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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO (1984)


Quanto mais vezes revejo TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO (e só até esta semana foram umas 30, no mínimo), mais vezes me pergunto como é que esta produção ítalo-espanhola não se tornou um clássico do gênero. Afinal, fechando-se um olho para pequenos defeitos que revelam o baixo orçamento da película, o resultado é uma ambiciosa e bastante inspirada aventura épica, que consegue unir ótimas cenas de ação e violência (a especialidade do diretor italiano Enzo G. Castellari) com uma trama inspiradíssima e repleta de momentos poéticos (cortesia do escritor Alberto Vázquez Figueroa, autor do livro que deu origem ao filme). Pessoalmente, acho este o segundo melhor filme de Castellari, atrás apenas da obra-prima "Keoma".

Quem já leu o livro "Tuareg" sabe que é a história de Gacel Sayah, líder de uma aldeia de "tuaregs" (nome dado aos guerreiros que vivem no deserto), um personagem dúbio e originalíssimo: homem de honra, ele obedece, de maneira cega, às culturas e tradições milenares do seu povo (o que ele chama de "lei do deserto"), mas é completamente ignorante às leis da sociedade dita "civilizada". Em outras palavras, para ele, governo, exército, fronteiras entre países e outros tipos de "autoridade" não fedem e nem cheiram, bem como suas leis.


"Tuareg", o livro, não era de forma alguma uma história de ação. Pelo contrário, estava mais para um drama épico que narrava as terríveis provações de Gacel em uma terra dura (o deserto) e sua luta contra as injustiças dos civilizados, que não respeitavam suas tradições nem a sua cultura.

Infelizmente, nunca consegui encontrar nenhuma entrevista ou comentário de Figueroa sobre o filme de Castellari, mas acredito que o autor não deve ter gostado nada do que a italianada fez com sua obra, já que TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO adiciona uma boa dose de tiroteios e lutas à história original, criando algo que muitos críticos definiram como uma mistura de "Rambo" com "Lawrence da Arábia".

Gacel Sayah continua sendo o personagem principal, e confesso que sempre é um choque ver um guerreiro nômade do deserto com o rosto californiano e os olhos azuis do ator Mark Harmon (aquele mesmo que interpretou o professor boa-pinta no clássico da Sessão da Tarde "Curso de Verão").


Obviamente, Harmon aparece estrelando esta produção barata ítalo-espanhola anos antes da fama, quando só tinha feito alguns papéis secundários e participações em seriados de TV. Ele se tornaria astro nos EUA alguns anos depois (hoje estrela a série de TV "Navy NCIS"), e acredito que morre de vergonha desse seu início de carreira como guerreiro do deserto. É mais um ator que está na minha lista de "entrevistas que eu adoraria fazer algum dia", para questioná-lo sobre suas experiências no set do filme de Castellari, já que os repórteres "de verdade" não costumam fazer essa pergunta.

Passado o choque inicial, até que Harmon consegue convencer como um tuareg, já que passa a maior parte do tempo com o rosto todo coberto, ficando apenas com os belos olhos azuis à mostra.

Líder de uma pequena aldeia, Gacel Sayah é um dos guerreiros mais corajosos do deserto. No início do filme, um ancião conta a história da "grande caravana", com mais de mil homens, camelos e tesouros, que tentou cruzar um mítico deserto sem fim e desapareceu sem deixar rastros. Para espanto do ancião e dos seus ouvintes, surge nosso herói dizendo que atravessou a tal terra desolada sem fim não uma, mas duas vezes. Ou seja, o homem é foda!


Alguns dias depois, dois homens sedentos aparecem no acampamento. Gacel, honrando as milenares tradições de hospitalidade do seu povo (que dizem que ninguém pode negar abrigo a pessoas necessitadas cruzando o deserto), os recebe em sua aldeia. Mas logo surgem jipes do exército atrás dos dois hóspedes do tuareg.

Ele se recusa a entregá-los e tenta fazer valer a velha tradição, mas é claro que os soldados não a respeitam, dizendo que, ali, a lei são eles.

Os milicos então matam um dos homens e levam o outro com eles. Resultado: enfurecem o tuareg, que se sente desonrado e "indigno" por não ter conseguido proteger os "hóspedes". Segue-se 1h30min de um duelo solitário de Gacel contra todo o exército e até contra o governo do país!


Se TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO é um filmaço, parte do mérito se deve à força de seu herói: Gacel Sayah é um homem que não pára diante de nada, não tem medo da morte e não quer viver "desonrado", por isso lutará até o fim para libertar seu "hóspede" levado pelos militares.

Ele então descobre que o sujeito é Abdul El Kabir (Luis Prendes), presidente deposto do país, que estava fugindo do exílio.

Embora a luta sem trégua do tuareg ganhe a simpatia de um dos milicos, o capitão Razman (Paolo Malco, que trabalhou com Castellari em "Fuga do Bronx"), pois ele reconhece o guerreiro honrado que está enfrentando, o restante do exército sente-se humilhado pelas ações de Gacel e resolve caçá-lo e matá-lo a qualquer preço. Isso logo conduz às mirabolantes cenas de ação em câmera lenta, filmadas com a costumeira maestria maestria por Castellari.


Consta que o roteiro inicial de TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO teria sido escrito pelo próprio autor do livro, o espanhol Figueroa, junto com Vicente Escrivá. Mas Castellari garante que reescreveu a maior parte com a ajuda de seu colaborador de longa data Tito Carpi, mantendo apenas os diálogos de Figueroa.

Bem, para quem leu o livro, torna-se bastante óbvio que cenas como o ataque do tuareg à base onde Abdul é mantido prisioneiro só podem ser coisa de Castellari e Carpi!

Enquanto no livro Gacel penetrava silenciosamente na base, à noite, e cortava a garganta de todos os soldados enquanto eles dormiam, no filme temos uma mirabolante cena de ação onde Gacel encarna Rambo e sai fuzilando soldados em câmera lenta, além de usar galões de gasolina como se fossem explosivos para mandar metade da base para os ares!!!


Castellari também modificou o final original do livro, em que Gacel Sayah era morto pelo exército após cometer um crime que não pode ser explicado em detalhes aqui para não estragar a surpresa. O tal crime, porém, foi mantido no filme, garantindo um final trágico e bastante triste, que apenas realça a total ignorância do herói pelas "leis dos homens" (lembre-se que ele segue a lei do deserto).

Mas, ao invés de morrer, como nas páginas da obra literária, na telinha o tuareg absurdamente escapa com vida, e o filme ainda tenta dar um tom heróico à conclusão, quando na verdade é um desfecho totalmente irônico! Mas é bom ressaltar que essa nova conclusão acaba se encaixando perfeitamente no tom mais aventuresco adotado por Castellari no filme inteiro.

Para compensar a mudança no desfecho, TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO traz todas as melhores passagens do livro de Figueroa, como a dramática travessia pelo deserto sem fim (com direito ao consumo de corcovas de camelo para dar energia!!!); o momento em que o tuareg é cercado pelos soldados e obrigado a ficar sem água e sem comida no meio do deserto, acabando por beber o sangue quente do seu camelo (argh!!!) para não morrer de sede ou inanição, e ainda o encontro com o que sobrou da "grande caravana" desaparecida!


São cenas belíssimas, que o próprio escritor deve ter aplaudido, realçadas pela maravilhosa fotografia de John Cabrera e sublinhadas pela linda trilha sonora épica do mestre Riz Ortolani. Em algumas cenas, parece ter sido usado um filtro vermelho na lente da câmera, criando um clima tão desértico e quente que chega a deixar o espectador com sede no conforto da sua casa!

Assim, quem espera ver um típico filme desmiolado de ação como os que Castellari fez aos montes nos anos 80 (estilo "Guerreiros do Futuro" e "Fuga do Bronx"), irá se decepcionar. Ação há, mas não em doses cavalares, como em outras obras do diretor italiano. Em TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO, ele prefere adotar um tom mais poético e contemplativo (certamente a herança do roteiro original de Figueroa), mais centrado nos momentos solitários do tuareg no deserto e em seus diálogos inspirados, que revelam a estupidez da sociedade "civilizada" - como quando ele tenta entender porque Abdul passou 22 anos na cadeia e apenas quatro no poder, e mesmo assim acha que o sacrifício valeu a pena.


Além de Mark Harmon e Paolo Malco, outros nomes conhecidos aparecem no filme: o espanhol Aldo Sambrell (figurinha carimbada nos westerns de Sergio Leone) é o sargento Malick, um dos milicos linha-dura que querem a cabeça do tuareg de qualquer jeito; o italiano Antonio Sabato (de "Fuga do Bronx") é o capitão que se dá mal ao questionar as tradições milenares do herói; Romano Puppo e Massimo Vanni, que aparecem em quase todos os filmes de Castellari, aqui são dois soldados; Ritza Brown (de "Ator, A Águia Invencível") é a esposa de Gacel, e o próprio diretor Enzo aparece como um soldado que comanda uma sessão de tortura do tuareg - e, claro, acaba mal.

Apesar de ser uma ótima aventura, e apesar de todos os pontos altos mencionados ao longo do texto, TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO foi um fiasco de bilheteria, por razões bem óbvias: não conseguiu encontrar o seu público. Afinal, quem buscava um épico no estilo "Lawrence da Arábia" não estava a fim de ver tiroteios, explosões e muito menos Mark Harmon no papel de um guerreiro árabe falando inglês; já quem queria ver justamente tiroteios e explosões ficou decepcionado com o tom poético da maior parte do filme (há ação de menos, ainda mais depois da comparação com a série "Rambo").


Anos depois de seu lançamento, a obra tornou-se uma espécie de cult movie, principalmente depois das suas inúmeras reprises na TV (até hoje você encontra, em fóruns da internet, pessoas querendo saber o nome do filme em que o herói bebe o sangue do seu camelo).

Embora tenha se feito justiça tardia a este belo filme de Castellari, ele ainda não recebeu o devido reconhecimento, já que os DVDs que circulam no Brasil e no exterior são ripados de VHS sem a menor vergonha na cara, arruinando a belíssima fotografia original. Continuo esperando uma versão decente com imagem remasterizada e em widescreen.

No fim, este foi o último grande filme de Enzo, que depois se perderia em aventuras mais rotineiras, como o divertido "Lightblast" e o péssimo "Striker".

O próprio cinema italiano começou a entrar em decadência, e a maioria dos cineastas foi obrigada a trabalhar na televisão - o que aconteceu com o próprio Castellari. Uma pena, porque hoje dificilmente veremos um novo TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO saindo da terra da bota...


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Tuareg - Il Guerriero del Deserto/
Tuareg - The Desert Warrior (1984, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Mark Harmon, Luis Prendes,
Paolo Malco, Antonio Sabato, Aldo
Sambrell e Ritza Brown.

domingo, 27 de setembro de 2009

O GRANDE GOLPE (1956)


Sempre que um diretor ganha status de gênio ou se transforma em lenda, é comum que seus primeiros filmes sejam esquecidos, ou considerados "produções menores" em comparação aos clássicos que dirigirá posteriormente.

Foi assim, por exemplo, com Francis Ford Coppola, que antes de "O Poderoso Chefão" e "Apocalypse Now" dirigiu um pequeno filme de horror produzido por Roger Corman, "Dementia 13", que a maioria dos cinéfilos costuma descartar (embora seja ótimo). Foi assim também com Spielberg: muitos de seus fãs nunca viram o clássico "Encurralado", um de seus primeiros e melhores filmes.

E tem também o Stanley Kubrick. Cinéfilos de todas as idades se divertem tentando eleger os melhores filmes desse grande diretor, e é claro que figurinhas carimbadas, como "2001", "Laranja Mecânica" e "Dr. Fantástico", normalmente dominam os "Top Ten" do diretor. No caso de uma filmografia praticamente impecável, como a de Kubrick, é até comum dar menos importância para seus primeiros filmes, aqueles que ele fez ainda jovem e com pouca influência no mundo do cinema.


Mas não se engane: O GRANDE GOLPE, que é apenas o terceiro filme do diretor, é uma daquelas obras-primas esquecidas que teve maciça influência na cultura pop. Também é, provavelmente, um dos melhores filmes de roubo da história. Mesmo assim, raramente aparece em qualquer "Top Ten" de Kubrick. Eu, pelo menos, o colocaria entre os cinco melhores do diretor, sem pensar muito.

Lembro que só descobri que O GRANDE GOLPE existia depois de ter visto "Cães de Aluguel", no começo dos anos 90. Um ex-colega de trabalho falou maravilhas e praticamente me obrigou a ver, contando o filme inteiro como uma forma de me preparar para a cena final: "O cara tem um trabalhão para inventar um plano perfeito, todo mundo morre, aí ele vai para o aeroporto tentar fugir com todo aquele dinheiro e... Bom, aí tu tem que ver o que acontece", relatou o saudoso ex-colega, completando: "Dá dez a zero no 'Cães de Aluguel', e deve ser um dos melhores finais de filme de todos os tempos!".

Resultado: abobalhado pela propaganda feita, tive que ficar acordado até umas quatro da manhã para poder gravar o filme do Corujão, quando a Globo ainda passava esses clássicos na madrugada (afinal, ele não havia sido lançado em VHS no Brasil, e o DVD só chegaria quase uma década depois). Foi só aí que percebi como o incensado filme do Tarantino era bastante inspirado no de Kubrick, além, é claro, de pegar diversas idéias de "Perigo Extremo", do Ringo Lam.


Quando Kubrick fez O GRANDE GOLPE, ele já tinha certa moral no mundo do cinema por causa do sucesso do seu segundo trabalho, o estiloso "A Morte Passou por Perto" (1955).

Dessa vez, o diretor resolveu adaptar o livro "Clean Break", de Lionel White. Escreveu um roteiro não-linear e chamou Jim Thompson, um famoso autor de "pulp fictions" da época ("Os Implacáveis", do Peckinpah, foi baseado em livro dele), para criar diálogos memoráveis. E que diálogos: "Você tem um maço de dólares onde as outras mulheres têm um coração", "Moça, você tem uma bela cabeça sobre os ombros. Quer mantê-la aí ou sair carregando nas mãos?", e nessa linha vai.

O GRANDE GOLPE trata do minucioso planejamento de um crime perfeito. Johnny Clay (Sterling Hayden, nome imposto pelo estúdio, mas ótimo no papel) é um criminoso que acabou de sair da cadeia e está disposto a dar o "grande golpe" para poder curtir o resto da vida como milionário.


O objetivo é roubar dois milhões de dólares (um dinheirão na época; se bem que hoje também é, pelo menos para mim!) de um hipódromo, bem no dia de uma grande corrida de cavalos que vai levar uma multidão ao local, inflacionando as apostas.

Para poder praticar o crime, Clay se alia a um grupo de homens que não são exatamente bandidos, mas apenas pobres-coitados com dificuldades financeiras, cuja posição e área de atuação pode ajudar na realização do assalto: George Peatty (Elisha Cook, de "House on Haunted Hill") é um dos caixas do hipódromo e quer usar a sua parte do dinheiro para comprar o amor da esposa adúltera, Sherry (Marie Windsor); Randy Keenan (Ted de Corsia) é um policial que precisa da grana para ajudar a esposa doente... Enfim, todos têm seus motivos, e não são exatamente caras malvados - apenas Clay é um bandidão no concreto sentido do termo.

Na primeira metade do filme, todo o plano é meticulosamente planejado para funcionar como um relógio. Clay também contrata alguns "peões" para provocar distrações e tirar a atenção sobre o assalto, como um pistoleiro (Timothy Carey) designado para matar um dos cavalos no auge da corrida, e um ex-lutador de luta livre (Kola Kwariani, que é a cara e o físico do Tor Johnson!) para iniciar uma briga de bar do hipódromo.


Quando todas as peças estão no tabuleiro, o plano acaba funcionando perfeitamente, como Clay previra, e como se fosse uma jogada de xadrez. Os problemas começam na divisão do dinheiro. Principalmente porque Sherry, a tal esposa traidora, andou contando do assalto para o seu amante, e mais gente aparece disposta a colocar a mão na bolada...

Tudo termina naquele tal final maravilhoso no aeroporto, que, como meu ex-colega de trabalho descreveu sem nenhum exagero, é uma daquelas cenas que fica marcada eternamente na memória de qualquer cinéfilo, do tipo "seria cômico se não fosse trágico".

A comparação que fiz, do plano de Clay com um jogo de xadrez, não foi gratuita e nem delírio de blogueiro que gosta de metáforas: o próprio Kubrick era um fã de xadrez, e disse ter criado O GRANDE GOLPE nos moldes de uma partida desse nobre jogo, onde a estratégia ocupa papel central e há os peões para serem sacrificados - não por acaso, um dos personagens do filme é especialista em xadrez, e seu encontro com Clay acontece num salão de jogos onde todos estão disputando partidas de... xadrez!


O filme é tão bem escrito e dirigido que funciona maravilhosamente bem, tal qual o "plano perfeito" do protagonista, criando uma tensão crescente à medida que se aproxima o momento do roubo (algo que filmes posteriores sobre "crimes perfeitos" não conseguiram nem de longe imitar).

Além disso, há a estrutura não-linear da narrativa, que, no momento do assalto, acompanha o papel de cada uma das "peças" no grande plano arquitetado por Clay.

Isso invariavelmente resulta na repetição de alguns acontecimentos (já que estamos revendo os fatos pelo ponto de vista de cada personagem), e o público da época não entendeu direito, embora o clássico "Cidadão Kane", que também traz uma narrativa não-linear, tenha sido feito anos antes.


Assim, O GRANDE GOLPE foi massacrado em algumas exibições-teste, e os produtores forçaram Kubrick a fazer uma nova montagem na ordem correta dos acontecimentos, para tentar tornar o filme mais convencional.

É claro que o diretor odiou a idéia, mas fez a remontagem mesmo assim, só para provar aos "gênios" do estúdio como a história perderia totalmente a lógica caso fosse exibida de maneira convencional. Dito e feito: os tais "gênios" se convenceram e optaram, a contragosto, pela edição "fora de ordem", mas adicionaram uma estúpida "narração para cegos" que explica detalhadamente cada cena, mesmo aquilo que o espectador está VENDO, supostamente para que os espectadores não ficassem perdidos com as idas e vindas da trama.

Ignorando essa estúpida voz do narrador, fica ainda mais fácil perceber como o filme funciona bem, com direito a uma cena belíssima, em plano-seqüência, que mostra Clay entrando no hipódromo e encontrando, ao longo do caminho, todas as peças do seu complicado plano.


E nem precisa lembrar como essa narrativa não-linear foi depois aproveitada por Tarantino em "Cães de Aluguel"... O nobre Quentin, por sinal, sempre foi um fã confesso de O GRANDE GOLPE, e quase contratou um dos seus atores (o lunático Timothy Carey) para o papel que ficou com Lawrence Tierney em "Cães de Aluguel".

Em seu terceiro filme, Kubrick já demonstrava ser mesmo um gênio, e por isso os momentos criativos não se resumem à estrutura narrativa, mas também à estética. Por exemplo, os personagens estão quase sempre na escuridão, iluminados por pequenos pontos de luz (um abajur, uma lâmpada, a brasa do cigarro), em cenas soberbas.


No final, as sombras inclusive refletem um X sobre o rosto de Sterling Hayden, lembrando sempre que a letra tinha um papel simbólico (anunciando morte, violência ou punição) em muitos filmes de gângsters da época, começando pelo "Scarface" de Howard Hawks - recentemente, Martin Scorsese homenageou essa tendência ao encher seu filme "Os Infiltrados" de letras X...

Para completar, num toque de gênio que deve ter deixado muita gente furiosa na época do seu lançamento, Kubrick desvia a câmera do alvo na principal cena do filme (a "matança" do título em inglês). Ao espectador, só resta escutar os sons dos tiros e depois ver os cadáveres espalhados pelo chão, mas sem saber quem atirou em quem e quem matou quem. Kubrick não mostra a violência, mas as conseqüências dela, numa opção estilística muito imitada desde então (como esquecer do antológico tiroteio final do incrível western "Matalo!", que adota essa mesma estratégia?).


Sem esquecer, ainda, que o truque de esconder uma espingarda no meio de flores virou clichê no cinema, aparecendo em filmes tão diferentes quanto "Um Dia de Cão", "O Exterminador do Futuro 2", "Fulltime Killer" e, mais recentemente, "Hitman". E a máscara de palhaço usada por Clay durante o assalto também pôde ser vista recentemente na cena inicial de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", quando os capangas do Coringa, e o próprio, vestem máscaras bem parecidas.

É claro que, hoje, muito pretenso cinéfilo e pesquisador de cinema não dá a O GRANDE GOLPE a mesma importância dada a outras obras posteriores de Kubrick. Até por puro preconceito, já que esse é um legítimo filme B, ou seja, uma produção barata (custou 320 mil dólares) produzida para ser a "segunda atração" em cinemas que exibiam programas duplos - havia o "filme B" e o "filme A", que era a atração principal, um filme mais caro e melhor produzido. Na época, O GRANDE GOLPE foi exibido junto com o filme A "Bandido!", de Richard Fleischer.

Mas convém esquecer que Kubrick dirigiu genialidades posteriores para apreciar melhor essa obra-prima como o que ela realmente é: um excelente filme policial, que fica muitos degraus acima da média das produções B da época, com uma narrativa envolvente e original, ótimos personagens e situações, e aquele final que é realmente de arregalar os olhos.


Não por acaso, o sucesso do filme acabou abrindo o caminho para as grandes obras de Kubrick, quando Kirk Douglas, maravilhado com O GRANDE GOLPE, contratou o diretor para dirigir o filme de guerra "Glória Feita de Sangue".

Enfim, um CLÁSSICO que deve ser escrito em maiúsculas, mais um para a série "FILMES PARA DOIDOS POR CINEMA", e que todo mundo deveria ser obrigado a conferir uma vez na vida, nem que seja para ver aquela inesquecível cena final e saber o que acontece para motivar esse último diálogo entre o protagonista e sua namorada:

- Você precisa fugir, Johnny!
- E fugir pra quê?


Trailer de O GRANDE GOLPE


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The Killing (1956, EUA)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Sterling Hayden, Coleen Gray,
Elisha Cook, Marie Windsor, Ted de
Corsia e Timothy Carey.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

THE SNIPER (2009)


Em 2008 foi "Flashback", do Wilson Yip. Em 2007, "Fulltime Killer", do Johnnie To e do Ka-Fai Wai. E nos anos anteriores eu não lembro, mas tem uma porrada de obras. Enfim, a cada ano que passa, eu sempre vejo algum filme de ação oriental acima da média que me dá a certeza de que as boas produções modernas do gênero estão sendo feitas lá pelos carinhas de olhinho puxado. Agora em 2009 não foi diferente: quem precisa dessas abobrinhas mal-filmadas, mal-editadas e repletas de efeitos digitais produzidas nos Estados Unidos quando se tem filmaços vindo do Oriente, como esse THE SNIPER?

Antes de mais nada, permitam-me fazer uma observação importante: THE SNIPER não tem absolutamente nada de excepcional, é apenas um filme de ação muito bem feito, com uma história acima da média, envolvente, trazendo belos efeitos, belos movimentos de câmera, personagens interessantes e um climático confronto final, tudo embalado por uma trilha sonora de primeira. Enfim, tudo aquilo que o cinema de ação norte-americano não consegue fazer há sei lá quanto tempo, mesmo com orçamentos de centenas de milhões de dólares (sim, estou me referindo a bobagens tipo o "Duro de Matar 4.0").


Dirigido por Dante Lam ("Heat Team", 2004) e escrito por Wai Lun Ng, o filme narra um duelo mortal entre franco-atiradores, os populares "snipers", numa aventura que remete a outras obras do gênero, como "O Atirador" (1993), de Luis Llosa, e "Círculo de Fogo" (2001), de Jean-Jacques Annaud. No caso, muito mais para o filme de Annaud, que se concentrava na rivalidade entre dois franco-atiradores, do que para a ação descerebrada do filme de Llosa, que era estrelado por Tom Berenger e Billy Zane.

THE SNIPER também é uma história sobre rivalidade e as suas conseqüências, já que seus personagens, longe de nutrirem sentimentos de heroísmo ou de "ajudar o próximo", passam o filme todo brigando para ver quem é o melhor atirador. O herói chega a resumir seu egoísmo numa frase emblemática ("Dois especialistas não podem co-existir"), enquanto faz todo o possível para mostrar que tem a melhor pontaria, mas pouco ligando para o lema de "servir e proteger" dos policiais. E sim, ele é o HERÓI do filme!!!!


A trama começa com os dois melhores snipers da polícia de Hong-Kong, Fang (Ritchie Ren, de "Exilados" e "Breaking News", ambos do Johnnie To) e Shan (Bowie Lam), salvando uma dupla de policiais de uma operação fracassada. Quando um desses policiais também se revela um atirador acima da média, ao acertar um disparo no meio dos cornos de um malfeitor, Fang resolve "adotá-lo" para o treinamento na unidade de snipers. Trata-se de Chen (Edison Chen, que interpretou a versão jovem do protagonista da trilogia "Conflitos Internos"). Ele é um jovem rebelde que não gosta de seguir ordens, mas demonstra grande habilidade no gatilho.

As primeiras cenas, que mostram o treinamento de Chen com alguns outros jovens candidatos a franco-atirador ("aspiras", segundo o Capitão Nascimento), são o grande "momento macho" do filme, ou homo-erótico, dependendo do público, já que os recrutas aparecem correndo sem camisa, com closes nos músculos e peitos suados, enquanto eles carregam seus enormes rifles de mira telescópica. Para a coisa ficar mais gay, só faltava uma discussão do tipo: "Meu rifle é maior do que o seu!".


E não demora para as coisas começarem a se complicar: Jing (Xiaoming Huang, nesse momento filmando "Ip Man 2", do Wilson Yip) é libertado da cadeia e alimenta um ódio mortal por Fang. Ele era o melhor sniper da polícia de Hong-Kong, capaz de acertar um alvo a 500 metros de distância (o maior recorde entre os atiradores), mas acabou matando um refém acidentalmente durante uma operação policial (será que ele trabalhava no Brasil?). Foi condenado a quatro anos de prisão devido ao testemunho do ex-colega Fang, pois, segundo ele, Jing teria se descontrolado no momento do tiro.

Pois Jing se alia a um grupo de criminosos e ajuda a libertar da prisão um chefão do crime, Tao (Jack Kao), o bandido que ele falhou em matar na operação de quatro anos antes. Juntos, eles pretendem roubar um carregamento de explosivos da polícia, e o sniper malvado passa o resto do filme cutucando Fang para se vingar da sua prisão, que considerou injusta. E é claro que o jovem Chen logo acaba se metendo no confronto, pois, como novo melhor sniper da polícia, ele tem ao mesmo tempo orgulho e inveja do recordista Jing.


O final eletrizante reserva um tenso duelo entre os snipers num armazém abandonado, quando Jing vai dizimando toda a unidade de Fang, até o duelo mortal com seu arquiinimigo.

Mesmo que não consiga escapar de alguns clichês comuns ao gênero, tipo o sábio mestre que ensina tudo o que sabe a um jovem rebelde, e depois luta para mantê-lo afastado do "lado negro da Força", THE SNIPER ganha muitos pontos pela narrativa dinâmica e por algumas resoluções fora do padrão, diferentes do que o espectador está acostumado a esperar desse tipo de filme de ação.

A conclusão, por exemplo, foge da burocracia típica do cinema norte-americano e desfila uma interessante sucessão de reviravoltas, trazendo à tona a verdade sobre alguns dos principais personagens. Uma delas chega a mudar totalmente o juízo que você faz de determinado personagem - tipo de revelação corajosa que só se vê nos filmes orientais.


O diretor Lam (que aparentemente não tem parentesco com o também competente Ringo Lam) também foge das soluções fáceis, e, mesmo optando por uma narrativa dinâmica e "moderninha", não cai naquela armadilha da "edição estreboscópica", com mil frames por segundo (agradecemos!!!). Aliás, bem que diretores norte-americanos metidos a cineastas orientais podiam ver filmes tipo THE SNIPER para aprender como se filma cenas de ação. Em uma única lição: usem planos mais abertos, como Dante Lam, para mostrar ao espectador o que está acontecendo, ao invés de optar pelos tradicionais supercloses com câmera tremida, que são uma praga do cinema contemporâneo.

Destaque ainda para as cenas em que os snipers demonstram sua habilidade nos corpos alheios, e para o belo momento em que a câmera segue a bala disparada por um rifle até o seu alvo, atravessando uma moeda a vários metros de distância (muitos dirão que é apenas frescura em CGI, mas ficou bem legal, como você pode conferir na seqüência de imagens abaixo).


O diretor não esconde duas influências bem visíveis: ele parece conhecer muito bem jogos de tiro com snipers, tipo "Counter Strike", e também adorou a cena em câmera lenta de "Nascido para Matar" (1987), de Stanley Kubrick, que mostra um franco-atirador fuzilando implacavelmente um soldado, já que filma uma cena bastante parecida, só que ainda mais sangrenta. Destaque também para as cenas que retratam aspectos interessantes da vida de sniper, como a importância da respiração na hora de puxar o gatilho e o exercício que os atiradores fazem para manter os dedos sempre prontos, sem tremer.

Como normalmente acontece com filmes orientais lançados no Ocidente, esse também teve os nomes dos personagens "americanizados" para soarem mais simples: Chen virou OJ (!!!), Fang tornou-se Hartman e Jing virou Lincoln. Coadjuvantes não tiveram melhor sorte, ganhando alcunhas do tipo Shane, Big Head, Crystal e até... Iceman!!!! (Alguém viu "Top Gun" muitas vezes...)


Um detalhe interessante: embora o personagem de Edison Chen seja o protagonista, ele praticamente não aparece em cena, e a montagem dá mais destaque para o duelo de nervos entre os rivais Fang e Jing. A própria duração do filme (cerca de 85 minutos) e o ritmo acelerado da narrativa fazem com que o espectador suspeite de que há coisa faltando aí. E é isso mesmo: quase todas as cenas com Chen acabaram cortadas, pois os produtores tinham medo que o filme fosse um fracasso após um escândalo sexual envolvendo o ator.

Por aqui a história é pouco conhecida (eu mesmo nem sabia disso), mas vou deixar vocês, nobres leitores, a par de tudo, já que é uma fofoca tão ou mais interessante que o próprio filme. Eis que o ator Edison Chen, que também é modelo, astro de comerciais e cantor famoso lá do lado de lá do mundo, mandou seu computador para o conserto em novembro de 2006, e assim cerca de 1.300 fotos "íntimas" do rapaz vazaram para a internet. Até aí, tudo bem, certo?

O problema é que essas fotos, feitas entre 2003 e 2006, envolviam uma porrada de mulheres, sendo que 14 delas eram super-celebridades lá em Hong-Kong, como as atrizes Gillian Chung, Bobo Chan e Cecilia Cheung. E como algumas faziam pose de boas moças na mídia, tipo umas Sandra Bullocks orientais, imagine o bafafá que foi.

Sobrou para Chen, claro, que foi considerado parcialmente culpado pelo episódio e crucificado pela mídia (olha aí embaixo a capa de uma das revistas falando sobre o escândalo; clique na imagem para ampliar). E a comoção pública foi tão grande que o ator chegou a ser ameaçado de morte.


O episódio enterrou a carreira do jovem Chen, que teve o contrato rescindido em todas as campanhas publicitárias de que participava, foi cortado na edição de "Jump", novo filme de Stephen Fung, que estréia esse ano, e também de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", de Christopher Nolan, onde interpretava um dos capangas que apanhavam do herói na cena filmada em Hong-Kong (mesmo assim, ele aparece brevemente na recepção do edifício antes da chegada de Batman).

No caso de THE SNIPER, o filme era para ter sido lançado no ano passado, mas os produtores cancelaram a estréia e limaram o maior número possível de cenas com o "queimado" ator. Seu relacionamento atribulado com o pai criminoso e a namorada, por exemplo, se resume a uma mísera cena; se havia outras aparições destes dois familiares, elas acabaram no chão da sala de edição, o que torna a trama bastante dispersiva.

E é por isso que o personagem Chen não aparece tanto quanto seus "coadjuvantes alavancados a protagonistas". O ator nem mesmo participou da premiére do filme em Hong-Kong, que foi realizada somente agora em 2009. E, há alguns meses, chegou a dar uma entrevista dizendo que considerava o suicídio, tal o rumo que sua carreira tomou. Que coisa, hein?


Apesar dessa polêmica e da remontagem mutiladora, THE SNIPER permanece como um interessantíssimo e bem realizado filme de ação, com personagens um pouquinho mais profundos do que poderia se esperar e ótimas cenas de tiroteios envolvendo os snipers, além de uma boa dose de suspense e tensão (ótima a cena do policial no elevador com três bandidos).

A própria idéia de um inimigo sempre escondido gera bastante aflição, já que os tiros disparados pelos snipers podem vir de centenas de metros de distância!

Enfim, um tiro certeiro - melhor do que qualquer filme de ação que Hollywood possa regurgitar este ano.

Trailer de THE SNIPER


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The Sniper/ Sun Cheung Sau
(2009, Hong-Kong)

Direção: Dante Lam
Elenco: Edison Chen, Richie Ren,
Xiaoming Huang, Jack Kao, Bowie
Lam e Wilfred Lau.

domingo, 20 de setembro de 2009

TORTURA CRUEL - FÊMEAS VIOLENTADAS (1980)


Em 1974, no clássico "Desejo de Matar", Charles Bronson interpretou um homem levado ao limite após o estupro e assassinato da sua esposa, e que, para dar o troco - e ao mesmo tempo combater a violência urbana -, saía pelas madrugadas enchendo marginais de tiros. Na época, muita gente criticou a violência do personagem de Bronson e a apologia de justiça pelas próprias mãos feita pelo filme de Michael Winner, que foi um grande sucesso e gerou uma série com quatro continuações inferiores.

Mas acredite: os bandidos correriam felizes da vida ao encontro de Paul Kersey se soubessem como Tony Vieira lidou com uma situação parecida em TORTURA CRUEL - FÊMEAS VIOLENTADAS, policial exploitation de 1980 que é um colírio para os olhos de quem acha que "bandido bom é o bandido morto".

Salu, o personagem de Vieira neste filme barato que ele mesmo produziu, escreveu e dirigiu (!!!), faria o próprio Paul Kersey correr de medo e se esconder junto com Chico, o justiceiro interpretado por Francisco Cavalcanti em "Horas Fatais - Cabeças Trocadas", e com o dr. Rogério, o justiceiro interpretado por Carlo Mossy em "Ódio", outros dois bons filmes brasileiros sobre justiça com as próprias mãos.


E se você duvida, saiba que o bandido que menos sofre nas mãos de Salu é enterrado vivo. Imagine o triste destino dos outros!

Salu é um bandido que acabou de sair do presídio e pensa em se regenerar, já que sozinho precisa sustentar a família - composta pela mãe, velha e doente, e por duas irmãs que não trabalham (a mais velha, interpretada por Aryadne de Lima, sonha em ser cantora).

O problema é que vida de ex-presidiário em cidade pequena é fogo, e o coitado não consegue arrumar nenhum trabalho. Mesmo quando salva uma garota de ser estuprada por três marginais, e ela intercede junto ao seu marido para que Salu seja contratado como peão de obra, o emprego dura só até o patrão saber que ele é ex-presidiário.


Obrigado a lavar carros para faturar uns trocos e poder comprar o remédio que sua mãe precisa, ele se recusa a aceitar a ajuda financeira da amante, que é prostituta (interpretada pela bela Maristela Moreno, de "A Quinta Dimensão do Sexo"), e prefere jogar na loteria esportiva, sonhando em ficar milionário. Para piorar a situação do sujeito, a polícia fica na sua cola, considerando-o suspeito de qualquer crime que seja cometido na região - e isso inclui, claro, tentativas de confissão na base da porrada, já que ninguém acredita que Salu realmente está tentando se regenerar.

Paralelamente, uma quadrilha formada por quatro bandidos da pesada chega na cidadezinha, após uma série de assaltos e estupros pelas redondezas. Ela é chefiada por Raja (o futuro diretor Rajá de Aragão, que realizou o inacreditável "Hospital da Corrupção e dos Prazeres", em breve aqui no blog), que não gosta de estupros e prefere ficar dando discursos sociológicos para suas vítimas, do tipo "Vida de rei, né doutor? Pobre se danando, comendo casca de banana, e vocês comendo franguinho de leite... Filho da puta!". Seus três asseclas são um tuberculoso que é alvo de gozações dos colegas por não conseguir estuprar ninguém de dia (diz ele a uma vítima: "A sua sorte é que eu sou que nem vampiro: só como à noite"), e dois violentadores profissionais, Nivaldo e Toninho, que não podem ver um rabo-de-saia passar que já pensam em cair em cima. Furioso, Raja pede aos seus comparsas que fiquem na moita, sem estuprar ninguém para não chamar a atenção.


Os primeiros 40 minutos do filme mais parecem um dramalhão mexicano, com Salu procurando e perdendo empregos por ser ex-presidiário, e apanhando direto da polícia (é preciso lembrar que esse tipo de produção era voltada a um público de classe média para baixo). Mas então sua sorte muda: Salu finalmente ganha na loteria e fica multimilionário da noite para o dia!

E adivinha qual é a primeira providência do cara? Comprar o remédio para a mãe? Ajudar as irmãs com o aluguel atrasado? Comprar uma casa nova para a família? Tirar a amante da prostituição? Que nada: Saul faz o que todo homem sensato faria, e se manda para um puteiro para fazer uma comemoração em alto estilo, fechando a zona para ficar com todas as putas só pra ele! (Num momento impagável, rodeado de mulheres nuas, ele pega o garçom do recinto pelo colarinho e grita: "Já falei que não quero homem nenhum aqui dentro além de mim!").

Enquanto nosso herói comemora sua vida de milionário, o trio parada dura do estupro aproveita um momento em que Raja não está por perto para controlar e invade a casa de Salu, matando sua mãe e estuprando as duas irmãs. Algo me diz que eles escolheram a pessoa errada para sacanear...


O restante de TORTURA CRUEL é Salu caçando os quatro bandidos, infiltrando-se em sua quadrilha como se fosse um puxador de carros roubados, e finalmente arquitetando mortes sofridas e tenebrosas para cada um deles.

Como eu escrevi lá em cima, ser enterrado vivo é o castigo mais brando, considerando que um dos pobres coitados é amarrado de quatro para ter o fiofó arrombado por ninguém menos que Satã (aquele moreno careca e gigantesco que aparece em vários filmes do Zé do Caixão), e outro acaba envolvido numa trama diabólica que lembra "Oldboy", de Chan-wook Park, só que 23 anos antes!!! Finalmente, o quarto criminoso, amarrado à linha do trem, ainda tenta protestar: "Mas você não pode me matar assim!". Irônico, o herói apenas retruca: "Quem vai te matar é o trem, e não eu".


O filme em si é bem fraquinho, com uma narrativa simples e sem grandes surpresas, muita mulher pelada e diversas cenas de sexo ou estupro - bem exploitation mesmo.

Duro é suportar os primeiros 15 minutos, já que a trilha sonora utiliza algumas lastimáveis músicas de corno interpretadas pelas piores bandas de baile que a produção pôde pagar (a letra de uma delas, repetida duas vezes ao longo da película, diz: "Deixou a sua casa/Cegamente iludida/Pra tentar a sua sorte/Mas caiu despercebida/Com a sua pouca idade/Se tornou mulher da vida").

Mas após o ataque à família de Salu, a coisa vai ficando cada vez mais interessante, até porque o espectador espera ansioso pelo castigo que os "pusilânimes" receberão. E a generosa quantidade de mulher pelada (inclusive a belíssima Maristela, que aparece quase o tempo todo nua, frente e verso) já vale o programa, pelo menos para os taradões.


Como diretor, Tony ainda consegue a façanha de intercalar a cena alegre da festa do seu personagem no puteiro com o violento ataque dos bandidos à sua família, numa triste (e até sádica) ironia. Mas também sai com várias abobrinhas, como um desfile de escola de samba que cai do céu e não tem qualquer objetivo no enredo, ou a aparição-relâmpago de um "louco assassino de prostitutas" que foge do manicômio e só dá as caras por uns cinco minutinhos (pelo jeito, foi a única saída encontrada para sumir com a amante de Tony da história!!!).

Felizmente, o filme inteiro está repleto daqueles diálogos engraçadíssimos que a gente não costuma ver fora das obras da Boca do Lixo, como "Sexo a gente faz em qualquer lugar. No mato é até mais gostoso porque o capim faz uma cósquinha" e "Dinheiro não é problema, bem. Enquanto eu tiver essas pernas pra abrir uma pra cada lado, nós não vamos ficar duros".

Para quem não conhece o homem, Tony Vieira (pseudônimo de Maury de Oliveira Queiróz) foi um dos mais bem-sucedidos produtores de cinema barato da Boca do Lixo. Ele fazia filmes extremamente populares, econômicos e rápidos, que tinham a cor e o cheiro do povão, além do linguajar e dos cenários que o povão queria ver (e muita mulher pelada e violência, claro, pois também é disso que o povão gosta). Os diálogos de TORTURA CRUEL, por exemplo, não têm firulas, usando e abusando de expressões populares e de gírias da malandragem - algumas chegam a soar estranhas para o espectador contemporâneo.


Entre o início da década de 70 e a metade dos anos 80, Tony produziu cerca de 15 filmes baratíssimos, com histórias policiais ou de western, sempre assumindo ele mesmo o papel principal, e volta-e-meia dirigindo. Investia pouco e lucrava bastante, numa época em que cinema para o povão ainda era rentável no país (lembre-se: era a época dourada das salas de cinema de rua, não dentro de shopping centers).

Em várias entrevistas do período, Tony reclamou que não gostava de dirigir, mas não encontrava ninguém para filmar o tipo de história que filmava. "Faço o que o povo gosta. Vejam as rendas. E eu, inicialmente, atendo o público. Quando tiver dinheiro até para perder, farei o filme que eu gosto", declarou certa vez.

No começo da década de 80, quando a produção cinematográfica da Boca do Lixo descambou para o sexo explícito, Tony também se rendeu aos filmes pornôs, dirigindo, entre diversos, "Banho de Língua" (1985) e "Eu Adoro Essa Cobra" (1987). Em 1988, tentou voltar ao gênero policial com "Calibre 12", mas o fracasso de bilheteria da obra decretou a aposentadoria precoce do ex-galã da Boca do Lixo.


Desanimado e doente, ele voltou para o Estado onde nasceu, Minas Gerais, e lá morreu no começo dos anos 90. Apesar de uma vasta filmografia, composta inclusive de diversos sucessos de bilheteria, suas obras continuam praticamente desconhecidas e inéditas no Brasil. É o caso de TORTURA CRUEL, que até chegou às nossas locadoras nos primórdios da fase áurea do VHS, e hoje só circula em cópias piratas com legendas em castelhano (!!!).

Quando vejo esses DVDs de luxo lançados na gringolândia para filmes de diretores tão mequetrefes quanto o italiano Andrea Bianchi, fico sonhando com o dia em que teremos, aqui no Brasil, um box bem-feitinho com as obras de Tony Vieira, trazendo pérolas remasterizadas como "Gringo, O Último Matador", "O Exorcista de Mulheres", o impagável "O Último Cão de Guerra" ou o policial "Os Pilantras da Noite" (que tem, no elenco, Tony Tornado, Helena Ramos e Aldine Müller!!!!).

Mas o sonho logo se transforma em pesadelo quando eu me lembro da falta de memória (e de valorização) dos brasileiros para com seu cinema, de como a maioria nem liga para o que foi produzido no país pré-Globo Filmes e do triste fim do herdeiro direto de Tony Vieira, o brasiliense Afonso Brazza (que inclusive trabalhou na equipe técnica de vários filmes assinados por Tony). Brazza não só ficou com a esposa de Tony (Claudette Joubert) após sua morte, como seguiu a triste sina do seu mentor: morreu pobre e fazendo apenas filmes baratíssimos que quase ninguém viu.

Lobby card de "Tortura Cruel" com Tony e Rajá


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Tortura Cruel - Fêmeas Violentadas
(1980, Brasil)

Direção: Tony Vieira
Elenco: Tony Vieira, Maristela Moreno,
Aryadne de Lima, Rajá de Aragão, Clery
Cunha, Satã e Lúcia Alves.