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terça-feira, 12 de abril de 2011

PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA (1993)


(Esta resenha é dedicada à fiel leitora Daniela Monteiro, uma bela garota que aprecia filmes pornográficos e, ao contrário da maioria das mulheres, não tem vergonha de admitir!)

Tendo trabalhado como jornalista por 16 anos, uma das coisas que mais me deixa puto é o jornalismo cultural desinformado que se pratica hoje. Porque foi só uma produtora chinesa começar a gravar um filme pornográfico utilizando a mesma técnica com que James Cameron fez "Avatar" que a nossa imprensa saiu alardeando as maravilhas do "primeiro filme pornô 3-D de todos os tempos"!!!

Não foram só um ou dois, quase todos caíram na conversa: jornais como O Globo e Folha de São Paulo, e até o Portal Terra. Quando eu comecei a trabalhar em jornal, em 1992, não havia internet. Se você precisava pesquisar algo, tinha que recorrer à memória dos mais velhos, aos livros ou às gigantescas enciclopédias Barsa. Hoje, com um click e alguns minutos no Google, você tem um universo inteiro à sua disposição. E mesmo assim os coiós que escrevem para os jornais e portais de hoje não perdem seu tempo pesquisando para saber que não, o tal filme chinês NÃO É o "primeiro filme pornô 3-D de todos os tempos"...


Pois bastaria uma simples pesquisa no Google para chegar a PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA, uma produção X-Rated filmada em vídeo em 1993 pelo veterano da pornografia Anthony Spinelli (falecido em 2000). No negócio desde 1971, e com mais de cem filmes pornô no currículo, foi Spinelli quem fez o primeiro filme X-Rated 3-D do cinema, quase 20 anos atrás - quando estava com, acredite ou não, 66 anos de idade!

(Mas aí, graças à desinformação da nossa imprensa, quem passa por mentiroso é você! Lembro que um professor da faculdade comentava a informação que lera nos jornais sobre o "primeiro pornô 3-D", e, quando eu retruquei dizendo que já havia um feito em 1993, o cara me olhou com tal expressão de incredulidade que era como se eu tivesse dito que a Terra era quadrada!)


(Aliás, só para comprovar que o negócio é mais antigo do que pensam esses jornalistas desinformados de hoje, 20 anos ANTES do filme do Spinelli, em 1973, o alemão Walter Boos dirigiu "Liebe in Drei Dimensionen" - "Love in 3-D", no restante do mundo -, uma comédia erótica originalmente sem sexo explícito mas que já trazia sacanagem em três dimensões, inclusive os peitões da musa sueca Christina Lindberg!!!)

(E justiça seja feita: um dos poucos a não embarcar na onda de desinformação foi o blog Mondo Cane, do meu amigo Gio Mendes, que também desenterrou esse pornô esquecido dos anos 90, como você pode ver clicando no link acima.)


Mas voltemos à PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA: qual a sensação de ver um pornô em 3-D afinal? Você realmente vê "os troços" saindo da tela em sua direção? Calma lá... Como escrever resenha de filme de putaria é algo que não rende, permitam-me antes contar minhas memórias relacionadas ao tal filme.

Foi entre 1998 e 1999 que o DVD começou a chegar com força no Brasil. Deslumbradas, as videolocadoras viam ali o futuro, principalmente na forma de estocar os filmes (você podia colocar 3 DVDs no espaço ocupado por um único estojo de VHS), e passaram a se desfazer de seus acervos de fitas. Muita coisa foi direto para o lixo, acabando com fitas raras do nosso mercado de VHS.


Quando a fúria homicida de jogar fitas fora chegou às locadoras da minha cidadezinha, eu tentei comprar (por um ou dois reais, geralmente) a maioria dos títulos raros e/ou desconhecidos, que sabia que jamais seriam lançados em DVD, ou pelo menos não tão cedo. PRINCESA ORGASMA... veio junto com um pacote de 200 fitas que comprei da locadora de um amigo (hoje falida). Quando descobri que aquilo era um "pornô 3-D", imediatamente esqueci das outras 199.

Claro que o óculos de lente azul e vermelha que originalmente acompanhava a fita já tinha ido para o beleléu, então eu tentei assistir com um que tinha em casa. Lembro que, enquanto o filme começava, eu tinha as mesmas perguntas que vocês: será que peitos e pintos vão sair da tela em minha direção? Será que devo me abaixar na hora do gozo tridimensional?


Foi com muita frustração, portanto, que percebi que PRINCESA ORGASMA... era um engodo: o 3-D do filme não funcionava, pelo menos não com os óculos tradicionais. Será que tinha um outro tipo de óculos específico para os efeitos usados pela produção? Duvido. Parece mais picaretagem mesmo.

Além disso, não é o filme todo que é em 3-D, apenas algumas poucas cenas esparsas em meio aos 70 minutos. Por exemplo: o casal está em meio ao seu rala-e-rola normal em "2-D", de repente pipocam umas cenas bizarras em que os corpos se multiplicam em três ou seis, como você vê na foto abaixo. Parece mais algum tipo de videoarte, ou o resultado de uma gravação pirata que deu errado. Não consegui ver nada de tridimensional nessas cenas borradas, mas, novamente, talvez a culpa seja do óculos...


E quando não são as trepadas borradas, a única amostra de 3-D são maçãs e vibradores produzidos por computação gráfica que ficam voando sobre a cena, algo que mais irrita do que diverte. Baseado nisso, e na ineficácia do sistema (pelo menos com os óculos tradicionais, volto a ressaltar), o que me lembro lá do longínquo 1998 ou 1999 é que minha primeira experiência com pornô em três dimensões foi bem frustrante!

Seja como for, aproveitando a comoção do falso primeiro pornô 3-D chinês, resolvi rever PRINCESA ORGASMA... há alguns dias por pura nostalgia, dessa vez numa versão ripada em DVD da minha velha fita, que ainda guardo com todo amor e carinho (principalmente porque é a prova da imbecilidade dos jornalistas citados no começo dessa resenha).

Dessa vez eu vi sem óculos algum, e ainda tentei encontrar qualidades que redimissem a película. Mas não as encontrei. Além de um pornô 3-D ruim, PRINCESA ORGASMA... também é fraquinho em duas dimensões!


O filme começa com um letreiro que corre ao estilo "Star Wars" (inclusive com um cenário espacial no fundo), explicando a "história" da Princesa Orgasma e sua Cama Mágica (dã!), que teria o poder de aumentar o apetite sexual das pessoas que se deitassem nela. Mas a princesa perdeu sua cama há muitos anos, e desde então tenta reencontrá-la. Misteriosamente, o título do filme grafa errado o nome da personagem principal (como "Princesa ORGASMIA"), mas no pôster e no IMDB o que aparece é "Princesa ORGASMA").

Corta para a veterana do pornô Nina Hartley, então com 34 anos e carinha (e corpinho) de 24, entrando no que parece ser um antiquário, acompanhada pela amiga Holly Ryder (atriz pornô mais novinha, da geração anos 90). A dupla passa por uma cama antiga (adivinhe...) e analisa algumas peças, quando então Nina solta a pérola: "Quem diria que havia vida antes dos Beatles...".


Ela explica que está procurando por uma cama com visual retrô para decorar sua nova casa, e Holly aponta para a gigantesca cama pela qual elas haviam acabado de passar absurdamente sem perceber. As moças se deitam nela para "testar" e, repentinamente, maçãs e bananas com formato fálico começam a voar pela tela, nos primeiros "efeitos 3-D" do filme.

Aí começa a putaria, e, como irá acontecer em cada cena de sexo explícito a partir de então, a tal cama mágica fica girando, atrapalhando a visão do espectador do fuc-fuc - principalmente porque em vários momentos a ação fica obstruída por vasos e outros objetos de cena! Não sei se deu tontura nos atores transar sobre uma cama que gira, mas no espectador certamente dá!


Depois de um 69 que parece durar uma eternidade, Nina saca um strap-on para comer Holly de quatro. E por mais que isso seja um maldito filme pornô e ninguém deva reparar na lógica, juro que fiquei me perguntando de onde diabos saiu aquele strap-on! Será que ela leva o negócio sempre consigo na bolsa, para o caso de algum ataque extremo de lesbianismo enquanto está fora de casa?

Quando a colação de velcro termina, finalmente aparece a tal Princesa Orgasma, na (bela) forma da atriz holandesa Deidre Holland, brincando com um daqueles globos de raio laser. Ela fala um monte de abobrinha sobre como transou com vikings e príncipes na sua adorada cama, nuns diálogos desconexos que deveriam ter sido cortados da edição - até porque qualquer tentativa de "contar uma história" se esvai logo em seguida.


Corta para outro veterano do pornô, Joey "Bigodinho" Silvera, com a bela ruiva Alyssa Jarreau num quarto, diante da mesma cama antiga da cena anterior. Pelos diálogos do casal, eles estão ajudando a "personagem" de Nina a arrumar os móveis recém-comprados em sua nova casa. Mas é claro que logo deitam na cama mágica e recomeça a putaria.

É nessa primeira cena de sexo hetero que você percebe que o "potencial" do 3-D não é usado da maneira como deveria. Os efeitos tridimensionais (que "borram" os atores, como expliquei antes) aparecem apenas em planos gerais da foda, e se isso realmente proporcionava alguma sensação de profundidade, por outro lado não devia ter graça nenhuma.

Afinal, o que eu queria ver eram planos de detalhe dos peitos sacudindo pertinho da minha cara em 3-D! Ou ficar aterrorizado com a possibilidade da gozada tridimensional sair da TV e me atingir. Mas nenhum dos closes foi filmado em 3-D. E aquela maldita cama nunca pára de girar, atrapalhando até a experiência de "acompanhar" a trepada!


A Princesa Orgasma volta para mais um pouco de besteirol e então o filme se rende ao sexo pelo sexo, esquecendo qualquer pretensão de contar historinha. Rolam mais duas cenas sem relação com os personagens anteriores ou mesmo com a cama (!!!), entre Buck Adams, Debi Diamond, Jon Dough e Deidre, e o bom dessas cenas é que pelo menos não tem a "cama mágica" girando e dá para VER o que está acontecendo.

Na cena final, há até uma tentativa de "fechar" a historinha, quando a personagem de Nina sonha que está fazendo sexo com Holly e um outro cara. Ela então acorda e descobre que foi tudo um sonho! Ou não. The end.


Tá, e aí? A cama mágica não era a cama mágica mesmo? Ou a Princesa Orgasma cansou de assistir as trepadas em sua amada cama e cancelou seus poderes afrodisíacos? Ou os caras não conseguiram pensar num final minimamente interessante e saíram com a primeira bobagem que passou por suas cabeças? Escolha sua resposta...

PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA é frustrante como experiência 3-D, e na maior parte do tempo também como pornô "normal" (aquela maldita cama giratória...).

O que salva são as duas trepadas "comuns" no meio, filmadas à moda antiga, sem mil-e-um picotes na edição e sem câmera sacudindo toda hora. Sexo sem frescura, sem posições acrobáticas, razoavelmente excitante porque são coisas que o cara pode fazer com a patroa em casa.


Além disso, os atores e atrizes são pessoas "comuns", gente como a gente, sem aqueles estereótipos de "pitboy tatuado" ou "loira siliconada" que infestam o pornô moderno. Essas duas cenas salvam o filme, mas sempre que a "cama mágica" entra em cena e começa a girar, a coisa vai pro beleléu!

O filme fica, assim, como curiosidade de uma época em que as produções pornográficas tentavam ousar e chamar a atenção através de gimmicks como o 3-D (mesmo que, nesse caso, a ferramenta seja utilizada de forma bem picareta).

PRINCESA ORGASMA... também vale como registro das façanhas de vários veteranos do X-Rated norte-americano, gente que passou décadas dando ou comendo. Acompanhe: Joey Silvera, que tem 60 anos, "atuou" em inacreditáveis 946 pornôs (!!!); John Dough, falecido aos 44 anos em 2006, fez 871 filmes (incluindo "The World's Luckiest Man", em 1997, quando transou com 101 mulheres!!!); Nina Hartley, hoje com 52 anos, fez 549 filmes; Buck Adams, que morreu em 2008 com 53 anos, apareceu em 406 filmes; e Debi Diamond, atualmente com 46 anos, fez 380 pornôs.


E sabe o que é mais curioso? Mesmo quarentões, cinquentões ou sessentões, Joey, Nina e Debi continuam "atuando". Provavelmente Jon e Buck também estariam na ativa se não tivessem morrido (certamente satisfeitíssimos com a vida que levaram)...

Fica, então, a sugestão: bem que podiam reunir o que restou do elenco original num remake de PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA. Dessa vez REALMENTE em 3-D, com peitos e pintos saindo da tela, como deve ser!

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Princesa Orgasma e a Cama Mágica (Princess
Orgasma and the Magic Bed, 1993, EUA)

Direção: Anthony Spinelli
Elenco: Nina Hartley, Deidre Holland, Jon Dough,
Joey Silvera, Buck Adams, Holly Ryder, Alyssa
Jarreau e Debi Diamond.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

SLAUGHTER (1972)



Sempre que algum cinéfilo deslumbrado vem me falar sobre a "originalidade" e o "politicamente incorreto" em filmes contemporâneos como o "Machete", do Robert Rodriguez, eu imediatamente retruco: "Cara, na boa, vai ver um blaxploitation e depois a gente conversa". Porque pouquíssimos filmes de hoje conseguem ser tão ofensivos, violentos, sem-noção, politicamente incorretos e DIVERTIDOS quanto as obras desse ciclo produzido para o público negro nos anos 1970.

Quem visita o FILMES PARA DOIDOS com frequência já deve até ter certa intimidade com esse subgênero; afinal, resenhei vários deles e outros tantos estão por vir. A atualização de hoje traz uma pérola esquecida e um dos títulos mais violentos e inusitados do ciclo: SLAUGHTER, dirigido por Jack Starrett no comecinho do ciclo, em 1972.

SLAUGHTER tem tudo aquilo que você espera ver num legítimo blaxploitation. Em outras palavras: um herói negro que passa o filme todo comendo mulheres (brancas) e arrebentando vilões (igualmente brancos), ao som de uma trilha sonora "funky" cuja letra canta os feitos do protagonista como os menestréis da Idade Média.


Nesse caso, o refrão da música-tema composta por Billy Preston anuncia: "Slaughter's big, bad, black and bold / The brother has a lot of soul / Don't you make him mean and cross / 'Cause he'll show you who's the boss".

(E, como todos devem saber, Quentin Tarantino, grande fã do cinema blaxploitation, reutilizou esta a música-tema em "Bastardos Inglórios".)

SLAUGHTER tem também todos aqueles ternos coloridos, calças bocas-de-sino, penteados black power e costeletas gigantescas que caracterizam a década em que foi feito, dando um charme todo especial à película.


O roteiro de Mark Hanna ("Attack of the 50 Foot Woman") e Don Williams (também produtor, ao lado de Samuel Z. Arkoff) não podia ser mais simples e esquemático: o veterano do Vietnã e ex-capitão dos boinas-verdes Slaughter (Jim Brown) começa a investigar por conta própria a morte dos pais num atentado a bomba.

Descobre que o velho estava metido com uma perigosa quadrilha e parte para a vingança. No processo, Slaughter é recrutado por agentes federais liderados por Price (Cameron Mitchell, em participação minúscula), que igualmente querem ver a quadrilha fora de circulação, e por isso se utilizam dos "talentos" do nosso herói.


Ele é enviado para a América do Sul (mas as cenas foram feitas no México) com a missão de desbaratar a gangue liderada pelo italiano Mario Felice (Norman Alfe) e pelo seu braço direito psicopata, Dominic Hoffo (Rip Torn, ainda jovem!).

Lá pelas tantas, Slaughter envolve-se com a amante de Hoffo, uma delícia de loirinha interpretada por Stella Stevens, que passa boa parte do filme sem roupa, transando ou apanhando!


O herói também conta com um parceiro que mais atrapalha do que ajuda, interpretado por Don Gordon. Ele é uma tentativa de alívio cômico, o que às vezes dá uma cara de "Máquina Mortífera" às avessas ao filme, como se Danny Glover fosse o mocinho e Mel Gibson seu sidekick!

É óbvio que ninguém pode esperar um roteiro complexo e profundo de uma produção blaxploitation. Agora, se o seu negócio é ação, tiradas preconceituosas, mulher pelada, sangue a rodo e aquele jeitão estiloso dos anos 70, SLAUGHTER é um filme simplesmente imperdível.

Exagerada do começo ao fim, a trama já começa com uma cena em que Slaughter persegue, de carro, um pequeno avião em decolagem (!!!). Certamente convencido de que tamanho não é documento, o herói atropela, literalmente, o avião, provocando uma explosão! A partir daí, é um festival de socos, tiroteios e frases de efeito.


Posso estar viajando, mas vi em SLAUGHTER uma tentativa de se criar um herói negro à la James Bond. Na época, como se sabe, a série estava em seu sétimo filme ("Os Diamantes São Eternos", de 1971) e era bastante popular.

Pois Jim Brown parece ser uma resposta black a Sean Connery e George Lazenby, e inclusive tem uma cena em que vai jogar num cassino infestado de vilões, com smoking e tudo mais, e aproveita para seduzir a mulherada! Além disso, a abertura do filme tem créditos animados ao estilo 007.

(Ironicamente, a oitava aventura de Bond - "Com 007 Viva e Deixe Morrer", de 1973 - parece prestar homenagem ao ciclo blaxploitation ao colocar uma quadrilha de negros como vilões.)


Por falar nele, é bom lembrar que Jim Brown não era tão desconhecido à época de SLAUGHTER, e vinha de clássicos como "Os Doze Condenados". Mas esse aqui é seu primeiro filme como protagonista (corrijam-me se estiver errado), e já serviu para inscrever o nome do mano num imortal panteão de heróis negros que inclui do Shaft de Richard Roundtree ao Blade de Wesley Snipes.

Brown parece se divertir muito como herói "badass", que não hesita em sentar o ferro nos branquelos (aquele tipo de "atitude" que hoje o Samuel L. Jackson tenta sempre copiar, mas raramente consegue).


O ator passa o filme inteiro com um sorriso cínico e confiante no rosto, disparando diálogos antológicos como aquele em que seu parceiro alerta para a quantidade de capangas que terão que enfrentar, e Slaughter simplesmente mostra seu revólver e comenta: "You got your shit? Well, I got mine. So, c'mon!".

Tem até uma cena absurda em que o herói chega em casa e escuta um barulhinho vindo do banheiro. Sem hesitar, puxa o revólver, descarrega a munição na porta do banheiro e grita: "Se ainda estiver vivo, saia devagar"!!!! Sim, como se não houvesse outra forma mais simples de lidar com a situação... Deve ser muito perigoso tentar organizar uma festa de aniversário surpresa para Slaughter!


O personagem fez tanto sucesso que acabou dando origem a uma continuação no ano seguinte, "Slaughter's Big Rip-Off", desta vez dirigida por Gordon Douglas.

SLAUGHTER também é bastante violento, com sangrentos tiroteios onde os balaços provocam explosões tão exageradas no corpo das vítimas que até parece que elas tomaram tiros de bazuca.

Na conclusão, quando Slaughter e seu parceiro invadem a fortaleza dos vilões para um confronto final, armados com metralhadoras, espingardas e até granadas (!!!), temos uma chacina que faz jus ao título do filme e ao nome do personagem - de certa forma antecipando o cinema de ação barulhento e exagerado dos anos 80.


Pouca gente reconhece o diretor Starrett por nome, até porque ele é mais conhecido como ator do que como cineasta. Em "Rambo - Programado para Matar", por exemplo, ele aparece como aquele policial coroa que provoca o Stallone e depois cai do helicóptero, lembra?). Pois Starrett morreu em 1989, e hoje não recebe o devido reconhecimento por uma trinca de filmes muito legais que dirigiu: este aqui, o também blaxploitation "Cleopatra Jones" (1973) e o horror "Corrida com o Diabo" (1975).

Em SLAUGHTER, o diretor rende-se a exageros típicos do período (como as várias cenas de sexo e a nudez gratuita da estrelinha Stella, que inclusive aparece num longo banho de chuveiro), e tenta inventar moda usando lente "olho-de-peixe" em algumas cenas de ação, artifício que se revela bizarro e deslocado - embora estiloso.


Hoje, a chatíssima patrulha do politicamente correto certamente cairia de pau em cima de SLAUGHTER. Afinal, os vilões (brancos) vivem se referindo ao herói como "black ape" (macaco negro), entre outros termos depreciativos. O próprio Cameron Mitchell solta um "Who the hell you think you are, nigger?", antes de tomar uns catiripapos do herói. Ou seja, nem Cameron Mitchell pode com Slaughter!

Por tudo isso e pelas tiradas divertidíssimas disparadas pelos personagens (inclusive impagáveis rimas do tipo "Your ass is grass!", que Tarantino começaria a copiar em seus filmes três décadas depois), SLAUGHTER é diversão de primeira e, principalmente, cinema grindhouse "de verdade", não uma cópia de quinta categoria sem nenhuma ousadia, como essas tralhas atuais à la "Machete".

Como curiosidade, quando a Globo Vídeo lançou o filme em VHS no Brasil, resolveu traduzir o título literalmente, rebatizando-o "A Chacina", sem perceber que SLAUGHTER também é o nome do personagem principal! A mesma Globo Vídeo lançou a continuação com um nome genérico, "Jogando Sujo", ao invés de linkar os dois filmes - quem sabe com um estúpido "A Chacina 2".

Enfim, coisas do nosso mercado de VHS...

Trailer de SLAUGHTER



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Slaughter/A Chacina (Slaughter, 1972, EUA)
Direção: Jack Starrett
Elenco: Jim Brown, Stella Stevens, Rip Torn,
Cameron Mitchell, Don Gordon, Marlene Clark,
Norman Alfe e Eddie Lo Russo.