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quarta-feira, 6 de maio de 2009

MASSACRE EM SAN FRANCISCO (1974)


O Internet Movie DataBase, maior fonte de informações para fãs de cinema na internet, afirmava categoricamente que "O Vôo do Dragão", filme escrito e dirigido pelo astro Bruce Lee em 1972, era o único em que o ator Chuck Norris interpretava um vilão. E foi aí que eu percebi como MASSACRE EM SAN FRANCISCO era realmente uma produção das mais obscuras, pois neste esquecido filme de ação made in Hong-Kong o lendário Norris, ainda bem longe da fama, também interpreta um malvadão. (A informação incorreta foi recentemente corrigida pelo IMDB, que agora informa que Norris interpretou dois vilões em sua carreira.)

"Oficialmente", MASSACRE EM SÃO FRANCISCO é de 1974, tornando-se assim o terceiro papel creditado de Chuck Norris no cinema. Mas esta produção barata da Golden Harvest foi muito mal-lançada, e depois ficou mofando nas prateleiras da produtora. Como alguns anos depois Norris estouraria como astro, ganhando seu primeiro papel de protagonista em "Comboio de Carga Pesada" (1977), a Golden Harvest sacou o filme do depósito onde estava mofando, mudou o título original de "Karate Cop" para "Slaughter in San Francisco" (apesar de não haver nenhum massacre no filme, seja em San Francisco ou em qualquer outro lugar), e rodou novos créditos iniciais com o nome de Chuck Norris em destaque para relançá-lo nos cinemas ocidentais!


Picaretagem total, não é? E isso que nem falei do novo trailer, que tentava vender Chuck como protagonista, ou do cômico novo pôster de cinema, que anunciava "Chuck Norris explode na tela", e trazia um desenho do ator em posição de combate cercado por policiais (cena que não existe no filme!), mas sem nenhuma menção ao verdadeiro protagonista do filme - o coreano Don Wong!!!

A picaretagem estendeu-se ao Brasil: quando a FJ Lucas lançou essa porqueira em vídeo, teve bastante criatividade para criar uma capinha completamente enganosa que levava o espectador a acreditar que Chuck Norris era o verdadeiro protagonista do filme, como você pode ver abaixo (fonte: Museu do VHS, de Bruno Martino):


Não é por nada que, em diversas entrevistas depois de famoso, Norris declarou que o único filme que se arrependeu de fazer foi MASSACRE EM SÃO FRANCISCO. Mais um motivo para conhecê-lo, não é mesmo? Até porque, ao contrário da hipócrita da Xuxa, ele nunca tentou tirar o filme de circulação.

Don Wong, cujo verdadeiro nome é Wang Tao, interpreta um policial oriental que patrulha San Francisco (o filme realmente foi rodado nos States) ao lado do parceiro John Summer (Robert Jones), um policial negro com uma vasta cabeleira black power, só para lembrar que estamos vendo uma produção dos anos 70 - aposto que uma instituição conservadora, como a polícia de San Francisco, iria adorar ter policiais com cabelo black power na corporação...


O filme foi escrito e dirigido por Lo Wei, o responsável pelos dois primeiros (e CLÁSSICOS, em maiúsculas mesmo) filmes de Bruce Lee, "O Dragão Chinês" e "A Fúria do Dragão". Aqui, infelizmente, ele não estava tão inspirado, inclusive assina com o pseudônimo "William Lowe".

Seu roteiro é uma autêntica confusão. Primeiro, a dupla de policiais heróicos está dirigindo sua viatura pela rodovia quando, miraculosamente, escuta os gritos de socorro vindos de um bosque a mais de um quilômetro dali. É uma garota oriental (Sylvia Chang) que supostamente está sendo estuprada por dois valentões. Mas, depois que os policiais acabam com ambos a golpes de karatê, a moça aparece na delegacia dizendo que foi tudo um mal-entendido e pedindo para libertar os "amigos".

Depois, o policial John cai numa emboscada e é empurrado para dentro de um caminhão repleto de bandidos (nunca identificados). Levado até a praia, toma vários catiripapos até ser miraculosamente localizado pelo amigo faixa-preta Wong, que salta como um tigre sobre os agressores e, furioso, acaba matando um deles. O chefe de polícia não pensa duas vezes e expulsa o "Bruce Lee cover" da corporação, fazendo com que ele vá buscar emprego como garçom num restaurante chinês - e onde mais um oriental poderia trabalhar em San Francisco?


E eis que finalmente a história começa a entrar nos eixos: surge o malvadão Norris, chamado simplesmente "The Boss", e que vem a ser o rei do crime da cidade. Sua primeira cena no filme é queimando a mão do herói com um charuto aceso, só para dar uma amostra da sua maldade. "The Boss" acaba gostando do ex-policial, aparentemente apenas pela sua capacidade de resistir à dor da queimadura do charuto, e teima em trazê-lo para sua organização. Mas Wong é honesto e não quer saber de virar a casaca.

Então, dias depois, John tenta frustrar um assalto e é morto pelos bandidos, obviamente chefiados por "The Boss". Mesmo afastado da polícia, o herói decide investigar o caso por conta própria e vingar-se dos responsáveis. E o faz da maneira mais cômica e absurda possível: simplesmente passa os próximos 20 minutos do filme invadindo a casa de elementos suspeitos da cidade (!!!) e batendo pra caramba neles (!!!) até encontrar, por mero acaso (!!!), um dos envolvidos no crime, que entrega todos os responsáveis, inclusive um homem misterioso que vem a ser o próprio chefe de polícia de San Francisco (argh!!!).

Isso tudo apenas para levar à luta final entre Wong e Norris, que em nada lembra aquele duelo com Bruce Lee no Coliseu em "O Vôo do Dragão", mas ainda assim é muito divertido - e, claro, tem aquele velho clichê da camisa do herói rasgando para ele lutar de peito nu!!!



O filme tem também uma absurda trama paralela em que um velho comerciante chinês é preso (sem qualquer prova) pelo assassinato do policial John, e a polícia ainda tenta arrancar uma confissão do velhinho na base da porrada.

Apesar do cartaz de cinema, de alguns títulos alternativos enganosos (como "Chuck Norris Versus Karate Cop") e do fato do nome do ator norte-americano aparecer por primeiro nos créditos iniciais do filme, MASSACRE EM SAN FRANCISCO não é, de maneira nenhuma, um filme de Chuck Norris.

As cenas com o futuro astro não chegam a somar dez minutos, e ele praticamente entra mudo e sai calado, interpretando aquele tipo de vilão que passa a trama inteira dando ordens para seus subalternos, sujando as mãos apenas no final. Tirando a luta da conclusão, só existe uma ceninha mixuruca com "The Boss" treinando karatê, para quem realmente quiser ver Norris em ação.

E se como filme de pancadaria MASSACRE EM SAN FRANCISCO não é lá grandes coisas (embora algumas lutas, especialmente a final, sejam muito boas), a produção torna-se mais do que recomendada pelo inevitável fator trash. Afinal:

* Este é o segundo dos dois únicos filmes em que você poderá ver "o mito" Chuck Norris realmente apanhando. E perdendo uma luta!

* A dublagem dos personagens segue o padrão "filme de Hong-Kong" de qualidade: até Norris é dublado exageradamente e ganha sotaque inglês! Mas o cúmulo é quando um cão policial também aparece dublado: o bicho está lá quietinho, com a língua de fora, e mesmo assim algum energúmeno adicionou uma trilha de ferozes "au-aus"!!!

* O som das pancadas e do deslocamento de ar durante os golpes é tão exagerado que mesmo quando o herói e seu amigo John trocam uns tapinhas por puro fingimento (sem se acertar com força), a gente escuta algo do tipo POW! SOC! TUM!, como se ambos estivessem realmente se moendo na pancada!


* Todo mundo na polícia de San Francisco sabe lutar karatê - do policial oriental ao negro black power, passando até pelo chefe de polícia!!! -, e todos eles preferem dar bolachas nos bandidos a usar revólveres.

* Em que outro filme você vai encontrar um herói que, sem pistas para seguir, simplesmente sai dando porrada em todo mundo até que alguém confesse o que ele queria saber?

* Mesmo quando o protagonista está cercado por 15 sujeitos armados, os bandidos continuam atacando um por vez, para que cada um possa apanhar na ordem.

* O chefe de polícia parece ser um oficial da Gestapo: não só acusa um pobre velho oriental pela morte de um policial (APENAS porque o cadáver foi deixado no quintal da casa do coitado), como ainda espanca o SUSPEITO o tempo inteiro e manda prendê-lo, sem direito a fiança, mesmo que não existam provas contra ele!


* "The Boss" passa o filme inteiro tentando convencer o herói a fazer parte da sua organização, ao invés de matá-lo de uma vez. No final, Wong consegue infiltrar-se facilmente no QG do vilão e descobrir todos os seus negócios sujos APENAS dizendo algo do tipo: "Tudo bem, eu finalmente resolvi me juntar à organização". E o vilão acredita! Belo rei do crime...

* Num momento da luta final, Wong e "The Boss" caem dentro de uma fonte e ficam completamente molhados. Mas no take seguinte, ambos já estão sequinhos. Vai ver a alta temperatura da luta fez toda a água evaporar instantaneamente!

Filho do também ator George Wang (que era habitué em produções baratas de western e espionagem feitas na Itália nos anos 60 e 70), Don Wong até luta bem e convence. E não dá para relevar o fato de que ele ganha uma luta contra o Chuck Norris, caramba!


Mas a verdade é que Wong nunca fez mais do que isso, e ironicamente quem transformou-se em astro aqui foi o inexpressivo vilão do filme! Seu azar foi ter estrelado uma produção tão sem sal, em que a pobreza de recursos e de orçamento está mais do que evidente, inclusive pelo fato de o herói passar o filme inteiro com a mesma roupa (comprovando que higiene pessoal não é o seu forte).

O marketing da época tentou vendê-lo como "o tigre" (um dos muitos títulos alternativos é "Yellow Faced Tiger"), já que Bruce Lee era o dragão, mas não funcionou. Pelo menos em Hong-Kong ele continuou uma prolífica carreira que somou 40 filmes (nenhum deles fez grande sucesso), e encerrou em 1989.

Quem gosta dessas curiosidades do cinema de ação de Hong-Kong, ou simplesmente procura um filme bem ruim para dar risada, terá em MASSACRE EM SAN FRANCISCO um prato cheio. Pena que a fita VHS da FJ Lucas seja uma daquelas raridades disputadas a tapa por colecionadores, e a obra nunca tenha sido relançada numa versão decente em DVD.

Será que Norris toparia fazer uma faixa de comentário discutindo a "profundidade psicológica" do seu personagem na cena em que o vilão come uma maçã enquanto seus capangas apanham do herói?

Trailer de MASSACRE EM SAN FRANCISCO


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Slaughter in San Francisco/ Karate Cop/
Huang Mian Lao Hu (1974, Hong-Kong, EUA)

Direção: William Lowe (Lo Wei)
Elenco: Don Wong, Chuck Norris, Robert
Jones, Chuck Boyd, Sylvia Chang, Dan
Ivan e Ching-Ying Lam.

domingo, 3 de maio de 2009

LIGHTBLAST (1985)


Quando eu acabava de assistir LIGHTBLAST, fiquei imaginando o diretor Enzo G. Castellari e o roteirista Tito Carpi, alguns meses antes da produção do filme, compartilhando uma sessão de cinema de "Os Caçadores da Arca Perdida". Fascinado com a cena do derretimento do rosto dos vilões nazistas no filme de Spielberg, Castellari viraria para Carpi e iniciaria um diálogo mais ou menos assim:

- Caramba, Tito! Temos que fazer um filme assim!
- Mas Enzo, o Antonio Margheritti já está filmando uma série de cópias do Indiana Jones estreladas pelo David Warbeck, como "Os Caçadores da Serpente Dourada"...
- Você não entendeu: o que eu quero é fazer um filme onde as pessoas DERRETAM desse jeito!


E mais ou menos dessa forma pode ter surgido esta pequena e desconhecida produção misturando gêneros (policial, ação e ficção científica), em que o final de "Os Caçadores da Arca Perdida" é triplicado e temos pelo menos cinco derretimentos de pessoas muito legais em stop-motion.


Estas cenas, por sinal, são a principal atração de um filme um tanto rotineiro, que viraria produto descartável em outras mãos, mas acaba um tantinho acima da média por ter como diretor o hábil Castellari. Sem nunca deixar a peteca cair, o veterano Enzo recheou um roteiro raso como um pires (que pode ser reduzido a meia dúzia de linhas) com muitas cenas de ação, que tornam o resultado final bem melhor do que deveria ser.

LIGHTBLAST marca o início de uma época ruim para Castellari e para o cinema italiano em geral. Após o fracasso de seu ambicioso filme anterior, "Tuareg - O Guerreiro do Deserto" (1984), Enzo embarcou numa série de filmes padronizados para atingir o público norte-americano, sem muito destaque e anos-luz distante do que ele fazia antes, como "Striker" (1987, estrelado por Frank Zagarino), até acabar no comando do seriado de TV "Extralarge", com Bud Spencer.


O próprio LIGHTBLAST já tem aquela cara de produto de rotina para americano ver, com filmagens em San Francisco e a presença de um ator popular por lá, mas na época já meio decadente - Erik Estrada, astro do seriado "CHIPS" entre 1977 e 1983.

Erik interpreta um policial durão chamado Ronn Warren, que passa o filme inteiro perseguindo um cientista louco e psicótico, o dr. Yuri Sbovoda (Thomas Moore, aka Ennio Girolami, irmão de Enzo). O vilão desenvolveu um fantástico e mortífero raio laser, e ameaça a cidade com atos de terrorismo, pedindo dinheiro sob a ameaça de derreter pessoas com a arma.


A investigação do herói é relativamente descomplicada (ele encontra todas as pistas facilmente para identificar o cientista), e percebe-se logo que a investigação policial não será o grande destaque do filme. Na verdade, Castellari deu mais atenção para os tiroteios e perseguições de automóvel. Estas, para o leitor ter uma idéia, chegam a cansar, de tanto que se repetem: é praticamente uma perseguição de automóvel a cada 10 minutos.

Na conclusão, Warren persegue o veloz automóvel do vilão pilotando um igualmente veloz carro de stock-car (!!!), voando por aquelas ladeiras de San Francisco que já haviam sido imortalizadas na clássica perseguição do filme "Bullit", dirigido por Peter Yates em 1968. A cena serviria como lição para ensinar cabeças-de-bagre moderninhos a dirigir filmes de ação.


LIGHTBLAST é relativamente curtinho e, com 86 minutos repletos de ação, o espectador praticamente nem vê o tempo passar. Assim, acaba relevando os inúmeros furos de roteiro, e principalmente a inexistência de qualquer desenvolvimento dos personagens. O herói Warren, por exemplo, tem uma esposa, Jacqueline (Peggy Rowe), que só aparece em cena por alguns míseros minutos para ser baleada pelos vilões, e assim motivar uma vingança pessoal do policial contra a organização terrorista. Esta vingaça se dará através de incontáveis e mirabolantes tiroteios em câmera lenta, um dos artifícios preferidos do diretor Castellari.

A verdade é que o filme valeria apenas pelas cenas de derretimento de pessoas em stop-motion, que são muito bem feitas para uma produção barata como esta. Começa com um casal de adolescentes que está transando dentro de um vagão de trem e é acidentalmente destruído quando o dr. Sbovoda está testando o seu raio da morte. Depois vai para uma dupla de locutores de uma corrida de automóveis, derretida pelo vilão como "alerta" para o prefeito de San Francisco. Finalmente, termina com a típica justiça poética: o próprio cientista acaba morto pela sua arma!

Estes "derretimentos" são bastante violentos (clique na montagem abaixo para vê-la em tamanho ampliado), mas o filme ainda traz muitos e ensangüentados buracos de tiro à la Sam Peckinpah, não só no peito, como é tradicional, mas também na cabeça e no pescoço.


E há também tentativas de humor. No início do filme, Warren é enviado disfarçado de garçom para levar comida a uma dupla de seqüestradores que não pensa em se render(isso não tem nada a ver com a trama principal). Para não correr riscos, os meliantes exigem que o "garçom" compareça completamente nu, para não poder levar armas escondidas. E assim somos brindados com uma divertida cena em que Erik Estrada, metido numa ridícula cueca preta, dá cabo dos dois seqüestradores usando uma pistola com silenciador escondida dentro de um frango assado!!!

Talvez o grande problema de LIGHTBLAST - problema este que faz o filme ser tão facilmente "esquecível" - é a falta de um protagonista forte ou mais simpático. Afinal, quem engole Erik Estrada como mocinho fora da série "CHIPS"? Fosse um Franco Nero ou Fabio Testi no papel principal, o resultado seria completamente diferente. Do jeito que está, resta um herói pouco simpático, sem muita motivação, totalmente inexpressivo e apagado, que você esquece horas depois de ver o filme, lembrando apenas das ótimas cenas com efeitos especiais. Não tivesse a violência característica do cinema de Castellari, poderia até ser uma produção feita para a TV, tal a rotina das situações apresentadas.


LIGHTBLAST acabou se tornando uma peça rara na filmografia do italiano. Circula em raras cópias VHS e em alguns DVDs estilo Works Filmes, com cópia retirada da velha fita de vídeo mesmo, mas sem nenhuma remasterização. No Brasil, ele foi lançado em VHS pela Look Vídeo como "A Máquina do Extermínio", em outra fitinha que logo acabou se tornando raridade.

Via Emule ou torrents, infelizmente, a única maneira de localizar o filme é numa versão dublada em italiano, por sinal gravada direto da TV italiana. Mas, para quem quiser ter uma idéia, há algumas cenas da versão em inglês no YouTube, inclusive um dos derretimentos de pessoas.

E se o filme está longe de ser uma das grandes obras de Enzo G. Castellari, ainda assim diverte e traz algumas cenas bem acima da média. Afinal, até os filmes mais fraquinhos do diretor são melhores que muita bobagem que se faz hoje com um orçamento infinitamente maior - e por gente infinitamente MENOS talentosa!

Veja o derretimento de pessoas em LIGHTBLAST


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Colpe di Luce/ Lightblast (1985, Itália)
Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Erik Estrada, Thomas Moore (Enio
Girolami), Michael Pritchard, Peggy Rowe
e Massimo Vanni.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Outros filmes que você infelizmente NÃO vai ver num cinema perto de você


AVENTURAS DE UM CAÇADOR (2003, Recife - PE)

Dirigido pelo auxiliar de enfermagem recifense José Manoel, "Aventuras de um Caçador" dá uma idéia de como seriam os filmes de Simião Martiniano ou Seu Manoelzinho se eles tivessem uma produção melhorzinha e, principalmente, edição feita no computador: embora visualmente a obra seja caprichada, a falta de história para contar, as idas-e-vindas sem necessidade e as interpretações exageradas dos atores amadores lembram que estamos diante de um legítimo exemplar do "Cinema de Bordas".

A história acompanha as aventuras de um jovem chamado André, que se embrenha na mata para procurar o pai que ele nunca conheceu, mas sabe que é caçador. No seu encalço estão dois presidiários que ganharão a liberdade caso consigam capturar o rapaz. Todos estes personagens acabam cruzando com o caçador do título. E o "quase longa-metragem" de 55 minutos fica nisso, apenas registrando as inúmeras andanças dos personagens pela mata, registrando sotaques e hábitos bem característicos da região em que foi produzido.

"Aventuras de um Caçador" tem algumas cenas involuntariamente hilárias, como o reencontro entre pai e filho no meio do bosque. Quando o garoto diz que procura pelo pai caçador que se chama Fulano e tem uma mãe chamada Beltrana, o outro responde: "Me chamo Fulano e minha esposa é a Beltrana... Mas tem muitos Fulanos e Beltranas no mundo". Meros dois segundos depois, o caçador finalmente recebe alguma iluminação divina e então se rende: "Mas agora eu reconheço você como meu filho!".

Em dois momentos, ainda, personagens diferentes vêem-se em dificuldades por picadas de aranha-caranguejeira e de cobra venenosa. O primeiro fica caído no chão gritando incontáveis "Ai meu Deus" (pelo menos uns 30), e o segundo acaba cego (???) após a picada e, encostado a uma árvore, murmura sem um pingo de emoção: "Socorro, tou cego... Fui mordido de cobra! Socorro!". hahahaha.

Momentos como estes tornam o filme até divertido, mas é inútil tentar acompanhar a história, já que não acontece muita coisa (apesar das várias ameaças de que haverá algum conflito violento entre os personagens, conflito esse que nunca vem), e a conclusão apenas confirma o nada.



O RICO POBRE (2002, Mantenópolis - ES)


Tentar analisar um filme do folclórico Manoel Loreno, o "Seu Manoelzinho", como se fosse um filme comum é pura perda de tempo. Com lapsos temporais, edição tosca, personagens que aparecem e desaparecem e história e diálogos improvisados na hora, suas obras são quase surreais, além de bastante divertidas na sua ingenuidade e falta de recursos - Seu Manoelzinho não teria as menores condições técnicas e financeiras de fazer filmes, mas os faz, e só por isso eles já são obrigatórios.

Ele é fã de filmes de western (já fez os seus próprios, entre eles o cult "O Homem Sem Lei"), mas este "O Rico Pobre" é a sua tentativa de fazer uma comédia dramática no estilo Chaplin ou Mazzaropi, ancorada somente no seu carisma como protagonista. Manoelzinho interpreta um pobretão que vive num barraco com a esposa (muito mais jovem que ele) e com dois filhos pequenos. Certo dia, quando vai à cidade para comprar comida, resolve gastar o único dinheiro que possui num bilhete de loteria, e ganha a "fortuna" de R$ 300 mil. Feliz com a reviravolta, ele resolve queimar o barraco e todos os seus antigos pertences para comprar uma fazenda. Mas, acidentalmente, acaba queimando o bilhete premiado entre as tralhas!

É perceptível a improvisação de praticamente todas as situações, já que Manoelzinho se desloca pelo cenário falando o que bem quer, saindo de cena, voltando para a cena e deixando todos os outros "atores" completamente perdidos com o que parece inventar na hora. Lá pelas tantas, o que era comédia se transforma em filme de bangue-bangue, com o protagonista sacando seu revólver para enfrentar a polícia. Estes estão entre os momentos mais bizarros do cinema do mítico Loreno: mesmo tomando tiros à queima-roupa dos policiais, seu personagem não morre em momento algum!

Como é inútil tentar analisar o filme de uma forma convencional, o negócio é relaxar, munir-se de um pouco de paciência (pois as situações repetitivas tornam os 56 minutos mais longos do que realmente são) e dar muita gargalhada com a edição que faz sumir/aparecer pessoas em cena, com os "figurantes" que passam o tempo inteiro olhando para a câmera e com os cenários toscos que lembram uma espécie de "Dogville" nada intencional (o barraco do protagonista são quatro varas com um pedaço de lona em cima!).

Quem conhece o trabalho do Seu Manoelzinho diz que o filme foi um sucesso e já tem até remake assinado pelo próprio...

Veja uma entrevista com Seu Manoelzinho




O FAROL (2007, Pedralva - MG)

Eu estava ansioso para ver "o retorno de Manjuba", já que este curta-metragem é escrito, dirigido e estrelado pelo mesmo Francisco Caldas de Abreu Jr. que fez o engraçadíssimo "A Dama do Lago" (onde interpretava o impagável Manjuba). Pena que este outro curta é bem sem graça. Em compensação, as interpretações forçadas, a edição (ou inexistência dela) e a falta de intimidade com a câmera estão ainda mais evidentes do que no outro filme.

A trama parte de uma "lenda urbana" da cidade do cineasta: um farol misterioso que aparece na estrada à noite assustando motoristas e pedestres. Após intermináveis "cenas de arquivo", mostrando um baile de Carnaval e uma procissão de Corpus Christi na cidade (estas últimas trazem até a legenda com a data e a hora da filmagem, que o diretor esqueceu de tirar na hora de gravar!!!), três personagens, entre eles um interpretado por Francisco (vamos continuar chamando-o de Manjuba), começam a confabular sobre o tal farol e resolvem investigar o mistério.

O resto do curta acontece praticamente apenas na estrada, com Manjuba e seu amigo dirigindo um Fusquinha de uma cidade a outra para "entrevistar" pessoas e conhecer mais sobre a lenda do farol (com direito a cenas em preto-e-branco num flashback!). Tudo em clima de comédia involuntária, é claro.

Por mais que estes filmes feitos nos cafundós do Brasil sejam toscos e mal-feitos, eles continuam exercendo um estranho fascínio em quem gosta de cinema, como eu. Talvez porque imortalizem a paixão pelo cinema de um grupo ou comunidade, que dribla a falta de recursos (no caso de "O Farol", esta falta de recursos é gritante) e lança seu filme de qualquer jeito. "O Farol" pode até ser pior que "A Dama do Lago", mas me deixou curioso para conhecer outras pérolas do Francisco Caldas de Abreu Jr.



O SOCO SILENCIOSO (2009, São Leopoldo - RS)


Após dois filmes de horror ("Massacre Cirúrgico" e "Onde as Coisas Cruéis Vivem"), meu conterrâneo gaúcho Lucas Moreira ataca no cinema experimental com o curta-metragem "O Soco Silencioso", uma fotomontagem (feita com dezenas de fotografias em preto-e-branco) de 15 minutos de duração. A principal inspiração foi o clássico curta francês "La Jetée", dirigido por Chris Marker em 1962, e que explorava uma trama de viagens no tempo também utilizando fotografias em preto-e-branco.

Tecnicamente, "O Soco Silencioso" é belíssimo. O curta narra uma troca de diálogos meio aleatórios entre dois homens num quarto escuro, e o tom cada vez mais agressivo da conversa logo evolui para o que se espera: um deles pede para que o outro decepe o seu braço com uma serra. E assim... a história termina!

Talvez este seja o grande defeito do trabalho de Lucas: conquista o espectador pelo visual acachapante, pela música hipnótica e pelo tom dos diálogos entre as duas únicas figuras em cena, mas termina sem explicar ao que veio, deixando margem para várias interpretações (a dupla matou alguém e sofre uma crise de consciência? um representa o alter-ego do outro? ou é apenas blablabla filosófico mesmo?), mas sem dar muitas pistas e elementos para que qualquer associação possa ser feita.

Trata-se de um trabalho bastante difícil e diferente, e só por isso já merece ser conhecido. Inclusive fico imaginando a trabalheira para fazer, compor e editar todas as fotografias no formato de um curta-metragem. Só fiquei boiando mesmo na narrativa; talvez uma historinha mais convencional e com menos simbolismos deixasse o curta mais acessível.



MANGUE NEGRO (2008, Guarapari - ES)


O clássico dos clássicos do cinema independente brasileiro recente. O filme que todo cineasta de bordas quer fazer quando crescer. Tanto que eu brinquei com o fato de o meu filme amador e toscão "Patricia Gennice" ter sido exibido antes de "Mangue Negro" na mostra do Itaú Cultural: é a mesma coisa que uma bande de garagem ser convidada para abrir um megashow dos Beatles ou dos Rolling Stones!

Escrito e dirigido pelo gente-fina Rodrigo Aragão, que também é técnico em efeitos especiais, "Mangue Negro" recria alguns dos melhores momentos de filmes como "Fome Animal", "Evil Dead" e as produções de mortos-vivos de George A. Romero, porém num cenário tipicamente brasileiro (um mangue no interior do Espírito Santo), e com personagens tipicamente brasileiros. Esta, acredito, é a grande qualidade e principal virtude do filme do Aragão: seus personagens são gente comum como uma velha benzedeira e um catador de caranguejos, personagens que não vemos nos filmes de terror "normais" nem nas imitações destes.

Como todo bom filme de mortos-vivos que se preze, "Mangue Negro" mostra uma contaminação zumbi que se espalha pelo mangue, transformando pescadores de uma comunidade pobre em monstros devoradores de carne humana. O filme se desenvolve através de várias linhas narrativas para acompanhar as situações envolvendo diferentes personagens (como se fossem episódios dentro de uma trama maior), até que eles se cruzam e passam a lutar juntos pela sobrevivência.

Mas o fio condutor da narrativa é o amor platônico entre Luís (Walderrama dos Santos) e a lavadeira Raquel (Kika de Oliveira), que finalmente se vêem muito próximos quando ele começa a dizimar os zumbis com sua machadinha para proteger a amada.

Repleto de gosma e com banhos de sangue (literalmente) no protagonista, lembrando os bons tempos de "Evil Dead" e "Fome Animal", o filme conta ainda com maquiagens e efeitos especiais de primeira linha, que colocam a produção um passo acima de qualquer outro filme "de bordas" apresentado no Itaú Cultural. É coisa fina mesmo, profissional, digna dos melhores momentos do gênero, com cenas de carnificina brilhantemente sublinhadas pela belíssima trilha sonora original da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo.

Se "Mangue Negro" tem um defeito, este é uma quebra no ritmo no ato final, quando uma cena na casa de Dona Benedita, a benzedeira, se arrasta muito mais do que deveria, retardando os ataques de zumbis. Mas é um problema que se esquece facilmente quando o sangue volta a jorrar, e o filme termina de forma fantástica, na hora certa, comprovando que Aragão, além de mestre dos efeitos especiais, também sabe direitinho como contar uma história!

Em uma única palavra: IMPERDÍVEL.

Veja o trailer de MANGUE NEGRO

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Filmes que você infelizmente NÃO vai ver num cinema perto de você


E foi um sucesso de público e crítica a mostra Cinema de Bordas, realizada durante a semana que passou no Itaú Cultural, em São Paulo, com curadoria dos professores e pesquisadores Bernardette Lyra e Gelson Santana. Entre a quarta-feira, 22, e o domingo, 26 de abril, foram exibidos 17 filmes vindos de todas as partes do Brasil, praticamente de um extremo a outro - da minha longínqua cidade de Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul, até Manaus, no Amazonas.

Um grande e interessado público participou das sessões realizadas em plena Avenida Paulista, valorizando um tipo de cinema extremamente popular que, infelizmente, você não vai ver num cinema perto de você.

Eu mesmo fui quase todos os dias para conferir os outros filmes, embora tenha perdido alguns. Antes de passar a um breve relato do que vi nesta semana de Cinema de Bordas, vou puxar a brasa para o meu assado: na tarde de domingo, o cinema do Itaú Cultural ficou lotado para a exibição de meu primeiro longa-metragem, a comédia romântica PATRICIA GENNICE, filmada em 1998 e reeditada em 2008. A "director's cut" foi exibida pela primeira vez em São Paulo!

Inicialmente, fiquei meio envergonhado por mostrar este filme a um público paulista, pois eu não sabia como iriam reagir diante de uma história bastante regional (que faz mais sentido para quem conhece ou mora na cidade de Carlos Barbosa, onde foi filmado). Além disso, a mostra tinha exibido algumas produções muito bem-feitas nos dias anteriores, e a minha era tão tosca que dava ate pena.

Mas, quem diria, o público aparentemente curtiu. Pelo menos riram do começo até o fim dos 57 minutos da projeção, e aplaudiram fortemente duas vezes ao final. Me senti na entrega do Oscar!

Além disso, num daqueles momentos inesperados, o pessoal do Itaú Cultural resolveu aproveitar que eu era um dos únicos "diretores" presentes na exibição de seu próprio filme, e me passaram um microfone para responder perguntas da platéia. Qual não foi minha surpresa quando umas 50 pessoas sentaram-se e ficaram fazendo perguntas e ouvindo as respostas, ao invés de se mandar do recinto... E isso que foram uns 20 minutos de bate-papo, onde pude esmiuçar o planejamento e realização do filme e fazer propaganda das minhas outras obras, além de vender meus DVDs.

E me deixou realmente emocionado a presença de algumas celebridades entre o público, como o diretor da Boca do Lixo Luiz Gonzaga dos Santos (que fez "Patty, A Mulher Proibida", com Helena Ramos, e elogiou publicamente o PATRICIA GENNICE), e o amigo Eduardo Aguilar, diretor de curtas profissionais e elogiados como "Lourdes - Um Conto Gótico de Terror" e "Dias Cinzentos", além de outros queridos amigos e amigas de São Paulo e dos meus pais.

Resumindo: um dia de glória para a pequena Necrófilos Produções Artísticas e seus filmes feitos em VHS com 200 reais!

Vamos agora aos colegas de mostra:


HORROR CAPIAU (2007, São Paulo - SP)


Alegadamente filmado num intervalo de 20 minutos de um outro trabalho que a equipe estava desenvolvendo, este curta-metragem explora o filão "redneck exploitation", bastante comum no cinema norte-americano ("O Massacre da Serra Elétrica", alguém?), mas praticamente uma novidade aqui no Brasil.

Dirigido por Dimitri Kozma, mostra um caipira aparentemente inocente (Raphael Borghi) saindo para uma incontrolável onda de assassinatos nas redondezas da sua fazenda, enquanto um cego masoquista (Rubens Mello) fica esfolando a própria pele com uma agulha. No final, os dois personagens se cruzam e é explicada a conexão entre eles.

Simples e direto, "Horror Capiau" só peca mesmo pela falta de gore, já que não aparece nem uma mísera gotinha de sangue falso (compreensível, quando se descobre que o curta inteiro foi gravado em apenas 20 minutos!!!). Mas é bem legal, com alguns inusitados ângulos e movimentos de câmera, e a presença de dois atores vistos em "Encarnação do Demônio", Rubens Mello e Lenny Dark (que atualmente é esposa do próprio).

O curta inteiro está disponível no YouTube, e a curiosidade é o fato de haverem duas versões: esta chamada "Horror Capiau" foi dirigida e editada pelo próprio Dimitri, mas o ator Mello fez sua própria montagem, chamada "Demência" e com várias diferenças, também disponível no Youtube.

Assista o curta HORROR CAPIAU




O ASSASSINATO DA MULHER MENTAL (2008, São Paulo - SP)

Um ótimo curta-metragem escrito e dirigido por Joel Caetano, que já havia feito o divertido "Minha Esposa é um Zumbi". Com uma equipe formada basicamente por familiares e pouquíssimos recursos, ele conseguiu uma façanha digna de respeito: contar uma história de super-heróis brasileiros que convence, com uma estrutura narrativa bem parecida à da graphic novel "Watchmen", mas 2h30min mais curta que o filme norte-americano dirigido pelo "visionário" Zack Snyder.

O curta mostra uma equipe de super-heróis brasileiros formada pelo Hiper-Homem (o próprio Joel), pela sua amada Mulher Mental (Mariana Zani, esposa do diretor) e pelo violento Bruma (Danilo Baia, o "Danny Trejo paulista", aqui numa versão nacional do Rorschach de "Watchmen").


A história, como nos quadrinhos escritos por Alan Moore, começa com o assassinato da Mulher Mental, anos após a aposentadoria forçada do grupo (através de "programas de TV" que vão interrompendo a narrativa, ficamos sabendo como os heróis se reuniram e porque se separaram). Bruma e o Hiper-Homem investigam o crime e descobrem uma trama mirabolante que envolve a Floresta Amazônica, clones e ótimos efeitos especiais, ainda mais considerando que esta é uma produção barata feita em casa.

O fato de o diretor e roteirista Joel ser apaixonado por quadrinhos fica evidente ao longo de todo o trabalho, que traz algumas divertidas montagens fotográficas, como a recriação da clássica capa da Action Comics com o Superman erguendo um automóvel nos braços (aqui é o Hiper-Homem erguendo uma velha Rural!!!). Vale a pena conhecer este impressionante trabalho, e no fim dá até vontade de ver novas aventuras dos super-heróis brasileiros...

Veja o trailer de O ASSASSINATO DA MULHER MENTAL




A DAMA DA LAGOA (1997, Pedralva - MG)

Ah, esses diretores-amadores maravilhosos e seus fantásticos filmes toscos... O diretor, roteirista e "astro" Francisco Caldas de Abreu Jr. foi o responsável por uma das grandes surpresas da mostra, um filme simplesmente divertidíssimo em seus defeitos e na sua ingenuidade.

Trata-se de uma história de crime e vingança sobrenatural, realizada de maneira inclassificável. Francisco aparece como um agricultor chamado "Manjuba", e simplesmente rouba o filme ao repetir, a cada cinco minutos, todos os acontecimentos que se desenrolaram até então (ele faz isso umas quatro vezes). E ele ainda tem ataques de gagueira que foram mantidos na edição, como quando Manjuba alega que um amigo teve uma "alu... aluci... aluci... alucinação".

"A Dama da Lagoa" é aquele tipo de filme feito mais no improviso do que com preocupações técnicas ou narrativas. Por exemplo, quando uma atriz coadjuvante entrega um diário à polícia, e esquece o único texto que deveria falar no filme inteiro, simplesmente dá uma risadinha sem jeito e espera muda até que o outro ator a ajude, improvisando o restante do diálogo. E é justamente por momentos como estes que o curta-metragem (de apenas 20 minutos) é tão divertido, valorizando sotaques e pessoas que jamais teriam chance no "cinemão" oficial.

Ao que parece, Francisco e sua equipe moram beeeeem no interior de Minas Gerais, onde o sujeito é incomunicável por e-mail (que não possui) e até por telefone. Em uma entrevista, a curadora Bernardette Lyra revelou a dificuldade para fazer contato com ele, quando, ao ligar para sua casa, atendeu uma mulher:

- Eu poderia falar com o cineasta Francisco Caldas de Abreu Jr.?

- Ih, ele tá na roça, só volta à tarde.

- Faz tempo que tento contato por esse telefone...

- É que aqui, quando chove, o telefone fica um tempo sem funcionar.




A CAPITAL DOS MORTOS (2008, Brasília - DF)


Quando se falava em "filmes nacionais independentes com zumbis", minha única lembrança era o média-metragem trash "Zombio", que o catarinense Petter Baiestorf dirigiu em 1999. Isso até agora, claro, pois nos últimos anos foram lançadas mais 4 (!!!) produções brasileiras com mortos-vivos.

"A Capital dos Mortos", do brasiliense Tiago Belotti, é uma das melhores, aliando doses de humor e personagens simpáticos ao sangrento massacre realizado pelos mortos-vivos em pleno Distrito Federal. A bem da verdade, eu já havia visto o filme em DVD, mas é outra coisa você conferir numa sala de cinema, rodeado por pessoas com reações bem diferentes às cenas - e por isso é uma pena que este filme não vá passar num cinema perto de você...

O longa parte de uma suposta profecia escrita por Dom Bosco no final do século 19, sobre o apocalipse e seu início justamente em Brasília. A partir de então, o filme só vai surpreendendo mais e mais o espectador, seja por já começar com um casal de lésbicas se beijando, seja pela impressionante visão de mortos-vivos bem-feitinhos cambaleando diante de conhecidos pontos turísticos de Brasília - inclusive a Esplanada dos Ministérios!

A história é aquela tradicional dos filmes de George A. Romero (fartamente citados o tempo inteiro), mas com personagens carismáticos e engraçados, como o rapaz chato que fica provocando o amigo enquanto jogam uma partida de futebol no videogame (meu irmão faz exatamente a mesma coisa!). E quando o massacre começa é pra valer, com muitas cenas de banquetes de carne humana, tripas e órgãos arrancados, cabeças explodidas com tiros e até uma zumbi peladona (frente e verso).

Uma grata surpresa que merece ser conhecida, principalmente pelos fãs do gênero, principamente por duas participações geniais: uma de José Mojica Marins, e a outra uma ponta "além-túmulo" do falecido cineasta trash brasiliense Afonso Brazza (em cena retirada de um dos seus filmes).

Veja o trailer de A CAPITAL DOS MORTOS




RAMBÚ 4 - O CLONE (2008, Manaus - AM)

O "Rambo da Amazônia" Aldenir Coty já virou figura folclórica em todo o Brasil, tendo ganhado inclusive uma engraçada reportagem em rede nacional via Fantástico. Pode-se dizer que a persona do "Rambú", uma versão amazonense do famoso personagem de Sylvester Stallone, é muito mais divertida que o filme em si. Até porque esta comédia dirigida por Júnior Castro é bem bobinha, com um humor sem graça estilo "Zorra Total" - incluindo muitaaaaaas piadas com homossexuais.

A trama é uma bobagem sem pé nem cabeça, envolvendo um clone do Rambú (tão feio quanto o original, diga-se de passagem) e um travesti maléfico, que morreu no filme anterior, mas aqui é ressuscitado por um pai-de-santo. Eles seqüestram o pajé, líder espiritual de Rambú, na tentativa de conquistar a Amazônia, e o herói parte para destruir seus inimigos num festival de inacreditáveis cenas de pancadaria e tiroteios - acompanhados por uma trilha sonora inqualificável.


Folclórico e impagável, é um filme que vale a pena conhecer, até porque Coty leva a coisa muito a sério, ao contrário de todos os outros envolvidos. E é só o Rambú entrar em cena que as risadas estão garantidas, principalmente durante as inúmeras cenas de ação improvisadas, com sonoplastia exagerada remetendo aos filmes de pancadaria de Hong-Kong dos anos 70.

Também há inúmeros momentos impagáveis, como uma perseguição de lanchas que é surpreendente para um filme amador (e também muito trash porque Rambú, após derrubar seus rivais no rio, imediatamente joga um colete salva-vidas para que os atores não se afoguem!) e a cena em que o herói sai debaixo d'água em câmera lenta para disparar uma flechada num inimigo.

Veja o trailer de RAMBÚ 4 - O CLONE



(CONTINUA NUMA FUTURA ATUALIZAÇÃO!)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Mostra Cinema de Bordas em SP


Começou oficialmente nesta quarta-feira a Mostra Cinema de Bordas, que o Itaú Cultural promove até o domingo, 26 de abril, reunindo produções independentes e/ou amadoras vindas de todas as partes do Brasil, e exibindo-as em pleno glamour da Avenida Paulista, em São Paulo.

A importância de uma mostra como essa é algo indescritível: para o público, é uma oportunidade única (e GRATUITA) para ver filmes vindos de diferentes partes do país e realizados à margem do cinemão comercial, de maneira improvisada e sem recursos, por cineastas auto-didatas que, na "vida real", são estudantes, jornalistas, donos de locadora e até camelôs e agricultores; para os próprios realizadores, também é uma oportunidade única de mostrar seus trabalhos num espaço nobre e com toda a divulgação, já que o grande problema de quem faz filme independente é justamente a distribuição.

Eu também estarei presente na Mostra com meu primeiro longa-metragem, uma comédia romântica de 1998 chamada PATRICIA GENNICE, que tem 57 minutos e conta a história improvável de um jovem que marca encontro com a garota mais cobiçada de uma pequena cidade, mas nunca consegue chegar à casa dela por ironias do destino - uma espécie de "Depois de Horas", do Scorsese, em versão adolescente.

Trailer de PATRICIA GENNICE


PATRICIA GENNICE será exibido no encerramento do Cinema de Bordas, às 17 horas do domingo, 26 de abril, antecedendo a exibição do elogiadíssimo filme de zumbis MANGUE NEGRO, de Rodrigo Aragão, vindo diretamente do Espírito Santo. Além deste, outros três filmes nacionais com mortos-vivos participam da Mostra: ERA DOS MORTOS, A CAPITAL DOS MORTOS e ZOMBIO.

Segue a programação completa, e reforço o convite para a galera de Sampa conferir essa mostra fantástica e dar o devido reconhecimento a quem consegue fazer muito com quase nada:

QUINTA-FEIRA, 23 de abril
17 horas:
- Insector Sun: O Guardião da Terra/A Hora da Verdade (dir: Chris Lee, SP, 2008, 40 min)
- Cocô Preto (dir: Marcos Bertoni, SP, 2008, 16 min)
- Era dos Mortos (dir: Rodrigo Brandão, MG, 2007, 42 min)
20 horas:
- O Assassinato da Mulher Mental (dir: Joel Caetano, SP, 2008, 20 min)
- A Capital dos Mortos (dir: Tiago Belotti, DF, 2008, 87 min)


SEXTA-FEIRA, 24 de abril
17 horas:
- O Soco Silencioso (dir: Lucas Moreira, RS, 2009, 15 min)
- Rambú IV: O Clone (dir: Júnior Castro, AM, 2008, 80 min)
20 horas:
- Aventuras de Um Caçador (dir: José Manoel, PE, 2003, 55 min)
- Um Rico Pobre (dir: Manoel Loreno aka Seu Manoelzinho, ES, 2002, 56 min)


SÁBADO, 25 de abril
17 horas:
- A Valise Foi Trocada (dir: Simião Martiniano, PE, 2007, 90 min)
20 horas:
- Desaparecidos (dir: Antonio Marcos Ferreira, PR, 2006, 75 min)
- Zombio (dir: Petter Baiestorf, SC, 1999, 45 min)


DOMINGO, 26 de abril
17 horas:
- O Farol (dir: Francisco Caldas de Abreu Jr., MG, 2007, 29 min)
- Patrícia Gennice (dir: Felipe M. Guerra, RS, 1998, 57 min)
20 horas:
- Mangue Negro (dir: Rodrigo Aragão, ES, 2008, 100 min)

Entrada franca - ingresso distribuído com meia hora de antecedência


SERVIÇO
Itaú Cultural - Sala Itaú Cultural
Avenida Paulista 149 - Paraíso - São Paulo SP
[próximo à estação Brigadeiro do metrô]
informações (11) 2168 1777

sábado, 18 de abril de 2009

48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE (1986)


Embora tenha ficado imortalizado com o seu personagem Zé do Caixão, nas produções de horror que realizou em meio século de carreira, o brasileiro José Mojica Marins foi obrigado a dirigir alguns filmes pornográficos durante uma época de vacas magras nos anos 80. Ironicamente, estes quatro filmes explícitos - "A Quinta Dimensão do Sexo" (1984), "24 Horas de Sexo Explícito" (1984-85), "Dr. Frank na Clínica das Taras" (1986) e 48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE (1986) - são de longe as obras mais assustadoras da sua carreira!

Muitos podem, hoje, condenar Mojica por ter dirigido estas produções paupérrimas, alegando que elas representam uma espécie de suicídio para a carreira de qualquer cineasta sério. O que estes moralistas-de-cuecas esquecem é que o mercado cinematográfico brasileiro dos anos 80 tinha se rendido à sacanagem, e qualquer diretor mais ou menos sério estava investindo na putaria, e até as produções mais classudas da época, se não traziam as cenas explícitas dos pornôs da Boca do Lixo, pelo menos tiravam a roupa de suas estrelas sem nenhum pudor. Bons tempos aqueles em que o sujeito ia ao cinema para ver Sônia Braga, Christiane Torloni, Vera Fisher e Cláudia Ohana peladas...


Além disso, a carreira de Mojica já parecia morta e enterrada. Ele realizava filmes por encomenda desde os anos 70 (inclusive algumas paupérrimas pornochanchadas que, envergonhado, assinou com o pseudônimo "J. Marreco"), e sua última produção realmente autoral foi "Perversão", de 1978. Sem grana para filmar o tão sonhado "Encarnação do Demônio" (que só foi sair em 2007!) e sem incentivos fiscais do governo, como outros cineastas bem mais medíocres do período, o pobre Mojica viu-se perdido no universo do sexo explícito graças ao amigo-da-onça e produtor Mário Lima.

48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE é a seqüência do trabalho pornográfico mais famoso da dupla Mojica/Lima: "24 Horas de Sexo Explícito", um dos grandes fenômenos de bilheteria de 1985 (ficou mais de 20 semanas em cartaz em pleno centrão de São Paulo!). E isso que Mojica tentou fazer o pornô mais sujo e tosco de todos os tempos, com um elenco de jaburus de dar dó e até a primeira cena explícita de zoofilia do cinema nacional, entre o pastor-alemão Jack e a veterana do pornô Vânia Bournier. Esta cena não tem nada a ver com a "trama" principal, e só está no filme porque o diretor sabia que, com aqueles bagulhos que tinha no elenco, só mesmo um cachorro transando para atrair público.


Apesar dos protestos de Mojica (ele chegou a dizer que fez o filme tão tosco porque queria que o sujeito saísse do cinema e nunca mais quisesse fazer sexo na vida!), o sucesso comercial de "24 Horas de Sexo Explícito" encheu os bolsos de Mário Lima, e o produtor convenceu o amigo a rodar uma continuação. Assim surgiu 48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE, que é bem mais interessante do que o anterior por trazer um argumento metalingüístico (já explico), e também porque os bagulhos do filme anterior foram substituídos pela nata do pornô da Boca do Lixo (com dinheiro na mão é outra coisa, não é?).

Com argumento e roteiro do próprio Mário, o filme começa mostrando as filas nos cinemas paulistas que exibem "24 Horas de Sexo Explícito". Em seguida, vemos o próprio Mojica (vestido de terno e gravata, posando de grande magnata do cinema) e o próprio Mário Lima (com uma berrante jaqueta vermelha, e dublado com uma cômica voz de galã) sendo levados para um encontro com uma famosa psiquiatra num casarão chique. Detalhe é que ambos são conduzidos por um motorista numa velha perua caindo aos pedaços, já que não havia limusine à disposição da produção!


A psiquiatra é a dra. Margareth, interpretada pela veterana do pornô nacional Andréa Pucci (de "O Delicioso Sabor do Sexo" e "Hospital da Corrupção e dos Prazeres"). Ela explica à dupla que viu "24 Horas de Sexo Explícito" várias vezes (!!!), e acredita que ambos seriam as pessoas mais qualificadas (hahaha) para dirigir um novo filme pornográfico sob encomenda, desta vez com "fins científicos", já que a psiquiatra é uma pesquisadora do comportamento sexual humano (esqueça isso, porque não faz a menor diferença).

Em seguida, vemos Mojica e Mário em plena pré-produção do próprio 48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE, quando o roteiro tenta nos convencer de que ambos são tão organizados ao planejar os mínimos detalhes da película, mas, como sabe qualquer um que conhece um mínimo da carreira do diretor, ele não tinha nada de organizado! A dupla constrói um cenário luxuoso, contrata os grandes astros da Boca, submete todos a rigorosos exames médicos (hahahaha) e em seguida propõe uma grande maratona sexual para escolher o novo campeão do sexo.



Quem viu "24 Horas de Sexo Explícito" lembra que a história era mais ou menos a mesma, com a diferença de que lá a maratona era de apenas um dia, e não dois (dãããã...). E dois atores deste primeiro filme, Sílvio Júnior (de "Sexo Erótico na Ilha do Gavião") e Antônio Rody ("Sexo dos Anormais"), inclusive voltam para a maratona. Além deles, participam nomes famosos dos pornôs da Boca, como Walter e Eliane Gabarron, Oswaldo Cirillo e Priscila Muller, entre outros.

O vencedor, claro, será o homem que gozar mais vezes (as ejaculações são somadas num computador!!!), e a competição é controlada por garotas vestidas como bandeirinhas de futebol (uma delas na verdade é um traveco que, lá pelas tantas, participa da ação) e pelo mesmo juiz gay de "24 Horas de Sexo Explícito", aqui vestido de imperador romano e assessorado por um papagaio boca-suja que também apareceu no pornô anterior de Mojica - e que fica fazendo piadinhas sem graça entre todas as cenas de sexo!

Perto do final, a dra. Margareth finalmente revela a Mojica e Lima seu trauma: ela é frustrada sexualmente porque sua grande fantasia é fazer sexo com um touro (!!!). Para realizar o desejo da pesquisadora, Mojica manda construir uma vaca mecânica (!!!) e, no final antológico, coloca a garota nua no interior do bicho, tentando atrair algum touro safado para fazer o serviço. Felizmente, apesar de várias cenas de touros trepando com vacas e de cavalos com éguas enxertadas na edição, nenhum animal verdadeiro se assanha para cima da vaca falsa, e a solução é mandar um cara vestido de Bumba-meu-Boi para realizar a missão! A cena é simplesmente surreal, e parece saída do universo bizarro de David Lynch! (Clique na colagem abaixo para vê-la ampliada.)


Como todos os pornôs dirigidos por Mojica, 48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE é uma porquice: desafio qualquer pessoa normal a ficar excitada diante dos closes feios e toscos de pintos moles e pererecas peludas. As cenas de sexo explícito, quem diria, são o pior deste que é um FILME PORNOGRÁFICO! Confesso que me diverti bem mais com Mojica e Mário bancando os "bambambans" do cinema nacional e com as cenas que mostram os bastidores da filmagem de uma produção pornográfica do que com as trepadas, que afinal são a razão do filme existir.

Mojica, definitivamente, não nasceu para a pornografia. Como muito bem observou Ruy Gardnier no livro "José Mojica Marins - 50 Anos de Carreira", "as cenas de carnes batendo uma contra a outra não cumprem função nem de erotismo, nem de excitação sexual. Os filmes de sexo [de Mojica] não têm muita coisa de sexual". Assim, as trepadas são apenas uma seqüência de closes, que não permitem identificar quem está comendo e quem está dando - seguidas por takes im-pa-gá-veis dos sujeitos fazendo exageradas caras de prazer!!!


Realmente divertidas, portanto, são cenas absurdas como a do sujeito que, em meio à maratona, tem um princípio de infarto e cai estatelado no chão - e Mojica incentiva os outros atores a continuarem transando, dizendo que aquilo é "um acidente normal de trabalho", enquanto médicos retiram o pobre coitado de cena! Ou a "pausa para o lanche" da maratona, com o pessoal pelado comendo aperitivos que, muito provavelmente, acabaram cobertos de pentelhos (hahahaha).

Ou, ainda, uma cena nada a ver com sexo em que Mojica, Mário, a dra. Margareth e seu futuro noivo vão jantar numa churrascaria (!!!), e somos brindados com uma nada erótica "participação especial" do cantor Carlos Lombardi, cantando o tango "El Dia que Me Quieras", de Gardel, coisa que combina 100% com um filme pornô (e tenho certeza que o próprio Lombardi "adorou" ser incluído como participação especial numa produção X-Rated!).

E se as cenas de sexo são genéricas, sem-graça e bem nojentas, com uma trilha sonora de pomposas músicas românticas que só piora tudo, em alguns momentos a coisa é tão tosca que também se torna divertida. Como quando Sílvio Júnior, na véspera de encerrar as 48 horas da maratona, não consegue gozar mesmo sufocado de mulheres nuas, e então afasta todas e diz: "Vou ter que usar minha arma secreta!". Põe-se, então, a descascar a banana enquanto faz uma expressão concentradíssima de monge budista, um momento tão constrangedor quanto engraçado.



O roteiro escrito por Lima também reserva alguns diálogos simplesmente brilhantes, como "Pra ganhar esse campeonato eu meto em qualquer buraco" ou a poética frase "Eu vou é comer o cu desse filha da puta, ele vai é se foder!". E num momento em que Mojica e Mário discutem no filme, é impossível não lembrar de o quanto os dois brigavam na vida real: "Mas você foi se comprometer com esse tipo de coisa? Eu acho que você quer é arruinar a nossa vida! Você endoideceu, Mário!".

E graças a esta curiosa brincadeira de metalinguagem (a dupla produzindo uma continuação de seu sucesso; Mojica "dirigindo" as cenas de sexo), e à bizarra fantasia sexual envolvendo a vaca mecânica, 48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE é um daqueles raros filmes pornográficos que valem mais pela "história", se é que dá para chamar assim, do que propriamente pelo "sexo alucinante", que está mais para sexo BROXANTE do que para qualquer outra coisa.


Infelizmente, a seqüência não teve o mesmo impacto do original. Enquanto em "24 Horas de Sexo Explícito" a novidade era a cena de zoofilia, quando a continuação saiu, apenas um ano depois, já estava ultrapassada (!!!), pois todos os produtores da Boca do Lixo abriram as portas do zoológico para faturar em cima da nova febre - "Mulheres Taradas por Animais", que Ody Fraga dirigiu em 1985, trazia cenas com bode, anta, cavalo e até um leão, que felizmente só assistia.

Resultado: a bilheteria foi bem abaixo do esperado e não sobrou grana para Mojica filmar seu tão sonhado "Encarnação do Demônio" (Mário Lima tinha prometido investir o lucro que tivessem num novo filme do Zé do Caixão).

48 HORAS DE SEXO ALUCINANTE fica, então, como um impagável registro de uma era que não volta mais, reunindo algumas das caras (e genitais) mais conhecidas da Boca do Lixo, e alguns momentos entre o genial e o bizarro que só podiam ter saído da cabeça de José Mojica Marins, aqui visivelmente mais preocupado em contar uma história sobre as dificuldades de fazer cinema (mesmo pornô) no Brasil do que em mostrar penetrações e gozadas (estas aparecem como "brinde", e não como atração principal).


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48 Horas de Sexo Alucinante (1986, Brasil)
Direção: José Mojica Marins
Elenco: Mojica, Mário Lima, Andrea Pucci
Oswaldo Cirilo, Sílvio Júnior, Antônio Rody,
Walter Gabarron e Eliane Gabarron.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

OS CLONES DE BRUCE LEE (1977)


A carreira cinematográfica do astro chinês Bruce Lee foi relativamente curta, se começarmos a contar da sua primeira aparição com papel principal na tela grande (em "O Dragão Chinês", de 1971) até sua morte prematura em 1973. A bem da verdade, ele só participou de quatro filmes completos ("O Dragão Chinês", "A Fúria do Dragão", "O Vôo do Dragão" e "Operação Dragão"), e filmou uns 15 minutos de outro antes de bater as botas (este foi completado com a ajuda de dublês após sua morte, transformando-se em "O Jogo da Morte").

Mas Bruce Lee é um daqueles casos raros em que a lenda é maior que o homem. Só isso pode explicar a existência de pelo menos 48 filmes com "Bruce Lee" no título, sabendo-se que ele atuou oficialmente em apenas quatro - ou cinco, com muita boa vontade.

Nos primórdios do FILMES PARA DOIDOS, eu resenhei uma pérola trash chamada "Bruce Lee Fights Back From the Grave", e lá expliquei sobre a brucesploitation, a exploração da fama do falecido Bruce Lee em uma série de filmes bagaceiros estrelados por sósias do astro, apropriadamente batizados como Bruce Le ou Bruce Li. Estes filmes normalmente eram vendidos como produções estreladas pelo verdadeiro Bruce Lee. Além de sem-vergonhice da grossa, a tática era inquestionavelmente mórbida: imagine família e amigos do falecido ator sendo obrigados a engolir filmes como "The Death of Bruce Lee", que inclusive trazia uma foto do verdadeiro cadáver do ator, feita no seu funeral, num canto do cartaz de cinema!!!


Porém o golpe mais apelativo da brucesploitation foi uma preciosidade inestimável chamada OS CLONES DE BRUCE LEE (que no Brasil ainda recebeu o subtítulo "As Réplicas Mortíferas" na época de seu lançamento em VHS). Entre todos os "elogios" que já escreveram sobre o filme, estão frases como "o Monte Rushmore da brucesploitation" ou "o 'Plan 9 From Outer Space' dos filmes de ação de Hong-Kong". Acredite: todos estes "elogios" são merecidos: o "filme" é tão ruim, tão mal-feito, tão tosco, tão apelativo, tão cretino em todos os níveis que acaba se tornando engraçado. Isso, claro, se você for um apreciador de FILMES PARA DOIDOS. Caso contrário, assisti-lo será tão divertido quanto fazer uma colonoscopia com arame farpado. Nem o Uwe Boll se esforçando muito conseguiria fazer algo tão ruim.

OS CLONES DE BRUCE LEE foi cometido pelo diretor Joseph Velasco (com o pseudônimo "Joseph Kong") e pelo produtor norte-americano Dick Randall em 1977, com a intenção de faturar uns cobres no auge da brucesploitation, até porque o mercado de filmes de pancadaria made in Hong-Kong estava dando bastante dinheiro no Ocidente. Velasco já havia dirigido ele mesmo alguns filmes para aproveitar o filão, como "Bruce's Deadly Fingers", de 1976, e "Ninja Versus Bruce Lee/Return of Bruce", de 1977, ambos estrelados por Bruce Le, um dos muitos imitadores de Bruce Lee.

Este aqui, como o título já denuncia, é uma pérola da apelação, pois Bruce Lee e sua morte são citados abertamente o tempo inteiro. Além disso, o filme parte de uma idéia que não deixa de ser genial: juntar numa única produção quatro imitadores do falecido astro - Dragon Lee (aka Vyachaslev Yaksysnyi), Bruce Le (aka Kin Lung Huang), Bruce Lai (aka Chang Yi Tao) e Bruce Thai (aka ???????).


Os primeiros cinco minutos de OS CLONES DE BRUCE LEE são, ao mesmo tempo, uma aula de cinema exploitation e trash: um sósia de Bruce Lee é levado à UTI de um hospital chinês, já à beira da morte - e no caminho todas as enfermeiras suspiram coisas do tipo: "Ai meu Deus, é o Bruce Lee", para não deixar dúvidas no espectador. Em poucos minutos, provavelmente graças à inexperiência dos médicos, o pobre Bruce acaba morrendo. Era esperado, dadas as condições da UTI em que foi operado: vamos dizer apenas que a sala de cirurgia tem janelas (!!!), e com os vidros abertos ainda por cima, e não há nem mesmo um monitor de freqüência cardíaca, pois o médico escuta os batimentos do coração de Bruce Lee com um simples estetoscópio!!!! Será que o pobre coitado foi atendido pelo SUS?

Eis que surge em cena o agente Collins, do SBI (Special Branch of Investigation, olha a inteligência do roteiro!), que convoca um cientista, o Prof. Lucas, para encontrá-lo no hospital onde "Bruce Lee" acabou de morrer. Pois sem qualquer autorização da equipe médica ou da família do falecido astro, o cientista retira uma amostra de sangue e células do cadáver para, vejam só, construir clones de Bruce Lee, já que o SBI pretende utilizar estas cópias do mestre das artes marciais como agentes secretos em missões perigosas ao redor do mundo.


Calma lá, calma lá: que sentido faz clonar um conhecido e popularíssimo astro de cinema como Bruce Lee para usar como AGENTE SECRETO? Bom, claro que isso acaba não fazendo muita diferença no filme, até porque os "clones" não saem assim tão parecidos com o verdadeiro Lee (o único que tem certa semelhança física é Dragon Lee). Onde já se viu clone sair diferente do original? Ah, deixa pra lá...

Além disso, em nenhum momento do filme qualquer um dos vilões desconfia estar diante de uma cópia de Bruce Lee, mesmo quando um dos clones é mandado para se infiltrar secretamente... num estúdio de cinema que está produzindo um filme de artes marciais!!!



Prontos os clones, que atendem pelos criativos nomes de Bruce Lee One (Dragon Lee), Bruce Lee Two (Bruce Le) e Bruce Lee Three (Bruce Lai, o menos parecido do trio), o cientista faz com que eles passem por uma bateria de treinamentos de artes marciais, para poderem lutar como o Bruce Lee original. E isso inclui aulas com Bolo Yeung, que foi aluno do verdadeiro Lee e chegou a lutar contra ele no filme "Operação Dragão".

Após o treinamento, os clones são enviados para missões que soam como episódios curtos dentro do filme. Bruce Lee One é o tal enviado como agente secreto para um estúdio de Hong-Kong, onde deve investigar um produtor chamado Chai Lo, que nas horas vagas é traficante de ouro. Lo acaba suspeitando do novato e pede que seus capangas dêem um fim nele. O diretor do filme dentro do filme sugere matá-lo diante das câmeras para depois faturar horrores de bilheteria - morbidamente, o filho do verdadeiro Bruce, Brandon Lee, morreu em frente às câmeras durante as filmagens de "O Corvo", nos anos 90! Mas é claro que Bruce Lee One está preparado e, após detonar todos os assassinos, acaba pessoalmente com Chai Lo, justo quando ele estava fugindo com seu ouro (um monte de tijolos comuns porcamente pintados com tinta dourada).

Corta para a segunda missão, agora com Bruce Lees Two e Three lutando juntos contra um cientista malvado chamado Dr. Nye (Dr. No, alguém?), que não apenas tem um harém particular de mulheres nuas, como ainda pretende dominar o mundo (começando pela Tailândia!!!) usando sua fórmula que transforma homens comuns em lutadores indestrutíveis feitos de bronze (no caso, um monte de figurantes de sunguinha e o corpo coberto com a tinta dourada que sobrou da pintura dos tijolos do segmento anterior).


Para ajudar os dois clones, entra em cena um outro agente do SBI chamado Chuck, que é interpretado também por um imitador de Bruce Lee, Bruce Thai. E, embora ele não apareça oficialmente como clone no filme, ironicamente o cara é o MAIS PARECIDO com o verdadeiro Bruce Lee dos quatro! Dá pra acreditar?

Este segmento é de longe o mais trash do filme inteiro. Os homens-bronze indestrutíveis têm como único ponto fraco a ingestão de uma erva venenosa, que os heróis precisam enfiar na goela deles, rendendo cenas constrangedoras como estas aí embaixo:



Como os tais homens de bronze são apenas uns manés pintados com tinta dourada, os Bruces também acabam com as mãos e braços dourados a cada golpe que dão neles! E há uma cena sem qualquer fundamento em que Bruce Lai e Bruce Thai vão à praia de sunguinha apenas para encontrar um grupo de garotas completamente peladas, que não faz nada além de passar bronzeador no corpo em close! O termo "nudez gratuita" nunca caiu tão bem...

E eis que OS CLONES DE BRUCE LEE termina com o Prof. Lucas ficando maluco e sonhando ele próprio com a dominação mundial, no que é o terceiro e último segmento do filme. Para concretizar seu plano, e vá entender o porquê disso, o cientista resolve escolher o mais forte dos três clones para ser seu capanga, ao invés de usar o trio completo, e acaba mandando os Bruces lutarem entre si até a morte. É o ponto alto do filme: a oportunidade de conferir três imitadores de Bruce Lee, cada um com suas próprias características de luta, trocando porradas! Definitivamente, algo que não se vê todo dia...


Infelizmente, como filme de artes marciais, OS CLONES DE BRUCE LEE é bem fraquinho. As lutas se resumem ao tradicional "bate-bloqueia-bate", e após as duas ou três primeiras pancadarias o repeteco perde toda a graça. E olha que é um festival de surras e porradas: há uma luta a praticamente cada cinco minutos! Claro que a história poderia ter ficado interessante se enfocasse detalhes como a forma de pensar e o sentimentos dos clones. Exemplo: Como eles se sentem sendo cópias de um astro morto? Quanto das memórias de Bruce Lee eles tinham, se foram obrigados a reaprender a lutar? Mas é óbvio que não era esta a proposta do filme.

Assim, o melhor de tudo é o clima trash dessa aventura pobre e tosca. Começa com os supostos clones, que tentam imitar Lee nos mínimos detalhes, dos gritinhos afeminados durante as lutas ao cacoete que Bruce tinha de ficar coçando o nariz enquanto provocava os rivais. Também tem uma cena impagável em que três imitadores do astro (Bruce Le, Bruce Lai e Bruce Thai) aparecem em cena juntos usando óculos escuros de modelo igual ao do verdadeiro Bruce, o que só serve para confundir mais o espectador, que não sabe quem é quem. Isso sem contar os erros à la Bruno Mattei. Lá pelas tantas, por exemplo, uma mulher completamente nua puxa uma faca do nada para atacar um dos clones. Agora eu me pergunto: de onde ela tirou essa faca? (E a provável resposta chega a me dar arrepios...)



Já a pobreza franciscana da produção e da direção, com cenários horríveis e objetos de cena idem (o "laboratório" onde são criados os clones consegue ser pior que qualquer cenário já elaborado por Ed Wood), é uma atração à parte. Tanto que o filme termina abruptamente, sem qualquer desfecho para a trama e sem sequer ter créditos finais (vai ver faltou grana na finaleira da produção).

Assim, ficamos sem saber o que foi feito dos clones de Bruce Lee: será que continuaram trabalhando como agentes secretos para o SBI ou abandonaram a vida de 007 para seguir carreira como astros de cinema, na ausência do verdadeiro Bruce?

A julgar pela quantidade de filmes brucesploitation que todos eles ainda estrelariam, imagino qual é a resposta para esta pergunta...

Trailer de OS CLONES DE BRUCE LEE


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The Clones of Bruce Lee (1977, Hong-Kong)
Direção: Joseph Kong (Joseph Velasco)
Elenco: Bruce Le, Dragon Lee, Bruce Lai,
Bruce Thai, Jon T. Benn, Tao Chiang,
Siu-Lung Leung e Bolo Yeung.



A pedidos, a morte de Bolo Yeung