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quarta-feira, 16 de junho de 2010

BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL (1985)


Dois filmes tão diferentes quanto a comédia "A Grande Comédia" (1989) e o drama "Cine Majestic" (2001) dividem uma divertida cena em comum: enquanto explica a idéia para seu novo filme, um ingênuo e bem-intencionado diretor-roteirista (Kevin Bacon na comédia, Jim Carrey no drama) vê seu argumento ser impiedosamente destruído pelos produtores, que dão as sugestões mais estapafúrdias para torná-lo mais "comercial", deturpando completamente a proposta inicial.

A rivalidade entre a visão criativa dos diretores ou roteiristas e a visão comercial dos produtores não é coisa recente, e existe provavelmente desde que os primeiros filmes começaram a ser feitos em escala industrial. Afinal, alguém está pagando as contas, e este alguém sempre quer que seu investimento renda um produto que dê lucro.

Dos piores aos melhores diretores, de Ed Wood a Orson Welles (como visto numa irônica cena do filme "Ed Wood", de Tim Burton), são incontáveis os casos de "diferenças criativas" - ou de briga mesmo - entre o lado autoral e o lado financeiro.


Exemplos não faltam: "Blade Runner" com final feliz? Culpa do estúdio. Mel Gibson sobrevivendo a cinco tiros no final de "Máquina Mortífera 2"? Culpa dos produtores, porque o roteirista Shane Black queria que o herói morresse na conclusão - o que seria ótimo, poupando-nos dos horríveis "Máquina Mortífera" 3 e 4! E por aí vai...

Enfim, embora sempre houvesse essa "diferença criativa" entre os dois lados, é fato que a força dos homens do dinheiro nunca esteve tão grande quanto da década de 80 para cá. Alguns argumentam que a culpa é de Michael Cimino e do seu megalomaníaco (porém maravilhoso) "O Portal do Paraíso", uma superprodução de 1980 que foi um gigantesco fracasso de bilheteria.

Vencedor do Oscar com "O Franco-Atirador" anos antes, Cimino tinha mais moral que qualquer um em Hollywood naquela época, e ganhou carta-branca da United Artists para fazer "O Portal do Paraíso" do jeito que quisesse. Mas as coisas não deram muito certo: graças a essa carta-branca, o filme custou caríssimo e não deu retorno algum (custou 36 milhões de dólares e não rendeu nem 4 milhões!!!), levando o estúdio à falência. Tudo culpa do perfeccionismo psicótico de Cimino, que chegou a filmar algumas cenas mais de 50 vezes, levando o orçamento às alturas.


Mas, justiça seja feita, os "autores" já estavam com os dias contados em Hollywood: "O Portal do Paraíso" foi apenas um filme numa série de retumbantes fracassos dirigidos por cineastas respeitados, que torraram milhões de dólares (de estúdios, claro) em filmes que ninguém viu. Outros exemplos da época são "1941", dirigido por Steven Spielberg em 1979 (custou 35 milhões, arrecadou meros 31 milhões nos EUA), "New York, New York" (1977), de Martin Scorsese (custou US$ 14 milhões e quase empatou), e "O Fundo do Coração" (1982), de Francis Ford Coppola (custou US$ 27 milhões e só arrecadou, conforme a lenda, míseros 630 mil dólares!!!). Sempre lembrando que estes valores, na época, eram exorbitantes.

(Para quem quiser saber mais sobre como os produtores tomaram o poder sobre as decisões criativas em Hollywood, vale procurar pelo documentário "Final Cut: The Making and Unmaking of Heaven's Gate", de 2004, que explica didaticamente como chegamos na situação do jeito que está hoje.)

Enfim, esta longa introdução foi apenas para chegar ao tema da nossa análise de hoje. BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL é simplesmente um dos piores crimes contra a sétima arte perpetrados por estes ambiciosos homens de terno e gravata que não respeitam a visão artística dos diretores que financiam. Trata-se da "producer's cut" do maravilhoso "Brazil - O Filme", de Terry Gilliam.


Minha paixão por "Brazil", o original, começou ainda na infância. Eu tinha uns 10 para 11 anos quando peguei a fita dupla do filme (lançada pela VTI) numa locadora perto de casa. Confesso que não entendi muito bem certas sutilezas e ironias do filme, que tornou-se mais rico à medida que eu fui revendo nos anos seguintes. Mas foi um daqueles casos de amor à primeira vista.

E, embora não seja um filme de horror, confesso que "Brazil" assustou-me... e muito! Ainda infante, cheguei a me sentir desconfortável e incomodado ao imaginar um futuro daquele jeito, com as pessoas confinadas em apartamentos e escritórios minúsculos e claustrofóbicos, com horríveis tubos passando por todos os lados, e precisando de dezenas de papéis para fazer as coisas mais simples (não muito diferente do mundo em que vivemos hoje, o que torna o filme ainda mais visionário... e assustador!).
 

No "Brazil" de Gilliam, o eletricista vivido por Robert De Niro é perseguido como terrorista e subversivo pelo Governo simplesmente porque FAZ seu trabalho, ao invés de enrolar o cliente com a papelada sem nunca consertar nada (como fazem os eletricistas "oficiais").

Ainda no terrível futuro do filme, as pessoas foram reduzidas a números, e um mísero erro de impressão pode destruir uma família inteira. É um mundo tão terrível que, ao protagonista interpretado por Jonathan Pryce, só resta sonhar que é um anjo voando entre as nuvens ao som da "Aquarela do Brasil"...

(Enfim, se você ainda não viu essa obra-prima, corra à sua locadora, banquinha de camelô ou site de downloads mais próximo, e não continue lendo este texto, porque a partir de agora começo um festival de SPOILERS.)


O ex-Monty Python Gilliam dirigiu "Brazil" com grana da Universal, e entregou-o prontinho em janeiro de 1985. Entretanto, sua obra acabou envolta num inferno burocrático bem semelhante ao da história que conta, estreando apenas em 18 de dezembro daquele ano (!!!), após um verdadeiro calvário, em que o diretor viu sua obra ser retalhada e distorcida pelos produtores!

Pra começo de conversa, uma história passada no universo de "Brazil" não tinha como acabar com final feliz - e definitivamente não termina NADA feliz. Além disso, os delírios visuais de Gilliam deram origem a um filme longo, com 142 minutos de duração, que era muito complexo, mas nunca chato ou repetitivo.

A não ser, é claro, para o presidente da Universal na época, Sidney Sheinberg. Ele até confessou gostar de "várias cenas" do filme, mas sentiu que a obra não tinha apelo comercial nenhum. Queria algo mais "hollywoodiano", com uma mensagem de esperança e a vitória do Bem sobre o Mal na conclusão. E queria, principalmente, um final feliz. O completo oposto do "Brazil" que todos conhecemos.


Quando Gilliam recusou-se a mexer no filme, Sheinberg se apossou do material, como todo bom produtor, e ordenou uma remontagem para, pelo menos no seu julgamento da coisa, "melhorar o resultado final". Surgia BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL (O Amor Conquista Tudo, um subtítulo auto-explicativo).

A montagem de Sheinberg, na verdade, é bastante simples: ele limitou a um mínimo necessário as cenas de humor negro envolvendo a burocracia e o fascismo do futuro, aumentou o "sub-plot" que considerava mais apropriado (a busca do protagonista pela mulher dos seus sonhos) e eliminou todas as belíssimas cenas de delírio do personagem, que originalmente se desenrolavam ao longo de todo o filme, deixando apenas um pequeno trecho no início e uma parte curtinha no final (para justificar a conclusão "feliz").


Na versão de Gilliam, o herói tem muitos outros sonhos, todos fantásticos, como a luta com um "samurai eletrônico", ou as mãos de pedra que saem do chão para agarrar o protagonista e impedi-lo de "voar". Pois tudo isso acabou no chão da sala de edição em BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, bem como o belíssimo delírio em que enormes fichários (representando a burocracia daquele mundo futurista) emergem do chão.

Mas não fica só nisso: lembra da mãe do protagonista, uma velha viciada em plásticas que tem o rosto literalmente esticado ao longo do filme? Pois, na versão de Sheinberg, a personagem praticamente desapareceu. Também foi deletada a personagem da "pretendente feia" do herói, uma riquinha com aparelho nos dentes que aparecia algumas vezes, no começo e no final.

Aliás, uma divertida cena em que estes personagens todos se encontram num restaurante, onde explode uma bomba, foi totalmente cortada, restando alguns poucos segundos que, inexplicavelmente, foram parar NO INÍCIO DO FILME, no lugar de outra explosão (originalmente, numa loja de eletrodomésticos)!!!


E se no "Brazil" de Gilliam a existência de "terroristas" ficava meio no ar, como se fosse uma desculpa do governo para manter a população sob controle e poder torturar/matar à vontade, na "producer's cut", através de vários diálogos risivelmente dublados e inseridos na montagem (em cenas que mostram os atores de costas), é confirmada a existência dos tais terroristas, para que o público receba tudo mastigadinho e não fique com nenhuma dúvida ao final.

Porém o mais absurdo, o mais tosco, o mais criminoso de BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL é exatamente o final. No "Brazil" de Gilliam, o herói é preso e acusado de terrorismo, enquanto sua amada é executada pelo governo. Torturado pelo próprio melhor amigo, ele fantasia a própria libertação e um final feliz ao lado da (falecida) mulher dos seus sonhos, quando na verdade continua amarrado, insano, à cadeira do torturador, onde se desenrolam os créditos finais.


Foi fácil para Sheinberg alterar esta conclusão tão terrível para um típico final feliz hollywoodiano: bastou utilizar algumas cenas do delírio de fuga do herói como se fossem reais (o seu resgate da tortura e o reencontro com a amada), excluindo os trechos posteriores que mostram que, na verdade, tais momentos são apenas as fantasias de um prisioneiro que surtou após ser terrivelmente torturado!

Assim, em BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, o protagonista termina o filme com sua amada numa idílica paisagem rural, bem longe daquele inferno de concreto e documentos carimbados em que vivia, e os créditos finais aparecem sobre imagens de um céu ensolarado (!!!), para o delírio dos fãs de finais felizes. Até a trilha sonora foi alterada para parecer mais "pra frente" e menos opressiva.

Enfim, algo bem parecido com aquele igualmente imposto "final feliz" de "Blade Runner", em que até usaram cenas não-aproveitadas de "O Iluminado" para poder mostrar os protagonistas viajando por uma bela paisagem natural, bem longe da caótica megalópole em que viviam!


Outras cenas fantásticas da versão de Gilliam, como a bizarra homenagem a "O Encouraçado Potenkim" e a invasão de eletricistas que destróem o apartamento do herói, também sumiram da versão do produtor, assim como cenas mais violentas, tipo policiais em chamas. Até a morte de Buttle, o inocente preso por engano pelo Governo logo no início do filme, é completamente omitida (o sujeito some e não se fala mais nisso!).

Por pouco, muito pouco, não foi este o "Brazil" que o mundo viu oficialmente em 1985. Teimosamente, Terry Gilliam iniciou uma batalha sem precedentes contra o estúdio para manter sua integridade artística - um processo tão estressante que rendeu até um livro, "The Battle of Brazil: Terry Gilliam vs. Universal Pictures in the Fight to the Final Cut", depois transformado em documentário com o mesmo nome.

Primeiro, para tentar agradar a Universal, o diretor reduziu o tempo de "Brazil" de 142 para 132 minutos; porém ao mesmo tempo, na surdina, Sheinberg trabalhava em "seu" BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, coordenando o trabalho dos novos editores contratados Bill Gordean e Steve Lovejoy. Uma nova trilha sonora, à base de rock-and-roll, teria sido adicionada à "producer's cut" para supostamente "atrair os adolescentes". E a coisa só piorava...


Aos poucos, aquela aterrorizante visão do futuro concebida por Gilliam foi se transformando em um conto-de-fadas futurístico, em que um único homem podia vencer um governo ditatorial e burocrático "em nome do amor". Aham...

E mesmo com a versão reduzida pelo diretor para 132 minutos, o maligno Sheinberg decidiu que faria testes de público com a sua LOVE CONQUERS ALL, que tinha, pasmem, uma duração mais "comercial" de míseros 94 minutos (por aí você já pode imaginar a extensão dos cortes...).

Furioso com a possibilidade da versão mutilada pelo produtor chegar aos cinemas, Gilliam ordenou a retirada do seu nome dos créditos. E partiu para um contra-ataque na mídia, numa tentativa desesperada de manter a integridade da sua obra. Uma das criativas táticas para demonstrar sua insatisfação publicamente foi comprar uma página inteira na Variety (principal revista sobre o mercado de cinema nos EUA), em 1º de outubro de 1985, para publicar a seguinte carta: "Querido Sid Sheinberg, quando você vai lançar meu filme 'Brazil'? Assinado: Terry Gilliam" (reprodução abaixo).
 

A partir disso, começaram os burburinhos na imprensa. Alguns críticos norte-americanos começaram a ficar curiosos em relação ao "Brazil" original, que foi exibido a uma platéia de poucos sortudos e celebrado como obra-prima antes mesmo de estrear comercialmente.

Alguns jornais chegaram até a questionar se era possível que um filme ainda não-lançado nos cinemas pudesse concorrer ao Oscar de Melhor Filme.

Finalmente, no outono de 1985, Gilliam e Robert De Niro apareceram no programa Good Morning America para falar sobre a polêmica. Quando o entrevistador questionou o diretor se ele estava tendo problemas com o estúdio, Terry simplesmente respondeu: "Não, apenas com Sid Sheinberg. Eis uma foto dele", e mostrou uma fotografia do chefão da Universal para a câmera!


Após tanto "terrorismo" e tanto bafafá na mídia, a Universal finalmente resolveu voltar atrás e lançou a versão de 132 minutos de "Brazil" nos cinemas (a "director's cut" de Gilliam, aquela com 10 minutos a mais, saiu apenas na Europa).

Acabou se confirmando a bilheteria reduzida que o malévolo produtor temia, já que "Brazil" rendeu apenas US$ 6,5 milhões contra os US$ 15 milhões que custou. Porém, neste caso, a má vontade da Universal tem sua parcela de culpa no fracasso: a estréia oficial foi em apenas UM cinema nos Estados Unidos!

Talvez traumatizado com essa história toda, Gilliam ficou três anos sem filmar, somente para depois envolver-se em outra produção problemática, o excelente "As Aventuras do Barão de Munchausen", de 1988.


Enquanto isso, "Brazil" foi ganhando o status da obra-prima que é com o passar dos anos, ao mesmo tempo em que a ridícula versão BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL, de Sheinberg, permaneceu engavetada e esquecida, sendo exibida uma única vez na TV norte-americana.

Hoje, com a popularização dos programas de trocas de arquivos, é possível ver este crime no auge dos seus 94 minutos, e constatar como um estúdio pode destruir impiedosamente a visão de um criador apenas para torná-la mais "vendável".

Serve, também, como uma experiência interessante para estudantes de cinema: a comparação das duas versões do filme é um belíssimo argumento do poder da montagem!


E é preciso tirar o chapéu: os editores a mando de Sheinberg tiveram muita criatividade e imaginação para transfomar o tenebroso e pessimista "Brazil" numa aventura futurística romântica com final feliz! (Para quem ficou curioso, o infame final feliz pode ser visto aqui.)

Pior: nada me tira da cabeça que, se fosse hoje, o público acostumado a blockbusters de shopping-center iria preferir BRAZIL - LOVE CONQUERS ALL a "Brazil - O Filme". Afinal, a versão de Terry Gilliam exige que o espectador pense, e em tempos de "Velozes e Furiosos Parte 25", não é bem isso que o público parece ter em mente quando entra no cinema...

PS: A versão reduzida e comercialóide de Sheinberg é um dos extras de uma maravilhosa edição de "Brazil" em 3 DVDs (!!!) lançada lá fora pela Critterion Collection. Por aqui, só temos um DVDzinho furreca cujo único extra é um documentário fraquinho de meia hora chamado "What is Brazil?", dirigido pelo mesmo Rob Hedden que fez "Sexta-feira 13 Parte 8 - Jason Ataca em Nova York"!!!!!


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Brazil - Love Conquers All (1985, EUA)
Direção: Terry Gilliam (reeditado por Sidney Sheinberg)
Elenco: Jonathan Pryce, Robert De Niro, Ian Holm,
Katherine Helmond, Bob Hoskins, Michael Palin,
Kim Greist e Peter Vaughan.

domingo, 13 de junho de 2010

TILT (1979)


"Mas quem diabos é Rudy Durand?"

Ao ver o obscuríssimo filme TILT, era essa a pergunta que não me saía da cabeça. Especialmente após os créditos iniciais, que apresentam a obra como "Rudy Durand's Tilt" (!!!), e informam que o prezado desconhecido acumulou as funções de diretor, produtor, roteirista, diretor musical e até de responsável pelos efeitos sonoros!!!

Seria Rudy Durand um novo Orson Welles e TILT o seu "Cidadão Kane"?

Por isso, logo que acabei de ver o filme, eu corri para o IMDB e descobri que, afora um crédito como ator coadjuvante num filme desconhecido chamado "Gemini Affair", de 1975, o misterioso Rudy Durand só tem mesmo todos estes créditos de TILT no seu currículo, e nada mais. E lá se vão 30 anos em que o sujeito não fez nenhum outro filme...


Assim sendo, não dá para entender como é que o homem acumulou tanta moral para rodar um filme tão autoral, e que leva até o seu próprio nome no título. Mas é o IMDB, de novo, que explica que Durand teve a idéia para a obra ainda nos anos 60, e passou praticamente duas décadas batalhando para levá-la às telas.

A grande chance apareceu quando ninguém menos que Orson Welles (o próprio "Cidadão Kane") gostou do projeto e do entusiasmo do jovem roteirista, incentivando-o a dirigir ele mesmo a película e falando bem da idéia ao ser entrevistado no programa de TV The Tonight Show, com Johnny Carson, o que ajudou o praticamente desconhecido Durand a encontrar investidores para seu primeiro projeto.

Ninguém menos que a Warner Bros. (!!!) entrou na jogada, e, apesar de um roteirista "profissional" (Donald Cammell) ter sido contratado para trabalhar no argumento de Durand, o próprio Rudy bateu pé para manter sua "integridade artística" e reescrever o roteiro da forma como havia imaginado!


Resultado: finalizado em 1979, TILT ficou durante dois anos na geladeira. Neste período, ao que parece, a Warner tentou consertar o tal "Rudy Durant's Tilt" para deixá-lo mais "Warner Bros' Tilt".

Depois de desanimadoras exibições de teste, o filme sofreu cortes e teve cenas refilmadas, sendo finalmente lançado nos cinemas em 1981, e então partindo direto para a obscuridade em que se encontra até hoje. E há mais de 30 anos não se ouve falar de um "Rudy Durand's" qualquer coisa...

Mas afinal, há algo que valha a pena neste primeiro e único trabalho do incansável Rudy Durand?

Bem, digamos que TILT é um filme muito estranho, e que eu acho que tem potencial para, um dia desses, virar cult. É só ser redescoberto por uma nova geração de fãs.


Obra esquisita, não tem um gênero bem definido, acumulando elementos de road movie, história de rebeldia juvenil, drama, aventura, musical e comédia (o velho Guia de Filmes Nova Cultural chegou a classificá-lo como suspense, sabe-se lá por quê!).

Em tempos de Playstation, Nintendo WII e jogos de videogame que mais parecem filmes, soa até meio estúpido ver um filme de duas horas sobre máquinas de pinball - sim, aquele jogo mecânico que no Brasil era conhecido como "fliper", e que consistia em ficar rebatendo uma bolinha metálica para atingir alvos luminosos e somar pontos.

Pois TILT não só é um filme sobre máquinas de pinball, mas também sobre sujeitos que vivem de jogar e apostar fortunas no pinball (!!!), quase como um "A Cor do Dinheiro" com máquinas de fliperama no lugar de mesas de sinuca! E se você nunca tinha ouvido falar de sujeitos jogando pinball a dinheiro, bem-vindo ao clube.


A história começa numa cidadezinha do interior do Texas, onde um jovem músico folk-country chamado Neil Gallagher (Ken Marshall, de "Krull") desafia o maior campeão de pinball do mundo, Harold Remmens (Charles Durning), conhecido como "The Whale" (Baleia) por causa da pança descomunal.

Whale é um tipo meio gângster que trata uma velha máquina de pinball como se fosse uma garota, alisando-a enquanto joga. Quando ele descobre que Neil tentou vencê-lo trapaceando (com um imã montado sob a máquina para conduzir a bolinha), manda quebrar o rapaz a pancadas.


Fracassada a tentativa de engambelar Whale, o trapaceiro e seu amigo se mudam para Hollywood, onde tentam investir na carreira de cantor de Neil. Mas as coisas vão de mal a pior. Finalmente, Neil conhece uma garotinha rebelde de 13 anos chamada Brenda Davenport (Brooke Shields, ainda menininha!), mas apelidade Tilt por sua habilidade quase sobrenatural nas máquinas de pinball.

(Para quem não sabe, "tilt" é o nome em inglês usado para definir aquele momento em que um jogo "trava" por qualquer motivo. No pinball, era comum "dar tilt" quando alguém sacudia muito a máquina, tentando fazer a bolinha atingir determinado alvo. FILMES PARA DOIDOS também é cultura!)


Enxergando na menina um futuro promissor, Neil consegue convencê-la a colocar o pé na estrada e fazer fortuna com apostas em jogos de pinball. Mas não consegue esquecer a agressão sofrida a mando de Whale, e resolve voltar para o Texas com Tilt para desafiar o grande campeão e ganhar uma fortuna em apostas.

TILT já começa esquisito pela sua proposta: um filme todo sobre jogadores de fliperama soa no mínimo curioso. Não bastasse isso, ainda tem um clima bem suspeito de pedofilia, pois embora a relação de Neil e Tilt seja mostrada como algo inocente e na base da "amizade", ambos dormem juntos em quartos de motel e viajam pelo país quase como se fossem um "casal".

E há dois momentos bem politicamente incorretos: primeiro, a personagem de Brooke Shields pega carona com um caminhoneiro e se oferece para fazer um ménage a trois com ele e sua esposa; depois, um adulto aparece olhando com segundas intenções para a bunda da menininha - que usa uma calça com as palavras "Pinball Champ" bordadas nas nádegas!


Tirando isso, no geral a história é bastante moralista, principalmente por causa do seu absurdo final feliz, que resolve seu grande conflito... sem qualquer conflito! Para falar a verdade, não acontece praticamente NADA durante o filme inteiro!!! E o que você esperava de uma história sobre jogadores de pinball, caramba?!?

Mas o diretor-roteirista-produtor-diretor musical Durand merece no mínimo algum crédito por ter feito um filme com quase duas horas sobre um jogo pouco ou nada emocionante que basicamente consiste em ficar impulsionando uma bolinha pelo maior tempo possível, e mesmo assim conseguir manter a atenção do público até o final.


Eu mesmo joguei muito pinball na juventude, e imagino que devia ser um saco para qualquer outra pessoa ficar me assistindo rebater aquela bolinha para cima e para baixo.

Entretanto, embora as partidas apresentadas durante a trajetória dos "heróis" sejam sonolentas, o duelo final de Tilt com Whale tem certo estilo e, com edição dinâmica, até empolga.

Em tempos pré-computação gráfica, Durand desmontou uma mesa de pinball para conseguir filmar o jogo "por dentro", com criativos ângulos de câmera, praticamente seguindo a bolinha desde o seu disparo até atingir os "alvos luminosos".


Bem filmados e editados, estes momentos já valem a espiada - e hoje seriam facilmente e artificialmente feitos no computador, sem o mesmo charme.

TILT é um sério candidato a cult não só pela sua trama e proposta "diferentes", mas também pelo elenco maluco que reúne, num só filme, Brooke Shields na puberdade, o galã-que-não-deu-certo Marshall e o eterno balofo Charles Durning, ao lado de nomes como Geoffrey Lewis (o caminhoneiro "assediado" pela menina), Fred Ward (de "Remo - Desarmado e Perigoso", como um apostador que aparece durante menos de um minuto) e até Lorenzo Lamas (!!!) irreconhecível no papel de Casey Silverwater, um campeão de pinball que, claro, leva uma sova de TIlt e perde toda a sua grana.


Mas há algo de constrangedor na coisa toda, principalmente quando vemos um ator consagrado, como Charles Durning, na pele de um obeso jogador de pinball que fica rebolando e dançando rock-and-roll enquanto joga.

E convenhamos que o pinball é um "esporte" que não exige taaaaaaaanta habilidade assim - é mais ter reflexos para ficar rebatendo a bolinha na hora certa e um montão de sorte. Portanto, este é um filme de "esporte" onde nem ao menos temos cenas com os jogadores "treinando" e "se preparando" para o confronto final...

Talvez seja justamente esse o charme da obra do diretor-roteirista-produtor-diretor musical Rudy Durand: é um filme sobre o nada, ou sobre o menos interativo e emocionante dos "esportes". E repleto de "frases de efeito" ao nível de Forrest Gump, como "A vida é como uma gaivota: quanto mais você a alimenta, mais ela caga em você!".


Perfeccionista como outros autores que fazem tudo em seus filmes, Durand chegou a selecionar pessoalmente os barulhinhos e efeitos sonoros para as máquinas de pinball que os personagens jogam, demonstrando certo conhecimento e muita preocupação com o resultado do seu primeiro trabalho no cinema.

Por tudo isso, é até meio lamentável o fato de nunca mais termos visto um "Rudy Durand's" qualquer coisa. Pois se o cara conseguiu produzir um filme de duas horas sobre jogadores de pinball, qual seria seu projeto seguinte? Um edificante drama sobre dominó? Uma ousada aventura com jogadores de ludo? Ou quem sabe uma explosiva e emocionante história sobre um campeonato de bocha da terceira idade?

PS: Como milhares de outros filmes, TILT pertence à geração do VHS e nunca foi relançado em DVD, nem mesmo nos Estados Unidos, o que só contribui para sua fama entre aqueles que gostam de garimpar produções obscuras. No Brasil, a extinta Tec Home Vídeo lançou a "director's cut" (com 111 minutos), e não a edição reeditada a mando da Warner, que tinha 11 minutos a menos. Mas sabe quando você vai encontrar novamente essa fita dando sopa por aí, meu amigo? Só quando o Dia de São Nunca cair num feriado de 30 de fevereiro!

Trailer de TILT



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Tilt (Rudy Durand's Tilt, 1979, EUA)
Direção: Rudy Durand
Elenco: Brooke Shields, Ken Marshall, Charles
Durning, John Crawford, Karen Lamm, Geoffrey
Lewis, Lorenzo Lamas e Fred Ward.