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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

BODIGAADO KIBA (1973) e THE BODYGUARD (1976)


Hoje voltamos com mais uma exclusiva Sessão Dupla aqui no FILMES PARA DOIDOS, e trazendo um caso curioso: as versões oriental e ocidental do filme "O Guarda-Costas", estrelado por Sonny Chiba, sendo que apenas a última (e mais fraquinha) foi lançada no Brasil.

Por que "caso curioso"? Já explico: em 2006, publiquei no meu extinto Multiply (alguém ainda usa essa joça?) uma resenha mal-humorada sobre o filme, baseada num DVD pra lá de fuleiro distribuído no país pela Kives.

E, como sempre digo, vai chegar o dia em que os fãs de cinema perceberão o completo desserviço que são esses DVDs fuleiros e piratex lançados em larga escala por aqui. O argumento do "Ah, pelo menos estão lançando clássicos inéditos" não cola mais como desculpa para justificar produto porco nesses tempos de download.


Acontece que o disquinho da Kives tem imagem em fullscreen e com qualidade de VHS, tão ruim, mas tão ruim, que torna-se praticamente impossível entender qualquer coisa que acontece nas cenas de luta. E foi nessa edição lamentável que embasei minha resenha de então.

Só recentemente arranjei uma cópia de qualidade para rever, e parecia que estava assistindo um outro filme (como aconteceu com o western "Sete Dólares para Matar", cujo DVD nacional também é um lixo).

Só para terem uma idéia da "qualidade" do tal DVD nacional, e de quanta informação se perde pelo fato do filme estar em tela cheia, comparem as imagens abaixo (a primeira, em fullscreen e cores lavadas pela ripagem de VHS, é do disco da Kives; a segunda, em widescreen e super-nítida, é do DVD importado).


Lá em 2006, quando escrevi sobre o filme, eu ainda nem sabia que "The Bodyguard" era a versão ocidental do filme japonês "Bodigaado Kiba" (1973), devidamente cortada e "adaptada" para o mercado norte-americano, onde estreou em 1976. Curiosamente, até hoje nem o IMDB sabe disso (os filmes não estão linkados na opção Movie Connections).

Com ambos os filmes em mãos, pude finalmente assistir e comparar as diferenças entre eles, conforme você vai acompanhar a partir de agora:


BODIGAADO KIBA (1973)


Sonny Chiba é uma lenda viva do cinema oriental de pancadaria. Fez mais de 120 filmes, estrelou grandes sucessos de bilheteria e hoje é um ídolo cult, embora sua participação no cinema, dos anos 90 para cá, tenha se relegado a pequenas participações em filmes como "Battle Royale 2".

Um de seus fãs, o cineasta Quentin Tarantino, fez questão de prestar homenagem a Chiba mais de uma vez: em "Amor à Queima-Roupa" (roteiro dele dirigido por Tony Scott), o personagem principal assiste uma sessão tripla da franquia "The Street Fighter" (grande sucesso do ator) no cinema; mais tarde, incluiu o próprio Chiba no papel de Hattori Hanzo em "Kill Bill - Volume 1" - sendo que o ator já havia feito um personagem com este nome num seriado de TV dos anos 80.

Uma das características de Chiba é que seus heróis sempre foram mais brutais e menos simpáticos, daquele tipo que mata com os punhos e sem pensar duas vezes; em alguns filmes, ele exibe um olhar mais mal-encarado do que o dos próprios vilões, e talvez por esse motivo Chiba acabou interpretando vários papéis de vilão no cinema.


BODIGAADO KIBA é de 1973, portanto veio antes da famosa série "The Street Fighter" e também de outros sucessos do ator (como "The Executioner"). Dirigido por Tatsuichi Takamori e escrito por Ryuzo Nakanishi, o filme começa com um bandidão sendo executado, junto com a família e os guarda-costas, ao sair de uma igreja. Os responsáveis são perigosos assassinos da Máfia.

Corta para o mestre de artes marciais Naoto Kiba (Chiba) dando uma demonstração de seus poderes mortais ao impedir o sequestro de um avião por terroristas. Kiba é tão foda que enfrenta homens armados com revólveres e consegue matá-los com as próprias mãos. Um deles chega a cuspir os dentes da frente, ainda presos pelas gengivas!!! Os créditos iniciais do filme se desenrolam durante a pancadaria.


De volta ao Japão, o herói é recebido com honras e entrevistado por diferentes emissoras de TV, quando revela que seu "ato de heroísmo" na verdade foi a forma que encontrou para fazer auto-divulgação. Em rede nacional, Kiba afirma que é a segunda única pessoa do mundo a dominar uma técnica mortífera de karatê chamada "Tesshinkai", e que está alugando seus punhos como guarda-costas. (A outra pessoa que domina a técnica é o velho mestre do herói, Daito Tetsugen, famoso por ter matado um touro furioso com as próprias mãos!)

Numa cena ótima, nosso herói dá uma demonstração do seu dom ao arrancar o gargalo de uma garrafa de Coca-Cola com um único golpe de mão aberta!!!


À noite, enquanto conversa com a irmã Maki e se lembra do treinamento com o mestre Tetsugen, Kiba é procurado por uma garota muito suspeita que o contrata como guarda-costas, alegando que está sendo perseguida por mafiosos. Mesmo sem saber nada sobre ela, o herói aceita o trabalho.

Depois que Maki é agredida e quase morta pelos mesmos assassinos da Máfia da cena inicial Kiba passa o restante do filme acompanhando sua cliente para cima e para baixo, até descobrir que entrou numa furada: a garota era amante do bandidão executado na cena inicial, e também a única pessoa que sabe onde está uma carga milionária em heroína que é cobiçada por um montão de personagens.


A partir de então, BODIGAADO KIBA começa a ficar mais complicado do que o necessário. As poucas cenas de ação são separadas por longos momentos de conversa fiada em que são apresentados os outros personagens, basicamente quadrilhas rivais de bandidos que também cobiçam a fortuna em entorpecentes.

Em determinado momento, os criminosos começam a matar uns aos outros, e Kiba, pego no meio do fogo cruzado, precisa revidar, usando os punhos para dar cabo dos vilões que continuam vivos.

Quem espera ver lutas mirabolantes vai se decepcionar, pois, além das cenas de ação serem poucas, o herói interpretado por Chiba mata todos os seus oponentes de primeira usando seus golpes mortais, com requintes de crueldade que vão de olhos perfurados com os dedos a braços torcidos até a inevitável fratura exposta.


Mas o confronto final de Kiba com os bandidos sobreviventes à beira do mar é bem-filmado e bastante climático, graças à música de Toshiaki Tsushima (que muitas vezes lembra uma trilha de western spaghetti) e aos absurdos malabarismos do protagonista, que desvia machadinhas e facas com os pés e parte um rifle ao meio com uma única voadora!

É preciso relevar o exagero das cenas de ação e o estrago provocado pelos golpes de Chiba, algo que não é exclusividade desse filme aqui: em várias produções posteriores, as mãos do herói são tão poderosas que seus socos são capazes de arrancar os olhos do oponente das órbitas ("Return of the Street Fighter") e até costelas ("The Executioner")! Ou seja, Sonny Chiba desarmado é mais perigoso que um tiro de bazuca, e no filme a moça que ele protege chega a comentar: "Como é que mãos tão bonitas podem ser armas letais?".


Apesar de não ter achado BODIGAADO KIBA um grande filme, há algumas coisas bem interessantes: Chiba aparece com sua tradicional expressão de mal-encarado, quase como um anti-herói (é hilária a cena em que ele usa o braço decepado de um dos vilões como arma, jogando-o contra outro comparsa!).

E há algumas boas idéias perdidas num roteiro chinfrim, como um cadáver sendo usado para camuflar as drogas (detalhe copiado em dezenas de outros filmes, inclusive o recente "Os Bad Boys 2"). Também é ótima a cena em que assassinos da Máfia se escondem no interior de um sofá para tentar pegar sua vítima de surpresa - é bem legal ver adagas brotando do interior do sofá e depois os sujeitos saindo dali de dentro!


Pena que Sonny Chiba apareça muito pouco em ação e que o roteiro prefira ficar enrolando com uma trama policial fraquinha. BODIGAADO KIBA pode até não ser um dos melhores filmes do astro, mas esta versão oriental é bem melhor que o "corte norte-americano", sobre o qual falaremos agora...


THE BODYGUARD (1976)


Três anos depois de "Bodigaado Kiba", o famoso produtor norte-americano Terry Levene resolveu aproveitar o sucesso que os filmes de artes marciais estavam fazendo nos Estados Unidos: adquiriu os direitos sobre a obra de Tatsuichi Takamori e preparou a famigerada "U.S version", rebatizada THE BODYGUARD, ou "O Guarda-Costas", como foi lançada no Brasil.

Pode parecer estranho hoje, mas o picareta Levene era famoso por picotar as versões originais de filmes estrangeiros para poder lançá-las nos Estados Unidos. Lançou, por exemplo, o terror italiano "Zombie Holocaust", de Marino Girolami, com o título "Dr. Butcher M.D.", e uma sequência de abertura totalmente diferente, editada a partir de cenas de arquivo de um outro projeto que não deu certo!


Enfim, nosso nobre Levene colocou suas mãos em "Bodigaado Kiba" e resolveu, inicialmente, cortar o excesso de diálogos; depois, a última cena (!!!); e, para completar, todas as referências ao fato do personagem de Chiba ser mestre de uma técnica desconhecida de karatê. Aliás, Chiba, em THE BODYGUARD, não interpreta Naoto Kiba, mas sim ele mesmo, Sonny Chiba!!! No total, foram eliminados cinco minutos de cenas do filme japonês.

Talvez achando que o filme não estava "americanizado" o suficiente, o produtor chamou um diretor de araque chamado Simon Nuchtern para filmar algumas cenas adicionais em Nova York (???), mostrando prédios, ruas e transeuntes que, desavisados do que acontecia, ficam o tempo todo olhando para a câmera ou correndo para fora do quadro.


Nuchtern também filmou uma cena gratuitíssima numa escola de artes marciais, onde vemos uma demonstração fuleira dos talentos de dois campeões americanos de karatê, Aaron Banks e Bill Louie, interpretando eles mesmos. Para justificar tal imbecilidade, um deles fala "Vou mostrar como Sonny Chiba faz", antes de dar umas porradas nuns figurantes de quimono!!!

Só depois da "demonstração" dos convidados especiais (que deviam ser super-famosos na época do lançamento do filme, mas hoje ninguém mais lembra quem são) é que entram as cenas de "Bodigaado Kiba" reeditadas por Victor Zimet.


Ah, quase esqueci: THE BODYGUARD começa com outra loucura inventada por Levene: uma passagem bíblica romanceada de "Ezequiel 25:17" que depois seria inteiramente chupada por Tarantino em "Pulp Fiction" (é a citação recitada pelo personagem de Samuel L. Jackson). Só que, ao invés de "...and you will know my name is the Lord", o letreiro do filme diz: "...and they shall know that I am Chiba, The Bodyguard"!!! Bizarro...

(Vale destacar que esse texto, reaproveitado por Tarantino, não existe na Bíblia. Se vocês procurarem Ezequiel 25:17 nas escrituras, encontrarão apenas esse trechinho: "E executarei sobre eles grandes vinganças, com furiosos castigos, e saberão que eu sou o SENHOR, quando eu tiver exercido a minha vingança sobre eles")


Como esta versão norte-americana eliminou todas as referências ao "Tesshinkai" e ao mestre do personagem de Chiba, as cenas de treinamento que eram mostradas em flashback em "Bodigaado Kiba" aqui foram reutilizadas para os créditos iniciais.

A trama continua com o sequestro do avião, mas os diálogos dublados em inglês mudaram um pouco a situação: não é mais um grupo terrorista qualquer, mas sim traficantes em busca do próprio Sonny Chiba, que resolve a situação do seu jeito.

Em seguida, na entrevista coletiva (a edição norte-americana reduziu bastante esta cena), ao invés de falar sobre o "Tesshinkai", Chiba explica que pretende exterminar todos os traficantes de drogas do Japão (!!!), e para isso oferecerá seus serviços a qualquer um que esteja sendo ameaçado por eles. Quando ele arrebenta o gargalo da garrafa de Coca-Cola com um único golpe, por exemplo, diz: "É isso que vou fazer com os traficantes"!!!


A partir de então, a história continua idêntica a "Bodigaado Kiba", apenas com uma dublagem atroz em inglês e alguns cortes pouco importantes em cenas de diálogos. As pancadarias e tiroteios, porém, permanecem intactos.

Uma outra mudança importante de THE BODYGUARD em relação ao original é que Levene cortou a cena final: o filme termina logo que acaba o duelo de Chiba com os vilões na praia. Na versão japonesa, havia ainda algumas cenas alternativas mostrando uma nova coletiva de imprensa do herói, em que ele explicava que continuaria levando sua técnica mortal de karatê para o resto do mundo. A personagem da irmã do protagonista também reaparecia rapidamente, o que não acontece na "U.S. Version" (fotos abaixo).


(Só para constar, THE BODYGUARD termina com 1h28min e sem créditos finais, nem mesmo um "The End". O filme original tem 1h27min. Ou seja: Levene e sua turma cortaram 5 minutos do original, mas adicionaram 6 minutos de encheção de linguiça no lugar! Dá pra entender?)

Mesmo que as diferenças entre as duas versões sejam relativamente pequenas, continuo preferindo a original japonesa. Não consigo engolir aquela cena estúpida com Aaron Banks e Bill Louie em THE BODYGUARD, muito menos as bisonhas cenas em que a câmera apenas passeia pelas ruas de Nova York. Não gosto da dublagem em inglês e muito menos da desculpa fuleira encontrada para colocar Sonny Chiba lutando "contra o tráfico de drogas".

Mas, na essência, "Bodigaado Kiba" e THE BODYGUARD são o mesmo filme. Sonny Chiba fez coisas bem melhores depois, mas para quem tiver curiosidade de conhecer este, sugiro começar pela versão original japonesa. A única coisa legal da edição norte-americana é a falsa citação bíblica na introdução.



E fica a mesma recomendação que fiz no Multiply em 2006: fique longe do DVD nacional, pois o enquadramento que corta os lados das cenas, mais a imagem horrível de VHS, não permitem que se entenda nada do que está acontecendo nas cenas de luta!

Ah, como última curiosidade, compare essas duas imagens, retiradas respectivamente de "Bodigaado Kiba" e "The Bodyguard": aquela velha história de que os japas trocam o "R" pelo "L" é verdadeira, como revela o "Salbadole Locco" na manchete do jornal na versão japonesa!!!


PS 1: As fichas de ambos os filmes no IMDB são uma bagunça e mais confundem do que esclarecem. Na de "Bodigaado Kiba", são creditados apenas quatro atores sem identificar o nome do personagem que interpretam, e não há nenhum link para "The Bodyguard" em Movie Connections. Na ficha da versão norte-americana, além de Simon Nuchtern, outro diretor e roteirista japoneses são creditados (respectivamente Ryuichi Takamori e Ikki Kajiwara), mas eles não têm absolutamente nada a ver com o filme (enquanto os responsáveis pelo original sequer são mencionados); já os atores Sue Shihomi e Jiro Chiba, que segundo o site estão no elenco, nunca dão as caras, em nenhuma das versões do filme. O IMDB também inventou que o "título original" (hein?) da versão ianque é "Karate Kiba"! E, como confusão pouca é bobagem, o site informa que existe uma continuação (???) do filme japonês chamada "Bodigaado Kiba: Hissatsu Sankaku Tobi", feita no mesmo ano de 1973 e com o mesmo elenco e equipe técnica. Aparentemente, é apenas um cadastro repetido do próprio filme original...

PS 2: Alguém sabe se o "Bodigaado Kiba" que Takashi Miike dirigiu em 1993 tem alguma coisa a ver com o filme de Sonny Chiba?

Trailer de O GUARDA-COSTAS



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Bodigaado Kiba (1973, Japão)
Direção: Tatsuichi Takamori
Elenco: Sonny Chiba, Mari Atsumi, Eiji Go,
Rinichi Yamamoto, Yasuoka Rikiya, Hatsui
Tonoka, Yayoi Watanabe e Hideo Murota.

The Bodyguard (1976, EUA/Japão)

Direção: Simon Nuchtern e Tatsuichi Takamori
Elenco: Sonny Chiba, Mari Atsumi, Eiji Go,
Rinichi Yamamoto, Yasuoka Rikiya, Hatsui
Tonoka, Aaron Banks e Bill Louie.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PAULA-PAULA (2010)


Já fazia algum tempo que eu estava devendo um texto sobre uma obra de Jess Franco, o mítico cineasta espanhol que já dirigiu mais de 200 filmes (o IMDB registra "apenas" 192, mas o próprio Franco jura que foram 209 até o momento em que publico este texto). Nada mais justo, portanto, do que introduzir (ui!) Jess Franco no FILMES PARA DOIDOS com seu filme mais recente, o esquisitíssimo PAULA-PAULA.

Quem conhece um mínimo sobre a carreira do cineasta sabe que ele adorava produzir filmes baratos e rápidos, chegando a fazer 10 num único ano (!!!). Em alguns deles, filmava meia dúzia de cenas para ter uma "historinha" e depois deixava atores e atrizes pelados ou transando no restante do tempo.

PAULA-PAULA é apresentado com o subtítulo "Una experiencia audiovisual de Jess Franco", o que significa que o octagenário cineasta resolveu esquecer as convenções narrativas e partiu para a "experimentação" pura e simples. Portanto, não espere uma história com começo, meio e fim (embora muitos trabalhos de Franco no passado também fugissem a essa regrinha).


O filme começa com Paula (a bela Carmen Montes), uma stripper espanhola, sendo interrogada por uma veterana policial interpretada por Lina Romay, esposa e musa do diretor. A garota conta que assassinou uma colega do night club em que trabalhava, e que também se chamava Paula, mas a polícia não dá muita bola para ela, tratando-a como louca (o que, aparentemente, ela é).

Essa é uma das únicas cenas com diálogos, e dura uns três minutos na introdução. A partir daí, PAULA-PAULA se transforma num imenso videoclipe que se divide entre trechos da garota dançando nua intercalados com imagens lisérgicas da outra Paula ("interpretada" por Paula Davis), aquela que supostamente foi assassinada, vestida com trajes de dança-do-ventre e rebolando em câmera lenta diante de um painel de papel-alumínio.


A montagem fica pulando de uma Paula para outra, em cenas cada vez mais surreais, até que finalmente ambas se encontram e começa uma longa (literalmente) transa lésbica em super-câmera lenta, sem pressa, com incontáveis beijos antes de as duas partirem para o rala-e-rola. Só esse "momento romântico" ocupa meia hora (!!!) da "narrativa".

Finalmente, no que parece ser a "conclusão" da trama, uma das Paulas mata a outra degolada, e um letreiro anuncia: "E nunca mais se ouviu falar de um show de Paula-Paula". The end.


Qualquer pessoa que por ventura queira assistir PAULA-PAULA como um filme convencional vai quebrar a cara. Eu já tinha sido alertado sobre isso antes de colocar o DVD para rodar e já esperava a doideira que vinha pela frente, senão provavelmente ficaria muito puto. O próprio Jess aparece na introdução dizendo que este é "um dos dois ou três filmes mais estranhos" que ele fez na vida.

E é claro que não dá para esperar muito do 209º filme (!!!) de um cineasta de 80 anos cuja carreira foi justamente marcada pelo improviso e muitas vezes pela picaretagem. Se com 103 anos de idade o respeitado diretor português Manoel de Oliveira continua filmando, e fazendo filmes cada vez mais chatos, por que Franco não pode?


PAULA-PAULA tem apenas 66 minutos de duração, tempo mais do que suficiente para Jess aprontar das suas maluquices. Embora os créditos iniciais tragam a informação de que o "roteiro" é baseado em "O Médico e o Monstro", não há nada sequer parecido com o livro de Robert Louis Stevenson. A não ser que algum cinéfilo com muita boa vontade encare a relação entre as duas Paulas como uma metáfora para o "Jekyll e Hyde" que todos temos dentro de nós.

(Eu, particularmente, só vi duas gostosas peladas rebolando e se comendo, mas fiquem livres para viajar como quiserem na "história".)

Menos um filme e mais uma espécie de "vídeo-arte erótica", PAULA-PAULA parece ter sido filmado em algumas horas e no interior do apartamento do próprio diretor (estantes com livros e caixas empilhadas aparecem no fundo de algumas cenas, bem como o tripé e a iluminação, comprovando que Franco não estava muito preocupado com "burocracias técnicas"). Deve ter custado uma mixaria, foi gravado em vídeo digital e editado às pressas.


O filme todo parece ser uma desculpa do diretor para usar uma fantástica trilha inédita de jazz do pianista austríaco Friedrich Gulda. Ele compôs a música de um dos antigos trabalhos de Franco (o fantástico "Necronomicon", de 1968), e os dois continuaram amigos até a morte do músico, em janeiro de 2000. Foi um filho de Gulda que entregou a Franco o disco com a música original e ainda não-utilizada do pai, que toca durante os 66 minutos de PAULA-PAULA.

E assim, como um enorme videoclipe, as cenas se arrastam ao som da belíssima música de Gulda. Como aparentemente não tem material suficiente, Franco usa e abusa de câmera lentíssima para que as imagens "caibam" na trilha. Também se dá ao direito de brincar com os efeitos da edição por computador, adicionando, por exemplo, a imagem duplicada de espelho nas cenas em que a Paula loira dança.


Esse tipo de doideira, somada à música doidona e à ausência de narrativa, personagens ou diálogos, fazem de PAULA-PAULA uma autêntica viagem audiovisual, que poderia muito bem ser exibida em exposições de arte moderna ou bares de jazz. Mas também é um negócio perfeito para ver em casa chapado: apenas escolha seu entorpecente preferido e prepare-se para a loucura.

Confesso que em alguns momentos eu prestei mais atenção na trilha sonora do que nas imagens. Até porque, lá pelas tantas, estas começam a ficar repetitivas ou enfadonhas (principalmente os intermináveis beijos entre as duas Paulas na sua transa de meia hora em câmera lenta). Mas as mulheres são belas e valem o espetáculo.


O show é todo de Carmen Montes (acima), uma bela espanholinha que aparece completamente pelada desde os primeiros minutos do filme. Ela deve ser a nova musa do cineasta, já que tem sete filmes no currículo e seis dele são dirigidos por Franco, numa parceria que começou com "Killer Barbys vs. Dracula", em 2005.


A outra Paula, a loira Paula Davis (acima; esse é seu primeiro e único filme), chama a atenção por fugir daqueles padrões de beleza da mídia e do marketing: é mais cheinha, não exatamente gordinha, mas peituda, coxuda e bunduda. Ela dança vestida a maior parte do tempo, mas no final finalmente fica peladona para o rala-e-rola lésbico com Carmen, quando o espectador pode apreciar melhor seus "dotes".

Já Lina Romay não tem muito tempo para fazer coisa alguma e aparece mais como participação especial, ao lado do jovem produtor Alberto Sedano. Juntos, os três (Franco, Lina e Sedano) são responsáveis por toda a parte técnica do filme (câmera, edição, maquiagem, iluminação e até "efeitos especiais"), comprovando que ele deve ter sido gravado num único dia, no improviso e a preço de banana.


PAULA-PAULA me deixou curioso sobre os futuros trabalhos de Jess Franco. Se antes ele já fazia dez filmes por ano, imagine o que poderá aprontar agora, com as facilidades do vídeo digital e da edição por computador?

Esse filme até dá uma idéia das possibilidades da tecnologia nas mãos do diretor, pois tem uma equipe técnica mínima (com apenas 6 pessoas envolvidas!) e no máximo 20 minutos de cenas repetidas ou esticadas pela câmera lenta para fechar o tempo de um longa. Safado como é, Franco poderia fazer uns 20 trabalhos parecidos por mês, até que os produtores fiquem de saco cheio e implorem para que ele tente dirigir outra coisa!

Obviamente, PAULA-PAULA não é para todos os públicos. É preciso comprar a proposta antes de encarar a viagem, caso contrário você dificilmente passará dos cinco minutos iniciais. Mas, sabendo que é um grande clipão com duas gatas peladas dançando ao som de jazz, relaxe no sofá com sua bebida alcoólica preferida ou baseadinho, e relaxe com a "experiência audiovisual de Jess Franco".


Até porque o filme é muito mais prazeroso que qualquer vídeo-arte ou vídeo-instalação. Afinal, não foi feito para ganhar prêmios em festivais de filmes-cabeça, nem para discutir o sentido da vida, e sim para puro e simples consumo pornográfico.

Doideira por doideira, também é muito mais apreciável em seu erotismo sem frescura e menos chato do que os últimos filmes do David Lynch.

Continue pelando a mulherada, Jess!

PS: Para quem procura uma leitura mais "filosófica" e "metafórica" de PAULA-PAULA, deixo essa resenha em português como sugestão. Confesso que a interpretação feita tem certa lógica, mas, como já disse, tudo que eu vi foram duas gatinhas peladas dançando, e isso já me bastou (não fiquei procurando muito sentido na putaria)!

Trailer (?) de PAULA-PAULA


Trailer provided by Video Detective


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Paula-Paula (2000, Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Carmen Montes, Paula Davis e Lina Romay.