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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cada vez mais resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

KARATE KID (2010, EUA. Dir: Harald Zwart)
Quando você tem um filme chamado "Karate Kid" e o seu herói não aprende a lutar karatê, mas sim kung-fu, a coisa já começou mal. E eu jurava que este remake de "Karate Kid - A Hora da Verdade" seria a bomba do ano. Talvez até por isso acabei me surpreendendo positivamente. Eu confesso que nunca achei o original um grande filme - no máximo, uma divertida e emocionante Sessão da Tarde. E, de fato, foi na Sessão da Tarde que ele encontrou seu público, através de infinitas reprises. Sendo assim, essa nova versão da mesma história nada mais é do que uma Sessão da Tarde para a nova geração. Não é uma daquelas refilmagens cena a cena, mas uma readaptação da história. O herói e seus "bullies" não são mais adolescentes, mas sim crianças (uma das mudanças que achei mais forçadas, diga-se de passagem). O cenário não é mais os Estados Unidos, mas a China. Sai "Daniel San" e entra "Xiao Dre", interpretado pelo filho do Will Smith (meio irritante, mas coerente com a nova proposta). E sai o Sr. Miyagi, o sábio velhinho japonês interpretado por Pat Morita, para dar espaço ao Sr. Han, um envelhecido Jackie Chan, talvez a melhor coisa dessa refilmagem. Chan tem uma única cena para mostrar seus dotes de lutador, quando enfrenta a criançada e faz um pirralho bater no outro de maneira cômica. Mas os americanos ainda não aprenderam a dirigir o astro, picotando a cena e usando recursos como câmera lenta e "efeitos Matrix" (até parece que o acrobata Chan precisa disso). O mais surpreendente é que, sem lutar, Jackie tem a oportunidade de mostrar como é bom ator, especialmente numa brilhante cena dramática em que revela uma perda do passado. Sem pieguice, a cena é muito bonita, fazendo de "Karate Kid", ironicamente, a melhor atuação de Jackie num filme ocidental. Assim, o Sr. Han agora funciona mais como a figura paterna ausente para seu pupilo (inclusive disciplinando-o para obedecer a mãe) do que como mestre em artes marciais. O resto é a mesma coisa do filme de 1984, embora a trama "peixe fora d'água" do garoto americano na China lembre mais "Karate Kid 2" (em que Ralph Macchio ia para o Japão). Como acontecia no original, o roteiro tenta escapar da armadilha "A violência é a solução para tudo" com a justificativa de que "não existem maus alunos, e sim maus professores". Mesmo assim, é impossível não torcer para que Xiao Dre encha de pancadas aquelas pequenas máquinas de matar mirins. É uma pena que as cenas finais de luta caiam na besteira pós-moderna de câmera epilética e edição frenética (o original, com suas lutas de câmera parada, parece ainda melhor), além de trazerem acrobacias anatomicamente impossíveis. É uma pena, também, que o treinamento comandando por Chan não seja tão divertido quanto o "Wax on, wax off" do saudoso Morita. Mesmo assim, o novo "Karate Kid" é um bom passatempo "censura livre" e está aprovado para passar na Sessão da Tarde daqui uns anos - ainda que que as 2h20min de duração sejam um exagero.


CENTURION (2010, Inglaterra. Dir: Neil Marshall)
Longe de mim comparar o inglês Neil Marshall a Quentin Tarantino, mas ambos dividem o mesmo gosto por fazer filmes que parecem colchas de retalhos de cenas e personagens das obras cinematográficas que eles mais gostam. Marshall já havia mostrado isso muito bem no seu trabalho anterior, "Doomsday - Juízo Final" (que eu adorei, mas acho que só eu), misturando elementos de filmes como "Mad Max" e "Fuga de Nova York". Agora, em "Centurion", o diretor criou um amálgama de diversos filmes capa & espada e épicos medievais, ora lembrando o clima sanguinário do neo-clássico "Conquista Sangrenta", de Verhoeven, ora parecendo uma sátira a "300", do Zack Snyder (o comandante romano lembra os trejeitos do espartano vivido por Gerald Butler, e até tem visual semelhante). A história sobre soldados romanos que sobrevivem ao massacre do seu pelotão e são obsessivamente perseguidos pelos inimigos não é exatamente nova, mas Marshall conduz a narrativa tão bem, deixando pouco espaço para o espectador respirar, que é possível até perdoar a falta de novidade. Michael Fassbender ("Bastardos Inglórios") e Olga Kurylenko ("Quantum of Solace") estão ótimos como presa e caçadora, respectivamente. Muda, a bela Olga rouba a cena como uma perseguidora implacável que não desistirá enquanto não exterminar todos os seus alvos. Como bônus, "Centurion" é tão sangrento que o espectador quase se sente sujo de sangue também - com direito a uma infinidade de cabeças decepadas a espadadas e machadadas. No fim, como eu já escrevi, não tem absolutamente nada de novo, e nem é um grande filme. Mas com certeza diverte e vale o tempo gasto diante da tela. Diferente de coisas recentes na mesma linha, como "Gladiador", "Robin Hood", "Rei Arthur", "300" e por aí vai. Aliás, "Centurion" poderia muito bem ser vendido como "300" para gente grande. Desligue o cérebro, tome umas cervejas e divirta-se - até porque isso aqui certamente vai ser muito melhor que a nova aventura do Conan, atualmente nas mãos do incapaz do Marcus Nispel!


OPSTANDELSEN (2010, Dinamarca. Dir: Casper Haugegaard)
Durante um velório, zumbis vindos sabe-se lá de onde invadem uma velha igreja e promovem uma chacina. Os três únicos sobreviventes se escondem numa cripta, nos subterrâneos da igreja, e passam o resto do filme tentando se defender dos mortos-vivos. O ponto de partida é bom, mas o resultado final de "Opstandelsen", filme de zumbis dinamarquês, fica bem abaixo da média. Um ponto positivo é a generosa quantidade de sangue, já que os três sobreviventes passam o filme todo banhados em vermelho-tinto. Outro ponto positivo é que o filme tem apenas 50 minutos, embora o ritmo arrastado faça com que estes 50 minutos pareçam duas horas. O diretor Casper Haugegaard falha desde o começo em deixar vivos três personagens que o espectador não conhece e com quem não se importa (não há qualquer desenvolvimento prévio além do fato de um deles ser viciado em cocaína). Depois, como em um filme do Bruno Mattei, as situações vão mudando conforme a necessidade de cada cena: às vezes os zumbis correm, às vezes andam lentamente; às vezes gritam e gemem como uma gata no cio; às vezes atacam silenciosamente vindos da escuridão; às vezes morrem com uma estaca no coração (?), às vezes só se atingidos na cabeça, e por aí vai. Desse jeito, não há sangue que salve (e sangue o filme realmente tem de sobra). Sem boas situações (ou pelo menos situações diferentes), "Opstandelsen" logo torna-se repetitivo e redundante, igual a centenas de outros filmes baratos de mortos-vivos. Nem mesmo a ambientação claustrofóbica (a cripta da velha igreja) é utilizada a contento. Sobra, assim, um rascunho para o que pode ser um belo filme, desde que a produção seja mais caprichada e o roteiro passe por uma revisão total. Não é de todo desprezível, mas também não traz nada de novo, e por isso parece durar muito mais do que deveria, mesmo não tendo nem uma hora de duração! Visto no Cine Fantasy.


O ÚLTIMO MESTRE DO AR (The Last Airbender, 2010, EUA. Dir: M. Night Shyamalan)
Depois de escrever e dirigir alguns ótimos filmes sem pirotecnias, que funcionavam apenas pelas boas histórias ("O Sexto Sentido", "Corpo Fechado", "Sinais" e "A Vila"), a máscara do indiano Shyamalan finalmente caiu: como Peter Jackson, ele quer ser Steven Spielberg. Mas não o Spielberg dos bons tempos, que fazia muito com muito pouco, e sim o Spielberg "digital" dos anos 90 para cá, que substitui conteúdo por enfeite. Este novo filme do Shyamalan é justamente o que o "King Kong" foi para Jackson e o "Guerra dos Mundos" foi para Spielberg: não exatamente descartável, nem de todo ruim, mas uma obra impessoal, barulhenta, exagerada e cansativa, onde a história é atropelada pelos efeitos de computador e personagens e atores são deixados em segundo plano. Perdido no meio da barulheira, o espectador não consegue se emocionar nem se envolver com o que está acontecendo. É como um show de fogos de artifício: durante uns 10 minutos, é muito bonito; mas durante uma hora não dá para agüentar. O pior é que "O Último Mestre do Ar" PARECE ter uma trama interessante, baseada no desenho animado chamado "Avatar: The Last Airbender", que eu nunca vi. Uma das críticas que se lê pela internet é que o grande problema do filme é tentar resumir toda uma temporada do desenho em 100 minutos. Parece que o objetivo de Shyamalan não é o de contar uma história, mas sim criar o maior espetáculo pirotécnico possível. Resultado: com o excesso de informação e de efeitos, entre explosões, lutas, cenários e criaturas fantásticas, você nunca se importa com os personagens e nem com o que acontece com eles, mesmo quando um dos heróis se sacrifica "pela sua fé" (mensagem meio perigosa nesses tempos de extremismo religioso). "Quem está brigando com quem? E por quê?". São perguntas freqüentes para quem não conhece a fonte de inspiração da obra. E quando um filme de ação com lutas a cada 15 minutos é chato, algo de MUITO errado há! Até a idéia dos personagens que dominam os quatro elementos é sub-aproveitada, já que eles se limitam a soltar fogo ou água sobre os adversários, em cenas sem inspiração. Para piorar, a história conclui com uma daquelas batalhas épicas em que você nem consegue distinguir quem está apanhando de quem, e já deixando as portas escancaradas para a continuação da história - que não termina aqui, pois a idéia é fazer uma trilogia. Pelo que eu vi, não deu a menor vontade de assistir os dois futuros episódios. E, sinceramente, não faria a menor diferença se todos os personagens se explodissem no final. Melhor sorte na próxima, Shyamalan - e deixa o "Quero ser Spielberg" pro Peter Jackson, que já virou até parceirão do homem!


O APRENDIZ DE FEITICEIRO (The Sorcerer's Apprentice, 2010, EUA. Dir: Jon Turteltaub)
Momento de confissão: nunca vi nenhum filme do Harry Potter (li o primeiro livro e não gostei). Esse "O Aprendiz de Feiticeiro" me pareceu um "Quero faturar em cima da onda Harry Potter", mas um pouco menos pretensioso que o bruxinho dos ovos de ouro, e sem muita intenção de virar série, ou "saga épica". É apenas uma divertida aventura infanto-juvenil de feitiçaria, redondinha e fechada (até podem fazer continuação, mas não precisa), interessante para crianças e engraçadinha também para os marmanjões. Parte do mérito é do diretor Jon Turteltaub, uma espécie de Spielberg dos pobres, cujos filmes, completamente descartáveis, fazem o padrão Sessão da Tarde ("A Lenda do Tesouro Perdido" é um deles). Nicolas Cage até está engraçado como um bruxo com milhares de anos que precisa ensinar as artes mágicas para um pupilo do século 21, descendente direto do Mago Merlin, e que tem papel fundamental naquele bla-bla-bla típico de salvar a humanidade de uma grande calamidade. Claro, porque há um feiticeiro malvado na jogada, encarnado por Alfred Molina no piloto-automático. A italiana e deusa Monica Bellucci é chamariz para a macharada, mas só aparece em destaque no cartaz, pois no filme tem uma participação minúscula no começo e no final, como interesse romântico de Cage. E Jay Baruchel está muito divertido como bruxo iniciante, especialmente na melhor cena do filme, em que imita Mickey no segmento "O Aprendiz de Feiticeiro" do desenho animado "Fantasia", dando vida a vassouras e escovas para que limpem seu apartamento, com resultados calamitosos, é claro (a citação ao desenho animado é tão boa que usa até a mesma música). Mas apesar dos ótimos efeitos especiais, das boas piadas e das boas cenas de ação, "O Aprendiz de Feiticeiro" sempre parece aquém do seu potencial. Na cena em que um motorista mal-educado buzina para o bruxo malvado, por exemplo, o vilão se limita a matá-lo com um raio, quando um roteirista criativo pensaria em mil outras formas de resolver a mesma situação. Isso faz do filme aquela voltinha de montanha-russa: vale o ingresso, vale o passeio, mas pouco tempo depois você nem lembra do que se passou, e nem tem muita vontade de repetir a experiência.


KICK ASS - QUEBRANDO TUDO (Kick Ass, 2010, EUA. Direção: Matthew Vaughn)
Eis uma rara adaptação de quadrinhos em que todas as "liberdades poéticas" em relação ao material original foram decentes e só melhoraram ainda mais o que já era ótimo. "Kick Ass", a HQ de Mark Millar, é fantástica e recentemente saiu num encadernado aqui no Brasil, para que todos possam conhecer. Já o diretor Matthew Vaughn, na minha modesta opinião, é um dos grandes diretores da nova geração (ainda quero estar aqui para ver o injustiçado "Stardust", seu filme anterior, tornar-se um clássico do gênero). Ao contar a história de um garoto nerd e punheteiro que resolve tornar-se super-herói, mesmo não tendo super-poderes (ha!), Vaughn não está apenas fazendo uma ode apaixonada aos leitores de gibis do gênero (como Millar fez na HQ), mas também aos fãs de filmes de super-heróis - aquelas crianças que viram o "Superman" do Christopher Reeve e um dia sonharam poder voar como ele. A verdade é que, em tempos passados, todo mundo já quis ser um pouco Kick Ass, vestir uma fantasia estúpida e sair combatendo o crime - hoje eu não sei, porque essa garotada anda com umas idéias muito idiotas. "Kick Ass" é a realização desse sonho infanto-juvenil levado a sério, e sem desprezar as doses cavalares de sangue e violência existentes na HQ (os produtores devem ter arrancado os cabelos tentando suavizar as cenas enquanto o diretor colocava mais e mais sangue). Engraçado foi ver a hipócrita crítica brasileira reclamando da Hit-Girl, melhor personagem da HQ e do filme - uma inocente menininha que sai retalhando bandidos com sua espada -, num país em que crianças fumam crack e pegam em armas na vida real (e não lembro de ninguém ter reclamado das crianças assassinas de "Cidade de Deus"). A única mudança que eu achei meio forçada foi em relação ao interesse romântico do Kick Ass, que tem um desenvolvimento totalmente diferente da HQ (mas todo filme precisa de um pouco de romance, não é mesmo?). As outras foram para o bem da adaptação (a verdadeira identidade do pai da Hit-Girl não iria colar fora dos quadrinhos). E à adaptação inspirada somam-se momentos de puro delírio cinematográfico, representados por cenas de ação e violência cada vez mais absurdas e explosivas - o final é um banho de sangue. Que "Kick Ass" ganhe uma continuação no mesmo nível para mostrar que filmes de super-herói não precisam ser "censura livre" e nem bobinhos e infantilóides para fazer sucesso de bilheteria.


ROBIN HOOD (2010, EUA/Inglaterra. Dir: Ridley Scott)
Depois de ter suportado corajosamente as 2h20min do filme do Ridley Scott numa desconfortável poltrona de cinema, lembro que a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: "O que é que eu estou fazendo aqui?". Poucas vezes tive uma sensação tão grande de tempo perdido como em "Robin Hood": o filme não fede e nem cheira, os acontecimentos se sucedem sem conquistar a atenção do espectador, os personagens são tão mal-desenvolvidos que chega a dar vergonha, Russel Crowe está gordo que nem um porco, as motivações do seu herói são estúpidas e inconsistentes, os vilões são caricaturais, as cenas de batalha são idênticas às dos "épicos" hollywoodianos modernos (quem viu um, viu todos), e por aí vai. Um desastre completo que eu até entenderia nas mãos de um cabeça-de-bagre qualquer, mas que parece ainda mais lamentável por ter o nome de Ridley Scott nos créditos - comprovando a decadência, a olhos vistos, do cineasta. Lembro de ter visto o trailer do filme e pensar: "Parece 'Gladiador 2', e não Robin Hood". Dito e feito: o roteiro tenta ser uma prequel das aventuras do Príncipe dos Ladrões, e por isso não traz nada que lembre o personagem como o conhecemos de inúmeros outros filmes (aqui ele raramente dispara uma flecha, ou "rouba dos ricos para dar aos pobres"). Em compensação, as atitudes e maneirismos de Crowe lembram tanto o pobre gladiador Maximus que o filme poderia muito bem ter sido vendido como "Gladiador - O Início". Talvez o resultado fosse menos vergonhoso, considerando que o "Gladiador" original já era fraquinho. Do jeito que está, o resultado é de dar dó. E ainda consegue a façanha de fazer o Robin Hood do Kevin Costner, que era apenas razoável, parecer MUITO MELHOR! Difícil é segurar a vontade de mandar tudo à merda e sair do cinema (ou dar stop no DVD) em cenas como as do Frei Tuck (que parece saído de um filme dos Trapalhões) ou as do Príncipe John (que parece saído daquele famoso desenho da Disney). Será injustiça dizer que o último filme BOM de Ridley Scott é do começo dos anos 90?


THE POSSESSION OF DAVID O'REILLY (2010, Inglaterra. Direção: Andrew Cull e Steve Isles)
Eu não vi "Atividade Paranormal", grande sucesso do ano passado. Mas agora que me disseram que este "The Possession of David O'Reilly" é melhor, decidi que jamais verei o longa de Oren Peli. Afinal, essa cópia genérica inglesa é horrível, então imagino quão ruim deve ser a sua fonte de inspiração. A idéia é parecida (fenômenos sobrenaturais num apartamento), mas a execução é diferente, sem câmera "realista" estilo falso documentário. Na verdade, este é o típico filme que você pode ver apenas os 10 minutos iniciais e os 10 minutos finais, pois nada acontece no restante do tempo. É mais um caso de curta-metragem esticado para longa, e bem daquele jeito que torra o saco do espectador. Afinal, uns 50% dos acontecimentos se desenrolam com as luzes apagadas, mergulhando a tela toda numa escuridão total, permitindo que o espectador ouça apenas a voz dos atores (algo que não é mais novidade desde "A Bruxa de Blair", uma década atrás). E toda a execução é primária: os três únicos personagens passam o tempo todo trancados num apartamento escuro sem que ninguém tenha a idéia de se mandar dali (mesmo quando o dia chega e a luz do sol dá certa tranqüilidade à situação). Com meia hora de filme, a gritaria, a escuridão e a inexistência de um perigo real e palpável (já que o espectador não vê absolutamente NADA) começam a cansar, e as olhadas para o relógio tornam-se cada vez mais constantes. Mas o filme não dá trégua e continua martelando sua escuridão barulhenta por mais uma hora, numa tortura mais implacável que o ataque dos supostos espíritos que aterrorizam o apartamento. E os diretores Andrew Cull e Steve Isles ainda desperdiçam toda e qualquer boa idéia que por ventura tentem desenvolver, da mensagem estilo "tábua Ouija" num jornal aos vídeos filmados misteriosamente pela webcam do apartamento (que nem ao menos são mostrados, quando poderiam revelar a chave do mistério!). Uma total perda de tempo, que só assusta mesmo pela ruindade. Visto no Cine Fantasy.

(PS: Este é o 150º post deste blog! Quem diria, hein?!?)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O ÚLTIMO DETETIVE (1996)


Durante a febre do VHS, entre a metade dos anos 80 e o final da década de 90, várias pequenas produtoras dedicavam-se a forrar as videolocadoras com obras feitas a toque de caixa, direto para o mercado de vídeo (sem lançamento nos cinemas). Uma delas era a PM Entertainment Group, dos sócios Richard Pepin e Joseph Merhi.

Se você era fã de filmes de ação baratos nos anos 90, certamente viu alguma das produções de Pepin-Merhi, como "Perigo na Torre" (uma versão de "Duro de Matar" com a peitudona Anna Nicole Smith no lugar de Bruce Willis!) e "Ringue de Fogo" (com Don "The Dragon" Wilson).

Entre os vários filme divertidíssimos que a dupla produziu, também está O ÚLTIMO DETETIVE, uma produção barata que, um dia, eu espero mostrar para o meu filho e dizer: "Olha, guri, era assim que se fazia filme de ação antes do Michael Bay e do Paul Greengrass foderem com o gênero!".


O título em português é uma imbecilidade: no original, chama-se "Last Man Standing", ou, literalmente, "O último homem a permanecer de pé" (no final de um tiroteio). O que acontece é que o filme chegou às locadoras em 1996, o mesmo ano de um outro "Last Man Standing" mais ilustre, estrelado por Bruce Willis e dirigido por Walter Hill. Este, no Brasil, foi batizado "O Último Matador". Logo, quem lançou o "Last Man Standing" do Merhi e do Pepin deve ter pensado: "Ah, copia o título nacional do outro, só coloca Detetive em vez de Matador!".

Também dirigido e escrito pelo produtor Merhi, O ÚLTIMO DETETIVE é um daqueles flmes baratos da ação casca-grossa e descerebrada, do tipo que você vê hoje e amanhã já esquece, mas aproveita cada minuto do filme como o passatempo que é - ao invés de ficar revoltado e louco para que o negócio termine logo.


O herói - e co-produtor - é Jeff Wincott, uma espécie de Van Damme ou Steven Seagal dos pobres, que estrelou uma série de produções baratas nos anos 90, inclusive duas continuações não-oficiais de "Soldado Universal" (produzidas, adivinhe só, direto para o mercado de vídeo). Uma curiosidade: um dos primeiros papéis de Wincott no cinema foi no slasher oitentista "A Morte Convida Para Dançar"!

Ele interpreta Kurt Belmore, aquele típico policial honesto que é bom de tiro, bom de briga e péssimo em se vestir (passa o filme todo usando botas de couro de cobra, e chega a combinar terno amarelo com gravata verde numa cena!).


Seu parceiro é, acredite ou não, Jonathan Banks, que normalmente faz papéis de vilão (como em "Um Tira da Pesada"). Ironicamente, Banks aqui interpreta um policial veterano com mãe superprotetora (!!!), que todo dia lhe prepara um lanchinho para levar à delegacia!

Pois num dia de rotina, averiguando uma ocorrência de bagunça excessiva num hotel cinco estrelas, Kurt e seu parceiro esbarram numa violenta quadrilha de ladrões de banco, liderada por Snake Underwood (Jonathan Fuller, a criatura de "O Castelo Maldito"). Após um tiroteio infernal, o herói consegue prender o bandidão. Não do jeito fácil, é claro: ambos chegam a despencar do topo do prédio direto para dentro de uma piscina!


Só tem um probleminha: Underwood e sua gangue estão ligados a um grupo de policiais corruptos. Entre eles, dois superiores de Kurt, Seagrove e Demayo (respectivamente Steve Eastin e Michael Greene, veteranos de filmes B).

Os chefões limpam a barra do vilão e o libertam da cadeia, mas o herói começa a pentelhar querendo levar o caso à Corregedoria. Assim, os tiras sujos matam o parceiro de Kurt e começam a persegui-lo, numa caçada humana que envolve também Underwood e sua turma.

(Ah, quase esqueci: um dos bandidos "secundários" é interpretado pelo Robert LaSardo, uma espécie de "Danny Trejo dos pobres", e tão feio e tatuado quanto o original!)


Esqueça a história, já que O ÚLTIMO DETETIVE é uma mera desculpa para explosivas cenas de ação de tempos em tempos. Sim, trata-se de uma produção barata, sem nomes muito conhecidos e sem grandes efeitos, mas ainda assim as cenas de ação são empolgantes e bem-dirigidas - principalmente quando comparadas com essas merdas que fazem hoje.

Na época em que o filme foi feito (1996), Hollywood vivia a "Era John Woo". Assim, os tiroteios aqui estão repletos de pulinhos de um lado para o outro em câmera lenta. Mas, ao contrário do que Bay, Greengrass e outros "visionários" fariam depois, o diretor Merhi parece ter um tripé à disposição para filmar estas cenas.


Já me imagino falando com meu filho: "Guri, está vendo esse tiroteio? Percebe como eles filmavam nos velhos e bons tempos? Sim, a câmera está fixa! Eles usavam um troço chamado tripé, que foi abolido dos anos 2000 em diante. Olha só como dá para entender tudinho que acontece, quem está atirando em quem, quem está levando tiro, quem está morrendo... Legal, né?".

Wincott, como todo astro de segundo ou terceiro escalão, era especialista em artes marciais (faixa-preta em karatê e taekwondo), assim podia fazer sua própria coreografia e dispensar dublê. Ver o sujeito lutando em O ÚLTIMO DETETIVE é um alívio: não que as cenas sejam tãoooo inspiradas assim, mas é que elas são filmadas com câmera fixa e longe da fuça dos atores, enquadrando os dois "lutadores" em corpo inteiro, diferente do que se faz hoje.

Novamente, fantasio: "Olha só essa luta, meu filho. Tá vendo como o diretor filma de longe, para que a gente possa ver quem está batendo em quem? A edição não é picotada e repleta de closes dos caras dando ou levando porrada, como fazem hoje. Ou seja, eles eram obrigados a coreografar bem a cena, ao invés de salvar tudo na edição com cortes rápidos, tipo a luta do Jet Li com o Dolph Lundgren em 'Os Mercenários'!".


Porém a melhor coisa de O ÚLTIMO DETETIVE, e o que coloca o filme acima da média de outras produções bagaceiras da época, são as perseguições automobilísticas. Parece até que baixou o Joseph Merhi acordou naquele dia pensando que era o William Friedkin ou o John Frankenheimer.

"Guri, conta comigo... Um, dois, três, quatro, cinco... Viu só? Cada take tem cinco segundos antes de cortar para o próximo, diferente das perseguições com takes de meio segundo e câmera tremida dos filmes do Michael Bay, em que você não sabe quem está pilotando qual carro e batendo no quê! E outra: esses carros e essas maluquices que eles estão fazendo, é tudo de verdade! São carros reais pilotados por dublês reais, e não computação gráfica, como eles gostam de fazer hoje. Legal, né, filho? Você nasceu na época errada, hein?".


A grande cena do filme, que não faz feio perante nenhuma grande produção hollywoodiana da mesma época (tipo "Duro de Matar - A Vingança" ou "Máquina Mortífera 4"), mostra Wincott perseguindo o carro-forte onde estão os bandidos, pilotando uma moto veloz.

Primeiro, o herói faz a motocicleta bater de propósito na traseira do carro-forte para que possa ser impulsionado para dentro do veículo pela colisão (!!!), e assim trocar porradas com o vilão que está na traseira; depois, ele cai para fora do carro-forte e é arrastado, por quilômetros, em alta velocidade, segurando-se em uma corrente - e não é computação gráfica, é um pobre dublê lixando a bunda no asfalto!!! Parte da cena pode ser vista no vídeo abaixo:

Moto versus carro-forte



E se tudo isso já parece muito bom, calma que tem mais: duas delícias que atendem pelos nomes de Jillian McWirther e Ava Fabian embelezam o filme. Esta segunda é uma das vilãs e infelizmente não tira a roupa; mas a gracinha Jillian, estrelinha de produções baratas como "O Dentista 2", compensa aparecendo não só nua, mas em caliente cena de sexo com Wincott (ela interpreta sua esposa no filme).


Afinal, "produção barata direct-to-video dos anos 90" é praticamente um sinônimo de sacanagem. E, como não podia deixar de ser, essa também tem uma cena completamente dispensável dentro de um clube de striptease, onde duas strippers absurdamente peitudas ganham seus "cinco minutos de fama", sacudindo os melões antes que os tiros comecem.


Finalmente, O ÚLTIMO DETETIVE também traz todo aquele humor involuntário geralmente agregado a estas aventuras casca-grossa, mostrando absurdos como os bandidos, que tentam ser discretos e não chamar a atenção, matando um sujeito com rajadas de Uzi dentro de um quarto de hotel (!!!), ou a polícia usando o cadáver de um dos vilões para fazer uma emboscada numa estação de metrô - como se colocar pessoas mortas em lugares públicos fosse a coisa mais normal do mundo.


E além de todas essas qualidades, O ÚLTIMO DETETIVE ainda dura o tempo certo para a bexiga agüentar (menos de 90 minutos). "Está vendo, filho? Isso foi antes do Michael Bay e sua turma inventarem essa bobagem de que filme de ação precisa ter mais de 2h30min!".

Se você ainda não viu, eu recomendo (com umas duas ou três cervejas na cabeça, para ficar ainda melhor). É burocrático, simplório, bobinho, mas não dá aquela sensação de tempo perdido no final.

E aposto que você também vai ficar com vontade de mostrar para os seus filhos depois, além da maior saudade desses tempos em que os filmes de ação eram descomplicados, despretensiosos, bem filmados e, principalmente, DIVERTIDOS!

Trailer de O ÚLTIMO DETETIVE



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O Último Detetive (Last Man Standing, 1996, EUA)
Direção: Joseph Merhi
Elenco: Jeff Wincott, Jillian McWhirter, Jonathan
Fuller, Steve Eastin, Robert LaSardo, Jonathan Banks,
Michael Greene e Ava Fabian.