WebsiteVoice

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

THE WHITE GORILLA (1945)


Quer fazer um filme de aventura/horror na África, mas está sem grana para contratar figurantes, construir aldeias indígenas, pagar figurinos, alugar animais selvagens? Ora, não se desespere: com um pouquinho de malandragem e um muitinho de cara-de-pau, você consegue rodar sem dificuldade e com orçamento praticamente zero o tal filme.

Basta se inspirar no "exemplo" do diretor e picareta de marca maior Harry L. Fraser e seu clássico da sem-vergonhice THE WHITE GORILLA, produzido no longínquo ano de 1945.

Fraser queria fazer um filme sobre um gorila assassino na África, mas obviamente não tinha dinheiro para filmar em território africano, e muito menos para recriar a África nos Estados Unidos, como faziam outros produtores de mais cacife.


O que você faria se estivesse no lugar dele? O mais correto seria desistir da idéia, claro, mas o cineasta aparentemente era um sujeito teimoso.

Resolveu, então, "reproduzir" a África usando cenas de um filme mudo de 1927, "Perils of the Jungle", dirigido por Jack Nelson, que foi cortado e reeditado na maior cara-de-pau para "encaixar-se" em meio à meia dúzia de cenas filmadas pelo próprio Fraser em 1945.

Agora imagine: você não tem mais os atores daquele filme de 1927, muito menos os cenários da tal produção. Como fazer para que estas cenas "reaproveitadas" se encaixem com aquelas filmadas 18 anos depois?


Fácil: basta transformar todas as cenas mudas e antigas de "Perils of the Jungle" na história contada em flashback por um dos personagens de THE WHITE GORILLA!!!! Não é demais? Dá até vontade de fazer seu próprio filme de aventura na África depois de ver o resultado do "copiar + colar" de Fraser.

E o resultado, claro, é um daqueles trashaços de rolar de rir, que deixaria até mesmo o lendário Ed Wood envergonhado.

Com as cenas de "Perils of the Jungle" ocupando a maior parte da narrativa, os produtores de THE WHITE GORILLA não precisaram de muito esforço para realizar seu filme. Consta que as filmagens levaram apenas três dias e uma noite, e o elenco tem apenas seis atores: Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd Buster, Francis Ford, Charles King e George J. Lewis.


Todos os outros atores que dão as caras ao longo do filme são os atores de "Perils of the Jungle", e portanto não foram creditados, mas são Harry Belmour, Eugenia Gilbert, Will Herman, Frank D. Hutter, Walter Maly, Frank Merrill, Milburn Morante, Bobby Nelson e Albert Smith.

(Não perca as contas: só nessa brincadeira de reaproveitar cenas de um filme antigo, os produtores já econonizaram nove cachês!!!)

THE WHITE GORILLA começa no Posto de Trocas do Morgan, no coração do continente africano, onde uma dupla de caçadores, Stacey (Francis Ford) e Hutton (George J. Lewis), esperam por notícias de um explorador chamado Ed Bradford, que desapareceu há algumas semanas na selva.

Enquanto eles jogam conversa fora com o proprietário do lugar, J. Morgan (Charles King), eis que surge um dos batedores da expedição do desaparecido Bradford, Steve Collins ("interpretado" por Ray Corrigan), com as roupas em farrapos e coberto de ferimentos ensangüentados.


Pelos próximos cinquenta e poucos minutos, Collins põe-se a narrar o que aconteceu ao azarado grupo que integrava. E a maior parte destas cenas de "flashback" são, na verdade, cenas extraídas do já citado "Perils of the Jungle".

Como tal produção de 1927 ainda era silenciosa (ironicamente, o cinema sonoro começou naquele mesmo ano com "O Cantor de Jazz"), é fácil de identificar quais são as (poucas) cenas filmadas por Fraser para THE WHITE GORILLA e quais são as (muitas) cenas roubadas da produção dirigida por Jack Nelson.

Para "maquiar" o problema das cenas reaproveitadas serem mudas, não há diálogos quando elas são exibidas, apenas a narração em off de Collins explicando a história. Acredite: é de rolar de rir!


Collins conta como Bradford e sua turma se meteram em encrencas com uma tribo belicosa da região. Bradford, no caso, é o personagem construído a partir das cenas que Frank Merrill fez em "Perils of the Jungle", quando se chamava Rod Bedford.

O engraçado é a forma utilizada pelo editor Adrian Weiss (um notório produtor e diretor de exploitation movies do período) para casar as cenas de 1945 com as filmadas em 1927: alguns takes com o ator Ray Corrigan escondido em meio a moitas ou árvores são encaixados entre a ação de "Perils of the Jungle", e Corrigan, obviamente, nunca se mistura ou interage com aqueles atores dos anos 20 - apenas "observa".

Para justificar essa falta de interação, a narração em off usa frases como "Escondido, descobri que Bradford e Allison eram prisioneiros de uma das tribos", ou "Eu resolvi segui-los à distância". Abaixo você pode ver como isso funciona na edição: a cena da esquerda foi feita em 1945 e mostra o ator Corrigan teoricamente testemunhando a ação da cena da direita, que foi retirada do filme de 1927! Sim, amiguinhos, é muita cara-de-pau!!!


Quando acabam as tais cenas de "Perils of the Jungle", finalmente surge a criatura que dá nome ao filme, o gorila branco (que, em várias cenas, foi interpretado pelo próprio Ray Corrigan, para economizar ainda mais dinheiro em cachê de figurantes!!!!).

O monstruoso animal vive hostilizado na selva justamente pela sua cor, diferente da pelagem negra dos gorilas "comuns" - o que não deixa de ser irônico, considerando que o filme foi feito em plena época de preconceito racial dos brancos contra negros.

Collins acaba topando com o monstro enquanto "participa" como observador das cenas de "Perils of the Jungle", e escapa por pouco. Mas a conclusão prevê um novo e mortal duelo entre o caçador e o gorila branco.


Ah: por causa da picaretagem do reutilização de cenas, e como "Perils of the Jungle" NÃO tratava de um macacão assassino, é claro que os personagens e atores do filme de 1927 nunca interagem com o gorila, apenas Collins!

Acho que já deu para entender a mensagem: THE WHITE GORILLA é um trashão picareta e muito divertido, onde a edição das cenas de épocas diferentes funciona como perfeita comédia involuntária. Afinal, a montagem é tão cara-de-pau que quase todas as cenas filmadas por Fraser em 1945 mostram os (poucos) atores sentados e ouvindo a "narração" da "história".

Na conclusão, como não existe qualquer possibilidade de os atores dos anos 40 encontrarem os dos anos 20, o roteiro do próprio diretor utiliza uma solução que beira o surreal: todos estes personagens originais de "Perils of the Jungle" morrem devorados por tigres - "off-screen", é claro, porque isso não acontecia no filme de 1927!


Mas filmes sobre gorilas assassinos estavam em alta naquela época, e isso deve ter sido uma grande motivação para os realizadores dessa pérola, que certamente estavam buscando um dinheiro fácil.

Os chamados "gorilla movies" começaram a pipocar ainda na década de 30, com "The Monster Walks" (1932), de Frank R. Strayer, que mostrava um gorila assassino aprontando o diabo em um casarão durante uma noite de tempestade. Isso um ano antes do clássico "King Kong" de 1933, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, trazer o famosíssimo gorila gigante que já ganhou duas refilmagens, uma seqüência e inúmeras aventuras não-oficiais.

Vai saber que graça o povo enxergava nesse tipo de história, mas os gorilas assassinos (obviamente atores enfiados dentro de ridículas fantasias de macaco!) continuaram fazendo vítimas no cinema até os anos 60, em produções paupérrimas como "The Ape" (1940), de William Nigh, com Boris Karloff; "Bride of the Gorilla" (1951), de Curt Siodmak, com Lon Chaney Jr., onde um homem é vítima de uma maldição vodu e se transforma em gorila à noite (vai ver não tinham dinheiro para comprar uma roupa de lobisomem, então inventaram um "gorilatropo" ao invés de um licantropo!); e "The Bride and the Beast" (1958), de Adrian Weiss, outro trashão impagável, este com roteiro do mitológico Ed Wood!


Até o pobre Bela Lugosi, que um dia foi Drácula, viu-se perdido no inferno dos "gorilla movies", interpretando um cientista que se transforma em gorila assassino nos filmes "The Ape Man" (1943), de William Beaudine, e "Return of the Ape Man" (1944), dirigido por Phil Rosen (e que, apesar do título, nada tem a ver com o outro filme).

Lugosi também pagou um mico símio em "Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla", dirigido novamente por William Beaudine em 1952, e o último filme "normal" do ator antes de ele começar a trabalhar exclusivamente com Ed Wood.

Voltando a THE WHITE GORILLA, uma resenha do filme que encontrei na internet sugere usá-lo para um criativo "drinking game", e acho que é mesmo uma boa forma de encarar algo tão ruim. As regras são as seguintes: cada vez que a cena muda de 1945 para 1927, você e seus amigos tomam uma dose de alguma bebida alcoólica potente, e vice-versa. De tanto que isso acontece, será bem fácil acabar completamente embriagado ou em coma alcoólico antes do "The End" aparecer - e isso que o filme é curtíssimo, com cerca de 60 minutos de duração!


E não bastasse a edição criminosa, e os malabarismos que ela exige para manter uma narrativa minimamente coerente, THE WHITE GORILLA ainda está coalhado com todo tipo de defeito de produção classe Z, do cenário pobre (a "selva africana" parece o quintal da casa de alguém) às roupas dos gorilas, onde percebe-se nitidamente os buracos para os olhos nas máscaras!!!

Resumindo: um filme divertidíssimo, hilário, de rolar de rir do começo a fim, e que com certeza fica ainda melhor quando visto em turma, preferencialmente sob efeito de álcool ou substâncias entorpecentes.

Um autêntico FILME PARA DOIDOS, digno de figurar entre as produções-símbolo deste blog.

Veja THE WHITE GORILLA na íntegra



*******************************************************
The White Gorilla (1945, EUA)
Direção: Harry L. Fraser
Elenco: Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd
Buster, Francis Ford, George J. Lewis, Charles
King e vários atores em cenas de arquivo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O JOGADOR (2008)


Quando a carreira de um ex-astro de filmes de ação está quase morta e enterrada, o pobre coitado tem dois caminhos a seguir: ou cai no inferno dos filmes "direct-to-DVD", com pouca e às vezes nenhuma visibilidade, ou tenta reinventar sua imagem e voltar às luzes da ribalta, mesmo que às vezes apenas pela curiosidade mórbida.

Não faltam exemplos bem-sucedidos recentes dessa segunda alternativa. Sylvester Stallone, por exemplo, chegou a cair no inferno dos filmes direto para locadora ("Missão Perigosa", de 2002) e até fez um patético vilão em "Pequenos Espiões 3D" antes de reciclar-se com os excelente "Rocky Balboa" e "Rambo 4",

O belga Jean-Claude Van Damme também estava destinado a penar em produções bagaceiras quando estrelou um excelente filme policial, ainda pouco conhecido, chamado "Até a Morte", em que interpretava um anti-herói em busca de redenção. Acabou reencontrando seu público e passou a estrelar alguns filmes melhorzinhos, como o interessante "JCVD" e o divertido "Soldado Universal 3".


Chegamos então a Steven Seagal e O JOGADOR. O ex-astro caiu no inferno do "direct-to-DVD” em 2002, depois de "No Corredor da Morte" (seu último filme a ganhar lançamento nos cinemas). Mesmo seus fãs mais fanáticos pararam de acompanhar sua filmografia, tal o baixo nível da maioria dos filmes.

Para piorar, o próprio ator descuidou-se e engordou demais, tornando-se uma figura patética que não convence mais nem lutando, sendo geralmente substituído por dublês. E como ele nunca conseguiu realmente INTERPRETAR, o que sobra quando o sujeito não convence lutando? Quem quer ver Steven Seagal "interpretar"? Pois é...


Ao contrário de Stallone e Van Damme, entretanto, Seagal parece nunca ter se importado com sua visível decadência. Mesmo gordo, mesmo estrelando produções cada vez mais bagaceiras, ele continua firme e trabalhando, fazendo de quatro a cinco produções por ano, todos elas desovadas direto na prateleira das locadoras.

Mas O JOGADOR, que ele produziu e estrelou em 2008, parece ser uma primeira (e mal-sucedida) tentativa do ex-astro reinventar sua imagem, como antes fizeram Van Damme e Stallone. Pode-se até dizer que o filme é o "Até a Morte" de Steven Seagal, que aqui aparece, talvez pela primeira vez, como um personagem cheio de defeitos, vícios e questionamentos morais - um autêntico anti-herói, em resumo.


Infelizmente, Seagal não é Van Damme. Sua notória incapacidade de mudar de expressão facial não ajuda nada quando você estrela um filme que inclui vários lances dramáticos, interpretando um personagem alcoólatra em busca de redenção. Não é exagero dizer que O JOGADOR poderia ter sido um filmaço com outro ator no lugar do barrigudo Seagal.

Ele "interpreta" Matt Conlin, um policial afastado do departamento por suspeita de ter roubado uma bolada em dinheiro do tráfico. Como Van Damme em "Até a Morte", Matt se transforma numa caricatura de herói: viciado em jogo, perde toda sua grana nas mesas de pôquer e depois enche a cara e dorme com prostitutas em pensões baratas.


Porém, ao contrário de Van Damme naquele filme, Seagal não teve coragem de mostrar com detalhes a decadência do seu personagem. Sim, vemos Matt jogando pôquer e perdendo; sim, vemos Matt segurando copos de uísque na mão (e cheirando e fazendo cara feia), mas nunca vemos o RESTO da viagem do "herói" ao inferno, algo que é somente comentado por outros personagens ao longo do filme.

Enfim, abandonado pela esposa e pela filha, Matt acumula uma dívida imensa no pôquer e provavelmente vai acordar algum dia com a boca cheia de formiga. Mas subitamente aparece uma organização secreta, liderada por um misterioso sujeito conhecido apenas como Old Man (Lance Henriksen!!!!), e paga todas as suas promissórias. Com uma condição: Matt deve fazer uns "servicinhos" para eles.


Serviços de execução, no caso. Como pistoleiro contratado pela organização, o "herói" recebe fotos de alvos que deve apagar, supostamente bandidões que escaparam da justiça e devem receber o merecido castigo. Ele cumpre algumas das missões, mas começa a se questionar: estará fazendo a coisa certa? Principalmente quando descobre que um dos alvos exterminados tinha uma filha da mesma idade que a dele.

Mas a coisa complica de vez quando Matt recebe a missão de matar seu melhor amigo, um policial recém-promovido que, para piorar, é o atual marido da ex-mulher do protagonista - e padrasto da sua filha. A organização secreta argumenta que o tira é corrupto e deve morrer, mas Matt aposta sua vida na integridade do sujeito. Inicia-se o dilema.


Se O JOGADOR tem um ponto positivo, este é a reviravolta no terceiro ato do filme. Tudo se encaminha para um nojento clichê (Matt recusando-se a matar o melhor amigo e combatendo a própria organização que o contratou), até que o filme tem coragem de revelar que o tal melhor amigo é, sim, um policial corrupto e bandidão, e não o cara inocente que Matt imaginava!

Porém, tirando esse contra-clichê, há bem pouco de interessante, ou de novo, para se ver em O JOGADOR. Se essa era uma tentativa de dar um novo rumo à carreira de Seagal, com um personagem um pouco mais complicado e cheio de conflitos, o resultado é medíocre e decepcionante.

E olha que ele fez quase tudo certo: descartou aqueles diretores de segunda com quem vinha trabalhando e chamou o holandês Roel Reiné para comandar a câmera. A direção de Reiné (do divertido "A Encomenda") dá uma certa sofisticação ao filme e à história batida, mas esbarra nas limitações da produção e do ex-astro.


Afinal, qual é a lógica de você encher um filme de ação com cenas "dramáticas", que mostram seu protagonista dividido e martirizado, se o astro da bagaça não tem a menor condição de "atuar" e demonstrar seus problemas? E quem engole que um brutamontes que quebra braços e explode cabeças a tiros tenha inspiração religiosa, vivendo na igreja em conversas filosóficas com um padre?

Toda e qualquer cena em que Seagal tenta mostrar que está "amargurado" tem resultado patético, quando não engraçado. Ao perder uma bolada no pôquer, por exemplo, tudo que ele faz é colocar a mãozinha na testa, mas mantém a mesma expressão facial de sempre!

O mesmo vale para todos os momentos em que ele supostamente precisava demonstrar seu alcoolismo - nunca vemos o ator bebendo, apenas segurando copos de uísque nas mãos e fazendo caretas.


Esse talvez seja o grande pecado de O JOGADOR: parece até que Seagal recusou-se a abandonar totalmente a sua tradicional imagem de "fodão", preferindo não apresentar literalmente os defeitos do seu personagem (ao contrário do que fez Van Damme).

Uma pena, pois interpretar (ou tentar, pelo menos) um personagem cheio de defeitos e pontos fracos, e não o FDP invencível e seguro de si que ele faz sempre, seria um belo diferencial na sua filmografia.

Já as cenas de ação são razoáveis, bem filmadas e sem muitas firulas, apenas em menor número do que se espera num filme de ação com Steven Seagal. Ele atira mais do que bate (e, quando chuta, mal consegue levantar a perna, de tão fora de forma), mas protagoniza algumas cenas interessantes por mostrar-se mais implacável que a média dos heróis "politicamente corretos" de hoje (executa a sangue-frio um alvo desarmado, por exemplo).


O tiroteio final é num cemitério, com música clássica e uma infinidade de cenas em câmera lenta que parecem cópia do que John Woo fazia 20 anos atrás (em outras palavras, estão mais datadas que disquete de computador).

Num plano bem legal, Seagal está se protegendo atrás de uma lápide quando um tiro arranca um pedaço do bloco de pedra; ainda no ar, o estilhaço é atingido por outro tiro e rodopia em câmera lenta!


Se a parte dramática não funciona, as cenas de ação são poucas e rotineiras e Steven Seagal não convence, o que sobra em O JOGADOR para merecer uma resenha tão longa aqui no FILMES PARA DOIDOS?

Nesse caso, o fator trash. O tal de J.D. Zeik, que escreveu o roteiro, estava inspiradíssimo e colocou na boca dos personagens diálogos totalmente sem-noção, que, para piorar (ou melhorar) são falados a sério.

A cena campeã nesse quesito é aquela em que o herói Matt se aproxima de um vilão moribundo e pergunta: "Você quer ser enterrado ou cremado?". Como últimas palavras, o sujeito murmura: "Enterrado". Sem nem esperar o cara morrer direito, Matt atira seu corpo para dentro de um carro e explode o veículo a tiros. Olhando para as chamas, grita: "Você foi cremado, seu filho da puta!".


Por essas e por outras, O JOGADOR até mantém a atenção. Embora seja um dos filmes melhorzinhos que Steven Seagal fez de dez anos para cá, ainda assim é fraco e cheio de defeitos, principalmente os "tempos-mortos dramáticos" arruinados pela incapacidade do ex-astro de atuar.

Ah, e não se espante com o nome de Lance Henriksen nos créditos, pois ele faz uma participação meramente decorativa e não aparece em cena nem cinco minutos. Outro que aparece no esquema "piscou, perdeu" é o astro de quinta categoria Matt Salinger, que no passado foi o Capitão América naquele filme sofrível do Albert Pyun (e aqui interpreta a banca no jogo de pôquer do início).


Talvez eu possa recomendar O JOGADOR como um filme para você ver com seu pai fã do Domingo Maior. Ele é até capaz de ficar entretido com os (poucos) tiroteios e pancadarias, afinal já viu coisa bem pior, enquanto você vai no mínimo dar umas boas gargalhadas com a "atuação" de Seagal e com os diálogos bisonhos de J.D. Zeik.

E se O JOGADOR não funcionou como tentativa de reinventar a imagem de Seagal, e quem sabe resgatar sua carreira do fundo do poço, depois dele o "ator" começou a atirar para todos os lados: fez piada com a própria imagem num trailer falso da comédia "The Onion Movie", lutou contra vampiros em "Escuridão Mortal", fez um ex-mafioso russo (!!!) em "Conduzido para Matar" (espécie de "Senhores do Crime" da Cannon Films, e um belo filme, quem diria...) e uma marcante e hilária participação como vilão em "Machete", de Robert Rodriguez.


É esperar para ver o que todas essas doideiras vão trazer ao ator: um pouquinho de glória ou o fim definitivo do que restou da sua "carreira"? De todo jeito, se continuar assim, Seagal tem papel certo num futuro remake de "Free Willy"...

Mas bem que os roteiristas dos novos filmes do "ator" poderiam explorar melhor a questão da idade e da gordura de Seagal, escrevendo-lhe personagens mais complexos, com limitações e defeitos (como Stallone em "Rocky Balboa", por exemplo), talvez até dificuldades para lutar.

Afinal, não dá mais para engolir uma baleia assassina matando suas vítimas fora da água.

Trailer de O JOGADOR


*******************************************************
O Jogador (Pistol Whipped, 2008, EUA)
Direção: Roel Reiné
Elenco: Steven Seagal, Bernie McInerney, Antoni
Corone, Paul Calderon, Lance Henriksen, Renee
Goldsberry e Mark Elliot Wilson.