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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os filmes que eu vi no Festival de Gramado (nacionais)

BRÓDER (2010. Dir: Jeferson De)
Antigamente, dizia-se que quem viu um filme de faroeste viu todos, pois a história raramente era diferente de uma obra para outra. Hoje, este dito popular poderia muito bem ser adaptado aos "filmes de favela" produzidos às pencas no Brasil pós-Retomada. E será que ainda há histórias para contar depois de filmes como "Cidade de Deus", "Linha de Passe", "Era Uma Vez" e outras inúmeras películas bastante representativas sobre temas como união familiar, miséria e violência urbana? "Bróder", filme de estréia de Jeferson De e grande premiado do Festival de Gramado, é exatamente isso: mais um filme de favela, que até pode ter algum frescor para quem não viu muitos filmes brasileiros da última década, mas parecerá repetitivo para os que já fizeram sua lição de casa. A trama acompanha o reencontro de três amigos no Capão Redondo, em São Paulo: o branquelo no rumo do crime (interpretado por Caio Blatt) e dois negros, um deles casado e com filho (Silvio Guindane), e o outro jogador de futebol famoso (Jonathan Haagensen), que deixou o bairro pobre para ir jogar na Europa. O reencontro reabre velhas feridas e cria algumas novas. Quando o candidato a marginal recebe a ordem de seqüestrar o amigo boleiro, enfrenta uma crise de consciência: cumpre ou não a missão, sabendo que uma das opções custará sua vida e a outra, a amizade? Mesmo com a sensação de "já vi isso antes", há coisas muito boas no filme, principalmente na parte técnica. Os três amigos correndo pelos becos e vielas com câmeras amarradas ao corpo lembra o início de "Cidade de Deus", com a galinha em fuga; já as cenas aéreas da favela, que encerram o filme, são de tirar o fôlego. Cássia Kiss e Ailton Graça, pais de Caio Blatt no filme, também escapam do clichê e compõem personagens mais tridimensionais que a média do "gênero". Ele, principalmente, foge da caricatura de "padrasto alcoólatra malvado". Mas a grande qualidade de "Bróder" é, quem diria, Caio Blatt: o sujeito encarna tão bem um maloqueiro, tanto fisica quanto "culturalmente" (falando gírias sem parecer falso), que eu certamente teria medo de cruzar com ele pelas ruas de São Paulo. O ponto fraco é que o diretor às vezes exagera nos "contrastes": se a cena em que o jogador de futebol sai de um moderno consultório médico para se benzer com uma preta velha é muito bem bolada, o contraste entre o sujeito no meio da favela falando ao celular com seu empresário no meio de um campo de golfe soa ingênuo e muito forçado. O resultado é um filme muito bom tecnicamente e com ótimas interpretações, mas fraquinho dramaticamente; e se não chega a surpreender, pelo menos diverte, o que não é pouca coisa. Uma espécie de "Orfeu", do Cacá Diegues, melhorado - e, felizmente, sem Toni Garrido.


ELVIS & MADONA (2010. Dir: Marcelo Laffitte)
Uma das grandes surpresas do Festival de Gramado, que certamente faturaria vários Kikitos se estivesse participando da mostra competitiva (passou fora da competição). Espécie de versão bem-humorada do norte-americano "Transamérica", este é um daqueles raros filmes sobre as "confusões" geradas pela mistura de sexos neste início de século 21, quando a simplória divisão em "masculino" e "feminino" parece tão "demodé". Igor Cotrim (cujo crédito mais expressivo até aqui era o reality show "A Fazenda") está em estado de graça como Lady Madona, uma travesti cujas economias são roubadas pelo ex-namorado e ex-colega de filmes pornográficos João Tripé (Sérgio Bezerra, assustador). Conhece, então, Elvira, ou Elvis, uma entregadora de pizzas, lésbica, interpretada por Simone Spoladore. As duas figuras solitárias vivem um caso de amor entre muitos diálogos e tiradas divertidas, e a situação se complica quando, de tão estranho casal, nasce uma inesperada gravidez. Apesar do início com humor estilo "Zorra Total" (nas cenas do salão de beleza), logo "Elvis & Madona" revela-se um filme inspirado e muitas vezes emocionante e sensível, principalmente ao retratar, sem frescuras ou falso moralismo, o caso de amor "impossível" entre o homossexual e a lésbica. E há momentos muito engraçados envolvendo aqueles quiprocuós típicos desse tipo de história, como quando Madona precisa "voltar a ser homem" para ser apresentada(o) à família da amada. Claro, alguns poderão se queixar que certos personagens GLS são muito estereotipados na busca pelo riso fácil. Mas se até um filme supostamente sério, como "Milk", traz gays estereotipados, não há muito que reclamar. E o show da dupla Cotrim/Spoladore vale o filme inteiro, fazendo com que o espectador perdoe qualquer exagero ou piada infame no processo. Simone, que até mostra os peitinhos, está uma gracinha, mesmo interpretando uma personagem "machona". Destaque ainda para Bezerra como João Tripé - arrepiante, ele é um dos melhores vilões do moderno cinema brasileiro. E há ótimas pontas de Maitê Proença e José Wilker. Este último aparece em cena durante cinco segundos, mas sua participação é responsável por sonoras e saborosas gargalhadas. Vale a pena e encabeça a lista de melhores filmes brasileiros de 2010, mostrando que as comédias produzidas por aqui não se resumem a bobagens como "Se Eu Fosse Você" e os "especiais televisivos" da Globo Filmes. Lançamento comercial já!!!


ENQUANTO A NOITE NÃO CHEGA (2009. Dir: Beto Souza)
"Os Descendentes", aquele péssimo filme de zumbis feito no Chile, em que o diretor reaproveita as mesmas cenas a cada 10 minutos, fez escola: "Enquanto a Noite Não Chega", de Beto Souza, é justamente um curta-metragem com 70 minutos de duração. Souza não tem história para contar durante 1h10min; assim, usa e abusa de artifícios como esticar os takes (intermináveis) ou repetir as mesmas cenas em flashback até o espectador ficar com vontade de arrancar os olhos. Juro que depois da sétima vez em que ele reutiliza o mesmíssimo take do André Arteche olhando para a câmera num flashback, fiquei com vontade de levantar e sair da sala - coisa que muita gente fez, aliás. Baseado numa elogiada obra de Josué Guimarães, o filme conta a história de um casal de velhos, os últimos sobreviventes de uma cidade-fantasma. Passam o tempo conversando sobre a morte e sobre o nada, sobre a perda do filho na guerra, sobre o trem, ou em silêncio. Tudo bem, a fotografia é belíssima, isso não se discute. Só que "Enquanto a Noite Não Chega" é bonitinho, mas ordinário. Cansa porque parece não ter objetivo nem um rumo a seguir. Os diálogos são pífios, redundantes, até risíveis (tipo o "Meu trabalho é cumprir minha tarefa", ou coisa que o valha, dito por um velho coveiro). Às vezes parece um exercício de sadomasoquismo: o filme já é lento e silencioso por si só, e mesmo assim o diretor adota câmera lenta (!!!) em cenas com os velhinhos fazendo coisas prosaicas - e já naturalmente lentas -, como tomar café. Talvez acreditasse estar passando dramaticidade, melancolia, mas tudo o que conseguiu foi aproximar seu filme daquela clássica piada sobre o cúmulo da lentidão (para quem não sabe, uma corrida de lesmas em câmera lenta). O resultado é esse mesmo, com a exceção de que, talvez, a corrida de lesmas em câmera lenta seja mais emocionante e divertida. Curiosamente, encontrei na internet a página de um primeiro projeto de adaptação de "Enquanto a Noite Não Chega", que não passou da fase de captação de recursos e teria, no elenco, Paulo Autran, Carmen Silva e Leonardo Villar (dois deles já mortos e enterrados há algum tempo), com direção de Guilherme de Almeida Prado.


O ÚLTIMO ROMANCE DE BALZAC (2010. Dir: Geraldo Sarno)
O primeiro candidato a "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" de 2010 (e sim, quero dizer que isso é ruim!). Esta injustificável patacoada apresenta-se como mistura de documentário e ficção sobre aquele que seria o último livro do escritor francês Honoré de Balzac, "Cristo Espera por Ti", supostamente psicografado pelo médium brasileiro Waldo Vieira nos anos 60. O tema é curioso e, vá lá, interessante. Isso, claro, se o filme discutisse a validade de um livro "psicografado" atribuído a um grande escritor. Não é o que acontece: este é um dos documentários menos imparciais e mais absurdos que já vi. Ao invés de questionar ou investigar, o diretor Geraldo Sarno simplesmente entrevistou o próprio Waldo, que põe-se a filosofar sobre como recebeu o espírito de Balzac (neste momento já começam a ecoar as primeiras risadinhas involuntárias pela sala), e um psicólogo que estudou o tal livro psicografado durante dez anos da sua vida, e que jura de pés juntos que a obra foi mesmo ditada pelo espírito de Balzac. Para tentar provar seu ponto de vista, o "especialista" fala sem parar (e sem ser questionado por ninguém) durante uns 70% do filme, em longuíssimos e cansativos depoimentos sem cortes, direto para a câmera. E, apesar de falar sem parar, não convence ninguém de nada, até porque durante a maior parte do tempo refere-se a um único parágrafo (!!!) do texto psicografado. Lá pelas tantas, até um quadro do pintor holandês Paul Potter entra na salada, e um artista brasileiro anônimo que pintou uma cópia do quadro original (!!!) também aparece dando seu depoimento, como se fosse uma grande autoridade no assunto. Enfim, todo mundo fala sobre o caso, menos quem realmente deveria ser entrevistado. Por exemplo, algum respeitado especialista sobre Balzac, que certamente iria esculhambar com qualquer argumento "pró-psicografia". E quando você acha que a coisa não pode piorar, o diretor Sarno começa a intercalar os escalafobéticos depoimentos com a "reconstituição" de um romance "verdadeiro" de Balzac, "A Pele de Onagro", sem que isso tenha muita justificativa na proposta do "documentário". E o faz da maneira mais caduca possível: a ficção aparece em forma de filme mudo (!!!), em preto-e-branco e sem som, com gigantescos (e prolixos) quadros de texto no lugar dos diálogos!!! O resultado é uma piada de mau gosto, verdadeiramente difícil de agüentar até o final. No dia seguinte à exibição do filme no Festival, parte da equipe deu uma coletiva para a imprensa, quando o diretor argumentou ser "muito comum" que médiuns sejam possuídos por espíritos de escritores famosos que querem ditar novas obras. Não sei se o próprio Sarno é médium ou não, mas ele certamente foi possuído por um espírito na hora de dirigir este filme: o de Ed Wood!


OS INQUILINOS (2009. Dir: Sergio Bianchi)
Um brilhante estudo da paranóia provocada pela violência urbana, que infelizmente passou batido pelos cinemas brasileiros - a exibição em poucas salas não fez justiça à qualidade da obra. Também passou fora da mostra competitiva em Gramado, e por isso não faturou os vários Kikitos que merecia. Uma injustiça, considerando que o filme retrata por um outro viés (muito mais interessante) o mesmo assunto do fiasco "Salve Geral", que acabou recebendo todos os holofotes. É praticamente uma versão brasileira do thriller "O Suspeito da Rua Arlington": naquele fatídico ano de 2001, na véspera do mega-ataque do PCC que provocou caos em São Paulo, a rotina de uma família de classe média baixa é radicalmente alterada pela chegada de três estranhos inquilinos para morar na casa ao lado. No começo eles parecem simples baderneiros, mas Valter, o patriarca da família, começa a desconfiar que podem ser perigosos bandidos - e uma ameaça à segurança dos seus filhos pequenos. Bianchi constrói sua história lentamente, mostrando como a ilusão de "segurança" do protagonista é progressivamente destruída pelo ambiente caótico ao seu redor (as notícias sensacionalistas que vêm pela TV, inclusive com participação especial do Datena; as agressões por bobagem nas ruas do bairro; as provocações dos "manos" no caminho de volta para o trabalho). Valter é interpretado soberbamente por Marat Descartes, que consegue passar toda a fragilidade do seu personagem, sem exageros, caricaturas ou falsos (e absurdos) heroísmos, que não têm lugar nessa história realista. Também há pequenas participações de Ailton Graça, Cássia Kiss e Caio Blatt (que depois se reencontraram no set de "Bróder"), interpretando personagens que representam diferentes facetas da insegurança da periferia. "Os Inquilinos" conta ainda com um final irônico e contundente, sem falsas esperanças, que apenas evidencia a seriedade com que a questão foi tratada - o extremo oposto do já citado "Salve Geral". Talvez o único ponto negativo da obra seja o fato de SPOILER revelar cedo demais que os três vizinhos realmente são bandidões, ao invés de deixar isso na dúvida até o final, trabalhando assim a delicada questão do preconceito em relação a determinados estereótipos associados à criminalidade. FIM DO SPOILER. Mas é muito pouco para depreciar este filme tenso e angustiante, um dos bons exemplares do cinema brasileiro contemporâneo.


NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR (2010. Dir: Jorge Durán)
Rivaliza com "O Último Romance de Balzac" pelo título de "piada de mau gosto do Festival de Gramado", embora se saia um pouco melhor na comparação por pelo menos tentar contar uma história - diferente do "documentário" de Geraldo Sarno. O roteiro de Dani Patarra e do diretor Jorge Durán segue a linha Paul Haggis e Iñárritu/Arriaga: as vidas de vários personagens se cruzam numa véspera de Natal no Rio de Janeiro, a partir da busca de uma mulher (Simone Spoladore) pelo pai de um garotinho hiperativo. Pelo caminho, eles cruzam com personagens como o professor universitário que também é motorista de táxi (Angelo Antonio) e o galã de rodoviária metido a marginal (Cauã Reymond), que está apaixonado por uma prostituta (Fabiula Nascimento, praticamente repetindo seu papel em "Estômago"). Como precisa urgentemente de dinheiro para tirar a amada da "vida fácil", o bandido apaixonado resolve partir para o crime, quando entra no caminho dos demais personagens. O filme se sustenta muito bem até a metade, mesmo com um personagem infantil muito irritante - o tal menino em busca do pai. Cenas como a do assalto frustrado realizado por Cauã numa padaria ou o banho de chuva no meio da rua são ótimas e alimentam a expectativa do espectador. Mas da metade em diante, o filme segue ladeira abaixo, principalmente quando sai da linha mais realista de "encontros e desencontros" para seguir um tom de fábula e misticismo, com direito a poderes sobrenaturais de um dos personagens (é ver para crer!). Aí "Não Se Pode Viver Sem Amor" vira uma bobagem. Pior: uma bobagem levada a sério, que acaba escorregando na própria pretensão e ainda acaba num final absurdo. Uma tristeza, considerando o belo potencial que o filme vinha demonstrando. É como se o diretor-roteirista Jorge Durán tivesse tomado ácido no meio do trabalho, de tanto que as duas metades da obra destoam em tudo (principalmente na qualidade). E em nada lembra o sujeito que escreveu clássicos do cinema nacional, como "Pixote - A Lei do Mais Fraco" e "Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia". Certamente vai achar seu público quando sair em DVD (ou passar na TV), mas é inevitável aquela sensação de "What a fuck?" quando a trama toda começa a degringolar de maneira cada vez mais veloz.


180º (2010. Dir: Eduardo Vaisman)
Curto e grosso: o "21 Gramas" brasileiro. Como no filme de Iñárritu/Arriaga, a trama escrita por Claudia Mattos (e dirigida por Eduardo Vaisman) acompanha os acontecimentos no passado, presente e futuro de três personagens, mas as seqüências são apresentas fora de ordem, com idas, vindas e voltas no tempo. O drama começa quando um escritor confessa ao amigo que seu primeiro livro, um estrondoso best-seller chamado "180º", foi baseado em histórias retiradas de uma caderneta que ele encontrou na rua. E o verdadeiro dono da caderneta está ameaçando desmascará-lo. A partir de então, por meio da narrativa não-linear, o filme volta e avança no tempo para mostrar como aconteceu o episódio da caderneta, e também como o escritor roubou a esposa do amigo e confidente. O final-surpresa não é tão surpresa assim (quem prestar atenção vai matar a charada na metade), mas o grande problema do filme é que a conclusão, por demais aberta e "inacabada", é frustrante, ainda mais para quem esperava uma resolução para os conflitos entre os três personagens principais. No geral, o filme é bem feitinho e mantém o interesse, além de fugir de muitos estereótipos e clichês do moderno cinema brasileiro. A fotografia é linda, e o diretor Vaisman comprova saber o que faz. Só faltou mesmo um cuidado maior com a história e com a edição, que não alterna tão bem quanto "21 Gramas" a questão da não-linearidade dos acontecimentos (revelando alguns detalhes cedo demais, por exemplo). Comprovando que a inspiração no filme de Iñárritu não foi mera coincidência, o roteiro até brinca com a escolha do título do livro (e do filme), "180º", quando a editora justifica que esta é a temperatura da ebulição total do sangue (!!!). Depois, ao confessar que era tudo balela, argumenta: "É preciso inventar uma baboseira dessas para o pessoal comprar a idéia", numa citação mais do que descarada a "21 Gramas" e seu marketing igualmente absurdo (os tais 21 gramas que as pessoas perderiam na hora da morte). Enfim, nada de muito espetacular, mas um filme tecnicamente bom e razoavelmente curioso, embora faltem mais conflitos para que a trama mantenha o interesse durante o segundo ato. Esquecível, mas parece até melhor diante de muitas bobagens exibidas em Gramado, como "O Último Romance de Balzac" e "Ponto Org".


PONTO ORG (2010. Dir: Patrícia Moran)
"Este é um filme bastante experimental", disse a diretora Patrícia Moran, momentos antes da exibição de "Ponto Org" no Festival de Gramado. Neste exato momento, senti um calafrio, pressentindo o que vinha pela frente. Dito e feito. Nem sei se "Ponto Org" pode ser chamado de filme: parece mais uma obra de "vídeo-arte" esticada para intermináveis 80 minutos. Se a proposta poderia até ser suportada durante uns, digamos, 15 ou 20 minutos, ampliar a balbúrdia para o formato de longa é o mesmo que assinar a sentença de morte do projeto. No papel, a "história" de um casal que pede a um trio de crianças da periferia para captarem imagens do miserê urbano, supostamente para a realização de um jogo de videogame, até é interessante. Pela fragmentação do olhar dos moleques, descortina-se uma São Paulo com diferentes facetas e personagens excêntricos, incluindo uma velha mendiga que não quer deixar seu lugarzinho debaixo da ponte, mesmo quando herda um confortável apartamento da irmã morta. Na prática, porém, o "filme" não passa de um amontoado de imagens com pouco ou nenhum nexo, e sem relação umas com as outras - repletas de trucagens, sons e colagens estilo "quero ser moderninho". É vídeo-arte pura e sem pé nem cabeça (o filme poderia ser exibido sem diálogos, que não faria qualquer diferença). O pobre Paulo César Pereio aparece em meia-dúzia de cenas como um indecifrável personagem onipresente, uma espécie de oráculo sem muita função - que me lembrou, pasmem, o personagem de Bela Lugosi em "Glen ou Glenda". "Ponto Org" também tem certa semelhança com o igualmente insuportável "O Fim da Picada", já que ambos não passam de uma colagem de imagens bizarras da miséria em São Paulo. Logo, aquele tipo de coisa que só pseudo-intelectual modernete vai conseguir suportar até o final. Já para mim, um espectador comum, a única coisa digna de lembrança é a aparição-relâmpago de José Mojica Marins, provavelmente acidental, como anônimo trauseunte ao fundo de uma cena externa.


O CONTESTADO - RESTOS MORTAIS (2010. Dir: Sylvio Back)
Se "O Último Romance de Balzac" e "Não Se Pode Viver Sem Amor" foram as piadas de mau gosto do Festival de Gramado, este documentário do veterano Sylvio Back é, disparado, o pior filme do evento. Inclusive bateu o recorde de gente dormindo e/ou saindo da sala de cinema no meio da exibição, de todas as sessões de cinema que já vi na vida. E não sem motivo. Afinal, "O Contestado" é um documentário sobre um fato pouco conhecido da história brasileira, a Guerra do Contestado, disputa territorial entre os Estados de Santa Catarina e Paraná no começo do século passado. Se o assunto em si interessa a pouquíssima gente, imagine ver um documentário sobre a Guerra do Contestado que tem intermináveis 2h35min de duração ("redução" de um primeiro corte com 4 horas)!!! Parece lindo? Pois os 155 minutos são preenchidas com um zilhão de repetitivas entrevistas com historiadores, pesquisadores e gente comum que vive na região onde aconteceu o conflito. Todos falam mais ou menos a mesma coisa, e sem muita contextualização histórica, assumindo que espectador já sabe tudinho a respeito da história do Brasil ao entrar no cinema. É difícil agüentar sem dormir o preciosismo do diretor Back, que demonstra o entusiasmo de um professor de história, mas sem conseguir cativar os alunos (ou espectadores). Mesmo seus filmes mais famosos e premiados, como "Aleluia Gretchen" e "A Guerra dos Pelados", não passam de aulas de história bem chatinhas. Mas "O Contestado" extrapola qualquer limite, e, para piorar (prepare-se para as gargalhadas), o diretor ainda comete a façanha de intercalar os depoimentos e imagens históricas com inacreditáveis intervenções de 30 médiuns EM TRANSE, supostamente recebendo OS ESPÍRITOS DAS VÍTIMAS DO CONFLITO!!! Você não leu errado: um documentário que era para ser sério traz DEPOIMENTOS DE ESPÍRITOS, transformando-se automaticamente em piada - a não ser, claro, que você acredite em vida após a morte. É de questionar o que virá depois: um documentário sobre a Segunda Guerra Mundial com médiuns encarnando Hitler para pedir desculpas à humanidade, talvez? Seja como for, confesso que vi menos de uma hora desse martírio chamado "O Contestado": dormi durante a maior parte, como quase todos os outros espectadores, e saí da sala faltando meia hora para terminar - tão burro quanto no momento em que entrei, sem aprender nadica de nada sobre a tal Guerra do Contestado. Sem sombra de dúvidas, esta é a versão brasileira para o lendário "A Cura para a Insônia" (se não conhece, veja aqui), mas sem a necessidade de 87 horas de duração para colocar a platéia toda em coma profundo!


DIÁRIO DE UMA BUSCA (2010. Dir: Flávia Castro)
Quando este documentário estreou no Festival de Gramado, já havia sido exibido o filme chileno "Mi Vida com Carlos", cuja proposta é bem parecida. Se no documentário estrangeiro o diretor Germán Berger contava a história do pai morto pela ditadura de Pinochet, aqui a diretora Flávia Castro reconstitui os passos do pai Celso Afonso Gay, que, na luta contra a Ditadura Militar, viveu em diferentes países da América do Sul. O irônico da história é que Celso não foi morto pelos militares, mas sim num até hoje inexplicável assalto a uma mansão em Porto Alegre, em 1984, quando já havia voltado ao país. "Diário de uma Busca" mostra a filha visitando os antigos locais em que o pai viveu como exilado, traçando um rico painel de como era a vida dos militantes contra a Ditadura. Também tenta obter mais informações sobre o assalto em que o pai foi morto - ou se suicidou, conforme a versão oficial. O problema do filme brasileiro, em comparação com "Mi Vida com Carlos", é justamente a falta de emoção: tudo é frio e mecânico na "busca" de Flávia, e por mais que ela tente representar seu falecido pai como um sujeito idealista, é inevitável que o espectador sinta um distanciamento da figura de Celso. Se o objetivo do diretor Germán Berger parece ser o de se libertar, de exorcisar o passado no filme chileno, o documentário brasileiro segue por outro viés - o acusatório e investigativo. Para piorar, enquanto Germán idealiza a figura do pai como um homem perfeito e vítima inocente da ditadura de Pinochet, a brasileira cria um distanciamento natural ao contar todos os "podres" do pai, fazendo dele uma figura pouco simpática ao espectador. Além disso, as visitas aos países onde Celso morou, por exemplo, parecem mais uma desculpa para a equipe viajar do que qualquer outra coisa, pois as cenas não fazem nenhuma diferença no contexto do documentário. Ao mesmo tempo, não há informações suficientes sobre o misterioso assalto em que Celso morreu ou foi morto, o que pode ser frustrante para quem não viveu na época e não acompanhou o caso na imprensa (até documentos nazistas estariam no rolo). Ainda que tenha conquistado a maior parte da imprensa e do júri, "Diário de uma Busca" é um filme cujo maior mérito é mostrar a difícil situação dos militantes que lutaram contra a Ditadura, e que, com a abertura política, acabaram descobrindo que o "sonho acabou" e que mudar o Brasil não seria tão fácil. Quando se foca na figura de Celso e sua família, entretanto, o documentário perde a força. Flávia e sua família devem ter se sensibilizado muito com o material, mas o resultado não atinge o espectador como o superior "Mi Vida com Carlos".

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Os filmes que eu vi DEPOIS do Fantaspoa

No final de semana que passou, estive mais uma vez em Porto Alegre para conferir algumas das atrações da mostra retrospectiva "O Melhor do Fantaspoa", que exibiu os filmes premiados e as maiores bilheterias do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre.

Como sempre, tudo foi muito corrido e não consegui ver todos os que eu queria (faltou tempo e disponibilidade para pegar as sessões de "Vampire Girl Vs. Frankenstein Girl" e "Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza", que acabei não conseguindo conferir na telona).

Em todo caso, fica aqui um registro das quatro últimas obras que vi no Fantaspoa 2010, e também um agradecimento público aos nobres realizadores do evento - o hiperativo João Pedro Fleck, sua querida esposa Mari e o sábio oriental Nicolas Tonsho - por terem me tratado a pão-de-ló nestes dias do Festival, deixando-me cada vez mais mal-acostumado. E que venha o do ano que vem!



O LEGADO VALDEMAR (La Herencia Valdemar, 2010, Espanha. Dir: José Luis Alemán)
Eu tinha lido algumas resenhas bem entusiasmadas sobre esta caprichada produção espanhola e estava muito animado para vê-la. Ainda que não seja tãooooo maravilhoso quanto falam, "O Legado Valdemar" é uma história de terror muito bem construída e repleta de detalhes, lembrando até as obras de H.P. Lovecraft. Bastante ambiciosa, a trama começa no presente e depois volta para o começo do século 20, misturando personagens fictícios com figuras reais como o satanista Aleister Crowley, o escritor Bram Stoker e a famosa assassina Lizzie Borden. O filme começa lembrando "A Casa do Cemitério", de Lucio Fulci, com uma corretora de imóveis encontrando cadáveres putrefatos num velho casarão ao inventoriar os bens da propriedade. Ela então some de cena, e a imobiliária contrata um detetive para investigar seu desaparecimento. É quando começa o longo flashback contando a história da Mansão Valdemar, que, veja só, se estende até o final! Isso mesmo: a história não termina aqui, mas sim numa futura segunda parte, "La Sombra Prohibida", já filmada e com lançamento previsto para 2011 (um teaser da seqüência é exibido durante os créditos finais). O fato de a história não ter conclusão é de certa forma frustrante, principalmente porque o filme termina aberto demais e sem concluir nenhuma das muitas situações iniciadas - sugiro que quem ainda não viu, espere para ver num programa duplo quando sair a segunda parte. Talvez os realizadores pudessem ter enxugado o imenso flashback para fazer um filme só, ou pelo menos intercalar algumas das subtramas (como a da corretora desaparecida) em meio ao flashback, para não deixar tudo a resolver na segunda parte. De todo modo, "O Legado Valdemar" é um belo filme, surpreendentemente inteligente e rico em detalhes nestes tempos de remakes e produções descartáveis. A lamentar apenas o papel apagado de uma lenda do cinema fantástico espanhol, o falecido Paul Naschy, numa participação indigna do seu talento como o mordomo da mansão Valdemar.


VIDA E MORTE DE UMA GANGUE PORNÔ (Zivot i Smrt Porno Bande, 2009, Sérvia. Dir: Mladen Djordjevic)
Esta bizarra produção vinda da Sérvia foi a mais idolatrada do festival porto-alegrense, colecionando elogios generalizados. Ou eu não entendi o filme, ou não comprei a idéia: só sei que não vi nada de tão espetacular assim. Na verdade, "Vida e Morte..." começa muito bem e muito divertido: o impagável primeiro ato acompanha a frustração de um estudante de cinema que não consegue dinheiro para produzir suas películas, e acaba envolvendo-se com cinema pornô e com uma trupe itinerante que promove shows de sexo ao vivo pelo interior do país. A partir da metade, entretanto, a coisa descamba ao entrar no território (cada vez mais batido) dos snuff movies. Aí parece que o objetivo do diretor-roteirista Mladen Djordjevic é o de chocar a qualquer custo: se não for com a extrema violência, é com as cenas de sexo explícito, inclusive entre homossexuais, e chegando ao auge do mau gosto no momento em que um travesti chupa o pau de um cavalo (explicitamente)! É como se Rob Zombie e o catarinense Petter Baiestorf estivessem refilmando o clássico "Emanuelle in America", do Joe D'Amato, sob efeito de LSD: vale tudo para chocar e/ou incomodar o espectador. Mas confesso que não consegui embarcar na brincadeira, não me importei com o destino dos personagens e comecei a achar tudo muito cansativo e repetitivo da metade para o final. Sem contar que o filme nunca se decide entre ser avacalhação pura e simples ou fazer crítica social e política séria sobre certos aspectos do país (como na cena do velho fazendeiro que aceita ser "ator" de um snuff para que sua família finalmente saia da miséria com o dinheiro do "cachê"). Enfim, um filminho curioso pela proposta e pelo país de origem, mas do tipo que se assiste uma vez e logo se esquece. Claro, o errado aqui pode ser eu, já que todo mundo a-do-rou "Vida e Morte de uma Gangue Pornô", e ele inclusive ganhou o prêmio de Melhor Filme no Fantaspoa! Veja e tire suas próprias conclusões.


OS CISNES FEIOS (Gadkie lebedi, 2006, Rússia. Dir: Konstantin Lopushansky)
Outro filme celebrado do Fantaspoa (ganhou o prêmio de Melhor Roteiro) que eu não achei grande coisa. Se "Vida e Morte de uma Gangue Pornô" parecia "Emanuelle in America" refilmado por Rob Zombie e Baiestorf, "Os Cisnes Feios" pode ser descrito como uma versão de "A Aldeia dos Amaldiçoados" dirigida por Andrei Tarkovsky: a fotografia é belíssima, as imagens são fantásticas (principalmente os créditos iniciais, com o trem que viaja ao lado de um grande incêndio florestal) e a idéia até é interessante, mas a narrativa segue em câmera leeeeeeeenta, com gigantescos diálogos às vezes interessantes, mas na maior parte do tempo redundantes, quase prolixos. Basicamente, o filme conta a história de um escritor russo em busca da filha, que integra um grupo de crianças superdotadas enclausurado na escola de uma cidade-fantasma. Os "professores" do local são misteriosos mutantes de rosto deformado e poderes desconhecidos, que vêem na garotada a possibilidade de um novo rumo para o futuro da humanidade - o que, claro, vai de encontro aos interesses dos governantes. A trama se desenrola em cenários sempre escuros e durante uma chuva incessante, elementos que criam um clima dramático e opressivo. Mas o ritmo lento e os diálogos pseudo-filosóficos intermináveis são um convite ao sono (sem contar que às vezes os personagens trocam mais informação por segundo do que o espectador é capaz de assimilar). Novamente, é possível que o errado seja eu, pois todo mundo que eu conheço saiu maravilhado da sessão; mas continuo achando que havia filmes muito mais interessantes e intrigantes (e menos chatos) no Festival do que este, como o francês "8th Wonderland". Mais um caso de "assista e veja por si mesmo".


EU VENDO OS MORTOS (I Sell the Dead, 2008, EUA. Dir: Glenn McQuaid)
Uma bela surpresa esse filme que já está na roda de download há um bom tempo, mas que eu nunca tive curiosidade de conferir antes do Fantaspoa. É uma trama de horror e humor negro que ficaria maravilhosa se dirigida por Sam Raimi, Peter Jackson ou Don Coscarelli lá nos anos 80, mas que ganha um tratamento no mínimo divertido nas mãos do desconhecido diretor-roteirista Glenn McQuaid. A trama começa com a execução de um notório ladrão de cadáveres na guilhotina, e logo em seguida um padre (Ron Pearlman!) vai ouvir a confissão do comparsa do falecido, que está preso e em breve também será executado. O anti-herói é interpretado por Dominic Monaghan (de "O Senhor dos Anéis"), que põe-se a relatar sua vida pouco comum como ladrão de cadáveres, desde a época em que surrupiava defuntos dos velórios para vender a um cientista louco (Angus Scrimm, o Tall Man da série "Phantasm", que aparentemente esqueceu de morrer!) até o momento em que ele e seu parceiro descobriram a existência de perigosos mortos-vivos. Estas criaturas, lógico, valiam muito mais dinheiro por causa das suas propriedades mágicas. Com um climão de história em quadrinhos e alguma violência gráfica (quase sempre bem-humorada), "Eu Vendo os Mortos" diverte pela história inusitada, mas a mão pesada do diretor-roteirista principiante aparece nitidamente perto do fim, quando o filme se enrola mais que o necessário. Para piorar, o roteiro desperdiça alguns dos personagens mais interessantes - no caso, a sinistra quadrilha dos Murphy, rival da dupla de protagonistas no negócio de roubo e venda de cadáveres. Defeitos facilmente perdoáveis pelo elenco simpático, pelas piadas inspiradas e pelo ótimo desfecho, que cita descaradamente o já clássico "Reanimator".