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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA (1985)


(A resenha de hoje vai especialmente para o pessoal da mesma idade que eu, que, nesse período de férias, sempre assistia as reprises dos filmes dos Trapalhões nas tardes da Globo.)

Pouca gente lembra que Dedé Santana, além de ser o segundo na hierarquia de importância do quarteto Os Trapalhões, também dirigiu alguns dos filmes do grupo.

Os dois últimos trabalhos assinados por ele se caracterizam pela metalinguagem, trazendo Didi, Dedé, Mussum e Zacarias no "papel" deles mesmos, num interessante conceito que aproveitava a fama estrondosa que os humoristas faziam no Brasil da década de 80.


Esses filmes estão de certa forma conectados. Um deles é a animação "Os Trapalhões no Rabo do Cometa" (1986), já resenhada aqui, em que o quarteto aparece fazendo um show no Teatro Scala antes de "virar desenho animado". O outro é OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA, lançado um ano antes, mas produzido e filmado ao mesmo tempo que "O Rabo do Cometa".

A trama de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é simplíssima: Xuxa Meneghel (que então ainda fazia seu show infantil na TV Manchete, tendo se bandeado para a Globo apenas em 1986) é uma freirinha inocente, a Irmã Maria, professora do Orfanato São Judas.


Quando problemas financeiros ameaçam fechar o local, ela decide convidar Os Trapalhões para fazer um show humorístico beneficente, angariando o dinheiro que salvará o orfanato e suas crianças.

Mas um grupo de bandidos liderados por Maurício do Valle rouba a bolada, e Didi e Dedé iniciam uma longa perseguição aos meliantes, enquanto Mussum e Zacarias continuam no palco levando o show adiante para não frustrar o público que lotou o teatro.


O que mais salta aos olhos hoje, revendo o filme, é a ruindade e total falta de coesão/conexão do roteiro escrito por Dedé, Renato Aragão, Paulo Andrade e, vejam só, Jorge Fernando (!!!).

Sem muita preocupação em contar uma história linear, OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA tem números musicais (desnecessários), um trecho de quase 20 minutos em animação (sem muita conexão com o resto da história), vários esquetes humorísticos encenados pelo quarteto durante seu "show beneficente" e, finalmente, a longa perseguição aos bandidos, que ocupa a meia hora final do filme.


Descontando os créditos iniciais e finais, não sobra nem 1h10min de "história". Se tirarmos a animação, os esquetes e as músicas, então, não sobra praticamente nada. Logo, é uma desculpa bem esfarrapada para se fazer um longa!

(Mais ou menos como "Cheech & Chong em Amsterdan", de 1983, outra picaretagem composta, em sua maior parte, pela gravação de uma apresentação ao vivo dos dois comediantes norte-americanos.)


A melhor coisa de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é justamente o trecho em animação, novamente produzido pelos Estúdios Maurício de Souza. Mas o mais estranho é que este trecho está ligado diretamente à história do desenho animado "Os Trapalhões no Rabo do Cometa", que foi lançado NO ANO SEGUINTE.

Inclusive traz o personagem do Bruxo (dublado por José Vasconcelos) que precisa segurar na mão do Didi, para recuperar os poderes mágicos roubados pelo Trapalhão. Como toda essa trama é explicada apenas em "O Rabo do Cometa", quem viu OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA em 1985 não deve ter entendido bulhufas...


(A minha teoria é de que "O Rabo do Cometa" foi inicialmente idealizado para ser lançado em 1985, mas Maurício de Souza e sua trupe não conseguiram concluir o processo de animação, assim liberaram apenas um trecho já pronto e os Trapalhões tiveram que se virar para fazer um filme às pressas e tapar o buraco.)

Curiosamente, ainda, esse trecho em desenho animado parece ser justamente O FINAL da história de "O Rabo do Cometa", com Didi, Dedé e Mussum viajando para um futuro em que cachorros-mecânicos fazem xixi elétrico nos postes e robôs-mendigos pedem óleo como esmola.


Ali, o Bruxo é finalmente vencido por Zacarias usando uma arma paralisante. Logo, essa parte não é apenas um "aperitivo" para o desenho animado que seria lançado no ano seguinte, como eu cheguei a pensar, mas um complemento da história do filme POSTERIOR! Melhor não tentar entender...

O restante de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA dá destaque à apresentação dos humoristas no palco de um teatro - quase como um "Monty Python Ao Vivo no Hollywood Bowl" dos pobres.


É uma rara oportunidade para o quarteto refazer alguns de seus esquetes mais conhecidos do programa de TV dominical, como o do Didi boxeador comendo "rapadura atômica" e soltando bordoada em todo mundo - no rival, no próprio treinador, no juiz da luta e até no câmera!

Outro momento impagável é o dos "Heavy Trap's", trazendo Os Trapalhões como banda de heavy metal. Quem não rir de Mussum na bateria e Didi sem camisa tocando guitarra, ambos com exageradas perucas de cabelos longos, não é humano (confira se você é humano ou não vendo o vídeo abaixo).

Heavy Trap's in concert



(A propósito, o vocalista da banda, que canta a estúpida música "Hoje Não é Meu Dia de Sorte", é um tal de Lenine. Sim, você leu direito: AQUELE Lenine...)

A meia hora final acompanha a longa perseguição de Didi, Dedé e Xuxa aos meliantes que roubaram a bilheteria do espetáculo. Até o falecido Beto Carrero aparece em pessoa para dar uma mãozinha aos Trapalhões, e há perseguições de carro, moto, cavalo e diligência.

Apesar disso, e da pancadaria pastelão típica do grupo, estes são os momentos menos engraçados e divertidos da obra, privilegiando a ação, o corre-corre e o trabalho dos dublês.


A metalinguagem não se resume aos Trapalhões interpretando "eles mesmos", e aparecendo como um quarteto humorístico famoso (que realmente eram).

Também aparece em cena a famosa revista dos Trapalhões publicada pela Bloch (que eu citei na resenha de "O Rabo do Cometa"), e, durante um número musical, são exibidas fotos antigas de cada um dos Trapalhões, além de cenas dos longas anteriores do grupo. Você pode conferir essa parte no vídeo abaixo:

"É legal ser um Trapalhão?"



É óbvio que OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA foi feito para o público infantil e não deve ser levado muito a sério. Mesmo assim, é impossível não se enfurecer com alguns momentos excessivamente ingênuos e absurdos do roteiro, como a diretora que interrompe uma aula da freirinha Xuxa para informar que o orfanato será fechado em um mês por causa dos problemas financeiros - como se essas coisas fossem anunciadas assim, e não em reuniões particulares.

Tem ainda o fato de que alguns dos números apresentados pelos Trapalhões no suposto show humorístico exibem cenários, figurinos e efeitos especiais muito elaborados para estarem realmente acontecendo "ao vivo" no palco de um pequeno teatro.


Porém, mesmo num filme fraco dos Trapalhões, é possível pescar algumas coisas bem interessantes, como Beto Carrero fazendo o tipo "herói do Velho Oeste" (engraçado que ninguém nunca tenha pensado em produzir um longa de ação com o sujeito naquela época).

Ou o curioso (e inapropriado) apelo erótico da freirinha Xuxa, que parece estar num "nunsploitation" dirigido por Jess Franco, sempre com as coxas de fora ou a bundinha empinada, ou então caindo maliciosamente sobre Didi e Dedé - numa cena-chave da trama, Didi confessa estar apaixonado pela religiosa, algo que hoje não soaria nada bem.


Mas o melhor mesmo é o pequeno trecho em desenho animado - pouco, muito pouco, para salvar esse patético projeto de longa, que parece improvisado, feito às pressas, algo meio "tapa-buraco" para aproveitar as férias da garotada e juntar mais uns cobres à fortuna dos Trapalhões na época.

Nesses tempos de tecnologia ao alcance de todos, bem que algum fã dos Trapalhões poderia fazer, no computador, uma "fan cut" de "Os Trapalhões no Rabo do Cometa", eliminando as cenas com o quarteto ao vivo e adicionando este trechinho de animação mostrado em OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA no final, onde ele deveria estar desde sempre.


E não foge à regra: dificilmente a garotada de hoje irá curtir o humor "estranho" deste filme, que acaba sendo indicado, apenas pela nostalgia, àquele pessoal que cresceu vendo as produções do quarteto.

Aproveitando o período de férias que se inicia, OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é uma boa sugestão para recordar aqueles inocentes tempos da infância ou adolescência. E talvez se pegar rindo sozinho das palhaçadas dos Trapalhões, como um autêntico idiota - tipo eu aqui, durante o show dos "Heavy Trap's".

Cena de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA



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Os Trapalhões no Reino da Fantasia
(1985, Brasil)

Direção: Dedé Santana
Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum,
Zacarias, Xuxa Meneghel, Maurício do Valle, José
Vasconcelos (voz do bruxo) e Beto Carrero.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (1982)


Vi o trailer de "Tron Legacy" no cinema esses dias e fiquei duplamente surpreso: primeiro pela idéia maluca de lançar uma sequência quase 30 anos depois do original; segundo porque eu não lembrava de absolutamente nada sobre TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (o primeiro filme, lançado em 1982), além do fato de ser estrelado por Jeff Bridges e de se passar quase que interamente em um universo virtual.

Assim, foi com um pouco de nostalgia e um muito de curiosidade que revi TRON como ele deveria ser visto pela primeira vez: não naquelas fitas VHS com qualidade de imagem e som sofrível, e imagem cortada dos lados em tela cheia, mas em DVD, com imagem e som cristalinos, e em widescreeen. Isso tudo pareceu deixar o filme melhor do que eu me recordava das velhas reprises na Sessão da Tarde.


E como eu não lembrava de praticamente nada além de um ou outro detalhezinho (como as "motos eletrônicas" disparando velozes pelas grades de circuitos, algo que deverá ficar lindo no novo filme), foi até surpreendente constatar como TRON ainda funciona direitinho, talvez até melhor agora do que na época do seu lançamento.

Afinal, em 1982, quando foi lançado, o computador ainda era um bicho de sete cabeças para a maior parte das pessoas "normais". O conceito de computador pessoal, para você ter e trabalhar em casa, estava começando a surgir, e pouquíssimos possuíam o equipamento em seus lares, como hoje. (Lembro que eu, particularmente, só fui ver um computador de perto, e mexer nele, por volta de 1994!)


A própria programação das máquinas exigia muito conhecimento, pois não existia um ambiente gráfico como o Windows, onde os programas podiam ser acessados através de clicks em ícones coloridos.

Na época, as operações ainda precisavam ser digitadas na máquina através de longas e complicadas linhas de comando, como devem lembrar os idosos como eu, que aprenderam a mexer no DOS ou a programar joguinhos em Basic (onde se digitava um milhão de linhas de comandos para criar um simples jogo-da-velha, e mesmo assim aquilo parecia o máximo!).


Portanto, o público "comum" do começo dos anos 80 deve ter visto TRON como uma história de ficção científica, já que termos como "programa" e "usuário" estavam começando a aparecer. Isso o transforma num filme visionário, ainda mais pela maneira criativa como a direção de arte imaginou o universo digital que existiria dentro de um computador.

A trama tem como protagonista um "adultescente" chamado Flynn (Jeff Bridges), brilhante programador de jogos de computador que trabalhava para uma poderosa multinacional chamada Encom, até ter seus projetos roubados por um inescrupuloso executivo chamado Ed Dillinger (David Warner). Enquanto o plagiador virou o poderoso da empresa, Flynn foi demitido e passou a administrar um pequeno fliperama.


Porém, nos bastidores, o herói age como hacker, tentando invadir os computadores da Encom para encontrar provas de que Dillinger roubou suas ideias, e assim desmascará-lo e recuperar seu antigo emprego.

Só que Dillinger também é o responsável por um super-programa de computador que acabou criando consciência, o Master Control Program, ou MCP - uma espécie de avô do Skynet da série "Terminator" e das máquinas inteligentes da trilogia "Matrix", e quem sabe um parente próximo do HAL-9000 de "2001".


Ao mesmo tempo em que pensa em dominar o "mundo real", fazendo contatos com a Rússia e com a China (lembre-se que estamos em tempos de Guerra Fria), o MCP também é tirano no ambiente digital, onde escraviza programas de computador, forçando-os a lutar até a morte em videogames.

Quando Flynn invade a sede da Encom e tem acesso a um terminal interno, o Programa Mestre resolve livrar-se dele, "digitalizando-o", com a ajuda de um equipamento ainda em fase de testes, e aprisionando-o dentro do universo digital, onde ele também se tornará um escravo nos jogos de videogame.


O que a máquina não sabe é que Flynn é um craque em jogos eletrônicos, e ele logo consegue escapar do ambiente dos games para tentar iniciar uma revolução digital e destruir o MCP "por dentro". Para isso, conta com a ajuda de um programa de segurança chamado Tron (Bruce Boxleitner).

Não é exagero dizer que TRON foi o "Avatar" da sua geração. A maior parte da trama se passa em cenários gerados por computador, que continuam bonitos e convincentes até hoje, e que também ganharam, agora, um certo charme retrô (o menu animado do DVD do filme é mais "avançado" que o filme inteiro, para dar uma ideia!).


Por mais que o filme tenha alguns defeitos bem básicos - como os personagens sem profundidade e a falta de cenas de ação convincentes -, percebe-se o capricho de todos os envolvidos para criar um universo com regras, paisagens e criaturas próprias, não muito diferente do que James Cameron fez com "Avatar".

As próprias críticas da época destacam mais o lado tecnológico e os efeitos visuais (diferentes de tudo que foi visto até então), falando pouquíssimo sobre a trama ou sobre o desempenho dos atores.


Mais ou menos como aconteceu há pouco com "Avatar", críticos como Roger Ebert disseram, sobre TRON, que os atores realmente pareciam estar vivendo dentro daquele mundo fictício, e não simplesmente cercados por efeitos de computador.

Finalmente, TRON também divide com "Avatar" a trama do sujeito que vai parar num mundo completamente diferente do seu e precisa conhecer seus habitantes e costumes para sobreviver e combater a "tirania" dos vilões.


A isso, soma-se um curioso elemento religioso que posteriormente seria reutilizado em "Matrix": os programas aprisionados no universo digital veneram seus usuários do mundo real como se eles fossem deuses (afinal, são os usuários que decidem o destino dos programas através de suas ações digitadas no computador). Já o MCP e seus asseclas negam qualquer possibilidade de existência dos "usuários" para tentar manter os programas sob controle.

Tron e sua turma acreditam que somente um dos usuários (uma espécie de Messias) poderá libertá-los dos vilões, algo que acontece quando alguém do mundo exterior (Flynn) finalmente chega ao mundo digital, mais ou menos como Neo na "Matrix".


Méritos também para a idéia de seres conscientes (os "programas" aprisionados pelo MCP) sendo usados em jogos de videogame, sentindo dor e morrendo enquanto os humanos se divertem nos fliperamas. Muita gente deve ter começado a jogar videogame com outros olhos.

(E esse conceito seria reaproveitado muitos anos depois em um estranho filme francês chamado "Nirvana", com Christopher Lambert.)

Porém o mais impressionante de TRON é o pioneirismo no uso de imagens geradas por computador, numa época em que isso ainda era coisa de ficção científica.


Vendo o documentário que acompanha o DVD importado, é impossível não ficar de queixo caído com o trabalhão que os caras tiveram para fazer esse filme.

Só para dar uma idéia, todas as cenas dentro do universo digital foram filmadas em preto-e-branco e depois coloridas manualmente, através de retoques fotográficos (quadro a quadro!) e de efeitos de rotoscopia, para inserção dos cenários digitais.


TRON foi, provavelmente, um dos primeiros filmes em que os atores "interpretaram com o nada", olhando para um pontinho que depois viria a ser um personagem digital na pós-produção - algo que o próprio Jeff Bridges comenta no mesmo documentário, dizendo que eles não tinham a menor idéia de como o filme se pareceria depois da inserção dos efeitos em CGI.

Assim fica até fácil perdoar defeitos como a precariedade das cenas de ação. No final, por exemplo, Tron precisa jogar um disco eletrônico com informações (tipo um frisbee) no núcleo do MCP para desativá-lo.

Podia render uma cena tensa no mesmo estilo da destruição da Estrela da Morte no final de "Star Wars" (lançado apenas cinco anos antes), mas ficou uma coisa bem rápida e brochante, provavelmente pela falta de experiência dos realizadores em "dirigir" uma cena que depois seria montada quase inteiramente com efeitos digitais.


A verdade é que quase não há ação/tensão em TRON, simplesmente porque todas as cenas no universo digital precisaram ser filmadas com câmera fixa (para permitir a inserção das trucagens fotográficas/digitais depois; lembre-se que ninguém tinha muita idéia do que estava fazendo lá em 1982!).

Mesmo assim, há um momento brilhante que eu adoraria ver em 3-D (o que deve acontecer agora, com "Tron Legacy"): a corrida das motos eletrônicas. Os veículos disparam velozes deixando rastros sólidos no grid, mais ou menos como aquele joguinho de celular da cobra que precisa desviar do próprio rabo. O objetivo é "fechar" o adversário para fazer com que ele bata no rastro da sua moto. Só essa cena já vale o filme inteiro, e pode ser vista (ou revista) na janelinha abaixo:

Motocross do futuro



Como todo filme à frente do seu tempo, TRON tornou-se "cult movie" depois, principalmente graças aos nerds e viciados em computador, mas foi um fracasso de bilheteria quando lançado.

Para dar uma idéia, o filme custou 17 milhões de dólares, e faturou "apenas" 33 milhões nos cinemas norte-americanos, bem aquém do que os produtores esperavam.

(É bom esclarecer que TRON foi um filme caríssimo para a sua época, tendo custado o mesmo que "Os Caçadores da Arca Perdida", lançado no ano anterior, só que o filme de Spielberg teve bilheteria de 245 milhões de dólares lá nos EUA!)


Ainda no documentário sobre o filme, um executivo dos Estúdios Disney (que produziu TRON) confessa que ninguém entendeu direito o projeto quando deram sinal verde para sua realização, mas que era uma forma de afastar a imagem de "velha e ultrapassada" que a Disney tinha na época.

E, mesmo que o filme ficasse ruim, os produtores já ganhariam uma grana federal só com os direitos sobre as máquinas de fliperama baseadas nele - o que de fato acabou acontecendo.

Que bom que, hoje, a tecnologia do DVD (e do blu-ray) permite rever TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA com outros olhos. No caso, olhos já acostumados à tecnologia, que entendem melhor os termos técnicos usados pelos personagens e também suas ações no mundo digital. Quem diria, aquilo que era ficção científica no começo dos anos 80 hoje é tão comum que até seu sobrinho de 10 anos sabe mais sobre informática do que você!


Independente disso, TRON ainda é um filme bem interessante e divertido, no qual envolveram-se alguns dos grandes talentos daquela época (música de Wendy Carlos, arte conceitual de Moebius), e também iniciantes que revelariam seu talento anos depois (Tim Burton foi um dos anônimos animadores que deram vida ao mundo digital).

Agora é esperar para ver o que virá com "Tron Legacy". Acho difícil que o filme consiga ser tão revolucionário e inovador quanto o original foi na sua época, ainda mais nestes tempos em que é tão difícil algo realmente novo ser produzido. Pelo menos os efeitos digitais devem ter sido bem facinhos de fazer, em comparação com o trabalho braçal dos realizadores lá em 1982...


Mas se a continuação dificilmente deixará de ser algo apenas divertido para a atual geração de frequentadores de "multiplexes", o original, por outro lado, definitivamente já pode ser considerado profético.

Não só pela sua visão de um mundo digital onde usuários interagem e trocam informações (bem parecido com a atual internet), mas também pela frase de um dos personagens no mundo "humano" do filme: "Computadores e programas vão começar a pensar enquanto as pessoas vão parar de fazê-lo".

E não é que foi isso mesmo que aconteceu?


PS 1: Como vários "pioneiros", o diretor Steven Lisberger nunca mais fez nada como TRON. Na verdade, dirigiu apenas outros dois filmes, bem mais simples, e sumiu do mapa, parecido com o que aconteceu a outros dois "visionários" da união cinema-computação gráfica, Brett Leonard ("O Passageiro do Futuro", 1992) e Kerry Conran ("Capitão Sky e o Mundo do Amanhã", 2004).

PS 2: Num universo digital predominantemente masculino, vale destacar a presença das curvas maravilhosas da loirinha Cindy Morgan, a única menina do filme. Poucos devem lembrar, mas a gata mostrou seus "atributos peitorais", por assim dizer, na comédia "Clube dos Pilantras", dois anos antes.

PS 3: O IMDB informa que Michael Dudikoff, o "American Ninja" em pessoa, é um dos figurantes do filme, mas não consegui ver ninguém nem ao menos parecido com ele. Terá ficado no chão da sala de edição?

Trailer de TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA



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Tron - Uma Odisséia Eletrônica
(Tron, 1982, EUA)

Direção: Steven Lisberger
Elenco: Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David
Warner, Cindy Morgan, Barnard Hughes, Dan
Shor e Peter Jurasik.