quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO (1984)


Que José Mojica Marins foi o precursor da zoofilia no cinema pornográfico brasileiro (ao dirigir a famosa cena com o pastor-alemão Jack!), todo mundo já está careca de saber. Mas terá sido o célebre Zé do Caixão também o pioneiro nos pornôs gays tupiniquins?

Pode ser que sim, ao menos se julgarmos A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO como um filme pornô de temática homossexual, considerando que o filme começou a ser produzido como drama erótico "sério" e acabou se transformando em pornô "hardcore" para acompanhar as tendências do mercado cinematográfico da época (primeira metade dos anos 80).

Trata-se do primeiro dos quatro filmes pornôs que Mojica foi praticamente obrigado a produzir, numa fase de vacas magérrimas e nenhum dinheiro em caixa. Os outros são os antológicos "24 Horas de Sexo Explícito" (1985, o tal precursor da zoofilia no pornô nacional), "Dr. Frank na Clínica das Taras" e "48 Horas de Sexo Alucinante" (ambos de 1986). A diferença para os outros três é que A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO até tenta contar uma história decente (enquanto os posteriores já partem para o vale-tudo do fiapo de roteiro conduzindo as cenas de sexo explícito), e, principalmente, tem mulheres bonitas em cena, especialmente nas cenas softcore - ou seja, sem penetração, apenas simulação de sexo -, destoando dos jaburus que apareceram nos pornôs posteriores do nosso amigo Zé.


O projeto começou como filme erótico "soft", a partir de um roteiro escrito pelo amigo de Mojica, Mário Lima. Naquela época, vários pequenos produtores estavam fazendo fortunas com o cinema erótico e com as pornochanchadas, lançando obras bastante econômicas em recursos, mas que acabavam dando bastante retorno nas bilheterias.

Além disso, a rígida censura imposta pelo Regime Militar na década de 70 aos poucos começava a ser vencida, e assim surgiam as primeiras exibições das produções de sexo explícito, que já vinham sendo filmadas na Europa e nos EUA.

No Brasil, o primeiro filme hardcore foi feito apenas em 1981: o fenômeno "Coisas Eróticas", de Rafaelle Rossi, que levou mais de 4,5 milhões de pessoas aos cinemas (isso, claro, antes da "era do videocassete", quando era comum ver filme pornô no escurinho do cinema). E assim uma produção X-Rated transformou-se numa das maiores bilheterias de filmes nacionais de todos os tempos.

Mas voltemos a Mojica e Mário Lima: foi este último quem escreveu a inacreditável história de Paulo (Márcio Prado, de "Tara das Cocotas na Ilha do Pecado") e Norberto (João Francisco, único filme), dois amigos que são estudantes de química e galãs de rodoviária, mas andam negando fogo diante do sexo oposto.


Apavorados com a possibilidade de terem ficado broxas, eles procuram primeiro ajuda médica, e depois "especializada" (duas prostitutas), mas a situação torna-se cada vez mais dura - ou mole, no caso da dupla.

Impotentes (literalmente!) diante da situação, e já ouvindo gracinhas e comentários maldosos dos colegas de curso, Paulo e Norberto resolvem abandonar a faculdade e se refugir na casa de campo da família de um deles, onde começam a fazer experiências químicas com plantas reconhecidamente afrodisíacas.

O objetivo é criar uma espécie de elixir sexual para contornar o "probleminha" da impotência. Só que a descoberta de tal fórmula traz um novo problema: mais ou menos como uma versão tupiniquim de Jeckyl e Hyde, os dois acabam se transformando em psicopatas malvados.

Para testar seu elixir, por exemplo, eles seqüestram uma garota inocente na rua e a obrigam a beber a fórmula. O resultado é um grande ménage a trois. No dia seguinte, quando o efeito da fórmula passa, a garota volta a si e foge da casa de campo, apenas para morrer alguns metros distante, vitimada pela picada de uma cobra venenosa. Já a segunda "cobaia" da dupla acaba morrendo de prazer (!!!), após uma noite de orgias na praia. Quando o cadáver é descoberto, a polícia começa a investigar os misteriosos crimes sexuais naquela região.


Finalmente, Paulo e Norberto fazem uma última festinha com uma ex-colega de faculdade, para testar uma versão diluída (e não-letal) de seu elixir. Tudo corre às mil maravilhas, mas, quando passa o efeito da fórmula, a moça descobre o que aconteceu e alerta a polícia sobre os "terríveis" maníacos sexuais.

Neste ínterim, enquanto a lei se prepara para agir, os dois amigos acabam descobrindo a razão de seu problema com as mulheres: eles na verdade estão apaixonados um pelo outro! E, após consumarem este amor com uma transa (não-explícita), os dois fogem da polícia somente para morrer quando o Dodge que dirigem cai de um precipício - uma versão homossexual do clássico feminista "Thelma e Louise", de Ridley Scott, que foi filmado nove anos DEPOIS!

Segundo o livro "Maldito", de André Barcinski e Ivan Finotti, quando A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO ficou pronto, e era apenas um filme erótico comum, um amigo de Mário Lima, que era proprietário de uma distribuidora de filmes eróticos, sugeriu enxertar cenas de sexo explícito na edição, para faturar em cima deste novo e lucrativo filão de mercado que se abria.


Não era exatamente uma novidade: vários produtores estavam fazendo o mesmo, às vezes transformando produções que nada tinham de eróticas em filmes pornôs, simplesmente gravando novas cenas de sacanagem e incluindo na edição.

Foi o que também fizeram Mário e Mojica: gravaram duas cenas explícitas num motel, com atores que não faziam parte da edição "normal" do filme (entre eles Sílvio Júnior e Oswaldo Cirillo, que se tornariam galãs do pornô da Boca do Lixo), e enxertaram estas trepadas na trama sem qualquer cerimônia.

As "costuras" ficaram hilariantes: a primeira foi editada numa cena em que Paulo está no motel, como se fosse um filme pornográfico passando na TV naquele momento (!!!); a segunda simplesmente invade a trama, e no final do rala-e-rola a moça comenta com o rapaz: "Você sim que é homem, não aqueles broxas do Paulo e do Norberto!", apenas para tentar criar um elo daquela trepada isolada com o restante da história!


Apesar destas duas cenas hardcore, e de vários momentos softcore (incluindo transas a três no esquema "sanduíche", com a mulher no meio e um cara em cada "orífício" dela), os censores que ainda estavam em atividade encasquetaram justamente com a única cena gay do filme, um beijo entre Márcio Prado e João Francisco, que era filmado em close - e beijo entre homens ainda era novidade naqueles tempos. O irônico é que o filme nem chega a mostrar os dois personagens transando, e qualquer referência à homossexualidade da dupla encerra com este único e até inocente beijinho. No restante da trama, eles simplesmente falam do seu amor e andam de mãos dadas, tudo muito inocente.

Embora seja mais bem feito que os outros pornôs de Mojica, A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO não é um bom filme - e, como as outras obras explícitas do nosso Zé do Caixão, também acaba funcionando mais como comédia involuntária do que como drama erótico, pornô gay ou seja lá o que for.

Além da trama sem pé nem cabeça, que não se decide entre o clima de pornochanchada e o suspense (representado pelo lado psicopata dos dois protagonistas e pelas mortes provocadas pelo elixir sexual), há os costumeiros diálogos bisonhos e cenas impagáveis, elementos que aparecem com freqüência nas obras conjuntas entre Lima e Mojica.


As longas cenas de Paulo e Norberto fuçando em equipamentos de laboratório, por exemplo, são acompanhadas por diálogos antológicos como "Desse jeito os nossos sensos motores não sofrerão hipertensão!". Mais adiante, quando nasce o amor entre os protagonistas, o espectador é brindado com o seguinte diálogo entre os pombinhos:

- Se formos presos, nunca mais vamos nos ver!
- As coisas terrenas não mais nos separam, compreende?
- É claro! O nosso encontro é espiritual!
- Estamos em outra dimensão.
- A do amor?
- Do amor!


Além disso, a edição de Nilcemar Leyart, ex-namorada de Mojica, cria momentos involuntariamente cômicos, como ao intercalar uma cena de suspense (a mocinha prestes a ser atacada pela cobra venenosa) com takes sem noção dos amigos fazendo uma omelete! E há seqüências surreais, como o beijo entre os dois rapazes ao som da tétrica trilha sonora chupada do filme de horror "Phantasm", de Don Coscarelli, ou a "participação especial relâmpago" do próprio Mojica, com suas longas unhas e a pança de fora, "interpretando" um fanático religioso que simplesmente cai de pára-quedas na história!

O elenco conta ainda com algumas musas dos bons tempos da Boca do Lixo: Zilda Mayo (vista em filmes tão díspares quanto o suspense "Excitação", de Jean Garret, e "O Instrumento da Máfia", de Francisco Cavalcanti), Maristela Moreno (de "A Noite das Taras 2" e "Tortura Cruel") e Débora Muniz (foto abaixo; protegida de Mojica desde "Perversão", vista recentemente em "Encarnação do Demônio"), mas nenhuma das três protagoniza as cenas explícitas; para compensar, aparecem peladinhas.


O produtor-roteirista Mário Lima também dá as caras, como a testemunha de um dos crimes cometidos pela dupla Paulo e Norberto (destaque para sua fala, "Eles pareciam pessoas de bens", ao invés de "pessoas de bem"!!!).

A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO não fez o sucesso esperado na época de seu lançamento porque deu o azar de bater de frente com outro fenômeno do cinema erótico-pornográfico nacional, "Oh Rebuceteio!", de Cláudio Cunha, lançado na mesma semana. Hoje, é o tipo de filme que só funciona para quem curte as bizarrices produzidas na era de ouro da Boca do Lixo: filmes esquisitos, diferentes de tudo que se fazia antes e de tudo que se faz agora.

Não sei você, caro leitor do FILMES PARA DOIDOS, mas eu sempre achei estes pornôs da Boca muito mais divertidos do que os filmes de gênero contemporâneos (como as produções do selo Brasileirinhas, por exemplo). Por menos excitantes que fossem (e alguns eram e são realmente broxantes!), os A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO da vida tinham algo de criativo e experimental, já que ainda era tudo novidade para os produtores de pornôs brasileiros. E é isso que os distingue desta mesmice que virou o cinema pornô atual.

Hoje, ironicamente, estes títulos antigos são mais procurados por fãs de cinema de horror ou exploitation do que pelos aficcionados por X-Rated. Fico me perguntando se algum dia essas obras todas receberão o devido resgate e valorização...


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A Quinta Dimensão do Sexo (1984, Brasil)
Direção: José Mojica Marins
Elenco: Márcio Prado, João Francisco,
Zilda Maio, Débora Muniz, Sílvio Júnior,
Oswaldo Cirillo e Maristela Moreno.

13 comentários:

Iesus Filho disse...

War felipe, desculpe aproveitar esse espaço de outro filme para comentar outro (e na verdade agradecer): caaaaara, obrigado por recomendar em 11 junho "Viver e Morrer em L.A.". Puta que pariu, um dos melhores filmes de policial que já vi (e melhores filmes que já vi também) - uma experiência espetacular.
O filme é completo: a história, a ação, violência, a trilha oitentista do caralho, a fotografia, atores, as mulheres, puta merda! fiquei hipnotizado!!!
Viver e Morrer em L.A., além de uma aula de CINEMA, é um filme orgástico para quem gosta deste gênero tantas vezes ignorado e muitas vezes mal feito por aqueles que não dominam a difícil arte de conseguir tranformar algo casual em uma obra-prima!
O filme é completo!

Obrigado Felipe.

Felipe M. Guerra disse...

Mais um convertido para a Igreja de San Friedkin.

E afinal, VIVER E MORRER EM L.A. é ou não é um dos últimos policiais fodaços produzidos?

Iesus Filho disse...

Olha, eu tenho que admitir que sou apaixonado por Máquina Mortífera, em todas as suas continuações - mas sei que não se enquadra no mesmo gênero policial bruto do LD in L.A. Mas com certeza Viver e morrer em L.A. é um dos últimos filmes de policial que merecem realmente este selo de obra-prima do policial! O máximo que eu vi nestes últimos anos de filme que me causou entusiasmo foi o Miami Vice, do Mann (que ainda tenho minhas ressalvas - talvez porque ainda não vi fogo contra fogo integralmente - vi uma vez quando moleque, mas não lembro porque não terminei - com toda a sua citação a ele, não resisti e já estou providenciando uma sessão), que flerta demais com esse ar policial oitentista ao mesmo tempo bruto, mas com aquele leve ar de glam (o Chance, mesmo sendo bruto, sempre tá com o visual cool - mas cool de macho-comedor), só que no miami vice uma coisa que me incomodou foi a falta de estilização da violência na cena de tiroteio, logo no final. Mas em compensação, o próprio desfecho aberto-fechado, e o desenvolvimento do filme são bem acima da média.

Mas concordo totalmente com você: "VIVER E MORRER EM L.A. é um dos últimos policiais fodaços produzidos"!
Agradeço novamente pela dica.

artur disse...

que foto mais bizarra essa do Mojica Hein?

Felipe M. Guerra disse...

Agora você imagina aquele pobre sujeito, que foi ao cinema só pra se excitar com um filminho pornô, e acabou bombardeado com imagens tipo uma cobra venenosa picando uma mulher, Mário Lima dando "aula de português", um beijo gay ao som de trilha lisérgica de filme de horror, e o Mojica completamente bêbado e berrando com sua pançona de fora! Aposto que o pinto desse espectador não subiu mais por meses...

Le Miserable disse...

olha só, o Iesus lê o blog do Guerra, ahahahehe

Rafael Marinho disse...

O cinema produzido pela BRASILEIRINHAS, apesar da beleza de suas musas, é absolutamente burocratico. Não há ousadia, simplesmente vemos belas atrizes chupando, dando o cu e a boceta sem sequer existir uma historia para atuarem. Ninguem assisti a filmes da Brasileirinhas sem usar a tecla FF! Não assisti esse do Mojica e nem sei se conseguirei, mas pela leitura da critica sua Felipe o filme merecia um relançamento em DVD. Como bem citou vc, nessa epoca de abertura o experimentalismo tornava as coisas mais interessantes do que nessa epoca em que todos os filmes pornos tratam de aproveitar figuras famosas da população em cenas explicitas e nada mais. Seja Rita Cadillac ou a menina da WEB, todas são desperdiçadas em cenas convencionais desde GARGANTA PROFUNDA. O cinema porno precisa mudar!

artur disse...

dá até pra imaginar a situação caotica da coisa, ainda mais que o poster é bem sencasionalista.

Valter JR disse...

Eu devo ser mais louco do que pensei, pois curti pra caramba ese filme...rs. Ainda que não seja um bom filme, achei bem surreal, acredito que casou a proposta do Mojica com o que se viu. Foi mal nas bilheterias pq "Oh, Rebuceteio" é bem melhor, ao meu ver. Não diria que é um filme injustiçado, mas merece sim um lugar cativo na filmografia do Mojica.
Ótima crítica, Felipe! Queria ver vc comentar um filme do Sady Baby, o nosso grande cineasta do nonsense! Parabéns pelo blog, acomapnho sempre!

Felipe M. Guerra disse...

Valter, obrigado pelos elogios. Dos pornôs do Mojica, eu prefiro os "horários" (24 Horas e 48 Horas), que são muito mais divertidos, principalmente em seus defeitos.

Ainda vou publicar algo sobre o Sady Baby sim, mas tenho críticas sobre filmes do Tony Vieira na fila. Aliás, vou acabar mudando o nome do blog para FILMES PARA PERVERTIDOS, já que minhas resenhas de filmes X-Rated da Boca do Lixo sempre são as mais acessadas e comentadas! hehehehe.

artur disse...

aproveitando a ocasião, também publique mais sobre westerns nacionais, quero saber mais desse filão do Western Feijoada.

Renan disse...

Parabens pelo blog, mas como baixo os filmes?

Felipe M. Guerra disse...

Aqui é que não. Google it!!!