs, revistas, jornais e etc que BASTARDOS INGLÓRIOS sempre foi a menina-dos-olhos do diretor, um roteiro que ele trazia na cabeça há 10 anos e achou que jamais conseguiria tirar do papel. Suas primeiras idéias previam uma superprodução monstruosa reunindo astros como Stallone, Schwarzenegger, Bruce Willis e até Adam Sandler (!!!), mas felizmente Tarantino pensou melhor e optou por um elenco que, à exceção de Brad Pitt, não tem astros nem estrelas, apenas ótimos atores e atrizes daquele tipo que você bota o olho e se pergunta: "Onde foi que eu já vi ele antes?". (E quem acabou reunindo os astros sonhados pelo diretor foi Stallone, em seu futuro "Os Mercenários".)


Pois neste novo filme, Tarantino parece mais maduro como cineasta. É o seu trabalho com narrativa mais redondinha e circular, sem aquelas loucuras de idas e vindas no tempo (vistas em "Cães de Aluguel", "Pulp Fiction" e "Kill Bill") ou repetição de cenas por diferentes pontos de vista (vistas em "Jackie Brown" e "Pulp Fiction"). Ainda que seja dividida em capítulos com nomes característicos, como se fosse um livro (tipo "Era Uma Vez na França Ocupada por Nazistas" e "Operação Kino"), a trama aqui é contada na ordem cronológica, começando em 1941, com o massacre de uma família de judeus, e terminando em 1944, quando os Aliados vêem uma grande chance de acabar com a guerra matando Hitler e o alto comando do Terceiro Reich.

Só há um momento, à la "Kill Bill", em que a trama é "congelada" para que se conte a história de um dos personagens, o sargento Hugo Stiglitz (Til Schweiger), como se fazia no outro filme para contar o passado da vilã O-Ren Ishii; e também um outro intervalo muito breve em que novamente a história "pausa" para que um narrador explique sobre a alta combustão das películas nos anos 40.

Cada um dos capítulos apresenta personagens diferentes que, à medida que a história avança, acabam se cruzando (como acontecia em "Pulp Fiction"). No excelente início, por exemplo, conhecemos o maléfico coronel da SS Hans Landa (o austríaco Christoph Waltz), na França ocupada pelos nazistas. Ele comanda o assassinato da família de Shosanna Dreyfus (a francesa Mélanie Laurent), que consegue escapar jurando vingança ao maléfico vilão - mais ou menos como uma "versão Segunda Guerra Mundial" da personagem de Uma Thurman em "Kill Bill".


É só no segundo capítulo que vamos conhecer os personagens-título: um grupo de soldados judeus norte-americanos chamado "Os Bastardos", reunido pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt) com a missão de aterrorizar as tropas nazistas, matando seus rivais violentamente e colecionando seus escalpos, à moda apache. "Cada um de vocês me deve 100 escalpos nazistas", ordena Raine ao recrutar seu pelotão. E a fama dos "Bastardos" chega até o próprio Adolf Hitler (interpretado de forma caricatural por Martin Wuttke).

Nos próximos capítulos, vamos conhecendo outros personagens cujos encontros e conexões vão levando a trama adiante. Reencontramos a sobrevivente Shosanna crescida e dona de um cinema em Paris, usando o nome falso Emanuelle Mimieux. O soldado alemão Fredrick Zoller (Daniel Brühl, de "Adeus Lênin"), considerado um herói por ter abatido mais de 100 inimigos sozinho, se apaixona por ela, ignorando seu passado. Já Joseph Goebbels (Sylvester Groth), o ministro de propaganda de Hitler, usou Zoller como ator de seu último filme, "O Orgulho de uma Nação", tentando levantar a moral das tropas com os feitos do bravo soldado alemão.

O pequeno cinema de Shosanna é escolhido para a estréia da obra, numa noite que reunirá toda a cúpula nazista, inclusive Hitler em pessoa. E a moça resolve usar a oportunidade para se vingar dos assassinos da sua família, ignorando que os Aliados estão criando seu próprio plano secreto para invadir o cinema e melar a festa, com a ajuda de uma agente dupla - a estrela de cinema alemã Bridget von Hammersmark (Diane Kurger).


Lendo assim parece que a coisa é simples, mas a trama vai se complicando à medida que os dois planos (o de Shosanna e o dos Aliados, que será executado pelos próprios "Bastardos") se cruzam acidentalmente. E o coronel Landa, que de bobo não tem nada, começa a suspeitar da conspiração. No meio do bolo, Tarantino vai misturando personagens reais sem qualquer comprometimento com a História "oficial" - além de Hitler e Goebbels, aparecem Winston Churchill (interpretado pelo veterano Rod Taylor) e o famoso ator alemão Emil Jannings (interpretado por Hilmar Eichhorn).

Tarantino nunca deixa de demonstrar que é um cinéfilo de carteirinha, já que a ambientação no pequeno cinema parisiense rende uma série de citações a grandes nomes do cinema da época (como o diretor alemão G.W. Pabst ou o comediante Max Linder). Identificar todas as citações e referências que o diretor-roteirista utiliza é uma deliciosa brincadeira para fãs de cinema (no caso de "Kill Bill", por exemplo, até hoje acabo vendo um filme obscuro das antigas e descubro que Tarantino tirou de lá algum diálogo ou nome de personagem, como aconteceu quando vi "O Samurai Negro").

No caso de BASTARDOS INGLÓRIOS, as citações que mais saltam aos olhos são os nomes de alguns personagens, como Aldo Raine (evocando o ator Aldo Ray), Hugo Stiglitz (mesmo nome de um popular ator mexicano, astro dos filmes "Nightmare City" e "Tintorera") e o general Ed Fenech, interpretado por Mike Myers (homenageando a famosa atriz italiana Edwige Fenech, que fez vários filmes "giallo" dos anos 70).


Mais adiante, quando os "Bastardos" precisam usar nomes falsos de italianos, adotam pseudônimos tipo Antonio Margheritti (diretor de filmes como "The Last Hunter" e "Os Caçadores da Serpente Dourada") e Enzo Girolami (nome de batismo do diretor Enzo G. Castellari).

O uso das músicas instrumentais tiradas de westerns lembra "Kill Bill", e inclusive reaproveita algumas trilhas já utilizadas neste filme. Curioso é que nunca imaginei o famoso tema de "O Dólar Furado", composto por Gianni Ferrio, sendo usado numa cena "romântica", e não num duelo de pistoleiros.

Ainda no terreno das citações, dois detalhes me chamaram a atenção, mas ainda não vi nenhum "crítico especializado" citar, então pode ser loucura minha mesmo: o fato do sargento Donny Donowitz (interpretado por Eli Roth) usar um taco de beisebol para acertar os nazistas me lembrou um filme de guerra italiano chamado "Cinco Para o Inferno" (1969), de Gianfranco Parolini, onde um dos personagens usava uma bola de beisebol para o mesmo propósito; já uma brutal cena de estrangulamento pareceu idêntica, inclusive nos ângulos de câmera, a um momento do filme "Bay of Blood" (1971), de Mario Bava. Quem concordar comigo, levanta a mão. E sintam-se à vontade para compartilhar as referências que vocês pescaram.


Mas o que achei mais interessante em BASTARDOS INGLÓRIOS, e que me parece a "maturidade" de Tarantino como cineasta que citei lá no começo, é um cuidado fotográfico na composição das cenas, e o fato de as longas cenas de diálogos, tradicionais do cinema "tarantinesco", desta vez favorecerem a narrativa, e não apenas encherem lingüiça.

Por mais que eu adore "Pulp Fiction" e "Kill Bill", não dá para negar que algumas conversas entre os personagens são desnecessárias ou se estendem mais do que o necessário (Travolta e Jackson com o próprio Tarantino no final de "Pulp Fiction", A Noiva com Esteban Vihaio em "Kill Bill Volume 2", por exemplo).

Sim, em BASTARDOS INGLÓRIOS existem longos diálogos, como no interrogatório inicial entre o coronel Landa e o fazendeiro francês que esconde a família de judeus, ou na longa cena em que os conspiradores se encontram com a atriz Bridget von Hammersmark numa taverna repleta de soldados nazistas embriagados.

A diferença é que esses longos diálogos servem à narrativa, e não apenas ao gosto do diretor por escrevê-los: o interrogatório demonstra como o vilão é meticuloso e sempre descobre as mentiras que lhe contam, enquanto na cena da taverna o jogo feito pelos soldados apenas aumenta a tensão de que os conspiradores possam ser descobertos a qualquer momento. É o oposto dos piores trabalhos de Tarantino, o episódio final de "Grande Hotel" e o decepcionante "Death Proof - À Prova de Morte" (ainda inédito no Brasil, nos cinemas e nas videolocadoras), onde o bla-bla-bla não tinha função alguma na trama além de destilar cultura pop e enrolar.


Isso, mais o carinho especial que Tarantino dispensa a cada um dos personagens, faz de BASTARDOS INGLÓRIOS o grande filme que é. Todos os personagens são cheios de ricas características, como o taco de Donowitz, repleto de nomes de judeus mortos pelos nazistas, ou a enorme cicatriz no pescoço do tenente Raine, nunca explicada pelo roteiro. Tarantino deve ter sofrido muito para resumir seu filme a 153 minutos, percebe-se que muita coisa do roteiro original deve ter sido deixada de fora, e isso só aumenta o charme do filme, pois outras aventuras dos "Bastardos" podem ser filmadas.

E realmente dá vontade de ver mais, é até uma pena quando alguns saem de cena - como o descontrolado sargento Stiglitz. Pitt está ótimo e propositalmente canastrão, com um cômico sotaque caipira (ainda mais evidente quando ele precisa se passar por italiano). Mas quem realmente brilha no filme é Christoph Waltz, fazendo do seu coronel Landa um vilão de respeito, mas também divertido ("That's a bingoooo!"), diferente daquele "nazista clichê" de filmes tipo "A Lista de Schindler". E pensar que o diretor queria Leonardo DiCaprio para o papel (argh!). Se Waltz não for indicado ao Oscar de Melhor Coadjuvante, vai ser muita injustiça.

Não falta nem a violência típica do cinema do diretor (com direito a escalpelamentos explícitos e um nazista morto a golpes de taco de beisebol), e ele ainda se dá ao luxo de usar apenas a voz de atores do calibre de Samuel L. Jackson (como narrador em apenas duas seqüências) e Harvey Keitel (cuja voz é ouvida pelo rádio, como se fosse um militar aliado). O IMDB anuncia ainda participações do próprio Enzo G. Castellari ("as Himself"!!!) e Bo Svenson, astro de "Assalto ao Trem Blindado", mas não consegui identificar nenhum dos dois no filme.


Sem mais delongas, corra ao cinema para ver BASTARDOS INGLÓRIOS na tela grande. Ao final você provavelmente estará concordando comigo sobre o fato de esta ser a grande obra-prima de Quentin Tarantino.

Ou, pelo menos, um divertidíssimo filme sobre a Segunda Guerra Mundial sem qualquer compromisso com a seriedade, com personagens que não são "pessoas reais", mas sim "personagens de cinema", como em "Kill Bill". Por exemplo, você nunca vai ver, num outro filme, Hitler pedindo um chiclete a um dos seus soldados! Dá até vontade de rever aqueles amalucados filmes italianos sobre a Segunda Guerra Mundial...

Lembro inclusive que uma das grandes decepções de filmes como "Operação Valquíria" (aquele do plano para matar Adolf Hitler) é que você sabe que na vida real Hitler não morreu, e então o final do filme já é conhecido desde o início.

No caso de BASTARDOS INGLÓRIOS não tem essa: Tarantino chega a reescrever a história pelo bem do seu roteiro e dos seus personagens. E não é que realmente ficou mais interessante que a própria "vida real"? Confira e opine! Se dependesse de mim, seria assim também nos livros de história.


"Say hello to my little friend!"

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

BOOT HILL (1969)


Esta foi a terceira vez que vi BOOT HILL, western escrito e dirigido por Giuseppe Colizzi. Mas, se considerarmos a péssima qualidade das cópias anteriores (a primeira vez foi com um VHS da velha Poletel, e a segunda com um DVD tosquíssimo e cara-de-pau da Works/London Filmes), posso dizer que somente agora eu REALMENTE vi o filme.

Se antes tive que engolir péssimas versões em fullscreen com imagem granulada e cores lavadas, que transformam a experiência de ver o filme num tormento, agora finalmente peguei uma versão em letterbox e remasterizada, lançada pela distribuidora Flashstar com uma chamada equivocada na capinha, dizendo que é "o primeiro faroeste de Terence Hill e Bud Spencer" (não é o primeiro).

Nas fotos abaixo você pode comparar o contraste: a primeira foi capturada do DVD da Works; a segunda, do DVD da Flashstar.


Aqui no Brasil, BOOT HILL ficou popularizado com o título da época do videocassete, "Trinity e a Colina dos Homens Maus" (também foi este o título usado no relançamento pela Flashstar; só a Works adotou o original em inglês). Pois esta tradução é duplamente enganosa, já que não há Trinity na história e muito menos uma "colina dos homens maus".

Ocorre que, aqui no Brasil, todo e qualquer filme estrelado por Terence Hill passou a ter o nome Trinity no título, mesmo que o personagem interpretado pelo ator seja outro totalmente diferente, como acontece nesse caso. Já a tal colina é apenas uma tradução equivocada para a expressão "Boot Hill", o apelido em inglês para cemitério, equivalente ao nosso "colina dos pés-juntos".

Embora não tenha Trinity, o filme resgata um personagem já interpretado por Terence Hill em outros dois filmes do diretor-roteirista Colizzi, o pistoleiro Cat Stevens - mesmo nome de um famoso cantor e compositor britânico, a exemplo do Django de Sergio Corbucci, cujo nome foi inspirado no músico Django Reinhardt.


No western spaghetti, Cat já tinha aparecido anteriormente em "Deus Perdoa... Eu Não!" (1967) e "Os Quatro da Ave Maria" (1968), todos também dirigidos por Giuseppe Colizzi. Não vi nenhum dos dois, mas, pelo que pesquisei, a "trilogia Cat Stevens" é formada por aventuras com pouca relação umas com as outras, além da presença de Terence e do seu parceiro habitual, Bud Spencer, cujo personagem se chama Hutch Bessy nos três filmes. O resto é tudo novo. E o nome dos personagens nem ao menos é citado em BOOT HILL.

Embora essas três parcerias entre Colizzi e os dois atores sejam westerns sérios, sem o humor ingênuo e pastelão que passaria a predominar nas aventuras posteriores da dupla Hill-Spencer, aqui já se percebem algumas deslocadas tentativas de fazer graça, como uma animada pancadaria num saloon, quando Spencer distribui seus tradicionais safanões de mão aberta e ergue vilões acima da cabeça para atirar longe.


Bem, um dos grandes problemas de BOOT HILL é a narrativa extremamente truncada, defeito que talvez se explique pela versão lançada no Brasil ser a edição norte-americana, reduzida para 87 minutos. Segundo o IMDB, existem montagens de 97 minutos (na Espanha) e de 100 minutos (na França), onde provavelmente estão as explicações e fatos que não aparecem na cópia que eu vi. O engraçado é que, antes de ficar sabendo da existência dessas versões mais longas, sempre tive a impressão que faltava algo no filme: por exemplo, uma família sitiada pelos vilões numa cabana some de cena, e há um momento confuso em que o grande vilão aparece amarrado e, na cena seguinte, já está livre, sem que tenha sido mostrado como ele se soltou!

Basicamente, a trama de BOOT HILL mostra Cat Stevens fugindo de bandidos que querem matá-lo para que ele não tome posse de uma produtiva mina de ouro, que fica numa região explorada por um poderoso vilão, Honey Fisher (Victor Buono). Fisher e seus capangas forçam os mineradores a vender suas propriedades através de ameaças e violência, e os poucos que se recusam acabam mortos. Um dos capangas do vilão é o sádico Finch (Glauco Onorato).


Logo no início, quando essa trama toda ainda não foi bem explicada (acredite, isso só acontece na meia hora final!!!), Stevens é emboscado pelos homens de Fisher numa pequena cidadezinha. Os pistoleiros querem dar um fim no herói, mas só conseguem feri-lo gravemente com um balaço no ombro. Fora de ação, ele é obrigado a se refugiar na carroça de uma trupe esfarrapada de artistas de circo, que leva seu espetáculo de cidade em cidade. Estes acabam ajudando Cat, principalmente o trapezista e ex-pistoleiro Thomas (interpretado pelo saudoso Woody Strode).

Claro que os vilões dão o troco, matando um dos trapezistas durante uma apresentação e forçando os artistas a abandonarem o circo para seguir outras profissões. Mas Stevens e Thomas procuram pelo antigo colega do herói, Hutch, que vive aposentado numa casa à beira do lago, acompanhado pelo companheiro surdo-mudo "Baby Doll" (George Eastman!!!).


Finalmente juntos, os quatro pistoleiros partem para a cidade explorada por Fisher, dispostos a transformar a vida do vilão num inferno. Recebem a ajuda dos artistas de circo, que voltam a se reunir especialmente para se vingar dos pistoleiros malvados.

A trama parece simples lendo assim, mas as informações são liberadas ao espectador somente no final, de maneira que é muito mais fácil assistir BOOT HILL tendo lido previamente um resumo da história, como este que eu vos entreguei de mão beijada.

Sinceramente, gostaria de acreditar que algumas explicações e momentos mais interessantes estejam nas versões estendidas do filme, já que esta edição de 87 minutos é bem sem graça. Tudo se encaminha para um duelo final cheio de ação entre os quatro heróis e seus amigos do circo contra os pistoleiros de Fisher. Mas, quando chega a hora do embate, este é rápido e anti-climático, sem que nem ao menos os tiroteios valham a pena.


Stevens também parece ter uma conta pessoal a acertar com Finch, o braço-direito do vilão, mas o porquê disso nunca fica bem claro na montagem cortada que assisti, e até o duelo entre os dois é extremamente brochante - sem que se saiba se cenas foram removidas ou a edição que é desleixada mesmo. A própria queda do grande bandidão Fisher é bem sem-graça, com o vilão saindo de cena como se fosse um figurante. Só pode ter coisa cortada aí...

E o restante de BOOT HILL é burocrático, com uma narrativa muito lenta, em que o personagem principal passa os primeiros 30 minutos ferido e sem fazer praticamente nada, enquanto Spencer só entra na história na segunda parte do filme - até então, Terence faz dupla com Strode. Parece até dois filmes diferentes: a primeira metade, com Terence e Strode, é bem séria, naquela linha "homens em busca de vingança", enquanto a segunda metade (já com Spencer em cena) descamba para a comédia e para o humor pastelão.


Também há um excesso de cenas mostrando os bastidores do espetáculo circense. Em vários momentos, Colizzi intercala a ação dos protagonistas com os números do circo, o que acaba comprometendo a narrativa.

Sobra a belíssima fotografia, tão comprometida no VHS e naquele DVD vagabundo da Works (em tela cheia, há momentos em que o cenário fica praticamente vazio), a linda música de Carlo Rustichelli e o fato de Terence Hill estar fazendo um papel sério. Inclusive ele lembra muito Franco Nero ao aparecer de cara suja e mal-barbeada - no anterior "Viva Django/Preparati la Bara!", dirigido por Ferdinando Baldi em 1968, o ator já havia interpretado uma versão não-oficial de Django, e era praticamente um irmão gêmeo do Franco Nero!


Pena que, como eu expliquei, BOOT HILL tem duas metades muito distintas, e não se decide entre ser western sério ou aventura engraçadinha de Hill/Spencer.

O "Dizionario del Western All'Italiana", de Marco Giusti, tem uma pista para justificar esse contraste: parece que Colizzi assumiu o filme depois que outro diretor, Romolo Guerrieri (de "Johnny Yuma"), foi despedido, mas deixou diversas cenas filmadas que tiveram que ser reaproveitadas. Acabou ficando uma coisa híbrida, cujo trailer (veja abaixo) é MUITO MELHOR que o próprio filme!


Mesmo assim, BOOT HILL é um western no mínimo diferente, que tem muitos admiradores e deve ser conhecido por quem gosta de fugir da mesmice do gênero.

Como curiosidade, quando o filme foi lançado na Alemanha, nos anos 70, e as aventuras cômicas de Trinity já eram febre por lá, o distribuidor germânico redublou todos os diálogos para inserir piadinhas e gracinhas diversas, transformando um western "quase sério" em comédia!

Para encerrar, se alguém souber alguma coisa sobre o que há de diferente nas versões mais longas, por favor use o espaço de Comentários para iluminar esse leigo autor.

Trailer de BOOT HILL


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Boot Hill/ La Collina Degli
Stivali (1969, Itália)

Direção: Giuseppe Colizzi
Elenco: Terence Hill, Woody Strode,
Bud Spencer, Lionel Stander, Victor
Buono e Luciano Rossi.