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domingo, 21 de agosto de 2011

A ROTA DO BRILHO (1990)


Em 1990, exatos 17 anos antes do Capitão Nascimento e seus caveiras combaterem traficantes cariocas em "Tropa de Elite", dois policiais da Narcóticos paulista receberam missão parecida: desbaratar uma perigosa quadrilha que agia em São Paulo, trazendo cocaína pela rota ferroviária diretamente de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

Falando assim parece até filme sério, mas na verdade este é o argumento de A ROTA DO BRILHO, um policial de quinta categoria que, hoje, só funciona como diversão trash. E das boas.

Afinal, quem em sã consciência engoliria uma dupla de policiais brasileiros durões chamados Tom e Nil (!!!), e interpretados, respectivamente, por Alexandre Frota (então na fase galã de novela e marido de Cláudia Raia) e Marcos Manzano (loiro platinado estilo He-Man, que na época era apresentador do famigerado Clube das Mulheres)?


A ROTA DO BRILHO foi dirigido por Deni Cavalcanti, o sujeito responsável por "clássicos" (ironia mode on) da cinematografia brasileira, como "Aluga-se Moças" (1982), filme erótico notório por tirar a roupa de várias chacretes, como Gretchen, Rita Cadillac e Índia Amazonense.

Com péssima distribuição, tanto nos cinemas como em vídeo, A ROTA DO BRILHO provavelmente ficaria esquecido no limbo das tralhas produzidas a toque de caixa na Boca do Lixo da época se não fosse por um detalhe curioso: quatro anos depois do seu lançamento, em 1994, uma modelo que faz participação minúscula no filme protagonizou um escândalo ao aparecer em fotografias carnavalescas ao lado do presidente da República vestindo apenas uma camiseta e mais nada, com a perereca à mostra para o mundo inteiro ver!


Claro que estou falando do famoso caso Lilian Ramos e presidente Itamar Franco. Ela, auto-proclamada sósia de Fafá de Belém por causa do tamanho dos seios, ganhou seus 15 minutos de fama com esse episódio do Carnaval. Para a sua sorte, pois jamais seria lembrada pela curta e ridícula carreira de "atriz" (além desse aqui, ela apareceu também em "Ritual of Death", horror dirigido por Fauzi Mansur para o mercado externo e nunca lançado no Brasil).

Foi graças ao episódio Lilian-Itamar que A ROTA DO BRILHO foi redescoberto. A fita do filme, originalmente lançada por uma tal "Sétima Arte Vídeo" (!!!), e com Alexandre Frota e Gretchen em destaque na capinha, já mofava nas locadoras à época. Semanas após o escândalo do Carnaval, a Sato Vídeo resolveu relançar a obra em vídeo com duas novas capinhas (reproduções abaixo), ambas com fotos enormes da moça (apenas uma tirada do próprio filme, aquela do rala-e-rola) e a chamada enganosa "A polêmica Lilian Ramos em...". Só não avisaram o espectador que a participação de Lilian Ramos em A ROTA DO BRILHO não chega a somar cinco minutos!


O filme começa mostrando Tom e Nil chegando ao motel em que uma prostituta morreu de overdose; ali, há um montão de cocaína da boa ("brilho" era a gíria da época para cocaína, por isso o título hoje sem sentido). Segundo um colega da Homicídios, é o terceiro caso em poucas semanas.

De volta à delegacia, eles levam um esporro do seu chefe (o saudoso Felipe Levy, dos filmes dos Trapalhões), que pede urgência máxima na investigação da quadrilha de traficantes responsável por abastecer São Paulo de pó. Eventualmente, os dois casos vão se cruzar, já que o homem que vem matando prostitutas de overdose é um dos integrantes da tal organização.


A ROTA DO BRILHO é uma bagunça danada. Além da trama principal, com os policiais caçando os traficantes, e da trama secundária da investigação da morte das prostitutas (esquecida durante a maior parte do tempo, diga-se de passagem), há outras situações jogadas sem muito critério ao longo da narrativa, como a filha de um senador (Patrícia Salgado) que se diverte levando vida dupla e fazendo programas para uma cafetina.

Numa daquelas coincidências que não convencem nem em novela das sete da Globo, o tal senador (Edgard Franco) é o cabeça da quadrilha de traficantes, e um dos seus capangas, Roque (Raymundo de Souza), acaba se envolvendo com a patricinha-prostituta! Nem sei porque estou relatando isso, considerando que não faz diferença alguma na trama e quase todos os personagens citados são sumariamente esquecidos!


A "polêmica" Lilian Ramos interpreta Suzana, a conexão entre um cartel de drogas da Bolívia e os traficantes paulistas. Só que ela se dá mal logo no início: ao envolver-se com o namorado de Branca (Elizabeth Winkler), outra das integrantes da organização, é assassinada e sai de cena depois de meia dúzia de diálogos horríveis e uma cena de sexo rápida e rasteira.

Mas e afinal, onde entram nossos "heróis" Tom e Nil nessa história? A bem da verdade, os tiras só aparecem no filme porque são os protagonistas, já que não fazem absolutamente nada digno de nota. Ao invés de investigar o caso, os caras saem pela cidade sem muito critério, abordando informantes como Tigrão (Bim Bim, figura habitual dos filmes de Sady Baby) e Carlão.


Esse último é interpretado pelo excelente Anselmo Vasconcellos ("O Torturador", "Eu Matei Lúcio Flávio"), cuja voz aqui é ridiculamente dublada. Ele está a cara do John Turturro, e até hoje me pergunto o que o coitado faz nesse filme, já que sua expressão de descontentamento chega a ficar evidente em algumas cenas.

Como eu dizia, Tom e Nil não investigam porra nenhuma e descobrem tudo que precisam saber por pura sorte. Ou, no caso, torturando um dos informantes. A cena é hilária porque tenta fazer com que o espectador acredite que aquele é um procedimento policial perfeitamente normal, e que não há nada de errado no que acontece: Nil persegue o bandido e, no momento seguinte, vemos o sujeito amarrado pelado num pau-de-arara, tomando choques elétricos pelo corpo!


Ah, quase me esqueci: há uma participação especial hilária de ninguém menos que Gretchen (!!!), interpretando uma artista plástica (!!!) chamada Natália, que é namorada do personagem de Frota. Ambos protagonizam mais uma cena de sexo, cheia de caras e bocas exageradas, e é irônico lembrar que os dois acabaram fazendo pornô duas décadas depois.

A ROTA DO BRILHO apresenta mais algumas caras conhecidas: o guarda-costas de Mojica, Satã, interpreta um capanga dos traficantes (e o que mais Satã poderia "interpretar"?); o diretor José Miziara (de "Embalos Alucinantes" e "Rabo I") aparece na pele de um traficante boliviano que fala em hilário portunhol; e a envelhecida musa das pornochanchadas Neide Ribeiro faz uma cafetina de luxo.


Ninguém foi creditado pelo roteiro do filme, mas se bobear o responsável pela bagaça é o próprio Deni Cavalcanti. Caso o texto seja dele mesmo, o cara está de parabéns: sempre se inticando com frases como "Você está com cara de bundão!" e "Esse é meu parceiro, uma mala!", Tom e Nil são heróis fanfarrões impossíveis de levar a sério, ao estilo do cinema norte-americano.

A dupla tem um diálogo hilário com o chefe de polícia, que transcrevo aqui porque essa genialidade merece ser compartilhada:

Chefe (sério): Já te comeram o rabo, Tom?
Tom (surpreso): Eu? Que é isso, chefe?
Chefe: E você, Nilzinho?
Nil (rindo): Eu, chefe? Nem troca-troca eu fiz! Sou virgem ainda.
Chefe: Pois eu não sou mais. Acabaram de me enrabar! E sabe quem me enrabou? (bate na mesa) O secretário de Segurança Pública!
Tom: Bom, pelo menos foi alguém importante, chefe...



A ROTA DO BRILHO também tem um detalhe muito curioso: (SPOILER) com uma hora de filme, o personagem de Alexandre Frota é assassinado pelos bandidos, numa reviravolta surpreendente à la final de "Viver e Morrer em Los Angeles". Só que a cena é muito estranha: Frota é morto off-screen, apenas escutamos o grito dele. Será que o ator quebrou o pau com os realizadores e abandonou a filmagem, obrigando Cavalcanti a criar essa mirabolante saída de cena do herói? Ou foi mero amadorismo do diretor ao não mostrar justamente a morte de um dos protagonistas mais importantes?(FIM DO SPOILER)

Como a produção bagaceira nacional que é, A ROTA DO BRILHO tem um pouco de tudo: Frota e um galã do Clube das Mulheres como heróis, delegado desbocado, bandidos ridículos, Anselmo Vasconcelos pagando mico, uma carreirona de cocaína sendo feita nas costas de uma anônima nua, cena de tortura no pau-de-arara, um sujeito durão que aparece tomando leite (!!!) num bar, trilha sonora composta pelo Vangelis para "Blade Runner" sendo "reutilizada" em cenas de suspense...


Tem, também, aquela dose cavalar de nudez feminina que caracterizava o cinema brasileiro pré-Retomada: toda e qualquer mulher maior de idade que entra em cena acaba tirando a roupa mais cedo ou mais tarde. Inclusive Gretchen, a eterna "Rainha do Bumbum", que aqui mostra sua buzanfa ainda inteirona em close, o que ajudou a apagar da minha mente parte do trauma causado por aquele tenebroso filme pornô que ela protagonizaria quase duas décadas depois.

O que realmente faz falta no filme é aquilo que todo mundo espera: os socos e tiros que caracterizam o combate ao crime no cinema.


Pois, nesse quesito, Tom e Nil ficaram devendo. Praticamente não há cenas de luta, e a única troca de tiros ficou reservada para o final, quando um dos heróis despacha a maior parte da quadrilha que deveria prender com balas e até granadas (pois todos sabemos que granadas são ferramenta de trabalho comum da polícia de São Paulo). Com direito à tradicional cena do herói preparando as armas antes do confronto final com os marginais.

Vale destacar que, nesse confronto final, Satã protagoniza mais um momomento hilário da película, quando leva um tiro no peito e começa a contorcer-se como se fosse epilético, em momento que rivaliza com a péssima saída de cena de Christopher George em "Ninja - A Máquina Assassina" pelo título de "pior cena de morte da história do cinema". Fiz questão de colocar esse momento histórico no YouTube para que todos possam conferir:

"Morre logo, Satã, caralho!"



A verdade é que, ao contrário do "Tropa de Elite" citado no início da resenha (perdoe-me pela comparação, José Padilha!), A ROTA DO BRILHO é um filme policial de realismo zero.

Afinal, tudo que vemos na tela (personagens, situações e até diálogos) parece ter saído diretamente do cinema clássico hollywoodiano, e não das ruas das grandes capitais brasileiras. Temos desde a dupla de policiais estilo "Máquina Mortífera" até os bandidos que andam sempre de terninho e óculos escuros.


Os clichês se amontoam, ajudando na transformação do que deveria ser um filme policial sério em comédia. Até porque as interpretações com texto decoradinho, dignas de teatrinho de colégio, não ajudam em nada (Lilian Ramos e Elizabeth Winkler são os casos mais críticos).

O resultado é digno de figurar no panteão do FILMES PARA DOIDOS, e é realmente uma pena que não tenhamos novas aventuras trash (e quem sabe melhores) dos tiras paulistas Tom e Nil.

Confesso que seria muito divertido ver os dois outras vezes "investigando" novos casos e enfrentando a bandidagem com tiros e granadas enquanto ficam se chamando de mala e de bundão...

Cena inicial de A ROTA DO BRILHO



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A Rota do Brilho (1990, Brasil)
Direção: Deni Cavalcanti
Elenco: Marcos Manzano, Alexandre Frota,
Gretchen, Lilian Ramos, Raymundo de Souza,
José Miziara, Satã e Anselmo Vasconcelos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

BODIGAADO KIBA (1973) e THE BODYGUARD (1976)


Hoje voltamos com mais uma exclusiva Sessão Dupla aqui no FILMES PARA DOIDOS, e trazendo um caso curioso: as versões oriental e ocidental do filme "O Guarda-Costas", estrelado por Sonny Chiba, sendo que apenas a última (e mais fraquinha) foi lançada no Brasil.

Por que "caso curioso"? Já explico: em 2006, publiquei no meu extinto Multiply (alguém ainda usa essa joça?) uma resenha mal-humorada sobre o filme, baseada num DVD pra lá de fuleiro distribuído no país pela Kives.

E, como sempre digo, vai chegar o dia em que os fãs de cinema perceberão o completo desserviço que são esses DVDs fuleiros e piratex lançados em larga escala por aqui. O argumento do "Ah, pelo menos estão lançando clássicos inéditos" não cola mais como desculpa para justificar produto porco nesses tempos de download.


Acontece que o disquinho da Kives tem imagem em fullscreen e com qualidade de VHS, tão ruim, mas tão ruim, que torna-se praticamente impossível entender qualquer coisa que acontece nas cenas de luta. E foi nessa edição lamentável que embasei minha resenha de então.

Só recentemente arranjei uma cópia de qualidade para rever, e parecia que estava assistindo um outro filme (como aconteceu com o western "Sete Dólares para Matar", cujo DVD nacional também é um lixo).

Só para terem uma idéia da "qualidade" do tal DVD nacional, e de quanta informação se perde pelo fato do filme estar em tela cheia, comparem as imagens abaixo (a primeira, em fullscreen e cores lavadas pela ripagem de VHS, é do disco da Kives; a segunda, em widescreen e super-nítida, é do DVD importado).


Lá em 2006, quando escrevi sobre o filme, eu ainda nem sabia que "The Bodyguard" era a versão ocidental do filme japonês "Bodigaado Kiba" (1973), devidamente cortada e "adaptada" para o mercado norte-americano, onde estreou em 1976. Curiosamente, até hoje nem o IMDB sabe disso (os filmes não estão linkados na opção Movie Connections).

Com ambos os filmes em mãos, pude finalmente assistir e comparar as diferenças entre eles, conforme você vai acompanhar a partir de agora:


BODIGAADO KIBA (1973)


Sonny Chiba é uma lenda viva do cinema oriental de pancadaria. Fez mais de 120 filmes, estrelou grandes sucessos de bilheteria e hoje é um ídolo cult, embora sua participação no cinema, dos anos 90 para cá, tenha se relegado a pequenas participações em filmes como "Battle Royale 2".

Um de seus fãs, o cineasta Quentin Tarantino, fez questão de prestar homenagem a Chiba mais de uma vez: em "Amor à Queima-Roupa" (roteiro dele dirigido por Tony Scott), o personagem principal assiste uma sessão tripla da franquia "The Street Fighter" (grande sucesso do ator) no cinema; mais tarde, incluiu o próprio Chiba no papel de Hattori Hanzo em "Kill Bill - Volume 1" - sendo que o ator já havia feito um personagem com este nome num seriado de TV dos anos 80.

Uma das características de Chiba é que seus heróis sempre foram mais brutais e menos simpáticos, daquele tipo que mata com os punhos e sem pensar duas vezes; em alguns filmes, ele exibe um olhar mais mal-encarado do que o dos próprios vilões, e talvez por esse motivo Chiba acabou interpretando vários papéis de vilão no cinema.


BODIGAADO KIBA é de 1973, portanto veio antes da famosa série "The Street Fighter" e também de outros sucessos do ator (como "The Executioner"). Dirigido por Tatsuichi Takamori e escrito por Ryuzo Nakanishi, o filme começa com um bandidão sendo executado, junto com a família e os guarda-costas, ao sair de uma igreja. Os responsáveis são perigosos assassinos da Máfia.

Corta para o mestre de artes marciais Naoto Kiba (Chiba) dando uma demonstração de seus poderes mortais ao impedir o sequestro de um avião por terroristas. Kiba é tão foda que enfrenta homens armados com revólveres e consegue matá-los com as próprias mãos. Um deles chega a cuspir os dentes da frente, ainda presos pelas gengivas!!! Os créditos iniciais do filme se desenrolam durante a pancadaria.


De volta ao Japão, o herói é recebido com honras e entrevistado por diferentes emissoras de TV, quando revela que seu "ato de heroísmo" na verdade foi a forma que encontrou para fazer auto-divulgação. Em rede nacional, Kiba afirma que é a segunda única pessoa do mundo a dominar uma técnica mortífera de karatê chamada "Tesshinkai", e que está alugando seus punhos como guarda-costas. (A outra pessoa que domina a técnica é o velho mestre do herói, Daito Tetsugen, famoso por ter matado um touro furioso com as próprias mãos!)

Numa cena ótima, nosso herói dá uma demonstração do seu dom ao arrancar o gargalo de uma garrafa de Coca-Cola com um único golpe de mão aberta!!!


À noite, enquanto conversa com a irmã Maki e se lembra do treinamento com o mestre Tetsugen, Kiba é procurado por uma garota muito suspeita que o contrata como guarda-costas, alegando que está sendo perseguida por mafiosos. Mesmo sem saber nada sobre ela, o herói aceita o trabalho.

Depois que Maki é agredida e quase morta pelos mesmos assassinos da Máfia da cena inicial Kiba passa o restante do filme acompanhando sua cliente para cima e para baixo, até descobrir que entrou numa furada: a garota era amante do bandidão executado na cena inicial, e também a única pessoa que sabe onde está uma carga milionária em heroína que é cobiçada por um montão de personagens.


A partir de então, BODIGAADO KIBA começa a ficar mais complicado do que o necessário. As poucas cenas de ação são separadas por longos momentos de conversa fiada em que são apresentados os outros personagens, basicamente quadrilhas rivais de bandidos que também cobiçam a fortuna em entorpecentes.

Em determinado momento, os criminosos começam a matar uns aos outros, e Kiba, pego no meio do fogo cruzado, precisa revidar, usando os punhos para dar cabo dos vilões que continuam vivos.

Quem espera ver lutas mirabolantes vai se decepcionar, pois, além das cenas de ação serem poucas, o herói interpretado por Chiba mata todos os seus oponentes de primeira usando seus golpes mortais, com requintes de crueldade que vão de olhos perfurados com os dedos a braços torcidos até a inevitável fratura exposta.


Mas o confronto final de Kiba com os bandidos sobreviventes à beira do mar é bem-filmado e bastante climático, graças à música de Toshiaki Tsushima (que muitas vezes lembra uma trilha de western spaghetti) e aos absurdos malabarismos do protagonista, que desvia machadinhas e facas com os pés e parte um rifle ao meio com uma única voadora!

É preciso relevar o exagero das cenas de ação e o estrago provocado pelos golpes de Chiba, algo que não é exclusividade desse filme aqui: em várias produções posteriores, as mãos do herói são tão poderosas que seus socos são capazes de arrancar os olhos do oponente das órbitas ("Return of the Street Fighter") e até costelas ("The Executioner")! Ou seja, Sonny Chiba desarmado é mais perigoso que um tiro de bazuca, e no filme a moça que ele protege chega a comentar: "Como é que mãos tão bonitas podem ser armas letais?".


Apesar de não ter achado BODIGAADO KIBA um grande filme, há algumas coisas bem interessantes: Chiba aparece com sua tradicional expressão de mal-encarado, quase como um anti-herói (é hilária a cena em que ele usa o braço decepado de um dos vilões como arma, jogando-o contra outro comparsa!).

E há algumas boas idéias perdidas num roteiro chinfrim, como um cadáver sendo usado para camuflar as drogas (detalhe copiado em dezenas de outros filmes, inclusive o recente "Os Bad Boys 2"). Também é ótima a cena em que assassinos da Máfia se escondem no interior de um sofá para tentar pegar sua vítima de surpresa - é bem legal ver adagas brotando do interior do sofá e depois os sujeitos saindo dali de dentro!


Pena que Sonny Chiba apareça muito pouco em ação e que o roteiro prefira ficar enrolando com uma trama policial fraquinha. BODIGAADO KIBA pode até não ser um dos melhores filmes do astro, mas esta versão oriental é bem melhor que o "corte norte-americano", sobre o qual falaremos agora...


THE BODYGUARD (1976)


Três anos depois de "Bodigaado Kiba", o famoso produtor norte-americano Terry Levene resolveu aproveitar o sucesso que os filmes de artes marciais estavam fazendo nos Estados Unidos: adquiriu os direitos sobre a obra de Tatsuichi Takamori e preparou a famigerada "U.S version", rebatizada THE BODYGUARD, ou "O Guarda-Costas", como foi lançada no Brasil.

Pode parecer estranho hoje, mas o picareta Levene era famoso por picotar as versões originais de filmes estrangeiros para poder lançá-las nos Estados Unidos. Lançou, por exemplo, o terror italiano "Zombie Holocaust", de Marino Girolami, com o título "Dr. Butcher M.D.", e uma sequência de abertura totalmente diferente, editada a partir de cenas de arquivo de um outro projeto que não deu certo!


Enfim, nosso nobre Levene colocou suas mãos em "Bodigaado Kiba" e resolveu, inicialmente, cortar o excesso de diálogos; depois, a última cena (!!!); e, para completar, todas as referências ao fato do personagem de Chiba ser mestre de uma técnica desconhecida de karatê. Aliás, Chiba, em THE BODYGUARD, não interpreta Naoto Kiba, mas sim ele mesmo, Sonny Chiba!!! No total, foram eliminados cinco minutos de cenas do filme japonês.

Talvez achando que o filme não estava "americanizado" o suficiente, o produtor chamou um diretor de araque chamado Simon Nuchtern para filmar algumas cenas adicionais em Nova York (???), mostrando prédios, ruas e transeuntes que, desavisados do que acontecia, ficam o tempo todo olhando para a câmera ou correndo para fora do quadro.


Nuchtern também filmou uma cena gratuitíssima numa escola de artes marciais, onde vemos uma demonstração fuleira dos talentos de dois campeões americanos de karatê, Aaron Banks e Bill Louie, interpretando eles mesmos. Para justificar tal imbecilidade, um deles fala "Vou mostrar como Sonny Chiba faz", antes de dar umas porradas nuns figurantes de quimono!!!

Só depois da "demonstração" dos convidados especiais (que deviam ser super-famosos na época do lançamento do filme, mas hoje ninguém mais lembra quem são) é que entram as cenas de "Bodigaado Kiba" reeditadas por Victor Zimet.


Ah, quase esqueci: THE BODYGUARD começa com outra loucura inventada por Levene: uma passagem bíblica romanceada de "Ezequiel 25:17" que depois seria inteiramente chupada por Tarantino em "Pulp Fiction" (é a citação recitada pelo personagem de Samuel L. Jackson). Só que, ao invés de "...and you will know my name is the Lord", o letreiro do filme diz: "...and they shall know that I am Chiba, The Bodyguard"!!! Bizarro...

(Vale destacar que esse texto, reaproveitado por Tarantino, não existe na Bíblia. Se vocês procurarem Ezequiel 25:17 nas escrituras, encontrarão apenas esse trechinho: "E executarei sobre eles grandes vinganças, com furiosos castigos, e saberão que eu sou o SENHOR, quando eu tiver exercido a minha vingança sobre eles")


Como esta versão norte-americana eliminou todas as referências ao "Tesshinkai" e ao mestre do personagem de Chiba, as cenas de treinamento que eram mostradas em flashback em "Bodigaado Kiba" aqui foram reutilizadas para os créditos iniciais.

A trama continua com o sequestro do avião, mas os diálogos dublados em inglês mudaram um pouco a situação: não é mais um grupo terrorista qualquer, mas sim traficantes em busca do próprio Sonny Chiba, que resolve a situação do seu jeito.

Em seguida, na entrevista coletiva (a edição norte-americana reduziu bastante esta cena), ao invés de falar sobre o "Tesshinkai", Chiba explica que pretende exterminar todos os traficantes de drogas do Japão (!!!), e para isso oferecerá seus serviços a qualquer um que esteja sendo ameaçado por eles. Quando ele arrebenta o gargalo da garrafa de Coca-Cola com um único golpe, por exemplo, diz: "É isso que vou fazer com os traficantes"!!!


A partir de então, a história continua idêntica a "Bodigaado Kiba", apenas com uma dublagem atroz em inglês e alguns cortes pouco importantes em cenas de diálogos. As pancadarias e tiroteios, porém, permanecem intactos.

Uma outra mudança importante de THE BODYGUARD em relação ao original é que Levene cortou a cena final: o filme termina logo que acaba o duelo de Chiba com os vilões na praia. Na versão japonesa, havia ainda algumas cenas alternativas mostrando uma nova coletiva de imprensa do herói, em que ele explicava que continuaria levando sua técnica mortal de karatê para o resto do mundo. A personagem da irmã do protagonista também reaparecia rapidamente, o que não acontece na "U.S. Version" (fotos abaixo).


(Só para constar, THE BODYGUARD termina com 1h28min e sem créditos finais, nem mesmo um "The End". O filme original tem 1h27min. Ou seja: Levene e sua turma cortaram 5 minutos do original, mas adicionaram 6 minutos de encheção de linguiça no lugar! Dá pra entender?)

Mesmo que as diferenças entre as duas versões sejam relativamente pequenas, continuo preferindo a original japonesa. Não consigo engolir aquela cena estúpida com Aaron Banks e Bill Louie em THE BODYGUARD, muito menos as bisonhas cenas em que a câmera apenas passeia pelas ruas de Nova York. Não gosto da dublagem em inglês e muito menos da desculpa fuleira encontrada para colocar Sonny Chiba lutando "contra o tráfico de drogas".

Mas, na essência, "Bodigaado Kiba" e THE BODYGUARD são o mesmo filme. Sonny Chiba fez coisas bem melhores depois, mas para quem tiver curiosidade de conhecer este, sugiro começar pela versão original japonesa. A única coisa legal da edição norte-americana é a falsa citação bíblica na introdução.



E fica a mesma recomendação que fiz no Multiply em 2006: fique longe do DVD nacional, pois o enquadramento que corta os lados das cenas, mais a imagem horrível de VHS, não permitem que se entenda nada do que está acontecendo nas cenas de luta!

Ah, como última curiosidade, compare essas duas imagens, retiradas respectivamente de "Bodigaado Kiba" e "The Bodyguard": aquela velha história de que os japas trocam o "R" pelo "L" é verdadeira, como revela o "Salbadole Locco" na manchete do jornal na versão japonesa!!!


PS 1: As fichas de ambos os filmes no IMDB são uma bagunça e mais confundem do que esclarecem. Na de "Bodigaado Kiba", são creditados apenas quatro atores sem identificar o nome do personagem que interpretam, e não há nenhum link para "The Bodyguard" em Movie Connections. Na ficha da versão norte-americana, além de Simon Nuchtern, outro diretor e roteirista japoneses são creditados (respectivamente Ryuichi Takamori e Ikki Kajiwara), mas eles não têm absolutamente nada a ver com o filme (enquanto os responsáveis pelo original sequer são mencionados); já os atores Sue Shihomi e Jiro Chiba, que segundo o site estão no elenco, nunca dão as caras, em nenhuma das versões do filme. O IMDB também inventou que o "título original" (hein?) da versão ianque é "Karate Kiba"! E, como confusão pouca é bobagem, o site informa que existe uma continuação (???) do filme japonês chamada "Bodigaado Kiba: Hissatsu Sankaku Tobi", feita no mesmo ano de 1973 e com o mesmo elenco e equipe técnica. Aparentemente, é apenas um cadastro repetido do próprio filme original...

PS 2: Alguém sabe se o "Bodigaado Kiba" que Takashi Miike dirigiu em 1993 tem alguma coisa a ver com o filme de Sonny Chiba?

Trailer de O GUARDA-COSTAS



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Bodigaado Kiba (1973, Japão)
Direção: Tatsuichi Takamori
Elenco: Sonny Chiba, Mari Atsumi, Eiji Go,
Rinichi Yamamoto, Yasuoka Rikiya, Hatsui
Tonoka, Yayoi Watanabe e Hideo Murota.

The Bodyguard (1976, EUA/Japão)

Direção: Simon Nuchtern e Tatsuichi Takamori
Elenco: Sonny Chiba, Mari Atsumi, Eiji Go,
Rinichi Yamamoto, Yasuoka Rikiya, Hatsui
Tonoka, Aaron Banks e Bill Louie.